A casa do medo por Edgar Wallace - Versão HTML

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CAPÍTULO 1

O próprio Mr. Brooks contra si mesmo admitia, perante Kclver o mordomo,

que criados americanos não eram coisa natural.

Era um homem sólido, apertado na libre, de óculos; cabelo ralo e grisalho,

e voz inclinada para o agudo. Do bolso do seu colete de listras encarnadas,

que fazia parte do uniforme, ressaltava visivelmente uma barra de goma de

mascar já começada. Mascava a maior parte do tempo, movimentando a

mandíbula com regularidade quase pendular. Gilder, que tinha grande amor

pela exatidão matemática, chegara a cronometrar tais movimentos, concluindo

que apenas variavam entre 51 e 56 por minuto. No recôndito de seu quarto

porém, Mr. Brooks costumava saborear um grande cachimbo carregado com

uma mistura adocicada, muito peculiar, que importava dispendiosamente da

Califórnia.

Nem a figura de Mr. Brooks, lacaio, nem a de Mr. Gilder, lacaio também,

assentava com Marks Priory ou com o povoado de Marks Thornton.

Eram pobres criados que nunca pareciam aprimorar-se com a prática nem

beneficiar-se da experiência.

Entretanto eram homens muito requintados, se o leitor for capaz de imaginar

tamanha anomalia como a de existirem dois lacaios americanos requintados.

Jamais se intrometiam na vida alheia, mostravam-se quase extravagantemente

polidos com seus conservos e nem uma vez sequer (figurava isto como um

crédito monumental a seu favor) tinham jamais denunciado outros servidores

por qualquer negligência no serviço, ainda quando tal negligência

interferisse adversamente com seu próprio conforto pessoal.

Ambos eram muito estimados, e Gilder um tanto temido também. Sombrio, de

faces rugosas e encovadas, tinha a voz ainda por cima lúgubre e cavernosa; o

cabelo era preto e escasso, porém longo, e trazia na cabeça grandes áreas

inteiramente calvas, sendo ademais imensamente forte.

Este último pormenor descobriu-o o couteiro do lugar, chamado John Tilling;

ruivo, grandalhão, de faces coradas e obsecado por suspeitas.

É bem verdade que sua esposa era bonita e, à guisa de consolo, muito dada a

sonhar, pela maior parte dos dias, com coisas que nunca chegava a realizar de

todo. Por exemplo, não descobrira nenhum Romeu de pele azeitonada na pessoa

de certo palafreneiro que conquistara no povoado. Ele era antes rosado, um

tanto grosseiro demais, cheirava a um misto de estábulo e cerveja e

costumava envergar uma mesma camisa sete dias a fio. Este homem lhe

oferecera a mecânica do amor, e a imaginação dela encarregara-se de suprir o

glamour faltante. Esse, porém, era um escândalo antigo. Tivesse chegado ao

conhecimento de Lady Lebanon, e o chalé de Box Hedge depressa teria tido

novos inquilinos.

Passado algum tempo, Mrs. Tilling deu mostras de já estar interessada em algo

melhor que palafreneiros; o marido, entretanto, não o soube por algum tempo.

E aconteceu que, certa tarde, o couteiro interceptou Gilder quando este cruzava

Priory Field.

—Com licença.

Sua polidez era ameaçadora.

—Esteve em meu chalé uma ou duas vezes ultimamente. . .enquanto eu estava

em Horsham?

Era asserção mais que pergunta.

Ora, sim — respondeu o americano à sua maneira lenta.

— Sua senhoria pediu-me que fosse lá buscar uma ninhada de ovos. Como

o senhor estava ausente, deixei para ir no dia seguinte.

Quando eu também não estava — disse Tilling, com um sorriso

escarninho e o rosto ainda mais rubro.

Gilder fitava-o divertido. Não era dado a bisbilhotíces e, assim sendo, nada

sabia dos infortúnios domésticos de seu interlocutor.

É verdade. O senhor estava em alguma parte do bosque.

— Mas minha mulher bem que estava em casa. . . E foi

daí que o senhor se deteve para tomar uma xícara de chá, não é assim?

Gilder sentiu-se ultrajado. Seus olhos cinzentos deixaram de sorrir e se

tornaram duros.

— Aonde está querendo chegar? — perguntou.

Num gesto brusco, o outro o agarrou pelo paletó.

—Tire a mão daí!. . .

Tilling não se continha; então o criado americano empolgou--Ihe o pulso com

delicadeza e, torcendo-o vagarosamente, fê-lo largar-lhe a roupa.

Se Tilling fosse uma criança não teria oferecido resistência mais efetiva.

—Veja lá; não faça isso. . . É verdade! Vi sua mulher e tomamos chá.

Ela pode ser um pitéu pra você, mas pra mim não passa de dois olhos e um

nariz. Ponha isto na cabeça.

Dizendo isto sacudiu-lhe o braço ligeiramente, mas com muita violência. Era

um truque que aperfeiçoara com a prática. O outro oscilou para trás e só com

dificuldade recuperou o equilíbrio.

Tilling era excessivamente bronco e incapaz de entreter duas emoções ao

mesmo tempo. E na ocasião estava pasmado demais para sentir qualquer outra

coisa que não fosse puro pasmo.

— Você conhece sua mulher melhor do que eu — prosseguiu Gilder,

curvando-se, — e provavelmente está certo a respeito dela. Mas está

completamente enganado quanto a mim!

Ao voltar do povoado (fora à farmácia), deu com Tilling à sua espera,

quase no mesmo lugar em que o deixara.

Mas desta vez não houve o menor sinal de truculência; o outro de certo modo

chegou até a mostrar-se escusatório.

Gilder, ao que diziam, caíra na graça de sua senhoria Lady Lebanon, sobre

quem, de resto, exercia grande influência; coisa francamente fantástica para uns

e obviamente torpe para outros.

Gostaria que esquecesse o que lhe disse há pouco, Mr. Gilder. Anna e

eu temos nossos pequenos desentendimentos, e eu sou um pouco

precipitado. Mas é que tem havido muitas visitas a Box Hedge

ultimamente. . . Entretanto, sendo o senhor um homem de família. . .

Não sou casado, mas tenho índole doméstica — atalhou-o Gilder. —

Não falemos mais nisso.

Depois contou o caso a Brooks, que o ouviu fleumatica mente, com a

mandíbula em ação. Enquanto conversavam apresentou um paralelo histórico.

—Já ouviu falar de Messalina? Era uma italiana, mulher de Júlio César ou

coisa que o valha.

Brooks lia muito, de modo que a memória às vezes o traía.

Ainda assim, para um criado que ademais era cidadão americano, o simples

saber da existência de Messalina e o ser capaz de apresentá-la em alguma

forma reconhecível para ilustrar uma situação, já era algo fenomenal.

Agora, coloque o leitor um tal homem e seu companheiro contra o fundo de

Marks Priory, e eles se tornarão absurdos.

Os alicerces de Marks Priory foram assentados por pedreiros saxônios, e a

Fortaleza Ocidental fora destruída quando Williám Rufus caçava na Nova

Floresta. Henry Tudor achou-a em ruínas e a restaurou para seu protegido

John, o Barão Lebanon. Resistira a um assédio dos soldados de Warwick.

Seu estilo era Plantageneta, Tudor e Moderno. Nenhum construtor do século

XVIII lhe profanara a forma; sobreviveu, pois, à ascensão e à queda da

renascença vitoriana, que produziu tantos anjos e querubins estrambóticos.

Havia ali certa madureza e vetustez que só o tempo e o clima da Inglaterra

teriam possibilitado.

Entretanto, Willie Lebanon achava-o irritante e anódino; para o Dr.

Amersham era uma prisão e urn desagradável encargo, enquanto que na opinião

de Lady Lebanon, apenas, representava a Realidade.

Capítulo 2

Lady Lebanon era esguia, miúda segundo padrões estritos, embora jamais desse

a impressão de pequenez. Entretanto, pessoas houve que, tendo-lhe falado por

primeiro, acharam-na majestosa. Era firme, fria e decidida. Seus cabelos negros

eram repartidos ao meio e penteados sobre as orelhas. Tinha feições pe quenas

e delicadas, e o talhe de seu rosto chegava a ser estético. Em seus olhos escuros

ardia o fogo inextinguível do verdadeiro fanático. Sempre parecia consciente

de algum dever para com a aristocracia. O mundo moderno mal a tocara;

sua fala era precisa, isenta de extravagâncias, quase se podendo ver as vír-

gulas e os pontos com que espacejava as sentenças. Odiava a gíria, o fumo

entre as mulheres e a vulgaridade da ostentação.

Jamais se esquecia de que provinha de um quarto barão (casara-se com um

primo), nem tampouco da tremenda importância que se devia à família.

Willie Lebanon confessava-se aborrecido da vida que levava. Embora pequeno

de estatura, passara em Sandhurst com distinção, e se seu serviço de dois anos

no 30.° Hussardo não chegara a consagrá-lo como soldado, a experiência lhe

fizera bem ao físico. O grave ataque de febre que o trouxera para

casa(explicava Lady Lebanon, quando condescendia em explicar o que quer

que fosse) era em grande parte responsável por sua inquietude. Um observador

imparcial talvez encontrasse razões melhores para a exasperação do moço.

Ele desceu morosamente a escada em caracol da torre de Marks Priory e

entrou no grande hall, determinado a "entender--se de vez" com a mãe. Já

tivera o mesmo propósito antes, e, no meio do argumento que então usava,

decidira abandonar o assunto, de puro enfado.

Ela estava sentada à escrivaninha, lendo cartas. Ergueu os olhos quando ele

penetrou em seu campo de visão e fixou-o com aquele olhar comprido e

inquisitivo que sempre o embaraçava.

—Bom dia, Willie.

A voz era suave e rica, mas tinha certa dureza que o fez recolher-se em si. Era

como irromper na presença do oficial comandante quando este se achasse em

seu pior estado de humor. .

—Humm, posso falar com a senhora? — começou a custo.

Tentava lembrar-se da fórmula que escolhera para dar início ao assunto. Era o

chefe da casa, Senhor de Marks Priory no Condado de Sussex e de

Temple Abbey no Condado de Yorkshire!. . . Teve apenas uma vaga

satisfação ao lembrar-se disso, e certamente não estava nem um pouco mais

próximo do ar dominador que diligentemente procurara assumir. . — Sim,

Willie?

Ela depôs a pena sobre a mesa, recostou-se no espaldar e esperou.

—Despedi Gilder — informou ele num repelão. — Ele é um perfeito

camponês. Muito impertinente. . . Acho ridículo a gente empregar criados

americanos que não conheçam o trabalho, a senhora não? Deve haver

centenas de criados por aí, "que a senhora poderia empregar. E Brooks é tão

mau quanto...

Nesse ponto fez uma pausa, esbaforido; mas ela esperou. Se ao menos

dissesse alguma coisa, ou se zangasse! Afinal, ele era o chefe da casa. Era

absurdo que não pudesse despedir qualquer criado que quisesse. Já comandara

um esquadrão! (É bem . verdade que o fizera na ausência de oficiais superiores,

mas o comandante elogiara o modo como se desincumbira.) Clareou a garganta e

prosseguiu.

—Isto me faz um tanto ridículo, não acha? Quero dizer, a posição em que eu

fico. As pessoas falam de mim. Até esses caipiras que freqüentam o "White

Hart". Disseram-me que o pessoal anda comentando no povoado.

—Que lhe disse?

Willie, que detestava aquele timbre metálico na voz da mãe, estremeceu. ,

—Bom, quero dizer, o pessoal anda falando que a senhora me controla, sabe

como é.

— Quem lhe disse? — tornou ela a perguntar.— Studd?

Ele ficou rubro. Era diabólico da parte dela adivinhar logo da primeira vez;

mas tinha um dever de lealdade para com o chofer, por isso mentiu.

Studd? Ora essa, não! Isto é, eu não iria discutir uma coisa dessas

com um criado. Tomei conhecimento do boato, apenas. E seja como for, já

despedi Gilder. .

Receio que eu não possa dispensar Gilder. Foi uma grande falta de

consideração sua despedir um criado sem me consultar..

— Mas estou consultando agora.

.Ele arrastou uma cadeira para a escrivaninha e sentou-se; fez um esforço

heróico para defrontar os olhos da mãe, mas não conseguiu desfitar o castiçal de

prata que pendia dum gabinete atrás dela.

— Todo mundo já notou como esses dois se comportam — prosseguiu ele com

obstinação. — Só raríssimas vezes me chamam de "Senhor". Não que isso me

importe. Acho que esse tratamento é estúpido e antidemocrático. Mas eles

não fazem nada a não ser vadiar pela casa!

Ela se inclinou por sobre a mesa, com as mãos finas cruzadas sobre uma

folha de mata-borrão.

Está completamente enganado, Willie. Preciso desses homens aqui.

É absurda a sua prevenção contra criados americanos.

Mas eu não estou. . . — recomeçou ele.

— Por favor, não me interrompa quando estou falando, Willie querido. Não

deve dar ouvidos a Studd. Ele é uma excelente pessoa, mas não estou bem

certa de que seja a espécie de criado de que precisemos em Marks Priory.

—A senhora não está pensando em despedi-lo, está? — protestou o rapaz.

— Tenha a santa paciência! Tive três bons criados de quarto, e cada um

deles, na sua opinião, não era bom, apesar de me servirem muito bem. —

Nesse ponto encheu-se de coragem: — Suponho que a verdade é que eles não

sirvam para Amersham, não é?

Ela se entesou um pouco.

—Eu nunca levo em conta as opiniões do Dr. Amersham. Jamais lhe peço

conselhos nem me deixo guiar por ele — replicou ela com voz mais aguda.

Com esforço ele a encarou nos olhos.

—Que faz ele aqui, então? — perguntou. — Esse fulano praticamente mora

em Marks Priory. É um sujeito tremendamente asqueroso. Se eu lhe

contasse tudo o que já ouvi sobre ele...

Deteve-se de súbito. O rubor que subiu ao rosto de sua mãe era indício a

não ser ignorado.

Foi então que para seu alívio, Isla Cratie irrompeu no hall trazendo algumas

cartas. Ao vê-los hesitou e teria empreendido uma rápida retirada se Lady

Lebanon não a chamasse. Isla tinha vinte e quatro anos, era morena, delgada e

comedidamente bela. Há duas variedades de beleza: a que demanda descoberta

instantânea e a que só vem com a familiaridade, e isto para surpresa do

descobridor. Islã não se fazia notar à primeira vista. À terceira, porém,

monopolizava a atenção. Tinha belos olhos,- muito graves e um tanto

tristonhos.

Willie Lebanon saudou-a com um sorriso. Gostava de Isla; ousara mesmo dizer

isso à mãe, a qual, para surpresa sua, não o reprovou por isso. Era uma

espécie de prima, e secretária decididamente particular de Lady Lebanon. Willie

ainda não lhe notara a beleza; por outro lado, pode-se dizer que o Dr.

Amersham ainda não a deixara de notar; mas Lady Lebanon ignorava isso.

A moça depôs as cartas na mesa e sentiu-se aliviada ao ver que sua senhoria

não fez o menor esforço por detê-la. Quando acabou de sair:

—- Não acha que Isla está ficando bonita? — perguntou Lady Lebanon.

Que pergunta mais esquisita! Elogios por parte de sua mãe eram coisa

muito rara. Willie pensou que ela só estivesse querendo desviar o rumo da

conversa, e acolheu com prazer a digressão, pois já atingira os limites de suas

reservas de determinação por aquele dia.

—Sim,atordoante! — respondeu, sem nenhum entusiasmo especial, a

perguntar-se o que viria a seguir.

— Quero que se case com ela — tornou a outra calmamente.

O rapaz esbugalhou os olhos, atônito.

Casar?! Santo Deus, nunca pensei em me casar! Detesto essa idéia!

Ora essa! Ela é terrivelmente bonitinha, mas. . .

Nada de "mas", Willie. Quero que você tenha o seu próprio lar.

Ele poderia ter replicado, e esse pensamento de fato lhe ocorreu, que já tinha

um lar próprio, o qual seria todo seu se tão-somente lhe permitissem governá-

lo.

— Se andam falando por aí que você está sendo controlado, devia acolher

bem essa idéia. Não tenho o menor desejo de permanecer em Marks Priory

e devotar a você o resto de minha vida.

Aquela já era uma perspectiva mais atraente. Willie Le-banon deu um longo

suspiro, descruzou as pernas e ergueu-se.

— Suponho que terei de me casar, cedo ou tarde — disse. — Mas olhe que é

muito difícil lidar com ela.

Hesitou um instante, não sabendo como sua confissão seria recebida.

— Para ser franco, já tentei iniciar alguma intimidade com ela. Na verdade,

tentei beijá-la faz quase um mês, mas ela me pareceu um tanto fria demais.

— É natural! Ora, isso foi muito vulgar da sua parte! Gilder apareceu por

ali nesse instante, com o que as explicações do indignado jovem foram

sustadas.

O uniforme de Gilder lhe fora cuidadosamente ajustado ao corpo por um bom

alfaiate de Londres. Entretanto, ele era do tipo em quem toda roupa resultava

em puro desperdício. Aquele seu uniforme poderia ter sido adquirido em

qualquer lojinha ordinária. O casaco como que pendia dele, as calças amorfas

formavam barrigas nos joelhos. Ele era alto, cadavérico, de feições duras; e sua

expressão normal, de veemente desaprovação a tudo.

Lorde Lebanon esperou para presenciar a repreensão; no seu entender,

inevitável. Mas sua mãe não fez a menor tentativa de admoestar o criado nem

lhe pediu explicações das impertinêncías contra ele alegadas.

— Precisa de mim, m'lady? — Era uma pergunta maquinal.

Quando ela negou com um movimento de cabeça, ele se retirou sem pressa.

—Queria que a senhora lhe perguntasse que diabo ele está pretendendo

com... — começou o rapaz.

—Lembre-se do que eu lhe disse sobre Isla — tornou ela, não fazendo

caso de seu protesto inacabado. — É encantadora. . . e do mesmo sangue. Hei

de falar-lhe a respeito.

—Ela ainda não sabe? — perguntou o rapaz, cheio de surpresa.

. . . Agora, quanto a Studd. . . — recomeçou ela, juntando as sobrancelhas

numa carranca.

—Não está pensando em mandá-lo embora, está? Ele é um camarada

danado de bom, e, seja como for, não me contou nada...!

Encontrou-se com Studd depois; estava trabalhando na garagem.

— Acho que enfiei os pés pelas mãos, Studd; e desconfio que você saiu

prejudicado — explicou com pesar. — Contei a sua senhoria que o pessoal

andava falando, sabe como é...

Studd ergueu os olhos, endireitou as costas com uma careta e sorriu.

—Não faz mal, m'lord.

Era um homem de trinta e cinco anos, fora soldado e servira na índia.

— Não me agradaria deixar esse emprego, mas acho que os meus dias aqui estão

contados. Não guardo mágoa de sua senhoria; sua mãe sempre foi muito

gentil e bondosa para mim, apesar de tratá-lo como a um escravo. . . Mas

aquele cara eu não agüento. — E sacudiu a cabeça.

Lorde Lebanon suspirou. Não havia necessidade de perguntar quem era o tal

"cara".

— Se sua senhoria soubesse a respeito dele tanto quanto eu — disse Studd

misteriosamente, — não o deixaria entrar nesta casa.

—O que é que você sabe? — perguntou Lebanon.

Já fizera aquela pergunta antes, e recebera quase a mesma satisfação que agora.

—Na ocasião oportuna, terei algumas palavrinhas a dizer — respondeu Studd.

— Ele não esteve na índia?

Claro que sim. Só voltou de lá para me trazer pra casa. Esteve no Serviço

Médico Indiano durante anos, creio eu. Sabe de alguma coisa sobre ele...

quero dizer, sobre o que ele fez na índia?

—Na ocasião oportuna — insistiu Studd, grave — subirei e darei a minha

opinião.

Apontou para um recesso na garagem. Willie Lebanon viu um carro luzidio

que nunca vira antes.

—É dele. De onde ele tira o dinheiro? Se pagou alguma coisa por isto, deve

ter sido umas duas mil libras. E quando eu o conheci ele estava

completamente quebrado. De onde vem esse dinheiro todo?

Willie Lebanon nada disse. Fizera a mesma pergunta à mãe e não obtivera

resposta satisfatória.

Detestava o Dr. Amersham; todos o detestavam, exceto os dois criados de

Lady Lebanon. Um homenzinho janota, enfeitado demais e perfumado em

excesso; tirânico e com o seu tanto de libertino, a julgar pelos boatos que sobre

ele corriam o povoado. Enriquecera da noite para o dia e não se sabia a origem

de sua fortuna; tinha um belo apartamento em Devonshire Street, dois ou três

cavalos de corrida em treinamento, e era considerado bom sujeito por certas

pessoas com idéias muito peculiares acerca do que seriam os bons sujeitos.

O fato de ele se encontrar em Marks Priory não surpreendeu Willie. Sempre

estava lá. Vinha à tarde e pela manhã, de Londres, e passava ali uma ou duas

horas; e quando chegava parecia o senhor de Marks Priory.

Desceu as escadas, onde estivera parado — e, se a verdade deve ser dita, a ouvir

—, um instante depois de Willie ter-se retirado; arrastou uma cadeira para

perto da escrivaninha onde estava Lady Lebanon e, colhendo um cigarro de

uma cigarreira dourada, acendeu-o sem ao menos pedir licença. Lady Lebanon

observava-o com olhos inescrutáveis, indignada de tanta familiaridade.

Por entre os lábios camuflados pela barba o Dr. Amersham soltou um anel de

fumaça e olhou para ela.

Que idéia é essa de casar Willie com Isla? Algum novo esquema?...

Claro que ouvi tudo da escada — disse. — A senhora nunca me conta o que

está havendo, de modo que tenho eu mesmo que descobrir as coisas. Isla,

hem?

Por que não?

Os olhos do homem estavam rubros e inflamados; sua cútis, que de modo

algum era o seu ponto forte, estava um tanto manchada; a mão com que tirou

o cigarro da boca tremia um pouco. Dera uma festinha em seu apartamento e,

em conseqüência, dormira pouco ou nada.

Foi por isso que me chamou? Era isso que queria me dizer? Para

ser franco, eu quase não vinha. Tive uma noite terrível por causa de um

paciente. . .

Você não tem pacientes — disse ela. — Duvido que em Londres haja

alguém tão tolo a ponto de empregá-lo!

Ele sorriu a isso.

—A senhora me empregando é o quanto basta. A melhor paciente do mundo,

hem?

Era um bom gracejo, mas ele riu sozinho. O rosto de Lady Lebanon estava

inteiramente inexpressivo.

—Esse seu chofer não é nada bom. . . Studd. Teve a maldita impertinência de

me perguntar por que não trago o meu próprio chofer; e, além do mais, é

demasiadamente amigo de Willie.

— Quem lhe disse? — perguntou ela incisiva.

—Sei tudo sobre isso. Há um monte de gente pelas vizinhanças que me

informa por carta de tudo o que está se passando aqui.

Sorriu, complacente. Na verdade, tinha dois bons amigos em Marks

Thornton, como por exemplo a encantadora Mrs. Tilling, mas Lady Lebanon

ignorava tudo a esse respeito. A esposa do couteiro era grande admiradora de

Studd; o médico recentemente descobrira isto e sentira-se aviltado.

Que é que Isla tem a dizer sobre o casamento?

Ainda não perguntei.

Ele tirou o cigarro de entre os lábios e fitou-o com interesse.

— É, não é má idéia. Por incrível que pareça, nunca me ocorreu. —> Puxou o

pequeno cavanhaque. — Isla. . . sim, uma idéia extraordinária.

Se ela se surpreendeu com a aprovação dele, não o demonstrou.

— É parenta dos Lebanons, também. Não houve outro membro da família que

se casou em circunstâncias parecidas. . . Isto é, com um primo?

Ergueu os olhos para os retratos escuros da família que pendiam da parede

de pedras.

—Uma dessas damas, não foi? Tenho boa memória, hem? Lembro-me da

história dos Lebanons quase tão bem quanto a,senhora.

Sacou do relógio com alguma ostentação.

— Está ficando tarde. . . — começou.

— Quero que fique aqui — disse ela.

— Mas tenho um compromisso muito importante esta noite. . .

— Quero que fique — repetiu a mulher. — Mandei preparar-lhe quarto. Studd,

é claro, deve ir embora. Ele contou a Willie o boato da cidade.

O médico endireitou-se na cadeira. Mrs. Tilling seria da espécie de mulheres

que falam. . . ?

Sobre mim? — perguntou ele depressa.

Sobre você? O que é que saberiam sobre você?

A isto ele sorriu confuso.

Se ela tivesse alguma opinião sobre o caráter da exuberância daquele

homenzinho, não a exprimiria de modo algum.

Ele acatou o desejo dela como ordem; resmungou um pouco, mas já que não

podia valer-se da escusa de que não estava preparado para ficar, não

apresentou outra.

Não tinha mesmo nenhuma intenção de voltar para a cidade. Tinha um chalé

nas cercanias, decorado e mobiliado por um jovem artista dos mais elegantes

de Londres. Planejara passar lá aquela noite, pois era homem com

responsabilidades locais. Lady Lebanon ignorava isso também.

—A propósito — tornou ela, detendo-o no meio da escada, — encontrou-se

com Studd alguma vez na índia? Ele esteve em Poona.

O semblante do Dr. Amersham se transfigurou.

—Em Poona? — esganiçou ele. — Quando?

Ela meneou a cabeça.

— Não sei; mas anda dizendo que o conheceu lá; o que é mais uma razão

para ele deixar Marks Priory.

O Dr. Amersham conhecia ainda outra, mas guardou-a para si.

Capítulo 3

Mr. Kelver, mordomo de Marks Priory, costumava ficar à porta do santuário

durante uma hora em noites estreladas, a contemplar o luxuriante bosque de

Sussex, e imaginando, sem nunca chegar a uma conclusão, se era condizente

com sua dignidade e importância o ver-se segregado de sua senhora' às nove em

ponto toda noite. Pois a essa hora sua senhoria, com as próprias mãos, girava a

chave na fechadura daquela enorme porta de carvalho que daí em diante

isolava a ala nordeste de Marks Priory das demais dependências da casa.

Os alojamentos dos criados eram confortáveis. Dentro dos limites do razoável, e

com a permissão de Mr. Kelver, os criados podiam entrar ou sair à vontade,

seguindo a trilha que, ladeando o bosque, dava para o povoado. Não seria

afinal afrontoso para alguém que já estivera a serviço de uma Alteza

Sereníssima o ver-se agora classificado entre os excluídos?

A porta do santuário ficava na ala nordeste, e, em certo sentido, era a entrada

privativa de Mr. Kelver; os demais criados utilizavam-se do pequeno hall de

entrada que também servia aos comerciantes. Coisa esquisita, pensava. Quase

chegou a expressar sua Opinião a Studd, conquanto jamais fizesse àquele

policio e experiente homem uma confidencia completa. Pois Mr. Kelver

pertencia a uma época a que os choferes eram estranhos, e jamais colocara:

esses vivos e.talentosos mecânicos em ordem de precedência na hierarquia

doméstica. Desde seu advento constituíram-Ihe um enigma. Um mordomo

seu conhecido sabia à perfeição todas as sutis distinções de importância entre

um primeiro criado e uma dama de companhia; sem errar, era capaz de

avaliar o "peso" de um cozinheiro contra o de um criado de quarto; mas, com

choferes a coisa não era tão fácil.

Studd fora aceito, convertera-se em "Mister Studd" e estava agora tão perto de

tornar-se confidente do mordomo quanto o estaria qualquer outro. E

ultimamente Mr. Kelver vinha sentindo necessidade de abrir o coração a

alguém.

Pensava ainda em Studd, quando este apareceu contornando uma das torres do

priorado. Mr. Kelver saudou-o com um gracioso aceno de cabeça, e Studd, a

caminho da garagem, fez alto. listava um tanto corado. A princípio Mr. Kelver,

que sempre pensava dos criados o pior, teve a impressão de que o outro andara

bebendo.

—Acabo de ter uma conversinha com Amersham. —Studd apontou com o

polegar por cima do ombro. — Que cavalheiro, hem! E que médico! Se

sua senhoria soubesse o que eu sei, ele não permaneceria mais cinco minutos

aqui. Exército Indiano, hem? Eu poderia lhe dizer alguma coisa sobre o

Exér

cito Indiano!

—Mesmo?

interveio

Mr.

Kelver

polidamente.

Nunca encorajava boatos, mas estava sempre ansioso por ouvi-los.

—Coisa engraçada — prosseguiu Studd. — Encontrei um fulano no povoado,

um freguês muito esquisito, que disse ter estado na índia. Tomei um trago

com ele no balcão particular do "White Hart". Não falei muito; só ouvi.

Mas ele esteve lá sim.

Kelver, magro, aristocrático, moveu a cabeça prateada e fixou os olhos no

pequeno chofer com interesse renovado.

—O Dr. Amersham se. . . humm. . . queixou de alguma coisa? —perguntou.

Studd reassumiu seu ar enfurecido.

—Alguma coisa encrencou no carro dele — explicou. —Ele quer que eu

conserte em cinco minutos, e é trabalho pra dois dias. A gente chega a pensar

que ele é o manda-chuva por aqui, o senhor não acha, Mr. Kelver,

honestamente?

Kelver sorriu misteriosamente e apresentou a resposta convencional que

reservava para as perguntas embaraçosas.

—Este mundo precisa de todo tipo de pessoas, Mr. Studd— disse ele.

Studd sacudiu a cabeça.

—Eu não sei, não — disse vagamente. — Que lugar é este? Marks Priory,

não é? Quem é o proprietário? O Lorde Lebanon, não é?

Estendeu os dedos da mão e passou a interpretar a hierarquia local.

É assim, pela ordem. Número um, a prenda desse Dr. Amersham,

Senhor Alto Controlador. Número dois, sua senhoria Mrs. Lebanon. Número

três. . . — neste número embaraçou-se. — Suponho que como número três

o senhor poria Miss Crane, apesar de eu, não ter nada contra ela. . . E só

depois é que vem o Lorde Lebanon!

Sua excelência ainda é jovem demais — acudiu Mr. Kelver

gentilmente.

Não era resposta, e ele o sabia muito bem. Concordava inteiramente com

Studd, mas conhecia o seu lugar. Quem já servira o Duque de Meckenstein

und Zieburg, bem como à casa do Duque de Colbrook, e cuja família,

através de gerações, servira gente grande grandiosamente, não podia, com

propriedade e dignidade, passar agora a criticar seus senhores.

Ouviu-se o som de passos apressados que se aproximavam pela trilha

pedregosa, e o Dr. Amersham surgiu à vista deles.

—Então, Studd; já acabou de consertar meu carro?

Tinha voz aguda, horríssona. Seus modos eram normalmente irritantes.

—Não, não acabei de consertar o seu carro — respondeu Studd

agressivamente. — E tem mais: não vou acabar de consertar o seu carro

esta noite. Vou ao baile.

O rosto do médico ficou branco de fúria.

Quem lhe deu permissão?

A única pessoa nesta casa que pode me dar permissões — respondeu

Studd aos brados. —Sua excelência!

O pequeno cavanhaque do doutor trepidava de indignação. — Pode ir

tratando de arranjar outro emprego. —Outro emprego? — escarneceu Studd.

— Que espécie de emprego, doutor? O de assinar meu nome nos cheques

dos outros?

O rosto do médico de branco passou a carmesim e daí esmaeceu para roxo.

—- Se eu arranjar um outro emprego — prosseguiu Studd, - será emprego

honesto. E não o de roubar um oficial patrído. . . Também, qualquer

emprego que eu arranjar não me levará a julgamento e por causa dele ninguém

seria expulso do Exército!

Seu tom era insinuante e recriminatório. Amersham murchou à vista do brilho

de seus olhos; abriu a boca para falar, mas só lhe saíram umas trêmulas

palavras.

—Você sabe demais, meu amigo — disse. E, girando nos calcanhares, retirou-se

dali.

Mr. Kelver ouvira sem compreender, um tanto horrorizado ante a impropriedade

das palavras de Studd, e incerto quanto a se deveria ter intervindo ou, mesmo

não o tendo feito, se de algum modo não saíra comprometido da refrega. Se

estava certo quanto à posição de Studd na hierarquia do serviço. . .

Enfim, tivera a impressão (e nisto não se enganava) de que o Dr. Amersham

nem dera por sua presença.

Peguei bem na ferida! — exclamou Studd triunfalmente.

— Viu só como ele mudou de cor? Agora na certa ele vai querer me despachar,

não é?

Creio que não deveria ter falado ao doutor daquele modo, Studd. —

O tom de Kelver era levemente admonitório.

Mas o chofer estava sob a exaltação de quem emitira o próprio parecer e

sentia-se acima de qualquer censura.

—Agora ele conhece o seu lugar, e ainda há mais umas outras coisinhas que

eu podia ter dito — declarou.

Havia um baile a fantasia no povoado aquela noite, em, benefício do clube

de bocha. Ao cair da tarde chegou uma carruagem trazendo um pierrô, uma

pierrete, uma cigana e um hindu para as festividades.

Mr. Kelver reprovava o uso de roupas teatrais por parte de criados, ainda que

fossem de confecção caseira. Pois isto os retirava de sua jurisdição. Tinha uma

ou duas palavrinhas a dizer-lhes sobre a hora em que deveriam estar de volta.

Preocupava-o a impropriedade das pernas da pierrete. Era a primeira vez que

tomava consciência de que a arrumadeira tinha pernas. Reservara principalmente

um conselho paternal para o suntuoso hindu, que não era outro senão Studd.

—Se eu fosse o senhor, Mr. Studd, creio que procuraria o doutor pela manhã e

lhe pediria desculpas. Afinal, se o senhor estiver certo, bem pode dar-se o luxo de

se desculpar, e se estiver enganado, não pode dar-se o luxo de deixar de fazê-lo.

Conscientemente ou não, parafraseava o mais sábio conselho de Mr. Horace

Lorimer.

Após a partida da carruagem, ele entrou no hall e fez ainda uma inspeção antes de

recolher-se à ala dos criados; ajeitou uma almofada no lugar e removeu um copo

vazio (do doutor, sem dúvida) que ficara sobre a escrivaninha de sua senhoria.

Viu depois o doutor. Estava num desvão de janela, no corredor principal, em

companhia dos dois criados: Brooks, grosso e de óculos, e o ossudo Gilder.

Confabulavam em voz baixa. Além de Mr. Kelver, alguém mais os viu. O Lorde

Lebanon, à porta de seu quarto, observava a conferência, um tanto divertido. Disse

boa noite ao mordomo quando este passou, depois chamou-o de volta.

— Aquele não é o doutor? — O Lorde era um tudo-nada míope.

— Sim, senhor; o doutor e Gilder; e penso que Brooks também.

—Que diabo estarão falando? . . . Kelver, não acha esta casa um tanto esquisita?

Kelver era homem demasiado polido, e criado perfeito demais, para concordar.

Achava esquisitíssima a casa, e aqueles dois criados o fe nômeno mais ultrajante de

Marks Priory. Mas não estavam sob sua autoridade: fato que sua senhoria fizera

questão de deixar claro desde sua chegada ali. Além disso, aqueles dois não eram

segregados com os demais lacaios depois das nove; ao contrário, tinham livre acesso a

todas as dependências da casa.

—Sempre me pareceu, senhor — respondeu ele, — que este mundo precisa de

todo tipo de pessoas.

Willie Lebanon sorriu.

—Creio que já disse isso antes, Mr. Kelver — tornou ele, dando palmadinhas

afáveis no ombro do outro, com o que surpreendeu e muito embaraçou o idoso

mordomo.

Capítulo 4

Havia um homem chamado Zibriski. Como, entretanto, tivesse alma de poeta,

dizia-se Montmorency. Também foi chamado de outros nomes, nada lisonjeiros,

pelas pessoas que se pilharam na posse de notas de papel-moeda impressas em offset

numa de suas prensas particulares. Como arte, eram admiráveis; como instrumentos

de troca, inteiramente inúteis. Mr. Zibriski levava uma vida muito respeitável; ia a

Monte Cario no inverno e a Baden-Baden no verão; constava que mantinha um

luxuoso apartamento em Londres (mal sabia sua oxigenada esposa que na

verdade eram dois) e rodava para cima e para baixo num reluzente carro

americano.

Não era um falsário comum, mas um verdadeiro mestre, no mais alto

sentido da palavra. Tinha uma prensa em Hanover c outra nos fundos de um

pequeno hotel numa ruela próxima do cais de Ostend. Suas notas de cinco libras

eram belamente impressas e impressionantemente numeradas. Caixeiros de ban-

cos chegaram a aceitá-las; passaram igualmente sem despertar suspeitas debaixo

dos narizes aduncos dos crupiês de Deauville.

Certo outro indivíduo, chamado Briggs, várias vezes condenado à prisão, que

percorreu a vida na ilusão de que a desonestidade era compensadora, residia havia

uma semana no povoado de Marks Thornton como hóspede do "White Hart".

Era o subagente; em breve Mr. Montmorency apareceria em seu faiscante

automóvel e lhe entregaria quatro imponentes embrulhos, recebendo por conta a

metade do valor nominal da "mercadoria". Briggs, por seu turno, dividiria os

pacotes em quatro partes e as distribuiria, levantando um lucro de cem por

cento, o qual seria ainda maior se tão-somente ele tivesse a coragem de se

tornar um negociante mais ativo.

Fora, pois, a Marks Thornton aguardar a chegada do atacadista; ao mesmo tempo,

porém, chegaram a uma localidade vizinha dois estranhos, aparentemente

inofensivos, e mais interessado em Zibriski do que em Briggs.

Segui-o até Marks Thornton — declarou o Sargento-detetive Totty. —

Na minha opinião não vai acontecer nada lá...

A sua opinião — disse o Inspetor-chefe Tanner, do Departamento de

Investigações Criminais — é tão sem importância que dificilmente eu a ouviria,

e, seja como for, é de segunda-mão, pois eu a expressei primeiro.

Por que não agarramos Briggs agora? —perguntou Totty.

Era um homem de altura abaixo da média e de maneiras pomposas; corajoso, mas

um tanto curto de visão. Tanner, com um metro e oitenta e cinco de altura,

baixou os olhos para o subordinado e suspirou.

De que o acusaríamos? — perguntou. — Não poderíamos enquadrá-lo

nem mesmo no Ato de Prevenção Criminal. Além disso, não é Briggs que eu

quero. Quero Zibriski. Toda vez que vejo a fotografia dele atirando rosas às

belas mulheres de Nice sinto-me mal. Não existe nenhuma força policial na

Europa que não saiba ser ele o comerciante mais sujo do mundo, e, apesar disso,

nunca sofreu nenhuma condenação. Vamos nos mexer um pouco esta noite,

Totty.

—Belo lugar esse Marks Thornton — disse Totty. — Pra dizer a verdade, quase

aluguei um quarto no "White Hart". É besteira a gente investigar a seis milhas

do lugar suspeito... Há lá também um castelo antigo.

Tanner confirmou.

—É a vivenda do Visconde de Lebanon: Marks Priory.

— Bem fora de moda — sugeriu o Sargento Totty.

—E tinha que ser — explicou Tanner. — Começou a ser construído em 1160.

Ao anoitecer dirigiram-se para o povoado, passaram pelo "White Hart" e subiram

em marcha lenta a estrada que costeia Marks Priory. Da crista do morro podia-

se ter uma boa vista do sombrio solar com suas quatro torres, uma em cada

canto do edifício. No tempo dos.Tudors o sólido muro que o cercava fora

demolido e construíra-se em seu lugar uma monstruosa peça do tudorismo.

Tanner freou o carro e examinou com curiosidade o castelo.

—Parece mais um presídio — comentou Totty. — Igualzinho ao Holloway

Castle.

Mr. Tanner não se dignou responder a isso.

Não viram nem sinal de Zibriski em nenhum dos lugares que visitaram. Às onze

em ponto voltaram para onde estavam alojados. Zibriski não apareceu nem no.

dia seguinte nem ainda no outro. Ao fim da semana Tanner regressou a Londres.

Sabia muito sobre as atividades do submundo; tanto, que estava convencido de

que Zibriski fora avisado de sua presença e alterara o plano. Nisso, porém, se

enganou.

Na noite do baile a fantasia Zibriski apareceu, encontrou--se com seu agente

no quarto deste, onde fez uma rápida troca de dinheiro mau por bom. Briggs

meteu as notas falsas numa maleta e, concluído o negócio, saiu para dar um

passeio; achava--se naquele estado de exaltação comum aos criminosos em tais

ocasiões.

Havia ali uma espécie de baile. Briggs ficou distante do centro do povoado,

ouviu as notas exóticas emitidas por uma banda de jazz especialmente contratada,

e, trepando pelo morro, chegou a. um mata-burro onde se sentou, encheu o

cachimbo e pôs-se a especular gostosamente sobre a boa fortuna que lhe

calhara. Passar notas falsas era bom negócio, e seu lucro de cem por cento

coisa líquida e certa.

Viu alguém subindo a estrada, uma aparição estranha, envergando um chambre e

trazendo um turbante na cabeça. Havia uma meia lua aquela noite. Briggs

ergueu-se da trave em que sentara e, com ar curioso, pôs-se a tirar seguidas

baforadas. Um hindu? Então lembrou-se do baile.

Ao passar por ele, o homem alegremente desejou-lhe boa noite. De sua voz

Briggs concluiu que andara bebendo. O homem transpôs o mata-burro e enfiou-

se pelo campo adentro, a caminho do povoado. Briggs tornou a sentar-se e

reacendeu o cachimbo, que se apagara.

Súbito, chegou-lhe por trás um gemido como de alguém em agonia mortal. Só

durou uma fração de segundo. Briggs, sentado na trave do mata-burro, sentiu

arrepiarem-se-lhe os cabelos. Voltou-se, tentando enxergar através da escuridão,

mas nada viu. Puxou do lenço e esfregou a testa úmida.

Depois ouviu que alguém corria em sua direção e logo avistou um homem.

—Quem está aí? — ouviu perguntar uma voz esganiçada.

Sob a luz desmaiada do luar distinguiu um rosto com uma pequena barba e

ficou perplexo ante a visão.

Quem é? — perguntou o ex-presidiário, notando com surpresa que

estava rouco.

Tudo bem! Sou o Dr. Amersham — retrucou o barbudo.

Quem é que estava gemendo? — tornou a perguntar Briggs.

Ninguém; deve ter sido alguma coruja.

Amersham voltou-se e mergulhou na escuridão. Briggs permaneceu ali sentado

longo tempo. Estava meio aterrorizado, mas tinha a intensa curiosidade que constitui

a grande virtude dos londrinos; em breve transpôs o mata-burro e percorreu

cautelosamente a trilha batida. Lembrando-se de que levava uma pequena lanterna

manual no bolso traseiro, apanhou-a, ligou-a, dirigiu-lhe o facho a poucos passos de

si e prosseguiu caminho.

Já estava a ponto de desistir quando viu algo rebrilhar contra a luz do farol que

empunhava. O reflexo provinha de um montículo à beira da trilha. O coração entrou

a bater-lhe violentamente, enquanto caminhava lento em direção do local. Deteve-se,

hesitou por um instante, cerrou os dentes e prosseguiu na investigação.

Era um homem; o mesmo que passara por ele em traje hindu. Jazia imóvel

estendido no chão. Em torno de sua garganta havia uma gravata vermelha. . . apertada

demais. Estava morto e fora estrangulado.

Seu rosto estava horrivelmente contorcido, mas apesar disso Briggs o reconheceu. Era o chofer

da mansão; o mesmo homem em cuja companhia bebera no bar: Studd!

Palpou-lhe o pulso cautelosamente, enfiou a mão sob a extravagante camisa, procurando

sentir-lhe o coração. Depois ergueu-se, percorreu apressadamente o caminho de volta e trans-

pôs o mata-burro, com o coração aos saltos. Daí dirigiu-se vagarosamente para o "White

Hart". Que lá a polícia encontrasse os seus próprios mortos. Briggs não queria envolver-se, e

tinha para isso boas razões.

Deixou o lugarejo logo pela manhã, uma hora antes de encontrarem o corpo estrangulado.

Capítulo 5

Mr. Arty Briggs chegou a Victoria Station desejoso de ocultar-se na populosa cidade, mas sem

revelar grande ansiedade. Os quatro policiais à paisana, que lhe fecharam um círculo em redor

assim que ele transpôs o cancelo, não lhe deixaram dúvidas quanto à seriedade de sua situação.

Levaram-no a Bow Street e revistaram-lhe a maleta. Ninguém deu ouvidos à sua declaração de

que tal objeto não lhe pertencia e que só o carregava para um amigo desconhecido chamado

Smith. O receptáculo continha muito do que, com alegria, Mr. Briggs teria visto evaporar-se no

ar.

—Eu nunca vi isto antes em toda a minha vida — jurou ele tomando o céu por testemunha.

Depois foi interrogado por Tanner, o inspetor-chefe.

—Transporte de notas falsas não é nada em comparação com aquilo de que ainda vamos acusá-

lo, Briggs — começou Tanner. — Você esteve no povoado de Marks Thornton a noite passada,

onde ocorreu um crime. Que é que você sabe sobre o caso?

Mr. Briggs não sabia nada. Causava-lhe, disse, grande admiração que alguém pudesse ser

assassinado num lugar tão bonito como aquele. Perguntou, com muita argúcia, se tinham

encontrado alguma arma com ele por ocasião da vistoria a que acabara de se submeter, e_

prontificou-se a deixar-se reexaminar com maior rigor.

—Até parece que você já sabe que o homem foi estrangulado — disse-lhe Tanner,

que de sua parte, estava longe de supor que aquele homem tivesse algo a ver com o

crime. Briggs não era assassino; era apenas o vendedor regular de um artigo com

muita saída. Além do mais, era velho no ramo, e não so

mente sua história como até seu temperamento já eram sobejamente conhecidos da

polícia.

Tanner não podia imaginar que aquele homem tivesse visto com os próprios olhos o

chofer estrangulado, de modo que não levou o interrogatório muito longe. Mas, sob a

ameaça de suspeita de assassínio, Briggs fez confissão completa do delito menor; e

como não há honra entre gatunos, graças à sua cooperação, Mr. '/ibriski foi

arrancado de um barco no Havre, àquela mesma noite, e atirado numa cela de

Southampton.

Quando voltou à Scotland Yard, Tanner subiu para ver o comissário. Em resposta à

sua pergunta este sacudiu a cabeça.

—Não, a polícia local não nos pediu auxílio, e é improvável que o faça até

desaparecerem todas as pistas. Parece ser um crimezinho bem comum, e. eles o

atribuem a mera vingança pessoal. Esse tal de Studd parece ter feito algumas

péssimas amizades aqui e ali, mas aparentemente não tinha inimigos reais.

Falara a Horsham por telefone, de onde extraíra aquelas informações.

Bill Tanner também obtivera um ou dois outros fragmentos de informação aquela

tarde, mas nada que despertasse interesse. Studd tivera uma escaramuça com um

couteiro por este o suspeitar alvo das fantasias adulterinas da esposa; suspeita que,

aliás, se revelou injusta. Ninguém mencionara o nome do Dr. Amersham. Nos

relatórios que chegaram à Scotland Yard seu nome também não aparecia, e foi só

uma semana depois, quando a polícia local invocou por fim o socorro da Yard, que

Tanner e seu auxiliar, dirigindo-se para Marks Thornton, tomaram conhecimento

dele.

Fizeram também uma rápida visita a Marks Priory, mas foram acolhidos com

frieza. Casualmente Tanner mencionou o nome do Dr. Amersham a sua

senhoria.

— Ele costuma vir aqui ocasionalmente — disse a dama, — mas não estava

aqui na noite desse terrível acontecimento. Creio que nos deixou perto das dez.

Essa única vista rápida que tivera da vida interna em Marks Priory não o levou a

nenhum progresso nas investigações. A vivenda era típica de um grande

aristocrata, e, na ocasião de sua visita, estava em obras de reparo. Havia estacas

e andaimes contra as paredes, e Kelver, que lhe servira de ciceròne, mostrou--lhe

as plaquinhas de pedra encravadas na parede, cada qual exibindo o brasão de

algum velho membro da família.

— Sua senhoria — dizia Kelver com a devida reverência — é uma autoridade

em heráldica. Ela é capaz de identificar brasões como o senhor e eu

identificamos as palavras de um livro. É surpreendente o conhecimento que

tem da matéria. Como o senhor provavelmente sabe, a família é muito antiga.

O primeiro Lebanon foi armado cavaleiro pelo Rei Ricardo I.

—Interessante — disse. Bill, que não era arqueólogo. —E o que é que pode me

dizer sobre Studd?

Kelver meneou a cabeça.

— Aquele trágico acontecimento, senhor, tem-me feito passar noites em claro.

Era uma pessoa extremamente agradável; um perfeito cavalheiro; e nunca o vi

desentender-se com ninguém. . .

Fez uma pausa, e Tanner interpretou mal a hesitação do mordomo.

Este não vira nem ouvira nada. Tomara conhecimento da morte do chofer pelo

policial que encontrara o corpo. Não tinha senão elogios para o defunto, e

repelia toda sugestão de que em vida pudesse ter feito algum inimigo.

O Sargento Totty, que se encarregara de interrogar os demais criados, trouxe

depois a mesma história.

—Procurei a femme, mas não achei nenhuma — explicou ele. — Não há

mulher metida nisso.

Investigavam já havia seis dias. E era tarde demais para levantar novos indícios.

Havia um estranho hospedado na estalagem do povoado, e Tanner sabia muito

bem quem era. Ouviu--se a história do costume sobre vagabundos e ciganos, mas

a caravana de ciganos mais próxima achava-se a vinte milhas dali. Os campos do

priorado não costumavam ser freqüentados por caçadores ilícitos, pois estes

preferiam os coutos do parque de Marks Priory. Todo caçador do local foi

interrogado.

Tanner viu a fotografia da vítima, examinou a gravata com que fora estrangulada

e apoderou-se dela: um feio pedaço de pano de cor vermelha, que tinha

costurado a um canto um rótulo minúsculo onde se liam algumas palavras em

hindustânico, as quais, umà vez traduzidas, revelaram o nome do fabricante.

Viu o Lorde Lebanon e interrogou-o. O rapaz não conseguiu ajudá-lo em

nada. Era realmente amigo de Studd, mas isso Bill já apurara pelo mordomo; de

resto, estava muito transtornado com a sua morte.

O terceiro membro importante da casa ele encontrou ao cruzar os campos

do priorado em direção da aldeia. Isla Crane

caminhava apressada em sua direção e o teria ultrapassado se não a parasse.

— Desculpe. . . É Miss Crane, não é? Sou o Inspetor Tanner, da Yard.

Para sua surpresa, a essas palavras o rosto da moça empa lideceu e a mão que

ergueu à altura da boca estava trêmula. Fitava-o com olhos esbugalhados, cheia

de apreensão. Ele já vira expressões como aquela antes. As pessoas, inocentes ou

não, sempre reagem de modo estranho quando interpeladas pela polícia;

entretanto, nunca esperaria que uma moça daquela classe traísse a mesma

emoção. Estava assustada, aterrada. Ao vê-la a ponto de desfalecer, sua surpresa

ganhou vulto.

Verdade? — disse ela num espasmo. — Sim. . . eu. . .disseram-me que o

senhor era. . . É sobre a morte de Studd, não é? Coitado!

Imagino que a senhora não viu nada, não é? Não pode nos ajudar a

esclarecer o caso de algum modo?

Ela sacudiu a cabeça quase antes de ele terminar a pergunta.

—Não. . . Como eu poderia?

Dizendo isto arrancou dali abruptamente. Tanner virou-se e teve a impressão de

que ela corria.

O Sargento Totty ficou a observá-la até perdê-la de vista. Depois disse ao

superior:

—Que engraçado!

— Engraçado nada — retrucou Bill Tanner. — Já vi muita gente se comportar

desse jeito. Deve ser péssimo para pessoas dessa classe verem-se de uma hora

para outra às voltas com um assassinato.

Fez o resto do percurso imerso em meditações.

Isla chegou ao grande pórtico que havia diante da entrada principal de Marks

Priory. Gilder, o lacaio, estava ali sentado, perdido na leitura de um jornal.

Ergueu-se ao ver a moça aproximar-se e atirou-lhe um olhar reprovador. Já o

tinha passado quando ele lhe falou:

—Esteve com o tira?

O detetive? — perguntou ela, depois de se ter voltado.

Ele confirmou.

Ele perguntou alguma coisa, Dona?

Isla fitou-o por um momento sem compreender.

—Ele perguntou alguma coisa? — trovejou o criado. Sua voz de baixo

profundo era um tanto intimidadora.

— Só se eu tinha ouvido alguma coisa — respondeu ela; e voltando-se rápida,

entrou.

Lady Lebanon estava no grande salão sentada à escrivaninha. Costumava passar lá

a maior parte do tempo. Era capaz de dedicar-se dias a fio ao exame das velhas

inscrições heráldicas e dos pergaminhos dos Lebanons. Era exímia latinista, e

poucos a ombreavam no conhecimento do inglês antigo. Perlustrava agora um

livro, fazendo anotações à parte, num bloco de papel. Ao ver Isla, fechou o livro,

enfiou o bloco numa gaveta, trancando-a depois, resolutamente, à chave.

—Que há? — perguntou.

A moça tremia da cabeça aos pés. Por alguns instantes ficou como quem não

pudesse falar.

— Ele anda fazendo perguntas — disse por fim. — Mr. Tanner!

— O policial? Que perguntas? Ele disse algo sobre Amersham?

A moça fez que não com a cabeça.

—Não mencionou o nome do doutor. O que vai acontecer agora?

Lady Lebanon recostou-se no espaldar, repousou os cotovelos nos braços

estofados da cadeira e enclavinhou as mãos.

—Há momentos em que não chego a entendê-la, Isla — disse com alguma

acrimônia na voz. — Que é que poderia acontecer?

—E se eles descobrirem?

Da escrivaninha, a calma dama ergueu para a moça os olhos escuros.

— Eu realmente não sei do que é que você está falando, Isla. Quem poderia

descobrir? Gostaria que não falasse sobre coisas que não lhe dizem respeito.

Isla Crane foi cedo para seus aposentos aquela noite. Ocupava o que era

conhecido, como "o quarto do velho lorde", uma câmara grande, majestosa e

lúgubre, com um gigantesco leito de armação ainda a ostentar na cabeceira as

armas já quase invisíveis de algum Lebanon esquecido. Não, porém, por Lady

Lebanon; que jamais esquecia nada. Passou-se muito tempo até que Islã

conseguisse dormir.

Por que ela foi tão cedo pra cama?

Não se -amofine, Willie querido — respondeu-lhe a mãe.— Não há

nenhuma razão pela qual ela devesse ficar de pé.

E fitou o dispendioso relógio de pulso. — Está quase na hora de você

também ir se deitar, querido. Não fique acordado até tarde. . . Falou com

Isla?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não, ainda não tive oportunidade desde que aconteceu essa coisa medonha.

— Disse isto e inclinou a cabeça apurando o ouvido. — É um carro! — disse

depois. — Amersham?

— Ele deve vir esta noite.─Ele estava aqui na noite do crime, não estava?

Ela ergueu rapidamente os olhos.

Não, ele partiu cedo. . . perto das dez, eu acho.

O rapaz sorriu a isso.

— Mãe querida, eu vi o carro dele saindo daqui às sete da manhã. Por acaso eu

estava olhando da janela. Alguém me disse que ele tinha dado uma escapada

aquela mesma noite.

— E você corrigiu essa informação? — perguntou a. mulher agudamente.

Ele meneou a cabeça.

—Não; por quê?

E ergueu os olhos para o teto abobadado, com um suspiro.

—Puxa, que lugar medonho — comentou depois. — Até me dá arrepios.

Não quero ver Amersham; vou para o meu quarto.

A porta se abriu, mas não para dar passagem ao ominoso doutor. Era Gilder

que trazia uma bandeja, um sifão e um copo. Despejou um tanto de whisky e

misturou-lhe soda. Durante todo o tempo que levou nisso, o olhar inamistoso do

Lorde Lebanon o vigiava em cada movimento.

Apanhou o copo da mão do criado e sorveu-lhe o conteúdo. Só percebeu certo

travor algum tempo depois de haver bebido.

—Que whisky mais engraçado! — disse...

E foi a última observação que se lembrava de ter feito. Quatro horas depois

despertou com dor de cabeça; tendo acendido a luz, deu consigo em seu próprio

quarto. Estava na cama e de pijama. Com um gemido, ergueu-se ainda

estonteado. Mr. Gilder fora um tanto generoso no manejo da droga que lhe

ministrara.

Capítulo 6

Lebanon levantou-se, cambaleou até a porta e tentou abri-la. Estava trancada.

Instintivamente levou a mão para o lugar onde a chave deveria estar, mas não a

achou. Ficou confuso; sua cabeça parecia estar fora de controle; inclinava-se

de um lado para outro. Fez um esforço para acabar de acordar, encontrou o

interruptor e acionou-o.

Na casa só havia dois quartos que conhecia intimamente. A princípio supôs

que estivesse num terceiro; mas aos poucos, à medida que suas percepções

despertavam, reconheceu alguns objetos. Havia um cordão de campainha

próximo da cama; puxou-o, sentou-se no leito e esperou longo tempo antes de

obter resposta. Estava a ponto de tocar de novo quando ouviu uma chave

introduzir-se na fechadura e estalar ao ser girada.

Era Gilder. Algo tinha se passado com ele; seus olhos estavam descoloridos;

trazia amarfanhado o colarinho; seu colete de listras estava um tanto lacerado e,

ademais, faltavam-lhe dois botões. Por longo tempo fitou, carrancudo, o rapaz.

—Deseja alguma coisa, senhor? — disse por fim, e Lebanon percebeu que tivera

de violentar-se para proferir aquela forma polida de tratamento.

— Quem trancou esta porta?

—Eu mesmo — respondeu friamente o outro. — Um fulano que apareceu

esta noite armou um sururu lá embaixo, e eu não quis que o senhor se

envolvesse.

O rapaz fitou-o embasbacado.

Quem era? — perguntou.

Ninguém que conheça — respondeu rápido o criado. — Há alguma coisa

que eu possa fazer pelo senhor-?

Arranje-me um trago. . . Alguma coisa fria. Aquele whisky que você

me deu não era lá muito bom, Gilder.

Talvez o lacaio percebesse o tom de suspeita na voz de seu senhor, mas não

deu o menor sinal de estar embaraçado.

— Foi justamente o que o outro cavalheiro disse. Acho . que o whisky por

aqui não presta mesmo. Vou pedir a sua senhoria que encomende mais da

cidade.

.— Onde está minha mãe? Ela estava lá quando. . . ?

Gilder meneou a cabeça.

—Não,

senhor;

estava

nos

aposentos

dela.

—O que foi que aconteceu?

O criado fitou-o com um sorriso forçado.

— Talvez o senhor prefira vir e ver — respondeu; e Lebanon, tendo calçado os

chinelos, seguiu-o corredor afora. Desceram depois a escada circular que dava

para o hall.

Brooks estava lá em mangas de camisa, aparentemente tentando restaurar a ordem

do ambiente. Havia ainda uma mesa de pernas para o ar, a borda do sofá estava

lacerada, os restos de um pequeno relógio jaziam espalhados em torno, e, do

candelabro, quatro velas pendiam desordenadas e sem vida. Lebanon passeou

os olhos escancarados por tudo aquilo.

Quem fez isto? — perguntou, tentando imprimir à voz certo tom de

autoridade.

Um amigo do Dr. Amersham — respondeu Gilder, e havia no seu tom

uma ponta de malícia que Lebanon não percebeu;

O chão estava manchado e coberto de cacos de vidro; obviamente a garrafa de

whisky tinha levado a breca. Uma parte do apainelado fora rompida também.

—Parece que algum lunático andou solto por aqui! —disse Lebanon.

O sorriso se desvaneceu do rosto de Gilder, que ficou momentaneamente

alarmado.

—Hem? — disse . — Sim, de fato. Parecia um doido mesmo. . . esse amigo

do Dr. Amersham.

Eram três e meia. Wíllie notou uma luz mortiça a orien te, quando

desaferrolhou a enorme porta, soltando-lhe as cadeias, e saiu alguns passos, a

aspirar o ar fresco da manhã. Estava ainda muito escuro e muito calmo ali; e o

silêncio o fez estremecer. Os últimos animais a se recolherem já o haviam

feito, e os mais madrugadores ainda estavam por gorjear as primeiras notas de

saudação ao novo dia. Ao ver a luz no outro extremo do campo lembrou-se de

que Tilling, o couteiro, morava lá, à beira do bosque; homem ríspido e

inamistoso. É óbvio que estaria de pé; parte de seu trabalho consistia em vigiar

a propriedade. Marks Thornton contava com muitos caçadores ilícitos; homens

astutos, de rostos tostados pelo sol, com seus cães indiscriminados.

A esse pensamento, Willie Lebanon sorriu dentro da noite. Aquela atividade, em

todo caso, não lhe parecia criminosa. Se fosse juiz do condado não condenaria

ninguém só por apanhar o que, afinal de contas, já lhe pertencia.

Ouviu atrás o passo lento e fatigado de Gilder que caminhava sobre o lajedo,

vindo em sua direção. Fumava um charuto, sem aparentar o menor indício de

embaraço.

—Tilling parece ter ficado de pé até tarde esta noite. Deve estar de serviço,

não?

Gilder não respondeu logo. Tirava imperturbáveis baforadas, com os olhos

taciturnos fixos na luz distante.

—Tilling foi a Londres a noite passada — respondeu depois.

Nesse momento o retângulo luminoso, alvo da atenção de ambos, se apagou, e

Lebanon ouviu do criado uma interjeição reprobatória.

— Eis alguém à procura de encrenca.

—Quem? . . .

Tilling?

Gilder não respondeu.

—É melhor entrar. Só está vestido com esse roupão, e a noite está fria.

Agora seu tom era respeitoso.

Havia ocasiões em que Lebanon gostava daquele magro americano. Em certos

momentos sua familiaridade insolente o divertia. Não se vexava do charuto nem

daquela camaradagem presunçosa.

─Você é engraçado — disse, enquanto seguia o lacaio e o ouvia trancar a casa

por dentro ruidosamente.

─Nunca me senti menos engraçado em toda a vida — replicou Gilder.

—Quem foi que aprontou toda aquela confusão?

Gilder sacudiu a cabeça.

—Um amigo do Dr. Amersham — respondeu, e sorriu um sorriso esdrúxulo. —

Mas, pensando melhor, talvez não fosse tão amigo dele.. .

Nesse ponto o rapaz notou que a voz do criado se alterava.

—Que está fazendo aqui embaixo, Dona?

Willie voltou-se em direção da escada. Era Islã. Usava um roupão espesso e

decerto estava toda vestida por baixo, pois trazia meias e sapatos.

— Nada — respondeu ela num espasmo. — Está tudo bem, Gilder?

—Tudo bem, Dona. Não precisa se preocupar. O cavalheiro que armou o

barulho já foi pra casa.

Disse isto com determinação, fitando-a fixamente. Willie teve a impressão de

que veladamente ele tentava sugerir algo à moça, du mesmo lhe impingia uma

explicação para aquela desordem que não somente seria irreal como

forçosamente ela devia saber que o era.

—Compreendo — tornou a moça com um aceno de cabeça. Ainda estava sem

fôlego. — Ele já foi para casa.. . É bom saber disso. . . Sua senhoria queria

ver o Dr. Amersham antes de se recolher, Gilder.

O criado esfregou o queixo.

—Queria? . . . Bom, acho que Amersham. . -, o doutor não está aqui. Foi

dar uma volta faz uma meia hora. Hora esquisita pra passear, não é? Pode

dizer a sua senhoria que eu o mando logo que o encontrar.

Quando a moça se retirou, Lebanon transferiu o olhar atônito para Gilder.

—Ela o viu. . . esse tal, seja lá quem for?. . . Miss Isla?

O lacaio confirmou com um aceno.

—Se viu! — disse lacônico; e era óbvio que não estava para confidencias. — É

melhor ir para a cama, senhor. É muito tarde.

Lebanon não protestou. Na verdade, aceitou de bom grado a sugestão, pois

repentinamente começara a sentir-se muito cansado e estranhamente apático.

Fora narcotizado; sabia disso, mas quase não se importava. E em seu estado de

exaustão era incapaz de afligir-se com o que quer que fosse.