A divorciada por José Augusto Vieira - Versão HTML

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A Divorciada

Jose Augusto Vieira

A Divorciada

Table of Contents

A Divorciada........................................................................................................................................................1

Jose Augusto Vieira.................................................................................................................................2

I................................................................................................................................................................4

II.............................................................................................................................................................11

III............................................................................................................................................................14

IV...........................................................................................................................................................20

V.............................................................................................................................................................23

VI...........................................................................................................................................................26

VII..........................................................................................................................................................30

VIII.........................................................................................................................................................35

IX...........................................................................................................................................................40

X.............................................................................................................................................................46

XI...........................................................................................................................................................55

XII..........................................................................................................................................................61

XIII.........................................................................................................................................................66

XIV........................................................................................................................................................73

XV..........................................................................................................................................................80

XVI........................................................................................................................................................88

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A Divorciada

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A Divorciada

Jose Augusto Vieira

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I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

XII

XIII

XIV

XV

XVI

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Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned images of public domain material

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1906.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, inclusivamente a peculiaridade de formatação dos diálogos que o autor adoptou.

Foram corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá−los. Outras correcções, por termos considerado importante dar nota delas, foram assinaladas na versão html deste texto.

* * * * *

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—59.º volume

A DIVORCIADA

COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA

A

DIVORCIADA

2

A Divorciada

POR

JOSÉ AUGUSTO VIEIRA

2.ª EDIÇÃO

1906

Parceria Antonio Maria Pereira

LIVRARIA EDITORA E OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO

Movidas a electricidade

Rua Augusta—44 a 54

LISBOA

1906

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO

Movidas a electricidade

Da Parceria Antonio Maria Pereira

Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º andar

LISBOA

Ao Ex.mo Sr.

Elyseu Xavier de Souza e Serpa

OFFERECE E DEDICA

O AUCTOR.

A DIVORCIADA

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A Divorciada

I

Festejavam−se á noite em casa do brasileiro Mendes os dezenove annos da menina Adelaide.

Toda ella se affogueava nos contentamentos intimos de rainha da festa, as faces carminando−se das exhuberancias humidas e quentes d'uma mocidade recatada e honesta, muito vaidosa do seu vestido novo, praguejando em frente do espelho, como um collegial estroina, contra aquella moda de penteado, que lhe não deixava pôr em relevo as longas tranças castanhas, tão espessas, que a natureza lhe doara.

Tinham−se convidado apenas as filhas do Gomes, as Bastinhos, a Ermelinda Silva, filha do Jorge director d'um banco, e umas poucas mais, ex−companheiras de collegio, muito intimas, com quem se não fazia ceremonia.

Rapazes viriam tambem.

O Juca, sobrinho do Mendes, tinha−se encarregado de apresentar alguns amigos, e o brazileiro, muito popular nos estabelecimentos da Praça de D. Pedro, convidara alguns caixeiros—para irem beber um calice do fino, fazer uma saude á pequena.—

Era cedo ainda.

A grande meza de jantar, como um cetaceo brunido, estendia toda a elasticidade das suas articulações para sustentar no dorso viandas appeteciveis, carnes frias, podins gelados, os largos taboleiros de doce, as garrafas de crystal com opalinos vinhos do Porto e da Madeira. Ao centro um jarrão de porcellana, cheio de camelias encarnadas e brancas, dominava todo aquelle acampamento de coisas appetitosas, orgulhoso de si, como o general Boum no meio das amazonas da Grã−Duqueza.

Na sala de visitas a menina Adelaide collocava por suas proprias mãos heras e flores em volta das serpentinas.

O Mendes, em mangas de camisa, suando como outr'ora nas labutações dos seus armazens, dava ao piano uma collocação apropriada de modo a occupar o menor espaço possivel; depois vinha para o meio da sala, olhava−o na bruta admiração da sua grossa esthetica e via que ainda se podia chegar mais á parede.

—Ficava melhor, dizia.

Mas a filha, interrompendo o seu trabalho:

—que assim não estava bem, nem se ouviam os sons,—credo!—e, de mais, pouco espaço ficava para uma senhora poder tocar!—

O Mendes reconsiderou, cedendo um pouco da sua opinião, e em seguida foi auxiliar a filha a dispor as flores sobre as serpentinas.

Dentro, n'outra parte da habitação, a D. Carola, accomodava uma saleta para toilette das senhoras, e o Juca, no seu quarto que serviria de sala de fumo, dispunha charutos deliciosos n'uma estatueta bronzeada, que fingia um escravo carregador.

Das oito para as nove horas os convidados principiaram a chegar.

Vieram primeiro as Bastinhos; traziam uns bouquets muito elegantes, feitos no Loureiro; foram recebidas com beijos cantadinhos e com um:

—Oram vivam, do brazileiro.

Acompanhava−as o pae, ex−socio do Mendes,

—homem de peso, dizia−se na praça, e compadre do dono da casa.

—Como ia de saude, ein?—perguntou, n'um shake hands expressivo, espalmando a larga mão, com uma grande cordealidade alegre.

—Uma faina, compadre, lhe não digo nada! me parece este dia aquelles em que estavamos nos trapiches do Rio, se lembra você?

E n'uma phonetica abrazilada, machucando a lingua patria, como se premissem canna d'assucar, os dous recordavam as suas amargas horas de trabalho, fatigantes mas productivas, que lhes davam agora uma tranquillidade modesta e sã, no meio da qual as suas carnes espapavam nas blandicias oleosas d'uma nutrição sadia.

—Se gosa tambem agora, deixe lá.

4

A Divorciada

—Ah! se não fôra isso!

As meninas entretanto, tinham ido, abraçando a cintura de Adelaide, até ao quarto da toilette, conversando muito, umas interrogativas agglomeradas, de quem se não vê desde tempo.

—E de rapazes quem viria?—perguntava a mais nova das Bastos.

—Ah, olha que não sei verdadeiramente; quem os convidou foi o Juca e o papá.

—Virá o Alberto?

—Maliciosa! bem sabes que elle não faltaria.

—Como ouvi dizer que andava indifferente com teu primo.

—Ora, deixa lá! Ainda hontem o Juca me disse que tinha estado com elle no Suisso!

Tiraram os agasalhos, ageitaram as flores do penteado, viam−se ao espelho, muitas vezes, com uma grande vaidade de si proprias.

—Este penteado, tambem,—dizia a Amelia Bastos,—não me fica hoje direito.

—Oh, filha, pois a mim!—confirmava a Adelaide, parece que é praga.

—Isto de cabelleireiras, não vos digo nada! são todas a mesma cousa, não tem geito nenhum,—umas imbecis.—

E ambas acotovellando−se para apanhar a maior porção da lamina reflectora, pregavam ganchos no penteado, com um estalido secco, de tic nervoso, e quando o espelho não reflectia a perfeição do typo imaginado, irritavam−se procurando outros ganchos na pequena concha de madreperola, com adornos de filigrana, que pousava sobre o marmore do toucador.

Entretanto a campainha tocando successivamente, annunciava a entrada de novos convidados.

—Quem será? perguntou a Bastinhos.

—Esperai que eu volto já, disse−lhes a Adelaide.

—Não, não, vamos comtigo.—

Empoaram−se ainda uma vez com a pluma de poudre de riz e depois desceram todas; tinham entrado o Jorge, director do banco, e Ermelinda, a filha.

Adelaide encarregou−se d'esta; deixou as Bastinhos na sala, com a mamã; quando voltaram, ellas vieram cumprimentar Ermelinda, depondo−lhe beijos miudinhos nas faces d'um moreno pallido.

Ás dez horas não faltava ninguem.

O Mendes com grandes sorrisos d'alegria satisfeita, movia−se em todas as direcções, muito cumprimentador e prasenteiro, dizendo graças affectuosas a cada conviva.

As senhoras, sentadas em volta da sala, nostalgicas, como larvas em metamorphose, conversavam baixo, timidamente, sobre motivos da ultima moda. Algumas fallavam dos ultimos passeios á Cordoaria e Palacio, das scenas de namoro, colhidas aqui e ali, nas maliciosas besbilhotices d'amizade; soltavam pequenas risadinhas, abafadas nos brancos lenços de cambraia, amarfanhando−os muito entre as mãos.

Os rapazes encostavam−se envergonhadamente ás hombreiras das portas, ou fallavam dentro na sala do fumo, com uma vozearia de praça. Os seus olhos, acesos d'uma curiosidade concupiscente, tomavam a direcção dos elegantes collos brancos, que sahiam das toilettes mais decotadas.

Só um d'entre elles, mais ousado, com uns ares de lion ganté, abanando com o seu chapeu de pasta o peitilho, onde o collete branco muito aberto deixava vêr uma camisa folheada, com botões de coral, passeava na sala, sorrindo−se com amabilidade olympica para as damas conhecidas e fitando o monoculo d'uma sobranceria atrevida, sobre as carnações frescas e sensuaes das elegancias femenis.

Os rapazes invejavam surdamente aquella naturalidade e garbo simples de porte.

—Aquillo é que é um menino!—exprimiam dous caixeiros, n'uma metaphora admirativa e ciosa.

—E então? fazia elle muito bem... que andasse d'ahi, iriam dar um gyro... egualmente!—convidava um d'elles todo almiscarado, com a risca do idiotismo ao meio da cabeça e o cabello frisado, n'umas ondeações luzentes de bandolina.

E os dous fingindo−se interessados n'uma conversa importante que lhes disfarçasse o acanhamento tosco, aventuraram−se a um passeio pela sala, sentindo−se logo invadir d'um rubor de face ao perceberem os olhares das senhoras, que se riam baixinho das suas grossas mãos entaladas n'umas gritadoras luvas amarellas.

As meninas tinham o mesmo syncretismo dos caixeiros; admiravam a elegancia do Alberto, achando esbelta a figura, o penteado, a maneira de trazer a camelia, a curva artistica do bigode. As mais curiosas 5

A Divorciada

examinavam furtivamente os berloques do relogio, procurando surprehender alguma bijouterie symbolica de coisas de namoro. A Ermelinda primava entre todas n'essa muda contemplação extactica.

As Bastinhos leram no seu olhar e cochicharam logo:

—Queres tu ver que a temos tramada! repara na Ermelinda como se derrete a admirar o Alberto.

—Forte tola! Deixa que a não hei−de perder de vista, Amelinha!

O Mendes entrou porém na sala; um sorriso de bonhomia, despido de etiquetas lhe pairava nos labios.

—Vamos, minhas senhoras, vae−se dançar alguma cousa para matar o tempo, ein! Que ha−de ser, ó Adelaide?

—Uma quadrilha, papá!

—Seja, eu chamo o tocador! tirem pares, tirem pares—disse passando entre o grupo dos homens.

D'ali a instantes um d'estes artistas obscuros, na gala festiva do seu casaco preto roçado pelo uso, sentava−se ao piano e preludiava uma quadrilha.

Os homens vinham entrando de vagar, tomavam pares, animavam a sala de grupos. Começava a levantar−se um pó fino, que excitava as tosses.

O Alberto dançou com Ermelinda.

—Olha, não te dizia eu!—murmurou a Bastos para uma visinha.

A musica de Angot elevava−se sonoramente do teclado; a quadrilha começou.

As senhoras velhas deslocavam−se para conversar, agrupando−se em volta da dona da casa; algumas meninas que não tinham dançado, levantavam−se com grande despeito e tomavam o caminho da toilette, onde iam empoar−se; outras porém reuniam−se, vingando−se da descortezia da sorte, em aguçar as linguas rosadas e viperinas n'uma analysesinha burlesca dos pares que dançavam; tinham um vivo prazer sobretudo em pôr nomes, em chamar a um pé de cabra, a outro o alho vivo, áquelle que dançava mais pesadamente o pataco gordo, rindo muito, umas gargalhadinhas abafadas, que chamavam a attenção dos pares.

Entretanto o Alberto tinha phrases d'um effeito romanesco, com que melodisava os ouvidos da filha do director do banco; inclinava−se com profundas reverencias nas diversas evoluções da quadrilha e depois, quando erguia a cabeça, os seus olhos envolviam largamente, com magestade, os olhos de Ermelinda, que recebia esse fluido penetrante, fazendo purpurear o rosto por um phenomeno reflexo, que a physiologia não sabe ainda bem explicar, quando se trata de mulheres que namoram. Quando os outros pares dançavam, Alberto um pouco mais alto de estatura, abaixava−se para ella, murmurando phrases d'um sentimentalismo de Antony, que ouvira muitas vezes no theatro.

—Creia vossencia, dizia, que só um coração de gelo poderia deixar de impressionar−se ante a fulguração d'um olhar d'esses.

—Lisongeiro!

—Lisongeiro, eu, minha senhora? Como a infelicidade me bafeja todas as vezes que pronuncio uma verdade!

A sua voz arrastava−se n'uma tonalidade sentida; dir−se−hia que as lagrimas iam a rebentar d'aquelles olhos baços das orgias, em face d'uma grande concentração d'affecto.

Ermelinda olhava−o distrahidamente e gostava de se adormecer ao som d'aquellas palavras, docemente proferidas, que poucos homens lhe tinham dito com tanto sentimento!

A quadrilha terminou; os rapazes mais cheios de familiaridade, conversavam com as senhoras; mas dentro o Juca esperava−os com deliciosos charutos—que não podiam perder−se.

—E d'ahi um calice de Madeira, offerecia o Mendes, nós cá não temos ceremonias, ein! são boas ellas para a missa, entendeu você, sôr Alberto?

Agrupavam−se em volta da mesa; os liquidos, como n'um apparelho hydrostatico, desciam de nivel nas garrafas para subirem nos estomagos. Os caixeiros esvasiavam calices com uma soffreguidão mal educada—de quem apanhava d'aquelle poucas vezes.

A senhora do Mendes examinava com cuidado, curvando−se, as bandejas do chá e dos dôces que iam servir−se ás senhoras; dispunha as garrafas de crystal em salvas de prata e distribuia aos creados as ramificações d'aquelle serviço. Depois voltando−se para o sobrinho:

—Juca, vae servir as senhoras, avia−te!

O Alberto n'este momento enchugava os labios do sexto calice que havia esvasiado; offereceu−se para 6

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acompanhar o seu amigo—n'aquella agradavel incumbencia—dizia.

—Pois não, era até um obsequio—e agradeceu−lhe com um sorriso a sua amabilidade.

Na sala tinha uns modos finamente elegantes de offerecer um calice de vinho, que não havia recusar−lhe.

—Este Alberto, diziam as senhoras, sempre tem uma apresentação tão distincta!...

Junto d'Ermelinda deteve−se alguns minutos mais.

—Ah! ella não queria beber; e vinho perturbava−a um pouco, mas visto que elle insistia, ia fazer−lhe a vontade—e levou o calice aos seus vermelhos labios, que apenas se embeberam no liquido doirado pousando−o logo.

No quarto do Juca os rapazes, tomando posições commodas, estirados uns sobre o sophá, cavalgados outros sobre as cadeiras, discutiam n'uma nuvem de fumo e de grosserias os bons bocados, que estavam na sala e faziam commentarios, indecentemente libidinosos, que provocavam cheias gargalhadas.

Nos seus olhos faiscava um pouco a scintillação do Porto e do Madeira. Depois a conversação recahiu sobre o Alberto, o heroe da noite; os menos favorecidos plastica e estheticamente proromperam logo com muito azedume:

—Afinal quem era elle, de que vivia, de que se sustentava?

—Ninguem o sabia—era um vadio, não havia que duvidar.

Mas o Jeronymo, com um sorriso significativo de finura, aprumando−se para os outros, como quem tinha o segredo do enigma:

—Sabem vocês onde mora a mulher do commendador Bernardo?

—De qual? perguntaram logo muitas vozes.

—D'aquelle... d'oculos, que está sempre á porta do Guimarães.

—Ah! logo se via... só assim!... ou então calotes em cada esquina.

Entraram logo em minuciosidades da sua vida; as informações foram apparecendo; disia−se que tinha dividas no alfaiate, no sapateiro e até no Central, onde já nem de jantar lhe queriam dar.

Mas a presença de Alberto veio pôr termo a estas murmurações; a conversação mudou de rumo, até que o piano preludiou uma walsa.

—Era irresistivel, não podia perder−se—e tomaram a direcção da sala, onde as meninas os esperavam, com os bellos olhos humidos dos ardores choreographicos, anehelando os braços d'elles, a que sonhavam encostar−se, como sylphides vaporosas, arrastadas na vertigem.

Incontestavelmente as honras da walsa pertenceram a Alberto e a Ermelinda.

—Se não fosse o par que ella tinha, veriamos—protestavam muitas, n'um tom mordente d'inveja, que as irritava como picadas d'alfinetes.

—Boa, pois olha, das outras vezes!

—Logo eu então, sempre tive um par!

—Ai! menina, nem me falles, o meu, esse parecia de chumbo!.. e sempre a parar, crédo!...

Lamentavam−se muito da sorte, que as destinara a enlaçar os seus braços nos d'um par sem elegancia e pessimo walsista—mas para outra vez, já os conheciam—affirmavam.

—Depois, sem animação, mesmo uns tumbas, não sei que gente escolhe este Mendes.

Proximo d'Ermelinda o Alberto tinha já grandes intimidades, que se estavam tornando a pedra d'escandalo das meninas, que não possuiam essa mesma pedra. A filha do director acolhia por detraz do seu leque as phrases incendiarias do seu par, e sorria ao sentir em volta dos ouvidos a musica monotonamente harmoniosa da borboleta vadia da paixão. No seu intimo duas sensações subjectivas confluiam a dar−lhe um goso inestimavel de felicidade—esmagar a vaidade das outras e elevar a propria, sentindo−se preferida.

E emquanto o Alberto cinzelava n'uma linguagem fluente as phrases da sua declaração, ella muito feliz por ter arranjado namoro, pensava já na inveja que as outras lhe teriam quando elle passasse debaixo da sua janella, nas cartas que lhe escreveria, no portador d'ellas, se seria de tarde ou á noute que elle viria, como illudiria a vigilancia do papá, e em mil outras futilidades, que fluctuavam indecisas na sua imaginação, como o pollen das flôres no céo azul de maio.

As Bastos e a Adelaide Mendes murmuravam:

—Parece que o namoro sempre péga!

—Aquillo é pau para toda a obra.

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A Divorciada

—Só queria saber quantos namoros ella já terá tido.

—Quatro lhe conheci eu.

—N'esse caso não admiro que arranje mais um!

Uma solteirona que veio para o grupo, a D. Clementina do Rosario, disse sarcasticamente:

—Aquillo são inclinações, meninas! Tambem ha homens, que sempre gostam de cada delambida! nem que não houvesse mais mulheres no mundo! Ora reparem que collo aquelle, uma esganiçada!...—e protestava n'umas excursões thoracicas, expansivas e rijas, em que os seios fartos se elevavam n'uma curva ampla e rasgada.

Entretanto o pae de Ermelinda jogava pacificamente o solo com o Bastos e o commendador Faria; o Mendes acercou−se da mesa.

—Então no rico, ein, commendador?

—Verá como este se vai tambem; pois olhe que é dos firmes; mas um caiporismo assim, nunca eu vi!

O Jorge interrompeu depois de examinar as suas cartas:

—Bólo.

—Não lhe dizia eu, sôr Mendes!...

O Bastos que era o , disse para o commendador:

—Jogue bem, parceiro, que elle o tem furado, essa lhe affianço eu!

Jogaram com muito silencio; mas o commendador estava realmente infeliz; logo á terceira cartada os olhos de Jorge, que era o feito, encheram−se da cubiçosa alegria das remissas; á quinta cartada mostrou o jogo.

O Bastos teve vontade de chamar burro ao commendador.

—Esta se não fazia, ein!—disse exaltado.

—Mas que lhe digo eu, estou caipora, não ha que vêr.

O Jorge, fatigado, pediu substituto—era preciso tambem cavaquear um pouco—e affagando a sua honesta suissa burgueza, veio até á porta da sala observar o aspecto que offerecia.

O commendador, á meza do jogo, dizia entretanto:

—Tem uma filha bem sympathica este Jorge!

—Nem por isso, acudiram logo os dous que viam n'elle um candidato ás suas Adelaide ou Amelia.

—Peza pouco, continuou o Bastos.

—Me dizem que ainda tem os seus cinco contos! defendeu o commendador.

—E que é isso! fez n'um gesto despresivel o Bastos.

Avistando a Ermelinda e vendo a seu lado aquelle rapaz, o Jorge pensou logo n'um casamento, n'um bom partido. Foi colher informações.

—Um peralvilho, ein, só d'isto é que lhe apparecia—e irritado chamou a filha, dizendo−lhe—que iam sendo horas.

—Já, papai!

—E não era cedo!—accrescentou com uma tonalidade brusca na voz, que a Ermelinda percebeu logo.

N'este momento o piano tocava uns lanceiros. O commendador Faria approximou−se.

—Então por aqui, commendador!—perguntou o Jorge.

—É verdade, estava um caipora! Eram dias... vinha então um pouco desentorpecer as pernas.

—Quer dizer que dança?

—É verdade, e se a senhora sua filha me concede essa honra.

—Pois não! oh! Ermelinda—disse o Jorge lisongeado—dansa estes lanceiros aqui com o snr.

commendador Faria.

A joven olhou o Alberto, mordeu os beiços com o azedume de quem desejaria despedir um massador que se tem de supportar, e collocou−se no grupo respectivo.

As outras meninas viram que até o commendador dançara com Ermelinda, facto de provocar as attenções, porque o Faria quasi nunca dançava.

A D. Clementina do Rosario, abafando um ciume outomniço, disse para Adelaide:

—Só faltava mais esta!

—Não, a minha casa não torna ella n'uma occasião assim.

8

A Divorciada

—É o que devias já ter feito, menina.

Entretanto o commendador sentia−se barbaramente atrapalhado nas evoluções dos lanceiros; a Ermelinda quasi tinha vergonha. Mas em compensação o commendador fallava de muitas riquezas, de muitas acções, e ella era filha d'um director de banco!

Na grossa mão do brazileiro um brilhante coruscava scintillações luminosas, quando os raios de luz vinham ferir a sua face. Ermelinda sentia uma especie de fascinação.—

—O que lhe faltava senão a riqueza—pensava—e olhando menos asperamente o commendador, animava−o com um olhar, como se anima um molosso fiel e intelligente. De repente porém os seus olhos batiam nos olhos de Alberto; esquecia o seu par e sorria−lhe. Comparava−os muito ligeiramente, muito frivolamente. O Alberto era d'uma estatura elevada, elegante, sympathica; o commendador era grosso e baixo, como um tronco de oliveira, os seus pés assentavam no chão como as pesadas plantas d'um pachyderme, a sua mão tinha os relevos pesados d'uma massa de gymnastica.

—Ora, sempre tenho cada ideia—pensava—isto tem lá comparação!

Os lanceiros terminaram, com grande magoa do commendador—que tinha achado muito agradaveis aquelles momentos—dizia—. Ermelinda sorriu−se.

Fez−se então um grande silencio na sala; correu a voz de que o Alberto a pedido de varias senhoras ia recitar uma poesia.

Os homens amontoaram−se logo uns sobre os outros, nas entradas da sala, ávidos de sensações lyricas. As senhoras, tomando um ar admirativo e profundo, mal agitavam os seus labios, ciciando phrases curtas, cheias de enternecimentos.

O teclado principiou a gemer uma melopeia vaga, muito triste, como a voz funerea de cyprestes nas aleas d'um cemiterio. O Alberto, tomando uma pose impertigada, ao lado do piano, começou a recitar, n'uma cadencia monotona, o «Noivado do sepulchro» de Soares de Passos. A formosa balada, estafada como uma cortezã viciosa, que apesar de tudo conserva a sua belleza ossianica, soava lugubremente, aos ouvidos d'um publico recolhido, que admirava o recitador mais ainda que a producção do poeta.

O Alberto tinha gestos tetricos, adequados ás condições do verso; as senhoras, ao vel−o, quasi pensavam vêr o phantasma da balada, arrastando o branco sudario por entre as lousas do cemiterio. Ermelinda estava commovida, extactica, absorta, e quando o Alberto terminou,

Dous esqueletos um ao outro unidos

foram achados n'um sepulchro só!...

ella sentiu o olhar d'elle acaricial−a, como n'um beijo gelido de morte, promettendo−lhe um amor assim, immenso, eterno, até mesmo além da campa.

Uma salva de palmas acolheu a ultima estrophe da poesia. Alberto agradeceu, com cortesias reverentes, de modestia affectada.

Então o Jorge veio dizer á filha que se preparasse.

—Não importa—pensou—assim como assim já marcamos a hora.—E foi despedir−se da Adelaide, das Bastinhos, da D. Clementina. Ao passar por Alberto disse−lhe tambem—Adeus.

—Já!

—O papá assim o determinava.

—Que tyrannia!

Subiu á toilette para cobrir a capa de noite, e quando desceu, o Alberto estava proximo da escada; sorriu−se ainda, trocaram um ultimo olhar.

Ele dansou uma vez mais; foi com a Adelaide, uma walsa, que os fatigou muito. A filha do Mendes fez allusões aos seus novos amores, deu−lhe os parabens—elle, que não, que nada havia!—era uma menina muito sympathica de certo, mas o seu coração estava morto desde muito.

—E quer que lh'o ressuscitem, talvez?

—Respondeu que das cinzas não podia nascer a vida, que a paixão já não podia incendiar o gelo,—mil banalidades cheias de sentimentalismo, muito estafadas pelo uso, que elle conservava todavia no seu cerebro, como se conservam as coisas pathologicas nos frascos d'alcool.

A Adelaide escutava−o e sorria−se; lá bem no seu intimo achava−o tolo, mas a educação impunha−lhe o dever da admiração, e a sua voz, se algum dia se levantasse para dar uma opinião ácerca de Alberto, diria que 9

A Divorciada

era um rapaz elegante, fallando muito bem, com muito sentimento.

Pouco a pouco os convidados foram−se retirando. As senhoras sahiam muito embuçadas nas suas mantas de lã, aconchegando as capas sobre o pescoço, que o ar frio da rua espreitava com uma anciedade de bronchites.

Na atmosphera da sala um espesso ar condensado de gazes embaciava. As velas de stearina desciam ao nivel das aparadeiras e as heras tinham um verde pallido, que entristecia. O piano, como um grande monstro adormecido, mostrava os seus dentes de marfim, cançados de mastigar notas desafinadas.

O Mendes examinava todas as salas com um cuidado minucioso; sobretudo o quarto do Juca merecia−lhe dobrada attenção.

—Ás vezes, alguma ponta de charuto, um descuido qualquer, podia originar um incendio—dizia cheio de cautelosas prudencias.

A Adelaide no seu quarto despia os atavios da festa; o seu corpo alquebrado deixava−se lentamente cahir n'uma molleza do esgotamento.

Estava morta por tirar aquelle maldito penteado,—dizia—nunca mais se serviria d'uma tal cabelleireira; e o collete como a apertava!

Em baixo o Juca mettia−se na cama com um—Ah!—de satisfação, de quem termina uma tarefa; uma pontinha de alcool fazia−lhe pesar a cabeça; o somno veio logo n'uma caricia despotica, de obediencia cega, fazendo−lhe cahir das mãos um romance de Ponson, que elle tinha o habito de lêr, todas as noites, antes de adormecer.

O Mendes estava muito loquaz, desabotoava−se com uma sem−ceremonia deshonestamente familiar, passeando no quarto, olhando a Carola que se desfazia perante o toucador, mostrando os hombros nús, roliços, humedecidos por um suorsinho quente.

—Até que emfim!... respirava ruidoso, n'uma expiração forte, prolongada, dilatando as bochechas.

—Uma soirée de truz, ein, Carola!

—Que sim—e atirava para o dorso a cabelleira farta, matisada de fios brancos, ennovelando−a na touca de noite, com uma elevação de braços esculpturaes, de axilas humidas, que punham desejos no cerebro um poucochinho quente do seu velho marido, do seu Mendes.

Entrava uma luz alvacenta pelos stores da janella, e fóra ouvia−se o movimento murmurioso d'uma população que desperta. O canario começava a pipilar na gaiola, sentindo as livres aves gorgearem na frescura dos quintaes, e, na rua, os vendilhões ambulantes povoavam de sons estridentes o ar nebuloso da manhã primaveral.

10

A Divorciada

II

Tinham decorrido quinze dias.

O namoro havia pegado, consolidara−se. Com uma certeza chronometrica o Alberto passava invariavelmente, todas as tardes, em frente da casa de Ermelinda.

Uma vidraça corria no primeiro andar e logo depois a filha de Jorge apparecia, com um sorriso engatilhado nos labios e um alto penteado na cabeça, emmoldurando−se no fundo escuro do desvão da janella.

A visinhança reparara a principio.

—Havia mouro na costa—diziam—mas pouco a pouco a tolerancia estabelecera−se, uma indifferença ordinaria, de coisa vulgar. A sua badine que tanto prendera as attenções, pelas curvas hyperbolicas que traçava no ar, fazendo signaes, já não despertava interesse; o lenço branco, rendilhado, simultaneamente absorvente dos defluxos e das impressões amorosas, ia creando o bolor dos esquecimentos, como teria creado o bafio das secreções. O namoro tornara−se um facto consumado, ordinario, sem a irritabilidade dos excitantes.

A casa do Jorge tinha uma frontaria só; era como uma cellula engastada no favo immenso da rua; apenas existia, formado por um angulo reintrante da casa proxima, um pequeno recanto, d'onde se exhalavam fortes vaporisações ammoniacaes. O Alberto, que não podia remediar esta inconveniente disposição, utilisava−a. Era d'ali, que elle, occulto pela sombra do predio, procurava fallar com Ermelinda.

A noite adiantava−se. O transito ia gradualmente diminuindo; a patrulha, n'uma locomoção arrastada e ordeira, tinha a apparencia vaga dos ruminantes na solidão dos campos. Clareações de gaz punham sombras indecisas, formando na rua projecções phantasticas. Uma faxa de ceu, limitada pela vertical dos edificios, mostrava estrellas descoradas e pallidas, como lantejoulas sujas d'um vestido de comediante.

Adejavam surdos murmurios d'um movimento longinquo; e proximo, n'uma tanoaria, um martellejar compassado e monotono affirmava vigilias prolongadas d'um trabalhador obscuro. Ao fundo da rua um leque de luz sahia da porta meio aberta d'um armazem de vinhos; sentiam−se vozes disputar, e na esteira luminosa atravessava de quando em quando um ebrio, que forcejava por conservar um equilibrio digno. Abria−se alguma janella com estrondo e um choque d'aguas, chapeando na rua, indicava uma contravenção do codigo municipal.

O Alberto vinha sempre muito aconchegado no seu pardessus, a garganta agasalhada nas dobras quentes de um cache−nez; mansamente, como uma cobra que deslisa, elle introduzia−se no recanto proximo e accendia um charuto.

Era o signal.

Uma vidraça rangia no primeiro andar da casa de Jorge, e a Ermelinda, muito intrigada, cheia de pequenos sustos deitava a cabeça de fóra da janella, investigando no espaço os raros vultos que passavam, como se receiasse compromissos.

Cumprimentavam−se com trivialidades, ligeiramente. Depois o Alberto, no desempenho romantico do seu papel de namorado, arremeçava para o alto umas phrases sonoras, d'um gongorismo empolado, crepitantes, como foguetes de lagrimas n'um ceu luarento, em noute de arraial.

—Que não acreditava, que era uma impostura.

—E porque não?

—Os homens! quem podia fiar−se n'elles! havia por ventura nada mais falso?—dizia muito queixosa das amarguras da sua experiencia malograda, em coisas de namoro.

—Ah! que elle não era assim!—protestava—que sentia por ella um immenso amor, infinito, como só uma vez se conhece na vida.

—E mais quem!—sorria, n'uma duvida amavel que lhe lisongeava a vaidadesinha de conquistador.

—Podia jurar−lh'o—affirmava—por tudo o que houvesse de mais sagrado aos seus olhos, pelo seu coração, pela sua sorte, pelo proprio Deus!

Ermelinda calava−se. N'estes momentos parecia−lhe que, se fallasse, profanaria a musica apaixonada e sublime d'aquellas juras d'amor; concentrava−se sobre as suas phrases cheias d'uma secreta adoração mystica 11

A Divorciada

e sentia−se invadir d'umas sensações deliciosas, que a enterneciam.

—Não! elle não podia mentir—pensava—como era feliz em ser assim amada!

Um extasi ineffavel a envolvia docemente, suavemente, como um banho tépido d'essencias perfumadas.

Se interrogasse então a voz occulta do seu espirito, não poderia dar uma definição de si propria.

—Ah! se podesse voar com elle para um ceu distante, para o desconhecido!... que felizes que seriam!...

Deixava−se fluctuar na atmosphera quente da rêverie, como as grandes aves serenas e mansas, que dilatam as azas, pairando, sobre as alturas do azul. Mas elle em baixo, quebrando a cinza branca do charuto, interrompia:

—Em que pensava?

—Ah! nem ella poderia dizer−lh'o.

—Que era talvez em outro; notava n'ella certa distracção, bem se via, uns modos... tão poucas palavras!...

—Que era só n'elle—protestava convencida.

—Ah! era então muito feliz.

—Muito, muito?—perguntava sorrindo com uma certeza de que havia melhor.

—Muito, muito, não! para isso só uma união eterna, indissoluvel, que os tivesse sempre juntos, unidinhos, como um casal de pombos enamorados.

Ermelinda sentia um rubor honesto, de felicidades nubentes, invadir−lhe a face.

—Ah! que a Amelinha Bastos essa é que fôra feliz! Um bello casamento! E então só o vestido do noivado, que dinheirão!... Mas nem por isso estava bonita, não lhe parecia?

—Que sim—respondia desdenhoso.

—E sempre teve um dia mais desagradavel: chuva, sempre chuva! era insopportavel; apesar do trem, tinha−se toda salpicado de lama! O seu casamento havia de ser n'um dia alegre de sol, muito sol; não achava melhor?—

—De certo! elle todavia julgava indifferentes essas cousas! qualquer dia era bom!

Calavam−se; um novo silencio cahia, como as pausas lentas d'um trecho de musica.

A patrulha voltava do seu gyro; e ao ver ainda os namorados, observações baixas, eivadas de um philosophismo de caserna se suscitavam.

Que o gajo ainda estava de sentinella, não tardava em apanhar uma queixa de peito.

—Deixasse lá—respondia o camarada—comiam−lhe bem e bebiam−lhe! não eram como a gente, uns desgraçados! um rancho sem sustancia, e mortos de serviço.

Ermelinda fallava; mas um carreiro, em articulações gutturaes, d'uma linguagem primitiva e grosseira, praguejando contra os bois, não deixava ouvir. O carro affastava−se produzindo sons estridentes nos parallelipipedos.

—Para isto não olhava a policia—murmurava o Alberto, indignado, agitando a badine.

—Que o tempo parecia querer mudar—dizia ella—estava−se a pôr frio, nuvens caminhavam escurecendo o céo; uma estação tão inconstante!

—Exactamente, como as mulheres!—arguciava.

—Não, isso, não! Elles sim! não havia hoje quem encontrasse um coração leal, todo occupado na imagem d'uma só mulher!

—Nem o meu?

—Eu sei! Os homens são tão voluveis!

—Ah, que ella o não amava! do contrario não fallaria assim!—dizia todo offendido, n'uma voz rapida, d'um tremulo nervoso.

—Se o não amava! nem dissesse tal! era uma blasphemia, daria por elle a sua felicidade, a sua vida.

E quasi se sentia arrependida de lhe ter chamado voluvel; uma grande tristesa subia ao seu espirito, fazendo−lhe experimentar alguma coisa de commovente, que lhe marejava d'agua os olhos limpidos e bellos.

N'aquelle instante desejaria cortar por todas as conveniencias, saltar d'aquella janella, aproximar dos seus labios a fronte pallida do seu amante e dizer−lhe n'um impeto d'amor:

—Amo−te, Alberto, amo−te muito.

Depois ajoelhar−se n'uma supplica muda, para que elle a levantasse, doido d'amor, muito carinhoso e meigo, como já tinha visto fazer no theatro ao actor Santos, quando se representava o Antony.

12

A Divorciada

Mas quando ella se arroubava n'estes pensamentos languidos, enternecida e melancolica, um vulto apparecia ao fundo da rua, fazendo estalar uns passinhos miudos, rapidos, de quem tem pressa de chegar.

—O pae, o pae, adeus!—despedia−se atrapalhadamente, fechando a janella com o menor barulho possivel.

—Que raio!—regougava o Alberto n'um plebeismo grosseiro de indignação irada, como se desejasse fulminar com a vehemencia da sua apostrophe o cidadão honesto, que recolhia tranquillamente do seu whist, do Club. E desalojando−se da posição, seguia rapido na direcção opposta, embuçando−se mais, com as mãos nos bolsos, repuchando o casaco sobre os rins, com arrepios de frio. Voltava−se obliquamente para ver entrar o Jorge e depois retrocedia, lentamente, devagar, como um vadio incorrigivel.

Olhava; vultos perpassavam no fundo luminoso da vidraça descida.

—Devem ir tomar o chá—pensava—emquanto elle, exposto ao relento da noite, á neblina, á intemperie, tinha de atravessar quasi meia cidade, um estirão, para se metter n'uma pocilga nojenta, miseravel, que o revoltava.

Caminhava lentamente, com mau humor; as linhas do seu rosto vincavam−se n'uma irritabilidade surda, espelhando o lodo da sua alma.

Atravessou ruas desertas, praças onde apenas as grandes arvores se levantavam, como espectros collossaes; ás vezes uma guitarrada apparecia, cantando trovas fadistas, acanalhadas; mulheres que estendiam a mão e a honra á philantropia que voltava das ceias, occultavam−se na sombra, como vermes que se arrastam.

Alberto desceu os Clerigos, atravessou a praça de D. Pedro, subiu a rua de Santo Antonio.

Morava em S. Victor.

Ao chegar á Batalha parou para accender um charuto. Dous vultos que vinham na sua direcção gesticulavam, fallando alto.

—Com que então depennado!

—De todo!... se me emprestasses uma libra mais, uma coroa que fosse!... estou com palpite! Era no rei de espadas, acredita−me.

—Deixa−te d'asneiras; não basta o que lá te ficou! outra vez tirarás a tua desforra!

Affastavam−se; palavras indistinctas, confusas, fluctuavam no espaço sonoro.

O Alberto pareceu meditar; as suas mãos revolviam com avidez os bolsos.

—Cinco tostões, que miseria, posso lá fazer figura!—disse com desalento.—Deu alguns passos mais, parou de novo, indeciso. A ideia do jogo, symbolisada n'aquelle rei de espadas, aferroava−lhe o cerebro, como uma vespa opportuna que se enxota debalde.

—Tambem pouco perco, vamos lá.

Resolveu−se.

Retrocedeu e entrou no Gremio. Jogadores infelizes sahiam; em cima ouvia−se um brou−ha−ha ruidoso e tosses convulsas provocadas pelo fumo do tabaco.

A atmosphera espessa podia partir−se, asphixiava; no soalho os escarros collavam−se ás pontas de cigarros.

O Alberto entrou, sem se incommodar, como velho conhecimento.

O banqueiro apresentava n'aquella occasião um rei d'espadas.

—Jogo—disse rapido.

A sorte foi−lhe favoravel. Duas horas depois um monte d'ouro estava na sua frente. Os olhos irradiavam−lhe alegrias febris; nas faces tinha o calor rubro das congestões. Os amigos rodeiavam−o como a um semi−deus olympico.

Jogou a ultima parada, levantou−se; convidou os rapazes para uma ceia. Felicitações choviam e sorrisos felinos, de invejas abafadas, procuravam−o de todos os lados.

O sol banhava de luz a cidade, quando o Alberto, com os olhos baços, cambaleando, se mettia n'um trem e mandava bater para o Central.

13

A Divorciada

III

A hora ia passando, Ermelinda começava a manifestar uma impacienciasinha.

—Já se vai demorando—pensava—e investigava com o olhar contrahido, os vultos que ao longe apresentavam com Alberto uma semelhança na estatura, no andar. Mudava de posição frequentemente, aconchegava−se para o canto da janella com o fim de apanhar uma porção de horisonte mais extensa.

A noite cahia e os empregados do gaz, n'um passo rapido, de tarefa imposta, accendiam os candieiros, que atiravam projecções luminosas sobre a calçada, e sobre as frontarias dos predios.

Começava a ser frequentado o armazem, lá ao fundo da rua; os transeuntes iam diminuindo, e os vendilhões, n'um grito rouco, fatigado, apregoavam ainda os ultimos productos do seu commercio. Um rodar surdo d'americanos serpenteava, e as luzes vermelhas, como olhos injectados, passavam rapidas, oscillando.

Uma sombra caminhava n'um movimento circular, desapparecendo, á medida que o vulto se approximava da luz.

—Ah! d'esta vez era elle, conhecia−o no andar—e escondia−se, maliciosa, para o surprehender.

—Mas não—o sugeito continuava a caminhar indifferentemente, não attentando n'ella sequer.

—E esta!—dizia, n'uma voz tremente, nervosa, de desillusão provada.

Mas depois, reflectindo:

—Não ha que ver, não vem!—e possuia−se d'uma irritação surda contra tudo e contra todos; um ferro que não podia bem explicar.—Parecia−lhe que os seus nervos tinham uma sensibilidade electrica; que era toda outra, inteiramente diversa.—

—Mas não tem explicação possivel!—murmurava.

Pensava em acalmar, em socegar; olhava distrahidamente as estrellas que fulguravam nas alturas, procurando n'uma rêverie indolente e malandra, uma especie de quietação scismadora e contemplativa que a absorvesse.

—Mas não podia,—irritava−se mais, contrahiam−se−lhe n'uma crispação nervosa as linhas da physionomia e a sua vontade, o seu desejo, seria n'aquelle momento converter−se n'um vendaval violento, que assolasse, que devastasse tudo na sua passagem. Tinha intermittencias de paciencia, acalmava; o rosto espelhava resignações como a superficie d'um lago, onde não sopram ventos; mas lá dentro uma agitação surda roía, como um verme das madeiras no silencio dos quartos de dormir das velhas estalagens. Cançada de esperar, fechou a janella, com estrondo rapidamente.

—Canalha—murmurou enraivecida.

E passando pela Joaquina disse−lhe exaltada:

—Diga ao papá que hoje não esperei, doía−me a cabeça.

—Se queria um chá de cidreira.

—Tome−o Você—respondeu com asperesa, como uma nortada rija.

—Vai com a telha!—

Entrou no seu quarto, fechou a porta bruscamente.

A Joaquina ainda philosophava:

—bem o dizia ella, estava com a telha—e continuou a correr o ferro de brunir sobre uma camisa de homem.

Uma lampada de vidro fosco, suspensa n'um tripede de metal bronzeado, punha uma meia luz suave sobre o recinto, onde entrara Ermelinda.

Deixou−se cahir n'uma chaise−longue; os seus joelhos sobrepondo−se, n'um habito de quem costura, deixavam sahir da linha desordenada do vestido alvuras de saias e um pé elegante, n'um sapatinho de bico, enleado, que deixava vêr a fórma nervosa um pouco secca, da perna calçada em meia côr de rosa.

Apoiou a face sobre a mão esquerda, e os seus dedos, n'uma mechanica inconsciente, beliscavam inquietos o rosado lobulo da orelha. Os olhos extacticos e mudos como dois lagos de luz, poisavam, n'uma absorpção humida e contemplativa, sobre os moveis d'aquelle ninho tão povoado das suas ideias, dos seus sonhos, das emanações perfumadas da sua alma.

14

A Divorciada

Tudo porém n'aquelle momento se lhe affigurava estupido, inerte, sem uma recordação, sem uma saudade.

O espelho do toucador reflectia−lhe sombras indecisas e vagas; os pequenos frascos de crystal, cheios d'essencias que ella tanto amava, pareciam−lhe agora comparsas imbecis que rodeiam o genio d'um grande artista. A sua commoda pequena, com embutidos de madreperola, onde guardava os seus bellos vestidos, tinha as apparencias informes d'uma tartaruga collossal, empalhada, nos ocios de museu.

Como nos lagos tranquillos, ao avisinhar das tempestades, saltam ao lume d'agua peixes prateados, assim tambem do intimo do seu peito respirações suspiradas sahiam de quando em quando, agitando−a na quietação muda das suas meditações concentradas.

—Porque não teria elle vindo?—

Era a pergunta que o seu espirito não cessara ainda de formular, sem que sahisse do circulo vicioso, d'uma resposta negativa. Acudiam−lhe muitos motivos, muitos pretextos, para o desculpar, para o censurar.

—Assim! sem mais, nem mais!—pensava—é ter−me em muito pouca estima—e cheia d'um phrenesi nervoso apertava com mais força o lobulo da orelha, respirava frequente, agitando o seu sapatinho n'umas flexões rapidas, que indicavam necessidade de movimentos expansivos.

Os olhos marejavam−se−lhe d'uma humidade turva, lagrimas segregadas no reflexo de coleras occultas.

—Mas se estivesse doente! Ah, como era infeliz! Que maldita duvida—e deixava−se cahir n'uma suavidade de sentimentos, esquecia todas as recriminações, todas as queixas, tudo o que podesse recordar−lhe uma falta d'elle. Lembrava−se apenas que estaria talvez só, desamparado, entregue á indifferença egoista de criados de hotel, sem um amigo, sem uma irmã carinhosa, desvelada, que o affagasse como a uma creança, que lhe tomasse a cabeça entre as mãos, que depozesse um beijo animador na sua testa aquecida pela febre.

Via−o sorrindo, se ella lhe podesse apparecer, com aquelle sorriso meigo dos febricitantes e o olhar prostrado, d'uma languidez doentia—que lhe devia ficar tão bem!—

Chorava então. A sua alma de mulher, apesar de educada na sentimentalidade vadia das pieguices de collegio, dos namoros de janella, das missas ao Domingo, dos luxos baratos, das leituras romanescas, dos sorrisos de soirées, irradiava uma sensibilidade pura, honesta, como um sol, que empanado pelo escuro das nuvens, se entremostra uma vez ou outra no fundo luminoso e transparente do azul sereno e indefinido.

—Ah, como desejaria ser sua esposa, sua irmã, sua amiga! como ella o amaria assim doente, como seria desvelada, solicita, carinhosa.—

Calava−se; as lagrimas deslisavam sobre as suas faces, abundantemente, como um rio que se solta. Pouco a pouco diminuiam, estancavam−se n'uma sensação ardente, de febre nervosa que a invadia. Sentiu frio, lembrou−se que já era talvez muito tarde. N'este instante o Jorge voltava do Club. A Joaquina fazia tilintar dentro as chavenas do chá.

Poz−se em pé e principiou a despir−se; a sua cama á franceza, estreita, de colcha branca, esperava−a n'uma attitude virginal e passiva, como um ninho abandonado, ás quentes irradiações de corpos vivos.

Era aquella tambem a hora a que costumava despedir−se d'Alberto; por isso a crise ia diminuindo, cahia n'um desalento molle, de prostração fatigante. Metteu−se no leito, despenteada, com um vagar preguiçoso, de habitos indolentes, alisando o travesseiro. Uma sensação de frescura do linho a penetrou até á medulla; teve um calefrio rapido, um ah! de satisfação; ennovellou−se, como as creanças debeis e ficou assim, muito tempo, sem se mover, com os vagos olhos absortos, pregados na lampada, que ardia.

Lembrou−se que não tinha resado; descobriu o braço e fez o signal da cruz; os labios balbuciavam umas orações banaes, narcotisadoras, que lhe fizeram pesar as palpebras.

Tinha adormecido. Nas linhas do seu rosto divisava−se ora um sorriso alegre, de satisfação saciada, ora uma contracção spasmodica, revelando amarguras, desesperos intimos, que a commoviam. Sonhava com Alberto.

—«Via−se noiva, de vestido de faille branco, muito chic, feito nas Ferin, tendo ao peito um ramo de flôr de laranjeira e na cabeça um penteado elegante, coroado por uma grinalda identica, onde prendia um véo de tulle, amplo, magestoso, que a velava pudicamente; nunca lhe parecera tão pequenino o seu pé, como calçado n'aquelle sapato branco, de setim, dando um realce artistico á sua perna gentilmente vestida em meia de seda.

—Ah! como o Alberto gostaria d'ella assim!—sorria vaidosa—

—E a elle, via−o tambem, muito frisado, de gravata branca, a camisa com abotoadura de brilhantes, de casaca, muito attencioso, muito reverente, cheio de elegancia, invejado por todas, por ellas, pelas suas amigas, 15

A Divorciada

que a felicitavam com sorrisinhos traiçoeiros, compromettedores, que faziam córar.

E de sobre a elegancia da sua toilette de noiva, ella, para se vingar, deixava cahir sorrisos, animadores, de consolação, para a Adelaide Mendes, para as Gomes, para a filha do Bastos, e outras que ainda estavam solteiras.

Via o aspecto dos trens, enfileirados, ao sahir da egreja, e a sua carruagem de noiva, com os cavallos brancos, e cocheiros de fardas vistosas. O commendador Faria, muito cheio de brilhantes, pesado, enchendo elle só um trem, seria o padrinho.

Ao sahir, quando já vinha pelo braço d'Alberto, as mulheres do povo, cobrindo−a de santas aspirações, de bençãos:

—que Deus a fizesse feliz, que fosse em boa hora—

—Apesar de que não promettia muito a cara do noivo—observara uma aldeleira ambulante, de grosso ventre levantado, e roupas velhas penduradas no braço de côres arreliosas.

Que vontade teve de a esganar, o diacho da velha... dizer que o seu Alberto, tão lindo, tão sympathico, não tinha boa cara: forte bruta!—

Mas esqueceu−a breve; o cortejo dos convidados, um sequito apparatoso que a rodeava como a um astro, fazia−lhe vaidade, tornava−a feliz, parecia−lhe que a dilatava de superioridade.

Depois os convidados, n'uma civilidade ironica, iam−se despedindo. As senhoras abraçavam−a, segredando−lhe ao ouvido e pondo beijos miudinhos nas suas faces aquecidas. A final ficaram sós, ella e o seu amado, o seu marido! Havia uma lampada de crystal no quarto e os cortinados, como as vélas d'uma gondola, agitavam−se trementes, como se o leito fôra na realidade um barcosinho, onde ambos tivessem de navegar para um paiz distante, desconhecido, estranhamente novo. Elle tomara−a um pouco arrebatadamente, sentando−a nos joelhos, affagando−a com beijos e sorrindo, ao tirar−lhe o véo de noiva, que a fazia reflectir no espelho do toucador, toda branca, d'uma brancura eburnea, de camelia nevada.

E no seu rosto adormecido divisava−se um limpido sorrir, de doce voluptuosidade, como se a alma lhe irradiara nas sensações tépidas d'aquelle sonhar delicioso. Mas logo após esta serenidade tranquilla e suave, em que talvez a sua imaginação voasse para esse periodo ditoso e perfumado da lua de mel, em que teria sempre junto de si o seu maridinho, muito carinhoso e muito meigo, o periodo dos jantarzinhos frugaes e delicados, com flores na meza e alegrias no espirito, as linhas da physionomia contrahiram−se−lhe n'uma crispação dolorosa, e o sonho revestia uma feição diversa, em que a amargura vinha como uma flor envenenada, empeçonhar os dias de ventura;

—era ainda aquelle o Alberto que ella amava, mas desleixado, vadio, ébrio; tinha grosserias insupportaveis, ferocidades de despota—

—e via−se triste, chorando muito, sem um consolo, sem um carinho que a alentasse...—era horroroso—estava diante de si uma galeria subterranea, escura, um abysmo de sombras...

—não, não queria caminhar, tinha medo...—mas elle, rindo, dera−lhe um impulso brutal, fizera−a entrar; um caminho escabroso, cheio de asperesas, silvados rodeando−a por todos os lados... cada passo custava−lhe muitas lagrimas... e o Alberto ria, ria, estupidamente, como um idiota embriagado... Um anjo se approximou d'ella; tinha o perfil do commendador Faria, com os seus oculos d'ouro, e as mãos a despedirem luz como as dos illuminados celestes; mas a luz sahia−lhe da base dos dedos, do logar dos anneis; e tomou−a nos braços, sentia−se voar, muito cheia de doce gratidão, quasi esquecida, quando uma creança se lhe prendeu aos vestidos, parecendo reprehendel−a d'aquelle vôo egoista, olhando−a com a limpidez casta d'uns grandes olhos pretos;... mas o anjo—commendador dominava−a, arrastando−a sempre, perguntando−lhe n'um adociado brazileiro:

—se a sinhasinha não voava,—que morreria se parasse, lá estava o snr. Alberto a rir−se d'ella—

e—sim, lá estava!—olhou para traz, uma enorme cadeia a prendia a elle, e uns policias passavam então, empurrando−a, batendo−lhe brutalmente.

—Queria fugir, fugir: era horroroso!»

Despertou então. Um suor frio lhe humedecia a testa; a cabeça doia−lhe um pouco, sentia−se fatigada. A luz da lampada esbatia−se moribunda nos primeiros alvores da manhã que vinham entrando pelas fendas da janella; ouviu o gallo cantar no quintal e logo depois uma voz arrastada, n'uma melopeia monotona, bradando do fundo da escala:

16

A Divorciada

—Leiteira!—

A Joaquina desceu; ouvia−se um murmurio indistincto de vozes feminis, e em seguida o estrondear da porta que se fechava.

N'aquelle dia andou toda alvoroçada, nervosa, muito inquieta. Olhava muitas vezes o relogio, uma pesada machina de nogueira, a que o Jorge todos os sabbados dava corda, com a phrase rythmica:

—Tens de comer para oito dias.—

Parecia−lhe que os seus largos ponteiros de metal se moviam com uma lentidão desesperadora. Teve vontade de o adiantar—mas era uma tolice—pensou.

Sentou−se a trabalhar para ver se distrahia. Descobriu no bastidor um bordado delicado, a matiz, um ramo de rosas, sobre que vinha poisar uma borboleta. A mão porém não lhe assentava, as sedas sahiam frequentemente da agulha, o desenho errava.

—Ora! não estava para aquillo.—

Levantou−se, principiou a ler; era «Agulha em palheiro» de Camillo Castello Branco; interessava−se muito por aquelle sympathico filho do sapateiro, o heroe do romance, e sentiu deslisar umas lagrimas furtivas ao ver a formosa Paulina, uma doce creação do romancista, tão soffredora e tão amante.

Tocaram a campainha.

—Quem seria?—disse pousando rapidamente o livro e pondo−se diante do espelho, para anediar o penteado.

—Se fosse visita de ceremonia! que massada.—

Mas a Joaquina veio dizer:—que estava ali a snr.ª D. Amelinha Bastos, aquella que tinha casado.—

—E vem só?—

—Vem, minha senhora.—

—Ah! que mandasse entrar para a sala de visitas, que se aviasse.—

—Não te encommodes, não te encommodes, menina, eu não sou de ceremonias, venho mesmo para a tua sala de trabalho,—disse a Bastinhos entrando estouvadinhamente, chilreando como um passaro alegre.

Beijaram−se muito,—que não havia quem a visse, devia estar muito zangada, se era cousa que se fizesse.—

—Ai, filha, tenho tido tanto que fazer.—

—Tira o chapéu; espera, eu o tiro,—

e com um geito feminil, delicado, levantou−lh'o de sobre o penteado, emquanto a Amelinha, quieta como uma creança que se enfeita, esperava n'uma attitude passiva.

A Bastinhos principiou logo a fallar, tinha uma grande verbosidade, muita volubilidade nos pensamentos, de quem tem muito a descrever, mas que o faz sem methodo.

—A modista, os passeios, o theatro, se não sabia do ultimo escandalo da mulher do commendador Bernardo, que fôra uma vergonha, que o marido ia requerer o divorcio.—

—Estou admirada!—dizia−lhe Ermelinda.

—É o que te digo, menina, e então com quem, vê se adivinhas?—

—Não, que não adivinhava.—

—Com o Alberto, filha, com o Alberto!—e desatou n'uma gargalhada crystalina, debruçando−se sobre o bordado a matiz, muito curiosa.

Ermelinda sentiu as pernas tremerem−lhe; a sua physionomia invadiu−se rapida d'uma pallidez pronunciada; o seu desejo seria ter n'aquelle momento uma explosão de colera, de lagrimas; mas a Amelinha Bastos estava ali e a sua presença suffocava−a, como uma mascara que nos affogueia o rosto.

—Se queria tomar alguma cousa—perguntou−lhe—tinha−se esquecido.—

—Nada, nada!—

—Vê lá, menina?—

—Tens tu por ahi Xerez? é do vinho que mais gosto, meu marido aprecia−o muito!—

—Que ia buscar−lh'o n'um instante, que a desculpasse por ter de ficar só.—

—Á vontade, filha, á vontade—e pegou no romance que Ermelinda estava lendo, em quanto esta se retirava a buscar−lhe o Xerez.

D'ali por momentos Ermelinda entrou com uma pequena salva de prata, onde vinha uma garrafa de crystal 17

A Divorciada

e dous calices; a Amelinha muito prompta, com grande espalhafato, foi ajudal−a. Ella mesma encheu os calices e tomando um, disse com modo desenvolto:

—Á tua felicidade, Ermelinda.—

—Obrigada, menina.—

Mas os seus olhos turvaram−se d'umas lagrimas, depressa occultas n'um lenço em que fingiu assoar−se; dentro mesmo ella tinha chorado, agradecendo no seu intimo á Amelinha aquelle desejo do Xerez, que lhe dera uns instantes de isolamento.

A Amelinha, sentada na chaise−longue, saboreava o vinho em pequenos sorvos, fazendo covinhas nas faces. Depois, como tomada d'uma lembrança repentina:

—E o teu namoro, como vai, menina?—

—Oh, filha, se queres que te diga...—

—Dize lá, dize lá, estou muito curiosa de saber—e curvou−se um pouco, n'uma pose confidencial, de quem escutaria com ávido interesse.

—Andamos assim, meios cá, meios lá—respondeu Ermelinda encolhendo os hombros, franzindo o labio,—se queres que te diga, menina, já me importei com elle, aquillo foi uma phantasia, uma brincadeira que pouco durou! Para mim já não ha illusões.—

—Pois tinham−me asseverado que te casavas.—

—Credo, nem se pensou em tal!—Mas como desejasse evitar a continuação da conversa:

—E tu, como te dás com o Guilherme?—

—Bem, filha, magnificamente!—

—Tu é que foste feliz—disse Ermelinda tomando a mão, que a Amelinha abandonou, n'uma nonchalance de bébé, gosando com aquelle aperto que lhe lembrava uma caricia do seu maridinho.

—Por emquanto não tenho rasão de queixa; o Guilherme não vê outra cousa diante dos olhos; até, se queres que te diga, ás vezes chega−me a aborrecer com tantas pieguices.—

—Ingrata...—

—Ingrata, não! Mas tu o sabes... sou assim um poucochinho estroina... não gosto de homens tão serios e tão pêccos.—

—Olha, menina, é n'essas pequenas coisas que consiste a felicidade.—

—Boa! ahi queres tu prégar−me um sermão de moral! oh, menina, enche−me este calice; mas ainda agora reparo que tens lagrimas nos olhos!

—Lagrimas, eu! estás doida!—

—Coitadinha da pequerrucha, que quer illudir uma mulher casada—disse arrastando a voz n'um chilrear cantadinho—e batendo−lhe na face palmadinhas amigaveis, animando−a, pedindo−lhe a confidencia d'aquelle chôro.

—Que não era nada; ás vezes ficava assim nervosa, tinha d'aquellas extravagancias.—

—Nervosa, tambem ella era muito! o dr. Arnaldo Braga dizia que era todo o seu mal—e a Amelinha principiou a explicar, com grande volubilidade, as impressões que sentia ouvindo musica, ao ver no theatro um drama triste, ou então quando o seu gato preto, em certos dias, se lhe atravessava no caminho e ella, sem querer, lhe pisava a cauda e ouvia o miar queixoso do animal.

—Muito nervosa, muito! este anno vou até para a Foz e tomo um grande numero de banhos; já combinei com o Guilherme.—

—És feliz, menina, és feliz!—

—Assim!...—fez Amelinha contrahindo o labio com certo desdem! e curvando−se disse−lhe ao ouvido uns segredinhos quentes, que fizeram enrubescer Ermelinda.

—Ora!—respondeu esta—póde lá ser isso!—

—É o que te digo, filha!—e a Amelinha, pondo−se em pé, principiou a passear, cantarolando a canção do Rigolleto:

«La donna é mobile»

N'este momento o velho relogio de Jorge bateu as duas horas.

—Ai! tão tarde! Credo! Adeus, menina, vou−me embora!—

—Já?—

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A Divorciada

—Já; ainda tenho de ir ao Pinheiro, a Cedofeita. Preciso umas guarnições para o meu vestido d'estação.—

—N'esse caso não te demoro!—e Ermelinda, collocando−lhe de novo o chapeu, fazia−a prometter que viria mais vezes, para passarem um bocadinho juntas.

—Estou ás vezes tão só!—

—Pois hei−de vir, filha, hei−de vir! e pondo−lhe na face uns beijos sonoramente cantados, a Amelinha, affogueada pelas irradiações do Xerez, muito alegre como um passaro na Primavera, desceu o véo de tulle branco sobre o rosto e sahiu, batendo com grande estrondo a porta da campainha.

—Sempre está uma douda!—disse Ermelinda vendo−a sahir!—e após um silencio de reflexão:

—E adeus, são estas as que são mais felizes!

19

A Divorciada

IV

Ainda n'aquella noute o Alberto deixára de apparecer. No dia immediato era Domingo.

Os moveis quietos, n'uma ordem respeitavel, com uma seriedade burocratica, esperavam as visitas; tudo arrumado, polido, com grandes vaidades de limpesa. Tinham−se renovado as flores das jarras, de vidro fosco, com uns ramos de rosas pintadas no seu ventre bojudo; nem uma cadeira fóra do seu logar, nem um jornal sobre a jardiniere, toda aceiada com o seu panno de largas bordaduras, nem uma musica aberta sobre o piano, nem uma planta que se não houvesse regado, nem um album que não estivesse cuidadosamente fechado; uma falta emfim d'essa desordem adoravel, immensamente artistica, que prende o espirito ao ambiente salutar e alegre da sala de trabalho.

Dentro, nos quartos, a contrastar com essa monotonia aceiada para os que vem de fóra, sem descalçar as luvas, analysar os nossos albuns e criticar os nossos moveis, uma desordem perturbadora, preguiçosa, reles, cortada pelo cheiro ammoniacal de roupa suja, espalhada no chão, sobre as cadeiras, n'um monte desordenado.

A commoda d'Ermelinda, com as suas gavetas abertas, ostentava brancuras de saias, de penteadores, de camisinhas, e umas pequenas caixas de cartão, com estampas lithografadas, d'onde sahiam perfumes e folhas seccas, aromaticas. O cofresinho das joias abria−se indiscreto patenteando objectos d'ouro com finas perolas, brilhantes miudos, como olhares luminosos que pareciam espreitar da mollesa macia do setim azul.

Ermelinda toda opprimida no seu vestido de foulard cinzento, a manga um pouco larga, tomou uma manilha estreita e com um vagar indolente, embevecendo−se na penugem negra do seu braço, enrolou−a, correndo−a por sobre a carne, ao arrepio, até onde pôde seguir o arco da pulseira. Depois, ao calçar as luvas, ais abafados lhe sahiam do peito, suspirosos, como se reflectissem ainda as vibrações d'aquella crise nervosa, porque a sua alma houvera passado nos dias ultimos.

Mas o Jorge, que passeava lentamente na sala, ainda com o palito ao canto da boca, esquecido, com a meditação suspensa de calculos financeiros, de cotações da Bolsa, o fato endomingado, a camisa branca sobre que assentava a gravata preta de setim, um pouco impaciente já:

—Então vens d'ahi hoje, menina?

—Já vou, papá, já vou.—

E mais apressada, olhando−se ao espelho uma vez ainda, pregando um novo alfinete no collo do vestido, Ermelinda fechou a porta do quarto, e voltando−se para dentro:

—Prompta.

—Já não era sem tempo! isto de mulheres!—

No portal Ermelinda fazia o apanhado, que rangia n'um frou−frou de fazenda nova; emquanto a Joaquina de cima espreitava para os ver sahir, elles combinavam o passeio, consultavam−se sobre o caminho a seguir.

—Que era melhor ir primeiro á missa—dizia Ermelinda—e depois voltariam pelo jardim, ou iriam ao Palacio.

—Seria como ella dizia—concordava o Jorge.

E os dous, na plenitude vaidosa do luxo de Domingo, tomando apenas os passeios da rua, reverenciando as pessoas conhecidas, com um ar todo festival, de superioridade engrandecida, e de roupa lustrosa, seguiam para a Trindade, para a missa das onze. Homens á porta accumulavam−se vedando o caminho, e em frente, no atrio da Assembleia os dandys do Porto, fallando de cavallos e de jogo, ou contando anedoctas indecentes, estalavam grandes risadas que os faziam contorcer em posições ridiculas, funambulescas, dobrando−se, dando palmadinhas sobre as coxas.

O Alberto estava entre elles, e ao ver passar Ermelinda, toda comprimida no seu vestido, o seu bello olhar profundamente negro, a epiderme morena um pouco empallidecida, exhalando frescura, sentiu um desejo mordente de entrevistas nocturnas, de têtes−à−têtes amorosos, chegados um do outro, a cintura enlaçada, as respirações confundindo−se.

E quando o Jorge passou, cortejando palacianamente os seus amigos, elle notou que Ermelinda, ao havel−o reconhecido, voltara o rosto desdenhosamente, sem que denotasse no olhar sequer uma interrogação, uma queixa, um desespero.

20

A Divorciada

Os outros, que sabiam do namoro, perguntaram curiosamente:

—O que tinha havido, se as relações estavam cortadas?—e ao verem que o Alberto balbuciava, riram estrondosamente, beliscando−lhe o amor proprio.

Um mais intimo acercou−se d'elle:

—Se tinha cahido—perguntou.

—Deixa−me—respondeu bruscamente e partiu na direcção da Egreja, a badine agitada, n'uma convulsão de phrenesi.

—Bravissimo! Romeu feito Tartufo!...—e batiam as palmas, rindo da pilheria, muito contentes da sua imbecilidade enfatuada.

O padre sahia n'este momento da sachristia; um murmurio rumoroso se levantava entre a multidão que ajoelhava; as damas abriam os livros de missa, fazendo rugir estrepitosamente as saias engommadas, os failles novos, emquanto os homens, na seriedade dos seus casacos pretos, amontoando−se a um lado, estendiam lenços brancos, como genuflexorios. Uma luz suave cahia das janellas do côro derramando tons sanguineos, de damascos vermelhos, sobre as senhoras que ficavam n'aquella direcção, emquanto uma penumbra doce envolvia todo o resto. Destacavam dos corredores familias retardatarias; as meninas estouvadinhas, adiante, acommodando−se em passos miudos, como as aves que poisam, fitavam os homens com uma curiosidade muito feminil e cochichavam, reconhecendo alguem.

Houve um prurido devoto quando principiou a missa; os labios moveram−se silenciosamente; os olhos cravaram−se nos livros; as beatas faziam deslisar com avidez as contas untuosas; mas pouco a pouco o narcotismo das coisas monotonas ia−se derramando, causando tedios; bocejos disfarçados escondiam−se por detraz dos lenços brancos e os homens, com uma obstinação sensual, de namoradores vadios, apreciavam os melhores bocados, faziam vistas. Crevés de risca ao meio, muito aromatisados de patchouli, as luvas a estalar, cofiavam os pequeninos bigodes, fazendo signaes; e no fundo escuro das copas dos chapeus, cartas de namoro destacavam, impondo−se ás burguesinhas sentimentaes, que esperavam o aperto da sahida, no portico.

A Ermelinda estava proxima da Adelaide Mendes; o Alberto ficou em frente com o Juca, o sobrinho do brazileiro. Confidenciavam.

—E então a mulher do commendador, conta−me essa historia, menino?—

—Nem lhe falasse em tal! Ridiculo... simplesmente!

—Ah, ah! E o marido?

—Que era o mais santo dos maridos! Uma pomba!... tinha ido com ella para o Bussaco esconder as maguas na verdura dos cedros!...

—Mas apanhou−te!...

—Shoking!... respondeu encolhendo os hombros.

E em quanto o Juca o asseteava de perguntas, muito minucioso, querendo saber tudo, o Alberto olhava devoradoramente Ermelinda, torcendo o bigode, mordendo−o, franzindo o sobre−olho, n'uma attitude de irritação concentrada. Mas ella, muito seria, muito devota, poisando os bellos olhos no livro de missa, fingia não vel−o, entregando−se toda ao amor divino, e gosando com uma beatitude recompensada, a impaciencia que percebia manifestar−se n'elle.

A Adelaide Mendes segredou−lhe ao ouvido:

—Que o Alberto estava com o Juca, se já o tinha visto...

—Que sim, era−lhe indifferente.

—Então andaes arrufados?

—Não, mas... tinham−lhe passado os enthusiasmos.

—E está de luto! quem lhe morreu? sabes?

—Não, que não sabia!—e vesgamente, no estrabismo de quem quer ver sem que os outros dêem por isso, a filha do Jorge observava o Alberto, pondo−se a si mesma o ponto de interrogação d'aquelle vestir lutuoso.

—Se seria algum parente da provincia—pensava—e que elle tivesse de partir sem a poder avisar!... ah, sempre era então desculpavel—e enternecia, amollecendo a asperesa do olhar, quebrando−a no vago fluido dos olhos d'elle, que sentia poisar sobre todo o seu corpo, absorvendo−a.

Mas a campainha do coadjutor principiava a vibrar; corpos se curvaram n'um mysticismo reverente e ouviam−se os peitos echoar no tympanismo das contricções. O padre elevava serenamente a hostia, devagar 21

A Divorciada

com uma grande lentidão ceremoniosa! E depois, um silencio demorado, até que a campainha vibrou de novo mais forte, com sonoridade, como que dispensando as attenções; lenços se recolhiam no escuro das algibeiras e os homens tomavam uma pose mais elegante, o tronco direito. A benção desceu e todos, recurvando−se um pouco, se persignaram rapidamente, com desdem, voltando−se, comprimentando ceremoniosos, com a cabeça.

O povo começava a evacuar a egreja, n'um ruido de tropel, confusamente, de quem quer sahir primeiro. E as senhoras mais atraz, sorrindo, beijavam−se, fechando os livros. Os conhecidos vinham, comprimentavam.

—Suffocava−se um pouco,—

e lá fóra um sol alegre, primaveral, que brincava atravez do reposteiro, penetrando no templo, na instantaneidade da luz, quando alguem sahia. Grupos se formavam. A Adelaide Mendes, a Ermelinda, a D.

Carola, e envolvendo−as como n'uma circumferencia de respeito, o Juca de chapeu na mão abanando−se, com a desenvoltura d'um frequentador do Circo, o Jorge todo grave, um sorriso a escoar−se dos labios escanhoados para as suissas grisalhas, nitidamente penteadas, e o Alberto, n'uma pose melancholica, o chapeu sobre o quadril, todo de preto, com uns grandes ares romanticos e tristes.

O Jorge por uma polidez excessiva perguntou:

—Se fôra alguem de sua familia, que havia fallecido?—

—sua tia, D. Joanna de Atayde, lá na provincia, uma boa velha que quasi lhe fôra mãe e que até na morte o considera filho!

—deixando−te herdeiro, ein?—interveio o Juca:—

—que sim, que deixara, mas que sobre tudo lhe sentia a falta, um coração de santa!...

—os meus sentimentos—comprimentou gravemente o Jorge.

—pois olha menino, eu dou−te os meus parabens; e de mais a mais sendo ella velha!...—

Poz nos labios um sorriso amargurado como unica resposta. As senhoras tinham ouvido, e ellas tambem davam os seus pezames, tomavam parte na sua dôr;

—que eram consolações amigas, suaves como um balsamo—respondeu.

E quando Ermelinda lhe apertou a mão, foi já com uma compassividade meiga no olhar,—perdoando, sabendo em fim o motivo.—

Foram sahindo. Iam todos para a Cordoaria ouvir musica,—era a banda do dezoito que tocava, tinha visto isso no «Commercio»—dizia o Jorge—

—e o snr. Alberto se recolhia á provincia,—perguntava.—

—que não, ou talvez o fizesse temporariamente!... Venderia as propriedades e metteria o dinheiro em qualquer banco; além d'isso era preciso pagar as dividas de rapaz, tornar−se em fim homem sério!

—Tu!—desatou a rir o Juca.

—E porque não—observou o Jorge n'um tom amigavel de reprehensão—ainda está verde este diabrete—indicou sorrindo, apontando−o ao Alberto, com o grosso pollegar da sua luva escura—que fazia muito bem, denotava muito nobres sentimentos, todos tinham tido as suas rapaziadas, mas lá vinha um dia...

em que se tomava juizo—aconselhava.—

—faria por tomal−o elle tambem!—respondeu sério, n'um tom accentuado, de novas resoluções emprehendidas.

E emquanto o Jorge se enchia por elle d'uma sympathia calculada, vendo−o, regenerado, vivendo na boa sociedade, elegante e fidalgo, e de resto, namorando a sua Ermelinda, que poderia vir a ser sua esposa, o Alberto, num sorriso intimo, de bom comediante, acariciando o bigode:

—Estás cahido—meditava.

22

A Divorciada

V

O commendador Faria vestia−se no seu gabinete do Hotel; tinha um grande apuro de si proprio, muito escanhoado, o cabello lusidio de pomada, a risca ao lado, as barbas muito penteadas, a camisa d'uma brancura anilada com ricos botões de brilhantes. Tirou do bolso um chronometro inglez, de setenta libras—dez horas ein, e se esquecia de almoçar!—

e vestindo o casaco, dando o nó da gravata, ageitando os oculos em frente do espelho, foi abrir a janella do quarto; mas recuou, teve um movimento instinctivo de retirada,