A divorciada por José Augusto Vieira - Versão HTML

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—que caiporismo de mulher, não largava um homem, parecia Mineira, ella, que grande massada—

alto, porém, sorrindo, comprimentou a D. Clementina do Rosario, fez oscillar a sua grossa cabeça com um bello ar de amabilidade, teve mesmo uma phrase galante para com a visinha, que todos os dias, n'um rigor chronometrico de vinte e quatro horas, o asseteava com a sua carnação copiosa e fresca, o collo alvo da brancura lactea das camellias, e um sulco escuro, que descia, n'uma curva insinuante, attrahindo o brazileiro, cuja janella um pouco superior lhe offerecia as vantagens d'uma contemplação a vol d'oiseau.

—Uma manhã muito fresca—dizia—appetecia um passeio pelo campo—

—elle então que precisava tomar seus banhos em Vizella.

—e quem o impedia, ella talvez para lá fosse tambem aquelle anno—

—mas tinha seus negocios, que não havia outro motivo, não...

—na idade d'elle...

—quarenta e cinco, D. Clementina, já cá estatavam quarenta e cinco—

—que era isso! e ninguem o dizia, tão bem conservado.—

Sorria−se.

Um trem passava levando as palavras no ruidoso estremecer dos seus movimentos; vendilhões apregoavam, e a D. Clementina, na impossibilidade de atirar amabilidades para a janella do commendador, enviava uns sorrisos pudicos, d'uma honestidade quarentona, como ainda sabiam fazel−os os seus labios de purpura desbotada. E depois, quando voltou uma intermittencia de silencio, que permittia a transmissão da voz, erguendo−se um pouco, n'uma flexão tetanica de collo, muito novedadeira:

—Então sabe que Ermelinda casa!

—não, não sabia, boatos talvez—

—qual historia; era verdade, podia ella affiançal−o; estivera lá em casa ainda hontem; o commendador é que apparecia poucas vezes agora..., e não fazia mau casamento... o Alberto herdara d'uma tia—

—pois não sabia, não sabia!...

e o commendador deixando cahir mollemente a sua affirmativa, sentia passar na sua memoria avivada, como n'um kaleidoscopo, em que as imagens se succedem, aquella soirée de casa do Mendes, a sua infelicidade ao sólo, e seu enleio a dansar os Lanceiros, quando a Ermelinda um tanto coquette, envolvendo−o na doçura quente do seu olhar, exhalando aromas subtis, que embriagavam, lhe sorria acariciadora, mostrando a brancura dos seus dentes eguaes, e um collo decotado, suavemente trigueiro, onde poisava um formoso signal escuro.

E depois a noute de insomnia que elle passara, affagando aquella imagem que fugia, esvaindo−se na penumbra pallida das suas ideias desfallecentes.

O seu coração tivera então umas pulsações mais desordenadas, alguma cousa de estranho, como a onda d'uma vida nova, que elle nunca tinha experimentado. Lembrava−se que só uma vez sentira uma impressão quasi analoga, a bordo d'um paquete, por uma lady ingleza, de meigo olhar azul, que lia melancholicamente no tombadilho, á tarde, quando o sol cahia em irradiações douradas na linha do poente e se via a helice abrir um sulco nevado, de espumosa brancura, no dorso azul do grande mar dormente. Mas então, ao desembarcar no Lazareto, a ingleza seguira para Bordeaux e elle, na capital, fôra pouco e pouco esquecendo aquelle episodio romanesco da sua vida. Mas agora, lembrando−se que Ermelinda ia ser d'outro, que a veria todos os dias, sorrindo com a meiguice do seu olhar para o marido que lhe daria o braço, sentia um mal estar, um como desejo de ser mau, oppondo−se ao seu casamento, contrariando−lhe a felicidade, 23

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—não por que aquillo lhe importasse... mas, não sabia explicar, sentia−se encommodado, a final de tudo.

E distrahido, cofiando com um automatismo inconsciente a suissa grisalha, esquecendo que estava á janella a conversar com a D. Clementina, que o requestava toda vaidosa da sua redondesa de formas, retirou−se bruscamente, sem se despedir. Mas lembrando−se da sua descortesia, voltou:

—que o chamavam de dentro, se era servida de seu almoço.—

Ouviu−se no ar um

—obrigado—e o descer d'uma vidraça que cahia chronometricamente no caixilho, para só se erguer no dia immediato.

—ainda era aproveitavel esta D. Clementina, mas uma mulher que elle aborrecia, lhe causava nojo... e então não era para comparar com a outra... e ahi estava elle a pensar n'ella, se encommodava com aquillo.—

—que era uma tolice—pensava—já não era creança e a Ermelinda era uma rapariga nova... o pae havia de querer dinheiro... o banco não estava muito seguro, elle sabia d'umas transações pouco felizes—e não faltavam mulheres—concluia alto.

Affrouxava−lhe a genese do novo ideal perante o conhecimento prático da vida

—ora, que se não ralaria.—

E sahindo do quarto encaminhou−se para a sala de jantar, onde o esperava a costelleta que elle humedeceu com suas pimentinhas, o escaldado de farinha de Serohy, os ovos quentes, e simultaneamente a conversação dos companheiros, muito animada, recordando os affanosos dias do Rio de Janeiro, as distracções das Xacaras de Bota−fogo, das Larangeiras.

A conversação estabelecia−se, de companheiro a companheiro. Reminiscencias se avivavam, cortando−se mutuamente, como bolhas de champagne, que effervescem n'uma confusão tumultuaria. O Lourenço Pereira á direita do commendador, tinha acabado de almoçar, recostava−se, accendendo um charuto, reclamando o dessert do cavaco.

Fallou−se nas companhias de Bonds, que faziam percurso para o Bota−fogo.

—E a proposito, se recorda você, commendador, a partida que aconteceu lá ao Mendes, com aquella Francezita da rua do Ouvidor?—

—Pintou a manta aquelle estroina!

—Mas que o Juca Silveira não lhe ficava a dever nada, ein!—

—O Juca, é verdade!... e onde está elle agora, sabe você, Lourenço?

—Não é socio do Chico do Barbadinho?

—não, que não era! desmanchara de ha muito a sociedade

—elle, já me recorda elle! Pois esse rapaz tem agora commandita com o Pinto, aquelle que morava lá adiante na rua do Gonçalves Dias, á esquina.—

O commendador não se recordava; veio outra explicação do Lourenço subsidiar−lhe a memoria.

—O Pinto, que tem casa de molhados á rua da Alfandega, com o José Casimiro, que morreu da febre em 74.

—Já, já! Ora com quem foi parar o Juca! estava admirado!...

—E ia bem! A casa tinha muito credito do tempo de Cunha Almeida &C.ª

—Bom moço, o Juca!

Successivas recordações se evocavam, generalisando−se. O almoço tinha concluido; os estomagos digeriam na tranquillidade feliz d'um bem estar ocioso, e os charutos ardendo deixavam cahir a cinza esbranquiçada sobre a toalha da meza, d'onde o criado retirava os serviços n'uma attitude diligente e curva.

A luz suavemente cortada pelos stores, estendia um rastro alegre por sobre as aparadeiras, dando um brilho metallico ás louças que pousavam sobre o marmore, ás fructeiras, ao centro da mesa coberto de flores, aos crystaes dispersos ainda com restos de vinho, que não tinham sido levantados; em quanto as moscas n'um zumbir monotono, volteando em redor do grande candelabro de dous ramos, cahiam sobre as chavenas aproveitando os restos d'assucar.

Lá fóra, nas cruas irradiações do sol que batia n'um predio fronteiro, presentia−se um dia de calor, das fortes temperaturas tropicaes; mas os brazileiros, oppunham−lhe a sua calça branca, rija de gomma, e os seus Chilis, leves d'uma frescura hygienica. Iam−se pouco a pouco levantando, sahindo da sala, aos grupos, como os mansos animaes emigradores, trauteando pequenas canções, chacaras Brazileiras,—a Mulatinha do caroço, 24

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o Nhonhó, e já na rua dirigiam−se aos estabelecimentos conhecidos, aos Bancos, á Associação commercial, ou vinham parar na Praça Nova,

—o palheiro—como elles o denominam—em casa do Pimenta, do Guimarães, do Prata.

Um ruido de cidade, como um latejo palpitante de vida, se concentrava na praça. A intervallos os americanos passavam, pachydermes gigantes, de movimentos vagarosos, n'um trote miudo de muares; o povo esfervilhava, trajes variegados das lavradeiras dos arrabaldes, d'uma vivesa crua de colorido, os da cidade com seus fatos claros, caminhando depressa, na sombra dos edificios, evitando aquelle dardejar de irradiação que batia cruamente na calçada. Os trens infileiravam−se a um dos lados, os cavallos pacificos, de cabeça baixa, quebrados pela ardencia do calor, em quanto ao centro o Rei−Soldado, golpeado pelo sol, com uma grande intrepidez de estatua, empoado, mostrava do alto do seu cavallo a carta constitucional ao Rainha, cuja taboleta annunciava tripas aos sabbados e ás quintas−feiras.

Na Baviera, no Camanho, no Suisso, homens entravam, pedindo gelo, refrescos, sorvetes de morango; quem passava via o loiro da cerveja nos copos estreitos, e individuos recostados, abanando−se com os chapeus; na Moré os janotas, estoirando as luvas, cumprimentavam, bocejando, na grande nostalgia de cerebros vasios e quando succedia que alguma senhora ao subir dos passeios mostrava a levesa elegante do pé, olhares esgaseados, d'uma sensualidade sorna as procuravam, mordendo−as com o desejo surdo de calcinações febris; e logo os brazileiros em casa do Guimarães, sentados nos mochos do estabelecimento, bamboleando−se, se acotovellavam cochichando:

—Bom bocado! ein!... se não tinham reparado.—

—Viu−se o Jorge passar com Ermelinda; o commendador estava lá no seu mocho, lendo o «Commercio do Porto» com uma grande attenção minuciosa; mas os outros noticiaram logo:

—que lá ia o Jorge com a filha.

—sempre se casava ella, ein?

—Levava boa rez, não tinha duvida—disse de dentro o negociante—

—e a rapariga estava de appetecer—accrescentaram—mas ao verem que os dous tomavam um trem,

—Ora para onde irão elles a esta hora! sempre o desejava saber—observou o Juca, curiosamente, batendo com a badine no balcão.—E sahiu rapido, borboletando como um colibri, desejoso de saber.

O commendador desviara os olhos do jornal; parecia−lhe que d'aquella mulher, que estava uns vinte passos distante, irradiava alguma cousa de subtil e quente, como um veneno oriental que lhe corresse nas veias; fitava−a insistentemente, atravez dos seus oculos d'ouro, como desejando attrahil−a para si, n'aquelle mutismo de obediencia passiva, com que os magnetisadores recebiam as suas allucinadas. E ao ver Ermelinda saltar para o trem, descubrindo brancuras de vestidos n'um movimento rapido, sentiu−se como que estonteado, uma aura que lhe ennevoava a visão, alguma cousa de terrivel e doce, que escachoava confusamente no seu cerebro, e pondo−se a pé, um pouco pallido, disse para o caixeiro do estabelecimento

—Me dás um copo d'agua, Manoel?—

E bebeu−a d'uma assentada, um pouco apressadamente, como se confiasse em que a acção fresca do liquido lhe acalmaria aquella agitação intima, que bem a seu pesar, lhe sacudia os nervos tão pacificos.

Mas n'este momento o Juca, entrava todo offegante, vaidoso de si, dando um giro mais largo á sua badine.

—Já sabia...—

Rodearam−n'o; uma grande curiosidade patenteada em todas as physionomias.

—Então, dize lá, menino?...

—Ao tabellião, meus lyrios, ao tabellião; vão assignar as escripturas.—

Os commentarios choveram; o commendador tinha−se retirado, apenas soubera da informação do Juca.

—Me incommoda, isto, ein, não sei porquê—ia elle a rumurejar quando passava á esquina de S. Bento.

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A Divorciada

VI

Alberto conseguira effectivamente insinuar−se no espirito de Jorge; as relações iam−se estreitando, tornando−se mais intimas; principiou a frequentar a casa, á noite, á hora do chá. O commendador apparecia uma vez ou outra; e quasi sempre a D. Clementina vinha tambem, o seu pequenino cão felpudo, de que narrava com uma grande prolixidade enfadonha as travessuras, as caricias.

—Querem saber o que elle fez outro dia... o meu Totósinho...—e affagava−o correndo−lhe a mão pelo dorso, n'uma boa caricia amoravel—estava eu já deitada, elle dorme no meu quarto o Totó e ouço−o gemer, gemer, parecia mesmo um christão, fóra a alma, chamo por elle, vem muito candongueiro...—

Mas já ninguem lhe prestava attenção; o Jorge tinha proposto uma pequena partida de sueca, e acceitara−se com vontade,

—era preferivel á historia do fraldiqueiro—dissera baixo o commendador.—

A D. Clementina cortou a narrativa,

—gostava da sueca, era o seu jogo, seremos parceiros, commendador?

—Com muito gosto, minha senhora.—

A Ermelinda e o Alberto é que achavam massador,

—ir agora jogar a sueca, que estopada—

—ainda se viesse por ahi a D. Gabriella, a viuva do Brandão—cochichavam.

Ouviu−se uma campainhada. Exultaram.

—Havia de ser a D. Gabriella!... vai abrir, Joaquina.—

Era effectivamente a viuva; um ar ressequido, de rata velha, arrastando os ss, com um silvo prolongado em todos os vv, ainda pretenciosa, com uma paixão occulta pelo Jorge, que tinha a felicidade de a não perceber.

Disposeram a meza. Ermelinda e Alberto, um pouco affastados folheavam os albuns, distrahidamente embevecendo−se em phantasias coloridas, muitos projectos—que haviam de effectuar, um dia, logo que fossem um do outro, para todo o sempre.—

O Jorge questionava.

—Pois se o trunfo era copas, minha senhora, era copas...

—Julguei que podia embarcar a bisca ali no valete do commendador.—

—Qual historia! Ahi tem o resultado, perdemos por sua culpa...

E voltando−se para Ermelinda:

—Toca alguma coisa, menina; não sei para que te serve a habilidade!...

—Já vou, papá...

E sentou−se ao piano, o Alberto ao lado, voltando−lhe a musica. Era um motivo da Traviata, d'um sentimentalismo enervante, que punha no espirito uma doce melancholia; tocou depois um trecho da Dinorah, a «walsa da sombra»; parecia que as notas vibrantes do piano recordavam aquelle gemido hilariante da pobre louca, que se desenhava em todo o seu perfil na lucillação casta do luar.

Havia commoções ternas n'aquella musica, toda repassada d'um perfume apaixonado, sentimentalista; a alma deixava−se voejar na photosphera quente d'uns amores loucos, muito ideiais, com idylios banhados de luar, e phrases d'uma levesa etherea, d'uma brancura ingenua de estrellas; amortecia o vigor dos fortes, como uma gaze feerica envolvendo um bronze; e Alberto, contemplativo e scismador, de pé, absorvendo na languidez quebrada do seu olhar, a escultura formosa de Ermelinda, experimentava um desejo incoherente de se apossar de toda aquella mocidade, arrebatando−a, como um cavalheiro medieval, no corcel vertiginoso da sua phantasia.

Mas o Jorge irritado:

—Oh, D. Gabriella, pois isso faz−se, ir metter a sua bisca debaixo do az.—

—Mas, sr. Jorge...

—Qual mas, nem qual carapuça; a senhora está hoje d'uma abstracção imperdoavel...

Ermelinda cessara de tocar, sorrindo para Alberto d'aquellas questiunculas futeis; os seus olhos negros levantando−se tinham uma meiga expressão indefinida, como se a musica, que estivera tocando, os houvera 26

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mergulhado n'um fluido suavemente humido e voluptuoso. Voltaram a sentar−se junto da jardinière, um pouco recolhidos na sombra, apertando−se occultamente as mãos, com uma doce pressão dolorida, que os fazia estremecer de gozo.

—É muito sentimental aquella walsa da Dinorah!

—Tu gostas?

—Immenso; mal sabes como me sinto apaixonado quando a oiço tocar.

—Hei−de tocal−a então muitas vezes... depois...

—Pois... sim...

—Mas com uma condição; has−de me dar um beijo de cada vez...

—Um só! dou−te mil... meu amor...

—Ah, ah, mil... eram muitos...—e abriu um sorriso gracioso, desenhando−lhe no carmezim dos labios um estojo assetinado, guardando uma dentadura egualmente branca, que um poeta noviço denominaria perolas.

A Joaquina entrou com o chá; poseram−se as cartas de lado, rodearam todos a meza; o Alberto tinha sempre o cuidado de servir as senhoras.

—Então, D. Clementina, um bolinho mais.

—Nada, não queria, estava servida...

—E Vocêssencia, D. Gabriella, não se serve de mais uma torrada.

—Faz favôr, sr. Alberto!—e sentia−se logo na mó coriacea das suas gengivas desdentadas um ruido aspero de trituração, que ella humedecia com pequenos golos de chá, muito saboreados.

O Jorge conversava com o commendador sobre negocios economicos

—que estava já muito bom o cambio e se assim continuasse viria de lá muito dinheiro.—

—era preciso; se não se dava em crise!—approvava o commendador—

—que as acções da Companhia Carris tinham baixado, e as do Gaz, e as da Viação, e muitas mais...

—uma miseria, tudo!...

—elle, que estava de dentro é que sabia o que por lá ia, tudo pôdre, affiançava−o.—

As torradas, os bolos, os biscoutos iam desapparecendo, as chavenas fumegavam na desconsolação vasia de porcellana quente.

—Se tomavam mais chá—perguntava Ermelinda.

—nada, nada—dizia a D. Clementina—agora cada mocho a seu souto; vão sendo horinhas...

O commendador puchava pelo seu chronometro de setenta libras

—onze horas, minha senhora...

—credo, muito nos demoramos hoje.

E cobriam os agasalhos, n'um conforto macio, dizendo−se adeus. A D. Clementina e o commendador eram os primeiros a sahir, depois o Alberto despedia−se ceremonioso para com o Jorge, volvendo o olhar d'uma tristeza saudosa para Ermelinda, que promettia, por leves signaes trocados, fallar da janella na noite seguinte, emquanto o pae estivesse no Club. A D. Gabriella era a ultima, e dava sempre um beijo na Ermelinda, chamando−lhe—a sua filha—e um shake−hands ao pae, d'uma expressão significativa, forte como uma velha esperança. Depois a Ermelinda dava as—boas noutes ao papá—que ficava ainda a lêr o «Commercio» n'uma tranquilidade pacata, de chinellas bordadas a tapete.

Mas não eram essas as noites em que mais se expandia, em candido voejar, a imaginação ardente dos namorados. A companhia era sempre um obstaculo, um non plus ultra á sua phantasia sonhadora, á idealidade rutilante das suas imagens de prazer.

—Que aborrecimento ter de aturar a velha historia do Totó, contada pela D. Clementina, e a phonetica de sabiá do commendador e os vv, silvados da D. Gabriella.—

—Ah, como era bom estarem elles sós os tres em volta da jardinière, o Jorge lendo o Commercio, interrompendo−se apenas para narrar um caso—que podia ser fatal—e o Alberto folheando os albuns, sentindo descer sobre si a respiração suave de Ermelinda, occulta na meia sombra do abat−jour, trabalhando silenciosamente no seu bordado.

—ou então, quando Ermelinda se sentava ao piano, tocando uma musica triste, entornando umas melodias melancholicas por sobre a sua alma de crevè, dando−lhe umas sensações deliciosas que o amorneciam—

—e depois que momentos felizes quando o Jorge por um motivo qualquer tinha de se ausentar da sala, 27

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ficando sós, os dous, na plenitude livre do seu amor, que irrompia, como um riso torrentuoso, n'uma caudal indomita de beijos...

—Oh, Alberto, Alberto, que fazes!...

—perdoa−me, é uma loucura, mas eu amo−te, e soffro... soffro d'este amor—e ajoelhava−se, n'uma supplica humilde, urgente, que a dominava, tornando−a tremula...

Mas o Jorge vinha, e a sua presença, como um douche gelado por cima d'aquelle incendio, acalmava−os, fazendo−os retomar atrapalhadamente os objectos em que se entretinham antes d'elle sahir.

Sob estas fustigações incitantes a força psychica accumulava−se, polarisando−se reciprocamente n'um magnetismo mysterioso, que os attrahia um para o outro.

—Só a morte nos separará—diziam dominados ainda pela excitação recebida, sob a impressão candente d'um beijo d'amor, d'uma emoção fortemente sentida. Essa força latente, que se accumulava, podendo explosir com uma violencia vulcanica, reclamava o casamento, a união reciproca, como uma valvula de segurança, por onde podesse respirar a paixão, amortecendo−se na atmosphera pacifica da vida vulgar, em commum.

Conheciam−se pouco, mas... que importava!... amar−se−hiam muito... o conhecimento viria depois...

havia apenas um mez que Alberto tinha entrada em casa; mas

—havia seis mezes que o namorava—dizia Ermelinda—e o coração não a podia illudir... não... era o seu verdadeiro amor aquelle...—

E fluctuavam−lhe vagamente, n'uma indecisão esvahecida, as reminiscencias dos seus outros namorados;

—Uns pulhas, a final!... E depois eu era creança! tolices...—

E tratou−se do casamento. O Alberto tinha sobre tudo um grande interesse em apressar esse enlace. Dizia ao Jorge:

—que estava só, que desejava conhecer a verdadeira felicidade...

—a que se encontra unicamente no lar domestico—ponderava o director do Banco.—

—justamente, aquella que só póde vir dos carinhos affectuosos da familia—concordava...

E lá de si para si pensava:

—que era preciso effectuar a cousa, emquanto durava o dinheiro da batota, emquanto elle estava com a leiteira, a sorte que o protegia nas noites do Porto, e nos dias de roleta, na Povoa... podia vir o azar e lá ia tudo, com os diabos...—

E de vez em quando affectando alguma difficuldade em collocar algum capital, aconselhava−se com o Jorge, interrogando−o

—de como se desfaria d'umas propriedadesitas na provincia, se seria melhor conserval−as—e entregava−lhe algumas notas de cem, duzentos mil réis, que dizia provirem d'uns pagamentos de fóros, havia pouco recebidos.—

O Jorge sentia vontade de o abraçar.

—Um genro magnifico—pensava—e diziam por ahi que era um estroina, um jogador, um bebado; a gente quebra, rapaziadas!...—

E foi elle o primeiro a ceder ás instantes solicitações de Alberto, preparando tudo, aplanando todos os pequenos obstaculos, comprando uma mobilia nova para o quarto dos noivos, e outra para a sala de visitas.

—Agradecia−lhe ainda a delicadeza de o não quererem affastar, de viverem juntos; a separação, a deslocação brusca dos seus habitos matal−o−ia, tinha d'isso a convicção.—

Havia apenas em casa uma pessoa que não sympathisava com o Alberto; era a Joaquina. Um instincto puramente animal a revoltava contra aquella peralta,—que viria pôr a casa n'uma roda viva; e depois embirrava−lhe com o focinho,

—seria muito bom, seria, mas á missa d'ella é que elle não ia...—

E ás vezes, das suas meditações, ao engommar as brancas saias de Ermelinda, resaltava uma queixa, um repellão de revolta contra tudo aquillo.

—Boa, não que se a cousa não fosse direita ella raspava−se, por ali era o caminho—

e dilatava as bochechas, n'um movimento de folle, soprando ao ferro de brunir

—amizade á menina, como o outro que diz, tinha, lá isso tinha, a gente a viver com ella ha quinze annos, erro fôra... mas adeus, que se aguentem... e hão−de−me sentir a falta, não que outra Joaquina não lhes vem cá tão cedo...—

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Enchia−se d'uma vaidade esbofada, do amor proprio da sua utilidade affirmada todos os instantes, na cosinha, no engommar, no arranjo e limpeza dos moveis.

—Boa—continuava—é vêr as criadas que ha hoje por ahi; cada qual faz o seu serviço e disse... eu sou aqui uma moura de trabalho... adeus, tambem... o trabalho não custa, quando a gente tem saude, graças a Deus... e depois se eu quizer sahir... uih!... casas não me faltam... são assim...—e aprumava os dedos, n'uma accumulação collectiva, que indicava uma forte abundancia numerica...

—mas, lá, o tal senhor, não lhe engraçava com os bigodes... ainda se fôra o commendador... aquillo sim, que era um regalo de homem e pezava, bem se via nos brilhantes que elle trazia na camisa... mas estas meninas de hoje só querem bonifrates... e elle então que andava babadinho por ella, isso conhecia−o ella... oh, se conhecia...—

E a Joaquina, evocando umas cantigas do seu Minho, cantarolava, continuando a pôr nas saias uma brancura luzente de stearina.

Tinha então os seus trinta e cinco annos talvez; viera para casa do Jorge com doze annos apenas para ser a criada da menina e fôra crescendo, tornando−se prestavel, amorosa para com todos, muito serviçal; tinha sobre tudo uma amizade animal por Ermelinda, a sua menina, que tantas vezes trouxera ao collo, com quem tantas vezes brincara... A familia do Jorge era a sua familia, e principalmente, depois que a senhora morrera, a Joaquina tomara um certo predominio na casa, o predominio da utilidade, do prestimo positivo, da sciencia pratica das cousas. E foram−lhe assim passando, n'aquelle deslisar monotonamente suave, os dias formosos da sua mocidade; chegara a ter um namoro, dous até, o primeiro com um rapaz marceneiro, que morrera no hospital, o segundo com um policia, que representava o papel de Falstaff, no céo da sua innocencia de bicho de cosinha... Mas tudo isso acabara, esvaecera−se lentamente, como um arroyo de verão que sécca, deixando umas areias fulvas na sua passagem; e a Joaquina um poucochinho gorda, aceiada, d'um loiro branco dos temperamentos lymphaticos, espapava−se agora n'aquella tranquilidade da familia, contente com a sua sorte, sem as revoltas instinctivas do servo. A molleza apathica do seu temperamento adormentara−lhe as imposições estimulantes da carne; e laboriosa como uma formiga, entregue sempre á tarefa assidua do trabalho, esquecia−se que resvalava pouco a pouco n'esse plano inclinado da vida da mulher, em que as brancas matizam a cabeça e as rugas se aninham na face, desfeiando−a, com as garatujas d'uma tatuagem a carvão. Mas aos Domingos, nos dias de ocio, em que o corpo se sentia resfolegado das canceiras do trabalho, e o jantar era um poucochinho mais copioso, com uns estimulos de acepipes apimentados, a Joaquina experimentava umas mordicações acirrantes do instincto e deitava−se na cama, extasiando−se na brancura polposa dos seus seios e suspirando, n'uma recordação entre odiosa e doce pelo seu segundo namoro, o bravo agente da ordem, o policia 45.

Mas aquillo passava, como uma ligeira effervescencia e o trabalho adormentava de novo o tumulto provocado d'aquella natureza apathica, que continuava tranquillamente na curva suave da sua existencia.

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A Divorciada

VII

Na rua de Welesley, a tia Magdalena acabava de frigir a terceira certã de iscas de bacalhau, uma massa d'um amarello canario, com fragmentos retalhados de ovo batido,—que ninguem sabia preparar com tanta limpeza e com tanto paladar—dizia ella. O seu corpo baleiforme, d'uma gordura toucinhosa, curvando−se para pôr o avental, enodoado de manchas lusidias, levantou−se de subito, quando a Annita lhe entrou na cosinha, um aspecto pallido, enfermiço, d'umas rosetas carmezim ao meio da face, e uma tossesinha secca, muito frequente.

—Dá licença, tia Magdalena.

—entra rapariga, já não ha quem te veja.

A Annita ia a responder, mas a tosse interrompeu−a, um accesso brusco, que ella procurava abafar, collocando um lenço sobre a bocca.

—Trata−me d'essa tosse, pequena, isso é fraqueira, queres tu tomar um caldinho!

Os olhos d'Annita, uns vagos olhos negros, d'uma doçura quebrada, moveram−se como que a acceder áquelle offerecimento e depois baixaram−se, mudamente, deixando rolar umas lagrimas furtivas.

A tia Magdalena reparou:

—Tu por que choras, rapariga!

—Se soubesse!...—e Annita, deixando rolar as lagrimas, n'um soluçar comprimido, os olhos a avermelharem−se, prorompeu rapidamente, como uma confissão que se deseja fazer depressa:

—Ha uns doze dias que o Alberto não apparece; e sabe... a pequenita, está tão mal, seccou−me o leite, coitadinha, não faz senão chorar, aquillo é fome, percebe!...—

—Ora o grande maroto; eu bem te dizia que aquillo nunca te havia de dar bom pago! Uns tratantes todos, uma corja, é o que é!...—E a tia Magdalena, n'uma indignação honesta, brandindo a gordurosa faca de voltar as iscas, com a respiração ruidosa, vermelha do calor do lume, como uma clamyde vingadora, ameaçava os devassos da boa sociedade,

—uns pelintras, uns paninhos d'armar, e que não deitavam uma de x, se os virassem de cangalhas, que era o que elles mereciam... uma forca—concluiu toda offegante, limpando a certã ao avental e collocando−a sobre as trempes para proceder a uma nova fornada d'iscas.

—E agora sabes que mais, Annita, leve o diabo paixões e trata de te aproveitares em quanto é tempo.—

—E a pequenita, que lhe havia de fazer, não lhe diria? e depois, sem saber cousa nenhuma d'elle...

—D'elle, ora não está má essa! que esperas tu d'ali? A estas horas lembra−se bem de ti! sempre ainda és de bom tempo!...—

—Mas é que isto não póde ser assim entende, tia Magdalena! Não, que não faltava mais nada! Estar a gente bem collocada, ganhando a sua vida, senão com honra, por que a boa sorte não é para todas as creaturas, mas com decencia, com certas commodidades, e vem de lá um senhor todo palavrinhas doces, promette−nos mundos e fundos e para que... para nos deixar morrer de fome... ainda se fôra eu só, mas a minha pequerrucha, coitadinha do anjo... que culpa tem ella...—

E quebrando a violencia da palavra a esta lembrança, triste, soluçante, as lagrimas a soltarem−se outra vez, desolada, batida pela miseria e pelo infortunio, como uma pobre planta do mar, que tem o consolo de se agarrar a uma concha mais debil que ella, no meio das revoltas convulsas dos elementos, a Annita, com a voz fatigante, entrecortada na macia suavidade dos doentes, como se tivera pejo da revelação que ia fazer:

—E depois, sabe, tia Magdalena, não sei porque, depois que tenho a pequerrucha, parece−me que é um crime voltar á vida que levava.—

Magdalena olhou−a espantada, guardou um silencio curto; philosophava talvez sobre a desigualdade dos destinos, porque ao deitar do alto um fio d'azeite liquido na certã, que fumegava, n'uma chiadeira monotona, observou com um certo ar sentencioso:

—A sorte não pode ser a mesma para todos, Annita; cada qual vai−se sugeitando ao que Nosso Senhor lhe destinou.—

—Isso é verdade, tia Magdalena.—

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A Divorciada

—Pois então, filha, toma este caldinho e leve o diabo paixões; tu ainda não és assim nenhuma peste!

E com uns modos brandos, um largo sorriso corrupto, a tia Magdalena insinuava−se, contava casos identicos, uns casos de que tinham resultado boas fortunas e muitas raparigas que ella conhecia e que hoje—accrescentava orgulhosa—andavam ahi no galarim! oh, se andavam! e algumas a ella lh'o deviam!—

E depois capciosamente, com uma insinuação que se enrosca, a tia Magdalena promettia−lhe auxilial−a, occorreria ás primeiras despezas,—o vestido era tudo—dizia—e depois tu m'o pagarás quando poderes.—

—Lá isso, creia, não serei ingrata.—

E mais confortada, com uma resignação de vida nova, pensando um pouco na miragem que lhe fulgia diante dos olhos, a Annita, saciada a fome, na plenitude feliz d'um estomago satisfeito, arremeçava a phantasia ao encontro d'um brazileiro endinheirado, d'um negociante, d'um burguez honesto que a sustentasse, n'um trem de luxo, casa montada, uns vestidos espalhafatões e uns brilhantes,—oh, desejava muito uns brilhantes,—e sahiria com a sua creadinha, muito invejada, golosamente desejada pelos dandys que estacionavam ás portas dos cafés, das tabacarias, nas aleas do Palacio—

—mas nunca, havia de se vingar, estava farta de peraltas.—

E um pouco mais positiva, com a licção pratica do infortunio em que ia resvalando, pensava em aproveitar−se um pouco da flor da sua mocidade, e depois,—a filhinha era preciso aconchegal−a n'um agasalho de confortos—d'um collegio, onde a pequena estivesse decentemente collocada, e que a não importunasse muito a final—concluia.—

Vinham−lhe todos estes pensamentos n'uma confusão adoravel, com uma effervescencia de cerebro docemente embriagado, sonhando−os ella só, com uma doce voluptuosidade intima, em quanto a tia Magdalena curvada sobre o lume espalmava com a faca as iscas amarellas que chiavam n'uma compressão rugidora e com a outra mão esfregava os olhos blepharaticos, lacrimejantes com o calor do lume. Lembrou−se da pequerrucha, despediu−se

—havia de voltar, tinham muito em que conversar

—cá te espero, minha brazileira, e olha, vem á tardinha, tenho mais uma aquella de vagar.—

A Annita sahiu da tasca. Ficava em frente a alameda das Fontainhas, com as suas sombras frescas, a relva cylindrada, um doce murmurio d'aguas que cahiam no tanque. A tarde descia lentamente com uma grande preguiça de creoula, arrastando a sua cauda de luz por sobre a cumiada dos altos de Villa Nova, dando um tom melancholico de ruina ao velho convento da Serra do Pilar. O Douro lá em baixo, n'uma mansidão lassida, quasi parado, deixava−se cortar em espadanas de crystal pelos remos curvos dos barcos rabellos, um tanto primitivos, que iam navegando lentamente.

Mirones melancholicos, com um ar romantico, se encostavam ao paredão contemplando a paisagem n'uma grande mudez admirativa e ociosa, em quanto em baixo as lavadeiras batendo a roupa, cantavam alegremente, amenisando o trabalho.

A Annita sentia−se possuida d'aquella beatitude pantheista; o seu espirito resfolegava alegrias, o corpo sentia−se leve, como que impregnado d'um ether ligeiro, que a estonteasse de felicidade, fazendo−a voar na mansidão do azul, como as aves brancas que atravessam o espaço. Toda ella delineava bellos sonhos aereos, phantasias gentis, castellos d'Hespanha rendilhados de luz, que nada parecia poder destruir.

—Seria rica e feliz! A sua filhinha teria sempre vestidos brancos, a cinta enlaçada por uma larga fita côr de rosa, e um chapeu pequenino de palha d'arroz, feito na melhor modista. E sahiriam juntas, ella toda cingida n'um vestido de velludo côr granada, a côr da moda, o sapatinho aberto a desvelar as meias de seda, um chapeu modelo, toda perfumada, com o bello aroma d'essencias caras—havia de ser do Jockey−Club, que o Alberto tanto gostava—

—mas ao recordar este nome uma sombra escura perpassava ennevoando aquelle sorrir intimo, como uma nuvem que empana o sol, ou um signal negro que poisa no branco setim d'uma pelle avelludada.

—Ora, que lhe importava! Era um canalha, estava dito.—E evolando−se outra vez ao ceu das suas phantasias, pensava então em como havia de ter a sua casa, um primeiro andar com mobilia de pau setim, tapetado de modo que ella não sentisse o ruido dos seus passos, e uma ottomana toda macia, com boas molas doces, onde podesse recostar−se languidamente a pensar em coisa nenhuma. Ficára−lhe a voluptuosidade preguiçosa dos divans, do seu tempo de cocotte;—e teria um piano, sim, era decente, ella não sabia tocar, mas a pequerrucha aprenderia!—além d'isso ella gostava de musica, sensibilisava−a, dava−lhe um poucochinho a 31

A Divorciada

doce voluptuosidade dos enervamentos molles e—lembrava−se sobretudo dos fadinhos chorados na guitarra, que tanto a enterneciam.—

Mas dous brazileiros vinham do outro lado da alameda; um d'elles, usando oculos, pareceu olhal−a com attenção; questionavam em grandes gestos largos. A Annita pensou em que elles seriam muito ricos.

—Si lh'o digo eu, homem! se casa ella! esta manhã o Juca contou na loja do Guimarães, que tinham já assignado as escripturas.—

—Mas se elle não tem aonde cahir morto! olha quem, o Alberto!

—Herdou d'uma tia da provincia, você sabe?

—Historias, aquelle passaro não entra em gaiola minha, não, essa lhe digo eu! Conheço de ha muito o Alberto de Sá!

A Annita sentiu−se intrigada, alguma cousa de occulto que se revelava, estonteando−a.

—Ah, pois era possivel! Aquelle canalha ia casar−se! E ella, e a filha!... que pulha, que miseravel!—

E desejava ouvir, interrogar os brazileiros; saber se era d'elle, que realmente se tratava. Approximou−se, tinha uma grande agudeza d'ouvido, precisava não perder um som. O brazileiro dos oculos não deixava de a fitar de vez em quando.—Se podesse fallar−lhe.—

—pois é verdade, é!... concluiu o brazileiro, bamboleando o guarda−sol, e abrindo os braços, n'um gesto largo, de quem não duvida.—E depois um pouco artista:—

—Bonito panorama, commendador!...

—Ah, nada qui chegue ás vistas di Petropolis! e o morro do pão d'Assucar, ao entrar a barra, não gosta você?

—Admiravel, lhe digo então!

O homem dos oculos continuava a fitar a Annita, que um pouco mais longe, o corpo gracioso, curvando−se um pouco sobre o paredão, fingia olhar o Douro. O companheiro notou−lhe uma certa distracção.

—Qui tem você, commendador?

—Não reparou o amigo Lourenço n'aquella moça que está além!...

—Maganão!—disse, batendo−lhe uma palmadinha no hombro.

—Não, mas repare, se parece ella muito com a Ermelinda, do Jorge!

—É verdade! Ah, ah, quem ella é!... desatou o Lourenço n'uma reminiscencia subita.

—Você conhece ella?

—Se conheço! É a Annita, uma moça que já esteve ahi por certas casas, ein, e depois sahiu, creio que para a companhia d'alguem, o commendador comprehende?—

—Ah, ah, pois se parecia ella muito com a Ermelinda, ia jurar que eram irmãs as duas, ora já viu...

—O diabo o jurasse.—E riram muito, dobrando os grossos ventres em contracções diaphragmaticas, as bochechas dilatadas, no espapamento obscuro de alegrias alvares.

O Lourenço despediu−se, tinha que fallar com o Mendes, ficara de estar com elle no café Suisso, e instava para que o commendador o acompanhasse

—ficava mais um poucochinho, lhe agradava muito aquelle panorama.

—Oh, era sublime!

—Até logo!

—Até logo, no hotel, ein, para a partida do sólo.

O commendador viu o Lourenço subir a rua de S. Lazaro e continuou a passear na alameda, abstracto, um pouco descuidoso de si, como se caminhara embalado na serenidade doce d'aquella natureza que se lhe desenrolava diante! Havia um pensamento latente, que phosphorecia lá dentro, na solidão do seu espirito, e ora se apagava, ora reapparecia, para tornar a fugir, alguma cousa de errante, que elle não podia condensar n'um raciocinio logico, e bem seguro, como fazia a uma somma de cifras dispersas. Escapavam−lhe phrases soltas, entrecortadas:

—Mas é isto feitiçária, de certo, eu tenho ouvido fallar n'essas coisas!

E reconcentrava−se, recolhendo a si a ideação que se evolava, como as creanças recolhem os papagaios de papel fluctuantes e moveis, que se alam no espaço.

A Annita passou por elle, toda gracil e acariciadora, um bom sorriso a colorir−lhe os labios veludineos, o 32

A Divorciada

corpo meneando−se n'um movimento furtivo, de corça domesticada. O commendador reparou n'ella e exclamou:

—Muito se parece o demonio da moça!

E, seguiu−a com o olhar, n'uma attracção inconsciente, pensando talvez em Ermelinda, que via reproduzir−se no corpo esbelto e delgado d'Annita, uma attitude de gaucherie, um pouco trocista, que lhe recordava o baile de casa do Mendes. E naturalmente foi−a seguindo, com uma docilidade de idiota, irreflectida, de desejo que se abre fustigando o instincto, e avassalando, n'um despotismo intransigente, todas as ideias sãs, que poderiam nascer. A Annita percebeu isto mesmo, e mais provocante, um poucochinho cocotte, tomando um ar garrido, de honestidade duvidosa, caminhava lentamente, á se laisser prendre, fingindo−se embevecida na grande obra d'arte, a ponte Maria Pia, que se estendia, como um arco de madresilvas, de montanha a montanha, esbatendo−se então, na doce luz crepuscular. E o brazileiro, ouvindo−lhe já a respiração, o frou−frou do vestido, quasi a par:

—Me dá uma palavra, sinhásinha.

* * * * *

Depois de deixar o brazileiro, Annita dirigiu−se lestamente para casa, cantarolando uma musica em voga, um fragmento d'opereta; chilreava−lhe a alma a umas esperanças fagueiras, que desciam envolvendo−a, n'uns sonhos embriagantes de felicidade. Preparava o seu plano de ataque para a primeira entrevista com o commendador; estudava todas as seducções, que o estonteassem, todas as ficelles que podessem prendel−o; adivinhava que precisava andar differentemente com elle, cortar pelos espalhaphatos pelintras de cocotte, e fazer−se honesta, um poucochinho séria, mostrando ainda assim a garra de diable por debaixo da apparencia avelludada das caricias affectuosas.

N'estas disposições subiu a escada; um gemido debil, de creança exhaurida de chorar, cortou−lhe os vôos á aza da phantasia, e vendo no berço aquelle rosto branco, muito chupadinho, com os olhos pretos docemente embutidos na côr lactea da pelle, tomou−a carinhosamente, aconchegou−a ao peito, que a pequena procurou com ávida anciedade, mas que largou logo, chorando, n'um vagido de fome.

—Deixa que tambem ha−de chegar a tua vez, meu querido amorsinho,—e depôl−a no berço, principiando a embalal−a, n'uma melopeia monotona, que a adormentasse.

Um luar doce, d'uma voluptuosidade estival, entrava pela janella, clareando o quarto; e a Annita, sentada junto ao berço, ao ruido cadenciado d'aquellas oscillações, mergulhava o seu espirito n'essa photosphera de saudade, que vive na alma de cada um de nós e que ella uma vez soubera possuir com o eleito do seu coração, um bom rapaz da provincia, o seu primeiro amor, ambos cheios d'uma mocidade fresca e alegre, pobres os dois, mas unidos contra a adversidade, mãos dadas no caminho aspero da vida!

—Oh, que fatal ideia a sua em querer vir para a cidade, ser rico, trabalhar muito!

Morrera, victima da grande lucta, da immensa peleja e ella, só, bonita talvez, requestada, adquirindo habitos de luxo, um pouco preguiçosa, adormecida na saudade d'aquelle primeiro golpe, deixara−se resvalar, cahira... e... dentro em pouco via−se adorada por muitos homens, chamavam−lhe a Annoca, a gatinha parda, sabia ter graça, e era a mais procurada d'entre as suas irmãs de infortunio... E depois o Alberto insinuara−se no seu coração, queria ter um amante tambem, um janota, um dandy, estava farta d'aquelles imbecis que a procuravam a preço d'ouro, por instantes curtos.

—elle fôra a sua desgraça!... E confrontava, achava miseravel aquella pocilga aonde elle a mettera, promettendo−lhe cada dia cousa melhor e isto havia um anno e depois—a filhinha viera... para cumulo das suas desventuras.—

—Ah, seria bom ser mãe, quando se era rica!... mas assim, que miseria!...—

Despontava então a imagem da sua nova conquista, o brazileiro, e ella, affagando uns sonhos de ventura, curvava−se sobre o berço, segredando com a filha, como se ella a podesse entender!

Bateram á porta n'este instante. A Annita levantou−se, foi abrir, e um raio de luar, apanhando a entrada n'um espaço vedado, illuminou a figura elegante de Alberto. Sentiu−se afogueada, alguma cousa como o despontar d'uma revolta, que a sacudia. E muito ironica:

—Bravo, sim senhor, a boas horas!—

—Ás horas que me apraz—respondeu seccamente, atirando comsigo para uma cadeira e accendendo tranquillamente um charuto.

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A Annita ficou a olhal−o, de braços cruzados, o cerebro paralysado por aquella entrada brusca, indecisa; mas depois recobrando−se d'aquelle silencio, sempre ironica:

—Dou os parabéns a V. Ex.ª—

O Alberto relanceou sobre ella o seu olhar, conheceu que a Annita sabia das suas novas resoluções!—Ah, isso evitava−lhe trabalho, estimava−o—e alto:

—Obrigado! e ainda bem que o sabes! Isto assim como assim tinha de acabar; não era possivel!

—Não era, não!

—Vamos, não te zangues; sê boa rapariga!—E levantando−se, approximou−se d'Annita, tomando−lhe as mãos, aconchegando−a a si. Mas ella fez um movimento rapido, desprendeu−se, e, torrentuosa, quebrando a transparencia das ironias,

—Seu pulha, seu miseravel! pensava que era só roubar−me a tranquilidade e o bem−estar, trazendo−me para esta pocilga, vendendo as poucas joias que eu tinha, mentindo−me sempre, arranjando−me uma filha e agora, por aqui é o caminho! Não que elle não é senão casar com a sr.ª D. Ermelinda! Ora até o diabo se ria!

Ahi tem a sua filha, leve−a, faça presente d'ella á sua noiva e para cá as minhas jóias, ouviu!—

O Alberto recebeu esta saraivada, com um ar pallido, d'um sorriso sarcastico, trauteando a sr.ª Angot, e pondo o chapeu na cabeça:

—Até mais ver, gatinha parda!

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A Divorciada

VIII

Trens de praça, os cocheiros com librés de luxo, iam−se pouco a pouco enfileirando na rua onde morava o Jorge. O povinho ia parando, mulheres sobretudo, desejosas de ver sahir o cortejo. Os convidados ainda com os sobretudos e já de luva gris−perle, as senhoras de vestidos de sêda, entravam e logo o director do banco com um sorriso amavel, d'uma cortezia palaciana, sahia a recebel−os, um bello ar festivo, a barba escanhoada, a gravata branca sobre um peitilho folheado, todo grave na sua casaca preta.

Tinha sempre uma phrase nova para receber os cumprimentos.

—Meus parabens, sr. Jorge.

—Obrigado, amigo Mendes, sei que são sinceros!

Rodava mais uma carruagem e logo outro, entoando:

—Parabens, parabens!

—Recebo−os, como a mais amavel das felicitações—e sorria.

As senhoras todas subiam, queriam ajudar a vestir a noiva. Tinham o fetichismo das grandes occasiões. A Adelaide Mendes dizia que havia de ser ella quem pregaria o ultimo alfinete!—e todas queriam fazer o mesmo, as solteironas afim de serem as primeiras a seguir na via lactea do matrimonio.

No seu quarto a Ermelinda estava já vestida, o rosto afogueado n'uma vermelhidão casta; um largo espelho a reflectia com o seu vestido de faille nevado, d'uma scintillação velludinea guarnecido a flores de larangeira; iam pôr−lhe o véo, um largo véo de fino tulle branco!—Mas em antes as amigas rodeando−a, notavam uma préga que era necessario desfazer, encobrir... com um ramo, e uma elevação no penteado, que urgia modificar.

Davam−lhe os parabens com sorrisinhos maliciosos e ditos agudos, d'uma levesa picante, capazes de crestar o avelludado d'aquellas flores virgineas, que a engrinaldavam,—e a corôa, que a repartisse pelas amigas, não se esquecesse, para o noivo bastava a... outra—

A Adelaide Mendes disse que preferia a sua parte do bouquet ;—

—ah! tambem, tambem!—

—vai mais chegadinho ao coração—

E uns dedos rosados vinham logo ageitar o bouquet, um pequeno ramo gracioso, de flores de larangeira, que fechava o decóte do vestido, poisando sobre a curva do seio, com uma castidade toda timida, narcisando com a sua fina essencia a carne assetinada, d'uma alvura de camelia, onde poisava um formoso signal escuro, cheio de pequeninas provocações.

Estava prompta em fim. Nunca o seu espelho lhe parecera tão lisongeiro, como n'aquelle momento;

—Ah, era assim que ella se tinha sonhado nos seus devaneios incoherentes de mulher nova e moça!

—mas sentia−se nervosa, muito agitada; tinha sobretudo uma grande sêde!—

A Amelinha, disse−lhe:

—que tambem ella estivera assim, mas passava, não tinha duvida—e preparou−lhe um copo d'agua com assucar, que a Ermelinda tomou, curvando−se para não deixar cahir alguma gotta sobre a sua toilette de noiva.

A D. Carola, a esposa do Mendes entrou, um sorriso largo, a pronuncia brazileira:

—Vamos, meninas, são horas de conduzir minha afilhada—

—E elogiou−a,—que estava muito bonita realmente, era o mais formoso dia da sua vida—