A flecha negra por Robert Louis Stevenson - Versão HTML

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A FLECHA NEGRA

O CONTO DAS DUAS ROSAS

Robert Louis Stevenson

Traduzido do inglês por

Francisco Bugalho

PORTUGÁLIA EDITORA

O título desta obra em inglês é The Black Arrow

ÍNDICE

PRÓLOGO – JOÃO-O-JUSTICEIRO

LIVRO I – OS DOIS RAPAZES

CAPÍTULO I – NA ESTALAGEM DO SOL, EM KETTLEY

CAPÍTULO II – NO PÂNTANO

CAPÍTULO III - A BARCA DO PÂNTANO

CAPÍTULO IV - O BANDO DA FLORESTA

CAPÍTULO V - CAÇADOR SANGUINÁRIO

CAPÍTULO VI – AO CAIR DO DIA

CAPÍTULO VII - A FACE VELADA

LIVRO II - O CASTELO

CAPÍTULO I - DICK FAZ PERGUNTAS

CAPÍTULO II - OS DOIS JURAMENTOS

CAPÍTULO III - O QUARTO POR CIMA DA CAPELA

CAPÍTULO IV – A PASSAGEM

CAPÍTULO V – COMO DICK MUDOU DE PARTIDO

LIVRO III - LORD FOXHAM

CAPÍTULO I - A CASA JUNTO DA COSTA

CAPÍTULO II - UMA ESCARAMUÇA NA NOITE

CAPÍTULO III - A CRUZ DE ST. BRIDE

CAPÍTULO IV - O BOA ESPERANÇA

CAPÍTULO V - O "BOA ESPERANÇA" (Continuação)

CAPÍTULO VI - O "BOA ESPERANÇA" (Continuação)

LIVRO IV - O DISFARCE

CAPÍTULO I – A CAVERNA

CAPÍTULO II - EM CASA DO INIMIGO

CAPÍTULO III - O ESPIÃO MORTO

CAPÍTULO IV - NA IGREJA DO CONVENTO

CAPÍTULO V - O CONDE DE RISINGHAM

CAPÍTULO VI - DE NOVO ARBLASTER

LIVRO V - CROOKBACK

CAPÍTULO I - A TROMBETA VIBRANTE

CAPÍTULO II - A BATALHA DE SHOREBY

CAPÍTULO III - A BATALHA DE SHOREBY (Conclusão)

CAPÍTULO IV - O SAQUE DE SHOREBY

CAPÍTULO V - A NOITE NA FLORESTA - ALICIA RISINGHAM

CAPÍTULO VI – A NOITE NA FLORESTA - DICK E JOANA (Conclusão)

CAPÍTULO VII - A VINGANÇA DE DICK

CAPÍTULO VIII - CONCLUSÃO

BIOGRAFIA

PRÓLOGO – JOÃO-O-JUSTICEIRO

NUMA certa tarde de fins de Primavera, o sino do castelo de Tunstall tocou a uma

hora desusada.

Perto e longe, na floresta e nos campos ao longo do rio, as gentes começaram a

abandonar os trabalhos e correram na direção do som, no lugarejo de Tunstall, um

grupo de pobre gente do campo juntou-se admirando-se dos sinais.

O lugarejo de Tunstall, naquele período, no reinado de Henrique VI, tinha quase o

mesmo aspecto que tem hoje. Umas vinte casas, pouco mais ou menos, pesadamente

construídas de carvalho, pousavam espalhadas num longo e verde vale subindo do rio.

A seus pés a estrada atravessava a ponte e, ascendendo do outro lado, desaparecia nas

orlas da floresta em direção ao castelo e, um pouco mais adiante, conduzindo ao

convento de Holywood.

A meio do caminho para a aldeia, ficava a igreja, entre teixos. Por todos os lados, as

encostas estavam vestidas de vegetação e a vista era limitada pelos verdes ulmeiros e

verdejantes carvalhos da floresta.

Perto da ponte havia uma cruz de pedra sobre um montículo; e, aí, se reunira o grupo

- uma meia dúzia de mulheres e um homem de grande estatura, com uma camisa parda,

discutindo o que anunciaria o sino.

Um correio tinha atravessado o lugarejo e bebido uma caneca de cerveja, a cavalo,

não ousando apear-se, pela urgência da jornada; mas ele próprio ignorava o que havia

e somente trazia cartas fechadas de Sir Daniel Brackley para Sir Oliver Oates, o

capelão que tomava conta do castelo durante a ausência do Senhor.

Neste momento, porém, ouviu-se o ruído de um cavalo e, em breve, fora da orla da

floresta e sobre a ponte sonora, subiu, cavalgando, o jovem Master{1} Ricardo Shelton,

pupilo de Sir Daniel.

Finalmente, ele saberia alguma coisa. Por isso o chamaram e lhe pediram para os

informar.

Um jovem que não tinha ainda dezoito anos, queimado do sol, ele, olhos garços, com

um gibão de pele de veado com colar de veludo preto, um barrete verde na cabeça e

uma besta a tiracolo, fez parar o cavalo de bastante boa vontade. Parecia que o próprio

trouxera grandes notícias. Estava iminente uma batalha. Sir Daniel mandara que todo

aquele que pudesse esticar um arco ou manejar uma acha de armas partisse a mata-

cavalos para Kettley, sob pena do seu severo desagrado; mas por quem iam bater-se ou

de onde se esperava o combate, Dick nada sabia. Sir Oliver viria, em pessoa, e Bennet

Hatch estava-se preparando, naquele momento; porque era ele quem comandava a

expedição.

- É a ruína desta boa terra - disse uma mulher. - Se os nobres viverem em guerra, os

camponeses têm de comer raízes.

- Pelo contrário - disse Dick -, cada homem que for terá seis dinheiros por dia, e os

besteiros.

- Se viverem - respondeu a mulher - pode ser muito bom, mas que será se morrerem,

meu senhor?

- Não poderão morrer melhor do que pelo seu senhor natural.

- Não tenho nenhum amo natural - disse o homem da camisa. - Eu segui os

Walsínghams e todos assim fazíamos para os lados de Brierly, até que, aqui há uns dois

anos, veio a Candelária. E agora tenho que enfileirar com Brackley! E isto foi assim

por causa das leis. Chamais a isto natural? Mas agora, quer com Sir Daniel, quer com

Sir Oliver, que sabe mais de leis do que da honra, não tenho outro senhor natural que

não seja o pobre rei Henrique Setto, que Deus abençoe!: o pobre inocente que nem

pode confiar à sua mão direita aquilo que se passa na sua mão esquerda.

- Falas de má vontade, amigo - respondeu Dick -, confundindo o vosso bom amo e

meu Senhor, o Rei, na mesma acusação. Mas o rei Henrique, louvado seja Deus!,

voltou à razão e terá todos os assuntos pacificamente arrumados. E, quanto a Sir

Daniel, sois muito atrevido na sua ausência! Mas eu não serei alvissareiro... e que isto

te baste.

- Não disse mal de vós, Master Ricardo - retorquiu o camponês. - Sois um garoto,

mas quando fordes homem haveis de achar os bolsos vazios. E mais não digo. Que

Deus ajude os vizinhos de Sir Daniel e a Virgem Santíssima proteja os seus pupilos!

- Clipsby - disse Ricardo -, dizes coisas que, honestamente, eu não devo ouvir. Sir

Daniel é o meu bom amo e tutor.

- Vamos, quereis decifrar-me uma adivinha? - replicou Clipsby. - De que lado está

Sir Daniel?

- Não sei - disse Dick, corando um pouco, porque o seu tutor havia continuamente

mudado de partido, nas perturbações daquele período, e cada mudança lhe havia

trazido algum aumento de fortuna:

- Sim - replicou Clipsby -, nem vós, nem ninguém; porque ele realmente é dos que se

deita com o partido de Lancaster e se levanta com o de Iorque.

Exatamente nesse momento, a ponte ressoou sob ferraduras de cavalo e o grupo

voltou-se e viu Bennet Hatch, que vinha galopando: - uma cara tisnada, um homem

grisalho, de mão pesada e mal encarado, armado de espada e lança, com um elmo de

aço na cabeça e um saio de couro vestido. Era um grande homem naqueles sítios; a mão

direita de Sir Daniel na paz e na guerra, e naquela altura, por interesses do seu amo,

bailio dos cem.

- Clipsby! - gritou ele. - Já para o castelo e manda para lá também os outros

retardatários. Bovyer te dará saio de malha e elmo. Temos de partir antes do recolher.

Nota bem : aquele que for o último a chegar ao alpendre, terá o devido prémio de Sir

Daniel! Repara bem nisto! Conheço-te como valdevinos. Nance - acrescentou ele,

voltando-se para uma das mulheres -, o velho Appleyard está cá na terra?

- Com certeza - respondeu a mulher -, naturalmente, no seu campo.

Assim se dispersou o grupo e, enquanto Clipsby caminhava vagarosamente pela

ponte, Bennet e o jovem Shelton cavalgaram, subindo juntos a estrada, através da

aldeia e para além da igreja.

- Vai ver o velho mariola - disse Bennet. - Vai gastar mais tempo rosnando e

palrando de Henrique quinto do que levaria um homem a ferrar um cavalo. E tudo

porque esteve nas guerras de França.

A casa para onde se dirigiam era a última da aldeia, elevando-se, solitária, entre

lilases e, para além dela, por três lados, havia um prado aberto subindo até á orla da

floresta.

Hatch apeou-se, atirou a rédea sobre a sebe e desceu o campo, ao lado de Dick, em

direção ao sítio onde o velho soldado estava cavando, metido até ao joelho no meio

das couves, e cantando, de vez em quando, com voz de cana rachada, um trecho de uma

canção. Estava todo vestido de couro. Só o seu barrete e a gola eram de pano preto

debruados de vermelho. A cara parecia uma casca de noz, tanto na cor como nas rugas,

mas os seus velhos olhos cinzentos eram ainda lúcidos e o seu aspecto orgulhoso.

Talvez porque fosse surdo, talvez porque pensasse ser impróprio de um velho besteiro

de Agincourt dar importância a tais perturbações, o certo é que nem os raivosos toques

de sino de alarme, nem a próxima chegada de Bennet e do rapaz pareceram

impressioná-lo, e continuou a cavar obstinadamente, esganiçando-se, num tom muito

agudo e sacudido:

E agora, querida Senhora, se o quiseres ser Peço-te que tenhas pena de nzira...

- Nick Appleyard - disse Hatch -, Sir Oliver recomenda-se e ordena que venhas, já,

para o castelo, para assumir um comando.

O velho levantou os olhos.

- Ora vivam, meus senhores! - disse mostrando os dentes. - E para onde vai o patrão

Hatch?

- O patrão Hatch vai para Kettley, com todos os homens que pudermos montar -

retorquiu Bennet. - Há um combate para esses lados, parece. E o meu amo espera um

reforço.

- Sim, na verdade - replicou Appleyard. - E que me deixas para guarnição além

desses?

- Deixo-te seis homens bons e podes utilizar Sir Oliver - respondeu Hatch.

- Não se aguentará a praça - disse Appleyard -, o número não é bastante. Seria

preciso ter duas vezes mais, para consegui-lo.

- É por isso que eu venho por ti, velho manhoso - replicou o outro. - Quem mais há

aqui, a não seres tu, capaz de fazer alguma coisa com uma tal guarnição?

- Sim, quando sentem o aperto é que se lembram do sapato velho! - respondeu Nick.

- Não há um de vocês capaz de montar um cavalo ou empunhar uma acha de armas. E a

respeito de arqueiros (São Miguel!) se o velho Henrique Quinto voltasse ficaria de pé

e, por uma moeda, deixaria que lhe atirassem uma flechada.

- Não, Nick, ainda há alguns que podem esticar um bom arco - disse Bennet.

- Esticar um bom arco! -exclamou Appleyard. - Sim! Mas quem será capaz de

disparar uma boa flechada? Nisso entra o golpe de vista e é preciso ter a cabeça no seu

lugar. A que é que vocês chamam, agora, um longo tiro de besta, Bennet Hatch?

- Bom - disse Bennet, olhando em volta -, seria um belo tiro daqui para a floresta.

- Sim, seria um tiro bastante comprido - disse o velho, dando uma olhadela por cima

do ombro.

Então, pôs a mão por sobre os olhos e quedou-se olhando atentamente.

- Porque estás a olhar? - perguntou Bennet, com uma gargalhada. - Vês Henrique

Quinto?

O veterano continuava olhando para o monte em silêncio. O sol brilhava largamente

sobre os prados em declive. Alguns carneiros brancos vagueavam pastando, e tudo

estaria tranquilo se não fosse o tocar distante do sino.

- Que há, Appleyard? - Perguntou Dick.

- Porque será que os pássaros... - disse Appleyard. E realmente, sobre as copas da

floresta, no sítio em que esta descia, numa língua, entre os prados e acabava num par

de verdejantes ulmeiros, a cerca de um tiro de besta do campo onde estavam, um bando

de pássaros rasava, de um lado para o outro, em evidente desordem.

- Que têm os pássaros? - perguntou Bennet.

- Não há dúvida - disse Appleyard -, és um homem prudente para a guerra, patrão

Bennet! Os pássaros são uma excelente sentinela. Em lugares de floresta, são a

primeira linha de batalha. Agora, escuta, se ficarmos aqui a descoberto, devemos ter

besteiros escondidos que nos vigiam. E, se quiseres ficar, não serás muito prudente!

- Isso sim, velho manhoso! - disse Hatch. - Não há homens mais próximo de nós do

que os de Sir Daniel, em Kettley. Estás aqui tão seguro como na Torre de Londres. E

queres assustar a gente com um bando de pardais!

- Não querem ouvir isto? - rosnou Appleyard. - Quantos bandidos não deixariam

cortar as duas orelhas para poder atirar sobre qualquer de nós! Por São Miguel,

homem! Eles detestam-nos como a dois furões!

- Está bem. Detestam Sir Daniel - respondeu Hatch, um pouco preocupado.

- Sim, detestam Sir Daniel e todo aquele que o serve - disse Appleyard. - E na

ordem do seu ódio, detestam, em primeiro lugar, Bennet Hatch e o velho besteiro

Nicolau. Olha para ali. Se ali estivesse um homem forte a vigiar, à beira do bosque, e

tu e eu estivéssemos a jeito para ele (como, por São Jorge, estamos!), qual pensas que

ele escolheria?

- Aposto que serias tu - respondeu Hatch.

- Aposto a minha capa, contra um cinto de couro, que serias tu! - berrou o velho

besteiro. - Tu, Bennet, queimaste Grimstone; e eles nunca te perdoarão isso, meu amo.

Quanto a mim, depressa estarei em bom lugar (assim Deus no conceda!) e tão livre de

uma flechada como de um tiro de canhão e de todas as más vontades deles. Sou velho e

partirei depressa. A cama está á minha espera. Mas tu, Bennet, tens de ficar por cá,

depois de mim, por tua conta e risco. E se chegares á minha idade sem teres sido

enforcado, é que, então, o verdadeiro espírito inglês terá morrido.

- És o parvo mais manhoso da floresta de Tunstall - respondeu Hatch visivelmente

perturbado , por estas ameaças. - Vai buscar as tuas armas, antes que chegue Sir

Oliver, e deixa um bocado de tagarelar. Se tivesses falado tanto tempo com Henrique

Quinto, teria ficado com os ouvidos mais cheios do que a bolsa.

Uma flecha zuniu, no espaço, como um enorme moscardo, atingiu o velho Nick

Apleyard entre as omoplatas e atravessou-o, de um lado ao outro, e ele caiu, para

diante, de bruços, entre as couves. Hatch, com um grito sufocado, deu um salto e,

agachando-se, correu a proteger-se com a casa. Entretanto, Dick Shelton deixara-se

cair atrás de um dos lilases, e tinha a besta esticada e metida à cara, apontando o lugar

da floresta.

Não mexia uma folha. Os carneiros pastavam pacientemente e os pássaros haviam

pousado. Mas aí estava o velho com uma seta espetada ao alto nas costas; e ali estavam

Hatch suspenso do pipilar das aves e Dick escondido e alerta por detrás da moita de

lilases.

- Vê alguma coisa? - Gritou Hatch.

- Não mexe nem um ramo - respondeu Dick.

- Parece-me uma vergonha deixá-lo assim estendido – disse Bennet, voltando a

aparecer, com passo hesitante, e muito pálido. - Vigie o bosque, Master Shelton! Vigie-

o com atenção! Deus me perdoe, foi um belo tiro!

Bennet levantou o velho arqueiro sobre o seu joelho. Não estava ainda morto. A face

vivia. Os olhos fechavam-se e abriam-se maquinalmente e tinham a mais terrível

espressão de sofrimento.

- Ainda ouves, velho Nick? - perguntou Hatch.

- Tens uma última vontade antes de partir, meu irmão?

- Arranca a seta e deixa-me morrer, pela santíssima Virgem! - murmurou Appleyard.

- Nasci ainda na Inglaterra dos bons tempos. Arranca-a!

- Master Dick - disse Bennet -, venha cá e dê-me um bom puxão a esta seta. O pobre

pecador morrerá contente.

Dick largou a besta e, puxando fortemente pela flecha, arrancou-a. Um gorgolejo de

sangue seguiu-se. O velho arqueiro tentou agarrar-se-lhe aos pés. Pronunciou, mais

uma vez, o nome de Deus e tombou morto.

Hatch, de joelhos entre as couves, orou fervorosamente pela bem-aventurança da

alma que partia. Mas, mesmo enquanto rezava, era evidente que a sua atenção estava

dividida e conservava o olhar fixo sobre o canto do bosque de onde o tiro partira.

Quando acabou, levantou-se. Arrancou um dos seus guantes de malha e enxugou a face

pálida, toda molhada de suor do medo:

- Sim! - disse - será, a seguir, a minha vez.

- Quem fez isto, Bennet? - perguntou Ricardo, ainda com a flecha na mão.

- Não sei. Só Deus o sabe - disse Hatch.

- Há aqui umas boas dezenas de almas cristãs a quem temos escorraçado das casas e

das fazendas, ele e eu. Ele pagou já o seu quinhão, pobre diabo, e talvez não demore

muito que eu pague o meu. Sir Daniel governa com dureza.

- É uma seta estranha, esta! - disse o rapaz, olhando a flecha na mão.

-Sim, por minha fé! - exclamou Bennet. - Negra e com penas negras na ponta. é, na

verdade, uma seta de mau agouro, porque o negro, dizem, pressagia enterro. E tem

palavras escritas! Limpe o sangue. O que lê?

- "Para Appleyard, de João-o-Justiceiro," - leu Shelton. - Que augurará isto?

- Não, isto não me agrada - respondeu o mercenário, é abanando a cabeça. – João-o-

Justiceiro! Aqui está um lindo nome para os malandros que há neste mundo! Mas com

que fim deixam, assim, um vestígio? Pegue-lhe pelos joelhos, bom Master Shelton, que

eu o seguro pelos ombros, e vamos deixá-lo em casa.

- Isto vai ser um rude golpe para o pobre Sir Oliver. Vai ficar branco como o papel

e vai moer orações como um moinho de vento.

Levantaram o velho besteiro e, os dois, levaram-no para a casa que ele havia

construído sozinho. Aí deitaram-no no chão, sem procurar a enxerga, e tentaram, o

melhor possível, juntar-lhe e compor-lhe os membros.

A casa de Appleyard era limpa e nua: Tinha uma cama com uma coberta azul, um

armário, um arcaz, um par de escabelos e uma mesa de dobradiça ao canto da chaminé;

e, pendendo das paredes, o arsenal do velho soldado, composto de arcos e da

armadura defensiva.

Hatch começou a olhar, em volta, curiosamente. - disse.

- Nick tinha dinheiro - Deve ter um pé de meia de umas sessenta libras. Eu deveria...

- poderia procurá-lo! Quando perdemos um bom amigo, Master Ricardo, a melhor

consolação que poderemos ter é ser seu herdeiro. Olha para este arcaz!

Aposto em como há lá dentro um alqueire de ouro.

Tinha bom pulso para agarrar e mãos fortes para guardar, o velho besteiro

Appleyard! Agora, Deus dê descanso à sua alma! Há perto de oitenta anos que vivia,

sempre amealhando. Mas agora, pobre mariola, está de papo para o ar e nada mais lhe

faz falta e, se os seus bens móveis fossem parar às mãos de um bom amigo, julgo que

no céu ficaria mais contente.

- Vamos, Hatch - disse Dick -, respeita esses olhos vidrados. Serias capaz de roubar

um homem diante do seu cadáver? Não, vamos embora!

Hatch fez vários sinais da cruz. Mas neste momento a sua tendência natural voltou e

ele não era daqueles que facilmente se deixam dissuadir dos seus projetos. Teria ido

mais longe com o arcaz se não tivesse soado a cancela e se, logo depois, a porta se não

tivesse aberto, deixando entrar um homem de cerca de cinquenta anos, alto, corpulento,

corado, de olhos escuros, de soprepeliz e vestes negras.

- Appleyard! - chamava o recém-chegado, entrando. Depois, parou petrificado. -

Ave Maria! - esclamou. - Deus nos acuda! que história é esta?

- Uma triste história para Appleyard, meu padre - respondeu Hatch, com um perfeito

à-vontade. - Foi atingido à sua própria porta e deve ter chegado, agora mesmo, às

portas do Purgatório. Aí, se o que dizem é verdade, não lhe fará falta luz nem calor.

Sir Oliver dirigiu-se hesitante para um escabelo e sentou-se, indisposto e pálido.

- Isto é castigo! Oh! um rude golpe! - murmurou, suspirando, e matraqueou uma fiada

de orações.

Entretanto, Hatch tirara o elmo e ajoelhara.

- Bennet - disse o padre, reanimando-se um pouco -, que pode isto ser? Que inimigo

teria feito isto?

- Aqui está a flecha, Sir Oliver. Vede, nela estão escritas palavras - disse Dick.

- Não - gritou o padre -, isto é uma infâmia! João-o-Justiceiro! É um verdadeiro dito

de Lollard{2}. E é negra como um presságio! Senhores, esta seta traiçoeira não me agrada. Mas é mais importante tomar conselho. Quem poderá ter sido? Que pensas,

Bennet? De tantos e tão tenebrosos inimigos, qual teria sido capaz de nos enfrentar tão

ousadamente? Simnel? Duvido. Os Walsinghams? Não! Não estão, ainda, tão

quebrados. Pensam ainda em dominar-nos legalmente, quando as coisas mudarem. Há

também Simão Malmesbury. Que te parece, Bennet?

- Que pensais vós, senhor, de Ellis Duckworth? - replicou Hatch.

- Não, Bennet, nunca. Ele, não - disse o padre. - Nunca uma revolta partiu de baixo,

Bennet. Todos os cronistas judiciosos são unânimes nesta opinião. A rebelião marcha

sempre de cima para baixo, e, quando a plebe lança mão das armas, procuram sempre,

cuidadosamente, saber a que senhor isso aproveita. Neste momento, Sir Daniel, tendo

mais uma vez aderido ao partido da Rainha, caiu em desgraça para os senhores do

partido de Iorque. Daqui, Bennet, é que veio o golpe! Por que razão?... Ainda o

procuro saber!... Mas é aqui que está a origem desta desgraça.

- Então concordo convosco, Sir Oliver - disse Bennet. - Os espíritos estão tão

exaltados, nesta terra, que há muito pressinto o perigo. Assim sucedeu também ao

pobre Appleyard. E, com vossa licença, os ânimos estão tão odiosamente dispostos

contra nós todos, que não são necessários nem os de Iorque, nem os de Lancaster para

os incitar. Vou dizer-vos o que penso. Vós, que sois padre, e Sir Daniel, que navega

com qualquer vento, espoliastes muita gente e batestes e enforcastes não poucos. Sois,

finalmente, chamado a prestar contas. Tendes sempre, não sei como, saltado por cima

da lei e assim pensais ter remediado tudo. Mas, com vossa licença, Sir Oliver, o

homem que haveis espoliado e batido está cada vez mais enraivecido e, um dia, se o

diabo negro o aconselhar, erguer-se-á com o seu arco e espetar-vos-á uma jarda de

flecha nas entranhas.

- Não, Bennet. Estás enganado. Deverias corrigir-te, Bennet - disse Sir Oliver. - És

um linguareiro, um falador, um indiscreto. Tens a boca maior Bennet! do que as tuas

duas orelhas. Corrige-te, corrige-te!

- Bom, calar-me-ei. Seja como quereis - disse o mercenário.

O padre levantou-se do escabelo. Do estojo de escrever, pendente do seu pescoço,

tirou cera, um pavio, pederneira e fuzil. Com isto selou o arcaz e o armário com o

sinete de armas de Sir Daniel, enquanto Hatch olhava desconsolado e o grupo avançou

um pouco, depois mais um pouco, medrosamente, para sair de casa e alcançar os

cavalos.

- É tempo de nos pormos a caminho Sir Oliver - disse Hatch, segurando o estribo do

padre enquanto este montava.

- Sim, Bennet, mas as coisas mudaram - retorquiu o padre. - Agora já não existe o

Appleyard!, Deus o tenha em descanso, para comandar a guarnição, Terei de

conservar-te Bennet. Preciso de um homem seguro para me tranquilizar, neste dia e

flechas negras. "A seta que voa de dia..." diz o Evangelho... Não me lembra o resto do

texto. Sou um padre preguiçoso, mergulhado de mais nos negócios dos homens. Bom

marchemos, amigo Hatch.

Os soldados devem estar agora no adro da igreja.

Assim cavalgaram para a estrada, com o vento nas costas agitando as abas das

vestes do padre. Atrás deles, à medida que caminhavam, levantavam-se nuvens

escurecendo o sol poente. Tinham passado três das casas espalhadas que formavam o

lugarejo de Tunstall quando, chegando a uma volta viram a igreja na frente deles.

Dez ou doze casas amontoavam-se em torno. Mas, pelo lado das traseiras, o adro da

igreja ligava com os prados. Junto do alpendre, agrupavam-se uns vinte homens,

aproximadamente. Alguns estavam a cavalo, outros tinham os cavalos á rédea.

Estavam armados e montados de várias maneiras: uns com lanças, outros com achas

de armas, alguns com bestas e outros escarranchados em cavalos de trabalho, ainda

enlameados da terra do arado, porque estes eram a escória da região e todos os

melhores homens e belos equipamentos estavam já em campo com Sir Daniel.

- Não foi mal feito, louvada seja a cruz de Holywood. Sir Daniel ficará contente,

com razão! - observou o padre, contando mentalmente a soldadesca.

- Quem vai aí?! Pare, se é dos nossos! - Gritou Bennet.

Viu-se um homem deslizar, atravessando o adro entre os teixos, e, ao ouvir esta

intimação, pôr de lado todo o disfarce e correr, o melhor que póde, para a floresta. Os

homens do alpendre, até aí desprevenidos da presença do desconhecido, despertaram e

espalharam-se. Os que estavam a pé guindavam-se, apressadamente, para as selas; os

restantes lançaram-se, a cavalo, na perseguição, mas tinham de tornejar o terreno

sagrado e era evidente que a presa se lhes escaparia.

Hatch, rugindo uma praga, apontou o cavalo á vedação, para a saltar, mas o animal

negou-se, projetando o cavaleiro ao comprido na poeira. E, ainda que, no mesmo

momento, se tivesse levantado e lançado mão do freio, tinha passado o tempo

necessário para que o fugitivo conseguisse uma grande dianteira e não pudesse haver

esperanças de alcançá-lo.

O mais prudente de todos fora Dick Shelton. Em vez de partir numa perseguição

inútil, arrancara rapidamente a besta de tiracolo, esticara-a e pusera uma flecha na

corda. E, agora, quando os outros haviam desistido, voltara-se para Bennet e

perguntava-lhe se podia disparar.

- Atira! Atira! - gritou o padre, com violência sanguinária.

- Aponte-lhe, Master Dick - disse Bennet. - Deite-mo abaixo como uma maçã

madura.

O fugitivo estava, agora, apenas a poucos passos da salvação. Mas esta última parte

do prado subia a pique, e o homem proporcionalmente corria mais devagar. Apesar de,

com a névoa da noite que caía e os movimentos sacudidos do corredor, não ser um

alvo fácil, Dick sentiu, enquanto apontava o arco, uma espécie de piedade e um quase

desejo de não acertar.

A seta partiu. O homem tropeçou e caiu. E uma grande aclamação partiu de Hatch e

dos perseguidores. Mas faziam contas antecipadas. O homem caiu levemente e,

levantando-se, ágil, voltou-se e agitou num desafio o seu barrete e, pouco depois,

estava fora do alcance da vista, na orla da floresta.

- Que o diabo o leve! - gritou Bennet. - Tem pernas de ladrão e pode correr, com mil

demónios! Mas acertou-lhe, Master Shelton. Foi atingido e não lhe invejo a sorte.

- Que faria ele junto à igreja? - perguntou Sir Oliver - Estou desconfiado de que ali

tenha havido desastre! Clipsby, meu rapaz, apeia-te e procura bem entre os teixos.

Clipsby partiu e, pouco depois, voltou trazendo um papel.

- Este escrito estava pregado na porta da igreja - disse, estendendo-o ao padre. -

Não encontrei mais nada, meu padre.

- Agora, pelo poder da Santa Madre Igreja! - gritou Sir Oliver - isto atinge quase o

sacrilégio! Pelo belprazer do Rei ou do senhor do castelo está bem! Mas que qualquer

escalda-favais de gibão verde possa colar papéis na porta da igreja! Não, isto cheira, a

valer, a heresia! A valer! E por muito menos já alguns têm sido queimados! Mas, que é

isto? A noite cai depressa. Bom Master Ricardo, o senhor, que tem olhos de moço,

leia-me, por favor, este papel.

Dick Shelton agarrou no papel e leu-o alto. Continha algumas linhas de uma rude

canção de escárnio rimando com dificuldade, escrita em grosseiros caracteres e com

uma ortografia ainda mais singular. Com a ortografia um pouco melhorada, eis o que

dizia:

Tenho quatro setas pretas no meu cinturão.

Quatro para as penas que tenho sentido.

Quatro prós homens de mau coração

Que desde sempre me têm oprinido.

Uma já partiu e, bem despachado,

O velho Appleyard foi assassinado.

Uma é pra um tal senhor Bennet Hatch

Que incendiou Grinsstone de alto a baixo.

Uma é para Oliver Oates, essa alma santa,

Que a Sir Harry Shelton cortou a garganta

Sir Daniel, para vós será a quarta.

E, com isso, nós gozaremos à farta.

Todos vós tereis o vosso quinhão:

Uma seta preta no coração.

Ajoelhai-vos, fazei oração,

Pois sois ladrões mortos, quer queiram quer não...

João-o-Justiceiro da Floresta Verde, e a sua bela companhia.

Nota: Temos mais flechas e boa corda de cânhamo para outros do vosso séquito.

- Sim, senhor! Ai da caridade e das graças cristãs! - gritou Sir Oliver,

lamentosamente. - Senhores, este é um mundo falso e cada vez pior. Juro, pela Santa

Cruz de Holywood, que estou tão inocente do mal que sucedeu a esse bom cavaleiro,

quer por atos, quer por intenções, como uma criança por batizar. Ninguém foi

degolado, nisto se enganam eles!, e ainda vivem testemunhas que podem prová-lo.

- Isso não serve de nada, padre - disse Bennet. - É impróprio falar nisso aqui...

- Não, Bennet, não. Conserva-te no teu lugar - respondeu o padre. - Farei surgir a

minha inocência. Não há considerações de qualquer espécie que me façam perder, por

um erro, a minha pobre vida. Tomo estes homens por testemunhas de que estou limpo

de mácula neste assunto. Nem mesmo estava no castelo. Fui mandado a um recado

antes das nove horas.

- Sir Oliver - disse Hatch, interrompendo-o.

- Desde que não quereis acabar com esse sermão , arranjarei outros meios. Goffe,

toca para montar!

E, enquanto a fanfarra soava, Bennet aproximou-se do desconcertado clérigo e

violentamente segredou-lhe ao ouvido.

Dick Shelton viu o olhar do padre voltar-se para ele, por instantes, num medroso

lampejo. Tinha as suas razões para meditar, porque aquele Sir Harry Shelton era seu

próprio pai. Mas nunca disse palavra e manteve uma expressão inalterável. Hatch e Sir

Oliver discutiram, durante algum tempo, a sua nova situação. Foi decidido, entre eles,

reservar dez homens, não só para guarnecer o castelo mas também para escoltar o

padre através da floresta.

Entretanto, como Bennet devia ficar à retaguarda, o comando do reforço foi dado a

Master Shelton. Na verdade, não havia possibilidade de escolha. Os homens eram

pobres rústicos, tardos e pouco afeitos á guerra, enquanto Dick era não só popular mais

valente e mais reflectido do que o natural na sua idade. Apesar de a sua juventude

haver decorrido nestes rudes lugares campestres, o rapaz havia sido bem ensinado nas

letras por Sir Oliver, e o próprio Hatch o industriara no manejo das armas e lhe dera as

primeiras noções do comando.

Bennet havia sido sempre, para ele, bondoso e útil. Era uma destas pessoas que são

duras como o aço para os que consideram inimigos, mas ferozmente fiéis e dedicados

para os amigos. E, agora, enquanto Sir Oliver entrava na casa próxima para escrever,

na sua rápida e especiosa caligrafia, um memorial dos últimos acontecimentos a seu

amo, Sir Daniel Brackley, Bennet aproximou-se do discípulo para lhe desejar boa sorte

na empresa.

- Deve ir pelo caminho mais longo, Master Shelton - disse. - Pela sua saúde, vá pela

ponte! Mande um homem de confiança cinquenta passos à sua frente, para atrair os

tiros; e vá devagar até passar o bosque. Se os bandidos atacarem, carregue.

Não lucrará nada esperando. E avance sempre, Master Shelton. Não volte para trás,

se tem amor à vida. Lembre-se de que não há nenhum reforço em Tunstall. E, agora que

vai para as grandes guerras do Rei, e eu aqui fico, em extremo perigo de vida, e só

Deus sabe se por cá nos encontraremos outra vez, vou dar-lhe os meus conselhos à

partida. Vigie Sir Daniel. Ele não é certo. Não confie no padre. Não tem intenção de

fazer mal, mas cumpre a vontade dos outros. É uma arma de Sir Daniel.

Faça valer a sua boa nobreza, aonde quer que vá e, note bem, conquiste amigos

poderosos. E não se esqueça de rezar um padre-nosso por Bennet Hatch.

Há neste mundo patifes piores que Bennet. Assim Deus o proteja!

- E o céu seja contigo, Bennet - replicou Dick. - Foste um bom amigo para um órfão,

hei-de dizê-lo sempre.

- E olhe, Master - acrescentou Hatch, com um embaraço -, se esse tal Justiceiro me

atravessar com uma seta, talvez possa gastar uma moeda de ouro ou uma libra por

intenção da minha pobre alma, porque irei diretinho para o Purgatório!

- Será cumprido o teu desejo, Bennet - respondeu Dick. - Mas que estás para ai a

dizer, homem?! Encontrar-nos-emos outra vez, mas em sitio onde tenhamos mais

necessidade de cerveja do que de missas.

- Assim Deus o queira, Master Dick! - replicou o outro. - Ai vem Sir Oliver. Se

fosse tão expedito com o arco como é com a pena, seria um bravo soldado.

Sir Oliver deu a Dick um volume selado, assim sobrescritado:

"Para ser entregue urgentemente ao meu verdadeiro e venerável senhor, o cavaleiro

Sir Daniel Brackley.

E Dick, metendo-o no peito do seu gibão, deu a voz de comando e avançou para

oeste, subindo a aldeia.

LIVRO I – OS DOIS RAPAZES

CAPÍTULO I – NA ESTALAGEM DO SOL, EM KETTLEY

SIR Daniel e os seus homens estavam naquela noite em Kettley e seus arredores,

confortavelmente aquartelados e bem patrulhados. Mas o cavaleiro de Tunstall era

insaciável de dinheiro e, mesmo agora, no limiar de uma aventura que podia guindá-lo

ou perdê-lo, estava a pé à uma hora da noite para espoliar os pobres vizinhos. Era dos

que traficavam em heranças litigiosas. Era a sua maneira de quebrar os reclamantes

mais irrequietos. Pelo favor, que mantinha, dos grandes senhores, junto do Rei,

conseguia decisões injustas em seu proveito, ou, se isto era muito complicado, tomava

pela força das armas o castelo disputado e confiava na sua influência e no perspicaz

conhecimento que Sir Oliver tinha das leis, para conservar o que havia roubado.

Kettley era um destes lugares; tinha-lhe caído muito recentemente nas garras.

Encontrava ainda a oposição dos feudatários; e tinha sido para mostrar o seu

descontentamento que ali levara as tropas.

Por volta das duas da manhã, Sir Daniel estava sentado na sala da estalagem, muito

perto do lume, porque estava frio àquela hora no meio dos pântanos de Kettley. Ao

lado tinha uma caneca de cerveja com especiarias. Tirara o elmo de viseira,

descansava a cabeça, calva e seca, e a escura face sobre a mão, e estava

confortávelmente embrulhado numa capa cor de sangue. Na parte mais baixa da sala,

cerca de meia dúzia dos seus homens guardavam a porta ou dormiam sobre os bancos,

e, um pouco mais próximo, um rapazinho, aparentando doze ou treze anos, dormia

estendido numa manta, no chão. O estalajadeiro do Sol mantinha-se de pé, em frente do

fidalgo.

- Agora, toma nota, estalajadeiro - disse Sir Daniel. - Segue apenas as minhas

ordens; e eu serei sempre um bom senhor para ti. Preciso de homens de confiança para

as sedes de distrito. Repara bem, terei Adam-o-More como alcaide. Se for escolhido

outro, de nada te valerá, porque será pago à tua custa. Para os que pagaram tributo a

Walsingham tomarei boas medidas, e tu estás entre esses...

- Bom cavaleiro - disse o estalajadeiro -, juro pela Cruz de Holywood que só paguei

a Walsingham sob coação. Não, bravo cavaleiro, eu não gosto do patife do

Walsingham. é tão pobre como ladrão, bravo cavaleiro. Antes quero um grande senhor

como vós. Perguntai á vizinhança. Sou um ferrenho partidário de Brackley.

- Talvez - disse Sir Daniel. - Então pagas.

O hospedeiro fez uma horrenda careta. Mas isto era uma infelicidade que naqueles

tempos sem lei frequentemente sucedia a um feudatário, e talvez tivesse ficado contente

por ter conseguido a paz de maneira tão fácil.

- Traz esse homem, Selden! - gritou o cavaleiro.

E um dos seus mercenários conduziu um pobre velho curvado, pálido como a cera e

tremendo com sezões.

- Vilão - disse Sir Daniel -, como te chamas?

- Condall, para servir Vossa Nobréza - replicou o homem. - Chamo-me Condall de

Shoreby, às ordens de Vossa Nobreza.

- Ouvi dizer mal de ti - retorquiu o cavaleiro. - Vives da traição, Espalhas falsas

noticias na região e és suspeito de várias mortes, patife.

És muito atrevido, mas eu te ensinarei...

- Honrado e venerável senhor! - gritou o homem. - Aqui deve haver confusão, salvo

o devido respeito. Sou um pobre homem que não faz mal a ninguém.

- O meirinho deu de ti as piores informações - disse o cavaleiro. - Préndam-me -

disse -, este Tyndall de Shoreby.

- Condall, meu bom senhor; Condall é que é o meu nome - disse o infeliz.

- Condall ou Tyndall, tanto faz, por minha fé! estás aqui e suspeito grandemente da

tua honestidade. Se queres salvar a cabeça, escreve-me, rapidamente uma confissão de

divida de vinte libras.

- De vinte libras? - Gritou Condall. - meu bom senhor! Isso é uma loucura! Tudo

quanto tenho não vale setenta xelins!

- Condall ou Tyndall - replicou Sir Daniel, - rindo sarcasticamente. - Correrei o

risco desse prejuízo. Escreve vinte, que, logo que eu receba tudo, serei bom amo para

ti e perdoar-te-ei o resto.

- Valha-me Deus, Eu quase não sei escrever - disse Condall. - meu senhor Não pode

ser.

- Bem! -, então não há remédio - replicou o cavaleiro. - Assim ainda te pouparia,

Tyndall, mesmo contra a minha consciência. Selden, leva-me suavemente este velho

patife até ao ulmeiro mais próximo e pendura-mo, com ternura, pelo pescoço em sitio

onde eu o possa ver quando montar a cavalo. Passa bem, velho Condall, querido

Tyndall. Vais a mata-cavalos para o Paraiso. Adeus!

- Não, meu muito amável senhor - respondeu Condall, forçando um sorriso servil.-

Se sois tão poderoso que o que mandais fazer é bem feito, eu cumprirei as vossas

ordens, mesmo com a minha fraca habilidade.

- Amigo - disse Sir Daniel -, agora, hás-de escrever quarenta. Vai! é esperto de mais

para teres só um rendimento de setenta xelins. Seldon, vê-o escrever-me isso em boa

forma e devidamente testemunhado.

E Sir Daniel, que era um alegre cavaleiro como outro não havia em Inglaterra -,

bebeu uma golada da sua cerveja com especiarias e recostou-se sorrindo.

Entretanto, o rapaz estendido no chão começou a levantar-se e, finalmente, sentou-se

e olhou em volta, com espanto.

- Aqui! - disse Sir Daniel. E como o outro se levantasse a esta ordem e caminhasse

vagarosamente para ele reclinou-se na cadeira e riu, à gargalhada.

- Pela Santa cruz! - exclamou. - Estás um belo rapaz.

O rapaz pôs-se rubro de cólera, lançando-lhe um olhar de ódio dos seus negros

olhos.

Agora, que estava de pé, era mais difícil dar-lhe uma idade certa. O rosto tinha uma

expressão de mais idade, mas era tão aveludado como o de um petiz e, de membros e

corpo, era invulgarmente franzino e um pouco acanhado, na maneira de andar.

- Haveis-me chamado, Sir Daniel? - disse.

Era para vos rirdes do meu triste estado?

- Então, deixa-me rir! - disse o cavaleiro.

Ah, patife! Deixa-me rir! Se te pudesses ver a ti próprio, aposto que serias o

primeiro a rir.

- Bem - exclamou o rapaz, corando. - Deveis responder por isto quando

responderdes pelo resto. Ride-vos enquanto é tempo!

- Agora, não, querido primo - replicou Sir Daniel, com vivacidade. - Não penses

que me rio de ti a não ser com bom humor e como entre parentes e particulares amigos.

Vou fazer-te um casamento de um milhar de libras e, além disso, mimar-te muito.

Raptei-te, na verdade, rudemente, porque o tempo urgia, mas, daqui para o futuro,

sustentar-te-ei de boa vontade e servir-te-ei dedicadamente.

Serás a Senhora Shelton: Lady Shelton-por minha honra. - porque o rapaz é uma bela

promessa. Vamos! Não te envergonhes de um riso honesto!

Afasta a melancolia! os maus não riem, bom primo. Bom estalajadeiro, traze-me

agora a refeição de meu primo Master John. Senta-te, queridinho, e come.

- Não - disse Master John. - Não comerei nada. Desde que me forçais a este pecado,

jejuarei para salvar a minha alma. Mas, bom estalajadeiro, peço-te o favor de me dares

um copo de boa água.

- Agradeço-te muito esse favor.

- Terás uma bula para o jejum, vamos! - exclamou o cavaleiro. - Confessar-te-ás,

por minha fé! Alegra-te e come!

Mas o rapaz era obstinado. Bebeu o copo de água e, embrulhando-se de novo na

manta, sentou-se num canto afastado, meditando.

Uma hora ou duas depois, ouviu-se um burburinho na vila, com alertas de sentinelas

e o ruído de armas e cavalos. Então, um grupo aproximou-se da porta da estalagem e

Ricardo Shelton, salpicado de lama, apareceu no limiar.

- Deus vos salve, Sir Daniel! - disse.

- Como?! Ricardito Shelton! - exclamou o cavaleiro.

Ao ouvir proferir o nome de Dick, o outro rapaz olhou-o curiosamente.

- Que faz Bennet Hatch?

- Dignai-vos, senhor, tomar conhecimento desta mensagem de Sir Oliver, onde todos

os acontecimentos são completamente relatados - respondeu Ricardo, apresentando a

carta do padre. - E, antes de mais, talvez fosse bom partirdes o mais depressa possivel

para Resingham: porque, no caminho para aqui, encontrámos um correio galopando

furiosamente com cartas e, pelas suas noticias, Lord Resingham estava em má situação

e necessitava extraordinariamente da vossa presença.

- Como dizes? Em má situação? - retorquiu o cavaleiro. - Não, então só teremos

pressa de estar quietos, caro Ricardo. Da maneira que correm as coisas neste pobre

reino de Inglaterra, aquele que vai mais devagar é o que vai com mais segurança. Da

demora, dizia-se, nascia o perigo. Mas é antes este prurido de ação que perder os

homens, nota bem isto, Dick. Mas deixa-me ver, primeiro, o que para aqui me trazes.

Selden, um archote aqui ao pé da porta!

E Sir Daniel encaminhou-se, com grandes passadas, para a rua da vila, e, a luz

vermelha do archote, inspeccionou as suas novas tropas.

Era um impopular vizinho e um senhor impopular, mas, como cabo de guerra, era

bem amado pelos que cavalgavam atrás do seu pendão. A sua violência no ataque, a

sua comprovada coragem, o cuidado pelo conforto dos soldados, mesmo os seus rudes

sarcasmos, tudo era do gosto desta atrevida soldadesca de cota de malha e elmo.

- Não, pela Santa Cruz! - exclamou. - Quem são estes cães famélicos? Há-os curvos

como um arco e finos como uma lança. Ireis na primeira linha, para vos poupar,

amigos! Reparem naquele velho mariola do cavalo malhado! Um carneiro de dois anos

a cavalo num porco tinha um ar mais marcial!

Olá, Clipsby, também por cá, velha ratazana? És um homem que eu perderia de boa

vontade. Hás-de, ir, na frente de todos, com um circulo pintado no gibão para seres

melhor alvo para os besteiros. Hás-de ensinar-me o caminho, vilão!

- Não poderei ensinar-vos outro caminho que não seja o de mudar de partido -

retorquiu Clipsby, grosseiramente.

Sir Daniel deu uma estrondosa gargalhada:

- Bem dito! - exclamou. - Tens uma lingua afiada, vamos! Perdoo-te, por esse bom

dito! Selden, olha por que dêem de comer a homens e animais.

O cavaleiro reentrou na estalagem.

- Agora, amigo Dick, vamos a isto. Aqui está boa cerveja e presunto. Come enquanto

eu leio.

Sir Daniel abriu o embrulho e, á medida que lia, franziu as sobrancelhas. Quando

acabou, sentou-se, por momentos, meditando, e depois olhou penetrantemente para o

seu pupilo.

- Dick - disse ele -, leste os tais versos de pé quebrado?

O rapaz respondeu afirmativamente.

- Trazem o nome de teu pai - continuou o cavaleiro -, e o pobre diabo do nosso

padre é acusado, por algum maluco, de o ter assassinado.

- Ele negou isso com firmeza - respondeu Dick.

- Negou? - exclamou o cavaleiro, num sobressalto. - Não faças caso. Tem a língua

solta e é tagarela como um pardal. Qualquer dia, quando tiver vaga, esclarecer-te-ei

completamente sobre esse assunto. Um dos Duckworth foi acusado disso, mas os

tempos eram agitados e não havia justiça.

- Foi no castelo? - acrescentou Dick, com um baque no coração.

- Foi entre o castelo e Holywood - replicou Sir Daniel calmamente, mas lançando

um olhar de viés e carregado de suspeitas sobre o rosto de Dick.

- E agora - ajuntou o cavaleiro --, despacha-te com a tua refeição. Tens de voltar a

Tunstall com uma carta minha.

Dick tomou uma expressão compungida.

- Por favor, Sir Daniel! - exclamou. - Mandai um dos vilões. Peço-vos que me

deixeis combater. Já poderei dar boas cutiladas; prometo-vos...

- Não o duvido - respondeu Sir Daniel, sentando-se para escrever. - Mas aqui -

continuou - não conquistarás honras. Estarei em Kettley até conseguir informações

seguras e, logo que as tenha, partirei a juntar-me com o vencedor. Não penses que é

covardia: é apenas prudência, Dick, porque este pobre reino tem sido tão atribulado

pelas revoltas e o nome do Rei e a sua guarda têm tantas vezes mudado de mãos, que

ninguém pode estar certo do dia de amanhã. O Seguro morreu de velho e Dona

Prudência foi ao enterro.

Dizendo isto, Sir Daniel voltou as costas a Dick e quase na ponta extrema da longa

mesa começou a escrever a carta, de boca ao lado, porque este assunto da flecha negra

contraía-lhe dolorosamente a garganta.

Entretanto, o moço Shelton continuava, com bom apetite, a sua refeição, quando

sentiu um contato no seu braço e uma voz segredar-lhe, muito baixo, ao ouvido:

- Não dê qualquer sinal, peço-lhe - disse a voz. - Mas, por caridade, ensine-me o

caminho mais curto para Holywood. Por favor, meu rapaz, acuda a uma pobre alma em

perigo e em extrema desgraça e indique-me, até onde puder, o caminho da salvação.

- Tome a vereda junto ao moinho de vento - respondeu Dick, no mesmo tom. -

Conduzi-lo-á até à passagem do barco do Till. Aí pergunte outra vez.

E, sem voltar a cabeça, recomeçou a comer. Mas, disfarçadamente, lançou um olhar

ao rapazinho a quem chamavam Master John, e viu-o arrastar-se, furtivamente, para

fora da sala.

"Porque me terá ele chamado meu rapaz", se é a da minha idade?! Se tivesse sabido,

antes queria ter visto o mariola na forca do que tê-lo ensinado. Mas, se vai pelo

pântano, eu o alcançarei e lhe puxarei as orelhas", pensou Dick.

Meia hora mais tarde, Sir Daniel deu a carta a Dick e despachou-o, a toda a

velocidade, para o castelo. Meia hora após a sua partida, chegava, à desfilada, um

mensageiro de Lord Risingham.

- Sir Daniel - disse o mensageiro -, por minha fé!, perdeis grande honra. O combate

começou de novo esta manhã, antes do amanhecer. Batemos-lhe a retaguarda e

desbaratámos-lhe a ala direita. Só o grosso do exército se mantém ainda unido. Se

tivéssemos as nossas tropas frescas lançá-las-iamos no rio. O quê, senhor cavaleiro,

quereis ser o último? Isso não se combina com a vossa fama!

- Não! - disse o cavaleiro. - Ia agora mesmo pôr-me em marcha. Selden, toca-me a

trombeta! Senhor, estarei convosco dentro de um momento. Não há ainda duas horas

que a maior parte das minhas forças chegou, senhor mensageiro! Como poderiamos ter

partido? A espora é bom alimento ainda que mate o corcel. Vamos, rapazes!

Neste momento a trombeta soava alegremente, na madrugada, e de todos os lados os

homens de Sir Daniel chegavam à rua principal, formando em frente da estalagem.

Tinham dormido em armas, com os cavalos de guerra selados e, em dez minutos, cem

homens de armas e besteiros perfeitamente equipados e bem disciplinados estavam

alinhados e prontos.

A maior parte estava vestida com a libré de Sir Daniel, escarlate e azul, o que dava

um belo aspecto á sua formatura.

Os melhores armados partiram primeiro e, longe, fora da vista, à retaguarda da

coluna, seguia o triste reforço da noite anterior.

Sir Daniel olhava, com orgulho, o desfile.

- Aqui estão os valentes para vos servir, num aperto. - replicou o mensageiro. - São

belos homens, na verdade, e isso apenas vem aumentar a minha tristeza por não

haverdes partido mais cedo.

- Bem - disse o cavaleiro -, o que desejáveis? O começo de uma festa, como o fim

de uma batalha, Senhor mensageiro? - e saltou para o cavalo. - Como? Como é isto?! -

gritou - John!

Joana! Não, pela Santa Cruz! Onde está ela? Hospedeiro, onde está aquela rapariga?

- Rapariga, Sir Daniel?! - perguntou o dono da casa. - Não, meu senhor, não vi

nenhuma rapariga.

- Então, rapaz, meu palerma! - exclamou o cavaleiro. - Não viste que era fêmea?

Aquela da capa escarlate, que só quis beber água, patife, onde está ela?!...

- Valha-nos Deus! Chamáveis-lhe Master John! - disse o estalajadeiro. - Pois bem,

não desconfiei. Foi-se. Eu vi-o... vi-a... Vi-a na cavalariça a aparelhar um cavalo ruço.

- Por Deus! - gritou Sir Daniel -, a moça vale para mim quinhentas libras ou talvez

mais!...

- Senhor cavaleiro - observou o mensageiro -, enquanto estais aqui praguejando por

causa de quinhentas libras, está sendo algures perdido ou ganho o trono de Inglaterra.

- É verdade - respondeu Sir Daniel -, Selden, parte com seis besteiros e caçara! Não

olho ao que isso custe, mas, quando voltar, quero encontrá-la no castelo. Toma bem

nota disto, tens em risco a cabeça... E agora, senhor mensageiro, partamos.

E a tropa seguiu a trote largo, enquanto Selden e os seus seis homens ficavam na rua

de Kettley com os camponeses embasbacados.

CAPÍTULO II – NO PÂNTANO

ERAM perto de seis horas, naquela manhã de Maio, quando Dick começou a descer,

a cavalo, para o pântano, a caminho de casa. O céu era todo azul e uma doce brisa

corria baixa e tranquila. As velas do moinho rodavam e os salgueiros, por todo o pau,

ondulavam, brilhando como uma seara. Passara toda a noite a cavalo mas sentia-se

bem disposto de alma e corpo e cavalgava alegremente.

A vereda descia, cada vez mais, para o pântano, de maneira que ele perdeu de vista

todos os pontos de referência da região, e só via o moinho de vento de Kettley no

montículo que deixara atrás e os cimos das copas da floresta de Tunstall ao longe, na

sua frente.

Dos dois lados havia grandes extensões murmurantes de juncos e salgueiros, charcos

ondulando com o vento e atoleiros enganadores, verdes como esmeraldas, para tentar e

perder o viajante. O caminho corria quase todo exatamente através do pântano. Era já

muito antigo: havia sido construído pela soldadesca romana. Com o decorrer do tempo,

grande parte dele ficara aterrado e, mesmo, aqui e ali, em extensões de algumas jardas,

estava submerso na água estagnada do pântano.

A cerca de uma milha de Kettley, Dick chegou a uma dessas soluções de

continuidade no curso do caminho de passagem, ali onde os juncos e os salgueiros

cresciam dispersos em ilhotas, estabelecendo, à vista, a confusão. Além disso, porque

a brecha era maior do que de costume, este era um lugar onde qualquer viajante

facilmente seria induzido em erro, e Dick pensou para consigo próprio, com um vago

sentimento de apreensão, no rapazinho a quem tão imperfeitamente havia orientado.

Porque ele, com um olhar para trás, às velas do moinho que giravam, recortando-se no

azul do céu, e um olhar em frente, para os cimos da floresta de Tunstall, estava

suficientemente orientado e seguia avante, com a água pelos joelhos do cavalo, tão

seguro como se fosse por uma estrada.

Ao meio da travessia e quando já lobrigava o caminho de passagem, subindo, em

seco, do outro lado foi sobressaltado por um grande barulho da água agitada, á sua

direita, e viu um cavalo ruço mergulhado até à barriga no lodo e lutando ainda

espasmòdicamente. Imediatamente, como se tivesse adivinhado a proximidade do

auxílio, o pobre animal começou a relinchar mais lamentosamente, rolando nas órbitas

os olhos injetados de sangue e loucos de terror. E como se contorcia, agitando o lodo,

nuvens , de mosquitos levantavam-se e zumbiam no ar.

"Coitado!" - pensou Dick. "Terá morrido o pobre garoto? Este é certamente o cavalo

dele:"- belo cavalo ruço! Não, camarada, se chamaste por mim tão tristemente, farei

tudo quanto possa para te ajudar. Não te deixarei ficar para te afogares lentamente!

Apontou-lhe a besta e atravessou, com uma flecha, a cabeça do pobre bicho.

Dick continuou cavalgando, depois â este ato de rude misericórdia, um pouco

apreensivo e olhando, em volta, atentamente, à procura de qualquer vestígio do seu

infeliz antecessor naquele caminho.

"Deveria ter-me atrevido a dizer-lhe mais alguma coisa", pensou, porque temo que

se tenha metido no atoleiro".

E, exatamente no momento em que assim pensava, uma voz gritou o seu nome do

lado do caminho de passagem e, olhando por sobre o ombro, Dick viu o rosto do

garoto a espreitar, de entre um tufo de juncos.

- Estás aí? - disse, sustendo as rédeas. - Estás tão bem escondido nos juncos, que te

passei mesmo ao pé... Vi o teu cavalo atascado e acabei-lhe com a agonia. Por minha

honra! devias tu próprio tê-lo feito, se fosses um cavaleiro mais caridoso! Mas, sai-me

desse esconderijo! Nada aqui te ameaça.

- Não, meu rapaz. Não tenho armas, nem saberia usá-las, mesmo que as tivesse -

disse o outro subindo para o caminho de passagem.

- Porque me chamas rapaz? - gritou Dick. - Penso que, de nós dois, não serás tu o

mais velho!

- Bom Master Shelton - disse o outro - desculpa-me, por favor. Não tenho qualquer

intenção de ofender-te, antes de todas as maneiras te peço a tua atenção e favor; porque

estou, agora, em pior situação do que nunca. Perdi-me no caminho; perdi a minha capa

e o meu pobre cavalo. Tenho esporas e chicote e estou a pé! E além disso... -

acrescentou, olhando tristemente para o seu fato. - E além disso, estou lamentàvelmente

sujo.

- Basta - exclamou Dick - pensarás agora num banho. O sangue das feridas e o pó

das jornadas são os melhores adornos para um homem!...

- Isso não! Gosto deles mais completos. Dize-me, por favor, que hei-de fazer. Peço-

te, bom Master Ricardo, ajuda-me com o teu conselho. Se não chego salvo a

Holywood, estou perdido!

- Não - disse Dick apeando-se -, dar-te-ei mais do que conselhos. Toma o meu

cavalo. Eu irei correndo e, quando estiver cansado, mudaremos, de maneira que

montando e correndo, iremos mais depressa.

Fizeram a troca e caminharam tão rapidamente quanto puderam sobre o caminho

desigual, Assim levando Dick a mão posta sobre o joelho do outro.

- Como te chamas? - perguntou Dick.

- John Matcham - respondeu o rapaz.

- E que te leva a Holywood. - continuou Dick. - Procuro asilo para fugir a um

homem que me oprimiria - foi a resposta. - O bom abade de Holywood é um forte

amparo para os fracos.

- E como vieste com Sir Daniel, Master Matcham? - prosseguiu Dick.

- Ora - respondeu o outro -, à força. Raptou-me da minha terra. Vestiu-me este fato.

Fez-me galopar até eu já não poder mais. Fez-me chorar até não poder verter uma

lágrima e, quando alguns dos meus amigos nos perseguiram, pensando reaver-me

colocou-me atrás da sela para apanhar os tiros. Fui mesmo atingido de raspão, no pé

direito, e ando, ainda coxeando. Mas há-de chegar o dia do ajuste de contas! E será o

meu dia mais feliz!...