A história dos duendes que raptaram um coveiro por Charles Dickens - Versão HTML

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Charles Dickens

A histó ria dós duendes que raptaram um cóveiró

NUMA VELHA CIDADE ABACIAL, situada nesta parte do Condado, há muito, muito

tempo — tanto tempo que a história deve ser verdadeira, de vez que nossos

bisavós nela acreditaram implicitamente —, oficiava como sacristão e coveiro

no cemitério da igreja um certo Gabriel Grub. De modo algum, porém, se

infira que, pelo fato de ser coveiro e viver constantemente cercado de

símbolos mortuários, deva um homem tornar-se taciturno e melancólico; os

agentes funerários são os sujeitos mais alegres do mundo e, certa feita, tive a

honra de privar com um deles que, na vida particular, e quando não em

serviço, era um sujeitinho cômico e jocoso, capaz de trautear uma canção

burlesca sem qualquer lapso de memória, ou de esvaziar um bom copo de um

só fôlego. Todavia, apesar de tais precedentes em contrário. Gabriel Grub era

rabugento, taciturno, azedo — um homem ensimesmado e solitário, que não

se dava com ninguém, a não ser consigo mesmo e com uma velha garrafa,

encapada de vime, que lhe cabia no amplo e fundo bolso do colete — e que

fitava cada rosto alegre que por si passasse com um olhar de malícia tão torva

e mal-humorada que ninguém lhe suportaria o escrutínio sem sentir arrepios.

Pouco antes da meia-noite, certa véspera de Natal. Gabriel colocou a pá ao

ombro, acendeu a lanterna e encaminhou-se para o velho cemitério, pois tinha

de preparar uma cova para o dia seguinte; sentindo-se muito deprimido,

pensou que seu ânimo melhoraria se se pusesse logo a trabalhar. Enquanto

caminhava pela velha rua, viu a luz alegre dos fogos

crepitantes brilhar através das janelas antigas, e ouviu os risos altos e os gritos

jubilosos daqueles que se haviam reunido à volta deles; observou os

alvoroçados preparativos para a festa do dia seguinte e aspirou os numerosos

aromas apetitosos deles resultantes, escapando-se pelas janelas das cozinhas,

em nuvens. Tudo isso era fel e absinto para o coração de Gabriel Grub; e

quando bandos de crianças saltavam para fora das casas e, aos saltos,

atravessavam a rua e encontravam-se, antes de terem tido tempo de bater à

porta fronteira, com meia dúzia de moleques de cabelo encaracolado, que se

agrupavam em torno deles enquanto subiam para passar a noite em folguedos

natalinos. Gabriel sorria torvamente e apertava o cabo da pá com mais força,

ao pensar em sarampo, escarlatina, difteria, coqueluche e muitas outras fontes

semelhantes de consolação.

Nesse feliz estado de espírito. Gabriel caminhava, respondendo aos

cumprimentos bem-humorados dos vizinhos que por ele cruzavam com um

grunhido lacônico e rabugento; por fim, enfiou-se pela escura viela que levava

ao cemitério. Gabriel estivera ansioso por chegar à viela porque o lugar era,

de modo geral, ermo e funéreo, e a gente da vila não se arriscava a andar por

ali senão durante o dia, quando brilhava o sol; por conseqüência, o coveiro

ficou assaz indignado ao ouvir uma voz infantil entoando uma alegre canção

de Natal no mesmo santuário que era chamado "Beco dos Caixões" desde os

dias da velha abadia e dos monges de cabeça raspada. À medida que Gabriel

caminhava e que a voz se tornava mais próxima, descobriu pertencer a um

menino que corria a juntar-se a um dos grupinhos da velha rua e que, em parte

para sentir-se acompanhado, em parte para preparar-se para a ocasião, berrava

a canção com toda a força dos pulmões. Gabriel esperou até que o menino

passasse por ele e, encurralando-o num canto, deu-lhe cinco ou seis pancadas

na cabeça com a lanterna, apenas para ensiná-lo a modular a voz. E enquanto

o menino fugia, com as mãos na cabeça, entoando canção bem diversa da

anterior. Gabriel Grub casquinou sozinho, alegremente, e entrou no cemitério,

fechando o portão atrás de si.

Tirou o casaco, pôs a lanterna no chão e, dirigindo-se à cova inacabada,

nela trabalhou durante uma hora ou mais, com gosto. Mas a terra estava

endurecida pela geada e não era coisa fácil cavá-la nem atirá-la para cima;

embora houvesse lua, era lua muito nova, que pouco iluminava a cova imersa

na sombra da igreja. Em qualquer outra ocasião, tais obstáculos teriam feito

Gabriel Grub sentir-se muito triste e miserável, mas estava tão satisfeito por

ter acabado com a cantoria do menino, que mal

se deu conta dos pequenos progressos que fazia e, terminado o trabalho da

noite, olhou para dentro da cova com soturna satisfação, murmurando,

enquanto reunia seus petrechos:

Bom quarto para a última dormida:

Sete palmos de terra, finda a vida;

Pedra aos pés e também à cabeceira,

Petisco para os vermes da valeira;

Relva em cima, de argila emparedado,

Belo quarto em terreno consagrado!

— Ho! ho! — riu Gabriel Grub, sentando-se num túmulo liso, que era seu

lugar de descanso favorito, e sacando a garrafa de vime. — Um esquife no

Natal! Um caixão natalino! Ho! ho! ho!

— Ho! ho! ho! — repetiu uma voz as suas costas.

Gabriel interrompeu, algo alarmado, o ato de levar a garrafa à boca e olhou

à volta de si. As profundezas do túmulo mais antigo ali existente não estavam

mais tranqüilas e silenciosas do que o próprio cemitério à pálida luz da lua. A

branca e fria geada brilhava nas lousas tumulares e cintilava, qual fieira de

gemas, por entre os entalhes de pedra da velha igreja. Havia uma camada de

neve dura e crespa sobre o chão, amortalhando os montículos de terra com um

lençol tão alvo e macio, que mais pareciam estes uma fileira de cadáveres

cobertos apenas com suas mortalhas. Nenhum ruído, por leve que fosse,

quebrava a profunda tranqüilidade da paisagem solene. Tão frio e quieto era o

ambiente que até o próprio som parecia ter-se enregelado.

— Foram os ecos — concluiu Gabriel Grub. levando novamente a garrafa

à boca.

— Não foram, não — disse uma voz profunda.

Gabriel ergueu-se assustado e ficou interdito de espanto e de terror quando

seus olhos deram com uma aparição que lhe gelou o sangue nas veias.

Sentada numa tumba alta, perto dele, havia uma estranha figura

supraterrena, que Gabriel constatou, desde logo, não ser gente deste mundo.

Suas pernas longas e fantásticas, que bem poderiam chegar ao chão, estavam

encolhidas e cruzadas de maneira esquisita e espantosa; trazia nus os braços

nervosos; suas mãos descansavam sobre os joelhos. O corpo curto e roliço

estava vestido de roupas apertadas e acuchiladas;

uma capa curta pendia-lhe das costas; a gola estava recortada em bicos

curiosos, que serviam de gravata ou de golilha ao duende, e os sapatos tinham

longas pontas reviradas. Trazia na cabeça um chapéu em forma de pão de

açúcar, enfeitado com uma pena solitária, e coberto de branca geada; o

duende parecia estar sentado muito à vontade, na tumba, havia mais de

duzentos ou trezentos anos. Permanecia imóvel, com a língua zombeteira de

fora, careteando para Gabriel Grub com uma expressão que só os duendes são

capazes de assumir.

— Não foram os ecos — repetiu o duende.

Gabriel Grub estava paralisado e não soube responder.

— Que fazes aqui na véspera de Natal? — perguntou o duende, com voz

severa.

— Vim cavar uma cova, sir — balbuciou Gabriel Grub.

— Que homem é este que anda em meio a covas numa noite assim? —

exclamou o duende.

— Gabriel Grub! Gabriel Grub! — berrou um doido coro de vozes, que

parecia encher o cemitério. Gabriel olhou temerosamente à volta, mas não viu

ninguém.

— Que trazes aí nessa garrafa? — perguntou o duende.

_ Genebra, sir — respondeu o sacristão, mais trêmulo do que nunca, pois

havia comprado-a de contrabandistas e julgou que talvez seu interlocutor

pertencesse ao departamento fiscal dos duendes.

— Quem bebe genebra sozinho num cemitério, numa noite como esta?

— exclamou o duende.

—Gabriel Grub! Gabriel Grub! — gritaram as doidas vozes novamente.

duende olhou maliciosamente para o coveiro aterrorizado e, alçando a

voz, exclamou:

E quem é, então, nossa boa e legítima presa?

A tal pergunta, o coro invisível replicou, num uníssono que vibrava como

as vozes de muitos meninos cantando ao som poderoso do órgão da velha

igreja; um uníssono que, aos ouvidos do coveiro, parecia transportado por um

vento selvagem, e que, conforme passava, ia morrendo; mas o estribilho era

sempre o mesmo:

— Gabriel Grub! Gabriel Grub!

O duende fez uma careta maior do que as anteriores e disse:

—Bem. Gabriel, que achas disso?

O coveiro arquejou.

— Que achas disso. Gabriel? — repetiu o duende, atirando as pernas para

o ar, de cada lado do túmulo, e olhando para as pontas reviradas dos sapatos

com tanta satisfação quanto se admirasse os mais elegantes calçados vendidos

em Bond Street.

— É... é... muito curioso, sir — replicou o coveiro, semimorto de terror. —

Muito curioso e muito bonito, mas acho que vou voltar ao trabalho para

terminá-lo, sir, se mo permitirdes.

— Trabalho! — exclamou o duende. — Que trabalho?

— A cova, sir; abrir uma cova — tartamudeou o coveiro.

— Oh!, a cova, hein? — disse o duende. — Quem é que se compraz em

abrir covas numa ocasião em que todos os outros homens se divertem?

Novamente, as vozes misteriosas repetiram:

— Gabriel Grub! Gabriel Grub!

— Receio que meus amigos te desejem. Gabriel — disse o duende, pondo

toda a língua de fora (e que língua. Santo Deus!). — Receio que meus amigos

te desejem. Gabriel.

— Por favor, sir — replicou o coveiro aterrorizado —, creio que não, sir;

eles não me conhecem, sir; não acredito que esses cavalheiros me hajam visto

antes, sir.

— Oh!, viram-te, sim — replicou o duende. — Bem conhecemos o

homem de cara amuada e cenho franzido que desceu a rua hoje à noite,

olhando as crianças com olhar maldoso, e apertando, raivoso, o cabo da pá.

Bem conhecemos o homem que, com o coração cheio de inveja e maldade,

surrou um menino, só porque esse menino podia ser alegre e ele não. Bem o

conhecemos, bem o conhecemos.

Nesse ponto, o duende riu um riso esganiçado, que os ecos devolveram

multiplicado, e, atirando as pernas para o ar, equilibrou-se, de cabeça para

baixo, ou melhor, sobre a ponta do chapéu em forma de pão de açúcar, à

beirada estreita do túmulo, de onde, numa cambalhota extremamente ágil, foi

cair bem aos pés do coveiro, assumindo a posição de um alfaiate entregue ao

seu ofício.

— Acho... acho que tenho de ir-me embora, sir — disse o coveiro, fazendo

um esforço para mover-se.

— Ir embora! — exclamou o duende. — Gabriel Grub vai embora. Ho!

ho! ho!

Enquanto o duende ria, o coveiro, olhando de relance para a igreja, viu-lhe

as janelas iluminadas, como se estivessem acesas todas as luzes

do edifício; a luz desapareceu, o órgão pôs-se a tocar uma melodia saltitante, e

grupos inteiros de duendes, perfeitas reproduções do primeiro, derramaram-se

pelo cemitério e começaram a saltitar sobre as tumbas, jamais detendo-se, um

instante que fosse, para tomarem fôlego, mas cabriolando cada vez mais alto,

um depois do outro, com maravilhosa destreza. O primeiro dos duendes era

um saltador espantoso, e nenhum dos outros o ultrapassava; mesmo no auge

do terror, o coveiro não pôde deixar de observar que, enquanto seus

companheiros se contentavam em saltar por cima das tumbas de tamanho

ordinário, o primeiro piruetava sobre os jazigos familiares, com grades de

ferro e tudo, tão facilmente quanto se estes fossem marcos de estrada.

Por fim, a brincadeira chegou ao cúmulo da excitação; o órgão tocava cada

vez mais depressa, e os duendes pulavam cada vez mais rápidos,

enrodilhando-se sobre si mesmos, dando cambalhotas sobre o chão e saltando

sobre as tumbas quais bolas de futebol. O cérebro do coveiro girava com tanta

rapidez quanto a da agitação que contemplava, e suas pernas vergavam

conforme os espíritos lhe passavam diante dos olhos; subitamente, o rei dos

duendes, atirando-se sobre ele, agarrou-o pelo colarinho e com ele

desapareceu pela terra adentro.

Quando Gabriel Grub conseguiu recuperar o fôlego, que a descida

vertiginosa lhe fizera perder, encontrou-se no que parecia ser uma vasta

caverna, circundado de todos os lados por multidões de duendes feios e

zombeteiros; no centro da caverna, num assento elevado, estava seu amigo do

cemitério e, logo atrás dele, sem poder mexer-se, o próprio Gabriel Grub.

— A noite está fria — disse o rei dos duendes —, muito fria. Tragam-lhe

algo quente para beber!

A esta voz de comando, meia dúzia de duendes oficiosos, com um

perpétuo sorriso nas faces, que Gabriel Grub imaginou fossem cortesãos por

causa disso, desapareceram num átimo e logo voltaram com uma taça de fogo

líquido, que apresentaram ao rei.

— Ah! — exclamou o duende, cujas faces e garganta faziam-se transparentes

à medida que ia engolindo o líquido chamejante —, como isto

esquenta! Tragam uma caneca para Mi: Grub.

Foi em vão que o coveiro protestou não ser de seu hábito tomar o que quer

que fosse de quente à noite; um dos duendes segurou-o, enquanto outro lhe

derramava a beberagem incendiada pela garganta abaixo; toda a assembléia

torcia-se de rir ao vê-lo tossir, engasgar-se e enxugar as

lágrimas que lhe corriam abundantemente dos olhos, depois de ter engolido a

causticante bebida.

— E agora — disse o rei, enfiando, num gesto fantástico, a ponta do seu

chapéu afunilado nos olhos do coveiro e provocando neste dor agudíssima —,

e agora mostrem ao homem da desgraça e da tristeza algumas pinturas do

nosso grande depósito!

A medida que o duende dizia tais palavras, uma nuvem espessa, que

obscurecia a extremidade mais remota da caverna, dissipou-se gradualmente e

pôs a descoberto, muito ao longe, segundo parecia, um aposento pequeno e

pobremente mobiliado, posto que limpo e bem-arrumado. Um bando de

crianças comprimia-se em torno do fogo alegre, agarradas às saias da mãe e

saltitando-lhe ao redor da cadeira. A mãe erguia-se, de quando em quando, e

descerrava as cortinas da janela, como se aguardasse a chegada de alguém;

uma refeição frugal estava servida sobre a mesa e uma cadeira de braços fora

disposta perto do fogo. Uma batida à porta fez-se ouvir; a mãe abriu-a, e as

crianças, acorrendo para lá, puseram-se a bater palmas de alegria ao verem

seu pai entrar. Estava molhado e tinha ar fatigado; sacudiu a neve das roupas,

enquanto as crianças, apinhando-se em volta dele, tomaram-lhe a capa, o

chapéu, a bengala e as luvas e, com ar azafamado, levaram tudo para fora da

sala. Depois, quando o recém-vindo se sentou à mesa, ao pé do fogo, as

crianças treparam-lhe sobre os joelhos, a esposa acomodou-se ao seu lado, e

tudo se fez felicidade e aconchego.

Mas uma alteração, quase imperceptível, ocorreu no quadro. A cena era

agora um pequeno dormitório, no qual o mais lindo e o mais jovem dos filhos

jazia agonizante; o róseo havia-lhe desaparecido das faces e a luz fugira-lhe

dos olhos; enquanto o coveiro o olhava com um interesse que jamais havia

conhecido ou experimentado até então, a criança morreu. Seus pequenos

irmãos e irmãs rodearam-lhe o leito minúsculo e tomaram-lhe as mãozinhas

frias e langues, mas estremeceram ao toque e olharam medrosamente para o

seu rosto infantil: era calmo e tranqüilo e revelava paz, mas a linda criança

estava morta e eles souberam que era agora um anjo a olhá-los e a abençoálos

lá do céu luminoso e feliz.

Uma luz brilhante passou de novo pelo quadro e o seu tema alterou-se

outra vez. O pai e a mãe estavam agora velhos e alquebrados e o número de

filhos a rodeá-los diminuíra de mais da metade; todavia, a felicidade e a

alegria brilhavam em todas as faces e reluziam em todos os olhos enquanto,

agrupada em volta do fogo, a família ouvia e contava velhas histórias dos dias

idos. Lenta e tranqüilamente, o pai desceu

ao túmulo e, logo depois, a companheira de seus cuidados e aflições

acompanhou-o àquele lugar de repouso. Os poucos sobreviventes ajoelharamse

ao lado de seus túmulos e regaram de lágrimas a verde relva que os

recobria; ergueram-se, depois, e afastaram-se, tristes e enlutados, mas não

com gritos amargos ou com lamentos desesperados, pois sabiam que os

encontrariam, novamente, algum dia; mais uma vez, mergulharam na azáfama

do mundo, e o contentamento e a jovialidade lhes voltaram. A nuvem desceu

sobre o quadro e ocultou-o dos olhos do coveiro.

— Que achas disso? — perguntou o duende, voltando seu rosto largo para

Gabriel Grub.

Gabriel murmurou algo a respeito de ter achado o quadro muito bonito, e

pareceu ficar um tanto envergonhado quando o duende o fitou com seus olhos

candentes.

— Tu, miserável criatura! — disse o duende, num tom de absoluto

desprezo. — Tu!

Parecia resolvido a acrescentar mais alguma coisa, mas a indignação

sufocou-o; erguendo uma de suas flexibilíssimas pernas, e agitando-a acima

da cabeça para firmar a pontaria, descarregou um belo pontapé em Gabriel

Grub; a esse exemplo os duendes se comprimiram em torno do pobre coveiro

e castigaram-no sem clemência, de acordo com o costume estabelecido e

invariável dos cortesãos deste mundo, que dão pontapés em quem a realeza

dá, e agradam a quem a realeza agrada.

— Mostrem-lhe algo mais! — ordenou o rei dos duendes.

A estas palavras, a nuvem dissipou-se e uma bela e rica paisagem fez-se

visível — a mesma que se contempla até hoje, a meia milha da velha cidade

abacial. O sol refulgia no céu límpido e azul; a água cintilava sob os seus

raios; as árvores pareciam mais verdes e as flores mais alegres a sua benéfica

influência. A água murmurejava com um ruído agradável; as árvores

farfalhavam à leve brisa que lhes agitava as folhas; os pássaros cantavam nos

ramos, e a cotovia, lá no alto, saudava o amanhecer. Sim, era manhã — uma

clara e balsâmica manhã estival; a menor das folhas, o mais diminuto dos

talos de grama palpitavam de vida. A formiga saía para seu labor cotidiano; a

borboleta, revoluteando, aquecia-se aos cálidos raios de sol; miríades de

insetos estiravam as asas transparentes e gozavam a breve, posto que feliz,

existência. O homem caminhava, enlevado pela cena, e tudo era brilho e

esplendor.

— Tu, miserável criatura! — exclamou o rei dos duendes, em tom de

maior desprezo ainda. E, novamente, fez um floreio com a perna e

castigou os ombros do coveiro; novamente, os duendes circundantes imitaram

o exemplo do chefe.

Muitas e muitas vezes a nuvem apareceu e desapareceu; e muitas e muitas

lições foram ensinadas a Gabriel Grub, que, embora lhe doessem os ombros,

devido ao reiterado castigo neles aplicado pelo pé do duende, assistia a tudo

com um interesse que nada lograva diminuir. Viu os homens que trabalhavam

arduamente para ganharem o escasso pão de cada dia, alegres e felizes; viu

que, mesmo para os mais ignorantes, o doce aspecto da Natureza era fonte

inesgotável de prazeres e alegrias.

Viu aqueles que haviam sido criados com mimos e que tinham crescido em

meio a carinhos, alegres, malgrado as privações, e superiores a sofrimentos

que teriam esmagado outros de mais rude constituição, porque traziam dentro

do peito as próprias fontes da felicidade, da alegria e da paz. Viu que as

mulheres, as mais ternas e frágeis entre todas as criaturas de Deus, eram

freqüentemente superiores à tristeza, à adversidade e à desgraça, porque

traziam, no fundo do coração, um manancial inesgotável de afeto e devoção.

Viu, sobretudo, que homens como ele, sempre a escarnecerem da jovialidade

e da alegria alheias, eram o pior joio que existia sobre a bela superfície da

terra; e, confrontando todo o bem do mundo com o mal nele existente, chegou

à conclusão de que o mundo, no fim das contas, era um lugar muito decente e

respeitável. Mal chegara a tal conclusão quando a nuvem que envolvera o

último quadro pareceu envolver-lhe também os sentidos, convidando-o ao

repouso. Um por um, os duendes desapareceram de sua vista e, quando o

último se desvaneceu, o coveiro mergulhou em sono profundo.

O dia já havia nascido quando Gabriel, despertando, se achou estirado

sobre a lájea lisa do cemitério, tendo ao lado, vazia, a garrafa de vime, e o

casaco, a pá e a lanterna, recobertos da geada alvacenta da véspera,

espalhados no chão. A lousa sobre a qual vira o duende sentado pela primeira

vez erguia-se diante dele, e a cova em que trabalhara na noite anterior não

distava muito dali. A princípio, duvidou da realidade de suas aventuras, mas a

dor aguda que sentiu nos ombros, quando tentou erguer-se, convenceu-o de

que os pontapés dos duendes não haviam sido de modo algum imaginários.

Titubeou, novamente, ao observar que não havia pegadas na neve que os

duendes tinham pinoteado, mas logo achou explicação para o fato, ao

lembrar-se de que, sendo eles espíritos, não haveriam de deixar impressão

visível atrás de si. Dessarte. Gabriel Grub pôs-se de pé, tão bem quanto lho

permitiu a dor nas costas, e, limpando a geada do casaco, vestiu-o e voltou o

rosto para a cidade.

Era, todavia, um homem mudado, e não suportava a idéia de retornar a um

sítio onde seu arrependimento seria objeto de motejo e sua transformação, de

dúvida. Hesitou por alguns momentos; decidiu-se, depois, a buscar outro lugar

onde pudesse ganhar o pão.

A lanterna, a pá e a garrafa de vime foram encontradas no cemitério

naquele mesmo dia. Houve a princípio inúmeras conjecturas quanto ao

destino do coveiro, mas logo se concluiu que ele havia sido levado pelos

duendes; não faltaram, mesmo, algumas testemunhas dignas de crédito que o

haviam visto, muito distintamente, transportado pelo ar no lombo de um

cavalo castanho, cego de um olho, com os quatro traseiros de leão e a cauda

de urso. Com o passar do tempo, chegou-se a crer piamente em tudo isso, e o

novo coveiro costumava exibir aos curiosos, em troca de insignificante

propina, um bom pedaço do cata-vento da igreja que havia sido derrubado

acidentalmente pelo referido cavalo em sua fuga aérea, e que ele, coveiro,

encontrara no cemitério, um ou dois anos mais tarde.

Infortunadamente, estas histórias ficaram algo desmoralizadas pelo inesperado

aparecimento de Gabriel Grub em pessoa, mais ou menos dez anos

depois; estava velho, reumático, esfarrapado e feliz. Contou sua história ao

vigário e também ao prefeito; com o tempo, sua narrativa passou a ser aceita

como fato histórico, forma sob a qual se perpetuou até hoje. Os que acreditam

no conto do cata-vento, tendo sido iludido na sua boa-fé, não se mostravam

mais dispostos a deixar-se iludir novamente, e assumindo ares de sabidos,

encolhiam os ombros, tocavam a fronte e murmuravam algo a respeito de

Gabriel Grub ter bebido toda a genebra e adormecido sobre a lápide lisa;

ofereciam explicação para o que ele havia visto na caverna dos duendes,

dizendo que, depois de haver corrido o mundo. Gabriel tornara-se mais

esperto. Mas tal opinião, que não chegou nunca a se popularizar, foi-se

extinguindo aos poucos. Seja como for, tendo Gabriel Grub padecido de

reumatismo até o fim de seus dias, sua história tem, ao menos, uma moral, à

falta de coisa melhor — a de que, se um homem ficar mal-humorado e beber

sozinho na véspera de Natal, pode ter a certeza de que não tirará muito

proveito disso, ainda que os espíritos da bebida sejam menos fortes ou estejam

tantos graus acima do normal quanto aqueles que Gabriel Grub viu na caverna

dos duendes.

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