A idade virtual (um filme de amor) por Alix Rosen Dorn - Versão HTML

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A idade virtual

(um filme de amor)

 

                                                                                              Para Manuel Harriague,

                                               pàra Cecília Real,

personagens da minha vida

 

 

Prólogo                                                        

 

Esta é uma história a meias fictícia e a meias não.

Mas como acontece com as meias, a gente nunca sabe qual é qual. Disso precisamente se trata: do difícil que resulta traçar os limites entre uma e outra realidade.

Como se verá, elas costumam estar mais entremeadas do que suspeitamos

e rara vez podemos dizer com certeza sobre qual estamos parados.

Em qualquer uma delas, os personagens existem mesmo que alguns nomes tenham sido trocados para ninguém nos reclamar. E, isso sim, o relato é de primeira mão porque eu estive lá. O que aconteceu me aconteceu e o que não, fui eu que inventei.

            Claro que isso não garante senhora literatura, palavras maiores, coisa séria. Assim, poupamos a arrogância: o que segue, é pouco mais ou menos do que um filme de amor.

 

Passem e vejam senão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I

 

 

Imagino que uma fúria vingativa arranca de vez os cabos do computador, enredados com as raízes dessa árvore que assomam pelo chão do estúdio ameaçando com invadi-lo tudo. O chão se abre com um ruído de desgarro. As raízes arrancadas estremecem violentamente o tronco no jardim. A árvore se abate sobre o teto do estúdio. A casa inteira se desmorona com estrondo em meio de espasmos de pó e escombros. Depois silêncio absoluto. E noite.

 

Nos primeiros dias deste ano, encontrei uma mensagem inesperada no secretário eletrônico: o basco Harriague que queria me ver. Conheço ele há muito tempo, temos sido grandes amigos e trabalhado juntos várias vezes, porém não nos vemos há pelo menos sete anos. Na verdade ele sim sai pela televisão ou nos jornais bastante amiúdo. É o famoso diretor de cinema.

Eu estou sem trabalho e sem dinheiro. Esperando alguma chamada que bem podia ser essa, de jeito que contra meu costume respondo de imediato.

 

Estamos num terraço sobre os bosques de Palermo bebendo água mineral e pondo-nos a par de nossas vidas. Grandes manchetes, pouco detalhe. Não é uma conversa cômoda. Nos observamos. Que será que ele vê, me pergunto. Noto-o disperso, não sei se preocupado. Ele se interessa brevemente pelo que lhe conto, custo a ajustar meu relato à sua atenção volátil. Também não ficamos de acordo no tom da conversa. Por momentos cobra intimidade y logo recua. De súbito, como relâmpagos, nos fazemos declarações importantes sem reserva nenhuma.

Ele diz que há pouco numa de suas viagens esteve falando com Maite, sua filha mais velha que mora em Londres, sobre quem era eu, quanto nos havíamos querido e o importante que aquilo tinha sido.

-Quero conhecê-la - disse ela, 21 anos.

-Meu Deus - penso eu.

 

Noutro momento da conversa falo para ele do claro que teve desde muito cedo o que ele queria fazer na vida. E como esteve na certa ao compreender que nunca teria podido fazê-lo comigo, ainda que na hora me causasse uma pena enorme. Porém também me lembro de que ao nos separar tantos anos atrás, ele prometeu que sempre estaria a minha disposição para tudo que eu precisasse. E cumpriu. Ajudou-me pontualmente cada vez que lhe pedi. E algumas vezes sem necessidade de pedir.

Mesmo que eu tenha sido rude com ele, lapidária com seu cinema e ressentida com seu sucesso, preconceituosa, horrível. De tudo o qual  francamente me arrependi.

Não sei por que estou lhe dizendo isso agora. É que ha muito tempo acho que lhe devo esse reconhecimento. Ele não sabe que estou sem trabalho. Vem me propor escrever juntos o roteiro de seu próximo filme. Eu não sou roteirista coisa nenhuma. Ele está me ordenando roteirista nesse momento, ainda não sei por que.  Pero não discuto porque preciso o trabalho. De jeito que si o basco acha que posso, não serei eu quem diga o contrário. No dia seguinte me faz chegar as primeiras 40 páginas que já tem escritas y um cheque como antecipo pelo trabalho! É janeiro, verão. A gente não vai de férias porque não há dinheiro. Mas tomamos com calma. Será uma temporada estranha. Pela primeira vez em quase 20 anos vou me desincumbir dos meus filhos. Cada um se virará como puder e eu terei o verão mais feliz da minha vida.

Começo fazer notas, já estamos trabalhando. Método? Nenhum método. Nem sequer há um lugar fixo. Tudo irá se estabelecendo sobre a marcha. Começamos nos reunir no escritório da mulher dele, dia sim dia não, para avançar no curso da narração, dividir-nos as cenas e discutir o que temos escrito.

Meu Mac e seu PC não são compatíveis, portanto os dias que nao há reunião, trabalho num computador emprestado, fora de casa. Estamos em contato permanente por todas as vias possíveis.

Como sempre que trabalhamos juntos nos entendemos extraordinariamente. O roteiro avança. O que vamos lendo um do outro nos entusiasma. E se não, não resulta difícil a franqueza. Há também muito comentário marginal incluindo informação pessoal útil. Rimos aos gritos, felicidade pura.

-Isto é melhor do que namorar- digo eu.

-É a idade- opina ele.

E voltamos a rir.

 

Muito bem. A história sobre a qual estamos trabalhando, proposta por ele, é mais ou menos esta: um cara de 50 anos, bem sucedido em sua profissão e bem casado, tem um amor inesperado com uma moça de vinte e poucos que fará entrar em crise seu matrimônio e sua vida toda. Obrigado a escolher e renunciar, o personagem se desintegra. Morre. Tudo isto acontece entre Buenos Aires e Nova Iorque. Há aeroportos, aviões, hotéis, glamour e boa vida. Comédia romântica, meu gênero predileto.

 

 

Tenho ouvido falar dele antes de conhecê-lo. É um rapaz que faz cinema, lindo e tão talentoso me diz com os olhos em branco uma amiga que conheceu ele num festival.

Eu sou uma professorinha de jardim de infância casada há pouco, à procura de trabalho na publicidade para ganhar mais dinheiro. Alguém me arranja uma entrevista na agência onde Manuel trabalha como criativo. Somos apresentados e sem a gente saber o jogo começa.

No dia seguinte abandono a infância pela publicidade.

Ele está voltando de sua viagem de iniciação. Tem a alma revolucionada. Europa, Cuba, primeiros amores e cinema, sempre cinema.

Cativos naquele escritório da Avenida de Mayo - Maio do ‘68 agora que penso -  nos rondamos, nos espreitamos e nos apaixonamos. Fala muito de seu pai que acaba de morrer jovem de um ataque ao coração.

 

Estou trabalhando em casa, na garagem que chamamos de escritório. O bairro está silencioso e o resto da casa também. Só ressoa o ruído como de masticação dos dedos sobre o teclado. Já não se bate nos teclados modernos, porém eu teclo forte demais segundo qualquer um de menos de 25. Isto não é uma lexicon 80 ou a remington que martelava  lá na avenida de Mayo e com a qual aprendi a escrever a máquina, de zero à notável velocidade que alcancei logo, com 2 dedos, no máximo com 4 contando os polegares, e até hoje. São quase as três da manhã diz lá no ângulo do meu monitor. A campainha da porta me sobressalta. É o basco que olha para mim sem alçar a cabeça, só os olhos.

-Jesus Cristo, que milagre você por aqui.

Aponta o copo vazio que traz na mão e me diz que tem saído a caminhar e o whisky acabou no meio do caminho. Que se é possível conseguir outro drinque aqui.

-Entre que está fazendo frio. Que ideia tão estranha.

-O que você faz acordada nessa hora ?

-Preparando cópias do meu curriculum para apresentar em...Tudo bem, Manuel ?

-Tudo mal. Minha vida tá indo pro inferno.

Como um habitual da casa, vai diretamente à mesinha rodante onde assoma a garrafa de Glenfiddich entre torres instáveis de livros e papéis.

-Este não é o que...

-Já sei mais... bate menos na cabeça...e a mais é o que há.

-Você quer que eu vá comprar... ?

-Por que não deixa de dar voltas, Basco, que já é quase dia.

Com o copo servido procura ao redor e se deita no meu sofá justo em cima das pastas que estive ordenando a tarde toda. Nada de desculpas, nada de se preocupar em retirá-las. Um pé em terra e as costas na borda do sofá, embucha um grande gole de whisky puro e retem na boca enquanto olha para mim. Como um mau trago que não se decide a passar.

-Victória. Sabe tudo. Ela quer me matar.

- Sabe o quê?

- O assunto da Evi. Descobriu quando eu estava em Nova Iorque. Não posso te explicar: de quanto fax eu passava perto, saíam ameaças de Victória. Que quando eu voltasse não ia poder abrir com minha chave, que ia  me demandar, que não queria me ver de novo nunca mais.

Imaginei os rolos de faxes de Victória perseguindo Manuel por toda a parte, embrulhando-o como uma múmia. Ela é doida assim e nunca se rende.

-Mas por que você não me mandou mail. Não tinha ideia.

-O correio está furado. Assim foi como ela me caçou. Leu uma carta minha para a Evi.

-Meu Deus, Basco.  Não disse que só você lia esse correio?

-Sei lá...! Ela nem sabia acender o computador.. !

-Droga! Se  encontrou essa carta também terá lido as minhas. Que papelão.

-Não, fique tranquila. Ela estava procurando algum nome desconhecido, algum endereço em Nova Iorque. Não correios de trabalho como se supõe que são os nossos.

Está claro: Victória não se preocupa comigo. Devia me ofender  mas a essas horas... É preciso reconhecer que de policiais matrimoniais ela sabe muito, mas muito mais do que eu.

- E agora?

Agora nada. Manuel tem pegado no sono como se nada acontecesse. Eu podia fazer o mesmo se não tivesse tantas coisas em que pensar.

 

Ela não sabia acender o computador e de súbito aparece na Internet. Como Susana vasculhando no estúdio enquanto Ernesto está de grande namoro em Nova Iorque. 

Não estaria Manuel dando a ler esse roteiro a quem não devia? Parecia funcionar como um manual de instruções. Teria lido também a tal Evi? O caso é que eles três estavam pegando letra de “Meu Deus, o que é que eu fiz” nosso simpático roteiro.

 

Os últimos dias de trabalho foram em casa de Manuel porque eu exigi que estivéssemos por uma vez na frente da mesma máquina para unificar e ordenar todos os disquetes soltos, faxes, notas, mudanças, correções, e dar uma revisão final.

Tinha notado ao longo desses meses que Manuel fazia um manejo caótico de toda essa tecnologia à qual era tão afeto.

Não conseguimos instalar una máquina para nós no lugar onde a gente se reunia a trabalhar, portanto não tínhamos escrito mesmo juntos até aí.

Entretanto a sintonia era perfeita. Ao unir as cenas que escrevera eu com as  que tinha escrito ele, olhávamo-nos até com um pouco de susto. O efeito era notável. Aconteceu muitas vezes. Ao simples título de exemplo, transcrevo um par de cenas das primeiras escritas separadamente e que unidas significam mais.

 

INTERIOR COMSULTÓRIO ANALISTA- BS.AS.-DIA

 

Com dor e com madureza Susana reconhece na frente de seu analista o que já é inegável. O analista só assente com a cabeça apoiando ela em seus avanços.

 

Susana

-Meu marido me engana.

           

O analista assente e permanece na atitude de escuta.

                       

Susana

-Me engana com uma mulher mais jovem.

 

O analista assente e espera.

Aproximacão à Susana.

 

                                   Susana

- Se engana com una mulher mais jovem...

 

Corte a:

                                  

INT GRANDE LOJA DE BRINQUEDOS N.Y.- DIA

 

Holly olha para as  bonecas.

Ernesto a atrai para uma complexa pista de trens em funcionamento.

Abraça  ela e lhe diz alguma coisa no ouvido. Riem.

 

Seguem umas cenas eróticas com brinquedos no apartamento de Holly que também fizemos cada um por seu lado e nem escritas pela mesma pessoa teriam misturado melhor.

  

                                   

Nunca tinha estado na sua casa. Tinha visto ela por setores numa longa entrevista na televisão  mas não a conhecia. Não sei por que receava que fosse uma casa tilinga e alheia. Ele me fez passar diretamente a seu estúdio num extremo do living, e ainda que seja um âmbito tão pessoal a gente se sente rapidamente em casa em qualquer estúdio. Mais ainda no estúdio de alguém da mesma idade. Si além disso é um conhecido, a gente encontra coisas que poderiam mesmo lhe pertencer.

Enquanto ele sentado na frente de sua máquina ordenava alguns trechos na versão quase final do roteiro, inserindo as cenas que eu tinha trazido num disquete, eu dava voltas por aí observando as fotos e outros  testemunhas de sua dourada e bem sucedida juventude.

Detive-me ante um texto emoldurado, quase ilegível.

-Meu Deus, Basco. Essa é a tipografia da Hermes Baby.

Sua máquina de escrever portátil, morta e enterrada pelo menos 25 anos atrás.

Nessa semipenumbra irreal, o reconhecimento abria portas secretas em minha memória. Não sabe a gente tudo quanto guarda quando crê não se lembrar de nada. Dados inúteis talvez, mas por alguma razão, preservados do olvido.

 

Manuel é o prisioneiro da  rua Ponce. Por comodidade, por temor, por necessidade, por cansaço, por inércia, marque o que corresponder, ele tem deixado sua vida nas mãos da mulher. Victória organiza e controla tudo. Ele aceita docilmente.

 

Ela foi a moça para quem perdi o basco há 30.000 anos. A mulher que o basco preferiu com tanta visão e tão bom juízo. Eu não teria suportado uma vida na que sempre e só se tratasse dele. Das manias, gostos, opiniões, obras, sucessos, relacionamentos etc. etc.  só dele. É que não me dou bem com a abnegação, simplesmente não sou desse tipo. O tipo teve razão.

 

Com certeza lhe tem carinho, mas morrer por ela....esse prazer eles nunca têm experimentado.

-Não ouço coros de anjos – confissou- me uma vez desanimado.

-Então cante você, Basco, a várias vozes...como os anjos.

Odiosa. Eu era tão odiosa. Às vezes ele me interrogava sobre minha ocupação sentimental daquele tempo e se espantava das vívidas imagens que eu desvendava ante seus olhos. Eu sempre fui excessiva e ele não o ignorava, porém nessas ocasiões algo me provocava a sê-lo mais. Em comparação com meu relato, o seu soava mais pálido ainda.

-No entanto- diz Cecília- essas são as mulheres com quem os homens se casam. Não com as que os apaixonam.

-E agora é que você fala isso para mim.

Ela ri. Sempre o soubemos: a paixão é perigo, de loucura, de morte, de sabe-se lá o quê. Mas não é pior a falta dela?

-Não sei. O medíocre pode ter má imprensa mais para todo dia, não há nada mais prático.

Nem mais sólido. Esse material cinzento anônimo, misturado com rotina e dormideira, provadamente ante sísmico, com que alguma gente constrói vidas  feito bunkers e ficam lá dentro tão contentes.

-Não posso acreditar que alguém se carregue isso às costas pela vida afora.

-Bom, são pactos... sei lá. Você já viu como são esquisitas as pessoas.

Quem dera fosse só isso. As pessoas são mesmo loucas. É o que eu penso depois de tantos anos de pesquisar as curiosas motivações do consumidor. Centenas de estudos de mercado chatíssimos, demonstram que as pessoas fazem o tempo todo coisas loucas para conseguir a infelicidade. Será que preferem algo mais tranquilo que serem felizes. Mais seguro, mais negócio, sei lá. O fato é que se casou com ela. Era o que calhava a essa altura de uma relação. Ou não se lhes ocorreu nada melhor. Ou não se pôde evitar.

Eu recebi a notícia morando no estrangeiro. Então escrevi para o basco uma carta muito afetuosa e muito fraternal, alentando-o a fazê-la feliz. A ser generoso e leal.  Propunha-lhe isso como um voluntariado, coitado o basco. Já que a pesar de tudo ele tinha apanhado esse karma, com certeza pôr-se a favor o faria mais leve. Para mim, já dava na mesma.

 

Eu não achava  ela especialmente brilhante, porém jogava bem suas cartas. Eu tinha visto  ela usar armas femininas das que eu por então nem tinha notícias, e até agora. Ela contava a seu favor bons seios e uns pés muito finos, tudo ai de mim.

E isso sim: era um demônio de determinação. Não era tanto o quê queria senão quanto e como o queria. Mal o basco se prestasse e deixasse de corcovear, ela lhe daria uma família onde ele pudesse ser pai, filho, etc. Ela por sua vez seria o fio- à- terra que tanto precisa um cara que quer voar. Sua garantia, seu acelerador e seu freio. Seu sparring, seu custódio, sua professora, sua fachada, sua sócia, sua enfermeira, sua dona e tudo quanto fizer falta. Uma oferta integral, digamos. Difícil  de se recusar. 

E tudo em troca de quê? 

De sentido. De sentido, que não é pouca grana. Ele encheria de sentido essa cena ideal.

Sai-me cínico à volta dos anos. Não sei se era mesmo assim.

Sei é que ela parecia achar bom negócio suportá-lo tudo: a incerteza, as hipotecas, as ascensões e baixadas, tudo contanto que pudesse ostentar o título da elegida. Por alguma razão a teria escolhido, achava ela que pensariam todos, suponho eu.

Há mulheres que tomam sua razão de ser do homem que têm ao lado como se se tratasse de um rim artificial. E se essa diálise   cessa, bom, então deixam de existir.

Quando estive no escritório dela, o lugar desde onde dirige essa empresa, apenou-me un detalhe naïf e eloquente demais: nas paredes, onde outros gerentes ou diretores exibem suas acreditações profissionais, ela só mostra uma foto de juventude com o basco. Seu melhor diploma.

Assim pronta para tudo, deve ter aturado mais de uma sacanagem. Manuel não é exatamente um santo. Mais pelo visto, ela sempre saiu ilesa e triunfante. Ia dizer vitoriosa. No fim de tudo isso, devo admitir que leva uma madureza muito apresentável, mesmo com momentos de beleza.

O único ligeiramente chocante é que marca uma posse sobre o basco, agora já sem pejo e sem tato. Por exemplo, alude na minha presença à quantidade de remédios que ele deve tomar cada dia. O que é um comentário indiscreto e uma advertência por elevação. Embora que eu não lhe preocupe. Suponho que o faz para qualquer um. Também resmunga quando o basco vai ter com um amigo seu. Amigo pessoal, não matrimonial.

-Cada vez que você se encontra com ele, é uma dor de cabeça para mim.

 

Veja só.

 

As chamadas telefônicas a Manuel é ela que recebe. É prático porque ela é quem maneja os assuntos dele, marca seus horários, combina seus encontros, tudo isso. Mas também o celular do basco liga para a casa. É dizer que quase não tem jeito de falar com ele sem passar por mesa de admissões. Muito público tudo.

 

Nessa gruta irreal que é o estúdio, há uma enorme quantidade de máquinas, processadores de palavras e imagens, reprodutores, equipes de áudio e vídeo, etc. cujos cabos caem enredados em cachoeiras desde a mesa gigante até o chão; estantes arquejados sob o peso de todos os livros lidos e por ler, objetos vários, bancos especiais com nomes estranhos como ergo ou bio não sei quantos, que prometem compreensão para corpos maltratados; troféus, diplomas, lembranças, aparelhos a meio usar, a meio quebrar, a meio consertar, experimentos fotográficos, prêmios, pilhas de pastas e papéis soltos, folhas de fax amareladas e enroscadas. Telefones, lâmpadas... resulta esgotador simplesmente enumerá-lo tudo. Mas ela tem tudo na mente, perfeitamente inventariado.

 

A segunda das três tardes que trabalhamos com o basco no seu estúdio, dei-lhe  um pequeno presente da minha casa. Um broche de acrílico para papéis que representa um casal nu. Incolor e de uns 15 cm de alto ou longo, segundo esteja parado ou deitado.

Muito bem. Victória entrou no estúdio para cumprimentar ou para arranjar algum detalhe doméstico com o marido, e em meio desse caos monumental, endereçou-se diretamente para o único objeto estranho. Meu presentinho.

-Que bonito- disse.

-Ahá, e isto?- pensou.

-“Estou olhando e nada me escapa”- entendi eu.

Esse tipo de controle. Eu era una espectadora completamente inocente até ali, não me afetava no pessoal. Constatava-o como um fato e não tinha nenhuma opinião ao respeito. Coisa deles. Se para o basco ficava bom, para mim também.

 

O que sim achei demasiado foi o da árvore.

Sentada numa cadeira na frente do seu computador, senti que algo fazia-me cócegas nos tornozelos e no peito dos pés. A primeira vez foi como o contato furtivo de um gato passando por baixo da mesa. Como eu estava tão concentrada na tela não me detive a olhar. Depois repetiu-se, mas desta vez mais claramente. Senti que algo fibroso e grosso enlaçava meus pés e me sujeitava firmemente pelos tornozelos.

Afastei a cadeira com horror e quase cai de rosto sobre a tela porque não pude liberar os pés. O basco veio com um machado pequeno a cortar essas ligaduras.

-É a glicínia do jardim. Como você se sentou no meu lugar ela achou que você era eu. Essas raízes levantam todo o assoalho do estúdio só para me atar lá.

Quando me tranquilizei, com todas as luzes do estúdio acesas e observando os buracos no chão, ele me explicou que odiava essa árvore. Florezinhas do céu, raízes do inferno. Que tinha de tirá-la para preservar seu espaço de trabalho, mas que a mulher não estava de acordo.

-Vai me matar um dia desses- disse que falou para ela.

-Se você fica quieto não.

-Um dia sobe-me ao pescoço e adeus.

-Essa árvore faz o que eu lhe digo-disse que ela respondeu- Faz de conta que sou eu..

-Meu Deus ..! – disse eu em um sussurro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II

 

Até ali tínhamos sido a brilhante equipe criativa de sempre.

O roteiro, ou ao menos sua primeira versão, estava terminado. Tínhamos discutido bastante o final e a evolução de alguns personagens. Tínhamos forcejado algumas vezes mas chegado a um acordo. Enquanto trabalhávamos e de jeito completamente incidental, também tínhamos passado revista a nossas posições sobre as coisas da vida, pois tínhamos crescido e amadurecido longe um do outro. Cada um seguira seu caminho com esporádicos encontros cada vez mais superficiais. De jeito que fora de uma forte afinidade nunca desmentida, não estávamos muito á par das opiniões, gostos e desgostos do outro. Ficávamos sabendo aí, enquanto escrevíamos essas vidas de ficção.

Eu prestava atenção por  exemplo às suas cenas da vida conjugal porque disso sim que o ignoro tudo. E supus que ele não ia muito longe à procura de situações. Deviam ser o que ele tinha à mão, o que sabia de cor, o que acontecia na sua casa. De jeito que não era preciso ser indiscreta. Era só ler.

Mas quando me tocou escrever a primeira cena sobre arapucas, suspeitas e pesquisas matrimoniais, custou-me muito e ficou mal. Eu não sabía do que estava falando.

-Olho que Susana não é uma boluda coisa nenhuma.- advertiu-me devolvendo meu texto- Essa cena não é engraçada e essa mulher não é Susana.

Custava-me enfiar-me no pelego de uma mulher casada.

-É uma mulher, pense-a assim.

Quando o fiz, queixou-se de que a achava esperta demais e que agora parecia a heroína do filme.

 

Umas quantas questões mais surgiram e foram discutidas sobre a marcha  mudando a linha original da história.

-Ernesto engana  Susana com uma moça de 25. Esso não obriga Susana a fazer o mesmo. Podia, sim, mas acho pouco para ela. E na verdade...acho ruim.

-Moralmente ruim ?

-E dramaticamente também. Tenho a sensação de que essa desforra

simétrica, salda a infidelidade dele e não adianta nada a história.

-Demostra a ela que pode atrair outro cara e com isso consegue   remontar o interesse de Ernesto. De fato...

-Não precisa se deitar com ninguém para isso. Basta com fazer ele crê-lo.

Ela não faria q ualquer coisa que não tivesse volta atrás.

-Por que não ia ter volta atrás ? Você é machista mesmo, menina. Então ele pode botar chifre e ela não?

-O que digo é que não é a única resposta possível. No olho por olho, há uma espécie de submissão ao jogo que propõe o outro. E se Susana não tiver vontade ?

-Bom, escreva-o. Vamos ver como é essa Susy segundo minha chefa de vigias.

 

Isto sim são novidades para o basco. Eu virei mais e mais puritana com os anos. Pode que se fizermos o que eu digo, saia um filme chatíssimo. Apto para toda a família, Deus não permita. Porém vale a pena discuti-lo, ainda que seja para pôr ao dia o que sabemos um do outro.

-Ernesto e a pequena trepam demais. 

- E daí ?  Você tem inveja.

-Tenho é preguiça alheia. Essa imagem da janela onde se faz dia e noite e dia de novo e eles continuam na mesma ...! Isso não tem...

-Você já não se lembra.

-Não é isso. Acho que a gente que o faz demais é que não sabe fazê-lo.

-Não me diga. Ou seja que milhares de boludos temos vivido enganados...

-Não sei. Eu não gosto disso.

Se encosta atrás na poltrona reclinável que chia ameaçadora e um dia desses vai nos dar um desgosto. Suspira e alça as sobrancelhas.

-Sei que me arrisco a você responder  mas...vamos ver o que é que você gosta?

- De quê ?

- De que estamos falando ?

- Verdade que você quer saber?

Eu detesto a acrobacia, a agitação, tudo que seja laborioso. Detesto os procedimentos... a ordem, a sequência em fases, feito um lançamento na nasa, não, não, não, não, não...

Para mim o único interessante é o erro. O prazer  fortuito, encontrado por equivocação, enquanto se tratava de qualquer outra coisa. Mas como vou lhe dizer isso?

-Fazê-lo mal. Do único que eu gosto é de fazê-lo mal.

-Fazê-lo mal é rico- diz sorrindo para si próprio e reatando o desenho de seus clássicos monigotes nas margens do bloco.

-Ahá.

-E então o que é que te molesta de Ernesto e a pequena. Trepam demasiado, segundo você porque estão fazendo-o mal, e resulta que fazê-lo mal está bem, me perdi. 

-Digo que não sabem fazer amor, não que o fazem mal. Ao contrário: eles o fazem perfeito, como crianças aplicadas. Isso é o que não...

-Com que fazê-lo mal, hein?  Bom, que prático - se ri-.  Disso você deve conseguir pra caramba...!

-Não é da sua conta. O que estava lhe dizendo é que nesse contínuo de sexo não viria mal um intermezzo... místico.

-Uma coisa como... que os sobre passa...

-Ahá.

-A agonia e o êxtase, não me diga nada. Fusão das almas...

Faz uns gestos como do além, está me caçoando.

-Você me entende. É chato tê-los o tempo todo nessa hiperatividade. Vê-se infantil.

-Não sei, menina. Por que você não o escreve?

Tem razão. O dele está escrito, o meu é puro papo. Assim de fácil é a crítica. De qualquer jeito é um grande tema, e o roteiro um grande pretexto para falar de coisas que nunca nos teríamos dito se não, o basco e eu. Para que.

 

É preciso dizer que tirando essas trocas de ideias completamente incruentas e a miúdo muito engraçadas, chegamos a escrever cenas eróticas a 4 mãos e por telefone, rindo a gritos. Juro que nos divertíamos mais do que os próprios personagens e sem necessidade de tanto espasmo e suor.

 

Claro que não eram as únicas questões nas quais nos detínhamos. 

-Mas o que é tudo esse rolo com os escrúpulos   ?  Estamos escrevendo uma comédia romântica, menina. Esqueça do bem e do mal e vamos nos divertir!

-É que o sujo estraga o romântico, não está vendo  ?

-Por exemplo…

-Ernesto não pode flertar com a noiva de um cara que o recebe na casa.

-Está mal ?

-Se faz de amigo e lhe tira a mulher. Isso é bem argento.

-E está mal ?

-Claro que está mal. Ernesto age como um  porco e o outro aparece como um imbecil.

-Bom,   Elliot é um homem tolerante. Adora Holly e não exige muito em   troca.

-Por isso. O menos que merece é um pouco de decência. Além disso, se não representa um limite.. um obstáculo, para que você o precisa? Como personagem  digo...

-Ora, outra vez: o reparo é moral ou dramático ?

- Não sei. Escolha. Os dois.

Era a melhor parte do trabalho. Normalmente os acordos eram celebrados com gargalhadas sem freio.

Victória nos trazia café algumas vezes e prognosticava:

-Se o público se rir só a metade do que riem vocês, ganhamos.

Por que tinha que dizer ganhamos  ? Por que tinha que mexer em tudo  ?

O basco lhe pertencia, maldita, por isso falava assim.

           

O que mais se discutiu de qualquer jeito, foi o final.

Na primeira sinopse que eu tive nas mãos, Ernesto, o protagonista, morria desgarrado pelo conflito entre sua vida ordenada e esse louco amor que o tinha surpreendido “na curva perigosa dos cinquenta”, como diz Drummond de Andrade.

Mas esse final inquietava ao basco.  Porque como devi imaginar e o fiz tardiamente, meu amigo se identificava com esse senhor. Estava louco por viver uma aventura e com medo do castigo que podia cair sobre ele. 

-Por que não podemos tentar um final sem tragédia...

-Por exemplo...

-Que não houvesse essa necessidade possessiva y excludente...

-Que não tivesse que escolher entre um amor e o outro...?

-Claro.

-E então qual é a história? Se está tudo bem..dá tudo na mesma. Por acaso Ernesto vai seguir adiante com as duas? Por evitar a pena de escolher uma e perder a outra?

-Bom, não. Mas também não morrer por isso... Nos  caímos do gênero com um final desses. Fica como um dramão erótico com moral.

-Não, não. Fiquemos na comédia romântica.

-Por isso digo... deixemos o dramatismo. Não é tão grave assim.

 

Essa discussão nunca terminou. Ainda que no roteiro que circula por ali o final seja que Ernesto Rius morre, no sucessivo bastaria que leitores ou produtores alçassem uma sobrancelha por causa de aquele desenlace, para que Manuel duvidasse mais uma vez. Chegado o caso, e queira Deus que chegue, que não é seguro, se fará o que Manuel quiser, mas eu disse não menos de 100 vezes que gosto desse final. Funciona mesmo como um final e expressa uma ideia na qual acredito: que numa situação assim, não há variante boa e quase que não há variante. Ter que escolher já é perder. E nunca na vida a gente aprende a aceitar isso sem se desgarrar e em alguma medida morrer.

Tema brutal para uma comédia romântica, como que não?

 

Bom, fomos interlocutores intensos e perfeitos durante os meses do verão e nunca suspeitei o que estava a ponto de acontecer. Até o final, ainda bem.

Terminamos o roteiro numa sexta. Senti algo confuso enquanto íamos apagando as luzes da casa dele rumo à garagem porque ele ofereceu me levar de carro até o bairro de Belgrano. Senti como um golpe ao coração. No entanto eu disse para mim você tá  imaginando, e batemos um papo completamente trivial durante o caminho todo. Falamos da supervivência, das dificuldades de grana, essas coisas.

-Nós somos cães da rua e sabemos que de um jeito ou de outro...  sempre se sai.

Isto e aquilo. Depois fez sinal a um táxi para mim e nos dissemos adeus.

 

Aquela noite, sozinha no meu quarto, comecei a chorar. Não pude parar em uma semana. Era difícil encontrar lugares onde chorar tranquila sem ter que dar explicações. Felizmente tive um funeral nesses dias. Fui por obrigação mas me luzi. Inexplicavelmente para todos, chorava com mais sentimento que os familiares diretos e demais parentes. É que o meu também era um luto e o cemitério era depois de tudo o lugar perfeito para desabafar-se.

 

Não penso admitir agora o que me neguei a admitir nos dias seguintes. Ridículo. Devia se tratar de uma dessas sensações fantasma que têm aqueles que perderam um pé ou um braço e entretanto os continuam sentindo. O fato é que procurava pretextos para me manter em contato, dava-me socos na cabeça, não podia me perdoar.

Eu que me considerava o couraçado potemkin, emocionalmente em retiro, fora de perigo e tal... baixei a guarda por um só segundo e algo de tudo aquilo, tão drasticamente supresso anos atrás, abriu-se passo até aqui sem me dar tempo para nada.

Meu Deus, todo o quadro: pranto, insônia, sensibilidade extrema, pânico, anorexia, perplexidade e uma sorte de abandono.

-Anorexia... que benção- diz Cecília que é a única pessoa com quem posso falar disso. De homens e quilos temos falado a vida toda. Não só disso naturalmente e também não o tempo todo, porém bastante a miúdo ao longo de não sei quantos anos.

-Você vai emagrecer. Isso já é ganho.

Parece frívola a Cecília pero não é: sabe escutar com uma atenção para a qual nada é pequeno demais ou demasiado trivial. E sobre tudo, é a pessoa menos convencional que conheço para ler relacionamentos humanos. Vê claramente linhas entre as pessoas onde outros não veriam nada.  Linhas de diferente intensidade e cor, de desenho simples ou sinuoso, feito as de um mapa.

Por isso alegrei-me tanto de tê-la perto quando tudo isso começou a virar  estranho.

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-Nada feio de sentir- digo para ela

-Acredito. Um problema como esse já queria eu para mim.

-Um pouco inoportuno, isso sim.

 

Porque agora estava em jogo também meu trabalho. Claro que ao basco não pensava lhe dizer nada. Não podia carregá-lo com algo que com certeza ele não compartilhava. E que pelo contrário podia enchê-lo de prevenções. Adeus  espontaneidade e franqueza. Talvez até lhe causasse horror reconhecer algo assim numa mulher da mesma idade dele. Ele que acha esses arrebatos tão atendíveis em mulheres mais jovens.

Era meu problema e apelando a um resto de lucidez comecei a tomar decisões. Cravar os freios,  escrevê-lo tudo, fechar o caderno e ponto.

Já anteriormente tinha escrito uma crise completa, por falta de dinheiro para tomar sessões com o negro Filippo.

Escrevi para ele cartas / sessões até que vi sair o assunto inteiro como uma almôndega sobre as páginas sem linhas do meu caderno Hopper. Depois dei uma última lida e fechei o assunto para sempre. Foi bom.

Agora podia voltar a fazê-lo. Só precisava tomar distância, me dar tempo. Se é verdade que sou uma moça inteligente, algo se me ia ocorrer.

 

Enquanto isso, ele também não se desprendia com facilidade. Ligava para mim a cada momento por qualquer coisa. Mandava para mim textos baixados da Internet com data do ano anterior... é dizer, nada urgente. Pelo visto também ele tinha saudade de mim. Porém no acreditei que fosse além daí.

 

Uma  coisa  tive clara: para mim era uma espécie de degelo.

Litros de lágrimas não podiam ser senão blocos de gelo fundindo-se. Grandes icebergs quebrando e se desmoronando, uma atração turística como o glaciário Perito Moreno.

Senti-lo era extraordinário, mas atuar não podia significar mais que problemas. Decidi então que se para algo prestaria esta idade de merda, seria para poder separar uma coisa da outra.

Se não era discreta bastante podia estragá-lo tudo. Ele ficava sem roteirista e eu ficava sem trabalho. Pelo contrário se conseguia mantê-lo bem secreto, podíamos ter alí uma usina muito poderosa, eu me conheço.

 

Quando não via alternativa mais razoável que me foder, apresentou-se para mim a mais simples e viável de todas as saídas: o espaço virtual.

Não era um lugar comum, era todo um lugar. Podíamos seguir nos vendo ali até que aclarasse um pouco.

Então troquei meu adorado Mac por um PC, um pouco más estúpido porém mais moderno e multimídia. Fiz as conexões necessárias, apurei o mais elementar e um dia , de surpresa, enviei-lhe meu primeiro e-mail.

De trabalho, naturalmente! Era preciso ir devagar. Bonito dia, comment allez vous, aqui vai a versão corrigida, favor revisar a tradução, e por ali afora.

Durante 10 dias trocamos mensagens  pouco significativas.

Ele tentava me surpreender com bobagens da internet e eu me perguntava quando íamos começar a falar a sério. Vez por vez fazia a prova de deixar de escrever por algumas horas para ver si ele estava lá, atento. Estava sim, ele se inquietava e reclamava. Uma dessas vezes, achei que talvez já fosse tempo de passar ao 2° nível e depois de alguns intentos e de me fazer de rogada, lancei no seu correio uma pequena bomba molotov. Esta:

 

Alguém falou para mim há pouco que o espaço virtual, por caso este correio eletrônico, é ideal para crime e pecado.

Eu acho que é o lugar da perfeita inocência. Porque esses são espaços não sujeitos à lei de Deus que como sabemos data de quando nada disso existia.  De jeito que não regem aqui as proibições e mandamentos que sim funcionam na realidade material. Basicamente 3 ó 4 tabus incrivelmente pouco interessantes, que nada custa respeitar.

O que se proíbe e se teme, contra o que é preciso legislar, só existe naquela realidade. Por isso no espaço virtual esses limites não fazem sentido. Tudo está bem. E  tudo é infinito. Mentes amigas podem  brincar alegremente como delfins no mar azul. Eternamente jovens e cheias de graça. Autorizadas à  franqueza total que naturalmente inclui a mentira, ou seja essa parte da verdade menos óbvia.

Relacionamentos de altíssima intensidade e potência são possíveis, sem exposição, sem conflito e sem  perigo. Sem se ir às mãos e sem infringir lei alguma.

Derivando delas muita, mas muita energia REAL.  Imaginação, prazer de viver, endorfinas subindo... Tudo sem danificar ninguém! Fantástico. Não  imagino nada mais desejável.

Dar-se de comer diretamente na alma sem se complicar com o corpo que já sabemos como faz confusão e é outro assunto.

 

Á luz desta tela acho pobre que do lado de fora tudo se reduza a 2 ou 3 formas de relacionamento, excludentes, regulamentadíssimas e com  todo mundo olhando fixo.

 

Além disso, e me aproximando por fim ao que quero dizer, anos de marketing têm me treinado para distinguir os lugares disponíveis em cada situação. Para você e para mim não há muitos. Porém está este e é perfeito. Acharia uma privação intolerável não empregá-lo a fundo.

Agora que já não temos o álibi genial do trabalho, veja só tudo quanto poderíamos sermos sem que a polícia mexesse com nós: testemunhas- testamenteiros- cronistas- interlocutores favoritos- amigos queridos- arquivo e memória- outros.

 

Nem sequer temos que vernos para nos ver. A gente se vê perfeitamente assim, não é?

A única condição é  que permaneça em reserva.  Que não tenha nenhuma correlação visível para outrem. Que seja um “secret exit”. Discrição total. Mesmo que nos encontremos social ou profissionalmente. Aquele é outro mundo.

Nada. Inocência absoluta. (Como você é bagunceira, não pode ficar quieta.)

Bom, acho que cada um tem que dizer o que quer e o que não quer.  Não há tanto tempo para perder em adivinhas.

Eu estou a favor de um pouquinho de dupla vida, o que você quer? Acho que ter uma casinha na   árvore é um direito. E não acho são levar uma vida 100% legítima.

 

Bom, tío, tal a mensagem. Não era para tanto, já vê.

Agora diga sua palavra e quebre-se.        Beijo.

 

 

Sua resposta não se fez esperar. Três letras maiúsculas e un bom par de sinais de exclamação. Comprava. Assim começou nossa fabulosa correspondência dos 100 dias, na qual tantas coisas aconteceram.