A ilha do medo por L P Baçan - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

A ILHA DO MEDO

São diversas as hipóteses para justificar os fenômenos que, ao longo da história, vêm se registrando numa determina área do Oceano Atlântico, compreendida no triângulo cujos vértices são o Mar de Sargaço, Porto Rico e a cidade de Miami, nos Estados Unidos.

Convencionou-se chamar essa área de Triângulo das Bermudas e insólitos acontecimentos foram sendo colecionados ali, desde o desaparecimento de dezenas de embarcações, até aviões e relatos da aparição de discos voadores.

Alguns afirmam que ali se situa a antiga Atlântida. Outros acreditam que o Triângulo é um estranho, fantástico e formidável portal para outras dimensões ou uma base de extraterrestres.

Fenômenos estranhos e inexplicáveis já foram registrados ali. Bússolas ficam enlouquecidas, ocorrem distorções magnéticas e temporais, problemas com radio-transmissões e alteração na coloração das águas.

Outros, pura e simplesmente, preferem uma explicação mais aterradora. Ali, naquele ponto, o anjo Caído fez sua morada e sua base, de onde arrebanha almas para arderem nas chamas eternas do inferno.

Ali, envoltos por misteriosos e inesperados nevoeiros, criaturas das trevas, feitas com partes de homens e animais, vagam pelos sargaços à procura de vítimas para alimentar a fome insaciável de seu amo.

Mistérios ou fantasias, o Triângulo das Bermudas ou Triângulo do Diabo guarda segredos ainda inexplicados.

index-3_1.png

O navio avançava solenemente pela noite, naquela que seria a última etapa da viagem.

Havia percorrido os portos da América Central, depois Mar das Caraíbas e Porto Rico, passando ao largo das Bahamas para rumar para o porto de Nova Iorque.

Atravessava, naquele momento, o ponto central da área conhecida mundialmente como o Triângulo das Bermudas. De repente, um abalo violento e o barulho infernal de uma grande explosão, pondo todos em alerta, despertando o pânico e iniciando a movimentação de pessoas atônitas pelos corredores e convés.

Gritos misturaram-se aos apitos de alarme. A multidão recém-desperta teve consciência da tragédia e se alvoroçou, tentando saber o que acontecera.

Os alto-falantes deixaram de transmitir música suave e passaram a irradiar mensagens de comando e explicações. Uma caldeira do navio havia explodido misteriosamente, provocando um incêndio na casa das máquinas. Um rombo fora aberto no casco. O navio corria o risco de afundar-se.

Por precaução e escondendo o real perigo que corria a embarcação, informavam que, por medida de segurança, todo deveria se concentrar nas proximidades do barco salva-vidas previamente designado e cuja localização constava do colete flutuante que cada um recebera ao embarcar.

— Sem pânico e devagar, pessoal. Há botes suficientes para todos, desde que sigam as instruções e não se desesperem. Isto é apenas por precaução, caso haja necessidade de evacuar o navio. Façam como nos treinamentos simulados e tudo sairá bem. Dirijam-se aos botes que ocuparam nos treinamentos e obedeçam as ordens da tribulação. Com calma, sem pressa, por favor! — repetia sem cessar o alto-falante.

Henry Gatsby apanhou sua mochila de emergência, contendo o essencial e absolutamente necessário, depois deixou calmamente seu camarote.

Deu-se até o luxo de parar para acender um cigarro, enquanto as pessoas passavam apressadas, esbarrando nele. Dirigiu-se ao seu bote salva-vidas como se estivesse num passeio. Tranqüilamente aguardou pela chegada dos outros membros.

Peter, um oficial do navio, ainda bem jovem, surgiu, muito nervoso, pulando rapidamente para dentro do barco, demonstrando muito medo.

— E os outros? — indagou.

— Deverão chegar logo. Acalme-se, por favor! Você nem parece um oficial. A situação não é tão desesperadora, você ouviu o alto-falante, não? — comentou Henry.

— O alto-falante não está dizendo a verdade. O capitão tem certeza de que o navio vai afundar em pouco tempo. Só não deixou transmitir isso para não tumultuar evacuação. Este navio está condenado e deve ir ao fundo muito mais depressa do que você imagina —

informou nervosamente Peter.

A apreensão estampou-se no rosto de Henry. Aquela informação mudava tudo e mexia, inclusive, com sua calma aparente diante da tragédia. Inquietou-se.

— Onde estão os outros? Que diabos! Por que não se apressam? — indagou, deixando-se contagiar pelo nervosismo do oficial.

— São aquelas duas mulheres e o casal de velhos. Já deviam estar aqui — falou Peter, com as mãos nas alavancas que fariam o bote descer até o mar escuro e sinistro.

— Sabe em que ponto da viagem estamos agora? — quis saber Henry.

Está informação seria crucial para se orientarem após o naufrágio.

— Não, nem tenho idéia. Era minha hora de folga. Dormi um pouco e acordei com a explosão. Que horas são?

— Passa um pouco da meia-noite. Não pode tomar isso como parâmetro, considerando as viagens anteriores?

— Só posso dizer que estamos agora ao largo das Bahamas, em algum ponto do Triângulo do Diabo...

A menção daquele nome foi suficiente para intranqüilizar ainda mais Henry.

— Deve haver um mapa e alguma forma de se orientar por aqui, não? — quis ele saber.

— Sim, temos tudo que precisamos aqui no barco, não preocupe. A questão crucial agora é o tempo. O navio está começando a adernar. A princípio será lento, depois, de uma hora para outra, ele emborcará e irá ao fundo. Se não sairmos a tempo, seremos levados pelo deslocamento de água que ele produzirá ao se afundar — alertou Peter.

— Diabos! — impacientou-se Henry, no momento em que duas jovens, visivelmente apavorados, destacaram-se das pessoas que passavam, avançando para o barco.

Uma era loura, olhos azuis muito grandes e uma figura esguia e elegante. A outra era morena, de olhos negros e profundos, muito bonita de rosto e de corpo.

Traziam ambas duas malas enormes cada uma, arrastando-as com dificuldade.

— É impossível levar tudo isso — avisou Peter. — Deveriam ter separado apenas o essencial.

— Somos responsáveis por estas roupas. Somos manequins, sabia? São peças de uma coleção de desfile... — tentou explicar uma delas.

— Poderiam ser as jóias da Coroa que eu não me importância. O momento é de salvar vidas e não malas, não importa o que contenham. Joguem-nas ao mar — ordenou ele.

As duas garotas se entreolharam indecisas, agarrando com mais firmeza as alças das malas, como se o seu conteúdo fosse realmente mais importante que a própria vida delas.

— Façam como ele disse — insistiu Henry e, diante da imobilidade das garotas, tratou ele mesmo de arremessar as pesadas malas no mar.

As duas garotas ficaram olhando, atônitas, as malas que se afundavam rapidamente.

— Vamos, entrem logo! — ordenou Peter, despertando-as. — Falta o casal de velhos, maldição. O navio continua adernado. Não nos resta muito tempo. Se não nos afastarmos logo, iremos ao fundo com ele.

— Então vamos embora, diabos! — gritou Henry, controlando-se para não se deixar levar pelo pânico.

A agitação das pessoas era intensa. Alguns barcos já haviam sido lançados e se afastavam velozmente. Pequenas explosões abalaram toda a imensa estrutura.

— É isso mesmo, vamos embora! — decidiu —- Percebendo que em breve não haveria mais tempo para escapar.

— Não podem fazer isso. Temos de esperar os velhos — disse a garota morena, em desespero.

— Se não nos afastarmos, morreremos todos — alertou o oficial, manobrando as alavancas e fazendo o barco baixar até o mar.

Ligou o motor. Uma jovem, metida apenas numa camisola transparente, atirou-se no mar e emergiu, junto ao barco, agarrando-se à borda dele.

— Levem-me com vocês, por favor! — suplicou ela, em pânico. — Não consegui achar meu barco... Por favor!

Os homens se entreolharam. As garotas olharam, para os dois com um súplica muda nos olhos.

— Puxe-a para cima — ordenou Peter a Henry.

Este se debruçou na amurada do barco e puxou a garota para cima. Ela tremia de frio, medo e nervosismo, à beira da histeria. Ele tirou o casaco que vestia, pondo-o nos ombros dela e fazendo-a se sentar.

Peter acelerou ao máximo o bote salva-vidas, rasgando a escuridão, olhando atentamente a sua frente, temendo topar com um outro barco pela frente, o que seria mais uma tragédia.

— Há cobertores naquela caixa maior — falou ele, mas sua voz foi abafada pela violenta explosão que partiu o navio ao meio e fez levantar uma bola de fogo que iluminou todo o cenário do desespero e desolação daquela parte do oceano.

Um onda forte agitou o barco, obrigando Peter a utilizar toda a sua perícia. O nervosismo havia passado. Ele recobrara a confiança e a segurança para assumir o posto de comandante do barco agora.

— Saímos bem a tempo — comentou Henry, com um suspiro de alívio.

— Oh, meu Deus! Que tragédia! — soluçou baixinho uma das garotas. — Ainda havia gente lá dentro...

— Acalme-se! — pediu Henry. — Agora está tudo bem. Estamos salvos. Felizmente está é uma região movimentada, em breve chegarão os navios para nos socorrer.

— Oh, Deus! Vamos morrer todos! — exclamou a garota que ele havia retirado do mar.

Ele se sentou ao lado dela. A luz das estrelas tornava agora o oceano um estranho espelho. A garota tremia ainda, com os cabelos molhados e escorridos.

Ele estendeu a mão, abrindo a caixa apontada antes por Peter, retirando dali um cobertor.

Embrulhou a garota, massageando-a rapidamente.

— Sente-se melhor agora? — indagou ele.

— Sim, obrigada! — falou ela, com voz trêmula.

— Já estive em situações assim antes — disse ele. — Tudo sempre acaba bem, pode acreditar em mim. Em pouco tempo teremos diversos barcos de socorro na região. Daqui a algumas horas estaremos rindo de tudo isso.

Ela pareceu se tranqüilizar. No leme, controlando o motor, Peter olhava ao redor e estranhava não ver nenhum dos outros barcos salva-vidas.

Havia apanhado a bússola e tentado se localizar com ela, mas tudo estava muito estranho.

Pelas estrelas no céu, e isso ele conhecia muito bem, o norte ficava numa posição diferente daquela apontada pela bússola.

Ela viu, então, ao longe, um navio, possivelmente acorrendo em socorro. Só que se encaminhava para um rumo totalmente diferente daquele onde ocorrera o naufrágio.

Inquietou-se. Havia alguma coisa estranha e indefinida no ar que ele não conseguia entender.

— Desculpem-me vocês todos — disse a garota que fora tirada do mar. — Eu estava muito nervosa. Fiquei em pânico, quando não achei meu barco salva-vidas... Acho que eles partiram sem mim...

— Está tudo bem agora, não vai precisar se preocupar mais — falou Henry. — Vejam, naquela direção. É um navio. Eles já estão começando a chegar.

As garotas olharam e, após se certificarem de que era verdade, começaram a aplaudir e a gritar de alívio e felicidade.

Henry nada disse. Seus olhos estavam fixos a sua frente, naquele oceano que lhe parecia instável e estranho. O navio que Henry e as garotas observavam passava ao largo, rumando para o lado oposto ao acidente.

— Logo estaremos salvos — comentou Henry. — Como é seu nome? — indagou à garota ao seu lado.

— Sue Clay Jones.

— É um bonito nome, um tanto incomum. Aliás, esse nome não me é estranho...

— Pelo contrário, acho que nunca ouviu falar nele — cortou-o ela, secamente.

Henry deu de ombros, achando-a tremendamente grosseira. Peter continuava sem conseguir se orientar. Havia acendido uma lanterna e olhava aquela Bússola, sem compreendê-

la. Desligou o motor.

— O que houve? — quis saber Henry.

— Estou tentando me localizar, só isso — respondeu ele, examinando a bússola, o céu e o mapa.

— Vejam, o navio de socorro sumiu! — observou a garota loura.

— Que diabos! — exclamou Henry.

— Para onde ele foi? — questionou a morena.

— Sumiu! — falou Henry, sem compreender.

— Naquela caixa há um sinalizador que transmite sinais via satélite. apanhou-o, Henry. É

só pressionar o botão vermelho para ligá-lo. Vamos precisar disso. Acho que há um nevoeiro vindo em nossa direção.

— Diabos! — praguejou Henry. — Mais essa agora?

— Não se preocupem. O transmissor dará nossa localização ao satélite que orientará o serviço de buscas. Mesmo no pior dos nevoeiros, eles nos encontrarão — falou ele, julgando que estivesse ficando maluco ou, então, o mapa e a bússola que tinha nas mãos estavam todos do avesso.

Nada ali combinava com o que via no céu.

— Hei, não há nada nesta caixa — gritou Henry.

— Como não? Tem que haver um transmissor e outros materiais aí — discordou Peter, indo conferir.

— Pois veja você mesmo — falou Henry, afastando-se para o outro olhar.

— Mas tem que estar aqui — insistiu o oficial, vasculhando a caixa com sofreguidão.

Aquele transmissor era a única garantia de que poderiam ser encontrados.

— Vocês reparam numa coisa? — falou a lourinha.

— O que foi? — respondeu-lhe Henry.

— Cadê os outros barcos salva-vidas?

Um silencio pesado e mortal caiu sobre eles. Seus olhos vasculharam os arredores.

Estavam sozinhos na solidão desolada do oceano.

— O que houve, oficial? — perguntou-lhe Henry.

— É o que estou tentando entender. Ou salvamos só nós e o resto afundou ou tomaram um rumo diferente do nosso... — tentou explicar Peter.

— Mas não navegamos tão rápido assim...

— Onde estamos, afinal? — perguntou Sue.

— É o que estou tentando descobrir, mas parece que o mapa e a bússola estão errados.

Para ser sincero, parece que estamos perdidos em algum lugar do oceano, sem saber nossa localização nem para onde ir.

Os outros concentraram seus olhares no piloto do barco, sem compreender o que ele dizia.

— Mas... O mapa, a bússola... — tentou argumentar Henry.

— Venha até aqui — pediu-lhe o oficial. — Olhe aquela estrela. Conhece-a?

— Sim, nos meus tempos de escoteiro ela sempre apontava o norte e a gente se guiava por ela...

— Então observe a bússola agora? — ordenou, iluminando-a com a lanterna.

O objeto apontava o norte, mas numa direção totalmente oposta à estrela tomada como guia.

— Percebeu?

— A bússola está com defeito... Só pode ser isso.

— Vejam! — apontou uma das garotas.

Denso como um bloco de gelo, o nevoeiro se aproximava rapidamente. Estranhas ondas agitavam o barco, como se o vento soprasse. A calmaria se abateu sobre eles, enquanto o nevoeiro avançava, fazendo a embarcação oscilar estranhamente, como se estivesse sendo empurrada para dentro da névoa.

— Para onde estamos indo? — indagou Henry.

— É o que eu gostaria de saber. Apanhem lanternas e cobertores, pessoal. E amarrem bem seus coletes flutuantes — ordenou ele.

O barco avançou para o interior do nevoeiro, que os envolveu como se os isolasse do mundo. O céu e o oceano foram encobertos. Mal se via a um palmo adiante dos olhos.

Todos se calaram. As duas garotas se encostaram uma à outra, agarradas aos seus cobertores. Sue Clay acomodou-se em seu lugar, apertando o cobertor contra o corpo. Ainda sentia frio, com a camisola molhada sobre a pele.

Henry ajeitou-se perto dela e tentou cochilar. Estava apreensivo e julgava que o mesmo acontecia com todos, só que nada havia que pudesse fazer naquele momento, a não ser tentar se controlar e manter a calma.

O nevoeiro se tornou cada vez mais denso. Peter mantinha a mão firme no leme, atento a qualquer ruído que pudesse indicar a aproximação de uma outra embarcação ou ondas arrebentando em alguma praia.

De vez em quando, acendia a lanterna e fazia sinais, como forma de precaução, embora o silencio em redor fosse total, exceto pelas ondas que batiam suavemente no casco.

Sentia que o barco estava se movendo lenta e constantemente para dentro daquele nevoeiro, mas não conseguia determinar que rumo tomavam.

O tempo foi passando e o cansaço começou a dominá-lo também. ele se acomodou e foi vencido pelo cansaço.

index-11_1.png

Acordaram com o sol surgindo. O nevoeiro havia ido embora e a paisagem parecia estranha, num tom levemente amarelado. As águas, ali, mostravam-se esverdeadas, com plantas flutuando em quantidade.

— Onde estamos? — indagou Henry, despertando quando Peter tentava dar partida no motor do barco.

— Não tenho a menor idéia, mas, pelo que vejo na água, estamos no Mar de Sargaço. Eu não entendo. Pensei que tivéssemos tomado o rumo das Bahamas ou de Miami, mas fomos levados na direção oposta...

— O que está acontecendo? — indagou uma das garotas.

As outras olhavam igualmente ao redor, estranhando tudo o que viam.

— Acalmem-se. Estamos em algum ponto do mar de Sargaço, só pode ser isso. Pelo que sei, não há nenhuma terra por perto, por isso vamos ter de racionar água e suprimentos.

Inicialmente, dariam para cinco dias. Se cuidarmos, poderemos estender esse prazo para até quinze dias — alertou Peter.

— E podemos ficar todo esse tempo no mar? — indagou Sue, impressionada.

— Certamente não chegara a tanto. Seremos encontrados antes disso — tranqüilizou-a Henry.

— O que podemos fazer? — quis saber uma das manequins.

— Acho que o negócio é aproveitar o sol e usarmos o combustível que temos para tomar o rumo da costa — sugeriu Peter, pondo, finalmente, o motor em funcionamento.

Manobrou o barco no rumo oeste. Sue tomou a iniciativa de coordenar a distribuição de água e alimentos. O grupo se manteve em silencio, por algum tempo, enquanto o sol subia no céu, abatendo-se inclemente sobre eles.

— Acho que é bom nós nos apresentarmos, já que podemos passar uma férias forçadas juntos — brincou Peter. — Meu nome é Peter Bacley. Sou oficial do navio em que viajávamos...

Quero dizer, era oficial...

— Meu nome é Henry Gatsby, sou executivo de uma importante empresa americana.

— O meu é Sue Clay Jones... Sou estudante.

— O meu é Swanny, sou modelo — disse a loura.

— E podem me chamar de Bibber. Também sou modelo, como a Swanny — disse a última delas.

— O que levavam de tão importante naquela mala que quase arriscaram a vida por elas?

— questionou Henry.

— Roupas finas, os últimos lançamentos da coleção de Village King, o famoso figurinista.

Voltávamos de um desfile na Europa. Tínhamos um contrato para fazer um desfile no navio, na última etapa da viagem, antes de chegarmos a Nova Iorque. Seria o ponto máximo da excursão.

— Eu já ouvi falar de Village King — adiantou Henry. — Acho que joguei uma verdadeira fortuna no mar, não?

— Aparentemente, sim. No meu modo de entender, umas porcaria futuristas. Village já não é o mesmo de antes. Vive apenas do nome. As pessoas comprar as suas roupas apenas para dizer que possuem uma em seu guarda-roupa, nada mais do que isso.

— Mesmo assim, devem valer uma fortuna, não? — insistiu Henry.

Peter estava alheio à conversa, olhos presos na distancia, tentando interpretar se o que via era mesmo uma ilha ou apenas o sargaço confundindo-lhe a visão.

— Vejam, lá na frente! — disse ele, eufórico, quando, enfim, se convenceu do que via.

Os outros olharam na direção apontada por ele. Por instantes todos ficaram em suspense, mal podendo acreditar no que viam.

— É uma ilha? — indagou Henry.

— Sim, acho que sim. Vejam, folhas, pedaços de tronco, penas de pássaros. Estamos próximos da terra.

— Sabe em que lugar estamos? — questionou Henry.

— Não tenho a menor idéia — respondeu Peter, apanhando o mapa e esquadrinhando-o.

Em toda a região do mar de Sargaço não havia nenhuma ilha. Só que ele poderia estar enganado. Uma daquelas ilhas poderia ser parte das Bahamas, o que já seria um alívio.

— Não consigo me localizar — desistiu ele, pondo o mapa de lado.

— Poderemos encontrar ajuda lá?

— Se for uma ilha habitada... Mas não parece — concluiu Peter.

Todos se mantiveram atentos, observando a ilha que crescia diante dos olhos deles. Peter observou que havia penas flutuando na água, mas não conseguia ver nenhum pássaro no céu, o que era bastante estranho. pela aproximação, já deveriam ter visto algum deles.

— O que me diz? — perguntou Henry, quando estavam mais perto.

— Parece desabitada. Não há sinal de fogo em parte alguma. Além disso, observe a praia.

Nenhuma canoa ou marcas delas arrastadas pela areia. Acho que estamos em uma ilha totalmente desabitada.

— Tão próxima assim do continente, ela deve constar no mapa — comentou Sue.

— A menos que seja uma dessas pequenas ilhas das Bahamas, mas, se fosse, veríamos as outras ao longe. O dia está claro e a visão está completa. Alguém pode ver uma outra ilha?

Todos vasculharam atentamente os arredores. Henry apanhou um binóculo em sua mochila. Nada havia além daquela ilha e das plantas que boiavam naquela parte do oceano.

— Não. Não há nenhuma outra ilha. O que faremos, Billy? Vamos desembarcar?

— O que sugerem? — respondeu ele.

— bem, não podemos ficar para sempre neste barco — comentou Bibber.

index-14_1.png

— Tem razão — concordou Swanny. — Acho que na ilha estaremos mais seguros.

— E se houver animais? — lembrou Sue.

— Há uma arma entre o equipamento de emergência do barco salva-vidas. Poderemos nos defender. Improvisaremos abrigo, enquanto aguardamos que as buscas cheguem até este ponto. O que me dizem? — insistiu Peter.

— Acho que devemos desembarcar — falou Henry e as garotas concordaram com ele.

Peter manobrou, então, o barco, procurando o melhor ponto da extensão praia para atracar.

Jim Clay Jones continuava com os olhos fixos na tela enorme, na parede a sua frente, ouvindo as noticias sobre o naufrágio, enquanto seu secretário particular entrava no luxuoso escritório.

Estavam no último andar do Clay Jones Building, no centro financeiro de Nova Iorque, central administrativa de uma holding de empresas que controlava desde a fabricação de alfinetes até a construção de placas refratárias para a industria espacial.

Jim Clay Jones era o diretor-presidente e figura mais importante de toda a organização. Era jovem ainda, pouco mais de trinta anos, físico bem cuidado e um ar sempre atento a tudo aso seu redor.

Assumira o controle quando seus pai morreram num inesperado acidente aéreo. O rapaz que até então fora considerado um playboy sem maiores habilidades revelou-se um verdadeiro capitão de indústrias.

Em pouco tempo diversificou as atividades da holding, ampliando as atividades, adquirindo empresas à beira da falência e revitalizando-as.

Tinha um faro impressionante para os bons negócios e sabia como ninguém enxergar uma oportunidade de lucrar onde todos viam apenas prejuízos.

— O que houve, Solo? Alguma novidade sobre ela? — indagou ao secretário, sem desgrudar os olhos do telão a sua frente.

— Boas noticias! — disse o outro, fazendo-o desviar os olhos para ele, com surpresa.

— Ela foi encontrada? — indagou.

— Eu disse que tinha boas noticias, Jim Clay. Ela ainda não foi encontrada. Temos certeza de que ela estava lá, no navio. Confirmei com a lista de passageiros, direto com a companhia.

— E onde estava essa maluca desta vez?

— Estava na Índia, aperfeiçoando seus dotes espirituais com meditação e ioga, acredito.

— É maluca mesmo! Nenhuma confirmação de sobreviventes mesmo?

— Nada! O navio afundou muito depressa. Não houve tempo para que os salva-vidas se afastassem. Há muito óleo na região. Acreditam que o navio explodiu, o que tornou compreensível a inexistência de sobreviventes. A tragédia foi completa.

— Sue Clay pode estar morta... — comentou Jim, com ar pensativo.

Não havia dor nem pena em seu rosto.

— É possível.

Jim reclinou-se em sua poltrona, após ter desligado o televisor. Ficou pensando, enquanto olhava o rosto de seu secretário, imaginando que proveito poderia tirar de tudo aquilo, além do que já ganhara com a morte de Sue.

— Em que pensa, Jim Clay? — indagou Solo.

— Isso que aconteceu me torna o único proprietário de tudo isso, não? Pode entender a dimensão deste patrimônio, meu fiel amigo?

— Em torno de quinze bilhões de dólares, segundo os últimos balanços.

— Quinze bilhões de dólares, tudo meu agora. O playboy irresponsável que não era capaz de nada mostrou a todo o quanto eles estavam errado a seu respeito, não? Chama isso de sorte, Solo? Ou tem um outro nome para isso que fiz com esta empresa?

— Isto se chama visão, competência, liderança, inteligência e mil e uma outras qualidades que apenas os raros líderes de verdade possuem, Jim Clay.

— Penso que sou, hoje, o homem mais rico do mundo, não?

— Sim, considerando que toda a fortuna é sua. Só que, num caso como este, com tanto em jogo, você não deveria se arriscar. Se por uma fatalidade Sue Clay não morreu naquele navio, tudo voltaria ao que era antes. Meio a meio entre vocês dois.

— O que quer dizer? O navio explodiu, não? Acha que ela pode estar viva? Absurdo?

— Quinze bilhões de dólares é muito dinheiro para ser negligenciado. De qualquer forma, é melhor se certificar do que ter uma surpresa depois.

Jim Clay pensou melhor. Entendia o que Solo estava tentando lhe dizer. Sue Clay jamais participara de nada na construção daquele império. Apenas vivia fazendo suas loucuras, viajando pelo mundo e envolvendo-se em escândalos.

Ele, sozinho, tirara a empresa dos maus momentos e fizera dela tudo que era agora. Era difícil aceitar ter de repartir metade das ações com a irmã.

— O serviço de busca e salvamento já examinou todo a região no local do naufrágio e, agora, vão começar a expandir as buscas ao redor. Os barcos salva-vidas podem ter tomado qualquer direção. Nada garante que um deles esteja por lá, com sua irmã a bordo, esperando pelo salvamento. Além disso, vamos ter problemas legais para resolver. Prova que sua irmã está morta será algo complicado. Isso poderá atrapalhar muitos de nosso negócios, onde a presença dela era necessária e podia ser resolvida com uma simples procuração. Entendeu onde eu quero chegar?

— Sim, e vou mais longe. Quanto mais cedo tivermos a certeza da morte dela, melhor, não?

— Exatamente. Pelo que vejo, você já tem alguma coisa em mente, não?

— Sim, eu pensava naquele protótipo que desenvolvemos no estaleiro.

— O mini-submarino para grandes profundidades?

— Sim, esse mesmo. Podemos mandá-lo para o fundo do mar e fotografar todo o navio. As fotos provarão que, no estado em que nos amparar no processo legal e, ao mesmo tempo, será uma boa publicidade para nós.

— Você pensa em tudo — elogiou Solo.

index-17_1.png

— Sim, nós estaremos procurando provas de que minha irmã morreu, mas a mídia, diremos que eu tentarei encontrar o corpo dela para dar-lhe uma sepultura decente ao lado de nossos pais.

— Excelente mesmo, Jim Clay. Se há alguém no mundo capaz de fazer algo assim, é você.

Custos não serão o problema.

— De forma alguma. Cada centavo investido nisso terá um retornou fantástico. Pense só na imagem do homem mais rico e poderoso do mundo. Serei considerado o irmão preocupado e amoroso que vasculhou o fundo do mar à procura dos restos mortais da irmã. Será o golpe do ano, Solo. Tome todas as providencias. Quero o máximo de agilidade nisso. acione todos os setores da empresa. Monte uma base em Porto Rico ou em algum ponto das Bahamas.

Vamos nos divertir um pouco!

Em outro ponto da cidade, no centro da moda, onde as butiques e ateliês exibiam, em suas vitrines, etiquetas de preços escandalosos, um homem recebia uma noticia terrível, pela reação imediata que esta lhe provocou.

— Tem certeza do que está dizendo? — indagou Village King, pondo-se em pé, num salto, exibindo a expressão pálida, quase transparente.

Ficou em pé, olhando seu interlocutor como se olhasse a própria morte.

— Já foi confirmado. Está sendo noticiado pelo rádio e pela televisão. Uma tragédia!

— E Swanny e Bibber?

— Não encontraram sobreviventes ainda.

— E as roupas? — insistiu King, num sopro de voz, à beira de um desmaio.

— Podem estar com elas, no fundo do mar — informou Marcel Gaston, tratando de abanar seu chefe, que se deixou cair pesadamente na poltrona.

Ao redor, manequins belíssimas, trajando extravagantes e caros se agitavam. Marcel bateu palmas e fez um sinal de cabeça para elas, que entenderam e saíram imediatamente.

Quando ficaram a sós, ele serviu uma taça de conhaque e levou-o para Village King.

— Beba, vai se sentir melhor — falou.

O figurinista bebeu um gole. Suava. Continuava trêmulo. Os olhos continuavam olhando incredulamente para seu assistente.

— Entende o que isso pode significar? — indagou, num tom pessimista.

— Calma, tudo vai se resolver. Foi um acidente, nada mais. Eles entenderão.

— Não, eles não entenderão, Marcel. Eu lhes dei a minha palavra de que o esquema era seguro e que poderiam depositar toda a confiança em meu trabalho. Vão achar que eu os enganei...

— Village, foi um acidente! Foi imprevisível.

— Eu sei. E isso fez de mim um homem morto. Havia ali nada mais nada menos que cinqüenta milhões de dólares em diamantes, alinhavados e costurados em minhas preciosas roupas como se fossem insignificantes pedrarias. Os colombianos confiavam em mim, no meu sistema de lavagem de dinheiro do narcotráfico.

— De qualquer maneira, eles sabiam que haveria uma margem de risco ainda...

— Não aceitarão. Vão me responsabilizar. Se eu não pagá-los, serei morto. Percebeu, Marcel? Você pode estar falando agora com um futuro defunto! — frisou bem, à beira da histeria.

Marcel serviu-lhe um outro conhaque, que ele tomou num só gole. Continuava trêmula e suava ainda mais agora.

— Tenho de fazer algo, Marcel... Esconder será impossível...

Enquanto King torcia as mãos e falava sozinho, Marcel foi ligar o televisor. Uma rede de noticias transmitia do local. Havia uma enorme mancha de óleo e destroços flutuando ainda.

Alguns corpos começavam a boiar e eram recolhidos e levados para serem identificados.

— Ouça! Ouça isso, Village! — falou Marcel, aumentando o volume.

O figurinista voltou os olhos para o televisor. O repórter informava da última hora que o famoso bilionário Jim Clay Jones estava se engajando pessoalmente nas buscas, utilizando-se de todos os recursos para resgatar o corpo de sua irmã, morta no naufrágio. Para tanto, ele se dispunha a utilizar o que tinha de mais moderno em suas empresas, inclusive um mini-submarino e um escafandro especial, para grandes profundidades.

—Quem é esse louco? — indagou Village.

— A sua salvação, não percebeu?

— Como assim!

— Se ele tem a tecnologia para chegar até aquele navio, porque não imaginar que ele pode também localizar a cabine das pobres garotas e resgatar as malas com as roupas e os diamantes?

O rosto de King abriu-se num sorriso aliviado.

— Sim, é possível! Ele pode nos ajudar. Posso transferir para ele a minha comissão. Ou parte dela. Os diamantes serão entregues, como sempre e os colombianos me deixarão em paz.

— Ele está indo para as Bahamas, para coordenar pessoalmente a participação nas buscas.

— Localize-o. Descubra exatamente onde vai ficar e providencie transporte para nós imediatamente. Ele pode ser a nossa salvação, Marcel.

O assistente apanhou o telefone e tentou uma ligação para as industrias Clay Jones, onde procuraria descobrir o destino exato do bilionário.

Enquanto a secretária providenciava a importante ligação, ele foi se servir de uma dose de conhaque.

index-20_1.png

Após desembarcarem, arrastaram o barco pela arei, até um local seguro, à beira da vegetação abundante que ameaçava invadir as areias. O grupo se abrigou, então, sob algumas árvores, tentando se acostumar de novo à terra firme, após todas aquelas horas no mar. Todos sentiam o corpo oscilar ainda.

O cansaço pelo desconforto da noite se abateu sobre eles. O sol agradável punha calor na praia e compensava seus corpos pelo frio da noite e do nevoeiro. Adormeceram e dormiram toda a manhã e parte da tarde.

Sue foi a primeira a acordar. Sentou-se na areia e examinou-se. Sentiu-se horrível, coberta apenas com aquela camisola de dormir, finíssima e transparente.

— Alguma de vocês tem uma roupa sobrando? — indagou ela às outras garotas, que despertavam naquele momento, ligeiramente aturdidos.

— Oh, não! — lamentou Swanny. — Pensei que tudo tivesse sido um pesadelo mas é verdade — acrescentou, com voz chorosa e assustada.

— Tudo bem, querida! Quando terminar, você vai jurar que tudo não passou de um sonho

— tranqüilizou-a Bibber. — Quanto a você, Sue, eu lamento, mas esse ditador aí jogou nossas malas no mar, com tudo que tinha dentro. Não temos nada que possamos emprestar-lhe.

— Talvez eu possa ajudar — disse Henry, estendendo a mão para apanhar sua mochila.

Estava acompanhando a conversa delas, que o haviam acordado. Abriu a mochila e retirou uma de suas calças jeans. Atirou-a na direção de Sue, juntamente com uma camiseta de malha.

— Você pode fazer alguns arranjos nela, como cortar as pernas e fazer uma bermuda, usando as tiras para improvisar um cinto ou usá-la assim mesmo, com um cipó prendendo-a —

disse ele.

— Como? Eu não sei fazer nada disso — falou Sue. — Jamais tive de...

— Nós ajudamos — falou Bibber, interrompendo-a. — Estamos acostumadas com isso.

Sue olhou-as de modo constrangido, como se fosse difícil para ela aceitar aquele tipo de ajuda.

— Eu... Obrigada! — conseguiu dizer, afinal.

— Puxa, um homem não pode dormir sossegado por aqui? — indagou Peter, sentando-se, ainda meio sonolento.

Passeou os olhos pelos arredores, inconformado. Toda aquela aventura o exasperava.

Estar ali, no meio do nada, sem perspectiva nenhuma de salvamento, assustava-o.

— E agora, o que vamos fazer? — quis saber Sue.

— O importante é que estamos em terra firme — comentou Peter. — Esta ilha, no entanto, não me parece habitada, o que complica tudo. Antes de mais nada, acho que é preciso que nos organizemos para enfrentar esta situação. O que me dizem?

— Sim, isso mesmo. Deveríamos começar por criar um abrigo sugeriu Henry.

— Boa idéia! — concordou Peter. — Vamos verificar o que temos realmente na caixa de suprimentos do barco. Depois, seria importante construirmos uma cabana, conseguir um suprimento constante de água potável e de alimentação, além de criarmos um sistema de sinalização, caso algum barco ou avião de busca passe nas proximidades.

— Acho que deveríamos estabelecer algumas prioridades — propôs Sue. — O sistema de sinalização me parece crucial e deveria ser feito antes de mais nada. O que acham?

Todos, aparentemente, concordaram.

— Como vamos fazer isso? — quis saber Bibber.

— Uma grande fogueira ainda é o modo mais prático — explicou Peter.

— Então vamos fazer isso antes de mais nada — disse Sue. — O que temos de fazer?

— Inicialmente, vamos recolher troncos e galhos secos, folhas e tudo que puder pegar fogo rapidamente. Vamos usar como base para uma fogueira. Sobre essa base, poremos filhas verdes e madeira molhada, para fazer bastante fumaça. Entenderam?

— Sim, Peter — falou Henry e o grupo se espalhou, reunindo o necessário.

Em pouco tempo haviam recolhido madeira seca, folhas de palmeira e capim seco. Peter se encarregou de montar, sobre uma rochas onde a maré não chegava, a base da fogueira.

Depois acumulou material verde por cima.

— Acho que é o bastante — decidiu ele. — Vamos ver o que há no barco. Precisaremos retirar um pouco do combustível e deixar a mão, aqui perto, juntamente com fósforos.

— Eu tenho um isqueiro — lembrou Henry. — Será mais prático.

Foram examinar todo o conteúdo das caixas de emergência do barco. Havia alimentos, sal, cordas, dois lampiões a gás, instrumentos de pesca, lanternas a pilha e duas armas de caça, além de primeiros socorros e utensílios domésticos.

— Temos o necessário aqui — disse Peter, entregado uma das armas a um facão a Henry.

— O que vamos estabelecer como segunda prioridade?

— Acho que deveríamos construir o abrigo — lembrou Sue.

— Bem, acho que o principal agora é o abrigo, mas a água também é necessária.

Poderemos colher mariscos e caranguejos para uma boa refeição, mas precisaremos de água.

— Eu vou procurar água — propôs Henry.

— Eu vou com ele — adiantou-se Swanny. — Talvez encontremos frutas silvestres.

— Ótimo, vamos fazer assim, então — determinou Peter. — O resto vem comigo. Vamos levar o conteúdo do barco para o local adequado e começar a construir o abrigo. Henry, como pretende trazer a água?

— Vamos usar sacos plásticos. Há alguns no barco — informou ele.

— Perfeito! Fique atento a tudo que encontrar que possa nos ser útil, como cabaças, bambu, galhos flexíveis e cipós, além de comida, é claro.

— Pode deixar — afirmou Henry, fazendo um sinal para Swanny, que o seguiu.

Peter coordenou o pessoal restante e começaram a transportar os utensílios do barco para perto da vegetação. Henry e Swanny saíram saltando ao longo da praia, procurando um local por onde pudessem penetrar a espessa vegetação.

— Por aqui — indicou Henry à garota. — Parece fácil abrir uma trilha a partir deste ponto.

Vamos ver onde isso nos leva — acrescentou, abrindo passagem com seu facão.

Swanny o seguiu. Aventuraram-se ambos por entre a vegetação luxuriante.

Cuidadosamente, Henry marcava com o facão as árvores por onde passavam, deixando uma trilha por onde retornariam.

Swanny o acompanhava, insegura, tropeçando nas raízes, espantando insetos, sentindo-se ameaçada por todos os lados.

— Meu Deus! Que loucura é tudo isso! — exclamou ela, mantendo-se o mais perto dele possível.

— Sente medo?

— Muito. Jamais estive em situação semelhante. Já tirei fotos em cenários improvisados, lembrando florestas, mas nunca senti isso de verdade. É horrível.

— Tem que se manter calma. Inseto ou animal com quem você se deparar vai estar mais assustado que você.

— Você garante isso?

— Pode ter certeza.

— Está bem, você sabe, eu sei, mas será que eles sabem?

Henry riu e se voltou para olhá-la. A garota estava mesmo assustada. Toda a beleza artificial de seu rosto havia sido removida, após aquela noite de pesadelo. Podia vê-la agora como ela realmente era: uma garota simples, com um rosto simples.

— Não olhe para mim! — choramingou ela. — Estou horrível!

— Deixe de ser estúpida e vaidosa! — repreendeu-a ele. — Neste momento, você é uma das mulheres mais bonitas desta ilha.

Swanny levou uns segundos para entender a brincadeira. Riu, então, mais aliviada.

— Sente-se melhor agora? — indagou ele.

— Sim. Obrigada! Valeu mesmo!

— Então vamos em frente. Temos muito que andar, pelo que estou vendo. Poupe suas energias.

Caminharam mais algum tempo. Henry ia atento aos ruídos ao seu redor, procurando ouvir o barulho de água. Estava tranqüilo. A inexistência de pássaros na ilha podia significar que não encontrariam indesejáveis animais pela frente.

Ao mesmo tempo, observava as árvores por onde passavam, gravando o tipo e a localização. Viu algumas bananeiras, com cachos enormes, em vias de maturação.

Significavam precioso alimento.

— Espere um pouco — disse ele, parando para poder melhor interpretar o ruído que ouvia.

— O que foi? — assustou-se Swanny, agarrando-se nele.

— Está ouvindo?

O rosto dela se abriu-se num sorriso aliviado.

— Sim, parece barulho de água, não?

— Vem daquela direção. Vamos para lá.

À medida que se aproximavam do barulho, Henry ia identificando a vegetação própria de locais úmidos. Havia uma espécie de cará ou inhame por ali, que serviriam para alimentação também. Começava a ficar satisfeito cos os resultados da expedição.

— Que coisa maravilhosa! — exclamou Swanny.

Haviam chegado a uma clareira nomeia da floresta e um regato cristalino despencava de uma pequena cachoeira e corria mansamente sobre um leito de pedras. Peixes enormes nadavam no interior do lago, visíveis sob a água cristalina.

Henry se aproximou e provou a água.

— É fresca e pura como as melhores águas que já tomei pelo mundo — disse ele.

Swanny se aproximou e fez o mesmo, deliciando-se com a água pura.

Repentinamente, um ruído estranho chamou a atenção de Henry. Ele soltou o facão e apanhou a espingarda que deixara ao lado. Engatilhou-a. O ruído do ferrolho assustou Swanny.

— O que foi? — indagou ela.

— Fique quieta! — ordenou-lhe.

— Ouviu o barulho... É um bicho? — quis ela saber, encostando-se nele.

— Não sei. Afaste-se um pouco, vou precisar de liberdade para atirar, se for preciso.

Novamente o ruído se fez ouvir. Swanny estremeceu e se agarrou apavorada nele. Logo à frente, a vegetação se agitava e fosse o que fosse que vinha por ali, parecia enorme e ameaçador.

— Meu Deus! O que será isso? — exclamou Swanny, tentando se levantar.

— Fique quieta! — ordenou Henry, tentando mantê-la sob controle.

— Não, Henry! Vamos embora daqui! — gritou ela, em desespero, puxando-o.

— Acalme-se! — gritou ele, olhando ao redor de si.

Não havia para onde fugir, exceto para uma fenda sob a cascata que descia para o lago.

Uma cavidade ali, debaixo da água, poderia abrigar duas pessoas.

Henry segurou firme o pulso de Swanny e a arrastou para lá. Através da água cristalina podiam acompanhar os movimentos do que quer que estivesse lá fora.

Henry manteve a espingarda engatilhada. O calibre era suficiente para matar um búfalo.

Ouviu novamente, além do som da queda da água, aquele barulho. Parecia um urro de felino, rouco e prolongado. Swanny se apertou ainda mais contra ele, trêmula de pavor.

De repente, na vegetação, Henry julgou ver uma cabeça enorme e amedrontadora, com dentes pontiagudos numa boca enorme. Pela altura em que a viu, o animal fosse o que fosse, era enorme, descomunal.

Ficou rígido, imaginando que mesmo sua arma não produziria nada além de cócegas num animal daquele porte. A vegetação se movia, indicando a passagem do mostro, que andou de um lado para outro do lago. Henry não voltou mais a vê-lo. Apenas via os movimentos da vegetação.

Estavam ambos molhados e apavorados, mas esperaram mais tempo, até que tivessem a certeza de que estavam sozinhos ali.

Henry saiu na frente, com a arma pronta para disparar. Sondou os arredores. Nada além do barulho da cascata. Fez um sinal para a garota, que saiu rapidamente e foi se encostar nele.

— O que era aquilo, Henry? — indagou ela, trêmula e assustada ainda.

— Juro como não sei, Swanny. Só que deve ter ido embora. Vamos apanhar a água e dar o fora daqui — sugeriu ele.

Enquanto ela recolhia água nos sacos plásticos, Henry foi até o ponto onde vira aquela enorme cabeça. Examinou o chão. A terra úmida guardava a passagem do mostro. As patas enormes, maiores que o pé dele, com enormes garras, atestavam que não fora uma ilusão.

Após encherem os sacos plásticos com água e terem-nos amarrados muito bem, Henry arrancou alguns tubérculos e tratou de retornar, acompanhado da aterrorizada Swanny.

De repente, novamente um barulho, semelhante a um vento forte soprando no meio da vegetação. Henry se voltou a viu as folhagens se dobrando à passagem de alguma coisa.

— Oh, meu Deus! — gemeu aterrorizada Swanny.

— Corra! — gritou Henry.

— O que é?

— Não sei, mas corra! — ordenou ele, empurrando-a.

— Não posso! — soluçou a garota, sentindo todo o seu corpo se contrair de pavor.

— Corra, Swanny! — insistiu ele, empurrando-a, mas ela, ao invés de correr, tropeçou e caiu, rolando na relva.

— Henry, não me abandone, pelo amor de Deus! — suplicou ela, tentando se erguer.

Os sacos plásticos de água, atravessados em seus ombros, dificultaram seus movimentos.

Ela tentou se livrar deles, mas estava apavorada demais para conseguí-lo.

— Droga, Swanny! — reclamou ele, tentando manter o controle da situação.

Virou-se, então, corajosamente para o misterioso e ameaçador perseguidor, disparando repetidas vezes. O barulho dos tiros pareceu intimidar a estranha criatura, que estacou em sua carreira e uivou, desta vez dolorosamente.

— Maldito! — exclamou Henry, disparando mais algumas vezes, até esgotar a carga de arma.

Percebeu que a fera recuava, pelo movimento das folhagens e da vegetação. Ajuntou Swanny a se levantar e arrastou-a para fora dali.

Instantes depois retornavam à praia, onde caíram de joelhos, ofegantes e assustados.

— Henry, o que era aquilo? — indagou a garota, com voz trêmula.

— Não sei, querida. Jamais vi algo parecido em toda a minha vida.

— Era algum animal?

— Com certeza, mas não sei qual — confessou ele.

— Vamos dar o fora daqui — pediu ele, puxando-a pela não e arrastando-a atras de si.

Quando chegaram ao ponto onde estavam os outros, os alicerces de uma cabana já estavam cravados firmemente na areia. Faltava apenas cercar e cobrir.

Os dois se aproximaram extenuadas, caindo de joelhos na areia, para surpresa dos outros.

— Acharam água! — comentou Bibber.

— O que vocês encontraram lá? — indagou Sue.

— Que tiro foi aquele? — quis saber Peter.

Os dois ainda levaram algum tempo para se recobrarem, deixando os outros preocupados.

— Acharam água? — perguntou Peter. — Bastante? O suficiente para nos tranqüilizar?

— Sim — confirmou Henry. — Só que encontramos algo mais lá.

— Como assim?

— Não sei o que era, mas nos perseguiu. Disparei contra ele e consegui assustá-lo, só que não sei, realmente não sei, que diabo era aquilo.

— Do que está falando? — quis saber Sue, assustando-se.

— Um bicho. Correu atrás de nós — informou Swanny.

— Calma, pessoal. Deve haver uma explicação para tudo isso. O importante é que encontraram água...

— E comida também — acrescentou Henry, mostrando os tubérculos.

— Sim, isso mesmo. Além disso, temos armas. Não há o que temer. Garotas, levem a água para junto do outro reservatório. Depois vão apanhar mariscos e caranguejos. Precisamos pensar no jantar. Vamos, está tudo sob controle — insistiu ele, percebendo que elas hesitavam.

— Peter tem razão, pessoal. Está tudo sob controle. Vamos tratar de fazer um bom jantar hoje — falou Henry, fingindo que estava recuperado.

Tão logo as garotas se afastaram para recolher mariscos e caranguejos, os dois homens conversaram mais livremente.

— Temos um problema, Peter. Não sei que raios é aquilo, mas percebeu que não há aves por aqui?

— Não há agora, mas encontrei diversos ninhos antigos, com penas e pedaços de ossos, além de casacas trituradas de ossos.

— Sejam o que for que está lá na selva, o maldito é carnívoro, Peter.

— É bom, então, que só andemos em grupo, sempre com uma arma por perto —

aconselhou Peter.

— Tem razão. Fora disso, a ilha tem muitas fontes de alimentação. De fome não morreremos, mas eu vi as pegadas daquilo, Peter. Ainda me arrepio só de lembrar.

index-29_1.png

Peter levantou a cabeça e ficou observando as garotas que caminhavam pela praia.

Apanhou sua arma e tratou de correr para junto delas.

A noite envolveu a ilha rapidamente. No abrigo improvisado as garotas tratavam de preparar as camas com folhas e palha desfiada das palmeiras. Henry preparava um jantar com os tubérculos e os mariscos recolhidos pelas jovens.

Discretamente Peter montava guarda, curioso a respeito do animal que assustara Henry e Swanny. Não quisera comentar muito o fato para não alarmar as jovens, mas percebia que o problema já estava criado.

Swanny havia comentado o medo que passara. Medo que acabara contagiando as outras.

Qualquer ruído, por menor que fosse, as deixava em alerta.

Bibber foi se sentar ao lado dele, olhando as ondas que vinham morrer na praia.

— Onde Henry aprendeu fazer tanta coisa? — indagou ela, curiosa.

— Não sei... Talvez no Exército... — respondeu ele, evasivamente, sempre olhando ao redor.

A garota percebeu isso. Já havia notado esse preocupação dele, enquanto preparava as camas.

— Acha que o bicho poderá vir até aqui? — perguntou.

— Montaremos guarda, não se preocupe. Deixaremos fogueiras acesas ao redor. Ele não se aproximará, pode dormir tranqüila.

Bibber se remexeu inquieta. O perigo era mesmo real.

— Estamos no Triângulo das Bermudas, não é? — continuou ela, com voz assustada.

— Sim, mas muita coisa que se diz sobre a região é pura lenda...

— Eu sei. Li uma vez uma dessas lendas. Conta que aqui é a morada do diabo e que seus emissários vagam procurando almas para levarem para o inferno.

— Tolices! Nem pense nisso, garota! Vai se impressionar com isso e se tornará assustada, vendo demônios em qualquer sombra que se mover.

— Você tem razão... Deve ser só uma lenda — comentou ela, levantando-se e indo para junto das outras.

Henry avisou que o jantar estava prontos. Todos trataram de se servir. Os dois homens foram se sentar juntos para comer e conversar.

— Vamos nos dividir em turnos esta noite e nas próximas noites, até podermos criar um sistema de defesa eficiente para o abrigo — falou Peter.

— Já pensei nisso. Amanhã começarei a trabalhar em algumas armadilhas.

— Falando nisso, Bibber perguntou onde você aprendeu a fazer todas essas coisas. Tem uma mochila com tudo lá dentro, sabe caçar e cozinhar, montar armadilhas... Isso não é muito comum num alto executivo.

Henry riu ligeiramente.

— Meu passatempo é acampar. Por isso sei todas essas coisas — explicou ele.

— Bem, nesse caso, você está no seu ramo. Pode-se considerar isso umas férias num acampamento, com a vantagem de termos tudo ao alcance das mãos, inclusive três lindas mulheres — amenizou Peter.

— Cuidar de si é uma coisa. Responsabilizar-se pela vida de outra pessoa é outra. Não me agrada muito esse tipo de responsabilidade, Peter.

— Só que teremos de assumi-la. As duas modelos não me preocupam. Acho a outra garota um tanto estranha. Apenas provou a comida e se afastou para a praia. Observe-a.

Henry olhou na direção apontada por Peter. Sue estava sentada na areia, perto de onde as ondas morriam, com os braços enlaçando as pernas. Seus cabelos soltos eram agitados pelo vento e sua figura parecia pequena e solitária ali.

— Tem razão, ela me parece com algum problema. Acho que vou falar com ela e tentar ver se posso ajudar — falou Henry, terminando de comer.

Avançou pela areia na direção dela, levando um cobertor. O dia era agradável e quente, mas esfriava rapidamente à noite. Ela não se voltou quando ele chegou. Soluçava. Henry percebeu que ela chorava.

Pôs o cobertor nos ombros dela, enrolando-a em seguida para agasalhá-la. Sentou-se ao lado da jovem.

— Quer conversar um pouco? — perguntou.

— Foi tudo tão inútil — murmurou ela.

— O que foi inútil? — quis ele saber, sem entender a afirmação.

— Tudo — afirmou ela, soluçando sempre.

— Por que diz isso? — quis ele saber.

Ela não estava sendo clara e via-se que estava emocionalmente abalada. Era difícil lidar com uma pessoa assim, preocupada com os problemas pessoais. Naquele situação, o grupo tinha de ser unido, se todos quisessem sobreviver. Um iria depender do outro.

Sue não havia participado de todas as atividades, conforme as outras duas garotas haviam comentado. Constantemente parava e se afastava.

Henry concluiu que precisaria fazê-la deixar de lado os problemas pessoais para se concentrar nos problemas coletivos. Só assim ela poderia superar o que se passava com ela.

— Você tem medo do quê?

— De tudo.

— Todos aqui estão com medo, Sue. Cada um está deixando de lado seus problemas pessoais para pensar nos problemas comuns de todos agora. Por que não faz como todo mundo?

— Eu... Eu não consigo — murmurou ela, dando sinal de fraqueza.

— Tente, verá que pode. Talvez a situação a assuste, mas encare-a como se fosse um período de férias. Se não está acostumada a trabalhar, esforce-se para aprender. Além disso, precisa se alimentar direto. Está certo que não sou nenhum mestre em culinária, mas a comida é necessária. Temos de manter a saúde. Se não comer, ficará doente e nos causará mais preocupações ainda.

Ela ficou rígida, sempre olhando para frente, mas parou de soluçar, refletindo no que ele dissera. Enxugou os olhos e o rosto.

— Quer conversar mais? — indagou ele.

Ela suspirou profundamente, controlando-se.

— Desculpe-me! Não quis preocupar vocês... Acho que está certo em tudo que disse, só que não consigo pensar direito. Tenho medo, muito medo mesmo.

— Eu não entendo, então. Se tem medo, por que se isola?

— Porque preciso pensar numa forma de escapar. Ele vai me encontrar aqui ou em qualquer parte do mundo.

— Ele? — estranhou Henry. — Quem é ele?

— Meu irmão.

— E quem é ele?

— Jim Clay Jones, você deve conhecê-lo.

Henry olhou-a com atenção. A garota voltara o rosto para ele, encarando-o.

— Sim, agora me lembro de você e de seu irmão. Sue Clay Jones, herdeira da Clay Jones, uma mega empresa, com ramificações em todo o mundo, não é isso?

— Sim, acertou.

— E o que seu irmão tem contra você?

— Simplesmente quer me matar. Já tentou antes e vai continuar tentando. Não me admiraria se a explosão do navio não fosse obra dele.

— Está maluca! Ninguém afunda um navio com centenas de pessoas a bordo apenas para se livrar de uma delas.

— Você acha que Jim Clay pensa pequeno? Você não conhece meu irmão como eu conheço.

— Quer falar sobre isso?

— Acho que sim. Não posso mais guardar isso dentro de mim. Tem certeza que não vou aborrecê-lo?

— Por favor! Se isso a fará se sentir bem...

— Jim sempre foi um playboy perdulário, até assumir o controle da empresa que, na época, não estava bem e ainda não era nem sombra do que é hoje. Com a morte de meus pai, tínhamos a mesma quantidade de ações...

— Eu me lembro de ter lido sobre isso em alguma revista.

— Sempre fomos assunto de reportagens, mas nunca se falou sobre a parte negra da personalidade dele. Quando a empresa começou a crescer, Jim Clay foi se tornando ambicioso. Isso o ajudou a expandir e transformar a Clay Jones no que é hoje. Só que, há algum tempo, é cláusula de contrato na empresa que todas as ações passem para ele.

— Agora entendo. Deve haver muito dinheiro em jogo. A empresa deve ter um patrimônio incalculável...

— Perto de quinze bilhões de dólares.

— Você disse quinze bilhões? — surpreendeu ele, tentando imaginar quantos zeros continha aquela cifra.

— É isso mesmo. Dinheiro demais, mas pouco ainda para a ambição de Jim Clay.

Henry respirou fundo, imaginando o que um homem faria para se apossar de quinze bilhões de dólares. Com certeza reviraria céus e terra.

— Bem, por enquanto você está segura aqui...

— Sim, mas não é isso o que me preocupa. Se ele tiver a mínima suspeita de que estou viva, revirará céus e terra a minha procura e não sossegará enquanto não tiver certeza absoluta. Vivo e viverei preocupada constantemente. Ele vai tentar sempre, até conseguir acabar comigo.

— Já pensou em contratar seguranças?

— Sim, já, mas Jim Clay sempre pagará mais alto para que eu não tenha proteção.

— Já pensou em desistir das ações?

— Não posso. As cláusulas do testamento não permitem que eu simplesmente desista.

Meu pai deve ter posto isso como forma de garantir os dois, talvez o próprio Jim Clay que, na época, era um inútil. A clausula que hipoteticamente deveria beneficiá-lo, hoje é um problema para ele.

— Bom, esqueça agora esse problema. Nada há que possa mesmo fazer. Concentre-se nesta nova realidade. Somos náufragos numa ilha isolada e todos tem de assumir um papel.

Concorda com isso?

— Sim, concordo.

— Então vamos comer um pouco, está bem?

Ela sorria, encarando-o.

— Obrigada, Henry! Foi muito bom ter falado com você — agradeceu ela.

— Esqueça! — disse ele, ajudando-a a se levantar.

Peter percebeu que a conversa entre os dois havia sido proveitosa, pois Sue parecia mais disposta e foi logo fazendo de novo o prato para comer.

Henry se sentou ao lado dele.

— Tudo sob controle? — indagou a Henry.

— Sim, creio que sim.

— Ótimo. Eu farei o primeiro turno. Vou acordá-lo em três horas, pode ser?

— Sim, tudo bem. Amanhã teremos que procurar um novo lugar para apanhar a água. Não gostei daquelas pegadas nem da agressividade daquele animal, Peter.

index-35_1.png

— E quem pode nos garantir que há apenas um? Aquele lago deve desembocar em um rio, por sua vez, deve dar em algum ponto da praia. Só que temos que fazer é encontrá-lo.

— Isso vai resolver o problema da água, mas temos de entrar na floresta em busca de alimentos. Vi uns peixes enormes no lago. Cada um deles é suficiente para uma refeição para nós. Pensei em instalar armadilha ao redor do lago para apanhar aquele bicho, ou seja lá o que for.

— Quer voltar lá, então?

— Os disparos o assustaram. Posso até tê-lo acertado. Tenho que voltar, principalmente se ele estiver apenas ferido. Não quero uma besta a solta por aí, ferida e enlouquecida.

— Como estamos de munição, você que carregou as armas?

— Tínhamos uma caixa com cem cartuchos ao todo. Gastei cinco. Temos noventa e cinco ainda, mas precisaremos poupá-los, para o caso de haver caça na ilha.

— E as armadilhas?

— São uma alternativa.

Swanny se aproximou.

— Vamos precisar de mais água, Henry.

— Amanhã cedo tentaremos encontrar um outro local — falou ele.

Pouco mais tarde, o silencio reinou no abrigo. Todos haviam ido dormir, exceto Peter, atento aos barulhos, preocupado em manter as fogueiras acesas.

Num bar esfumaçado da zona do cais, Jim Clay, Solo e alguns assessores bebiam e conversavam. Tudo havia sido preparado para a grande operação de resgate. Os equipamentos estavam a caminho e a publicidade havia sido a mais generosa possível com as intenções do bilionário que pretendia resgatar o corpo da irmã no trágico naufrágio.

Para Jim Clay, tudo aquilo estava sendo como um período de merecidas férias, que culminariam com o prêmio maior. Com a morte de Sue, herdaria tudo.

— Sr. Jones, ouça o que este velho tem a contar sobre a região onde houve o naufrágio.

— Ora, Alfred, o Sr. Jones não tem tempo para ouvir bobagens — foi dizendo Solo.

— Calma, Solo! Pode ser divertido. Dêem lugar ao velho — ordenou o maioral.

Uma cadeira foi posta junto à mesa. O velho olhou para a garrafa de uísque sobre ela. Jim fez um sinal para que o servissem.

— Vamos lá, velho! Conte ao patrão o que estava contando para nós — disse Alfred.

— Ali mora o diabo...

— Ora, pare com isso! — falou Solo.

— Ali mora o diabo! — repetiu o velho, encarando Solo com uma expressão que intimidou o executivo.

Os outros contiveram o riso.

— O navio naufragou na noite do demônio...

— O que é a noite do demônio? — quis saber Jim Clay.

— É a noite quando seu hálito vaga pelo oceano, à procura de vitimas...

— Hálito de demônio? O que é isso, afinal? — quis ele saber com detalhes.

— O nevoeiro... O nevoeiro é o hálito do demônio. Ele arrasta tudo que há pela frente e o leva para sua moradia...

— E onde fica essa morada? — quis saber Jim Clay.

— A ilha do medo... Onde o demônio habita...

— Esse velho está bêbado — descartou Jim, fazendo um sinal para que seus homens o tirassem dali. — Nunca vi tamanha seqüência de bobagens.

Um homem estava ao lado e havia observado a narrativa do velho.

— Ele estava interpretando à moda dele alguns fatos conhecidos cientificamente — falou, chamando a atenção das pessoas na mesa.

— Como assim? — quis saber Solo.

— Posso me sentar?

Todos olharam para Jim Clay, que fez um sinal, apontando a cadeira. O homem se sentou, serviu-se de uísque e tomou um gole.

— O Triângulo das Bermudas sempre foi cercado de muitos mistérios. A ignorância popular foi interpretada de forma supersticiosa acontecimentos que nada tinham de fantástico...

— Certo, e quem é você? — indagou Jim Clay.

— Professor James Dolley, da Universidade Marinha de Miami, em férias nas Bahamas.

— É um homem de ciência então, professor. Continue. Sou Jim Clay Jones...

— Li e ouvi sobre você o dia todo — comentou o professor. — Acho que o que o velho estava dizendo pode lhe interessar.

— Como assim?

— Se há alguma chance de haver sobreviventes, possivelmente eles foram levados pelo hálito do demônio até sua morada... Quer dizer, foram arrastados por um nevoeiro que sempre surge quando a Corrente Bermudas aparece.

— O que é a Corrente Bermudas?

— Mudanças climáticas, de temperatura da água do mar, fenômenos ainda não muito bem estudados provocam uma inversão na corrente marítima, que empurra tudo a sua frente na direção do mar de Sargaço, uma região evitada por barcos e aviões por causa dos problemas magnéticos que provoca. Ali há algumas ilhas ainda inexploradas. Fotos aéreas já as revelaram, mas encontram-se sobre uma plataforma vulcânica de pouca profundidade, o que afasta todo e qualquer interesse em se chegar até ela. São pequenas e insignificantes. Às vezes o acesso até elas é livre, outras vezes, quando não há fenômeno da inversão da corrente, fica ilhada pelo sargaço.

index-38_1.png

— Resumindo. Naquele noite, se algum barco salva-vidas conseguiu se afastar do navio, antes da explosão final, pode ter sido apanhado pela Corrente Bermudas e levada para uma dessas ilhas insignificantes. É isso o que quis dizer? — falou Jim Clay.

— Exatamente! — confirmou o professor.

— Se houve sobreviventes, Jim Clay — frisou Solo.

— Se houve, Solo. Se houve! Um iate de pequeno calado poderia chegar até essa ilha, professor?

— Sim, com o equipamento correto para rastrear o fundo e evitar as rochas mais altas e pontiagudas...

Jim Clay prensou por instantes, depois olhou para Solo, que imediatamente entendeu o que ele pretendia. Levantou-se e foi para um canto discreto, fazer uma ligação para a sede do estaleiro Clay Jones, em Miami.

Quando amanheceu, Henry, que havia rendido Peter pouco antes das seis da manhã, preparou-se para ir à procura de um novo suprimento de água. Apanhou mais cartuchos para a arma e os sacos plásticos.

Sue havia acordado e o viu fazendo os preparativos.

— Onde vai? — indagou ela, ainda sonolenta.

— Buscar água e frutas.

— Vai retornar àquele local?

— Não, tentarei encontrar onde o rio atinge a praia. Será mais prudente.

— Posso ir com você?

— Sim, claro. Avise uma das garotas que vamos juntos.

Enquanto Sue fazia isso, Henry improvisava uma sacola com uma embalagem plástica do barco, para usá-la no transporte de frutas.

Saíram logo em seguida. Sue parecia bem disposta agora.

— Ficou boa e bermuda! — elogiou ele.

— Swanny fez um bom trabalho, mas meu guarda-roupa ainda está muito restrito —

brincou ela.

— Não se preocupe. Eva já passou por isso antes e se saiu muito bem.

Sue riu, então, do que ele dissera.

— Você fica bonita quando sorri. Deve fazer isso mais vezes — comentou ele.

— Não me fale em beleza. Devo estar horrível.

— Está ótima, acredite em mim.

— Pois bem, vou fazer de conta que você é meu espelho. Reparou como estou melhor hoje?

— Sim, eu ia comentar isso — falou ele, dando-lhe atenção, mas mantendo-se alerta a qualquer movimento na vegetação à beira da praia.

Não queria nenhuma surpresa. Sue continuou falando, demonstrando que, aparentemente, havia superado aquele problema que confessara na noite anterior.

Passaram pelo local onde, na tarde passada, ele e Swanny haviam entrado à procura de água. Se tivesse sorte, encontrariam, mais à frente, o ponto onde o rio se lançava no mar.

— Vejam! — apontou ela, para restos de madeira e caixas à beira da praia.

Pareciam muito antigos e, com certeza, eram restos de um naufrágio. Foram até lá. Tudo aquilo significava madeira para ser usada no abrigo.

— Vejam aqui, Henry — chamou-o Sue. — Parece pedaços de uma jaula de animais, não?

— Sim — concordou ele.

Observando aqueles destroços, teve indícios do que parecia ser parte da carga de um circo ou de um parque de diversões. Lembrou-se, então, no animal que encontrara na floresta. Podia ser qualquer coisa mas, fosse o que fosse, era selvagem e feroz.

Ali por perto encontrou penas e ovos de pássaros quebrados. Ossos miúdos e triturados mostravam o destino sofrido pelos pássaros daquela ilha.

Fosse uma ou mais feras à solta, a questão crucial era que o alimento deles havia se esgotado. Henry estremeceu só de pensar que ele e os outros poderiam ser a dieta que aqueles animais esperavam.

— Vamos embora — insistiu ele. — Temos de encontrar água.

Logo à frente, depararam-se com um coqueiral, intercalado com bananeiras. Os sentidos dele ficaram ainda mais alertas.

— Água, Henry! — comentou Sue, caminhando na direção de um regato que avançava num estreito canal que cortava a praia e ia desaguar no mar.

Sue ficou encantada com a beleza da água. Caminhou descalça, brincando como uma criança feliz na água refrescante.

Henry ficou atento, sondando os arredores. No ponto onde o riacho entrava na praia havia um poço, onde poderiam colher água potável. Ali havia também alguns peixes que poderiam ser pescados para reforçar a alimentação.

— Vamos apanhar a água e depois as frutas — decidiu ele.

— Está uma delicia aqui — comentou ela, correndo ao encontro dele. — Eu pego as frutas.

Henry entregou-lhe a sacola. Sue correu apanhar bananas e cocos caídos ao redor. O

rapaz encheu logo os sacos com água pura e fresca, depois foi ajudar a garota. Todo o tempo mantinham-se em alerta. Havia indícios demais da presença da fera ou feras naquele local.

Isso queria dizer que não havia ponto onde pudessem ficar isolados, livres de algum ataque inesperado. A vigilância teria de ser constante. Estavam apenas eles e alguma coisa furiosa e faminta naquela ilha.

index-41_1.png

Jim Clay Jones havia estabelecido sua base para a operação de resgate na ilha San Salvador, nas Bahamas, praticamente alugando todas as dependências do melhor hotel da localidade.

Suas empresas se movimentavam em todo o mundo para trazerem o equipamento para ali o mais depressa possível. Enquanto isso, as buscas continuavam, mas nenhum sinal de sobreviventes fora notado ainda. Apenas mais e mais corpos eram localizados, bem como destroços que ainda de desprendiam do navio afundado.

Naquela manhã, Jim Clay estava curioso a respeito de um telefonema que recebera na noite anterior. Uma pessoa dizia que necessitava conversar com ele. Havia marcado o encontro no restaurante do hotel, durante o café da manhã.

Village King e seu assistente se aproximaram da mesa, finalmente.

— Sr. Jones? Sou Village King, nós nos falamos ontem, ao telefone.

— Pois não. Junte-se a nós. Este é Solo, meu secretário particular. você me disse ao telefone que tínhamos interesses comuns no naufrágio — comentou Jim.

Solo fez um sinal para que um grupo de garçons começasse a servir a mesa.

— Sim, Sr. Jones. Nós dois temos interesses comuns naquele navio...

— E o que seria isso?

— Para o senhor, encontrar sua irmã; para mim, localizar algo não de valor sentimental, mas de alto valor material, se é que me entende.

— E o que é de tão alto valor material?

— Antes de entrar nos detalhes, gostaria de saber até que ponto vai toda essa operação que está montando e que está provocando frisson em toda parte.

— Tenho o dinheiro e os equipamentos para fazer isso, Sr. King. vou fazer de tudo para resgatar o corpo de minha irmã, se não for tarde demais — explicou Jim Clay, adotando um ar de falso sofrimento. — Todo o material necessário já está sendo despachado para cá. Ainda hoje as primeiras remessas chegarão.

— Vai mesmo conseguir chegar ao fundo?

— Já fizemos algumas análises preliminares. Naquele ponto há uma formação de origem vulcânica e o fundo do mar está apenas a cem metros, o que não nos deterá, diante da tecnologia de que dispomos. Mesmo que fosse a quinhentos metros, ainda assim que tentaria.

Não iria gastar meu dinheiro inutilmente.

— Já que tocou no assunto, quanto pretende gastar em seu projeto?

— Não faço segredo disso, Sr. King. Os cálculos estimam algo em torno de cinco milhões de dólares o que eu, particularmente, considero um aninharia.

— E todo esse equipamento, o que poderá fazer lá no fundo do mar?

Jim Clay riu da pergunta, acompanhado de Solo.

— Poderemos localizar e resgatar até um alfinete perdido, se for o caso. O fundo rochoso torna tudo mais fácil. Não teremos de procurar na lama, compreende?

Village King sorriu com satisfação e alivio. O batalhão de garçons havia servido a mesa. O

figurinista sentiu voltarem o apetite e a alegria de viver, perdidos quando teve conhecimento do naufrágio.

— Pode e dizer agora onde nossos interesses se cruzam nesse naufrágio, Sr. King? —

indagou Jim Clay.

— Tenho uma proposta a lhe fazer. Posso participar com uma parte nos gastos da operação, desde que resgate algo para mim, perdido no acidente.

— E de quanto seria essa participação?

— Dois milhões de dólares seriam suficientes?

— Parece-me uma proposta interessante. E o que teríamos de resgatar?

— Duas malas de roupas.

Jim olhou-o seriamente, depois começou a rir, sem entender a proposta.

— O senhor me diverte, Sr. King. Pretende gastar dois milhões de dólares para recuperar duas malas de roupas? O que há de tão valiosos nessas roupas, diamantes?

— Acertou! — respondeu simplesmente o figurinista.

O riso morreu nos lábios de Jim Clay, que se reclinou na cadeira e olhou com seriedade para o homem a sua frente.

— Diamantes? Não quer me contar todos os detalhes? Se vamos fazer negócio, costumo evitar surpresas e ter conhecimento de todas as particularidade da transação.

— Acho que posso confiar totalmente em sua discrição, Sr. Jones. Há uns cinco anos atrás, fiz um desfile de minhas criações na Colômbia, para um público exclusivo...

— De algum cartel de narcotráfico, suponho.

— Sim, realmente. Na conversa que tivemos, descobri que eles tinham um pequeno problema e que eu poderia ajudá-los. Queriam armazenar suas riquezas aqui, nos Estados Unidos. Eu encontrei uma forma perfeita. A cada quatro meses, faço uma excursão com minhas roupas mais recentes, num navio de luxo, que passa pela Colômbia. Ali, pedras sem valor são retiradas das roupas e, em seu lugar, são aplicadas diamantes de verdade. Eu recebo tudo em Nova Iorque, tiro minha comissão e deposito o restante em cofres de bancos.

— E qual é sua comissão nisso tudo?

— Cinco por cento.

— Está praticamente gastando-a toda para recuperar as pedras, não? Por quê?

— É simples! Sou um homem morto se eles não receberem a parte deles.

Jim Clay pensou por instantes.

— Está me dizendo que há cinqüenta milhões de dólares em diamantes, perdidos naquele navio?

— Sim.

— Está certo, Sr. King. Poderemos fazer negócio. Só que lhe custará dois milhões e meio resgatar aquelas duas malas.

Village King engoliu seco. Jim Clay o punha contra a parede. Perderia toda a sua comissão no negocio. Só que havia a sua vida que estava em jogo.

— Não me deixa escolha — disse, num fio de voz.

— Ossos do oficio, Sr. King.

— Está bem. Haverá lugar para nós, quando partirem para o resgate?

— Sim, serão meus convidados especiais.

— Quando pretende partir?

— A qualquer momento, quando receber os equipamentos.

— Vou me preparar, então — falou Village King, levantando-se e deixando a mesa, acompanhado de Marcel.

Solo sorriu, elogiando mais uma vez a esperteza de seu patrão em perceber uma oportunidade de negocio.

— Vai mesmo recuperar as malas para ele?

— Sim, com nosso equipamento isso não será problema. Além disso, livramos metade das despesas. Achei a idéia muito interessante e promissora, Solo. Descubra tudo que puder sobre esse Village King.

— Quer que eu o faça agora?

— Sim, seria interessante.

Solo providenciou alguma ligações e em breve o fax particular começava a receber as informações, vindas de diversos pontos.

— O que descobriu? — quis saber Jim Clay.

— Village King é um nome muito respeitado no mundo da moda, mas não vende tanto quanto seria de se esperar pelo conceito que tem. Mesmo assim, mantém um padrão de vida invejável.

— Encontrou algo melhor do que costurar lantejoulas.

index-45_1.png

— O que tem em mente?

— Estou pensando em fazer como sempre fiz. Por que me contentar com dois milhões e quinhentos, quando posso ter cinqüenta milhões?

— Já esperava por isso.

— E vamos entrar no negocio de salvamentos, Solo. Ligue para as seguradoras dos navio e para a firma proprietária dele. Veja o que têm a nos oferecer. Há muita coisa que poderemos salvar dos destroços.

— Excelente idéia!

— É claro que os jornais não deverão saber que estou lucrando alguns milhões com a busca. Para todos os efeitos, esta é uma cruzada sentimental, de caráter estritamente familiar.

— É lógico, eu entendo, Jim Clay — concordou Solo, retirando-se.

Mais uma vez, Jim Clay se sentiu satisfeito consigo mesmo. Enquanto terminava seu café, dava uma olhada nas principais manchetes de jornais do mundo inteiro, recebidas por fax.

Sua fotografia aparecia em todas elas, na primeira página sempre. Seu projeto estava comovendo o mundo todo e, além disso, proporcionando às indústrias Clay Jones, no mundo todo, uma publicidade gratuita e simpática.