A ilha do medo por L P Baçan - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

Nem todos os seus departamentos de propaganda juntos teriam conseguido algo como aquilo.

Quando Henry retornou, juntamente com Sue, o restante do pessoal estava já acordado e recebeu, com satisfação, as frutas que ambos traziam.

Ele explicou o que encontraram, inclusive a jaula e as marcas da passagem da fera no bananal.

— Acho bom cuidarmos de preparar aquelas armadilhas — recomendou Peter.

— Sim, farei isso. Quando eu retornava, vi pegadas de tartarugas a meia milha daqui. Com certeza vieram até a praia desovar. Poderíamos aproveitar alguns ovos.

— Excelente idéia, Henry! As tarefas foram divididas e realizadas até a hora do almoço, que foi incrementado com ovos de tartaruga. As garotas estavam cansadas e foram cochilar.

Henry e Peter instalaram armadilhas ao redor do abrigo.

— Acha que é o bastante — quis saber Peter.

— Creio que sim. Vou providenciar algum sistema de alarme, que denuncie a aproximação de qualquer animal.

— Tem com o que fazer isso?

— Acho que sim. Vamos retornar ao abrigo.

Quando iam entrando ali, Henry estendeu o braço, detendo Peter, que não entendeu o gesto a principio. Depois, quando o outro apontou, viu algo que o deixou gelado.

Uma cobra havia avançado pelos galhos acima do abrigo e deslizado para as folhas de palmeira que o cobriam. Pendia agora ameaçadoramente sobre a cabeça de Sue, adormecida logo abaixo.

— Não se mova, Peter! — pediu Henry.

O outro ficou imóvel, evitando até respirar.

— É venenosa? — indagou.

— Pelo formato da cabeça eu diria que sim — respondeu Henry, tentando imaginar o que fazer naquela situação.

— O que podemos fazer?

— Evitar acordar Sue. Um movimento brusco e a cobra poderá atacá-la.

— Vou prevenir Swanny e Bibber — disse ele.

— Com todo cuidado — recomendou Henry.

Peter avançou até o canto oposto, onde as duas garotas dormiam. Acordou-as, pedindo-lhes que se mantivessem calmas. Assim que entenderam a situação, elas procuraram sair dali o mais depressa possível. Estavam ambas apavoradas.

— Você precisa fazer alguma coisa, Henry. Ela pode morrer se a cobra picá-la — falou Swanny, trêmula e pálida.

— Acalme-se vocês duas e deixem-me pensar. Verifiquem a caixa de primeiros socorros para ver se há ali algum soro antiofídico.

Bibber se apressou em fazer isso, mas constatou que não havia nenhuma espécie de soro ali.

— Fica a sugestão para a sua Companhia — disse Henry a Peter.

— Eu me lembrarei disso quando sairmos daqui.

Todos ficaram em suspense. A cobra deslizou ainda mais e acabou caindo ao lado do corpo de Sue. Rapidamente a víbora enrodilhou-se, ficando apenas com a cabeça erguida. A língua bifurcada estendia-se continuamente, enquanto o animal parecia estudar o que se passava ao seu redor.

— Podemos atirar nela, Henry?

— Muito perto de Sue. Seria muito arriscado.

— Fogo não a espantaria?

— Poderia acordar Sue e complicar tudo. Ela vai se assustar com certeza.

— Mas temos que fazer algo, demônios, ou ela vai morrer de qualquer jeito — comentou Peter.

— Acalme-se. Se ela se mantiver quieta, a cobra poderá ir embora. de qualquer maneira, vá cortar um galho longo com uma forquilha na ponta.

— Sabe usar isso?

— Já fiz isso uma vez certo. Vá cortar o galho.

Peter fez o que lhe fora ordenado, voltando logo em seguida.

— Vou tentar prender a cobra com a forquilha. Quando eu fizer isso, corra e tire Sue de lá, entendeu?

— Certo, deixe comigo, Henry.

Henry se aproximou lentamente e manobrou o galho na direção da cobra que, ao se sentir ameaçada, moveu-se, preparando o bote. Isso facilitava as coisas, pois desviava a atenção do animal. Inesperadamente, porém, Sue se moveu e a cobra ameaçou atacá-la.

— Sue, não se mexa! — gritou Bibber, mas isso apenas assustou a garota, que se ergueu de repente.

— Cuidado! — falou Henry desesperado, vendo que a garota seria atacada.

Num gesto de puro despreendimento, ele se lançou sobre a cobra, enquanto Sue se punha de pé e corria para fora do abrigo. Todos temeram, então, pela vida de Henry, mas suspiraram aliviados quando ele surgiu, pálido e trêmulo, segurando a serpente pela cabeça.

— Como fez isso? — indagou Peter.

— Não me pergunte. Sei apenas que o fiz — respondeu ele, deixando o abrigo e indo até a vegetação.

Soltou a cobra ali. O animal rastejou rapidamente para o interior da floresta. Quando retornou, Sue foi até ele, ainda pálida e trêmula.

— Você está bem? Ela não o picou? — indagou a jovem, tomando as mãos dele e examinando-as.

— Tudo bem comigo — falou ele. — E você, como está?

— Não sofri nada. Você foi muito corajoso lá dentro.

— Foi a primeira vez em minha vida que fiz isso e juro como espero não ter de fazer de novo.

— Devo-lhe a vida...

— Esqueça.

— Não, não esquecerei.

— Esqueça. Já disse. O importante é que você está bem.

— Valho sete bilhões e meio de dólares e você me pede para esquecer que salvou a minha vida?

— De que vale todo esse dinheiro aqui e agora?

— isso não importa realmente, mas saberei recompensá-lo. Diga-me o que mais gostaria de ter na vida.

— Você está falando sério? — duvidou ele.

— Sim, diga: uma Ferrari, uma cobertura na Quinta Avenida ou o quê — insistiu ela.

— Não, já tenho carro e apartamento...

— É um milionário, por acaso?

— Não, ainda não, mas ganho bem com meu trabalho...

— Posso lhe oferecer um cargo...

— Não precisa, Sue.

Ela balançou a cabeça incrédula, e começou a rir baixinho.

— O que está achando engraçado? — indagou ele.

— Tenho sete bilhões e meio de dólares, uma montanha de dinheiro, e não tenho como demonstrar a minha gratidão. Não é irônico isso?

— Faz mesmo questão de pagar isso?

— Não é pagar, Henry. É demonstrar a minha gratidão...

— Há um modo, então — disse ele, agindo rapidamente.

Antes que ela desse por si, Henry a abraçou e beijou apaixonadamente.

— Pronto, estou pago — disse ele, soltando-a e deixando-a atônita. — Não trocaria este beijo nem por uma montanha de dólares.

— Sabe que esta foi o melhor elogio que já recebi na vida?

— Vamos, os outros estão nos olhando — disse ele, empurrando-a na direção doa brigo.

— O que foi aquilo? — quis saber Peter.

— Uma demonstração de gratidão — explicou ele. — Vamos montar aquele sistema de alarme agora?

— Certo. O que tem em mente?

— Hei, Sue! Vamos tomar banho de mar? — convidou Bibber.

— Não se afastem muito — recomendou Henry.

— Não se preocupem — respondeu Bibber.

As garotas se afastaram. Os dois ficaram olhando, apreensivos.

— Acha que estarão bem? — indagou Peter.

— Sim, ficaremos de olhos nelas. Agora venha me ajudar.

Com um carretel de linha de pesca, Henry fez uma espécie de cerca, a meio metro de altura, em toda a volta do abrigo, exceto na parte da frente, que dava para a praia e onde as fogueiras ficavam acesas à noite.

As pontas da linhas foram amarradas em algumas pedras, que ficavam à noite.

As pontas da linha foram amarradas em algumas pedras, que ficavam dentro de uma lata de combustível vazia. Se algo esbarrasse na linha, faria as pedras chacoalharem no interior da lata, alertando-os.

Quando saíram dali, procuraram as garotas com os olhos.

— Devemos chamá-las? — indagou Peter.

— Não, deixe-as se divertirem.

— Sim... Mas veja lá, elas estão correndo para cá... E parecem assustadas com alguma coisa!

Henry prestou atenção, dando razão ao seu parceiro. As jovens corriam pela praia, na direção deles, gritando e gesticulando muito.

— O que eles estão dizendo?— indagou Henry.

— Não sei, não consigo entender.

Os dois apanharam rapidamente as armas e correram ao encontro delas. Quando se aproximaram, entenderam o que elas diziam.

— A fogueira.. Corram... Acendam...

— A fogueira? — repetiu Henry, parando e olhando o mar e, depois, para o céu.

O ruído de um motor mal podia ser ouvido acima do barulho das ondas. Ele correu, então, na direção das rochas, onde haviam deixado tudo preparado para fazer a sinalização.

— Rápido, Henry! — gritou Peter.

O avião passava ao largo da ilha. Henry correu o mais que pôde. Ao chegar lá, atirou um pouco de combustível nas folhas secas e tentou acender o isqueiro.

— Demônios! — praguejou ele, quando, na pressa, o isqueiro saltou de sua mão e caiu na água.

Ele desceu da rocha onde haviam empilhado o material para a fogueira e apanhou o isqueiro. Ficou apertando inutilmente o botão. A pedra molhada não produziria a faísca salvadora.

O avião se perdeu ao longe, para irritação e desespero de Henry e dos outros, que chegavam sem fôlego, após a corrida.

— O que houve, Henry? — indagou Peter, sem compreender o que acontecera.

— O isqueiro não quis acender — disse ele, pateticamente.

— Que diabos! — praguejou Peter, deixando-se cair na areia.

As garotas chegaram em seguida, igualmente desoladas.

index-52_1.png

— Que azar o nosso, não? — comentou Bibber.

— Da próxima vez estaremos mais preparados. A presença desse avião já nos dá esperanças. Possivelmente estão ampliando o círculo de buscas. Logo chegarão aqui — falou Peter.

Henry olhou para Sue. A expressão dela era de medo.

Jim Clay fez um sinal e alguém se apressou em trazer-lhe mais gelo e uísque. Estavam na coberta de um iate de baixo calado, trazido de Miami a pedido dele. Ao lado, um navio maior, operando um guindaste e uma parafernália de equipamentos.

Um barco pequeno veio de um navio militar ancorado mais adiante e atracou junto ao iate.

dois oficiais subiram para bordo.

— Jim, estes são os oficiais do serviço de salvamento que você solicitou — apresentou-os Solo.

— Sentem-se, senhores, por favor. Este é o Sr. Village King, um amigo — disse Jim Clay, com camaradagem.

— O tenente tem aqui uma lista completa de todos os passageiros e tripulantes do navio naufragado, além de uma outra, com os nomes dos corpos já identificados.

— Ótimo! — disse Jim, apanhando as listas e comparando-as. — Vejo que faltam poucas pessoas para serem identificadas.

— A grande maioria dessa lista de desaparecidos é de tripulantes, que trabalhavam na casa de máquinas e devem ter morrido com a explosão. penso que jamais acharemos seus corpos. Restam, então, doze passageiros, dos quais três podem ser um dos corpos de difícil reconhecimento que localizamos. Temos, então, nove pessoa, da lista de passageiros, ainda desaparecidos.

— Inclusive minha irmã! -- observou ele.

— Eu lamento, senhor, mas , por outro lado, pode ser motivo de esperança. Se ela ainda não foi localizada, pode estar viva. É uma esperança remota, mas possível...

— Obrigado, tenente! — agradeceu o bilionário, tentando aparentar sofrimento.

— Espero que nos mantenha a par de todos os detalhes de sua operação de salvamento, Sr, Jones. Sua experiência pode ser útil em futuros casos de naufrágio.

— Farei tudo que puder para colaborar, tenente.

Os oficiais se despediram e se foram. Algum tempo depois, Jim Clay foi chamado ao navio principal, onde estavam sendo monitorados o mini-submarino e os mergulhadores de profundidade.

— O que há, Land? — quis saber ele, ansioso.

— Sinto muito senhor. Vasculhamos todos os destroços do navio e não encontramos mais nenhum corpo.

— Tem certeza?

— Os escafandristas revistaram todo os compartimentos intactos do navio. O mini submarino vasculhou toda a área, fotografando. Ampliamos as fotos e temos um painel de acontecimento. Não há o menor vestígio de corpos...

— Mas deveria haver pelo menos mais nove corpos nos destroços...

— E as malas? Encontraram as malas? — quis saber Village.

— Já foram localizadas algumas centenas. Estão sendo recolhidas. serão trazidas a bordo gradativamente — explicou Land, olhando para o patrão e esperando alguma nova ordem.

Jim Clay pensou por instantes. Tinha de encontrar o corpo de sua irmã. Evitaria uma longa batalha judicial para provar sua morte e se apossar de toda a fortuna.

Solo tinha razão naquele detalhe. Não podia se arriscar.

— Continuem as buscas, Land. Quero que todo o trabalho seja refeito sem demora. Tudo deve ser novamente vasculhado em busca de corpos.

Retornaram em seguida para o iate. Jim Clay continuava pensativo. Aquela indefinição estava sendo angustiante. Havia muita coisa em jogo.

Solo apanhou fotos que haviam sido tiradas pelo submarino e começou a examiná-las, enquanto Jim Clay pedia mais uísque. Solo percebeu que tinha de acontecer alguma coisa importante. Caso contrário, Jim Clay logo explodiria.

Algo, então, chamou-lhe a atenção. Ao redor do navio, junto aos destroços, havia barcos salva-vidas. Começou a contá-los. Havia uns menores e outros maiores.

Consultou alguns papéis, anotando a quantidade de e os modelos de salva-vidas. Seu rosto se iluminou. Parecia ter encontrado um boa pista. Jim Clay o observava e percebeu isso.

— O que está havendo com você, Solo? — indagou.

— Vejam aqui, Jim Clay. Contei exatamente todos os barcos salva-vidas destas fotografias.

Sabe o que descobri?

— Que falta um — arriscou o magnata.

— Exatamente.

— E isso significa que...

— Que se ele não está debaixo do navio, podemos afirmar que pelo menos um barco conseguiu se afastar a tempo, antes de ser engolido pelo redemoinho.

— Todos os barcos salva-vidas tem dispositivos de rastreamento via satélite. Por que não foi acionado?

— Quem pode saber? Pode estar quebrado, podem não ter sabido ligar...

— Cheque de novo. Mande fazer ampliações de todas as fotos. Tamanho monstro, se for preciso. Quero que os barcos salva-vidas sejam conferidos.

Solo apanhou o telefone e entrou em contato imediatamente com o navio de busca, dando as instruções recebidas de Jim Clay. Aguardaram, então, algum tempo, até que viesse a resposta.

index-55_1.png

— Foi como eu pensei, Jim Clay. Falta um barco — falou Solo, com orgulho.

— Mas...Diabo, Solo! Para onde foram? Os aviões da equipe de salvamento já cobriram toda a região...

— Exceto uma — lembrou Solo.

— Qual?

— A Corrente Bermudas!

Após o almoço, estavam todo acomodados no abrigo, olhando as ondas. Os semblantes pensativos revelavam a preocupação de cada um com seu futuro. Estar ali, numa deserta e longe de tudo e de todo não era uma experiência que agradava a todos.

Parecia mais um pesadelo.

— Alguém aí tem cigarros? — indagou Bibber.

— Devo ter alguns maços em minha mochila, Bibber. Pode ir lá pegar um — falou Henry.

A garota foi até lá, vasculhou a mochila e encontrou. Apanhou um dos maços. Encontrou, também um pequeno rádio portátil, que levou até Henry.

— Hei, isto funciona? — indagou ela.

— Talvez possa funcionar — falou ele. — Havia me esquecido dele.

Foi até mochila e apanhou pilhas, instalando-as no aparelho. Ao ligá-lo, captou apenas estática. A antena não era suficiente para captar qualquer estação.

— E daí, Henry? — indagou Peter.

— Há sinais, percebe? Preciso de uma antena mais potente. Acho que poderei improvisá-

la.

— Há fios de metal no barco — lembrou Peter.

— Boa idéia! Se me ajudar, tentarei construir uma boa antena agora mesmo.

Trataram de juntar os pedaços de fio metálico, enquanto Henry montava uma estranha estrutura com galhos. Os fios foram, então, instalados na armação feita por ele, que a levou até o alto de uma árvore, completando a antena.

Felizmente sobrou arame para fazer a ligação da antena com o rádio.

— Ouçam, é uma estação mexicana... — comentou Swanny.

— Não, deve ser de algum ponto das Bahamas — afirmou Peter.

— É a única que se pode sintonizar? — quis saber Sue.

— Vamos ver — respondeu Henry, girando o botão do rádio.

Nenhuma outra estação pôde ser ouvida. Ele retornou àquela.

— Alguém entende espanhol? — quis saber Peter.

— Nós — disseram Bibber e Swanny.

— Fiquem atentas, então. Talvez falem do naufrágio.

— Contento-me com música ou qualquer outra coisa que lembre a civilização — falou Bibber.

As duas modelos começaram a dançar, ao som de música sincopada do rádio. Sue Clay ficou por ali por algum tempo, depois, sem que os outros percebessem, afastou-se para um passeio.

— Venham, rapazes — convidaram elas e Henry e Peter entraram na brincadeira, divertido-se muito com a dança.

Não perceberam a ausência de Sue, a não ser meia dúzia de música depois, quando houve uma pausa para uma seqüência de comerciais.

— Onde está Sue? — indagou Henry.

— Não sei, estava aqui há pouco — comentou Swanny.

— Maluca! — falou Henry, apanhando sua arma e saindo do abrigo.

Observou as pegadas, tentando se orientar. Percebeu que Sue deixara o abrigo e fora até a praia. Dali saíra caminhando na direção onde ela e Henry haviam ido, naquela manhã, à procura de água.

— O rio! Ela foi para lá! — concluiu ele. — Fique aqui com elas que eu vou no encalço de Sue — disse ele a Peter.

— Tome cuidado!

Sentiu-se angustiado em saber que Sue se aventurara sozinha naquela direção, justamente onde parecia se concentrar aquela ameaça desconhecida.

Na certa fora tomar um banho no regato ou simplesmente caminhar. Isso poderia ser terrivelmente desastroso.

Sempre seguindo as pegadas, percebeu que ela deixara a praia antes do local onde haviam estado de manhã. Sue havia entrado no ponto onde Henry e Swanny, no dia anterior, foram buscar água.

— Maldição! Swanny deve ter contado algo — falou ele, hesitando.

Não sabia o que poderia encontrar pela frente de novo, naquele local. Só que não poderia deixar a garota sozinha lá. Jamais se perdoaria se algo acontecesse a ela.

— Você vai se haver comigo, Sue — murmurou ele, penetrando a floresta, seguindo as pegadas da jovem.

As marcas nas árvores e a passagem aberta no dia anterior eram fáceis de serem seguidas. Henry engatilhou sua arma, atento a qualquer ruído estranho. Aproximando-se da cascata. Podia ouvir o barulho da água caindo.

Quando chegou à clareira, estacou, impressionado e aliviado ao mesmo tempo. Sue, alheia ao perigo que poderia rondá-la, livrara-se das roupas e, apenas com as peças intimas, havia entrado no riacho transparente.

Seu corpo seminu era um poema de formas perfeitas e tentadoras, chamando a sua atenção. Henry descansou a espingarda num tronco e ficou ali, olhando apenas, enquanto ela, feliz como uma criança, brincava na água.

O idílio durou pouco. Súbito, um movimento na folhagem, do outro lado do lago, chamou a atenção de Henry, que apanhou rapidamente sua arma.

Apontou naquela direção, observando as folhagens se movendo, indicando a aproximação de algo monstruoso.

— Sue! — gritou ele.

Ela percebeu, então, a presença dele e se levantou, sorrindo e acenando. Percebeu que havia algo errado porque ele apontava a arma na sua direção.

— Você... Ele o mandou... — gaguejou ela.

— Fique quieta — ordenou ele,

— Meu irmão o mandou para me matar...

— Não seja estúpida. Não faça nenhum movimento brusco. Há alguma coisa atrás de você...

Ela se tornou ainda mais pálida.

— Henry, o que é? — indagou, com voz trêmula.

— Não sei, é aquele animal que eu e Swanny vimos ontem.

— Onde ele está?

— Não se assuste. Fique calma. Ele está do outro lado da logo, entre as folhagens.

— Eu vou correr...

— Calma, não faça isso! — pediu ele.

— Henry, estou com medo...

— Sei disso, mas procure manter a calma. Você tem que manter a calma...

— Por que essas coisas só acontecem comigo?

— Não seja pessimista. Venha devagar e com calma, na direção de suas roupas.

Sue começou a avançar pelo lago, olhando a todo momento para trás, enquanto Henry continuava com a arma erguida, pronta para disparar.

— Henry, meu Deus! Olhe! — gritou ela, em desespero, começando a caminhar com mais barulho, levantando água e atraindo a atenção da fera.

Henry esfriou por dentro, olhando a outra margem, onde, surgido das folhagens, um enorme animal, parecido com um gorila, preparava-se para se atirar na água, no encalço de Sue.

— Atire nele — gritou ela, debatendo-se e tentando vencer a massa de água que envolvia seu corpo.

— Não posso... Você está na frente dele...

— Henry... Ele vai me pegar...

— Não, não vai! — disse ele, erguendo novamente a arma e mirando cuidadosamente. —

Quando eu mandar, mergulhe rapidamente, entendeu?

— Sim... Faça alguma coisa... Está se aproximando...

— Agora! — gritou ele.

Sue hesitou por instantes, depois mergulhou profundamente na água cristalina. Henry disparou duas ou três vezes, atingindo o estranho animal no peito, jogando-o para trás.

O sangue tingiu a água e o animal ficou se debatendo na água, urrando de forma impressionante e arrepiadora. Henry correu ajudar Sue a sair da água.

— Henry, foi horrível — disse ela. — O que era aquilo, afinal?

— Não sei... Uma espécie de gorila, sei lá. Jamais vi algo assim. Vamos embora daqui.

— Devo-lhe a vida de novo — falou ela, enquanto corriam na direção da praia.

Atrás deles, a fera urrava continuamente, para preocupação de Henry, que não conseguira matá-la. Ferida e atormentada pela dor, aquele animal representava uma ameaça inimaginável.

Quando chegaram à praia. Peter e as garotas vinham ao encontro deles.

— O que houve, Henry? — indagou Peter.

— Encontramos aquele animal novamente. Eu o atingi, mas não o matei. Temos de ir atrás dele, Peter, ou vamos ter problema com ele.

— Que tipo de animal era?

— Uma espécie de gorila, mas maior e agressivo.

— Está bem, garotas, voltem para o abrigo — ordenou o oficial.

— Há uma pistola automática em minha mochila. Usem-na, se for preciso — avisou Henry.

Os dois correram para o interior da floresta, chegando logo depois ao lago. Ainda havia sangue flutuando na água, mas nenhum sinal da fera.

— Ali! — apontou Henry, indicando um ponto onde a folhagem estava manchada de sangue.

O silencio era quebrado apenas pela cascata. Os dois homens contornaram o lago e avançaram na direção da folhagem manchada de sangue. Ali, na terra úmida, podia-se ver as marcas de patas enormes, com garras pontiagudas.

— O que faremos , Henry? — indagou Peter.

— Pode estar ferida mortalmente e não incomodar mais. Pode estar furiosa e vir em nosso encalço para se vingar — explicou Henry. — Se isso acontecer, nada a deterá. É uma besta com sede de sangue e furiosa.

— Muito animador tudo isso — falou Peter, apertando firme a coronha da espingarda. —

Vamos atrás dela, Henry?

— Não temos escolha, Peter. Ou fazemos isso ou ela virá atrás de nós.

Decidiram, então, seguir a pista de sangue que ficara na vegetação, à passagem da fera ferida. Gradativamente os dois foram avançando, até um ponto onde a pista simplesmente sumia.

— Para onde ela foi? — indagou Peter.

Henry levantou os olhos lentamente para o alto das copas frondosas das árvores, imitado pelo parceiro.

— Lá em cima? — falou Peter.

— Com certeza. E se teve forças para escalar as árvores e se esconder, terá também para ir em nosso encalço. Vamos ter de redobrar a vigilância esta noite — recomendou Henry.

— Então vamos dar o fora daqui. Estou começando a ficar nervoso com tudo isso —

confessou Peter e os dois trataram de se afastar dali rapidamente.

Quando chegaram de volta ao abrigo, as garotas estavam eufóricas, com exceção de Sue.

— O que houve? — quis saber Henry.

— Ela é Sue Clay Jones, a bilionária — falou Swanny.

— Bilionária? Como assim? — quis saber Peter.

— Sue é bilionária, apenas isso, Peter — esclareceu, tentando não dar importância ao fato.

— O irmão está à procura dela.

— Como souberam? — perguntou Henry.

— Pelo rádio, agora. Deram um noticiário sobre o naufrágio. Somos os únicos sobreviventes, podem imaginar isso? O irmão dela está fazendo de tudo para localizá-la. Conta com o apoio da mais alta tecnologia no ramo — explicou Bibber.

— Eu sei porque ela faz isso — falou Sue e seu tom de voz não revelava nenhuma euforia.

— Isso aumenta nossas chances, perceberam? — exultou Peter. — Seu irmão vai encontrá-

la e, com isso, estaremos salvos.

— Salvos? Vocês pensam em salvação? — falou ela, com ironia. — Sou a condenação definitiva para vocês. Serão mortos, tão logo meu irmão me encontre — confessou ela.

Os outros se entreolharam, perdendo todo o entusiasmo.

— O que quer dizer com isso, Sue? — indagou Peter.

— Meu irmão quer me matar para ficar com tudo, é simples. Como vocês estão comigo, morrerão também. Jim Clay jamais deixaria testemunha.

— Ora essa, que bela enrascada! — exclamou Peter.

— Sairemos dessa. Vamos pensar em algo, pessoal — disse Henry, antes de correr no encalço de Sue, que havia se afastado do grupo.

— Vamos pensar em algo, Sue — disse ele, assim que a alcançou.

— É inútil, Henry! Eu lhe disse que ele nos encontraria. Jim Clay jamais descansaria enquanto houvesse uma chance de eu estar viva...

— Não pode ficar assim. Talvez o grupo de salvamento nos encontre primeiro...

— Henry, ele tem tecnologia e dinheiro. Quanto acha que ela está disposto a investir para ficar com tudo? Um bilhão de dólares mobilizariam criminosos do mundo todo a minha procura e ainda sairia barato para ele. Pode calcular a dimensão da ambição de meu irmão e seu poder?

Henry segurou-a pelo braço, obrigando-a a parar. Segurou-a, em seguida, pelos ombros, fazendo-a olhá-lo.

— Eu a protegerei — falou ele.

— Como?

— Como tenho feito todos esses anos — confessou ele.

Ela o encarou com incredulidade.

— O que está dizendo? — perguntou, num fio de voz.

— Seu pai deixou instruções para minha empresa de detetives, especialistas em segurança pessoal. Fomos pagos com antecedência para protegê-la contra seu irmão. Acho que seu pai pensou em tudo. Nos últimos cinco anos, eu a tenho seguido pelo mundo todo. Se não fosse o acidente, você jamais teria me conhecido.

— Você... Um anjo da guarda... — balbuciou ela, antes de se deixar envolver pelos braços dele.

index-63_1.png

A principio parecia apenas uma variação do barulho das ondas. Pouco a pouco, porém, aquele ruído intermitente foi se acentuando, fazendo Henry levantar instintivamente a cabeça e proteger os olhos com as mãos para olhar o céu em todas as direções.

— O que foi, Henry? — indagou Peter, aproximando-se.

— Não sei, parece que estou ouvindo algo...

— Ouvindo o quê? — apressou-se em perguntar o outro, ficando igualmente atento e observando o céu.

— Ainda não sei... Parece o motor de um avião... De qualquer maneira, foi para perto da fogueira, caso tenha de fazer algum sinal...

— Leve fósforos!

— Tenho alguns comigo — respondeu Henry, correndo pela praia na direção de onde estava a fogueira, sempre olhando para o céu.

Sue percebeu a movimentação e correu no encalço dele.

— O que está havendo, Henry?

— Vou até a fogueira...

— Por quê?

— Não tenho certeza, mas acho que ouvi um barulho de motor.

Sue parou por alguns instantes, assustada. Começou a tremer e a expressão de seu rosto revelou medo. Depois, voltou a correr atrás de Henry, até chegarem à fogueira.

Henry não ouvia mais o barulho, mas continuava esperançoso. Por medida de precaução, jogou um pouco de combustível sobre as folhas secas e ficou alerta, com os fósforos na mão.

— Lá! — apontou Sue.

Henry aguçou os sentidos. O barulho retornava, desta vez mais próximo. Olhando para a direção apontada por Sue, pôde notar, com alívio, o desenho inconfundível de um avião que vinha na direção da ilha.

Com rapidez foi acendendo os fósforos e atirando-os na fogueira, até que esta ardesse. Em poucos instantes o fogo crepitava e a matéria verde produzia uma coluna de fumaça.

O avião se aproximava mais e mais. Henry fez sinal a Peter, que correu, juntamente com as outras duas garotas, para a praia, agitando peças de roupa.

Quando o avião passou sobre eles, agitou as asas, oscilando de um lado para outro, dando-lhes a certeza de que tinham sido avistados.

A euforia dominou principalmente as duas modelos. Sue, porém, mortalmente pálida, foi se apoiar em Henry.

— Henry — disse, num fio de voz assustado. — É um dos aviões da nossa empresa...

— Tem certeza?

— Sim, eu vi o emblema na fuselagem. É inconfundível. Ele esta a caminho, Henry. Vai me pegar desta vez — falou ela, abraçando-se a ele.

— Acalme-se, por favor. Eu a protegerei. Haverá muita publicidade sobre a descoberta de sobreviventes. Seu irmão não se arriscaria...

— Que outra chance melhor do que esta ele terá? Quem nos garante que ele vai informar que fomos localizados? Reconheça, Henry! Ele virá aqui nos matar, só então divulgará ao mundo que fomos localizados, mas já mortos...

— Vou pensar em algo — disse Henry, percebendo que o avião retornava.

Puxou Sue pela mão e ambos correram até onde estavam os outros na praia.

— Nós conseguimos, Henry! — falou Peter, satisfeito.

— Sim, claro que conseguimos, parceiro — concordou Henry, observando o avião.

O aparelho veio em vôo rasante pela praia, deixando cair algo próximo do grupo. Peter correu apanhar. Henry havia observado atentamente a fuselagem do avião. Um emblema dourado não deixava a menor dúvida sobre quem era o proprietário.

— O que é? — indagou Bibber, quando Peter apanhou o objeto.

— Uma cápsula de metal com uma mensagem dentro. Pede que tenhamos paciência e esperemos que o socorro está a caminho.

As garotas exultaram, saltando e dançando ao redor do oficial.

— Seus tolos! — disse-lhes Sue, olhando-os com piedade. — Vocês não sabem o perigo que estão correndo? Não viram de quem era aquele avião? Suas vidas não valerão um níquel furado, quando meu irmão chegar. Será que não percebem isso?

A euforia acabou repentinamente. Todos se olharam assustados.

— O que acha disso, Henry? — indagou-lhe Peter.

— Não sei... Está todo mundo atento, à procura de sobreviventes e acompanhando os trabalhos, inclusive tudo que Jim Clay Jones está fazendo. Quando os pilotos transmitirem nossa localização, com certeza serão captados por outros aparelhos e...

— Não conhece os homens que trabalham para o meu irmão, Henry. São pagos regiamente para obedecerem ordens, todos os tipos de ordens...

— Não quero ser pessimista, mas acho que ela tem razão. Afinal, conhece muito bem o irmão que tem — falou Peter.

— Vamos considerar, então, esta hipótese, pessoal. O que poderemos fazer? A ilha não é tão grande, não há onde possamos nos esconder, caso eles queiram nos achar mesmo.

— Tem razão, mas deve haver alguma coisa que possamos fazer — insistiu Peter.

— Talvez possamos agir de forma a ter certeza, protegendo, ao mesmo tempo, a vida de Sue. Acho que tenho um plano — disse Henry. — O piloto contou, com certeza, o número de pessoas que viu. Nós temos Sue e vamos escondê-la, até termos certeza das intenções de quem vier nos resgatar.

— E se tivermos a certeza de que o irmão dela quer matá-la? Vamos entregá-la a ele?

— Vamos nos arriscar, é nossa única chance. Vejam o que podemos fazer — falou Henry, contando seu plano.

Após todos terem tomado conhecimento dele, Henry e Peter trataram de encontrar um local, junto às rochas, longe da floresta, onde Sue pudesse ficar escondida, quando o resgate chegasse.

Quando retornaram, o clima tenso entre as garotas. As duas modelos estavam em pânico ante a possibilidade de se verem envolvidas no centro de uma perigosa briga de família.

— Não vejo por que nos arriscarmos por ela — disse repentinamente Swanny. — Se o irmão dela a quer realmente, não vejo razão para ficarmos entre os dois.

— Swanny, cale a boca — ordenou Bibber. — O que está dizendo? Se eu a conheço bem, vai dizer coisa de que se arrependerá depois.

— Ora, cale a boca você, Bibber! Sei muito bem o que digo. Se temos que jogar com nossas vidas, por que não o contrário? A vida dela pelas nossas...

— Não seja idiota, Swanny. Se as coisas são como Sue disse, já estamos condenados à morte. Não pode haver testemunhas numa situação como está e há muito dinheiro em jogo para deter um homem.

— E se ela já estiver morta quando ele chegar aqui?

— O que está dizendo? — perguntou Henry, furioso, avançando para ela.

— O irmão dela a quer assim, não é? Pois bem, eu proponho que a matemos. Assim, quando ele chegar, não terá motivo algum para nos matar também. Nós lhe teremos prestado um favor em troca de nossa salvação...

A garota calou-se ao ver o semblante transtornado de Henry.

— Sua louca! — disse ele, entredentes, esbofeteando-a, tirando-a daquele estado histérico e fazendo-a voltar à razão.

Sue, aterrorizada diante daquilo, levantou-se e correu, embrenhando-se na mata e sumindo de vista.

index-67_1.png

— Está vendo o que fez, sua cretina? — repreendeu-a Henry, olhando mais uma vez para o rosto transtornado agora de Swanny.

Em seguida apanhou a arma e correu à procura de Sue.

— O que faço se eles chegarem? — gritou Peter, referindo-se ao salvamento.

— Distraí-os de algum modo. Verei o que posso fazer para salvar Sue...

Peter se aproximou ameaçadoramente de Swanny.

— Quando eles chegarem, não quero ouvir outras asneiras como as que ouvimos agora.

Se disser qualquer coisa, sua vida não valerá um grão de areia em minhas mãos, Swanny.

— Está bem, está bem! Acho que já tive o que merecia... Perdi o controle... Eu lamento...

Lamento mesmo!

No iate particular de Jim Clay, o clima de tensão e espera começava a chegar ao fim, quando Solo atendeu ao telefone.

— Boa noticia, senhor — disse ele. — Acabaram de ser encontrados.

— Minha irmão está entre eles?

— O piloto do avião viu cinco pessoas, dois homens e três mulheres, as três que estavam faltando.

— Onde foi isso?

— Numa ilha, a leste daqui, seguindo exatamente a Corrente Bermudas, como aquele professor disse.

— A que distância estamos dela?

— Com os motores que temos, três horas de viagem.

— Então diga ao capitão que desejo velocidade máxima. Pretendo liquidar esse assunto o mais depressa possível — disse ele. — Não permita vazamento desta informação, Solo.

— Não se preocupe, Jim Clay. Estamos usando palavras-código.

— E invente uma boa desculpa para nossa movimentação. Não quero a imprensa nos seguindo.

Jim Clay estava satisfeito. Todas as suas preocupações estavam ao fim. Sorriu, olhando os rostos ainda tensos de Village King e seu assistente.

— Quando poderemos começar a examinar as malas que foram encontradas, Sr. Jones?

— indagou King.

Jim Clay continuou pensativo por instantes, bebericando seu uísque. Reclinou-se preguiçosamente na poltrona, olhando os dois homens a sua frente com um sorriso de escárnio nos lábios.

— Sabe, King, estive pensando...

— Sobre o quê? — indagou o figurinista, com apreensão.

O sorriso de Jim Clay era por demais significativo. Havia um cheiro de traição pairando no ar e Village temeu por isso.

— Dois milhões e meia de dólares não significa muita coisa para mim. Aqueles diamantes estão perdidos mesmo. Existe uma coisa chamada direito de salvamento, sabia?

— O que quer dizer com isso? — perguntou Village, num fio de voz assustado.

— Você é um escroque, Village King. Como figurinista está em decadência, mas se sustenta trabalhando para a pior raça de gente que existe, os traficantes de droga. Eu acho que vou cancelar aquele acordo entre nós, sabia? — afirmou Jim Clay, fazendo um sinal para os dois guarda-costas que se encontravam próximos dali.

Os homens se aproximaram, mantendo Village e seu assistente sob vigia.

— Não pode fazer isso conosco... — protestou debilmente o figurinista. — Seremos mortos!

— Quanto lucraria mesmo com a transação? Cinco por cento? Pois eu lhe darei os dois milhões e meio de dólares, mas ficarei com as pedras. É pegar ou largar!

Village se voltou para observar os guardas armados que os mantinham sob vigilância agora.

— Vai precisar de nossa ajuda. Nem todas as pedras das roupas são diamantes... —

tentou argumentar Village.

— Se há algo que eu conheço, são diamantes, King. Eu saberia diferenciar um entre um milhão de pedaços de vidro.

— Sabemos demais sobre seus planos quanto a sua irmã. Poderíamos denunciá-lo —

disse Village, tentando negociar.

Jim riu gostosamente.

— Quanto tempo acham que permaneceriam vivos depois de feita a denúncia? E em que lugar do mundo vocês se sentiram realmente seguros e fora do meu alcance? Vamos, aceitem a minha oferta. São dois milhões e meio, além de suas vidas, é claro — frisou bem num tom ameaçador.

— Está bem, maldição! — concordou Village, trêmulo de indignação.

Levantou-se e rumou para sua cabine, seguido por Marcel.

— Village, vai deixar que ele faça isso conosco?

— Acalme-se, Marcel! Sei que estamos encrencados de novo, mas há um meio de sairmos disso.

— Como?

— Jim Clay, se julga poderoso demais e indestrutível. Vamos ver como se sai, enfrentando pessoas tão ou mais poderosas que ele — disse Village, sorrindo significativamente.

Jim Clay se sentia feliz e tranqüilo, depois das últimas noticias. Foi para sua cabine repousar e até adormeceu. O iate, com poderosos motores ligados a toda, rasgava as águas escuras do Triângulo, na direção da ilha, conforme indicado pelo avião.

Quando se aproximavam, Solo foi despertar o patrão.

— Jim Clay, a ilha já está à vista — informou.

index-70_1.png

— Ótimo, Solo. Providencie uma lancha para nos levar até lá. Diga a Douglas e Armstrong para me acompanharem. Farão o serviço com perfeição.

— Alguma outra providência?

— Sim, prepare uma equipe para descer, mais tarde, e resgatar os corpos. E vigie aquele figurinista e seu assistente. Podem querem aprontar alguma.

Jim embarcou na lancha juntamente com os dois guarda-costas e pistoleiros de confiança.

Tencionava resolver o assunto o mais rápido possível, livrando-se de Sue e das testemunhas.

Em poucos minutos pretendia ser o único dono de um império de quinze bilhões de dólares.

Além disso, sairia daquilo com uma boa propaganda. Um bilionário que fizera de tudo para resgatar a irmã, inutilmente.

Peter e as garotas os esperavam na praia. Com dificuldade, pelo medo que enfrentavam, conseguiram demonstrar alguma euforia.

— Muito bem, pessoal! Estão salvos agora. Quero ouvir os detalhes dessa fantástica aventura, mas, antes de mais nada, quero me apresentar. Sou Jim Clay Jones e procuro minha irmã, Sue Clay Jones. Por acaso ela não estaria entre os sobreviventes aqui na ilha? —

questionou ele, olhando ao redor.

O piloto falara em dois homens e três mulheres. Onde estava o casal restante?

— Sim, sua irmão está aqui, mas foi para o interior da ilha procurar água e alimento com o outro sobrevivente... — disse Peter, mas seu tom de voz ou sua expressão o traíram.

— Douglas, retorne ao iate e diga a Solo para mandar todos os homens para cá. Vamos iniciar uma busca imediatamente. Quero localizar minha irmã o mais depressa possível e dar o fora daqui — ordenou ele.

Em desespero, Henry corria no encalço de Sue, utilizando todos os conhecimentos e truques que sabia para seguir sua pista. A folhagem amassada, um galho quebrado, um apedra virada, tudo servia de indício.

Sua preocupação se concentrava também naquela fera que haviam deixado ferida na floresta. Não sabia o que poderia acontecer, se visse Sue ou fosse ao encalço ela.

Chamava o nome dela, á medida que avançava, sempre atento aos ruídos ao seu redor e empunhando com firmeza a arma. Parou, de repente, julgando ter ouvido a voz dela.

— Sue! — chamou bem alto.

— Para, Henry, por favor! Não avance mais — alertou ela, pondo-o na defensiva.

— Onde está você? O que houve?

— Desvie para a direita, Henry. Depois venha na minha direção — disse ela e seu tom de voz mostrava o quanto ela se controlava para não entrar em pânico.

Henry fez como ela dissera. Desviou-se e depois avançou cautelosamente, até chegar a um barranco. O que viu adiante de si fez seu sangue gelar nas veias.

Sue flutuava até a cintura num banco de areia movediça, que a tragava lentamente, a cada movimento.

— Não se mova, Sue. Fique o mais imóvel que conseguir! — ordenou ele, olhando ao redor, tentando encontrar uma forma de livrá-la dali.

— Salve-me, Henry! Estou morrendo de medo — confessou ela, olhando-o em desespero.

— Acalme-se. Evite se mexer, entendeu? Vou dar um jeito — afirmou ele, percebendo um galho que pendia sobre o local.

Subiu na árvore, levando a arma. Avançou pelo galho, que inclinou-se na direção da areia movediça. Segurando a arma pelo cano, ele estendeu o braço na direção da garota.

— Tente alcançar, Sue!

— Não consigo...

— Tem de conseguir! — insistiu ele.

— Não posso! — exclamou ela, desesperada, percebendo que cada tentativa fazia com que seu corpo mais se afundasse na lama pegajosa.

— Acalme-se! Fique tranqüila! Vou tentar outra coisa — falou ele, soltando a correia da arma e dando um nó na coronha.

Estendeu novamente a arma, balançando a correia na direção da jovem.

— Tente pegar agora! — pediu.

— Não posso, Henry! Estou afundando! — avisou ela.

— Tem que conseguir — falou ele, avançando um pouco mais no galho, que vergou e estalou perigosamente.

— Não, Henry! Volte, pelo amor de Deus! — pediu ela. — O galho pode quebrar.

— Tente mais uma vez — pediu ele.

— É inútil! Volte!

Com a movimentação que fizera, tentando se salvar, Sue havia afundado um pouco mais.

As águas pútridas do pântano já alcançavam seus seios, ameaçando tragá-la a qualquer momento.

— Fique imóvel! — ordenou Henry, recuando pelo galho.

Desceu da árvore e pensou rapidamente no que poderia fazer. Salvar Sue era-lhe a coisa mais importante a fazer. Ao longo de todos aqueles anos, trabalhando como uma espécie de sombra dela, afeiçoara-se àquela garota. Era sua obrigação, seu dever e seu trabalho protegê-

la.

— Henry, desista! Vá embora. Não quero que fique aqui — pediu ela.

— Vou salvá-la, Sue, nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida — disse ele, apanhando o facão e começando a cortar galhos febrilmente.

— O que pretendo fazer?

— Vou tentar algo! — falou ele, continuando seu trabalho.

O pânico de Sue foi aumentando, à medida que sentia o corpo mergulhar um pouco mais a cada respiração. Imaginou aquela gosma cobrindo-a, entrando em sua boca e nariz, sufocando-a e um desejo violento de se debater em desespero a dominou.

Controlou-se a custo, respirando o mínimo possível. Henry trabalhava rápido, montando uma espécie de escada com galhos compridos e uma série deles atravessando-os, unidos precariamente com folhas de palmeira. Quando terminou, a lama estava quase à altura do pescoço de Sue.

Henry levantou a escada e a deixou cair até a ponta alcançar a outra margem. Com cautela começou a rastejar sobre ela, que se curvou, tocando a lama.

— Henry, estou morta de medo...

— Acalme-se! Vou tirá-la daí. Segure-se aos galhos, assim não afundará mais — pediu ela.

Ela se aproximou rapidamente. Sue agarrou-se, então, desesperadamente, aos braços que Henry lhe estendeu. Começou a puxá-la para cima lentamente. À medida que fazia isso, os galhos mais se vergavam na direção do poço.

— Não está dando certo — confessou ele, ofegante.

— Por favor, Henry! Tire-me daqui — pediu ela, à beira da histeria.

— Espere aqui. Segure firme nos galhos — pediu ele, retornando à margem.

Retirou a correia da arma, depois amarrou-a ao seu cinto. Voltou a subir no galho que pendia sobre o local. Amarrou a correia na ponta dele, depois avançou o máximo que pode, vergando-o.

— Agarre o cinto, Sue, com toda força — pediu ele.

A garota o obedeceu imediatamente, enrolando a ponta do cinto num dos pulsos e segurando com firmeza. Henry passou cuidadosamente do galho para a ponta de troncos.

Quando soltou o galho, ele exerceu forte pressão para cima. Ele ajudou, puxando também a garota.

Com esse esforço conjunto, ele viu, com alivio, o corpo dela emergir da lama escura. Ele a carregou, então, para fora dali.

— Veja como estou... — murmurou ela, rindo e chorando, olhando para si mesma.

— Sua maluca! — disse ele, olhando-a entre furioso e apaixonado. — Temi tanto por sua vida — acrescentou, num tom de voz brando e carinhosos.

— Oh, Henry, meu anjo da guarda — murmurou ela, encostando-se nele.

Deixou que os braços fortes e protetores a envolvessem, gozando aquela sensação agradável de tranqüilidade que tomou conta de seu corpo.

— Deve haver algum rio ou fonte aqui por perto — disse ele, prestando atenção aos ruídos da mata. — Vamos até lá. Você poderá se limpar e lavar suas roupas.

Foram à procura. Conforme ele imaginava, logo chegaram a um riacho. Estavam ambos imundos. Despiram as roupas, lavaram-nas e deixaram na relva secando. Trajando apenas as peças íntimas, tomaram um demorado banho nas águas limpas e frescas. Depois saíram e de deitaram na relva para descansar.

— Pensei que morreria — disse ela.

— Imaginei o mesmo. Eu nem sei o que faria se isso acontecesse.

— Por quê, Henry? — indagou ela, apoiando-se nos cotovelos para olhá-lo melhor.

— Por quê? Ora... — embaraçou-se ele, desviando os olhos.

— Você não respondeu.

— É tarde — disse ele. — O sol já está se pondo. Temos de voltar. Os outros devem estar preocupados. Além disso, no escuro jamais acharemos o caminho de volta. E não é prudente ficarmos aqui.

A contragosto ela começou a se vestir. Subitamente, um barulho na copa das árvores sobressaltou-os. Ambos levantaram os olhos. Acima deles, sentada num galho, a fera olhava para eles com a boca escancarada, de onde escorria uma goma esbranquiçada.

Os olhos avermelhados do animal refletiam sua loucura e seu desejo de vingança.

Reconhecia aqueles seres lá embaixo. Sabia que havia sido ferida por eles.

Rosnou ameaçadoramente e Henry recuou, até apanhar sua arma. Engatilhou-a. Quando a levantou para atirar, a fera saltou de um galho para outro, sumindo das vistas dele.

— Henry, o que era aquilo?

— Não sei, talvez um gorila... Lembra-se daqueles destroços que vimos lá na praia?

Pareciam de um circo ou de um parque. Acho que o animal estava numa daquelas jaulas.

— É horrível!

— E feroz! Vamos dar o fora daqui — ordenou ele e os dois trataram de correr para longe dali.

Henry olhava a todo momento para a copa das árvores. A principio pensou que fosse apenas impressão sua. Depois teve certeza. A fera os seguia, passando de uma árvore para outra com extrema facilidade. Parecia brincar com eles, antes de atacar para matá-los.

— Ele está nos seguindo, Henry — observou Sue, apavorada.

— Sim, já percebi isso! — disse ele, segurando a mão de Sue e puxando-a para outra direção.

Ambos quase trombaram com o tronco da grossa árvore. Henry apertou firme o corpo de Sue contra o seu, pedindo-lhe silencio com um sinal característico.

Ficaram ambos ali, ouvindo o barulho do animal, saltando de uma árvore para outra. Ao perceber que perdera de vista os dois, parou e urrou nervosamente. Começou a descer pelos galhos, farejando e procurando em todas as direções com seus olhos infetados.

— O que vai fazer, Henry? — indagou Sue, num sopro de voz assustado.

— Quieta! — insistiu ele, atento aos ruídos.

A fera rosnou novamente, desta vez bem próxima deles. Henry respirou fundo. Já atirara nela antes e as balas pareciam não ter produzido muito estrago. Tinha de ser preciso agora.

Sua idéia era disparar contra a cabeça do animal, única chance de matá-la.

De repente, no entanto, tudo ficou em silencio ao redor deles, alarmando-os. Henry ficou tenso. A fera demonstrava alguma inteligência. Possivelmente já os tinha farejado e, agora, divertia-se com a caçada.

— Onde ela está? — perguntou Sue.

Um estalido seco foi a resposta. Próximo deles, o gorila pisara num graveto. Henry deixou seu esconderijo e se viu cara a cara com o terrível animal, que com uma patada rápida atirou longe a espingarda.

— Corra, Sue — gritou ele à garota, mas ela ficou imóvel, incapaz de se mover.

Henry sacou o facão, única arma disponível agora. A fera era enorme. Seria impossível detê-la, mas ele foi recuando numa outra direção, levando-a para longe de Sue.

A garota percebeu isso. A fera parecia brincar com Henry, aguardando apenas o momento certo para desfechar o ataque assassino e devastador.

— Henry! — gritou Sue, de repente, com a arma erguida e pronta para disparar.

A única coisa que ele pôde fazer foi se atirar ao chão. Sue disparou e o tiro acertou as costas do enorme macaco, abalando-o. Ele urrou ferozmente, voltando-se na direção de onde viera o disparo.

Viu Sue com a arma fumegante na mão. Urrou, batendo os punhos fechados contra o peito, preparando o ataque na direção dela. Naquele momento, Henry se pôs em pé e, segurando o facão com as duas mãos, desfechou um golpe com todas as forças de seu desespero.

O pescoço do animal foi praticamente seccionado. O corpo estremeceu e tombou, desarticulado, ficando se contorcendo na relva, até imobilizar-se.

— Você foi muito corajosa! — confessou ele, ofegante, com o corpo dolorido de tanta tensão.

Ela apenas se abraçou, apertando-se com força, tentando esquecer logo aqueles urros e aquele rosto medonho, com dentes pontiagudos e perigosos.

— Já passou! — disse ele. — Já passou.

— Nunca tive tanto medo...

— Percebeu que desta vez você me salvou? — observou ele.

— Que dupla estamos nos saindo, não? — comentou ela, levantando o rosto para ele.

Por algum tempo se olharam. Seus corações ainda batiam descompassados e seus corpos tremiam. O beijo que se seguiu fez aumentar essas reações.

— Vamos precisamos ir agora — disse ele, após olhar para cima. — Mais um pouco e não

index-77_1.png

conseguimos sair daqui.

— Eu sei que você poderá... Você pode tudo, Henry! — afirmou ela, com uma confiança inabalável nele agora.

— Veremos! — sorriu ele, tomando-a pela mão e puxando-a na direção da praia.

Extenuados, os dois deixaram a floresta quando os últimos raios de sol brilhavam no horizonte. Após todos aqueles sustos, ambos queriam apenas repousar em segurança. De repente, Sue empalideceu, segurando Henry pelo braço.

— Veja aquilo! — apontou ela, na direção do iate, ancorado próximo da praia.

— Graças a Deus, estamos salvos! — exclamou ele.

— Espere um pouco — pediu ela, olhando com mais atenção.

As cores do iate eram inconfundíveis para ela, que o reconheceu de imediato.

— O que houve?

— Conheço aquele iate. Pertence ao meu irmão. Suas cores são inconfundíveis — afirmou ela, segura de si.

Ele pensou por instantes.

— Vamos retornar à floresta. Quando escurecer de tudo, nós nos aproximaremos para ver o que está acontecendo por lá — decidiu ele.

Retornaram à floresta e foram avançando com cautela, na direção de onde os homens do iate se concentravam. Com a proximidade da noite, haviam retornado, após uma busca rápida nos arredores.

Concentravam-se próximos do abrigo que o grupo de náufragos utilizara. Diversas fogueiras começavam a ser acesas.

— Aquele é meu irmão, eu sabia que ele estaria atrás de mim. Devem estar esperando por nós, Henry.

— Consegue ver os outros? — indagou Henry, com apreensão.

— Não, não os vejo. Pode estar no abrigo ou...

— Mortos? Não, não pode ser. Vamos nos aproximar mais.

Aproximaram-se com todo cuidado doa brigo, graças à escuridão e à vegetação.

Observaram sem serem vistos.

— Veja, ali, na frente doa brigo — apontou Sue. — É Peter e as garotas... Estão amarrados. Eu não falei? Isso lhe prova tudo que eu disse a respeito de meu irmão. Não podemos deixá-los lá, Henry. Serão mortos.

— Eu sei, Sue, deixe-me pensar por um instante — pediu ele, analisando a situação.

Chegar até Peter e as garotas não era difícil. Bastava avançar na direção do abrigo, entrar por ele e se aproximar dos prisioneiros. Se conseguisse distrair a atenção dos homens, seria fácil libertá-los.

Olhou, em seguida, para o iate ancorado adiante. Havia luzes no tombadilho, mas não via a movimentação de homens nele. A maioria ou todos estavam circulando ao redor das fogueiras, conversando, enquanto Jim Clay confabulava com Solo e seus homens de confiança.

— Sue, sabe de quantos homens é a tripulação daquele iate?

— Não, por quê?

— Gostaria de saber se há alguém lá?

— Para quê?

— Uma idéia que estou tendo.

A garota pensou por instantes, depois examinou os homens ao redor do fogo.

— Não vejo o capitão.

— Você o conhece?

— Sim, não está em terra.

— Ok! Mesmo que haja alguém no iate, não são muitos. Acho que encontrei uma forma de sairmos daqui. Fique com o facão. Vou tentar distraí-los para que você vá até o abrigo e liberte-os, entendeu?

— Henry, por favor! Promete tomar cuidado?

— Não se preocupe. Vou voltar pela floresta e disparar minha arma algumas vezes. Na certa eles correrão para lá. Quando libertar Peter e as garotas, quero que corram para aquelas rochas onde fizemos a fogueira, entendeu? Eu os encontrarei ali.

— Eu entendi — disse ela.

Quando Henry ia se afastar, ela o enlaçou pelo pescoço, beijando-o apaixonadamente. O

rapaz retribuiu aquele beijo com sabor de medo e desespero.

— Faça o que eu disse, Sue. É nossa única chance — finalizou ele, beijando-a de novo e se afastando furtivamente.

Sue ficou aguardando, trêmula e assustada, até que ouviu os disparos. Quando isso aconteceu, houve uma agitação total no acampamento. Jim Clay gritou ordens. Os homens se armaram e correram na direção dos disparos.

Sue rastejou, então, cuidadosamente, vencendo o espaço que a separava do abrigo.

Quando ia entrara, percebeu que um homem havia ficado vigiando e estava de costas, ao lado dos prisioneiros.

A garota ficou indecisa. Sabia que precisava agir rápido, mas corria o risco de pôr tudo a perder. Os homens gritavam já longe dali. A atenção do vigia estava concentrada neles. A garota respirou fundo, decidida. Avançou pelo abrigo e, num movimento inesperado, bateu com o cabo do facão na nuca do vigia, derrubando-o.

— Sou eu, Sue! — disse, aos amigos assustados e surpreso.

— Sue, que alegria vê-la com vida. Onde está Henry? — quis saber Peter.

— Distraindo a atenção deles. Precisamos ir esperá-lo nas rochas, onde fizemos a fogueira.

Ela libertou os três.

— Seu irmão ia nos matar —a visou Swanny. — Ele é louco!

— Eu os avisei, não foi? Agora vamos dar o fora daqui, rapidamente — ordenou ela.

Novos disparos foram ouvidos, fazendo com que Sue parasse e levasse as mãos ao coração, murmurando apreensiva:

— Henry!

— Vamos, Sue. Temos de aproveitar a chance — falou Peter, agarrando-a pelo braço.

— Esses tiros...

— Henry já demonstrou que sabe se cuidar. Temos de fazer o que ele mandou — insistiu ele, puxando-a.

Sue se deixou levar, assustada, por ele. Uma vez nas rochas, abrigaram-se e aguardaram a chegada de Henry. Ele se demorava. Novos disparos foram ouvidos. Sue desesperou-se.

— Precisamos fazer alguma coisa por ele, Peter. Podem estar matando-o agora.

— Acalme-se, Sue. Vamos esperar, como ele mandou. Tudo vai acabar bem — afirmou ele, embora não tivesse muita convicção no que dizia.

Instantes depois, uma figura solitária e ágil venceu a distância que separava a floresta das rochas e foi se juntar a eles, ofegante.

A bilionária se atirou nos braços dele, agarrando-o com força.

— O que houve, eles o descobriram? Você não está ferido?

— Não foi nada, querida! — afirmou ele. — Apenas alguns arranhões em espinhos e galhos, nada mais.

— Por que eles atiraram?

— Assustaram-se com alguma sombra, só isso. Não podiam me ver de forma alguma.

— E agora, Henry? O que vamos fazer? — indagou Peter.

— Todos sabem nadar? — perguntou ele.

— Sim — foi a resposta coletiva.

— Minha idéia é tomarmos o iate. Ele será nosso meio de fuga. Vamos nadar até lá com cuidado.

— E eles? — indagou Peter, referindo-se aos homens que estavam na ilha.

— Ficarão aí. Mandaremos socorro.

— Bem feito para eles — falou Bibber. — Iam nos matar, já pensou nisso?

— Tudo bem, pessoal. Vamos tentar dar o fora logo daqui, Todos para a água — ordenou ele.

Os cincos desceram pelas pedras e mergulharam rapidamente. Nadaram com cuidado.

Havia um homem no convés, mas este entrou logo depois. Eles puderam, então, se aproximar e, com cautela, subiram para bordo.

— Há pelo menos um homem aí — falou Henry. — Vou dominá-lo. Esperem aqui.

— Vou com você, Henry, para o caso de alguma surpresa — falou Peter. — Vocês esperam aqui, garotas.

— Esperem, o capitão é meu amigo, eu o conheço. Se ele estiver a bordo não precisaremos temer nada — avisou Sue.

— Tem certeza disso, querida? — quis saber Henry.

— Sim, sempre foi fiel ao meu pai e a mim. Vai nos ajudar, eu tenho certeza.

— Está bem, mas deixe-nos ir na frente, por precaução.

Os dois avançaram. Instantes depois, Henry surpreendia o capitão, ameaçando-o com a espingarda.

— Pode fazer este barco andar sem o resto da tripulação? — indagou Henry.

— Se tiver mais um homem experiente para me ajudar...

— Eu sou oficial da marinha mercante — falou Peter.

— Mova este barco então, capitão.

— Não posso obedecer ordens de vocês...

— Faça isso ou... — ameaçava-o Peter.

— Não, por favor! Capitão, sou eu, Sue Clay. Precisamos de ajuda!

O rosto do velho capitão abriu-se num sorriso de alivio ao ver a garota.

— Sue Clay, que alegria vê-la com vida, garota. Temi tanto por você. Seu irmão ensandeceu...

— Não se preocupe com ele agora. Pode nos tirar daqui?

— Sim, agora mesmo. Oficial, venha me ajudar — disse o capitão.

Um homem surgiu, vindo do interior do iate, mas foi rapidamente rendido.

— É o operador de rádio — avisou o capitão.

— Ótimo! Enquanto vocês tiram o barco daqui, há algo que gostaria que você transmitisse

— disse Henry ao rapaz.

— Faça o que ele diz — ordenou o capitão.

Henry, seguido por Sue, foram até a cabine de rádio do iate.

— O que pretende fazer, Henry? — indagou ela.

— Garantir sua vida, querida.

Henry ordenou ao operador que transmitisse a todos os navios e aviões do serviço de

index-83_1.png

buscas que os sobreviventes haviam sido encontrados. Deu os nomes de todos que estavam no iate e pediu que um barco fosse resgatar Jim Clay e os demais na ilha.

Marcou naquela mesma semana, dali a alguns dias, uma entrevista coletiva, onde contariam tudo que acontecera durante o tempo em que estiveram desaparecidos.

— Vai falar sobre Jim Clay? — quis saber Sue.

— Não, é muito perigoso, mas vamos dar a entender que não o tememos e que poderemos pegá-lo a qualquer momento.

— Percebe que isso não me manterá longe do desejo dele de se apossar de tudo?

— Encontraremos um local onde ele não nos alcance... Isto é, se você quiser ir comigo —

corrigiu ele.

— Não há coisa que eu deseja mais na vida — confirmou ela, abraçando-o e beijando-o.

A descoberta dos únicos sobreviventes daquele trágico naufrágio se transformou na manchete de todos os jornais do mundo. A aventura que haviam vivido comovia leitores de todas as partes.

Da mesma forma, todo o aparato montado por Jim Clay recebeu um publicidade incrível, sem contar no lucro que obteve com as companhias de seguro, com os salvamentos e com as duas malas de roupas de Village King, encontradas, finalmente, entre centenas de outras.

Naquela noite, quando seria realizada a entrevista coletiva com todos os sobreviventes e com o bilionário, Jim Clay se divertia, examinando os mais belos e enormes diamantes que jamais vira em sua vida.

— Não está preocupado com a entrevista coletiva? — indagou-lhe Solo.

— De forma alguma. Acha que seriam loucos de dizerem alguma coisa contra mim? Logo contra mim, que movi mares e terras para encontrar minha querida irmã? Quem poderia afirmar que, após tudo isso, eu desejaria matá-la? Vai parecer ridículo, não?

— E quanto às pedras, vai ficar mesmo com elas?

— Solo, estou saindo disso com um enorme e inesperado lucro. Para todos os efeitos, isto estava perdido e é assim que aqueles dois terão de se explicar com os donos.

— Certo, Jim Clay — concordou Solo, embora não estivesse assim tão convicto do que o patrão fazia.

A ambição de Jim Clay estava indo longe demais naquele caso. De certa forma, ele parecia enlouquecido.

Enquanto isso, em um outro andar do mesmo hotel onde todos se encontravam, dois homens, vestindo ternos estranhamente escuros, acabavam de entrar no apartamento de Village King.

Os dois haviam chegado naquela tarde, num hidroavião.

— Sentem-se, senhores! — falou Village, oferecendo as poltronas aos dois.

— Querem beber alguma coisa? — ofereceu Marcel.

As expressões do figurinista e de seu assistente revelavam o medo mortal que oprimia seus corações naquele momento. De certa forma, encaravam a face da morte diante deles.

— Senhor, King, nosso patrões nos mandaram indagar da mercadoria que lhes pertence —

indagou um dos homens, com um acentuado sotaque latino.

— Eu posso explicar — disse Village.

— Não estamos aqui buscando informações, se é que me entende.

— Sim, claro... As pedras foram recuperadas, mas ele nos roubou tudo...

— Ele? Quem é ele? Por que fez isso?

— Jim Clay Jones... Está agora com as pedras. Eu ia dar a ele toda a minha parte no negocio para ele recuperar as malas. Só que, no fim, ele preferiu ficar com tudo. Eu juro. Estou sendo honesto.

— E onde está esse Jim Clay?

— Aqui mesmo, no hotel. Posso levá-los até lá.

— Por favor!

Os quatro homens deixaram o quarto. Uma expressão de triunfo se estampar no rosto de Village King, pois iria mostrar a Jim Clay o erro cometido.

Subiram para o último andar, onde estava a suíte do bilionário. Dois guarda-costas estavam na porta. Os colombianos que vinham atrás de Village e Marcel nem pestanejaram.

Simplesmente sacaram suas armas com silenciadores e dispararam repetidas vezes.

Os corpos dos homens se agitaram estranhamente e eles foram se chocar a porta, escorregando em seguida e deixando uma enorme mancha de sangue na madeira.

— Que diabos está acontecendo aqui? — indagou Solo, abrindo a porta e se deparando com a cena macabra.

Ficou pálido e imóvel, olhando as armas que lhe apontavam. Vou apenas, por um breve instante, o relâmpago na boca dos canos e, em seguida, tudo se apagou para ele.

Os homens entraram rapidamente no aposento. Jim Clay se levantou da mesa, ao vê-los chagando.

— O que significa isso? — indagou, furioso.

— Está se apossando de algo que não lhe pertence — disse um dos colombianos.

— Quem diabos pensam que são para irem entrando e... — calou-se Jim Clay, ao ver Village e Marcel surgindo atrás dos dois homens armados.

— Foi um erro, Sr. Jones! — falou Village.

— Não podem fazer isso. São loucos. Vou caçá-los pelo mundo todo. Não haverá lugar onde possam se esconder...

— Para onde vai não poderá fazer isso — afirmou um dos pistoleiros.

— Como? Para onde vão me levar?

— Para o inferno! — informou o bandido, disparando sua arma diversas vezes.

index-86_1.png

Jim Clay recuando a cada impacto, até bater na parede, onde seu sangue borrifava.

Deslizou lentamente, com olhos esbugalhados.

— Eu não disse? Aqui estão as pedras — falou Village, recolhendo-as e pondo-as numa maleta.

— Obrigado, Sr. King! A propósito, nosso patrões lhe mandaram um recado.

— Qual? — indagou ele, animado.

— Está dispensado! — respondeu o outro, disparando a queima-roupa nele e em Marcel.

Tiraram os silenciadores das armas e as puseram na mão de Village e na de Jim Clay.

Saíram calmamente, como se estivessem saindo para jantar.

Num outro ponto do hotel, Henry pensava numa forma de proteger Sue Clay do irmão.

Estava disposto a tudo, inclusive a matá-lo, se fosse preciso.

LOURIVALDO PEREZ BAÇAN