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A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? por Laís Wendel Abramo - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

PROGRAMA DE DOUTORADO EM SOCIOLOGIA

A INSERÇÃO DA MULHER NO MERCADO DE TRABALHO:

UMA FORÇA DE TRABALHO SECUNDÁRIA?

Laís Wendel Abramo

São Paulo

2007

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

PROGRAMA DE DOUTORADO EM SOCIOLOGIA

A INSERÇÃO DA MULHER NO MERCADO DE TRABALHO:

UMA FORÇA DE TRABALHO SECUNDÁRIA?

Laís Wendel Abramo

Orientadora: Prof. Maria Célia Paoli

Tese apresentada ao Programa de

Pós-Graduação em Sociologia, do

Departamento de Sociologia, da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para a obtenção

do título de Doutor em Sociologia

São Paulo

2007

Resumo

ABRAMO, Laís Wendel. A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? Tese (Sociologia) 327 p . Departamento de Sociologia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

A questão central desta tese é a discussão de como se constroem as

diversas representações sociais que contribuem à configuração das

desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Isso será feito concentrando a análise no processo de constituição e reprodução da noção da mulher como uma força de trabalho secundária.

Essa noção está presente no imaginário social, empresarial e sindical e das próprias mulheres (que participam ou não no mercado de trabalho), assim como nas concepções que embasam a formulação das políticas públicas. Marca a sua presença em diversas correntes do pensamento analítico e está na base da constituição de muitas instituições do mercado de trabalho. Resiste a muitas mudanças objetivas – e cada vez mais evidentes - no comportamento de atividade das mulheres e no seu desempenho laboral. O argumento central da tese é que essa noção é cada vez menos adequada para representar as distintas realidades da presença feminina no mercado de trabalho e que, além disso, é um dos elementos sobre os quais se estruturam e se reproduzem as hierarquias entre homens e mulheres e os padrões de discriminação e subordinação de gênero no mercado de trabalho.

Palavras chave: Mulher, Gênero, Mercado de Trabalho, Políticas de Emprego, Igualdade de Oportunidades.

Abstract

ABRAMO, Laís Wendel. Women in the labor market: a secondary workforce?

Thesis (Sociology) 327 p. Departamento de Sociologia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

The main question of this thesis is the construction of different social representations that contributes to the configuration of labor market inequalities between men and women. The analysis shall focus on the process of

constitution and reproduction of the notion of women as a secondary workforce.

This notion is part of the social imaginary of business and unions, women that are part (or not) of the labor market and also the theoretical ideas that inspire public policies. It is so pervasive that it marks different trends of analytical schools and social thought, impregnating the foundations of many institutions of the labor market. It is so resilient that it resists historical and current transformations –more and more evident- of women’s economic activities patterns and their work behavior.

The central argument of this work is that the notion of women as secondary workforce is less and less adequate for representing the different realities of the women’s presence in the labor market, and moreover, it is one of the elements on which are structured and reproduced the hierarchies between men and women and the patterns of gender discrimination and subordination in the labor market.

Keywords: Women, Gender, Labor Market, Employment Policies, Equal

Opportunitties.

Índice

INTRODUÇÃO

P. 05

CAPÍTULO 1: Reconstruindo uma noção: a mulher

como força de trabalho secundária

P. 21

CAPÍTULO 2: O ponto de vista empresarial: o

imaginário e as políticas de recursos humanos das

empresas relativas às mulheres no trabalho

P. 57

CAPÍTULO 3: Questionando imagens de gênero

P. 125

CAPÍTULO 4: A presença dos temas de gênero na

negociação coletiva

P. 179

CAPÍTULO 5: A experiência recente das políticas

públicas na União Européia: reprodução ou

superação da noção das mulheres como força de

P. 219

trabalho secundária?

CAPITULO 6: A evolução recente das políticas de

emprego e de igualdade de gênero no Brasil

P. 264

CONSIDERAÇÕES FINAIS

P. 295

BIBLIOGRAFIA

P.304

Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 4

INTRODUÇÃO

Introdução

Após três décadas em que se observa um crescimento constante dos

níveis de escolaridade e das taxas de participação feminina no Brasil e no conjunto da América Latina, ainda persistem sérios obstáculos à inserção e permanência das mulheres no mercado de trabalho em igualdade de condições em relação aos homens. Em contextos de ajuste, reestruturação produtiva e transformação nos paradigmas tecnológicos e produtivos, nos quais

desaparecem ou se desvanecem algumas das tradicionais barreiras à entrada das mulheres no mercado de trabalho ou a certas funções e ocupações, alguns destes obstáculos têm diminuído. Outros, entretanto, têm se reproduzido e, inclusive, aumentado. As mulheres representam 42% da População

Economicamente Ativa no Brasil, já são mais escolarizadas que os homens, e sua taxa média de participação é de 50,3%. 1 No entanto, persistem importantes desigualdades de rendimento por hora trabalhada, e essas desigualdades são ainda maiores nas faixas superiores de escolaridade. A taxa de desemprego das mulheres é significativamente mais elevada que a dos homens, assim como a sua presença nos segmentos informais e precários do mundo do trabalho 2.

Essa situação de luzes e sombras que caracteriza a evolução do emprego feminino e da magnitude e formas da desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho nesse período de três décadas no Brasil e na América Latina também é identificada por Maruani (2003) e Hirata (2003) em estudos realizados nos países europeus.

Segundo Maruani (2003: 21) nesse período “conhecemos verdadeiras mudanças, que, no entanto não são rupturas. São brechas decisivas; porém não são definitivas. A feminização do mercado de trabalho é real, mas inacabada, incompleta, tanto que se fez sob o signo da desigualdade e da precariedade. (...) 1

Nos estratos mais escolarizados de mais alta renda a taxa de participação das mulheres é muito superior a essa média.

2

Ver a respeito Abramo (2004) e Abramo e Valenzuela (2006).

Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 5

INTRODUÇÃO

O afluxo das mulheres no mercado de trabalho, assim como o crescimento da escolaridade feminina, marca uma reviravolta na história das mulheres – na história das relações entre homens e mulheres. Os avanços certamente são avaliados em termos de liberdade e autonomia.

As estagnações e os recuos se chamam subqualificação, subemprego, desemprego.”

Para Hirata (2003: 20): “embora mudanças e continuidades coexistam, o deslocamento hoje das fronteiras do masculino e do feminino deixa intacta a hierarquia social que confere superioridade ao masculino, hierarquia sobre a qual (...) se assenta a divisão social do trabalho. Enquanto a “conciliação” entre vida profissional e vida familiar, trabalho assalariado e trabalho doméstico for pertinente exclusivamente para as mulheres, as bases em que se sustenta essa divisão sexual não parecem estar ameaçadas em seus fundamentos”.

Se isso é verdade, e se o que interessa para a análise sociológica é descobrir as relações sociais que configuram e reconfiguram os lugares de homens e mulheres no mercado de trabalho, e as correspondentes relações de desigualdade, hierarquia ou subordinação que os caracterizam, é fundamental desvendar e descobrir os mecanismos que reproduzem essas diferenciações e desigualdades, ainda que sob novas formas, e que fazem que o que esteja ocorrendo seja um “deslocamento das fronteiras da desigualdade” (Maruani, 2003) e não a sua superação.

Para proceder a essa discussão, é necessário assinalar, em primeiro

lugar, que no processo de reprodução das desigualdades de gênero no mercado de trabalho incidem diversos fatores. Em primeiro lugar aqueles de caráter estrutural, vinculados aos determinantes mais gerais de uma ordem de gênero (que inclui não apenas o trabalho como também todas as outras dimensões da vida social) e de uma divisão sexual do trabalho que, ao mesmo tempo em que conferem à mulher a função básica e primordial de cuidar do mundo privado e da esfera doméstica, atribuem a essa esfera um valor social inferior ao do mundo

“público”, e desconhecem por completo seu valor econômico. Isso, para as mulheres, não significa apenas uma limitação de tempo e recursos para investir em sua formação profissional e trabalho remunerado, como também está Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 6

INTRODUÇÃO

fortemente relacionado a uma subvaloração (econômica e social) do significado do seu trabalho e de seu papel na sociedade.

Os estereótipos de gênero, ou as representações sociais sobre os

homens e as mulheres no trabalho são elementos constitutivos dessa ordem de gênero, assim como do processo de reprodução das desigualdades que

continuam sendo observadas e vivenciadas pelas mulheres trabalhadoras.

Esses estereótipos, que em geral desvalorizam a mulher como trabalhadora, continuam tendo forte permanência, a despeito das significativas mudanças que vêm ocorrendo em uma série de indicadores importantes do mercado de

trabalho.

A questão central da tese

A questão central da tese é discutir como se constroem as diversas

representações sociais (as diversas imagens de gênero) que contribuem à reprodução das desigualdades entre homens e mulheres no mercado de

trabalho. Isso será feito concentrando nossa análise no processo de

constituição e reprodução da noção da mulher como uma força de trabalho secundária.

A imagem da mulher como força de trabalho secundária é recorrente e

pervasiva. Está presente no imaginário social, empresarial e sindical, no imaginário das próprias mulheres (que participam ou não no mercado de trabalho), assim como no imaginário dos formuladores das políticas públicas.

Marca a sua presença em diversas correntes do pensamento analítico e da literatura sobre o mercado de trabalho e esteve na base da constituição de muitas instituições do mercado de trabalho.

Essa imagem resiste a muitas mudanças objetivas – e cada vez mais

evidentes - no comportamento de atividade das mulheres e no seu desempenho laboral, assim como nas tendências de evolução do emprego e da própria constituição do mercado de trabalho.

Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 7

INTRODUÇÃO

O objetivo principal desta tese é discutir a os processos de constituição e permanência dessas imagens de gênero, e, em particular, a noção da mulher como uma força de trabalho secundária. Interessa-nos examinar a partir de que pressupostos, processos e mediações essa imagens se constroem, como

adquirem eficácia simbólica, como se legitimam, como se reproduzem e como se transformam – ou não – no tempo. 3

Duas das perguntas que deverão ser respondidas ao longo desse

trabalho são: em primeiro lugar, que relação existe entre essas imagens e os processos que elas pretendem interpretar e expressar? Que relação existe entre a imagem da mulher como força de trabalho secundária e o seu comportamento observável no mundo do trabalho, que pode ser captado, por exemplo, através das estatísticas relativas às suas taxas de participação e ocupação, da análise das suas trajetórias ocupacionais e da sua contribuição ao rendimento das famílias? Que relação existe entre a imagem de que “as mulheres são mais caras que os homens” e as cifras relativas aos custos salariais e não salariais associados à contratação feminina e masculina? Que relação existe entre a idéia de que as mulheres são mais indisciplinadas, menos produtivas, “faltam mais ao trabalho” que os homens e as taxas de absenteísmo e níveis de produtividade e desempenho de homens e mulheres?

Em segundo lugar, que relação existe entre as representações dos

diversos atores sobre as mulheres no trabalho (incluindo os formuladores de políticas públicas) e as teorias que se estruturam sobre esses mesmos temas?

A resposta a essas perguntas será construída ao longo deste trabalho, a partir tanto da literatura existente sobre esses temas como da pesquisa realizada. A guisa de introdução ao tema, deve-se dizer, em primeiro lugar que cada uma dessas imagens pode, com efeito, apresentar níveis de

correspondência com determinados fatos em determinadas situações. Mas, em todos os casos (e em alguns discursos mais que em outros, algumas correntes 3

É importante assinalar que, como será analisado no decorrer deste trabalho, essas imagens têm uma grande eficácia prática, já que orientam a conduta de diferentes atores: empresários, as próprias mulheres, meios de comunicação, formuladores e gestores das políticas públicas.

Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 8

INTRODUÇÃO

teóricas mais que em outras), inclui, sempre, também um conjunto de

preconceitos, estereótipos ou postulados “insensíveis ao gênero” que fazem parte constitutiva dessas noções e, com freqüência, são os elementos que as integram e lhes dão sentido. Um dos pontos interessantes a ser evidenciado e analisado é justamente a recorrência e a pervasividade desses preconceitos, estereótipos e postulados. De que forma eles aparecem e reaparecem, em diferentes momentos e situações de emprego e trabalho, e através de

expressões diversas e distintos tipos de discursos, que podem ser captados também através de diferentes ferramentas e instrumentais de análise.

Em segundo lugar, é necessário assinalar e reconhecer que a relação

entre os discursos dos atores (empresários, sindicatos, trabalhadores e trabalhadoras, formuladores de políticas públicas), a teoria (os diversos conceitos ou correntes teóricas que serão analisadas) e as instituições do mercado de trabalho (políticas ou programas de emprego, aspectos da

legislação trabalhista e previdenciária, instituições de formação profissional) não é simples. O(s) discurso(s) dos atores, o(s) discurso(s) teórico(s) e os processos de conformação e transformação das instituições têm natureza distinta, processos de construção, legitimação, propagação e evolução distintos. Sua análise exige, portanto, abordagens também distintas, e o que não pretendemos fazer é estabelecer entre eles qualquer relação simples de causa e efeito ou de funcionalidade.

Mas é importante assinalar também que vários dos conceitos ou

abordagens teóricas que serão analisados participam em alguma medida da construção dessas representações. Muitos deles não conseguem explicar adequadamente a persistência da segmentação de gênero ou das desigualdades de remuneração no mercado de trabalho, por exemplo, e acabam por reproduzir uma visão preconceituosa sobre as mulheres, e que as desvaloriza enquanto sujeitos políticos, econômicos e sociais, justamente porque não incorporam à análise desses fenômenos um olhar sobre as relações sociais de gênero (são insensíveis, ou “cegos” ao gênero).

Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 9

INTRODUÇÃO

Imagens de gênero

A noção das imagens de gênero é central nessa discussão, e estará

presente de várias formas nos diversos capítulos desta tese. Entendemos por imagens de gênero as representações sobre as identidades masculina e feminina que são produzidas social e culturalmente, e que determinam, em grande medida, as oportunidades e formas de inserção de homens e mulheres no trabalho.

As imagens de gênero são elementos fundamentais na constituição de

uma ordem de gênero (que inclui não apenas o trabalho, como também todas as outras dimensões da vida social) e de uma divisão sexual do trabalho que, ao mesmo tempo em que conferem à mulher a função básica e primordial de cuidar do mundo privado e da esfera doméstica, atribuem a essa esfera um valor social inferior ao do mundo “público”, e desconhecem por completo seu valor econômico. Isso, para as mulheres, não significa apenas uma limitação de tempo e recursos para investir em sua formação profissional e trabalho remunerado, como também está fortemente relacionado a uma subvaloração (econômica e social) do trabalho da mulher e de seu papel na sociedade.

As imagens de gênero sobre os homens e as mulheres no trabalho são elementos fundamentais, portanto, no processo de reprodução das

desigualdades que continuam sendo observadas e vivenciadas pelas mulheres trabalhadoras. Como já foi assinalado, os estereótipos relativos aos homens e mulheres no trabalho, que em geral desvalorizam a mulher como trabalhadora, continuam tendo forte permanência, a despeito das significativas mudanças que vêm ocorrendo em uma série de indicadores importantes do mercado de

trabalho.

As imagens de gênero são prévias à inserção de homens e mulheres no trabalho, ou seja, são produzidas e reproduzidas desde as etapas iniciais da socialização dos indivíduos e estão baseadas na separação entre o privado e o público, o mundo familiar e o mundo produtivo, e na definição de uns como Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 10

INTRODUÇÃO

territórios de mulheres e outros como territórios de homens 4. . Por sua vez, essas imagens condicionam fortemente as formas (diferenciadas e desiguais) de inserção de homens e mulheres no mundo do trabalho: tanto as oportunidades de emprego quanto as condições em que este se desenvolve.

Por outro lado o trabalho (e, em especial, a divisão sexual e a segmentação ocupacional de gênero existente no seu interior) é um locus importante de reprodução dessas imagens. Estas, já no interior do mundo do trabalho, e sendo aí constantemente reproduzidas, passam a ser um elemento fundamental da divisão sexual do trabalho e da segmentação ocupacional existentes, constituindo-se em um obstáculo à alteração dessa segmentação, inclusive em contextos marcados por significativos processos de transformação na organização do trabalho e dos paradigmas produtivos.

Em outras palavras: as imagens de gênero são um componente

fundamental das formas e processos através dos quais se estrutura a divisão (sexual) do trabalho e a organização do processo de trabalho. Como tão bem nos alerta Humphrey (1987), a divisão sexual do trabalho é um processo que não se resume a alocar homens e mulheres em estruturas ocupacionais, perfis de qualificação e postos de trabalho já definidos. Da mesma maneira que a qualificação é uma construção social fortemente sexuada (Maruani, 1993), o sistema sexo/gênero (e suas características de dicotomização, exclusão e hierarquização) é uma dimensão fundamental do processo de constituição de categorias que vão estruturar a definição dos postos de trabalho e dos perfis de qualificação e competências a eles associados.

Sigamos o raciocínio de Humphrey (1987): a partir do momento em que

homens e mulheres ingressam no mundo do trabalho (concretamente em uma empresa ou instituição), e mesmo antes disso, nos processos de recrutamento e seleção que antecedem esse ingresso, eles e elas são imediatamente classificados pelas gerências (e também por seus companheiros/as) de forma diferenciada (e 4

A separação entre esses dois mundos obedece aos mesmos princípios que estruturam o sistema sexo/gênero no conjunto da sociedade: definição binária e dicotômica, hierarquização de um deles (o masculino) sobre o outro (o feminino), supressão dos traços definidos como próprios do outro.

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INTRODUÇÃO

desigual) como homens e mulheres no trabalho, como trabalhadores e trabalhadoras.

Ao mesmo tempo, esses homens e essas mulheres redefinem em parte sua identidade a partir dessa (nova) condição de trabalhador/a. Essas identidades, assim redefinidas irão configurar expectativas e compromissos com o trabalho: que tipo de trabalho esperam e se sentem aptos/as a realizar, que tipo de ordens e de quem estão dispostos/as a aceitar, que tipo de remuneração, formas de ascensão e promoção podem aspirar na sua vida profissional.

Essas classificações e identidades (que conformam as imagens de

gênero), produzidas originariamente fora e previamente à inserção dos indivíduos (homens e mulheres) no mundo do trabalho, são nele reproduzidas e (re)codificadas em termos das categorias próprias desse mundo, tais como os tipos e graus de qualificação, força, destreza, disciplina, produtividade, compromisso com a empresa, “adequação” ao mundo da empresa e do trabalho, etc.

Humphrey nos recorda que a sociologia industrial clássica sempre aceitou o fato de que, quando homens e mulheres entram em uma fábrica, adquirem uma identidade enquanto trabalhadores. O que não levou em consideração é que, ao fazê-lo, eles e elas não abandonam as suas identidades de gênero. Estas, evidentemente, sofrem redefinições e ajustes, relacionados à assunção e ao desenvolvimento de novas práticas e expectativas relacionadas a situações e experiências de trabalho e vida profissional. Mas continuam sendo um elemento fundamental na configuração dessas identidades, assim como a moldar

expectativas e comportamentos no trabalho.

É necessário fazer ainda duas precisões. Quando nos referimos ao

imaginário sobre os homens e as mulheres no trabalho, é necessário considerar, em primeiro lugar, que este imaginário está fortemente associado ao imaginário sobre os homens e as mulheres na família e no conjunto da sociedade. É

impossível discutir uma dessas dimensões sem fazer referência à outra. Além disso, existem aqui três âmbitos de discussão, inter-relacionados mas distintos.

O primeiro deles está referido ao imaginário social em geral, entendido como o conjunto de visões de senso comum, mais ou menos estruturadas e

Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 12

INTRODUÇÃO

racionalizadas, que possuem os indivíduos em geral, homens e mulheres, sobre os seus lugares, papéis e funções, no trabalho, na família, na sociedade, na esfera pública e na esfera privada. O segundo está referido ao imaginário empresarial, ou seja, ao conjunto de noções, percepções e idéias que os empresários têm sobre esses mesmos temas, e que são fundamentais porque estão na base das suas decisões em relação à contratação, investimento em capacitação, atribuição de tarefas e responsabilidades, definição de níveis de remuneração e promoção de homens e mulheres (Abramo e Todaro, 1998).

O terceiro âmbito se refere ao conjunto de noções, percepções e idéias que conformam o imaginário dos agentes políticos e formuladores de políticas públicas, que estão na base das decisões que são tomadas nesse nível, e que também afetam uma série de oportunidades e condições de vida e trabalho de homens e mulheres.

A noção da mulher como uma “força de trabalho secundária”

A noção da mulher como uma “força de trabalho secundária”

estrutura-se em torno da idéia de que o movimento de entrada da mulher no mercado de trabalho – assim como muitas características relativas à sua permanência e ao seu desempenho no trabalho – estão determinados

basicamente pelos papéis que ela desempenha na esfera doméstica. Esses papéis estão associados fundamentalmente às funções de cuidado a elas assignadas pela ordem de gênero e pela divisão sexual do trabalho. 5

Segundo essa visão, o movimento de entrada das mulheres no mercado

de trabalho tende a ocorrer quando o homem, por definição o provedor econômico principal ou exclusivo dos rendimentos da família, não pode cumprir de forma plena ou adequada essa função, devido a uma situação de desemprego, diminuição da sua remuneração, separação, falecimento ou outras causas. Sob essa ótica, a 5

Essa associação com a função de cuidado – e os limites que isso imporia a um “adequado” desempenho das mulheres no trabalho - é um elemento constitutivo fundamental não apenas da noção da mulher como força de trabalho secundária, como também de todas as outras imagens de gênero que serão analisadas no decorrer deste trabalho.

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INTRODUÇÃO

inserção feminina no trabalho seria sempre débil, precária, eventual, instável e secundária, e a mulher tenderia a se retirar da atividade econômica no momento em que o homem conseguisse recuperar sua situação ocupacional e de

rendimentos. Esse tipo de concepção se encontra latente, por exemplo, nas afirmações que justificam quando, havendo igualdade de funções entre um homem e uma mulher, esta recebe uma remuneração inferior, a partir da lógica de que ela “não necessita tanto do trabalho”, já que conta com um esposo para manter a família. Até pouco tempo atrás, em muitos países, a desigualdade de remunerações entre homens e mulheres era uma política explícita, que não estava baseada em nenhuma evidência de que as mulheres eram menos

produtivas ou qualificadas que os homens, mas sim no pressuposto de que elas

“não necesitavam receber um salário para viver”, já que eram sustentadas pelos seus maridos (Thomas, 2001).

Mas os dados relativos à evolução do emprego feminino no Brasil e em várias regiões do mundo, indicam que essa imagem cada vez se distancia mais da realidade. As taxas de participação e ocupação femininas têm aumentado consistentemente nos últimos 30 anos, como também tem aumentado o número de anos que elas dedicam ao trabalho remunerado, a continuidade das suas trajetórias ocupacionais e a sua participação nos rendimentos familiares.

Também é crescente o número de mulheres “chefes de família”, condição na qual elas, em geral, são as principais ou únicas provedoras (segundo os dados do IBGE, 27% das famílias no Brasil são chefiadas por mulheres). 6 Também aumenta a proporção de mulheres que não se retira do mercado de trabalho quando tem filhos: é na faixa das mulheres casadas e em idade reprodutiva que as taxas de participação feminina têm aumentado mais significativamente.

A hipótese central deste trabalho é que a noção da mulher como força de trabalho secundária tem uma forte persistência social, ainda que os dados indiquem que, se isso alguma vez foi asim, essa idéia cada vez corresponde 6

Ainda que deva ser considerada também a importância da renda advinda das aposentadorias – muitas delas recebidas também por mulheres - na composição dos rendimentos familiares, especialmente nas famílias mais pobres.

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INTRODUÇÃO

menos à realidade. Além disso essa noção é também um dos elementos

importantes sobre os quais se estruturam e se reproduzem as hierarquias entre homens e mulheres e os padrões de discriminação e subordinação de gênero no mercado de trabalho.

Como argumenta Maruani (2003:22) se a preocupação com o lugar das mulheres no mercado de trabalho não é algo novo, a forma de tratar a questão evoluiu profundamente desde os anos 1960. Se as problemáticas de pesquisa mudaram – e também os mecanismos e padrões de hierarquização e

subordinação – é, sem dúvida, porque a situação socioeconômica dos anos 1990

não tem muito a ver com a dos anos 1960: “A relação atividade profissional/vida familiar não pode ser pensada hoje, quando as taxas de atividade das mães de família se aproximam de 80%7, nos mesmos temos em que eram pensadas quando essas taxas se situavam em torno de 40%”.

Uma das hipóteses básicas deste trabalho é justamente que, na fase

atual de configuração do mercado de trabalho e das famílias, que não se caracteriza mais por um confinamento radical da mulher à esfera doméstica, a noção da mulher como força de trabalho secundária tem um papel fundamental nesse padrão de hierarquização, subordinação e discriminação. Essa é uma fase na qual a evidência da presença das mulheres no mundo do trabalho não pode mais ser negada. Nesse “deslocamento das fronteiras da desigualdade”, o que parece estar ocorrendo é um processo de reconstrução das imagens de gênero (ou dos estereótipos relativos a mulheres e homens no trabalho), a partir de uma realidade na qual aumenta significativamente a presença das mulheres no mercado de trabalho, assim como a importância dos seus rendimentos para o bem estar – ou a superação da situação de pobreza - da família. Nesse imaginário reconstruído (ou em processo de reconstrução), o lugar das mulheres deixa de ser apenas a esfera doméstica e privada, e pode ser também a esfera produtiva e 7

Na França e em alguns países da Europa. Na América Latina essa taxa se situa em aproximadamente 50%

em média.

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INTRODUÇÃO

pública; o seu “destino” não é mais apenas aquele de ser mãe e esposa, mas pode também ser o de uma trabalhadora.

Mas que trabalhadora? Ainda não é uma trabalhadora que tem os

mesmos direitos e o mesmo estatuto que um trabalhador do sexo masculino. Por isso a sua qualificação como “secundária”, ou seja, “incapaz” de ter um desempenho igual ao dos homens, e cujo trabalho não tem a mesma

importância, seja em termos da manutenção econômica de si mesma ou de sua família, seja em termos de constituição da sua identidade pessoal, seja em termos de reconhecimento social.

Como se constitui a idéia da mulher como força de trabalho secundária A idéia da mulher como força de trabalho secundária estrutura-se, em primeiro lugar, a partir da separação e hierarquização entre as esferas do público e do privado e da produção e da reprodução. Em segundo lugar, em torno de uma concepção de família nuclear na qual o homem é o principal ou o único provedor e a mulher é a responsável principal ou exclusiva pela esfera privada (o cuidado doméstico e famíliar), ou, no máximo, uma “provedora secundária”. Várias das instituições do mercado de trabalho características do pós-Segunda Guerra (algumas das quais existem até hoje, e entre as quais estão o salário mínimo e alguns sistemas de aposentadoria e saúde) estão baseadas nessa idéia: uma remuneração ou benefício que, recebido pelo “chefe da família” (uma pessoa, e por definição o homem), seria suficiente para manter em condições adequadas o trabalhador e sua família.

Nesse modelo, a inserção da mulher no trabalho é um aspecto

secundário do seu projeto de vida, da constitução de sua identidade e de suas posibilidades reais, e ocorrre basicamente em duas situações. Quando o homem (por definição o provedor principal ou exclusivo) não pode cumprir esse papel, devido a uma situação de crise econômica, desemprego, diminuição de suas remunerações, doença, incapacidade temporária ou definitiva ou outro tipo de infortúnio. Quando se trata de uma família na qual a figura masculina está Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 16

INTRODUÇÃO

ausente (por morte ou separação) e a mulher assume o papel de provedora por falta de outra alternativa.

Em consequência da atribuição desse papel ao homem, a inserção da

mulher no mundo do trabalho, quando ocorre, seria também, por definição, uma inserção sempre complementar, eventual, instável. Em uma palavra, secundária.

As principais expressões dessa inserção “secundária” das mulheres no mundo do trabalho seriam, em primeiro lugar, a existência de trajetórias ocupacionais instáveis e interrompidas: as mulheres entrariam no mercado de trabalho não devido a um projeto pessoal de maior alcance, mas sim devido a uma “falha” do homem no cumprimento do seu papel de provedor.

Conseqüentemente, também tenderiam a abandonar a atividade econômica (regressando à situação de inatividade) no momento em que isso fosse possível, já que o seu lugar básico e essencial não é o mundo do trabalho, mas sim a família, a casa, o universo doméstico. 8 Em segundo lugar, a pouca importância da renda gerada pelo trabalho da mulher na conformação da sua renda pessoal ou familiar; essa renda também seria, por definição, secundária, complementar, instável, insuficiente tanto para sustentar um projeto de autonomia pessoal quanto a sobrevivência e o bem estar da família. Em terceiro lugar, a idéia de que o mundo do trabalho (e as relações que em torno a ele se constituem) não é um lugar de constituição de identidade para as mulheres (ou, no mínimo, é um lugar muito secundário nesse processo), e, muito menos, de geração de práticas associativas, organizativas, coletivas. Essa imagem parece estar muito presente em certos setores da dirigência sindical masculina e podem ter consequências importantes nos rumos que tomam a prática e a ação sindical.

8

É importanter assinalar que parece haver uma semelhança entre essa imagem e aquela presente na fase inicial da sociologia do trabalho na América Latina sobre “a classe operária nativa”, ou seja, aquela que não estava composta pelos imigrantes de origem européia, mas sim pelos migrantes de origem rural. Nessa imagem, a incorporação desses trabalhadores ao mundo urbano-industrial era caracterizada como incipiente e frágil, e sua situação era vista por eles mesmos como algo indesejável, a qual estariam dispostos a renunciar e abandonar (voltando ao campo – à sociedade rural tradicional) na primeira oportunidade que se apresentasse. Além disso, essa suposta inserção frágil e instável impossibilitava a identificação desses trabalhadores com a condição de operários industriais e, a partir daí, a estruturação de formas de consciência, organização e padrões de ação coletiva “adequados” a essa condição (ver a respeito, Paoli, Telles e Sader, 1997);

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INTRODUÇÃO

Finalmente (e isso tem uma forte presença no imaginário empresarial), essa inserção secundária, eventual, instável, teria como consequência, necessariamente, altos custos indiretos (associados à maternidade e ao cuidado infantil) e um comportamento “pouco adequado” no trabalho, que se traduziria em altas taxas de rotatividade e absenteísmo, um “baixo grau” de compromisso com a empresa, na imposibilidade de fazer horas extras, trabalhar em turnos noturnos e viajar, e que justificaria a exclusão das mulheres de determinados postos e funções (organizados em sistemas de turnos)9 e dos cargos superiores na hierarquia das empresas.

A estrutura da tese

A tese se inicia com a apresentação do problema (Introdução) e, em

seguida, com a definição do seu o marco teórico. No Capítulo 1 se discute basicamente de que forma a noção da mulher como força de trabalho secundária aparece na literatura teórica econômica e sociológica sobre o mercado de trabalho e como – e até que ponto – esse tema tem sido analisado e discutido em algumas das correntes teóricas que se dedicaram a analisar o mercado de trabalho.

O tema do segundo capítulo é a análise do imaginário empresarial

relativo às mulheres no trabalho e das políticas de recursos humanos das empresas dirigidas à força de trabalho feminina e às relações entre os âmbitos domésticos e do trabalho. A hipótese com que trabalhamos, e que deriva tanto da literatura existente sobre o tema como da pesquisa desenvolvida, é que, apesar da crescente aceitação, por parte dos empresários, de que as mulheres também têm um lugar no mundo do trabalho (e que responde, por um lado, a 9

O tema da exclusão das mulheres de determinados postos, funções e ocupações - que, evidentemente, contribui para a segregação ocupacional e para a configuração de “territórios de homens” e de “territórios de mulheres” no mundo do trabalho, e tem um poder tão grande na reprodução da situação de desvantagem e subordinação das mulheres – tem uma larga trajetória na discussão da historiografia feminista. Nessa discussão várias autoras se preocupam em analisar não apenas a ação empresarial ou do Estado, mas também dos sindicatos e dos trabalhadores do sexo masculino (Humphries, Cockburn). É interessante indagar que vigência teria hoje esse tipo de comportamento.

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INTRODUÇÃO

importantes mudanças culturais, e, por outro, ao significativo e constante aumento das taxas de participação feminina no mercado de trabalho), esse lugar continua sendo um lugar “secundário”. O elemento fundamental dessa

“secundarização”, é a idéia de que o papel e o lugar fundamental da mulher continua sendo a esfera doméstica, a maternidade e a função de cuidado, e que esse fato “sobredetermina” o seu desempenho como trabalhadora e tem como consequência uma menor produtividade, menos eficiência, custos mais

elevados, comportamentos inadequados. Esses problemas justificariam, do ponto de vista empresarial, o fato delas continuarem recebendo salários em média mais baixos que o dos homens (apesar do crescente aumento dos seus níveis de escolaridade), o baixo investimento realizado pelas empresas em treinamento/formação da mão de obra feminina, a exclusão das mulheres de certos postos e funções (especialmente aqueles se organizam em turnos), assim como dos cargos superiores na hierarquia das empresas.

O terceiro capítulo pretende aprofundar a discussão sobre algumas das imagens recorrentemente formuladas pelos empresários sobre as mulheres no trabalho. Em especial duas delas: a de que os seus custos de contratação são superiores aos dos homens e a que suas taxas de absenteísmo também são mais elevadas. Apesar da dificuldade de contar com estatísticas sistemáticas sobre esses dois temas, o resultado da pesquisa realizada indica que essas imagens – apesar de sua recorrência - constituem basicamente mitos que não resistem a uma análise mais cuidadosa.

No quarto capítulo se analisa de que forma os temas relativos aos

direitos das mulheres e às relações de gênero no trabalho têm sido tratados nos processos de negociação coletiva, com o objetivo de verificar, em primeiro lugar, qual têm sido a atenção e o grau de importância dados pelos sindicatos a esses temas, assim como o grau de abertura ou resistência dos empregadores em relação a eles. O segundo grande tema tratado nesse capítulo se refere a que aspectos das condições da mulheres trabalhadoras e das relação de gênero no trabalho têm sido considerados nos processos de negociação coletiva, que avanços podem ser observados e quais os principais desafios que persistem.

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INTRODUÇÃO

Esses avanços têm ou não contribuído para a valorização das condições da mulher no trabalho? Em que medida e em que sentido? A negociação coletiva está contribuindo a promover ambientes de trabalho menos discriminatórios e mais favoráveis, seja aos direitos da mulher trabalhadora, seja àqueles relativos a uma melhor distribuição das responsabilidades familiares entre homens e mulheres e a uma maior possibilidade de conciliação entre a vida familiar e laboral para trabalhadores de ambos os sexos? Pode-se estabelecer alguma relação entre a negociação coletiva e a reafirmação e/ou o questionamento das imagens e estereótipos analisados nos capítulos anteriores? 10

Finalmente, o objetivo dos dois últimos capítulos é analisar de que forma as estratégias de promoção da igualdade de oportunidades têm incidido em algumas áreas das políticas públicas (em especial as políticas de emprego e inclusão social) na experiência recente da União Européia (Capítulo 5) e do Brasil (Capítulo 6), com o objetivo de discutir até que ponto elas tem contribuido a reforçar ou a transformar as noções que estiveram em exame ao logo dos capítulos anteriores e em especial a dicotomia entre “provedor” e “cuidadora” e a associação entre as mulheres e a força de trabalho secundária.

10

É necessário assinalar que, para fazer essa discussão, deve-se analisar não apenas os resultados das negociações expressos nas cláusulas que constam dos acordos e convênios coletivos de trabalho, mas também os processos de negociação, que envolvem a definição das pautas de reivindicação apresentadas pelos sindicatos e as diversas formas de mobilização e organização das categorias.

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CAPÍTULO 1

Reconstruindo uma noção: a mulher

como força de trabalho secundária

Reconstruindo uma noção: a mulher como força de trabalho secundária CAPÍTULO 1

1.1.

Introdução

O objetivo deste Capítulo é discutir de que forma a noção da mulher como força de trabalho secundária se constitui em algumas vertentes da teoria econômica e sociológica sobre o mercado de trabalho.

A análise da literatura existente sobre o tema nos permite dizer que são as teorias sobre a segmentação do mercado de trabalho (e em particular as teorias sobre os mercados duais de trabalho) as que mais explicitamente formulam o conceito de

“força de trabalho secundária”. A elas daremos uma especial atenção. No entanto, é necessário examinar também duas outras matrizes de interpretação para entender muitas dos pressupostos sobre os quais se baseia a noção da mulher como força de trabalho secundária. Em primeiro lugar a da economia neoclássica (e em especial as formulações da “Nova Economia da Família”) e em segundo lugar a da economia radical, de inspiração marxista.

Antes de entrar na discussão dessas duas matrizes teóricas é necessário, no entanto, assinalar que a análise das características e evolução do comportamento de atividade das mulheres, e das modalidades do emprego feminino, em relação tanto às mudanças econômicas, sociais ou políticas gerais, quanto em relação às

transformações ocorridas nas famílias ou na evolução do status das mulheres, tem estado presente em outras vertentes de estudos sobre as mulheres e o mercado de trabalho, entre elas a historiografia social e a antropologia.

Borderías y Carrasco (1994) fazem uma interessante análise sobre as

aproximações históricas, sociológicas e econômicas sobre o trabalho das mulheres, destacando, entre outras, as contribuições da historiografia. “Os estudos históricos constituem a ‘pedra de toque’ de muitas das teorias econômicas e sociológicas sobre o emprego”, afirmam as autoras (pg 54).

Um dos temas presentes nessa literatura se refere às repercussões do

processo de industrialização e de constituição do modo de produção capitalista na divisão sexual do trabalho e na “consagração” da separação entre as esferas produtiva e reprodutiva, vista por muitas das autoras analisadas, como uma “característica Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado do trabalho: uma força de trabalho secundária? | 22

Reconstruindo uma noção: a mulher como força de trabalho secundária CAPÍTULO 1

fundacional do processo industrializador”. Essa discussão faz parte de outra, muito mais ampla, sobre a transição do feudalismo para o capitalismo ou da manufatura à indústria moderna.

Segundo as autoras, podem ser identificadas duas posições básicas em

relação à evolução do emprego feminino no processo de transição das sociedades pré-industriais ao capitalismo industrial. A primeira afirma que teria havido um aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho durante o processo

industrializador (Pinchbeck, 1969; Boysin, 1972; Shorter, 1976); a segunda constata a diminuição da atividade produtiva das mulheres, principalmente a partir de 1820

(Richards, 1974; Tilly y Scott, 1975). Para elas, um fator importante a ser considerado, e que fortaleceria a segunda posição, é o aumento das taxas de natalidade que caracteriza o período, prolongando significativamente o número e a freqüência das gestações e o período de criação dos filhos pequenos. As autoras apontam também que existem versões mais matizadas dessa polêmica, que apontam uma diminuição das oportunidades de emprego para as mulheres durante 1750 e 1850, enquanto a perspectiva a longo prazo configuraria a tendência contrária (Pinchbeck, 1930).

Mais recentemente, uma grande parte das pesquisas realizadas confirmariam o declínio do emprego industrial das mulheres durante o século XIX, comparado com a enorme importância que teve a mão de obra feminina nas indústrias modernas durante o período da “proto-industrialização”, assim como nas manufaturas e nas primeiras fábricas durante o século XVIII (Borderías e Carrasco, 1994: 53). As divergências se situam principalmente nas explicações do porque dessa diminuição. Alguns autores a associam à separação entre o espaço da produção assalariada e o da reprodução (Clark, 1919); outros a mudanças demográficas (aumento das taxas matrimoniais e antecipação da idade de casamento) (Snell, 1985); outros à diminuição da importância das indústrias domésticas rurais (Richards, 1974), ou o papel dos sindicatos nas retirada das mulheres do trabalho industrial (Hartmann, 1979; Walby, 1986).

Com efeito, um dos aspectos polêmicos dessa discussão se refere ao papel da ação dos sindicatos e da intervenção estatal na paulatina institucionalização da separação e hierarquização entre as esferas produtiva e reprodutiva, através da criação de determinadas práticas e instituições. É nessa linha de argumentação, por exemplo, que se insere a discussão feita por Humphries (1977) sobre o papel de agentes e instituições tais como o Estado, os sindicatos, a Igreja e partidos políticos no Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 23

Reconstruindo uma noção: a mulher como força de trabalho secundária CAPÍTULO 1

processo de “expulsão” das mulheres do mercado de trabalho (ou estabelecimento de limitações à sua entrada). A instituição por exemplo, do “salário familiar” e das primeiras leis que proíbem o trabalho de mulheres e crianças nas minas de carvão (1842) é vista por esta autora como produto da resistência das famílias operárias à diminuição dos seus níveis de vida durante a primeira industrialização. De qualquer forma, o certo é que “a adiscrição prioritária dos homens à produção e das mulheres à reprodução se consolidou como forma de divisão sexual do trabalho das sociedades industrializadas, contribuindo, além disso, a delimitar novas formas de segregação sexual dos mercados de trabalho” (Borderías y Carrasco, 1994: 56).

1.2.

A matriz neoclássica e a Nova Economia da Família

1.2.1.

A teoria neoclássica

As principais contribuições da teoria neoclássica para a análise do trabalho das mulheres se referem basicamente ao tema da oferta de trabalho feminina (além dos estudos sobre a discriminação na linha de Gary Becker).

A teoria neoclássica modifica substancialmente a análise clássica (Malthus, Ricardo) que postulava que a oferta de trabalho estaria determinada pelo estoque de população em idade de trabalhar e não incapacitada fisicamente. A teoria neoclássica enfatiza a decisão do indivíduo de oferecer o trabalho como elemento central dessa determinação, como parte da teoria da escolha do consumidor. O trabalhador decide se quer ou não oferecer a sua força de trabalho a partir de uma função de utilidade entre o ócio e a renda que ele espera receber com o seu trabalho. O trabalho aqui é considerado unicamente um meio para conseguir um fim (a renda) e, de acordo à lei da oferta e demanda que caracteriza os mercados em geral, as quantidades do bem oferecido (trabalho) dependem do seu preço (Toharia, 1999:12).

Em outras palavras, os indivíduos maximizam a sua utilidade, de acordo com as suas preferências, tomando decisões a partir de uma dupla restrição de tempo: cada hora de trabalho remunerado implica num sacrifício do tempo de “ócio”

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Reconstruindo uma noção: a mulher como força de trabalho secundária CAPÍTULO 1

(entendido aqui como todos os usos do tempo que não entram dentro da categoria de trabalho assalariado); por outro lado, o custo de oportunidade do ócio é o salário ou a remuneração não recebida (o custo de não receber a remuneração correspondente à utilização dessa mesma parcela de tempo no trabalho remunerado). A taxa de participação no mercado de trabalho estaria, portanto, determinada pela quantidade de trabalho que se está disposto a oferecer em troca de algum rendimento (salarial).

A teoria neoclássica, portanto, explica a participação no mercado de trabalho (ou o comportamento de atividade dos indivíduos) a partir de uma relação entre os salários (rendimentos do trabalho) e o “ócio”. O tempo total disponível para cada pessoa em um determinado período é um dado e é o recurso escasso por excelência.

No caso da oferta de trabalho, um aumento do salário real oferecido no

mercado produzirá o chamado “efeito de substituição”, ou seja, a decisão do indivíduo de querer trabalhar mais, já que aumenta o custo de oportunidade do ócio em relação à renda advinda do trabalho. Mas pode também produzir o “efeito renda” no sentido de querer consumir mais ócio (e, portanto, trabalhar menos), já que, com a mesma quantidade de trabalho o aumento do salário real eleva o nível de renda. O resultado desses dois efeitos determinará a pendente da curva de oferta de trabalho, que será positiva se o “efeito substituição” for mais importante que o “efeito renda” e negativa no caso contrário (Toharia, 1999: 13).

Para a teoria neoclássica, a divisão das atividades em atividades de mercado e não mercado não se explica como conseqüência do costume, da prática, da divisão sexual do trabalho, etc, mas sim a partir da busca racional da máxima utilidade, busca essa que determina a alocação do tempo dos membros da família.

O modelo tenta explicar a taxa de atividade (isto é, o número de horas que cada indivíduo está disposto a oferecer) a partir das variações da sua renda ou de outras rendas. Dentro desse esquema, os baixos níveis de inserção das mulheres no mercado de trabalho responderiam a uma decisão “racional” destas a favor do ócio. 1

1

Vale notar que, nesse modelo, qualquer atividade realizada – por homens e mulheres - fora da esfera mercantil é considerada “ócio”.

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Reconstruindo uma noção: a mulher como força de trabalho secundária CAPÍTULO 1

Como parte da tentativa de explicar por que as mulheres não se decidem a oferecer seu trabalho em uma determinada etapa ou ao longo de toda a sua vida, se formula o conceito de “salário sombra”. O “salário sombra” é o salário que a pessoa (a mulher no caso) tem possibilidades de receber no mercado. O conhecimento do indivíduo sobre qual poderia ser esse salário influencia a sua decisão de incorporar-se ou não ao trabalho remunerado. Considerando que fatores tais como a experiência no trabalho, a escolaridade e o status ocupacional fazem parte desse salário potencial, no caso das mulheres (ou de determinados grupos de mulheres), esse poderia ser tão baixo que não compensaria uma tentativa de inserção no mercado de trabalho, ou, em outras palavras, que as induzisse a não tomar a decisão de oferecer a sua força de trabalho) (Ben-Porath, 1973; Heckman, 1974, citados por Benería e Carrasco, 1994: 61).

Por sua vez, a teoria do capital humano, formulada também dentro da matriz neoclássica, inclui entre os seus temas de discussão a tentativa de explicar determinados aspectos das condições de inserção das mulheres no mercado de trabalho. A teoria postula que o aumento da produtividade de cada trabalhador, derivada da acumulação de capital humano, se traduz, em geral, em um aumento de salários (ou outro tipo de compensações). Dentro desse marco de referência são discutidas as diferenças salariais entre homens e mulheres, com o objetivo de determinar se a explicação básica para essas diferenças pode ser encontrada nas diferenças de produtividade (determinadas por sua vez pelas diferenças de capital humano) ou na preferência das pessoas por determinados empregos (Mincer y Polachek, 1974; Polachek, 1975). Esses autores argumentam, basicamente, que, devido ao fato de que as expectativas das mulheres em relação à sua participação na população ativa ao longo da sua vida são diferentes (mais reduzidas) das dos homens, suas decisões em relação a investir em capital humano também diferem (são menores). Ou seja, as mulheres acumulam menos capital humano porque tem uma menor expectativa em relação às suas possibilidades de inserção no mercado de trabalho, e por isso os seus salários são mais baixos.

Por outro lado, como qualquer capital, o capital humano também se deprecia e a depreciação do capital humano reduz a produtividade dos trabalhadores. E isso acontece com mais intensidade nos períodos em que os trabalhadores se ausentam do Laís Wendel Abramo A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho secundária? | 26

Reconstruindo uma noção: a mulher como força de trabalho secundária CAPÍTULO 1

local de trabalho. As mulheres, que já tendem a acumular menos capital humano devido à menor expectativa de retorno do investimento feito, estão também sujeitas à maior depreciação desse capital devido à sua tendência de se retirar do mercado de trabalho (ou de diminuir a intensidade da sua presença nele) durante o período reprodutivo (quando nascem os filhos ou quando esses são pequenos). Isso também explicaria as diferenças salariais entre homens e mulheres. 2

1.2.2.

A Nova Economia da Família

A “Nova Economia da Família” surge a meados dos anos 60, com o objetivo de dar resposta a uma série de problemas que não haviam sido bem resolvidos pela teoria neoclássica, entre eles os determinantes do comportamento da oferta laboral feminina.