VIP Membership

A irresistível Fanny por L P Baçan - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
index-1_1.jpg

index-1_2.jpg

Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

CAPÍTULO 1

Fanny estivera ouvindo os conselhos de Margot, sua amiga de escritório, durante toda a descida do elevador. Margot tinha razão em tudo. Era uma garota experiente e extrovertida, totalmente o oposto de Fanny.

— Seja sexy, Fanny, se o deseja conquistar — disse Margot.

— A questão é como ser sexy, Margot.

— Isso é intuição, instinto, magia, acontece de repente. Vamos até o Tom?

— Sim, preciso mesmo esclarecer alguns pontos ainda, Margot — concordou Fanny, acompanhando a amiga.

Enquanto caminhavam pelas calçadas, Fanny observava Margot. Era esbelta, curvilínea, alta e proporcional em suas formas.

Com certa inveja indisfarçável, Fanny ia notando os olhares masculinos que se voltavam para acompanhar a passagem das duas.

Saber que nenhum daqueles olhares era para ele causava-lhe uma espécie de dorzinha incômoda por dentro, reforçando ainda mais aquela sua insegurança.

Reconhecia-se insegura, tímida, tão sem feminilidade. Sempre fora daquele modo e nunca se importara, pelo menos até que Edward Perkins foi morar no apartamento ao lado do seu.

Fanny não podia se recordar daquele dia sem sentir um arrepio estranho percorrer seu ventre e se espalhar, a seguir, pela sua espinha, em impulsos elétricos excitantes.

Primeiro aqueles carregadores com roupas comuns e indefectíveis bonés. Fanny ficou curiosa em saber quem estava se mudando para o apartamento ao lado.

A idéia de que pudesse ser uma outra garota a interessava. Sentia-se um pouco sozinha e seria interessante ter uma companhia com quem conversar. As outras garotas do andar eram tão secas e intragáveis.

De certa forma, era o que Fanny apreciava. Muito sossego e pouco gente bisbilhotando em sua vida. No começo foi bom, mas à medida que o tempo passava, voltar para casa era desinteressante.

Tivera muita sorte em conseguir um apartamento ali. Não poderia pensar em se mudar.

Ficava próximo de seu trabalho e era pequeno, fácil de cuidar. O aluguel era razoável e ela podia pagá-lo sem maiores sacrifícios.

Mas isso apenas não era o bastante. Apesar de ter sido sempre uma pessoa introvertida, agora ela se ressentia da falta de uma grande amizade, de alguém que fosse mais ou menos como ela.

Não era uma pessoa desinteressante, mas, ao lado de Margot, Fanny desaparecia por completo; era uma garota tipo mignon, cabelos curtos, um rosto travesso e assustado ao mesmo tempo, olhos grandes e algumas sardas ao redor do nariz.

Percebeu que estava divagando a respeito de tudo e tentou voltar ao ponto inicial, quando vira Edward pela primeira vez.

Naquele dia, enquanto os carregadores se movimentavam, Fanny já ia à porta ver se o vizinho ou vizinha já havia chegado.

Cansada de esperar e com a curiosidade aguçada por todos aqueles aparatos esportivos que os carregadores estavam trazendo, resolver indagar:

— Escute, quem vai morar aí?

— Já vai conhecê-lo, vem vindo aí atrás — respondeu o carregador, vergando ao peso de alguns halteres.

Então aquele arrepio apavorante e delicioso ao mesmo tempo aconteceu pela primeira vez.

Os olhos normalmente grandes de Fanny quase saltaram das órbitas.

Subindo a escada, numa camiseta colante que realçava os músculos delineados de seu tórax e braços, vinha Edward Perkins.

Seus magníficos olhos azuis se fixaram em Fanny e ele sorriu. A garota sentiu-se sobre nuvens, deslumbrada com a maravilha que era aquele espécime masculino.

Ele caminhou e parou diante dela, estendendo a mão. Fanny quase sumiu atrás da porta, ainda tomada de forte emoção.

— Olá! Sou Edward Perkins! Acho que vamos ser vizinhos — disse ele.

Fanny abriu a porta lentamente e sua mão se estendeu, deslumbrada, ao encontro da mão dele. Um aperto firme e protetor a fez se sentir pequena diante daquele homem maravilhoso.

— Fanny Middleton! —Exclamou ela, os olhos extasiados pela simpatia daquele rosto.

— Espero não estar aborrecendo você, mas não pude fazer a mudança durante o dia.

Trabalho, sabe como é...

— Sim, claro...

— Preciso dar uma olhada no que eles estão fazendo aí dentro. Se a gente não estiver em cima, eles vão amontoando as coisas e nunca mais a gente se encontra dentro disso.

— Eu compreendo...

— A gente se vê depois — falou ele, sorrindo, com aqueles lábios maravilhosos, carnudos e agressivos.

Ela ficou ali, olhando-o entrar no apartamento. Podia jurar que Edward era um halterofilista, mas não do tipo exagerado.

Seus músculos eram proporcionais. Ele era um tipo atlético, belo e atraente. Ela conseguiu fechar a porta e ficar apoiada a ela sem poder pensar em nada.

Seus olhos apenas viam a figura de Edward Perkins a sua frente, exibindo aquele sorriso cativante e sincero.

— Fanny, o que você vai beber? — insistiu Margot, despertando a amiga de um delicioso sonho.

— Como? Ah, sim, um uísque. Não uísque não, eu não bebo uísque — sorriu ela, sem graça. — Um suco de frutas com vodca.

Margot fez os pedidos depois olhou a amiga, sorridente.

— Ele a fisgou de verdade, não?

— Quem?

— O tal professor de educação física.

— O Edward?

— Quem poderia ser, Fanny?

— Ele é tão divino! — suspirou Fanny, com uma expressão sonhadora no rosto.

Fazia dois dias que ele estava morando ao lado, e Fanny ainda não conseguira aceitar a idéia de tê-lo tão perto. Era uma espécie de sonho, bom demais para ser verdade.

Isso, no entanto, trazia um outro tipo de preocupação. Além de saber que ele era professor de educação física, Fanny não conseguira descobrir mais nada.

Não porque Edward se recusasse a falar sobre ele. Era o contrário, justamente o que aborrecia Fanny, e que a fizera pedir alguns conselhos a amiga.

Sentia-se tão insegura diante de Edward que não conseguia falar, conversar. Ficava apenas ouvindo-o, como se fosse a coisa mais importante do mundo.

As vezes ele tinha de insistir para obter uma resposta dela, tendo de acordá-la de longos e deliciosos devaneios. Já haviam se encontrado três vezes, todas elas por iniciativa de Edward.

A primeira vez fora quando ele pedira açúcar emprestado. Depois, quando ele precisara de um elástico para consertar um de seus aparelhos. Na outra, ele simplesmente a convidara para um gole de vinho e Fanny não fizera nada a não ser beber e ficar parada lá como um atonta.

Repreendia-se por isso. Queria estar perto dele, cativá-lo, mostrar a ele suas qualidades, mas embaralhava tudo e bracassava em se sobressair aos olhos de Edward.

Ela queria isso, precisa disso. Podia tê-lo convidado para jantar no primeiro dia. Aliás, na primeira noite. Teria sido elegante da parte dela e isso contaria pontos a seu favor.

Chegara a pensar na idéia, mas sua insegurança falou mais alto, apresentando milhões de justificativas para que não o fizesse.

Ficara lá, deitada em sua cama, ouvindo os ruídos no apartamento ao lado, imaginando que apenas uma parede a separava de um homem esplêndido, talvez o homem de seus sonhos.

Coisas interessantes aconteceram a Fanny naquela noite. De repente, ela começou a tomar consciência de que era uma garota e de que tinha direito a certas sensações.

Sensações femininas despertaram em seu corpo, adormecidas que estavam naquela casca de insegurança e timidez. Isso trouxe também conflitos.

Fanny desejava alguém pela primeira vez, mas sentia inútil na difícil tarefa de conquistá-lo.

Até então, havia esquecido os rapazes, já que eles não demonstravam nenhum interesse por ela.

Nunca fora abordada; rapazes não assobiavam para ela na rua; nunca um gracejo picante havia sido soprado em seus ouvidos.

Vivia sua vida vazia, ocupando seu tempo entre o trabalho e pilhas de revistas, economizando metodicamente para um dia tirar inesquecíveis férias num lugar onde nem ela sabia.

Apenas deixar o tempo passar, sem um objetivo fixo, sem uma meta definida, sem um sonho que pudesse acalentar e perseguir.

Era uma garota sem graça e reconhecia isso. Quando Ed surgira, tudo isso começou a mudar dentro dela. Coisas despertaram com força, uma força que a assustava.

Naquela tarde, mesmo, indo ao Tom, com Margot, Fanny sabia que estava fugindo de si mesma, evitando voltar para casa.

Sabia que Edward estaria lá, que teria de olhá-lo e se sentir confusa e inútil, sem poder agarrar a oportunidade de falar com ele, de abrir-se de ser sua amiga, de cativá-lo.

Seu rosto ficou triste, muito triste, Margot notou isso.

— Fanny, está sonhando novamente — disse ela, tocando o braço da amiga.

Fanny levantou a cabeça, desconsolada.

— Gostaria de ser como você, Margot.

— Como eu? — sorriu Margot, envaidecida.

Via Fanny como uma garota que esquecera de crescer, que desabrochara sem sentir.

— Você é tão segura, as pessoas olham você, os homens a cobiçam... A gente nota isso.

— E você gostaria que fosse assim com você também?

— E como...

— Por que não tenta, então, Fanny?

— Tentar, como?

— Como eu já disse, seja sexy. Os homens gostam disso. Sexy e misteriosa, com uma aparência fatal, como aquelas heroinas de filmes antigos.

— Falar é fácil, mas olhe para mim, Margot. Tenho um metro e sessenta e cinco de altura, olhos grandes e sardas. Como ser isso que você falou se sou sem graça, e deselengante?

— Você se sente assim?

— E poderia me sentir de outra forma?

— Então seu problema está aqui — disse Margot, apontando para a própria cabeça.

Fanny abaixou a cabeça. O garçom trouxe as bebidas. A garota apanhou seu copo e bebericou levemente. Seus pensamentos voavam céleres à procura daquela imagem masculina que vivia agora em seus pensamentos.

Se ao menos tivesse a segurança e a figura de Margot. Surgiria diante de Edward com imponência, impressionando-o. Veria nos olhos dele mais do que aquele olhar simples de amizade passageira.

Enxergaria neles o desejo, a cobiça, a paixão violenta. Seria mulher o bastante para provocá-lo, oferecer-se. Noites memoráveis aconteceriam entre aquelas paredes frias que a haviam cercado durante tanto tempo.

O silêncio deixaria de ser seu companheiro constante. Não mais teria tempo para folhear revistas e ficar durante horas debruçada sobre cenas de amor e carinho.

Iria ela mesma recriar todas aquelas cenas, deixando correr livremente toda a sua imaginação sensual. O erotismo chegaria a extremos.

Edward cairia a seus pés, seria dominado pela presença de Fanny. Ele cantaria hinos de amor, recitaria poemas de improviso, fazendo de Salomão um mero aprendiz nas artes do amor.

De duas pessoas fariam uma. Perderiam suas individualidades naquele encontro brutal e delicioso, agonizando noite após noite no calar das emoções mais profundas, no encontro mais sublime, na busca mais intima.

— Fanny, você está bem. — indagou Margot, percebendo que a amiga apertava com força o copo entre suas mãos, como querendo parti-lo em dois.

Fanny levantou os olhos para ela, percebendo que mais uma vez sonhara. A idéia de que sonharia sempre, lamentando-se no despertar, era dolorosa.

Podia imaginar mil e uma atitudes que a aproximariam de Edward, que o fariam notá-la, mas sabia que nenhuma delas seria posta em prática.

Aquela sensação de inutilidade que afogava todos os seus instintos de mulher prostrou-a, mais uma vez, num desânimo irrecuperável.

— Fanny, pare de sonhar, tola! — repreendeu-a Margot. — Seu caso é sério, você tem de começar a agir, para o seu próprio bem.

— Agir, está aí uma palavra difícil para mim. Eu simplesmente não sei como fazer. Quando olho Edward, fico boba, perdida, tonta mesmo.

Margot tomou um gole de sua bebida, sorrindo solidária. Fanny era tão insegura e tão infantil, não havia como animá-la.

— Esse Edward é tudo que você falou mesmo?

— Eu nem disse a metade, Margot. Ele é maravilhoso, é único.

— Ouvindo-a falar desse modo, sinto-me tentada a conhecê-lo.

— Então, por que não faz?

— Fanny, compreende o que está me oferecendo?

— Não estou oferecendo nada...

— Quer que eu conheça Edward?

— Sim, por que não? Você vai ver como eu tenho razão em adorá-lo como eu o adoro.

— Você é maluca, Fanny! A primeira regra que uma mulher deve aprender é nunca dividir alguém que lhe seja caro, principalmente se ele é do sexo oposto.

— Ora, Margot, você é minha amiga. E depois, infelizmente, nada existe entre eu e Edward.

Talvez nunca venha a existir — terminou ela, com tristeza.

— Fanny, você me pediu um conselho, não foi?

— Foi.

— Bem, vamos pôr as coisas nos seus devidos lugares. Edward é o homem de sua vida, não é?

— Sim.

— Bem, ele não vai cair em seus braços, a menos que você os estenda e corra atrás dele.

— Correr atrás dele?

— Discretamente, é claro. É preciso sutileza, estratégia.

Fanny apanhou seu corpo e bebeu um gole, com desânimo.

— Não sei fazer isso, Margot.

— Bem, vou ser clara. Comece convidando-o para jantar com você.

— Sozinhos! — retrucou a garota, os pensamentos voando em deliciosas fantasias.

CAPÍTULO 2

Margot balançou a cabeça de um lado para outro, desanimada. Fanny simplesmente não existia. Era difícil entendê-la.

Olhou a amiga. Fanny apresentava novamente aquele olhar sonhador e distante. Podia perceber claramente cada pensamento dela, pelas mudanças em sua fisionomia.

Fanny estava imaginando a cena do jantar. Todo o ambiente fora preparado romanticamente. Havia flores nos vasos. A mesa ocupava quase toda a minúscula sala e estava na penumbra.

Sobre a mesa, um castiçal de prata como um que ela vira num filme. Talhares reluzentes, copos finíssimos e uma toalha impecável completavam a ornamentação.

Ao lado da mesa, um carrinho discreto com os pratos a serem servidos, todos em recipientes cobertos que, ao serem destapados, deixariam escapar um vapor aromatizado capaz de aguçar o apetite.

Ela ouvira Edward fechando a porta de seu apartamento, ao lado, e depois seus passos soando no corredor. Antes de ir para a porta, Fanny pararia diante do espelho.

Retocaria com o dedo mínimo o batom no canto dos lábios. Piscaria os olhos, testando a firmeza de seus cílios postiços. Daria um último toque nos cabelos, puxaria um pouco mais as alças do vestido, deixando descobertos os ombros, e iria abrir a porta.

— Olá! Espero não estar atrasado — diria ele, com as mãos às costas.

— Chegou bem na hora. Acabei de aprontar tudo. Entre — responderia ela.

— Para você! — exclamaria ele, estendendo os braços e entregando-lhe um ramalhete de flores.

Fanny ficaria toda emocionada, tomaria as flores das mãos dele, cuidado para que seus dedos se roçassem, depois as levaria ao rosto, aspirando o perfume.

— São lindas! — diria.

— Elas perdem parte de sua beleza, diante de alguém incomparável — diria ele, ou qualquer outro comentário lisonjeiro semelhante.

Ele entraria. Fanny fecharia a porta e iria apanhar um vaso onde colocaria as flores. Ele ficaria parado ao lado da mesa, observando Fanny em cada movimento.

Ela o surpreenderia nesse olhar e poderia ler uma admiração confessa nos olhos dele.

Haveria um brilho estranho e Edward estaria trêmulo e emocionado.

— Por favor, sente-se! — ofereceria ela, tentando dar-lhe um pouco de sua segurança.

Ele sorriria, ainda fascinado, e procuraria uma cadeira. Veria a jarra com um coquetel e se serviria.

— Sirvo para você também? — indagou ele.

— Por favor — responderia ela, voltando à sala.

Ao vê-la aproximar-se da cadeira. Edward se levantaria apressadamente e iria ajudá-la.

Quando empurrasse a cadeira, o perfume dos cabelos dela chegaria até ele.

Edward ficaria terrivelmente perturbado. Suas mãos se soltariam do encosto da cadeira e pairariam sobre os ombros de Fanny.

Pressentindo o próximo movimento, ela voltaria ligeiramente o rosto, olhando-o com um sorriso encorajador.

— Fanny, eu a adoro! — diria ele, beijando-a sofregamente nos ombros nus.

— Edward, meu menino! — exclamou ela, acariciando os cabelos dele com ternura.

Ele estaria ansioso por ela, mas Fanny saberia como controlá-lo. Seria preciso algum tempo juntos, deixando acontecer cada vez mais forte aquele clima de intimidade que fatalmente os uniria naquela noite.

— Edward, o jantar está servido. Não vamos deixá-lo esfriar — diria ela, controlando suas emoções.

— Oh, Fanny! Quem pode pensar em comida agora? — perguntaria ele, ofegante e febril, beijando-a no pescoço e nos ombros.

Quando ele falasse, seus lábios quase tocariam os ouvidos da garota, fazendo-a arrepiar-se excitada.

— Edward, temos a noite toda, meu bem.

— Não posso esperar. Um beijo, por favor! Um beijo antes que eu fique louco de paixão —

suplicaria ele, as mãos avançando pelo corpo dela.

— Está bem, amor — concordaria ela, segurando-lhe o rosto.

Seus lábios se aproximariam dos lábios dele e o toque mágico do amor poria ambos emocionados e vibrantes.

— Fanny! — chamou-a Margot.

— Sim — respondeu ela, com vibração na voz.

— Fanny, pare de sonhar.

— Oh, Margot! Olhe o que você fez...

— O que eu fiz? — indagou Margot, surpresa.

— Estava tão bom...

— Pelo tanto que sonhou acordada agora, penso que esse jantar foi maravilhoso, não?

— nem havia começado.

— Não? Então o que estavam fazendo?

Um sorriso maroto brilhou nos olhos de Fanny por alguns instantes, o tempo suficiente para que ela pudesse perceber que a realidade era outra e aquele jantar era apenas uma possibilidade remota.

— Então, gostou da minha sugestão? — quis saber Margot.

— A respeito do jantar?

— Sim, é ótima mas... eu acho que não seria capaz.

— Ora, Fanny, vamos!

— Verdade, Margot. Eu não saberia o que fazer, eu trocaria os pés pelas mãos e o jantar seria um desastre.

Margot sorriu com desalinho. Nada havia que pudesse ajudar Fanny, enquanto ela continuasse pensando daquela forma. A menos que decidisse mudar seu comportamento, sua maneira de encarar as coisas e refazer sua personalidade com um pouco de autodeterminação, nada aconteceria em sua vida.

Como ajudar Fanny a conseguir isso era uma pergunta sem resposta para Margot.

— Sozinha eu não poderia conseguir isso. Sozinha eu... — ia dizendo Fanny, mas interrompeu-se, olhando Margot.

A garota percebeu alguma coisa no olhar de Fanny e pôs-se na defensiva.

— Em que está pensando, Fanny?

— Margot, você é minha amiga?

— Sou, claro.

— De verdade?

— Ora, Fanny, que pergunta mais idiota. Claro que sou sua amiga de verdade.

— Está disposta a me ajudar em tudo que for possível?

— Eu gostaria, mas, francamente, eu não sei o que possa fazer.

— Pois eu sei. Vamos preparar um jantar para o Edward.

— Vamos? — indagou Margot, surpresa.

— Olhe, quando alguém está aprendendo a andar de bicicleta, é preciso que uma outra pessoa segure a bicicleta por um tempo, não é mesmo?

— Acho que sim, mas o que isso tem a ver conosco?

— Você vai segurar a bicicleta para mim, até que eu possa andar sozinha.

Margot primeiro tomou mais um gole de seu coquetel, acendeu um cigarro, depois encarou Fanny. Aquele brilho nos olhos dela simplesmente não tinha lógica?

— Quero ver se entendi — disse Margot. — Você quer que eu a ajude a preparar esse jantar?

— Sim. Você faria companhia para nós dois, até que as coisas estivessem sob meu controle. Depois disso, discretamente, você nos deixaria a sós. O que acha?

— Acho a coisa mais maluca que já ouvi.

— É o único modo, Margot. Sozinha eu não teria coragem nem assunto para ficar diante dele, apesar de desejar isso mais do que qualquer outra coisa. Por favor, Margot!

Margot encarou a amiga. Se Fanny achava que aquela poderia ser uma solução para seus temores e insegurança, a única coisa a fazer era concordar com ela.

Fanny era inexperiente demais, precisava mesmo de ajuda. Mal sabia que duas mulheres e um homem nem sempre formam uma boa combinação, principalmente se Edward fosse a maravilha que Fanny descrevera.

De certa forma, Margot estava curiosa a respeito dele. Deveria ser um homem como poucos. Atlético, jovem, simpático, bonito e atencioso. O que mais se poderia esperar de um homem?

Mas havia algo que Margot não quis analisar por ser egoísta demais. Por alguns instantes naquela combinação maluca proposta por Fanny, poderia acontecer o inevitável.

Margot era uma garota experiente e sabia de seus atributos como mulher. O que poderia acontecer se Edward viesse a se interessar por ela?

Ou então, se acontecesse o contrário. Margot adorava homens atléticos, jovens, simpáticos e atenciosos. Seria misturar pólvora com fogo, mas ela não quis se aprofundar nisso.

O olhar suplicante de Fanny cortava seu coração. Não havia outra alternativa, a não ser concordar com ela.

— Está bem, Fanny. Quando quer fazer esse jantar?

— Que tal amanhã?

— Sexta-feira, parece-me uma boa escolha. Teria o sábado para dormi até tarde, se algo viesse a acontecer entre os dois — opinou Margot, com um sorriso malicioso.

— Margot! Em que está pensando?

— Fanny, não me diga que não pensou na hipótese de passar a noite com ele.

— Passar a noite com ele? — repetiu Fanny e, antes que a idéia pudesse chocá-la, suas fantasias já voavam adiante, leves e sugestivas.

Como aconteceria. Seria após o jantar, era claro. Fanny ofereceria café... Não café não era chique. Talvez um licor, havia propagandas interessantes sobre os licores nos supermercados.

Definitivamente, a escolha seria o licor. Serviria um. Conversariam sobre amenidades, como que deixando apenas o tempo passar e a intimidade crescer.

O licor os deixaria eloqüentes e afogueados. O jantar poria ambos lânguidos, levemente cansados. Dessa combinação maravilhosa surgiria um estado de espirito propicio aos acontecimentos do amor.

Deixariam a mesa — Fanny riu, tentando imaginar para onde iriam.

Excluindo-se aquela mesa, o único local onde poderiam se acomodar seria a cama.

A idéia pareceu tentadora. Sim, iriam passear pelo apartamento, talvez até a janela.

Olhariam a cidade, enquanto o letreiro luminoso do prédio vizinho faria seus rostos alternarem cores.

Estariam juntos, os corpos quase se tocando. Como uma serpente que se esgueirasse pelos troncos de uma árvores.

Beijos se seguiriam, crescendo em empolgação. Ele a beijaria no pescoço, nos ombros.

Suas mãos buscariam as alças do vestido para soltá-las.

Seus corpos se esfregariam gostosamente. Edward a empurraria na direção da cama, onde cairiam, unidos num abraço febril e apaixonado.

A luz seria apagada. Apenas o castiçal sobre a mesa jogaria sombras e luz, num ambiente de sensualidade.

— Deus! Seria divino! — exclamou Fanny, sinais de excitação manifestando-se em seu corpo.

— como disse? — quis saber Margot.

Fanny suspirou e segurou o copo, tomando mais um gole, o último.

— Nem sei como lhe agradecer, Margot. Você é minha de verdade.

— Está bem, agora vamos aos detalhes. Amanhã... Não, está noite mesmo você vai convidá-

lo. Se ele concordar, amanhã sairemos juntas para o almoço e discutiremos o que vamos preparar, está bem?

— Está ótimo.

— Agora, um outro detalhe; como está seu guarda-roupa?

— Meu guarda-roupa? Pobre, não tenho nada de especial... Puxa, é mesmo! O que vou vestir?

— Cuidaremos disso amanhã. Você vai comprar algo provocante e sexy. Além disso, vamos estudar um meio de arrumar seus cabelos e fazer uma pintura bem adequada.

— O que acha de um vestido com alças?

— Alças? Para quê alças? Tem que ser um modelo mais provocante, daqueles que basta puxar o zíper para que ele escorregue pelo corpo. O que acha?

— Divino!

— Decidido. Convide-o esta noite. Amanhã cedo trataremos de todos os detalhes, está certo?

— Nunca esteve tão certo — vibrou Fanny, sorrindo alegremente e excitada com o acontecimento.

***

Estava de volta aos eu apartamento, empolgada com tudo. Planos e fantasias giravam em sua cabeça, tirando-lhe até o apetite.

Deitou-se em sua cama e ficou olhando para o teto. As coisas mais maravilhosas se antecipavam diante de seus olhos.

A figura de Edward surgia, dominadora, insinuante e deliciosa. Pensar nele, principalmente naquela noite, era a coisa mais agradável do mundo.

Durante alguns minutos, as reflexões de Fanny giravam em torno de uma só coisa: o encontro com Edward, o seu belo príncipe encantado, o homem de seus sonhos. Seria uma idéia maravilhosa. Dois seres partilhando de uma intimidade total. Dois corpos procurando ser apenas um. Duas mentes unindo-se num só pensamento.

Ouviu passos no corredor, depois barulho no apartamento ao lado. Edward acabara de chegar. Seu coração disparou. Seu corpo todo tremeu.

Fanny se viu incapaz de se mover. Seus músculos não obedeciam. Ela queria levantar, precisava levantar. Tinha de convidá-lo a saber a resposta. Diabos! O que acontecia afinal?

CAPÍTULO 3

Respirou fundo, procurando descobrir, no âmago dos eu ser, aquela força miraculosa que socorre os covardes nos momentos de extremo perigo.

Edward começou a cantarolar no apartamento ao lado. Sua voz grave e quente fez o corpo de Fanny arrepiar-se perigosamente.

Ele estava de bom humor após seu dia de trabalho e isso era muito bom. Poderiam conversar. Possivelmente Edward lhe oferecesse uma bebida. Ela aceitara, estava claro.

Suas fantasias começaram a ganhar força, vencendo-a. Tudo se tornava mais fácil naquela fuga. Fanny era uma outra garota, forte e decidida, capaz de traçar seus caminhos.

Deixava de ser a garota tola e inexperiente e passava a agir francamente, exibindo-se segura e confiante. Sim, ele lhe ofereceria uma bebida.

Conversariam, apenas para matar o tempo. Assuntos não faltariam. Assuntos nunca faltavam nas fantasias de Fanny. E, quando finalmente eles se esgotavam, o momento da ação não era evitado.

— Diabos! — protestou ela contra si mesma, levantando-se e indo até um espelho.

Olhou-se demoradamente, enquanto prestava atenção à voz de Edward do outro lado da parede. Ternamente seus olhos se fizeram românticos e ela se apoiou à parede, da forma como gostaria de se apoiar no peito de Edward.

Suas mãos finas e deliciosas espalmaram-se contra o concreto frio, tecendo caricias imaginárias pelo corpo do rapaz. Comovida, Fanny beijou a imagem fria de seus sonhos.

Depois, sobressaltando-se, recuou, horrorizada consigo mesma. Voltou a olhar-se no espelho.

— Fanny, você é uma garota ou um rato! Vá, demônio! Vá! — ela ordenou a si mesma.

Havia decisão em seu rosto. Fanny encarou-se, surpresa. Podia abrir a porta naquele mesmo instante e ir ao apartamento dele. Podia...

— Então não fique parada aí, menina, Vá! — repetiu-se.

Respirou fundo. Seu corpo tremeu mais forte e seu coração bateu descompassado. Uma emoção vertiginosa pôs seu corpo num estado de suspense que ameaçava tirar-lhe as forças e prostrá-la desanimada sobre a cama novamente.

Antes que isso acontecesse, Fanny correu para a porta de seu apartamento e abriu-a. Viu-se no corredor. Apenas poucos passos a separavam da porta do apartamento de Edward.

O corredor estava vazio. Apenas a voz de Edward vinha, agora fracamente, quebrar um silêncio acolhedor. Fanny tremia, assustada, mas teria que ser naquele momento ou nunca mais.

— Pelo tempo que demorou para atravessar o corredor, julgou ter se arrastado até aquela porta, batendo suavemente. Edward continuou cantarolando, pois não a tinha ouvido bater.

Fanny aguardou mais alguns segundos, depois insistiu nas batidas, agora mais fortes e nervosas.

Edward parou de cantarolar. Fanny bateu novamente, aproveitando o silêncio dele.

— Quem é? — indagou ele.

— Sou, Fanny — respondeu ela, num sopro de voz.

— Quem? — insistiu ele,

— Fanny — quase gritou ela agora.

Passos soaram firmes até a porta, que se abriu e mostrou o sorriso largo e franco de Edward.

— Olá, Fanny! Não quer entrar? — indagou ele.

Fanny passeou os olhos pelo apartamento dele, indecisa. Parecia presa à porta, incapaz de mover-se.

— Olá! — gaguejou ela em resposta.

— Vamos, entre! — insistiu ele, segurando-a pelo braço e arrastando-a para dentro.

Quando ele a olhou, Fanny instintivamente pôs a outra mão sobre o braço que ele segurava.

Estava ali naquele lugar, tocado por ele, um pouco de calor e uma força persuasiva intensa.

— Posso ajudá-la em alguma coisa? — quis saber ele, enquanto se servia de um suco de frutas numa jarra na geladeira. — Aceita?

— O que é? — indagou ela, precavida em suas próprias fantasias.

— Suco de frutas, uma mistura ideal que consegui desenvolver — riu ele.

— Sim, claro — concordou ela, com um sorriso sem graça.

No momento, não sabia se teria preferido ou não algo um pouco mais forte. Seria o ideal para que suas fantasias tivessem um pouco de lógica.

Edward serviu um copo e levou-o até a garota. Ao estender o braço, revelou um forte bíceps quase estourando a manga da camisa. Os olhos da garota passaearam pelo corpo dele, subindo pelos braços, admirando os ombros largos e retos, descendo, a seguir, pelos músculos definidos contra a camiseta de malha.

— Sente-se — pediu ele indo retirar uma caixa de cima de uma poltrona.

— Obrigada! — agradeceu ela, notando a bagunça que ainda reinava naquele apartamento.

Edward pareceu entender o que ela observava.

— Desculpe-me, ainda não tive tempo de arrumar tudo isso. Ando muito ocupado... Estou treinando a equipe do colégio para o campeonato de basquete e não tenho nem podido respirar.

— Ora, Edward, que bobagem!

— Mas o que a trouxe aqui, afinal? — indagou ele olhando-a mais de perto.

Fanny se sentiu confusa perturbada pelo olhar dele. Edward demonstrava ver alguma coisa interessante no rosto dela.

Aproximou-se um pouco mais, depois se abaixou diante da garota. Sua mão tocou o queixo de Fanny, fazendo-a levantar o rosto contra a luz.

Ela estremeceu toda, emoções violentas abalando seu corpo e fazendo uma confusão total em seus sentidos. Aquela proximidade de Edward a assustava e atraía ao mesmo tempo.

Ele sorriu, deliciado com algo inexplicável a ela ainda.

— São divinas! — exclamou ele, com uma sinceridade deslumbrada em seu tom de voz.

— Divinas? — gaguejou ela, sem saber a que ele se referia.

— Sim, divinas — repetiu ele, extasiado.

— Do que está falando?

— De suas sardas.

— Minhas o quê?

— Sardas! Adoro-as, sabia? — riu ele, levantando-se e indo se sentar numa cadeira diante dela.

Fanny o olhou, entre ofendida e lisonjeada, tendendo a incrédula. Pensou que ele talvez estivesse falando sério. Depois julgou que ele estivesse zombando dela.

Sardas! Onde se vira tamanha disparate! Só podia ser uma brincadeira, uma gozação, concluiu Fanny. Dentro dela, como um balão de gás furado sentiu esvaziar-se de todas aquelas sensações emocionantes que ele provocara ao se aproximar e tocá-la.

Sentiu-se triste e ofendida, olhando-o sorrir diante dela. Desejou esbofeteá-lo, xingá-lo, esmurrá-lo. Ele não devia ter feito aquilo. Ela nada fizera para merecer algo tão cruel.

Edward notou a transformação no rosto dela, ficando apreensivo.

— Eu disse algo errado? — indagou ele, sincero.

— Você disse tudo errado — explodiu ela em sua revolta, levantando-se e caminhando para a porta.

— Espere, Fanny! — pediu ele, alcançando-a e segurando-a pelo braço.

Era um toque suave, apensar de firme e decidido. Fanny desejou ter forças para escapar dele, fugir dali e nunca mais voltar a pensar em Edward, mas algo a subjugava inapelavelmente.

— Fanny, desculpe-me se eu disse algo errado — pediu ele segurando-a pelos ombros e fazendo-a voltar-se para ele.

Fanny obedeceu aos comandos carinhosos daquelas mãos, mas não pode encará-lo.

Edward agiu por ela. Sua mão segurou o queixo da garota, forçando-a a olhá-lo.

— Eu não quis ofendê-la em nada. Eu de fato adoro mulheres com sardas e você me parece a mais bonitinha de todas as que já conheci.

— Pareço?

— Não, você é a mais bonitinha que já conheci. Estou falando sério. Não quero perder uma boa amiga desse modo.

— Amiga?

— Sim, somos amigos, não?

— Sim, claro — concordou ela, com desalento.

Estavam um diante do outro e eram apenas amigos. Se estendessem os braços, poderiam abraçar-se, mas eram apenas amigos.

Fanny não queria isso. Queria ser algo mais que apenas uma grande amiga. Tinha a chance em suas mãos. Podia confessar isso a ele, podia mudar tudo naquele mesmo instante.

Ficou calada, no entanto, toda uma paixão sufocando-se em sua fraqueza e impossibilidade.

— Sem ressentimento? — indagou ele.

— Sem ressentimentos — concordou ela.

— Mas você tem mesmo as sardas mais bonitas que já conheci — sorriu ele, voltando ao seu lugar na cadeira.

Fanny ficou parada, olhando para ele. Edward apontou-lhe a poltrona, num convite. Ela suspirou. Sardas! Era cruel da parte dele dizer aquilo. Não elogiava nada mais nela, apenas aquelas velhas e enferrujadas sardas.

Voltou ao seu lugar na poltrona, quase tropeçando numa pilha de livros.

— Diabos! — exclamou ele. — Preciso encontrar um tempo para pôr um pouco de ordem nisso tudo. Talvez... — interrompeu-se ele, olhando-a com interesse.

Havia uma proposta em seu olhar e Fanny não a entendeu, mas adorou-a, sentindo reacender aquelas emoções de momentos antes.

— Você ia dizer alguma coisa? — indagou ela.

— Talvez você possa me ajudar.

— Eu? Como?

— Tem algum programa para o final de semana?

— Não, ainda não — respondeu ela, incapaz de confessar que nunca tinha um programa para o fim de semana.

— Não gostaria de me ajudar?

— Ajudá-lo?

— Sim, e arrumar meu apartamento. Confesso que me sinto incapaz disso. Nunca faço nada certo, quando se trata de coisas assim.

Fanny suspirou, desolada. Era o primeiro convite masculino que recebia para um fim de semana. Sonhara com isso por muito tempo.

Suas fantasias sempre foram as mais empolgantes, cheias de aventuras e perigosos. Um fim de semana era algo importante, muito importante.

Sempre quisera um, mas nada de romântico haveria naquele. Não era um bom começo, não era galante da parte dele.

— E então, o que me diz? — insistiu ele.

— Bem.. Claro, eu o ajudo.

— Ótimo! Em troca eu lhe ofereço um jantar, está tudo bem assim?

— Ah, foi bom você falar nisso — lembrou-se ela.

— Sobre o quê?

— Sobre o jantar. Que acha de... Jantar em meu apartamento amanhã?

Edward ficou sério e deslumbrado. Depois, demonstrando muita satisfação, um sorriso enorme brilhou em suas faces.

— Você está me convidando?

— Sim, quer?

— Claro que sim — aceitou ele, os olhos fitando-a com uma ternura desmedida que Fanny não notou.

— Não vai ser nada especial, apenas uma recepção de boas-vindas, o que acha?

— maravilhoso de sua parte. Agradeço muito, Fanny.

— vou apresentá-lo a uma amiga minha...

— Amiga? — interrompeu-se ele, levemente contrariado.

— Sim, você vai adorá-la. Margot é sensacional.

— Margot.

— Sim, é minha colega de escritório. Uma criatura fantástica. Muito simpática, bonita, capaz de conversar com a gente por um longo tempo sem se mostrar aborrecida. É a pessoa em que mais confio...

— Deve ser muita sua amiga mesmo — comentou Edward, cortando a empolgação com que Fanny falava sobre Margot.

Ele se levantou e foi até a geladeira. Fanny percebeu claramente que ele estava aborrecido, mas não pode entender o motivo.

— Você irá, então.

— Sim, claro, eu prometi, não? — respondeu ele, sem se voltar.

Fanny se pôs de pé. Edward tirava qualquer coisa do congelador e levava ao forno. A garota se viu perdida, compreendendo que era hora de encerrar a visita. Talvez Edward estivesse com pressa... Possivelmente voltaria para o colégio, já que estava treinando uma equipe.

— Até amanhã, Fanny — respondeu ele, levantando ligeiramente os olhos para ela.

Fanny foi até a porta, abriu-a, olhou mais uma vez na direção de Edward. Ele a olhava e a expressão de seu rosto indicava que qualquer coisa estava errada, contra o gosto dele.

Fanny fechou a porta e voltou aos eu apartamento. Estava abobalhada. Aquela despedida não fora nada romântica. Tentou descobrir o que dissera de errado, mas não conseguia se lembrar de nada.

Apenas o convidara e falara sobre Margot. Ele aceitara e... a não ser que tivesse se lembrado de algum compromisso para a noite seguinte.

Só podia ser isso. Diabos! Podia ter perguntado primeiro, repreendeu-se ela, voltando a bater na porta do apartamento de Edward.

Ele veio abrir. Olharam-se como se algo estivesse irremediavelmente estragado entre eles.

— Desculpe-me, eu esqueci de perguntar se você tinha algum compromisso para amanhã.

— Não, não tenho nenhum mesmo.

— Bem, é que pensei que... Se tiver, pode dizer. Podemos marcar o jantar para um outro dia.

— Está tudo bem, Fanny. Jantaremos juntos amanhã. Você, eu e sua amiga Margot —

declarou ele, esforçando-se para não ser irônico.

— Eu detestaria atrapalhar algum programa seu.

— Está tudo certo, Fanny. Amanhã à noite!

— Amanhã à noite! — repetiu ela, com um sorriso tímido nos lábios.

Retornou ao seu apartamento. Entrou, fechou a porta e foi se atirar na cama. Respirou fundo, tentando sentir aquelas emoções que haviam se esvaziado dentro dela.

O que dissera de errado, afinal de contas? Não conseguia entender aquela mudança brusca de comportamento da parte de Edward.

Estava sendo pessimista demais, quando, em vez de se recriminar, devia estar orgulhosa de si mesma. Fora uma vitoria, uma grande e brilhante vitória.

Conseguira sair de sua casca de insegurança e ir até o apartamento dele. Conseguira até conversar um pouco com ele. Fizera, o que era mais importante, o convite.

Edward aceitara. Era o primeiro passo, o inicio do caminho. Fanny sentia-se feliz consigo mesma.

Pensou no rapaz com emoção. Reviu os momentos em que ele a tocara, primeiro no braço, fazendo-a entrar. Depois, quando se aproximara e a tocara no queixo. Fora emocionante.

Depois ainda, quando ela se levantara porque ele rira de suas sardas. Edward a segurara pelos ombros. Ficaram perigosamente próximos. Fora uma oportunidade perdida, mas isso não contava.

O importante era que estava deixando de lado suas fantasias e atirando-se na realidade, fazendo suas próprias oportunidades. Outras surgiriam, estava certa disso.

CAPÍTULO 4

O dia seguinte foi todo de expectativa para Fanny. Ao lado de Margot, percorreu as mais movimentadas lojas do centro de Nova Iorque.

Experimentou as roupas mais incríveis, buscando uma que realçasse todos os seus encantos de garota mignon e assustada.

Finalmente, o vestido certo, como Fanny desejara, apesar da oposição de Margot, que desejava um outro mais audacioso, sem alça sem costas, colante e provocante.

Fanny decidiu-se pelo que a agradava e isso era importante para ela, pois somava-se a uma seqüência de vitórias pessoais que ela queria acumular.

Teria, cedo ou tarde, que se libertar, agindo por conta própria. Assim, nada mais sensato que iniciar imediatamente aquela campanha de libertação. Os argumentos de Margot eram convincentes a respeito do vestido sem alças, mas Fanny agora tinha seus próprios argumentos e ouvi-los lhe pareceu o mais acertado.

— E agora? — indagou Fanny, quando deixaram a seção de vestidos da loja.

— Como vai sua roupa de baixo?

— É preciso também?

— Nunca se sabe... Às vezes o interruptor está tão longe — explicou Margot, com picardia.

Fanny sorriu, deliciada, compondo em sua mente aquela imagem de excitação e intimidade.

Teriam jantado. Fanny serviria licor e depois iriam até a janela. Edward acabaria abraçando-a e, finalmente, levando-a para a cama.

Havia um abajur ao lado da cama que poderia ser desligado com facilidade. Mas, naquele apartamento pequeno onde quarto e sala se confundiam, uma lâmpada acesa em qualquer parte seria embaraçante e revelador.

Suspirou, enquanto Margot a arrastava para seção de roupas intimas.

Minúsculos pedaços de tecido colorido, rendado, florido, alternando cores sóbrias com outras mais chocantes, numa visível intenção de cobrir apenas o essencial, sem afetar a visão do conjunto.

— Levarei esta! — decidiu-se ela.

— Só uma? — indagou Margot.

— Por quê?

— Imagine se ele resolve ficar o fim de semana todo. Não usará a mesma seguidamente, não?

— Você pensa em tudo, Margot — sorriu Fanny, deliciada com a idéia e passando a escolher mais algumas peças.

Seus olhos resvalaram para uma pilha de sutiãs transparentes. Pareciam chamar por uma visita, por uma escolha. Fanny relutou.

Olhou disfarçadamente para Margot. Era fácil perceber que a amiga não usava sutiã.

Definitivamente, decidiu que também não o usaria.

— Acho que isso é o bastante — disse ela, terminando sua escolha.

— Então vamos. Comeremos qualquer coisa na lanchonete da loja, depois sairemos à procura de um cabeleireiro.

— Acha que ele poderá dar um jeito nos meus cabelos?

— E por que não? Eles fazem verdadeiros milagres hoje em dia — tranqüilizou-a Margot.

Algum tempo depois, diante de um espelho, Fanny revivia a historia do patinho feito. Não podia entender o que fazia aquele jovem habilidoso em seus cabelos, mas podia perceber a mudança.

Quando, finalmente, Fanny se viu de pé, diante do espelho os cabelos cuidadosamente tratados, brilhantes e assentados num penteado moderno achou incrível que pudesse ter melhorado tanto.

Margot, ao lado dela, sorriu, satisfeita pela amiga. Os olhos de Fanny mergulharam na própria imagem, enquanto ela imaginava a reação de Edward, vendo-a naquela noite.

Ele traria flores e as estenderia para ela. Depois, pego de surpresa, ele a olharia, percebendo a diferença entre a Fanny de ontem e a de hoje.

Seus olhos brilhariam, revelando admiração. Ele entreabriria os lábios trêmulos de emoção e tentaria balbuciar um elogio, mas sua voz estaria embargada.

Fanny sorriria, incentivando-o. Ele sorriria em resposta, deslumbrado.

— Estou no apartamento certo? — poderia dizer ele, em tom de brincadeira para disfarçar o impacto sofrido.

— O que você acha? — indagaria ela.

— Você está simplesmente linda — murmuraria ele, enquanto Margot surgiria por detrás do ombro de Fanny.

— Fanny, que acha de corrermos para o escritório agora?

A garota sacudiu a cabeça, acordando.

— Puxa, é mesmo!

Quando voltavam, Fanny se lembrou de mais um detalhe para fazer daquela uma noite inesquecível.

— Margot, já pensou no que vamos preparar para o jantar?

— Sim, já pensei em tudo. Quando sairmos do escritório, passaremos no supermercado e compraremos o que for necessário.

— Será que vai dar tempo para fazer tudo?

— Como assim?

— Até que eu me troque e você se troque e o jantar fique pronto...

— Para que horas você o convidou?

— Horas? Eu não mencionei o horário.

— Fanny! Isso foi imperdoável! — repreendeu-a Margot. — Tente imaginar se ele chegar cedo demais e nos apanha ainda preparando o jantar.

— Seria um desastre, não?

— E que desastre.

— Talvez eu possa remediar isso, na hora.

— Como?

— Pondo um bilhete na porta do apartamento dele, avisando-o da hora certa.

— É uma solução, mas não é nada elegante.

— Mas é prático, não? Além disso, fica informal, não acha?

— Sim, informal — cortou Fanny, com simplicidade.

Naquela tarde, no escritório, foi difícil para Fanny se concentrar em seu trabalho. Felizmente era final de semana e havia muito pouco a fazer.

Suas fantasias foram mais intimas e excitantes, até um momento em que tudo estalou na sua mente, deixando-a simplesmente apavorada.

A influencia de Margot e a naturalidade com que ela tratava os assuntos talvez me tivesse dado uma falsa impressão de segurança.

O problema todo existia dentro dela, mas fora minimizado pelo contato com Margot. Era, no entanto, muito mais sério do que imaginava.

Durante todo aquele tempo, a idéia de ficar a sós com Edward lhe parecera normal e excitante. Acontece que Fanny não tinha experiência alguma nisso.

Conceitos enraizados dentro dela, velhos temores e tabus ressurgiram, oprimindo-a, destruindo toda aquela sua disposição de libertar-se de si mesma.

Não, não seria tão fácil e tão romântico entregar-se a um homem. Era virgem e isso poderia ser um sério problema no relacionamento que pretendia iniciar.

Tentou lutar contra tudo aquilo, procurando se lembrar de tantos artigos esclarecedores que havia lido em revistas e livros.

Uma coisa era ler aquilo e outra, procurar assimilá-lo na vida real. Seria um encontro intimo de dois corpos, dispostos a vencer todas as barreiras e iniciaram um padrão pessoal de vida.

Seriam detalhes mínimos e importantes que pesariam na realização de tudo, culminando no sucesso ou no fracasso. Não seria uma fotografia diante dela. Tampouco ela seria uma fotografia diante dos olhos dele.

Dois corpos, sem o subterfúgio das roupas, pele contra pele, suor contra suor, hálito contra hálito, perfume se misturando...

Essa naturalidade seria impossível para Fanny. Como vencer tudo que havia dentro dela e buscar retribuir caricias no corpo dele?

Todos os seus pensamentos haviam sido de entrega uma entrega que se iniciara no momento em que seus olhos pousaram sobre Edward, subindo aquelas escadas.

Tudo se acentuara depois, naquelas noites, imaginando-o do outro lado da parede, desfilando seu corpo atlético e saudável.

Deixara de indagar qual a visão que Edward teria dela. O que ele pensaria do seu modo de ser ao fim de tudo? Que conceito moral lhe sobraria, depois daquela entrega fácil de primeira noite juntos.

Não, não podia ser daquela forma, não havia sentido. Seus temores e tabus começavam a falar mais alto, desorientando-a e gerando uma confusão total em sua cabeça.

Olhou para Margot, como que pedindo socorro. Margot levantou os olhos para ela e percebeu o medo e a confusão no rosto travesso de Fanny.

— Algo errado, Fanny? — indagou ela, receosa.

— Acho que sim, Margot — disse Fanny, com voz tremula.

— De que se trata? — indagou a amiga, indo até ela.

— Não posso fazer isso, Margot.

— Refere-se ao jantar?

— Não, a ir para cama com ele.

— Não pode como?

— Não posso forçar, sei lá, acho que...

— Espere aí, Fanny. Não me diga que... Ora, eu devia ter imaginado — falou Margot com desalento.