A jangada por Julio Verne - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
index-1_1.jpg

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

Júlio Verne

A Jangada - 800 léguas pelo Amazonas

SUMÁRIO

Primeira Parte

Um capitão-do-mato

O homem que segurava o documento, cujo último parágrafo

era formado por essa estranha mistura de letras, ficou pensativo por

alguns instantes depois de relê-lo atentamente.

O documento possuía uma centena dessas linhas, que não

eram nem mesmo divididas por palavras. Parecia ter sido escrito há

muitos anos e, na folha de papel grosso coberta pelos hieróglifos, o

tempo já depositara sua pátina amarelada.

Porém, de acordo com que regra as letras haviam sido

reunidas? Aquele homem era o único que poderia dizê-lo. Na

verdade, as linguagens cifradas são como as fechaduras dos cofres-

fortes modernos: elas são protegidas da mesma maneira. Há bilhões

de combinações possíveis e toda a vida de um calculador não seria

suficiente para enumerá-las. Precisamos da "senha" para abrir um

cofre de segurança; precisamos da "cifra" para ler um criptograma

desse tipo. Por isso, é o que veremos, o documento resistira às

tentativas mais engenhosas de decifrá-lo e nas circunstancias da

mais alta gravidade.

 1 

O homem que acabara de reler o documento não passava de

um simples capitão-do-mato.

No Brasil, recebiam a denominação de "capitães-do-mato" os

agentes empregados na busca dos negros fugitivos. Essa instituição

data de 1722. Naquela época, as idéias anti-escravagistas só

existiam no espírito de alguns filantropos. Foi preciso que se

passasse mais de um século para que os povos civilizados

aceitassem e adotassem essas idéias. No entanto, é o que parece,

isso é um direito, o primeiro dos direitos naturais do homem- que e

ser livre, dono de si mesmo e, todavia, milhares de anos

transcorreram antes que surgisse em algumas nações o generoso

pensamento de ousar proclamá-lo.

Em 1852 — ano em que se passa esta história — ainda

havia escravos no Brasil e, conseqüentemente, capitães-do-mato

para caçá-los. Algumas razões de economia política retardaram o

momento da emancipação geral; mas o negro já tinha o direito de

comprar sua alforria e os filhos que dele nasciam já nasciam livres.

Contudo, não estava longe o dia em que esse magnífico país, no

qual poderiam caber três quartos da Europa, não teria um único

escravo entre seus dez milhões de habitantes.

Na realidade, a função de capitão-do-mato estava destinada a

desaparecer num período muito próximo e, na época desta história,

os ganhos conseguidos com a captura dos fugitivos haviam

diminuído sensivelmente. Ora, se durante o longo período em que

os lucros dessa profissão eram bem compensadores, os capitães-

do-mato constituíam um mundo de aventureiros, mais comumente

formado de escravos libertos e desertores que mereciam pouca

estima, é natural que, naquele momento, os caçadores de escravos

pertencessem à escória da sociedade e, muito provavelmente, o

homem do documento não denegria a pouco recomendável milícia

dos capitães-do-mato.

Esse Torres — assim ele se chamava — não era um mestiço,

nem um índio, nem um negro, como a maioria dos seus

companheiros: era um branco de origem brasileira, que recebera um

pouco mais de instrução do que o necessário para a sua situação

presente. Efetivamente, devemos vê-lo apenas como um desses

desclassificados, igual a tantos outros encontrados nas longínquas

regiões do Novo Mundo, e se, numa época em que a lei brasileira

ainda excluía os mulatos e outros mestiços de alguns empregos,

essa exclusão o atingira, não havia sido por causa da sua origem e

sim devido à indignidade pessoal.

 2 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

Aliás, Torres já não estava no Brasil. Recentemente

atravessara a fronteira e havia alguns dias percorria as florestas do

Peru, por onde avançava o curso do Alto Amazonas.

Torres era um homem de uns trinta anos, físico bem

constituído, sobre o qual a fadiga de uma vida um tanto

problemática não parecia ter efeito, graças a um temperamento

excepcional e a uma saúde de ferro.

De estatura média, ombros largos, traços regulares, andar

firme, rosto bronzeado pelo clima ardente dos trópicos, usava uma

espessa barba preta. Os olhos, perdidos sob uma grossa

sobrancelha, lançavam esse olhar vivo, mas seco, das naturezas

impudentes. Mesmo na época em que o clima ainda não o havia

bronzeado, seu rosto, em vez de enrubescer facilmente, devia antes

se contrair sob a influência das paixões condenáveis.

Torres trajava-se de acordo com a moda rudimentar dos

caçadores. Suas roupas davam mostras de um uso prolongado: na

cabeça, usava um chapéu de couro de abas largas, colocado de

través; da cintura para baixo, uma calça de lã grossa que se perdia

no cano das pesadas botas, a parte mais resistente do vestuário;

por cima de tudo, um "poncho" desbotado, amarelado, não deixava

ver como era o casaco nem o que restava do colete que lhe cobriam

o peito.

Mas se Torres era um capitão-do-mato, evidentemente já não

exercia essa profissão, pelo menos nas condições atuais. Isso se via

nos insuficientes meios de defesa e ataque para a perseguição dos

negros. Nenhuma arma de fogo: nem espingarda nem revólver. Na

cintura, apenas um desses objetos que parecem mais um sabre do

que uma faca de caça e que e chamado de "machete". Além disso,

Torres estava munido de uma "enxada", usada particularmente na

caça aos tatus e às cutias, que abundam nas florestas do Alto

Amazonas, onde, geralmente, não há muito o que se temer dos

animais selvagens.

Em todo o caso, naquele dia, 4 de maio de 1852, o

aventureiro devia estar totalmente absorvido na leitura do

documento diante de seus olhos ou, então, acostumado a

perambular pelos bosques da América do Sul, mostrava-se

indiferente aos esplendores das florestas. De fato, nada poderia

distraí-lo da sua ocupação: nem o berro prolongado dos macacos

gritadores que, acertadamente, o senhor Saint-Hilaire comparou ao

ruído da machadada do lenhador descendo sobre os galhos das

árvores; nem o seco tilintar dos anéis do crótalo, serpente pouco

agressiva, é verdade, mas altamente venenosa; nem a voz aguda

do sapo-de-chifre, que leva o prêmio de feiúra na classe dos répteis;

 3 

nem mesmo o coaxar ao mesmo tempo sonoro e grave da rã que

muge, que, se não consegue ultrapassar o boi em Corpulência,

iguala-o na intensidade dos mugidos.

Torres não ouvia nada de todos esses alaridos, que formam a

complexa voz das florestas do Novo Mundo. Deitado ao pé de uma

árvore magnífica, nem ao menos admirava a alta ramagem do "pau-

ferro", de casca escura, cheio de bagos, duro como o metal, o qual

substitui na arma e nos objetos do índio selvagem. Não! Abstraído

nos seus pensamentos, o capitão-do-mato virava e revirava entre os

dedos o singular documento. Com a cifra, cujo segredo possuía,

dava a cada letra o verdadeiro sentido; lia, dominava o sentido das

linhas incompreensíveis para qualquer outro que não ele e, então,

abria um sorriso maldoso.

Depois, ele se deixou levar num murmúrio a meia-voz de

algumas frases que ninguém poderia ouvir nesse lugar deserto da

floresta peruana e que, aliás, ninguém compreenderia:

— Sim — ele disse —, eis uma centena de linhas

nitidamente escritas, que têm para alguém, que eu sei quem é, uma

importância da qual nem desconfia! Esse alguém é rico! É uma

questão de vida ou morte para ele e, em qualquer lugar, isso custa

caro!

E, olhando o documento com avidez:

— Apenas um conto de réis para cada palavra da última frase,

é uma boa quantia! Essa frase tem seu preço! Ela resume todo o

documento! Dá os verdadeiros nomes às verdadeiras pessoas!

Porém, antes que alguém tente compreendê-la, deveria começar por

determinar o número de palavras que contém e, mesmo assim, o

verdadeiro sentido ainda lhe escaparia!

Dito isso, Torres começou a contar mentalmente.

— Há cinqüenta e sete palavras — gritou —, o que soma

cinqüenta e sete contos! Só com isso é possível viver no Brasil, na

América, em qualquer lugar que se queira, e viver sem fazer nada! E

o que seria, então, se todas as palavras do documento me fossem

pagas a esse preço!

— Seriam centenas de contos de réis! Ah! Mil diabos! Tenho

aqui uma fortuna para receber ou serei o último dos idiotas!

Parecia que as mãos de Torres, apalpando a enorme soma, já

se fechavam sobre os pacotes de ouro.

Bruscamente, seu pensamento tomou um novo curso.

— Finalmente — ele gritou — atingi meu objetivo e não

lamento o cansaço da viagem que me levou das margens do

Atlântico ao curso do Alto Amazonas! Esse homem poderia ter

deixado a América, poderia estar além dos mares e, aí, como eu

 4 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

poderia chegar até ele? Mas não! Ele está aqui, e, se eu subir no

topo de uma dessas árvores, poderei ver o telhado da casa onde

mora com toda a família!

Em seguida, pegou o papel e agitou-o, febril:

— Ainda hoje — disse — estarei diante dele! Ainda hoje

saberá que sua honra e sua vida estão contidas nestas linhas! E

quando quiser conhecer a cifra para poder lê-las, bom, terá de pagar

por ela! Pagará, se eu quiser, com toda a sua fortuna, como também

pagará com seu sangue! Ah! Mil diabos! O digno companheiro de

milícia que me deu este documento precioso, que me deu o

segredo, que me disse onde eu encontraria seu ex-colega e o nome

sob o qual ele se esconde há tantos anos, esse digno companheiro

nem suspeitava que fazia a minha fortuna!

Torres olhou uma última vez para o papel amarelado e, depois

de dobrá-lo com cuidado, guardou-o num estojo de cobre, que

também lhe servia de porta-moedas.

Na verdade, se toda a fortuna de Torres estava nesse estojo,

do tamanho de um porta-charutos, em nenhum país do mundo ele

passaria por rico. Ali havia um pouco de cada uma das moedas dos

países vizinhos: dois condores de ouro dos Estados Unidos da

Colômbia, cada um deles valendo em torno de dez pesos, bolívares

venezuelanos que davam uma soma igual, soles peruanos que

somavam o dobro, alguns escudos chilenos e outras moedas de

baixo valor. Mas tudo isso não dava uma soma muito alta e, ainda

por cima, Torres ficaria muito embaraçado para dizer onde e como a

conseguira.

A única certeza é que, alguns meses antes, depois de

abandonar bruscamente o trabalho de capitão-do-mato que exercia

na província do Pará, Torres havia subido a bacia amazônica e

atravessara a fronteira para entrar em território peruano.

Além do mais, para esse aventureiro, não seria preciso muito

para viver. Quais as despesas necessárias? Nada para moradia,

nada para roupas. A floresta dava-lhe o alimento que ele preparava

sem gastos, à moda dos caçadores do mato. Bastavam-lhe alguns

réis para o tabaco que comprava nas missões ou nos povoados,

outro tanto para a aguardente do cantil. Com pouco, podia ir longe.

Depois de acondicionar o papel no estojo de metal, cuja

tampa fechava hermeticamente, em vez de guardá-lo de volta no

bolso da japona coberta pelo poncho, achou melhor, por excesso de

precaução, depositá-lo ao seu lado, no vão da raiz de uma árvore,

em cujo pé estava deitado.

Uma imprudência que lhe custaria caro!

 5 

Fazia muito calor. O tempo estava carregado. Se a igreja da

aldeia mais próxima possuísse um relógio, teria soado as duas

horas da tarde e, com o vento que transporta o som, Torres teria

escutado, porque não estava a mais de duas milhas de distância.

Mas, sem dúvida, a hora era-lhe indiferente. Habituado a

guiar-se pela altura, mais ou menos calculada, do sol no horizonte,

um aventureiro não saberia dar exatidão militar aos diferentes atos

da vida. Ele almoça e janta quando lhe apraz ou quando pode.

Dorme onde e quando é tomado pelo sono. Se nem sempre a mesa

está posta, a cama está sempre feita ao pé de uma árvore, na

maciez de uma moita em plena floresta. Torres não era muito

exigente em questões de conforto. A propósito, havia andado uma

grande parte da manhã, acabara de comer um pouco e, agora,

sentia que precisava dormir. Duas ou três horas de repouso iriam

deixá-lo em condições de retomar a caminhada. Então, deitou-se na

relva o mais confortavelmente que pôde, esperando o sono chegar.

No entanto, Torres não era dessas pessoas que dormem sem

se preparar para essa operação com algumas preliminares. Ele

tinha o hábito de, em primeiro lugar, tomar alguns goles de uma

bebida forte, depois, fumava um cachimbo. A aguardente

superexcita o cérebro e a fumaça do tabaco mistura-se à fumaça

dos sonhos. Ao menos essa era a opinião dele.

Torres começou, então, por levar aos lábios o cantil, que trazia

ao seu lado. Ele continha uma bebida conhecida geralmente pelo

nome de "chica" no Peru e, mais particularmente, pelo de "caisuma"

no Alto Amazonas. Ela e produzida com uma rápida destilação da

raiz de mandioca doce, provocando-se sua fermentação, e à qual o

capitão-do-mato, um homem de paladar meio embotado, achava

que devia acrescentar uma boa dose de tafiá.

Depois de tomar alguns goles dessa bebida, Torres agitou o

cantil e constatou, não sem pesar, que estava quase vazio.

— A ser renovado! — disse, simplesmente.

Em seguida, tirando um cachimbo curto feito de raiz, ele o

encheu com o tabaco acre e inferior do Brasil, cujas folhas

pertenciam à petúnia, levada para a França por Nicot, a quem

devemos a vulgarização da mais produtiva e mais divulgada das

solanáceas.

O tabaco não tinha nada em comum com o scaferlati de alta

qualidade produzido nas manufaturas francesas, mas Torres não era

mais exigente nesse ponto do que em outros. Ele atritou o fuzil na

pedra, pôs fogo num pouco dessa substância viscosa conhecida

pelo nome de "isca de formiga", secretada por alguns himenópteros,

e acendeu o cachimbo.

 6 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

Na segunda aspiração, seus olhos se fecharam, o cachimbo

escapou-lhe dos dedos e adormeceu, ou melhor, caiu numa espécie

de torpor que não era um sono de verdade.

Assaltante e assaltado

Torres dormia havia mais ou menos meia hora, quando um

ruído se fez ouvir sob as árvores. Era um ruído de passos

sorrateiros, como se alguém andasse descalço, tomando certas

precauções para não ser ouvido. Ficar de sobreaviso contra

qualquer aproximação suspeita teria sido o primeiro cuidado do

aventureiro, se estivesse de olhos abertos naquele momento. Mas o

barulho não fora suficiente para acordá-lo, e quem se aproximava

pôde chegar perto dele, a dez passos da árvore, sem ser percebido.

Não era um homem, era um "guariba".

De todos os macacos de cauda preênsil encontrados nas

florestas do Alto Amazonas, sagüis de formas graciosas, sajum de

chifre, monos de pêlo cinza, micos que parecem usar uma máscara

no rosto careteiro, o guariba é, incontestavelmente, o mais original.

Sociável, menos selvagem, no que difere muito do "mucura", bravio

e fétido, ele tende a se associar e, em geral, anda em grupos. Sua

presença é assinalada de longe, por um concerto de vozes

monótonas, que se parecem com as orações salmodiadas do clero.

Porém, mesmo que a natureza não o tenha feito agressivo, não se

pode atacá-lo sem precauções. De qualquer forma, como

vamos ver, um viajante adormecido não deixa de ficar exposto,

quando um guariba o surpreende nessa situação, sem poder

defender-se.

Esse macaco, que também é conhecido no Brasil pelo nome

de "barbado", é bem grande. A agilidade e o vigor dos seus

membros fazem dele um animal robusto, apto tanto a lutar no chão

quanto a saltar de galho em galho, no topo das gigantescas árvores

das florestas.

Mas o tal macaco avançava devagar, com prudência. Lançava

olhares à direita e à esquerda, agitando rapidamente a cauda. Com

esses representantes da raça dos símios, a natureza, que não se

contentou em dar-lhes quatro mãos — tornando-os quadrúmanos

—, mostrou-se mais generosa e, na verdade, eles têm cinco mãos,

pois a extremidade de seu apêndice caudal possui uma perfeita

capacidade de preensão.

O guariba aproximou-se sem fazer barulho, segurando um

sólido pedaço de pau que, manejado por seu braço forte, podia

 7 

tornar-se uma arma temível. Ele devia ter percebido o homem

deitado ao pé da árvore havia alguns minutos, mas a imobilidade do

dorminhoco, sem dúvida, incitou-o a vê-lo mais de perto. Então,

avançou, não sem alguma hesitação, e parou, enfim, a três passos

do homem.

O rosto barbudo esboçou uma careta que mostrava os dentes

afiados, brancos como o marfim, e o bastão foi agitado de uma

maneira pouco tranqüilizadora para o capitão-do-mato.

Com certeza, a visão de Torres não inspirava ao guariba

idéias amigáveis. Será que ele tinha razões particulares para não

gostar da amostra da raça humana que o acaso lhe entregava sem

defesa? Talvez! Sabemos que alguns animais guardam na memória

os maus-tratos recebidos, e era possível que esse tivesse alguma

raiva de reserva contra o caçador.

Na verdade, sobretudo para os índios, o macaco era uma

caça à qual se dava muito valor e, independentemente da espécie,

eles o perseguiam com a determinação de um Nemrod, não

somente pelo prazer de caçar, mas, também, pelo prazer de comê-

lo.

Seja como for, se o guariba não parecia disposto a, dessa vez,

inverter os papéis, se não chegava ao ponto de esquecer que a

natureza fizera dele um simples herbívoro que pensava em devorar

o capitão-do-mato, ele parecia, ao menos, decidido a destruir um de

seus inimigos naturais.

Por isso, depois de olhá-lo por alguns instantes, o guariba

começou a rodear a árvore. Andava lentamente, prendendo a

respiração, aproximando-se mais e mais. Sua atitude era

ameaçadora, sua cara, feroz. Não havia nada mais fácil do que

matar, com um Só golpe, esse homem imóvel e, naquele momento,

é certo que a vida de Torres estava por um fio.

O guariba parou uma segunda vez bem perto da árvore,

postou-se de lado de modo a ficar por cima da cabeça do homem

adormecido e levantou o pedaço de pau para atingi-lo.

Porem, se Torres havia sido imprudente ao depositar ao seu

lado, no vão de uma raiz, o estojo com o documento e sua fortuna,

essa imprudência salvou-lhe a vida.

Um raio de sol, esgueirando-se por entre os galhos, atingiu

o estojo e o metal polido

brilhou como um espelho. O

macaco, com a frivolidade característica da espécie, imediatamente

distraiu-se. Seu pensamento — se é que um animal pode ter

pensamentos — tomou, na mesma hora, um outro rumo. Ele se

abaixou, catou o estojo, recuou alguns passos e, levantando-o na

altura dos olhos, olhou-o, não sem surpresa, fazendo-o cintilar.

 8 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

Provavelmente ficou ainda mais confuso ao ouvir ressoar as moedas

de ouro contidas no estojo. A música encantou-o. Era como um

chocalho nas mãos de uma criança. Em segui- da, levou-o à boca e

seus dentes arranharam o metal, mas não tentaram cortá-lo.

Sem dúvida, o guariba devia acreditar que encontrara um

novo tipo de fruta, uma espécie enorme de amêndoa brilhante, com

um caroço que se movia livremente na casca. Mas logo percebeu o

engano e, mesmo assim não achou que essa fosse uma razão para

livrar-se do estojo. Ao contrário, apertou-o mais na mão esquerda e

largou o pedaço de pau que, ao cair, quebrou um galho seco.

Torres acordou com o barulho e, com a presteza das pessoas

sempre alertas que passam do sono para o estado de vigília sem

transição, ficou imediatamente de pé.

No mesmo instante, percebeu que tinha um problema. — Um

guariba! — gritou.

Por isso, depois de olhá-lo por alguns instantes, o guariba

começou a rodear a árvore. Andava lentamente, prendendo a

respiração, aproximando-se mais e mais. Sua atitude era

ameaçadora, sua cara, feroz. Não havia nada mais fácil do que

matar, com um só golpe, esse homem imóvel e, naquele momento,

é certo que a vida de Torres estava por um fio.

O guariba parou uma segunda vez bem perto da árvore,

postou-se de lado de modo a ficar por cima da cabeça do homem

adormecido e levantou o pedaço de pau para atingi-lo.

Porém, se Torres havia sido imprudente ao depositar ao seu

lado, no vão de uma raiz, o estojo com o documento e sua fortuna,

essa imprudência salvou-lhe a vida.

Um raio de sol, esgueirando-se por entre os galhos, atingiu o

estojo e o metal polido brilhou como um espelho. O macaco, com a

frivolidade característica da espécie, imediatamente distraiu-se. Seu

pensamento — se é que um animal pode ter pensamentos —

tomou, na mesma hora, um outro rumo. Ele se abaixou, catou o

estojo, recuou alguns passos e, levantando-o na altura dos olhos,

olhou-o, não sem surpresa, fazendo-o cintilar. Provavelmente ficou

ainda mais confuso ao ouvir ressoar as moedas de ouro contidas no

estojo. A música encantou-o. Era como um chocalho nas mãos de

uma criança. Em seguida, levou-o à boca e seus dentes arranharam

o metal, mas não tentaram cortá-lo.

Sem dúvida, o guariba devia acreditar que encontrara um

novo tipo de fruta, uma espécie enorme de amêndoa brilhante, com

um caroço que se movia livremente na casca. Mas logo percebeu o

engano e, mesmo assim, não achou que essa fosse uma razão para

 9 

livrar-se do estojo. Ao contrário, apertou-o mais na mão esquerda e

largou o pedaço de pau que, ao cair, quebrou um galho seco.

Torres acordou com o barulho e, com a presteza das pessoas

sempre alertas que passam do sono para o estado de vigília sem

transição, ficou imediatamente de pé.

No mesmo instante, percebeu que tinha um problema.

— Um guariba! — gritou.

E pegando a machete que estava perto dele, pôs-se na

defensiva.

O macaco, assustado, recuou de imediato e, menos valente

diante de um homem acordado do que de um homem adormecido,

deu uma rápida cambalhota e esgueirou-se por entre as árvores.

— Já não é sem tempo! — gritou Torres. — O patife ia me

matar sem a menor cerimônia!

De repente, entre as mãos do macaco que parará a uns vinte

passos e o olhava fazendo caretas como se quisesse desafiá-lo, ele

percebeu o precioso estojo.

— Tratante! — gritou de novo. — Ele não me matou, mas fez

pior! Roubou-me!

O pensamento de que o estojo continha o seu dinheiro não foi

o que o preocupou de início. Mas o que o fez pular foi a lembrança

de que o estojo guardava o documento, cuja perda, irreparável,

arrastaria com ela todas as suas esperanças.

— Mil diabos! — gritou.

E, dessa vez, custasse o que custasse, querendo pegar seu

estojo de volta, Torres lançou-se atrás do guariba.

Ele sabia muito bem que apanhar o ágil animal não seria fácil.

No chão, ele fugiria muito rápido; nos galhos, Torres não o

alcançaria. Só um tiro de fuzil com uma boa pontaria conseguiria

pará-lo na corrida ou no trajeto aéreo; mas Torres não possuía

nenhuma arma de fogo. O sabre e a enxada poderiam vencer o

guariba, desde que conseguisse golpeá-lo.

Logo ficou evidente que o macaco só poderia ser pego de

surpresa. Daí a necessidade de Torres usar de artimanhas com o

malicioso animal. Parar, esconder-se atrás de algum tronco de

árvore, desaparecer embaixo de uma moita, incitar o guariba a

parar, ou a voltar atrás, não havia outra coisa a tentar. E foi o que

Torres fez, começando a perseguição nessas condições; porém,

quando o capitão-do-mato desaparecia, o macaco esperava

pacientemente que reaparecesse e, com essa manobra, Torres se

cansava, sem resultado.

— Guariba danado! — berrou em seguida. — Eu nunca vou

conseguir e, desse jeito, ele vai levar-me de volta à fronteira

 10 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

brasileira! Se ao menos deixasse cair o estojo! Mas, não! O tinido

das moedas de ouro o diverte! Ah! Ladrão! Se eu conseguir pegá-

lo!...

Torres recomeçou a perseguição e o macaco continuou

escapulindo com mais rapidez!

Passou-se uma hora nessas condições, sem nenhum

resultado. Era natural que Torres insistisse. Como, sem o

documento, conseguiria fazer dinheiro?

A raiva tomou conta de Torres. Ele blasfemava, batia com o pé

no chão, ameaçava o guariba. O impertinente animal respondia com

um belo deboche que o deixava fora de si.

E, então, Torres voltava a persegui-lo. Corria até perder o

fôlego, embaraçando-se na relva alta, nos arbustos espinhosos, nos

cipós entrelaçados, pelos quais o guariba passava como se fosse

um saltador de obstáculos. Às vezes, grossas raízes ocultas sob a

relva surgiam no seu caminho. Ele tropeçava e levantava-se

novamente. Por fim, surpreendeu-se a gritar:

— Acudam! Acudam! Ladrão! — como se alguém pudesse

ouvi-lo.

Em pouco tempo, no fim das forças, sem conseguir respirar,

foi obrigado a parar.

— Mil diabos! — disse. — Quando eu perseguia os negros

fugitivos dentro do matagal, eles me davam menos trabalho! Mas

vou pegar esse maldito macaco; vou sim! Vou atrás dele enquanto

as pernas me agüentarem, e aí veremos!...

O guariba ficara imóvel ao ver que o aventureiro deixara de

persegui-lo. Também descansava, embora estivesse longe do

estado de esgotamento que impedia Torres de fazer qualquer

movimento.

O animal permaneceu assim por uns dez minutos, roendo

duas ou três raízes que acabara de arrancar à flor da terra e, de

tempos em tempos, fazia tilintar o estojo na orelha.

Exasperado, Torres jogava-lhe pedras, que o atingiam, mas

sem lhe causar grandes danos, devido à distância.

Era preciso tomar uma atitude. Por um lado, continuar a

perseguir o macaco com tão pouca probabilidade de pegá-lo seria

insensato; por outro, aceitar como definitiva essa objeção do acaso

a todos os seus planos, ser não só vencido, mas frustrado e

enganado por um animal idiota, era desesperador.

No entanto, Torres tinha de reconhecer que quando a noite

chegasse, o assaltante desapareceria facilmente e ele, o assaltado,

ficaria atrapalhado até para encontrar o caminho de volta na

 11 

espessa floresta. Na verdade, a perseguição levara-o a várias

milhas das margens do rio, e ele já teria dificuldade para voltar.

Torres hesitou, tratou de recapitular os pensamentos com

sangue-frio e, depois de soltar uma última imprecação, já ia desistir

totalmente da idéia de recuperar a posse do estojo, quando, contra

sua própria vontade, pensou de novo no documento, em todo o

futuro que projetara contando com o dinheiro, e disse a si mesmo

que precisava fazer um último esforço.

Então, levantou-se.

O guariba também levantou-se.

Ele deu alguns passos à frente.

O macaco fez o mesmo para trás; porém, agora, em vez de se

afundar na floresta, parou ao pé de um enorme fícus — árvore cujos

exemplares variados são muito numerosos em toda a bacia do Alto

Amazonas.

Segurar no tronco com as quatro mãos, trepar com a agilidade

de um acrobata, como faz o macaco, pendurar-se com a cauda

preênsil nos primeiros galhos horizontais, quarenta pés acima do

solo, depois içar-se ao topo da árvore até o ponto em que os últimos

ramos se dobram com seu peso, foi apenas uma brincadeira para o

ágil guariba e levou alguns poucos minutos.

Ali, muito bem instalado, ele continuou a refeição interrompida

colhendo os frutos que estavam ao alcance da sua mão. É fato que

Torres também sentia necessidade de beber e de comer, mas era

impossível! Seu embornal estava murcho, seu cantil, vazio!

Entretanto, em vez de voltar, Torres caminhou na direção da

árvore, embora a situação do macaco fosse ainda mais desfavorável

para ele. Nem adiantava Torres pensar em trepar nos galhos do

fícus, pois o ladrão logo trocaria essa árvore por outra.

E o inalcançável estojo continuava a ressoar no seu ouvido!

Por isso, na sua fúria, na sua loucura, Torres insultava o

guariba. Dizer a série de palavras injuriosas com que gratificou o

macaco seria impossível. Chegou a chamá-lo, não Só de mestiço, o

que já era uma grave injúria na boca de um brasileiro de raça

branca, como também de "curiboca", isto é, mestiço de branco com

índio! Ora, de todos os insultos que um homem podia dirigir a outro,

não havia nenhum mais cruel nessa latitude equatorial.

Contudo, o macaco, que não passava de um quadrúmano,

estava pouco ligando para o que teria revoltado um representante

da espécie humana.

Torres recomeçou a atirar-lhe pedras, pedaços de raízes, tudo

o que pudesse servir de projétil. Será que esperava ferir gravemente

o macaco? Não! Ele não sabia o que estava fazendo. Para dizer a

 12 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

verdade, a raiva pela sua impotência tirava-lhe todo o raciocínio.

Talvez esperasse pelo momento em que, num movimento do

guariba ao passar de um galho para o outro, o estojo lhe caísse das

mãos, e até mesmo que, para pagar na mesma moeda ao agressor,

ele se atrevesse a jogá-lo na sua cabeça! Mas, não! O macaco fazia

questão de continuar com o estojo, e mesmo segurando-o com uma

das mãos, ainda lhe restavam três para movimentar-se.

Torres, desesperado, ia abandonar definitivamente a partida e

voltar para o Amazonas, quando um ruído de vozes se fez ouvir.

Sim, um ruído de vozes humanas!

Alguém falava a uns vinte passos do lugar onde o capitão-do-

mato estava parado.

O primeiro cuidado de Torres foi esconder-se num espesso

arbusto. Como homem prudente que era, não queria mostrar-se sem

saber, ao menos, quem iria encontrar.

Com o coração palpitando, muito intrigado, ouvidos bem

abertos, ficou esperando, quando, de repente, ecoou a detonação

de uma arma de fogo.

Seguiu-se um grito e o macaco, mortalmente atingido, caiu

pesadamente ao solo, ainda segurando o estojo de Torres.

— Com os diabos! — ele gritou. — Eis uma bala que veio a

calhar!

E, então, sem se preocupar em ser visto, saiu do arbusto no

momento em que dois rapazes surgiam embaixo das árvores.

Eram brasileiros, vestidos como caçadores, botas de couro,

um leve chapéu de fibras de palmeira, um casaco, ou melhor, um

jaquetão apertado por um cinto, mais cômodo do que o poncho

nacional. Pelos seus traços, pelo tom de pele, podia-se reconhecer

facilmente que eram de sangue português.

Ambos estavam armados com longos fuzis de fabricação

espanhola, que lembram um pouco as armas árabes, fuzis de longo

alcance, de mira certeira, e que os assíduos freqüentadores das

florestas do Alto Amazonas manejavam com êxito.

O que acabara de acontecer era uma prova disso. A uma

distância oblíqua de mais de oitenta passos, o quadrúmano havia

sido atingido por uma bala bem na cabeça.

Além disso, os dois rapazes levavam na cintura uma espécie

de punhal, que tem o nome de "foca" no Brasil, e que os caçadores

não hesitam em usar para atacar uma onça e outras feras que,

embora não sejam muito temíveis, são bem numerosas nessas

florestas.

Evidentemente, Torres não tinha nada a temer desse encontro

e continuou a correr na direção do corpo do macaco.

 13 

E os rapazes, que avançavam na mesma direção e tinham um

caminho menor a percorrer, com apenas alguns passos

encontraram-se diante de Torres.

Este já havia recuperado a presença de espírito.

— Muito obrigado, senhores! — disse-lhes alegremente,

levantando a aba do chapéu. — Ao matar o perverso animal,

prestaram-me um grande serviço!

Os caçadores olharam-se, não compreendendo por que

recebiam os agradecimentos.

Torres, em algumas palavras, deixou-os a par da situação.

— Pensam ter matado um simples macaco — disse-lhes —,

mas, na realidade, mataram um ladrão!

— Se lhe fomos úteis — respondeu o mais moço dos dois —,

foi, certamente, sem saber; mas não deixamos de ficar muito felizes

por termos ajudado em alguma coisa.

E, dando alguns passos para trás, inclinou-se sobre o

guariba; em seguida, não sem esforço, retirou o estojo da mão ainda

crispada.

— Aqui está — disse ele —, sem dúvida, é isto que lhe

pertence, senhor.

— É isso mesmo — respondeu Torres, que pegou

rapidamente o estojo e não pôde conter um suspiro de alívio.

— A quem devo agradecer, senhores — disse —, pelo serviço

que me foi prestado?

Ao meu amigo, Manoel, médico-cirurgião assistente do

exército brasileiro — respondeu o rapaz.

— Se fui eu quem matou o macaco — observou Manoel —,

ele me foi mostrado por você, meu caro Benito.

— Nesse caso, senhores — replicou Torres —, é aos dois que

devo o favor, tanto ao senhor Manoel quanto ao senhor... ?

— Benito Garral — respondeu Manoel.

O capitão-do-mato precisou de um grande autocontrole para

não estremecer ao ouvir esse nome, principalmente quando o rapaz

acrescentou cortesmente:

— A fazenda do meu pai, Joam Garral, está apenas a três

milhas1 daqui. Se for do seu agrado, senhor...

— Torres — respondeu o aventureiro.

1 As medidas itinerárias no Brasil eram: a pequena milha,

equivalente a 2 060 metros, e a légua comum ou grande milha, equivalente a 6

180 metros, (n.t.)

 14 

Júlio Verne – A jangada - 800 léguas pelo Amazonas

— Se for do seu agrado ir até lá, senhor Torres, será

hospitaleiramente recebido.

— Não sei se posso — respondeu Torres, que, surpreso com

o encontro totalmente inesperado, não conseguia tomar uma

decisão. — Na verdade, temo não poder aceitar a sua oferta!... O

incidente que acabei de relatar fez-me perder tempo!... Preciso

voltar imediatamente para o Amazonas... pois que pretendo descer

até o Pará...

— Bom, senhor Torres — retomou Benito —, é provável que

nos vejamos de novo durante o seu trajeto porque, antes de um

mês, meu pai, com toda a nossa família, tomará o mesmo caminho

que o senhor.

— Ah! — disse Torres com vivacidade. — Seu pai pensa em

atravessar a fronteira brasileira?...

— Sim, para uma viagem de alguns meses — respondeu

Benito. — Pelo menos é essa a decisão que esperamos que tome.

Não é, Manoel?

Manoel fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Bem, senhores — respondeu Torres —, é possível,

de fato, que nos encontremos pelo caminho. Mas não posso, apesar

de lamentá-lo, aceitar sua oferta, no momento. Todavia, sou

duplamente agradecido.

Dito isso, Torres saudou os rapazes, que lhe devolveram a

saudação e retomaram o caminho da fazenda.

Quanto a Torres, ficou olhando-os afastarem-se. Em seguida,

quando os perdeu de vista:

— Ah, ele vai atravessar a fronteira! — disse em voz baixa.

— Então, que a atravesse, pois ficará, mais ainda, à minha mercê!

Boa viagem, Joam Garral!

E, pronunciadas essas palavras, o capitão-do-mato, dirigindo-

se para o sul de modo a voltar para a margem esquerda do rio pelo

caminho mais curto, desapareceu na espessa floresta.

A família Garral

O povoado de Iquitos está localizado próximo à margem

esquerda do Amazonas, mais ou menos no meridiano 74, na parte

do rio que ainda recebe o nome de Maranon, e cujo leito separa o

Peru da República do Equador, cinqüenta e cinco léguas a oeste da

fronteira brasileira.

Iquitos foi fundada por missionários, como todas as outras

aglomerações de choupanas, vilas e povoados que encontramos na

 15 

bacia do Amazonas. Até o décimo sétimo ano deste século, os

índios Iquitos, que, por algum tempo, formaram a única população

do lugar, foram retornando para o interior da província, bem longe do

rio. Porém, um dia, as fontes de suas terras secaram devido a uma

erupção vulcânica, e eles precisaram mudar-se para a margem

esquerda do Maranon. A raça não demorou a ser alterada em

conseqüência das alianças contraídas com os índios ribeirinhos,

ticunas e omáguas, e Iquitos passou a ter uma população mesclada,

à qual convém acrescentar alguns espanhóis e duas ou três famílias

de mestiços.

Umas quarenta choupanas, cujo telhado de palha as tornava

dignas apenas do nome de palhoças, era todo o povoado, aliás,

pitorescamente agrupado numa esplanada que dominava, a uns

sessenta pés de altura, as margens do rio. Uma escada de troncos

transversais levava até a parte de cima, mas por ficar totalmente

oculta aos olhos do viajante, este não a subia, pois lhe faltava o

distanciamento para enxergá-la. Uma vez no alto, a pessoa se

deparava com uma cerca, pouco defensiva, de arbustos variados e

plantas arborescentes amarradas com cordões de liana, que

ultrapassavam aqui e acolá os topos das bananeiras e das

palmeiras da espécie mais elegante.

Naquela época — e, sem dúvida, a moda demoraria muito

tempo para mudar-lhes a primitiva vestimenta — os índios de Iquitos

andavam quase nus. Apenas os espanhóis e os mestiços, que

desdenhavam seus conterrâneos indígenas, andavam vestidos com

uma simples camisa, uma calça leve de algodão e um chapéu de

palha na cabeça. Todos viviam miseravelmente nesse povoado,

aliás, não tinham muita convivência uns com os outros e, se por

acaso se reuniam, era somente quando o sino da missão os

chamava para a choupana deteriorada que servia de igreja.

Porém, se a vida era quase rudimentar, não Só no povoado de

Iquitos como na maioria das vilas do Alto Amazonas, antes de se

percorrer uma légua, descendo o rio, havia uma rica propriedade

onde podiam ser encontrados todos os elementos para uma vida

confortável.