A justiça dos linchadores por L P Baçan - Versão HTML

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Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

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Seis homens conversam ao redor de uma fogueira, em algum ponto ao norte de Amarillo, Oklahoma, numa noite de outono, em meados do século passado.

Usavam capotes pesados sobre o corpo e traziam lenços no pescoço. A chama da fogueira iluminava rostos duros, marcados pela vida árdua do Oeste.

— Eu digo que o melhor lugar para isso são as terras ao redor do Lago Meredith.

Poderíamos chamar a nova cidade de Meredith. Há muita madeira por lá e não teríamos problemas com água. Isso vai agradar os compradores — falou Sam Tyler, ajeitando o casaco no corpo.

— Eu também pensei naquelas terras — respondeu Brad Marshall, outro dos vendedores de terras. — Só que tudo que está no lado norte do lago já tem dono.

— Ouvi dizer isso também — ajuntou Dave Danton. — São três irmãos que tomaram posse daquelas terras e não venderão por dinheiro nenhum.

— Três irmãos? — indagou Sam. — Com famílias?

— Mulher e filhos, se não me engano — respondeu All Cooper. — Vamos ter de agir. Fazer o que fizemos em Santa Rosa.

— Rapaz! Aquilo sim foi um linchamento de verdade — riu Clarck Pleasant.

— Podíamos fazer o mesmo — propôs Bert Cooper, irmão de All.

— São três armas a nossa espera. Devemos agir com cautela — falou Sam. — Não basta ir chegando e atirando. Temos de fazer um plano de ataque para não cometermos nenhum erro.

O que me dizem?

— Acho que Sam tem razão. Já rodamos a região toda nas últimas cinco semanas. Não há lugar melhor. O pessoal no leste quer comprar. Precisamos encontrar o que lhes oferecer.

— Fundaremos Meredith? — propôs Dave.

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— Sim, Meredith! — responderam os outros.

— E o pessoal que mora lá?

— É fazer o que Sam propôs.

— Sim, isso mesmo — concordou Bert. — Já está tudo certo com o encarregado do Registro de Terras em Amarillo. Vai nos custar um bom dinheiro, porém valerá a pena. Se soubermos trabalhar desta vez, seremos os donos da cidade e nunca mais precisaremos repetir este golpe.

— Foi a coisa mais inteligente que ouvi nos últimos tempos, irmão — concordou All.

— Certo, pessoal! Vamos começar um esquema de vigilância naquelas terras, acompanhando aquele pessoal e estudando a melhor forma de pegá-los de surpresa — propôs Sam.

— Eu estive lá e observei algumas coisas — comentou Brad. — Eles recolhem as vacas de leite ao entardecer, fechando-as no estábulo. Bastará atear fogo lá e eles ficarão desesperados para salvá-las e poderão ser pegos de surpresa — opinou Dave.

— É um plano — disse Sam. — O que me dizem os outros?

— Digo que poderíamos tentar isto hoje. A lua cheia logo sairá e poderemos cavalgar até lá. Estamos próximos. Chegaremos a tempo de liquidar tudo isto antes da meia-noite — propôs Clarck.

— Ok! Quem está comigo? — perguntou Sam e todos confirmaram. — Então vamos lá!

Quanto mais cedo liquidarmos com isso, mais cedo teremos a nossa cidade, rapazes.

Os três irmãos Sherman haviam chegado àquelas terras poucos anos antes e tomado posse, pois eram terras do governo. Com dificuldade, juntamente com as esposas, começaram a explorar o rico potencial daquele lugar.

Cada um deles teve um filho, mais ou menos na mesma época. Os garotos completariam cinco anos dentro de alguns meses. Embora a vida fosse difícil e o trabalho fosse de sol a sol, os três estavam satisfeitos, pois sabiam que um grande futuro estava reservado para suas famílias.

Naquela noite, os três haviam se reunido na casa de Bud Sherman, o caçula dos três.

Juntamente com as famílias, jantavam e conversavam.

Os garotos brincavam do lado de fora, apesar da noite fria. A lua cheia jogava uma claridade exuberante pelo pasto, pelas árvores que se desfolhavam e sobre a superfície tranqüila do lago.

— Pai! — gritou Roy Sherman, surgindo na porta.

— Roy, eu já lhe disse para brincar lá fora e não incomodar os adultos — repreendeu-o sua mãe.

— Mas mãe... É o estábulo...

— Maldição! — gritou Lane Sherman, que fora até a janela olhar. — O estábulo está pegando fogo!

— Como? — surpreenderam-se os outros dois irmãos, levantando-se e correndo para fora da casa.

Havia fogo no interior da construção. Os animais começaram a se debater, assustados.

— As vacas! — gritou Molly Sherman, mãe de Roy.

Os três homens correram para o estábulo desesperadamente, seguidos pelas mulheres. As crianças ficaram diante da casa, assustadas, observando.

Bud Sherman abriu a porta do celeiro. Os cavalos, que haviam arrebentado as baias, saíram em disparada, atropelando-o.

— Bud! — gritou sua esposa, angustiada.’

Os outros irmãos correram retirá-lo do caminho dos animais.

— Estou bem! — afirmou ele, embora sentisse dor nas costelas, quando respirava.

— As vacas! — insistiu Molly.

Roy correu para dentro do estábulo e as soltou, espantando-as para fora.

As vacas dispararam mas, quando chegaram fora do estábulo, foram abatidas a tira.

— Não! — gritou Molly, já que aqueles animais eram importantes na sobrevivência das famílias, fornecendo leite, manteiga e queijo.

Seis homens saíram da escuridão e cercaram os três casais, apontando-lhes suas armas.

Usavam lenços cobrindo os rostos e pesados capotes.

— Quem são vocês? O que querem? — indagou Roy.

— Queremos as terras, só isso — disse Sam, a voz abafada pelo lenço que lhe cobria o rosto.

— Não vamos vender! — afirmou ele.

Os homens riram.

— Não viemos comprar. Vamos ficar com as terras, só isso.

— Temos o registro provisório do governo...

— Como você disse, provisório. Acaba de ser caçado.

Os irmãos se olharam. Haviam deixado as armas nas suas casas. Estavam indefesos, sem chance de defesa.

— Terão de nos matar — falou Bud, esforçando-se para se levantar.

— Foi para isso que viemos, pessoal. Não nos deixam escolha — falou Sam e as armas foram engatilhadas.

— Não... Poupem as mulheres e as crianças — pediu Lane, aproximando-se.

— Sem chance — respondeu Sam, fazendo um sinal para os outros.

Lane havia conseguido se aproximar o bastante para segurar o cabresto do cavalo de Sam.

Puxou-o com força, torcendo-o, fazendo o cavalo tombar para o lado e derrubar o cavaleiro.

Avançou sobre ele, chutando-lhe a boca com violência. Sam sentiu pedaços de seus dentes voaram e cuspiu sangue.

Apertou o gatilho. A bala atravessou a perna de Lane, que gemeu e cambaleou, indo cair nos braços da esposa.

— Maldito! — berrou Sam, cuspindo lascas de dentes com sangue. — Amarrem-nos.

Os homens desmontaram e, com seus laços, amarraram os três casais.

— As crianças, onde estão? — quis saber Sam.

— Corram, meninos! Corram! — gritaram suas mães.

Roy, o mais esperto deles, segurou os primeiro pelas mãos e puxou-os.

Correram na direção do bosque à margem do lado.

— Atirem, seus idiotas! — berrou Sam.

Os homens disparam na direção dos garotos, que desapareceram nas sombras do bosque.

As balas assobiaram, ricocheteando, fazendo um som terrível e assustador.

Ben, o filho de Lane, foi jogado no chão, quando uma bala o atingiu na perna, pouco acima do joelho.

— Ajudem-me — pediu ele aos primos, que pararam e voltaram.

— O que foi? — quis saber Jack.

— Minha perna... Está pegando fogo...

Roy tateou o local e sentiu o sangue escorrendo. Ben gemeu, quando a ferida foi tocada.

— Temos de ir embora... Você tem que andar, Ben... — pediu Roy.

— Não posso... Está doendo muito...

— Venha... Ajude-me, Jack — pediu Roy, fazendo Ben se levantar.

Amparam o primo e caminharam bosque a dentro. Os tiros haviam parado.

Procuraram um local seguro e ficaram escondidos.

— O que eles vão fazer com minha mãe? — quis saber Ben.

— Não sei, Ben. Fique quieto. Eles podem estar procurando a gente — recomendou Jack.

— São bandidos... São maus... Atiraram em Lane — murmurou Roy.

De repente, ouviram gritos de dor, seguidos de uma algazarra dos cavalos.

— O que está acontecendo, Roy? — perguntou Ben, trêmulo e assustador.

— Não sei, Ben. Fique quietinho. Eles podem achar a gente.

— Eu quero a minha mãe... Está doendo... Doendo muito — reclamou a criança.

— Não fale! — pediu Jack, pedindo silencio.

Os cavaleiros vieram na direção do bosque.

— Sei, Sam! Como vamos nos livrar desses garotos?

— Maldição! Como vou saber? Aquele maldito quebrou meus dentes... Dói tanto que nem consigo pensar...

— Vamos pôr fogo no bosque — sugeriu Brad.

— Isso, vamos fazer franguinhos assados — riu Bert, cavalgando até o estábulo.

Voltou com algumas tochas acesas, que distribuiu entre os outros.

As folhas secas, derrubadas pelo outono, incendiaram-se rapidamente. O fogo avançou, devorando o bosque com extrema facilidade.

— Á água... Vamos para a água... — alertou Roy, puxando seus primos.

Ben gemeu de dor, mas, amparado pelos outros, conseguiu chegar até o lago.

Atiraram-se na água fria e se afastaram do bosque em chamas.

Os cavaleiros deram-se por satisfeitos. Esporearam seus cavalos e se afastaram a galope.

— Temos de ir para Amarillo registrar a terra — ainda disse Sam, antes de se perderam ao longe.

As crianças agarraram-se a um tronco e ficaram flutuando no lago, distantes do fogo.

O frio ameaçava congelá-los, mas permaneceram firmes, com medo de voltar a terra.

A perna de Ben parou de sangrar. A água gelada contraiu o ferimento, impedindo que ele sangrasse até morrer.

Só mais tarde, bem mais tarde, quando o bosque havia sido consumido pelas chamas e fumegava apenas, decidiram voltar.

Roy convenceu os primos.

— Eles podem estar esperando — disse Ben, assustado.

— Não, eles já foram. Tenho certeza — afirmou Roy.

— Eu estou com medo... O que eles fizeram com minha mãe? E com meu pai? —

choramingou Jack.

O estábulo ainda ardia. Havia muito feno estocado lá dentro. Os fardos queimavam lentamente, em meio aos escombros.

Os garotos, tiritando de frio, voltaram à margem e caminharam lentamente na direção da luz.

Ben mancava. Apenas doía. Roy lhe improvisara uma muleta com um galho de forquilha.

— Não! mamãe! Papai! — berrou Jack, desesperado, diante da cena.

As seis pessoas estavam penduradas num carvalho que havia próximo do estábulo.

Seus pescoços estavam torcidos grotescamente. Oscilavam, como pesadas folhas ao vento.

Os cavaleiros haviam amarrado suas mãos e pés, depois foram erguidos pelo pescoço.

No desespero e no estertor da morte haviam liberado seus intestinos, tornando a cena mais nauseabunda ainda.

As pobres crianças caíram de joelhos, olhando tudo aquilo sem entender.

Roy lutou contra as lágrimas que teimavam em inundar seus olhos.

Viu algo no chão, a sua frente. Apanhou. Eram três pedaços de dentes, manchados de sangue.

Apertou-os na mão. Pertenciam a Sam. Ouvira a conversa deles antes de incendiarem o bosque.

— Vejam, primos — disse ele, mostrando.

— O que é? — quis saber Jack, aturdido, passado, chocado.

— Pedaços de dentes... Daquele homem... Sam é o nome dele. Não devemos esquecer.

— Quero ficar com um pedaço — disse Ben.

— Eu também — pediu Jack.

— O outro é meu. Um dia, primos, um dia nos cresceremos e usaremos armas. E então nós vamos procurar o dono destes pedaços de dentes e vingaremos nossas famílias.

— Mamãe disse que a vingança pertence ao Senhor — falou Ben.

— Mas deve ter dito também "olho por olho, dente por dente, não?"

— Sim... Mas o que vamos fazer, Roy — soluçou Jack, olhando angustiando os corpos de seus pais pendurados no carvalho, diante de seus olhos.

— Vamos enterrá-los? — perguntou Ben.

— Não... — disse Roy, com lágrimas nos olhos, apertando com tanta força o pedaço de dente em sua mão que ele chegava a feri-lo.

— Mamãe disse que se deve enterrar os mortos — opinou Ben, soluçando.

— Temos que ir embora... Se ficarmos, eles vão voltar e nos matar — disse Roy, levando a mão à boca e assobiando de modo estridente.

Repetiu mais algumas vezes.

— É Millie! — apontou Ben.

A égua de estimação de Roy se aproximava mansamente.

— Vamos pegar comida... Se souberem onde tem dinheiro, peguem... Vamos precisar... —

ordenou Roy, sem conseguir desviar os olhos da grotesca visão a sua frente.

— Para onde vamos, Roy? — quis saber Ben.

— Oklahoma City, na casa do vovô.

— Mas não sabemos onde é?

— Perguntaremos.

— Vamos nos perder.

— É arriscar ou ficar aqui e morrer.

— É muito longe — reclamou Jack.

— Vovô era um pistoleiro. Papai sempre contava histórias sobre ele. Se há alguém que pode nos ensinar a atirar, esse é o vovô — falou Roy, indo até sua casa.

Juntou comida. Sabia onde sua mãe escondia o dinheiro. Pegou-o.

Depois parou junto à porta olhando o cinturão e o revólver pendurados num cabide de galho.

Estendeu a mão e apanhou-os.

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Ao longo dos quinze anos seguintes, Meredith prosperou, aproveitando a madeira dos bosques que circundavam o lago e a água que tornava a terra fértil.

Gente de todo o Leste investiu naquelas terras. Lotes foram vendidos rapidamente. A cidade foi demarcada e vendida.

Os seis homens souberam aproveitar a oportunidade. Cada um possuía um ótimo rancho, lotes ao redor da cidade e havia se dedicado a um ramo.

Sam Tyler foi ser o dono do saloon, do hotel, de um restaurante, de duas cantinas e dos estábulos.

Brad Marshal abriu um banco, o First Meredith Bank, que vivia abarrotado com o dinheiro dos rancheiros e agricultores.

Dave Danton entrou para o política. Ele e Clarck Pleasant vinham se revezando na prefeitura da cidade, além de negócios com gado.

All e Bert Cooper exploravam o armazém, a casa de armas e a loja de tecidos e roupas.

Juntos, eram donos das maiores fortunas da cidade, que reunia mais dinheiro que poderiam gastar em toda uma vida.

Toda semana se reuniam nos fundos do saloon para jogar pôquer e traçar planos para o desenvolvimento da cidade e para aumentarem suas fortunas.

— Sam, você precisa trazer algo novo para o saloon. O pessoal que esteve em Amarillo disse que o saloon de lá tem as garotas mais bonitas do Oeste e shows todas as noites —

cobrou Brad.

— Sim, eu sei o que você quer, seu safado — declarou Sam, ofendido. — Está cansado das garotas que tenho, não?

— Não é isso! Com mais garotas e novos shows, você manterá o saloon sempre cheio e poderá ganhar mais dinheiro para depositar no meu banco, seu estúpido!

Todos riram. Eram agora prósperos e honesto homens de negócio, cidadãos acima de qualquer suspeita.

— E você, Dave, quando vai ver meu gado para comprar? — quis saber Sam.

— Quando você trouxer as novas garotas — riu Dave.

— Vamos falar sério agora, rapazes — disse Clarck. — Soube que um sujeito está vindo para cá para abrir um jornal. O que me dizem disso?

— Parece-me um bom negócio — falou All. — Ele aceitará sócios?

— Já somos sócios de tudo na cidade — lembrou Bert.

— E é isso que nos torna ricos — riu Sam.

— Aprovamos ou não? — quis saber Dave.

— Se pudermos ser sócios, tudo bem — concordou Sam.

Os outros confirmaram.

— Há um problema a ser resolvido — falou Brad, o banqueiro. — Sabem aquele lote próximo à entrada de água, no norte do lago?

— Sim, foi comprado por um velhote de Oklahoma City, só que ele nunca apareceu por aqui. As terras estão abandonadas. Acho que aquele imbecil morreu.

— E aquelas são as melhores terras da região — lembrou Clarck. — Fazem divisa com as minhas terras. Eu adoraria anexá-las.

— Pois eu pensava justamente nisso — falou Dave. — Elas fazem divisa com as minhas terras também.

— Mas eu não vejo problema nenhum nisso — disse Sam, encarando Brad.

— Ninguém esperou eu terminar de falar, diabos! — protestou ele, jogando as cartas na mesa. — O nosso homem no Registro de Terras me trouxe hoje uma cópia da transferencia daquelas terras. Esta aqui. Vejam por si mesmos! — finalizou, atirando um papel dobrado sobre a mesa.

Sam apanhou-o e o abriu.

— O que há de errado? — indagou. — Parece que o velho deu as terras para seus netos...

O que tem isso?

— Você é burro e cego, Sam. Veja isto! — disse, furioso pondo o dedo encima dos nomes.

— Sherman! Lembra-se disto?

Os outros homens se entreolharam, pensativos, voltando no tempo, até uma noite fria de outono, quando um estábulo ardia em chamas e os corpos de seis pessoas pendiam de um carvalho. O mesmo carvalho que agora fazia sombra na praça diante do banco e do saloon.

— Três rapazes? É possível? Não! Nós os queimamos naquela noite — falou Brad.

— Não podiam ter escapado. É coincidência apenas. Eu me lembro de ter vendido aquele lote para o velho. Parecia mais um pistoleiro aposentado que um avô preocupado com seus netos — comentou Dave.

— Esperem um pouco — disse All Cooper. — Acho que o Brad, que tomou conhecimento disso, deve ter alguma coisa para falar a respeito. O que me diz, Brad?

O banqueiro acendeu um charuto, tomou um gole de seu uísque, depois olhou um por um de seus sócios.

— Só sei que se chamam Sherman. Roy, Ben e Jack Sherman. O avô lhes deu as terras ao norte do lago, inclusive o desfiladeiro por onde passa o rio que alimenta o lago. Está tudo legalizado. Só que ninguém sabe onde encontrar esses três, de onde são, se vão tomar posse das terras ou não... Nada! Absolutamente nada!

— Não gosto disso — falou Dave, coçando-se todo. — Meus velhos ferimentos me alertam.

Eles sentem o cheiro de encrenca, vocês sabem disso.

— Isso foi há quinze anos atrás, Dave. Agora você se coça é de sujeira mesmo. Um bom banho resolveria isso — brincou Sam, mas ninguém riu.

— Não podemos nos arriscar, pessoal — falou Brad. — Temos muito a perder. Se são os filhos dos Sherman que matamos naquela noite, vai haver encrenca. O tipo de encrenca que gostaria de evitar.

— E como? — indagou All.

— Sam, você ainda tem aqueles três pistoleiros tomando conta do saloon, não?

— São e são bons.

— Sugiro que os deixe em alerta. Se esses jovens aparecerem por aqui, mande seus pistoleiros acabarem com eles.

— Está brincando! Sabe há quanto tempo não há um tiroteio em Meredith? É isto que faz dela uma das cidades mais procuradas do Oeste. Gente honesta vem para cá, ninguém mais

— alertou Clarck, que era o atual prefeito.

— Vocês estão se preocupando à toa, pessoal — falou Bert, que refletira por instantes, observando os sócios.

— O que tem em mente, Bert? — indagou Sam.

— Quem é o xerife?

— Franklin Tyler, meu sobrinho, por quê?

— Porque Franklin terá que justificar seu salário pelo menos uma vez na vida. Ser xerife não é só aliviar as carteiras dos bêbados que ele recolhe no final de semana...

— Ei, não fale assim do Franklin — interrompeu-o Sam.

— Cale a boca, Sam, e deixe-o falar — ordenou Brad.

Sam ficou mordiscando os lábios com seus dentes quebrados, num gesto de nervosismo.

— Se esses rapazes aparecerem por aqui, faremos o xerife encontrar uma forma de prendê-

los e jogar a chave fora. Ou, então, de expulsá-los da cidade. Se for preciso, os pistoleiros de Sam cuidarão de tudo, fora dos limites de Meredith.

— Esse me parece um bom plano — comentou Bert.

— Sim, e se for preciso, traremos de volta os Linchadores. Faremos com eles o que fizemos com seus pai — sugeriu Sam, com arrogância.

— Sim, e por quê não? Um pouco de agitação iria tornar meus dias mais alegres —

murmurou Bert.

— Vocês serão sempre um bando de arruaceiros — disse o banqueiro, rindo.

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Os outros riram com ele, agora despreocupados.

Era final de verão e o calor já não era tão intenso. As primeiras folhas começavam a cair das árvores, anunciando a chegada do outono.

Os primeiros ventos frios já sopravam a noite, prevendo um inverno rigoroso na próxima estação.

Os três cavaleiros desceram a rua principal de Amarillo, na direção do saloon Midland Blues.

Vestiam capas de viagem, cobertas de poeira. Usavam chapéus de copa amassada, diferente daqueles usados pelos vaqueiros.

Eram jovens ainda, muito embora os vincos em seus rostos denotassem muito sofrimento.

A vida parecia não ter sido agradável para eles, mas a maneira ereta como cavalgavam demonstravam que ali estavam homens embrutecidos, acostumados às tragédias.

Tinham olhos claros, quase cinzentos. Uma barba indefinida pontilhava seus rostos.

Pareciam-se, como irmãos ou primos.

Havia muito movimento nas ruas de Amarillo. Ninguém os notou, quando amarraram seus cavalos diante do saloon.

— Estou louco por uma cerveja — disse Ben.

— Você sempre está louco por cerveja, Ben — brincou Jack.

Roy, o mais ajuizado dos três, olhou ao redor.

— Ali! — apontou, indicando o Escritório de Registro de Terras.

— Você vai até lá ver se está tudo certo? — perguntou Jack.

— Sim, passamos por aqui para isso, não?

— E pensar que toda a região era nossa... — lamentou Ben.

— Não se preocupe, rapazes. Vovô nos disse o que deveríamos fazer, antes de sua morte.

Vamos seguir exatamente o que ele planejou. Eu vou ao escritório — falou Roy.

— Eu vou com você — disse Jack.

— E eu vou na frente, pedir as cervejas — avisou Ben.

— Esse não muda nunca, Roy — falou Jack, empurrando Roy para o meio da rua.

— Quero a minha bem gelada — avisou Roy.

— Pode deixar — respondeu Ben.

Galgou com certa dificuldade os degraus da rua até a entrada do saloon.

Empurrou a porta vaivém e entrou, mancando. Desde que fora baleado na perna, perdera parte da mobilidade.

Coxeou até o balcão. Ele ouviu risos e alguém falando alto, mas estava sedento, só pensando na cerveja.

Chegou ao balcão, abriu a capa de viagem e bateu a poeira.

— Você vai me sujar todo o saloon — reclamou o barman.

— Então me traga uma cerveja bem gelada — pediu Ben.

— Você é maluco ou o quê? — indagou o outro.

— Por quê?

— Por que acaba de arrumar a maior encrenca da sua vida. Big Ben Jack está vindo aí —

disse o barman, afastando-se.

Sem entender, Ben se voltou. Um homem alto e forte, vestindo roupas negras e um chapéu enfeitado com rosetas de prata caminhava na sua direção.

Usava dois Colts em seu cinturão, que tinha coldres baixos, bem baixos, os mais baixos que Ben havia visto.

— Você está me gozando, forasteiro? — indagou Big Ben Jack caminhando alguns passos.

Coxeava como Ben. Ao perceber isso, o rapaz começou a rir. Big Ben se irritou.

— Seu bastardo filho da mãe. Como é seu nome? — indagou o grandalhão.

— Ben — respondeu o jovem, confuso.

— Ele é o Ben Pequeno e você é o Ben Grandão — pilheriou um dos homens que estavam atrás de Big Ben, que se sentiu ainda mais ofendido.

— Você está me gozando? — indagou.

— Por quê?

— É burro ou o quê?

— Que diabos, homem! Meta-se com sua vida e me deixe em paz. Só quero tomar minha cerveja. Barman! — gritou Ben. — Cadê a minha cerveja — ordenou, jogando uma moeda sobre o balcão.

Sentiu, então, a mão pesada de Big Ben Jack pousando em seu ombro.

Respirou fundo. Seu avô dizia que Ben era o estopim mais curto de todos os três.

Principalmente quando queria tomar uma cerveja e não o deixavam.

Havia uma garrafa de uísque pela metade sobre o balcão. Ben a apanhou e girou o corpo rápido como um raio.

A garrafa se espatifou na testa de Big Ben, que ficou parado, enquanto o sangue lhe escorria pelo rosto.

— Isto não foi legal! — murmurou ele, sem se abalar com a pancada.

— É? — indagou Ben. — E isto? — acrescentou, enfiando o bico de sua bota entre as pernas do grandalhão.

O rosto de Big Ben Jack azulou-se, esverdeou-se e depois avermelhou-se.

Ele se encolheu, apertando as partes baixas. Ben fechou o punho direito e o bateu direto sobre o nariz do outro.

Quando seu punho recuou, veio lambuzado de sangue. Big Ben caiu para trás.

Ninguém se moveu no saloon. A música parou. No palco, as garotas surgiram, escondidas atrás da cortina.

— E a minha cerveja, caramba! — disse Ben, batendo a mão no balcão.

Foi como se um inseto, um besouro grande, uma vespa enorme, uma abelha das graúdas passasse rente ao seu ouvido.

Zumbindo, aquela forma metálica foi se cravar na parede à frente do rapaz, no outro lado do balcão, a milímetros do enorme espelho.

Ele não precisou se voltar para ver o mestiço que havia arremessado a faca.

Se havia algo que Ben detestava, desde quando era criança e recebera aquele maldito tiro na perna, era ser atacado.

Aquele tiro o marcara porque não pudera se defender. Agora tinha armas e sabia usá-las.

Graças ao avô.

— Idiota! — disse ele, enfiando a mão entre as costas e a capa de viagem.

O mestiço vinha na sua direção. Ben brandiu sua faca Bowie pelo cabo, girou-a no ar e a segurou pela ponta.

O seu agressor não se deteve. Ben atirou a faca com força. O mestiço caiu de boca no assoalho, pois seu pé ficara preso na madeira.

A lâmina traspassara a bota e seu conteúdo. Ele gemeu de dor.

Big Ben recuperou o fôlego e a valentia. Agarrou uma cadeira e a atirou na direção de Ben.

O rapaz se abaixou e a cadeira arrebentou garrafas e o espelho.

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— O prejuízo é dele. Não tenho culpa — falou Ben, olhando para o barman.

— Cuidado! — gritou uma garota no palco.

— Obrigado, moça! — disse ele, afastando o corpo para o lado.

Big Ben abaixara a cabeça e avançara como um touro bravo, disposto a arrebentar o homem a sua frente.

Ao invés disso, encontrou a madeira sólida do balcão. Bateu e recuou, desequilibrado.

Ben avançou contra ele. Enterrou o punho no estômago do grandalhão, que bufou, soltando gases inesperadamente.

— Isto não foi educado — falou Ben.

— Maldito! — rouquejou o mastodonte, aprumando-se.

Ben não percebera que o mestiço, possesso, havia arrancado a faca que prendia seu pé ao assoalho.

E que agora partia para cima dele, agarrando seus braços e os prendendo às costas.

— Ele é todo seu Big Ben Jack! — disse o mestiço.

Ben tentou imaginar como ficaria sua cara quando o grandão terminasse com ele.

Roy e Jack saíram do Escritório de Registro de Terras e atravessaram a rua na direção do saloon.

De repente, a porta se abriu e Ben foi arremessado para fora, indo se estatelar na poeira, aos pés dos dois.

— Meu Deus! Eu só queria tomar uma cerveja — murmurou Ben, com um corte na boca, de onde escorria um filete de sangue.

— Diabos, Ben! Não consegue ficar longe de encrencas? — repreendeu-o Jack, ajudando-o a se levantar.

Ben espanou-se com o chapéu, envolvendo os dois numa nuvem de poeira.

— O que houve lá dentro? — quis saber Roy.

— Eu não fiz nada! — afirmou Ben.

— Se nós não o conhecêssemos, até poderíamos acreditar em você, Ben — riu Jack.

— Você quer ver como é? Então faça o seguinte. Sabe quando você me imita, mancando como um idiota? — indagou Ben.

— Sim, e você fica furioso.

— Pois quero que faça o mesmo enquanto entra no saloon.

— Para quê?

— Para provar que eu não fiz nada lá dentro — respondeu Ben.

Jack olhou-o desconfiadamente.

— Vamos, Jack! Você me imita tão bem — desafiou Ben.

— Certo! Vamos ver que diabos está havendo por aqui — decidiu-se Jack, entrando confiante no saloon.

Roy ia seguí-lo, mas Ben o deteve, segurando-o pelo braço.

— Espere aqui! Vai ser divertido! — afirmou a Roy, que ficou sem entender.

Segundos depois, após o ruído de socos, Jack saiu pela porta como um foguete, indo se espalhar na poeira da rua.

Ben olhou para ele e riu a valer.

— O que houve? — indagou Jack, aturdido, sem ter entendido o que acontecera.

— Nós é que perguntamos — disse Roy.

— Eu estava entrando, chegando perto do balcão. Aí um sujeito me segurou por trás e outro veio para cima de mim como um possesso, espancando-me.

— Diabos! Isso não passa de gozação de vocês — falou Roy, entrando no saloon.

Olhou ao redor. Todos os olhos estavam concentrados nele. Caminhou até o balcão.

— Você não manca também? — indagou Big Ben Jack, pondo-se ao lado dele.

O mestiço foi se posicionar do outro lado. Roy farejou encrenca no ar.

Ben e Jack entraram e ficaram parados na porta.

— Vamos ver como Roy se saí dessa — disse Ben.

— Eles vão machucá-lo — afirmou Jack. — Roy é cabeça dura.

— Como você me viu, ao entrar, eu sou perfeitamente são — disse Roy a Big Ben, respondendo à pergunta feita.

— E tem alguma coisa contra os que mancam?

— Só quando são muito abusados e intrometidos como você — respondeu Roy, preparando-se para a briga.

Big Ben sorriu para o mestiço, que ensaiou o gesto de prender os braços de Roy por trás.

Em resposta levou uma cotovelada no queixo que o fez morder a língua.

— Maldição! — gemeu o meio índio, recuando.

Roy aproveitou e meteu-lhe um chute no estômago, fazendo-o cair de joelhos, enquanto se abaixava.

O punho de Big Ben Jack passou assobiando sobre sua cabeça, como potência de um martelo.

Roy golpeou-o nos dois lados da barriga, fazendo-o bufar e ficar sem fôlego.

Segurou-o pelas orelhas e jogou-o para baixo, na direção do joelho que subia.

A pancada atingiu o nariz do grandalhão em cheio, jogando-o para trás com a cara ensangüentada.

Nesse momento, uma garrafa foi quebrada atrás dele. Roy se virou a tempo de ver o mestiço empunhando o gargalo quebrado e aguçado como uma arma.

— Se eu fosse você largava isso aí — disse ao seu oponente.

— Vou largá-la, sim, mas na sua cara, branco intrometido — rugiu ele, avançando contra Roy.

A garrafa passou roçando seu braço, quando ele se desviou para o lado.

Em resposta, golpeou o queixo do seu agressor de cima para baixo, jogando-o no assoalho.

Um grito de dor ecoou no saloon, quando Big Ben teve sua mão atravessada pela faca de Ben.

O grandalhão gemeu, contorcendo-se no assoalho. Roy chutou-lhe o rosto, pondo-o para dormir.

Virou-se para o barman.

— Podemos tomar uma cerveja em paz agora?

— Sim, todas que quiserem — respondeu o homem, olhando na direção da porta.

O xerife e dois ajudantes acabavam de entrar, empurrando Ben e Jack para o lado.

Aproximaram-se de Roy.

— De onde é, estranho? — perguntou o xerife.

— Oklahoma City.

— O que quer em Amarillo?

— Somente tomar uma cerveja e dar o fora bem depressa.

— Não gostamos de arruaceiros aqui.

— Então devia expulsar aqueles dois ali — apontou, na direção de Big Ben e do mestiço, que dormiam no assoalho.

— Quer me ensinar como ser xerife?

— De modo algum. Só quero tomar uma cerveja e ir embora.

— Houve algum prejuízo, Sam? — indagou ao barman.

— Não, nada além de uma garrafa vazia quebrada.

— Certo. Tome sua cerveja depois caia fora, forasteiro. Se estiver aqui ao pôr-do-sol eu mesmo me encarregarei de levá-lo aos limites da cidade — ameaçou o homem da lei.

— Tem sorte de eu estar com pressa, xerife — falou Roy, bebendo a cerveja que o barman lhe trouxera.

— Por quê?

— Porque senão eu pagaria para ver isso — afirmou o rapaz, cravando nele seus olhos claros e faiscantes.

O xerife empalideceu e recuou um passo, medindo o homem a sua frente.

Roy jogou para trás a aba da capa de viagens, descobrindo o Colt no coldre baixo.

— Eu aceitaria a aposta — afirmou o xerife, sem muita convicção, engolindo seco. — Você ouviu o que eu disse, não? — finalizou, retirando-se.

Ben e Jack se aproximaram. O primeiro deles retirou a faca cravada na mão de Big Ben.

Com seu lenço amarrou o ferimento do grandalhão, que sangrava muito.

— Pago um dólar para quem levá-lo ao médico — disse.

Dois voluntários se apresentaram. Ben deu a cada um deles um dólar, mais cinco dólares para pagar o médico.

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— E para mim, nada? — indagou o mestiço, cuspindo sangue, enquanto se levantava.

— Eu lhe pago um uísque para desinfetar — afirmou Roy chamando-o para o balcão.

O homem havia cavalgado toda a tarde, com um cavalo veloz e resistente, indo de Amarillo até Meredith.

Levava um importante recado do oficial do registro de terras para o banqueiro daquela cidade.

Brad Marshal o recebeu na sala reservada do Banco.

— Tenho um recado de Amarillo para você — disse o cavaleiro, extenuando pela longa e frenética cavalgada.

— Sim, fale logo.

— Disseram que eu receberia vinte dólares por isso...

— Aqui estão seus vinte dólares — respondeu Brad, abrindo a carteira e pondo as notas na mão dele.

— Mandaram dizer que os três estão vindos e que são encrenqueiros de primeira, gente da pior espécie.

— Só isso?

— Sim, só.

— Está bem, obrigado! Fique com mais cinco dólares para alimentar o cavalo. Fez um bom trabalho.

Brad se apressou em ir até o saloon, onde Sam conversava com um gigolô que corria as cidades oferecendo dançarinas para toda e qualquer espelunca que encontrasse.

— Ei, Brad! Acabo de contratar dez novas garotas, cantora, dançarinas e até uma que faz mágicas. Pode imaginar isso? — falou Sam, com entusiasmo.

Ao ver a cara de preocupação do sócio, porém, despediu o empresário para ficar a sós com Brad.

— O que foi?

— Eles estão vindo. Passaram por Amarillo. O oficial do registro de terras mandou um cavaleiro me avisar. Disse que são da pior espécie.

— Neste caso, é um trabalho para os Linchadores, não?

— Deixe de ser idiota, Sam. Não temos mais idade para essas coisas. Onde estão aqueles seus pistoleiros?

— Aqueles são como gatos gordos. Acostumaram-se à vida mansa, Brad. Nem sei se poderão fazer o trabalho.

— Terão que servir. Além disso, há aqueles que ficam rondando o saloon todas as noites.

São uns mal encarados que se prestarão ao serviço.

— Se quer, falo com Waco agora mesmo e deixo tudo nas mãos dele.

— Sim, faça isso. Uma emboscada no Desfiladeiro Van Horn resolveria tudo. Eles poderiam ficar enterrados por lá mesmo, que não fariam falta.

— Eu vou falar com Waco. Só que vamos ter que gastar um pouco de dinheiro.

— Ao diabo com o dinheiro, homem. É a nossa tranqüilidade que está em jogo.

— Tudo bem, eu cuido disso então — finalizou Sam.

Brad saiu apressadamente para informar o que se passava aos outros sócios.

Sam mandou chamar Waco, o pistoleiro que cuidava do saloon, afastando os desordeiros.

— Waco, soube que você agitou Abilene nos velhos tempo, é verdade isso?

O pistoleiro sorriu, convencido.

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— Abilene, Wichita, Tulsa e todas as cidades a oeste de Oklahoma City. Por que pergunta, Sr. Tyler?

— Como vai sua pontaria?

— Tenho praticado sempre.

— Aceitaria um trabalho extra?

O pistoleiro coçou o queixo, tentado.

— O que precisar de mim.

— Três homens estão vindo de Amarillo. Três rapazes ainda. Quero que os espere no Desfiladeiro Van Horn e dê as boas vindas de Meredith para eles.

— Vou precisar de mais gente.

— Quem vai levar?

— Encontrarei quem preciso na cantina na saída da cidade. É onde estão os vaqueiros desempregados, os pistoleiros e os fugitivos. Levarei Newton e Hunt comigo. Apanharei mais três lá na cantina.

— Quanto me custará tudo isso?

— Duzentos dólares para mim cem para cada dos homens.

— É justo! — concordou Sam. — Receberão depois que o trabalho estiver terminado.

— Ótimo! Vou cuidar disso agora mesmo — falou Waco.

— Sim, apresse-se que eles devem estar chegando.

As mulheres estavam na carroça fechada, com apenas duas janelas laterais para ventilação.

Viajavam presas aos bancos por correntes. Tompson não facilitava. Pagava caro por elas e as vendia caro da mesma forma.

Soltou a corrente que prendia todas elas pelos tornozelos a aros sob os bancos.

— Desçam, garotas! Vão conhecer seu novo lar! — disse eles, empurrando-as para a porta dos fundos do saloon, onde Sam as esperava, satisfeito com o negócio.

— Quem é a cantora? — indagou ele.

— Angeline, a lourinha.

— E quem faz mágica?

— Eu, seu monte de banha — respondeu alma, uma ruivinha temperamental.

— Não fale assim com seu novo patrão — repreendeu-a Tompson, dando-lhe um cascudo na cabeça.

— Ei, vai estragar minha mercadoria! — protestou Sam, empurrando-o para trás.

— Como quiser, Sr. Tyler, mas eu o advirto. Cuidado com elas! Tem mais unhas que um puma e sabem brigar com um índio desesperado.

— Eu tomarei conta delas. Quanto a você, moça que faz mágica. O que sabe fazer desaparecer?

— Posso começar por isso que você tem no meio das pernas — falou ela, aborrecida.

Sam riu a valer do gênio da garota.

— Vamos nos dar muito bem, se eu não lhe quebrar todos os dentes logo cedo — ameaçou ele, parando de rir e encarando-a de frente.

Alma percebeu que ele não brincava.

— E esta, quem é? — indagou a Tompson, referindo-se à jovem que descia da carroça, envolta num cobertor índio.

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— Essa é Mineola, a mestiça.

— Oh, sim! A quem faz show com facas, chicotes e armas?

— Essa mesma! Atira melhor que muito marmanjo que conheço e pode manejar um chicote como se fosse um leque.

— Bem, garotas, todas para dentro. Vão encontrar acomodações no andar superior.

Descansem, tomem banho, pintem-se e perfurem-se. Quero alguma agitação hoje à noite.

Houve uma reclamação geral, pois todas alegavam cansaço pela viagem.

— Só há duas maneiras de lidarem comigo, garotas — falou Sam, suavemente. — Uma é fazendo tudo o que eu ordeno e, com isso, recebendo toda a minha gratidão. E eu sei ser grato a quem me ajuda ganhar dinheiro. A outra forma de lidar comigo é... Bem, vamos poupar detalhes desagradáveis. Vocês acabam de chegar de viagem e sei que estão ansiosas para me agradarem, não? Agora, por favor. Todas para cima! — finalizou ele e elas, em silencio, trataram de fazer o que ele ordenara.

Subiram para o pavimento superior do saloon, onde havia os quartos e os banheiros.

Mineola, Angelina e Alma ficaram no quarto dos fundos, enquanto que as dançarinas escolheram logo os primeiros aposentos, mais próximos da escada.

— Maldição! Eu daria a minha vida para apanhar aquele maldito Tompson pelo pescoço —

falou Mineola. — Enganou-se direitinho. Falou que nos levaria à Califórnia e vejam no que deu.

Nos vendeu para esse louco nesta cidadezinha de nada, no meio do nada.

— E algo me diz que devemos nos conformar com isto — disse Angeline. — Pelo menos esse tal de Sam me parece mais fácil de lidar que Tompson.

— Assim espero — afirmou alma, deitando-se na cama e desejando dormir.

O sol começava sua lenta e inexorável descida, anunciando o fim do dia.

Os três cavaleiros detiveram seus animais à margem de um córrego.

Roy desceu, tirou o chapéu e encheu-o de água, derrubando-a depois sobre a nuca e os cabelos.

Ben e Frank fizeram o mesmo. Ficaram ali, molhando-se e se refrescando da longa cavalgada, enquanto olhavam na direção da entrada do Desfiladeiro Van Horn.

— É ele, não? — indagou Ben, referindo-se ao desfiladeiro.

— Sim, só pode ser — respondeu Jack.

— Vovô nos alertou que, se soubessem de nossa vinda, ali seria o lugar ideal para nos esperarem, rapazes — comentou Roy.

— O que acham? — quis saber Ben.

— Eu acho que eles não sabem — opinou Jack.

— Passamos pelo Escritório de Terras. Eu vi o registro de tudo aquilo em nome deles.

Nada havia sobre o registro provisório, conforme o próprio vovô já havia apurado. Para isso, precisariam da conivência do oficial de registro. Ele pode ter mandado alguém na nossa frente, enquanto ficávamos vendo Ben querer tomar toda a cerveja do saloon, só para impressionar aquela garota — reclamou Roy.

— Puxa, Roy! Eu estava mesmo com sede. Cavalgamos direto de Oklahoma City até Amarillo sem parar em nenhum saloon pelo caminho. Ainda devo estar um barril atrasado.

— Então deixe para tomá-lo em Meredith, se chegarmos lá. Pode ser que furem sua pança que não pare nela nem mais uma gota de cerveja — brincou Roy.

— Ok, Roy! Não temos outra alternativa a não ser passar pelo desfiladeiro, não? Só que eles esperam três homens. Um de nós pode ir na frente e sondar o ambiente — sugeriu Jack.

— Acha que eles seriam tão burros assim — discordou Roy.

— Espere um pouco, Roy! Está sendo severo demais com o Jack. Se ele tirar essa capa de viajante, vai parecer um vaqueiro comum.

Roy pensou por instantes.

— Sou obrigado a concordar com vocês. Não temos outra alternativa. eu vou na frente, então. Se perceber alguma coisa, volto para avisá-los.

— Eu não disse, Jack? É só eu ter uma boa idéia e o Roy a pega para si — reclamou Ben.

— Você ter uma idéia? Não me faça rir, Ben — ironizou Roy.

— Pensa que só você é inteligente, não é? Pois posso lhe dar uma idéia muito boa. Melhor até que esta que você pegou para você.

— Está certo. Vamos lá, dê outra idéia, então? — desafiou-o Roy.

— Uma boa idéia! — murmurou Ben, coxeando de um lado para outro.

Roy começou a rir, enervando-o.

— Deixe-o pensar, Roy — repreendeu-o Jack.

— Você se lembram daquela vez que vovô e mais alguns amigos foram recuperar uns cavalos roubados pelos índios? Ele contava isto sempre — falou Ben. — Pois esta é uma boa idéia.

Roy e Jack se entreolharam.

— O que me diz, Roy? — indagou Jack.

— Diabos, mas ele conseguiu, Jack! Ele conseguiu — riu Roy, empurrando Ben para dentro do rio, depois atirando-se sobre ele.

Algum tempo depois, um cavaleiro entrava no desfiladeiro. Puxava pela rédea dois outros cavalos, em cujas selas estavam atravessados seus cavaleiros, como se estivessem mortos.

Havia silêncio no cânion. Apenas o eco das pisadas dos cavalos, com as ferraduras resvalando nas pedras, se ouvia.

Olhos atentos, Roy vasculhava as rochas ao redor da estreita passagem.

— Viu alguma coisa? — indagou Ben.

— Cale-se! Você está morto, idiota! — falou-lhe Jack.

— Nada ainda, mas aqui é muito estreito. Ali na frente a passagem se alarga. Com certeza estão lá, para nos apanhar em fogo cruzado. Fiquem quietos.

Roy continuou. Seus olhos atentos perceberam movimento atrás das rochas.

A sombra de um chapéu se moveu. O reflexo do cano de um rifle cintilou por instantes.

Uma pedra escorregou pela encosta.

— Preparem-se! Estão ali, na nossa frente.

— Quantos? — quis saber Jack.

— Não sei! Fique quieto.

Na encosta, observando aquele cortejo, Waco ficou intrigado, tentando imaginar o que era aquilo.

Havia disposto o grupo de seis homens nas duas encostas, prontos para um fogo cruzado sobre três cavaleiros que passariam por ali.

O que via, no entanto, era um cavaleiro puxando dois mortos. Olhou na direção da entrada do desfiladeiro. Nada havia, além dos três.

Levantou-se de seu esconderijo, com o rifle engatilhado.

— Ei, você! Pare aí! — ordenou.

Roy parou seu cavalo, detendo os outros dois.

— Estou vendo três do lado de cá — falou Ben.

— Então deve haver mais três, no mínimo, do outro lado — deduziu Jack.

— O que quer? — gritou Roy para Waco.

— Quem é você? E quem são esses aí?

— Eu estou a caminho de Meredith. Encontrei esses dois homens mortos na margem de um córrego lá atrás. Havia um terceiro, mas acho que caiu no rio e foi levado pelas águas.

— Eram três, então?

— Sim.

— E onde está o terceiro cavalo?

— Estava com a pata machucada. Tive de sacrificá-lo.

— Não ouvi nenhum tiro — falou Waco, desconfiado.

Seus companheiros de emboscada haviam se revelado, acompanhando sua conversa com Roy.

Ben e Jack estavam preparados para agir a qualquer momento, quando Roy avisasse.

— Não tenho culpa se você é surdo — falou Roy, num tom mais baixo.

— O que você disse? — indagou Waco.

— Eu falei que ele era surdo? — disse Roy, quase rindo, aos seus primos.

— O que você disse? — insistiu Waco.

— Eu disse que o vento não estava soprando para este lado, por isso não ouviu o tiro.

Waco tirou o chapéu e coçou a cabeça.

— O que acham, rapazes? — indagou aos outros.

— Se levarmos os corpos, vamos receber nosso dinheiro do mesmo jeito — falou um deles.

— Acho que é isso mesmo — concordou Waco, tendo um idéia interessante.

Se matasse aquele vaqueiro, levaria os corpos e diria a Sam que os três que ele queria estavam mortos.

Começou a descer a encosta, com um sorriso ameaçador nos lábios. Os outros fizeram o mesmo.

— Não estou gostando disso — falou Roy.

— Problema seu. É o único que está vivo. Nós já não temos esse problema — gozou Ben.

— Engraçadinho! — repreendeu-o Jack, pronto para a luta.

Disfarçadamente Roy liberou o Colt no coldre. Ben e Jack tinham suas armas sob o corpo, fáceis de serem sacadas.

Waco se aproximou confiante.

— Vou matá-lo, vaqueiro — disse a Roy, enquanto erguia o rifle sem pressa.

Arregalou os olhos. primeiro aquele vaqueiro estava com as mãos nas rédeas. No momento seguinte, estavam empunhando um Colt.

— Eu não faria isso se fosse você — ordenou Roy, descendo do cavalo.

Ben e Frank fizeram o mesmo. Já empunhavam suas armas, quando saltaram dos cavalos.

— É uma armadilha! — gritou um dos pistoleiros, engatilhando seu rifle.

Ben disparou seu Colt, atingindo-o em pleno peito e jogando-o na poeira.

Outro tentou fazer o mesmo e Jack arrebentou-lhe a cabeça com um balaço.

Os outros soltaram as armas e ergueram os braços. Os quatro restantes foram desarmados e reunidos diante dos três rapazes.

— Bem, o que temos aqui? — falou Roy. — Estavam a nossa espera?

— Não, foi tudo um engano — apressou-se em responder um deles.

— Já comeu com um dente quebrado? — perguntou-lhe Jack, encarando-o.

— Não, por quê?

— Porque é ruim! — exclamou o rapaz, batendo com a coronha do revolver na boca do pistoleiro, que cuspiu sangue e pedaços de dentes. — Detesto mentirosos!

Os outros se intimidaram.

— Eu não sei de nada, moço — falou um pistoleiro que Waco contratara na cantina. —

Seríamos pagos para virmos aqui e matarmos três encrenqueiros que estavam a caminho de Meredith...

— É... Se era para matar três encrenqueiros, então o negócio era com a gente mesmo.

Quem estava pagando por isto? — quis saber Ben.

— Eu não sei. Ele sabe — falou o pistoleiro, apontando para Waco, que recuou.

— Eu não posso falar... Ele me mataria...

— Acontece que nós vamos matá-lo se não contar — falou Ben, sacando sua faca. —

Sempre tive vontade de escalpelar alguém — acrescentou, segurando Waco pelo pescoço, arrancando-lhe o chapéu com a ponta da faca e encostando a lamina na testa dele.

— Não, por favor, não faça isso — suplicou o pistoleiro, tentando se livrar.

Ben chutou-lhe o joelho, fazendo-o cair para frente. Segurou-lhe os cabelos e cortou rente ao couro cabeludo.

Saiu dançando e uivando como um índio bêbado.

— O idiota! Para escalpelar tem que cortar o couro cabeludo. Isso que você fez é trabalho de barbeiro — falou-lhe Jack, balançando a cabeça de um lado para outro.

— Não temos tempo para brincadeiras, rapazes. Logo vai escurecer e quero estar em Meredith quando isso acontecer. Vamos deixar nossos amiguinhos aqui irem na frente para avisarem da nossa chegada, está bem assim? — decidiu Roy.

— Assim, Roy? Sem mais nada? Esses caras iam matar a gente. Não vamos fazer nem um furinho neles? — protestou Ben, com a faca na mão.

— É... Eu não gosto disso também. Lembram-se do que vovô fazia contra quem sacava contra ele? — comentou Roy.

— Sim, quando ele não matava, ele... — lembrou-se Ben, aproximando-se dos homens com a faca na mão. — Com qual dedinho você aperta o gatilho? — indagou a Waco.

— Com este — disse Waco, apontando o indicador na direção do jovem.

O golpe foi rápido e inesperado. Waco nem chegou a sentir dor no momento.

Apenas arregalou os olhos quando viu seu dedo cair na poeira, decepado pela lamina mais afiada que uma navalha.

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— Caiam fora daqui — ordenou Roy, chutando o traseiro dos pistoleiros a sua frente.

O bando correu na direção de onde haviam deixado os cavalos.

Waco, tendo apanhado seu dedo, enquanto corria tentava, pateticamente, grudá-lo de novo ao coto sangrento.

— Recolham as armas deles, rapazes. É sempre bom ter artilharia de reserva — lembrou Roy.

Sam havia fechado o saloon para que as novas garotas ensaiassem.

Um grupo de homens se concentrava nas janelas e nas frestas, animados com o novo grupo.

Lá dentro, Mineola separava, num pequeno estojo, meia dúzia de laminas sem cabo, próprias para arremesso.

— Eu adoraria jogar uma faca destas numa daquelas frestas e cegar um filho da mãe —

falou a mestiça.

— Dê-se por feliz, garota. Não terá que se deitar com eles como nós temos — falou uma dançarina.

— É injusto isso — ajuntou uma outra. — Por que elas não precisam fazer isso? São melhor que nós ou só se deitam com o patrão.

Mineola apenas moveu o braço, alcançando seu chicote, que se ergueu no ar como se tivesse vida própria.

A ponta foi se enroscar no pescoço da dançarina que havia reclamado.

— Da próxima vez, eu lhe arranco a língua antes que possa cuspir outra besteira —

ameaçou.

— Garotas, vamos com calma. Sally, nós três não nos deitamos porque somos estrelas e fazemos números especais. Em compensação, não ganhamos as gorjetas que vocês ganham

— explicou Angeline.

— Grande coisa! Juntar dinheiro para quê? — reclamou a garota.

— Para dar o fora desta porcaria de vida um dia — disse Alma, manuseando um baralho, tirando e escondendo um ás de espada com habilidade incrível.

— E então, garotas! Estão prontas? Quero abrir logo o saloon — cobrou Sam.

— Está difícil, Sam. Seu pianista não sabe as nossas músicas — reclamou uma dançarina.

— É, Sam, não sei tocar essas coisas novas...

— Vire-se Dan, ou mando buscar um outro pianista.

— Eu o ajudo com as músicas — falou Angeline, a cantora, indo até o pianista.

Sam sorriu com satisfação. Pela aglomeração lá fora, teria uma noite e tanto.

Fora uma sábia decisão ter contratado as novas garotas. Isso iria atrair homens de toda a região.

Deu mais algum tempo para que o pianista se acertasse com as músicas.

Depois mandou que as garotas fossem se prepara. Quando elas saíram, ele foi abrir o saloon.

Houve um murmúrio lá fora, quando ele retirou a tranca e puxou para o lado a madeira que fechava a porta.

Sam não entendeu. Waco caminhava na direção, com um pano ensopado de sangue apertado contra a mão direta.

— O que houve? — indagou.

— Os três... Meu dedo... Eles cortaram o meu dedo, Sam — balbuciou Waco, com os olhos arregalados.

— Alguém vá buscar o doutor — ordenou Sam, levando seu pistoleiro para a sala nos

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fundos.

Waco foi deixando uma trilha de sangue por onde passava.

— O que houve?

— Eles nos pegaram...

— Não matou os três?

— Não. Foram mais esperto... Nos surpreenderam!

— Maldição! E onde estão?

— Vindo para cá.

— Inútil! Você é um inútil, Waco — afirmou Sam, deixando-o ali e saindo à procura de seus sócios.

O saloon se enchia de homens, à espera das atrações da noite. Alguém trouxe o doutor, que foi levado até onde estava Waco.

Sam não sabia que rumo tomar, parado no meio da rua, enquanto o céu se tingia de sangue no anoitecer.

Sam correu à procura de Brad, o banqueiro, normalmente o mais ajuizado para lidar com aquele tipo de problema.

Contou-lhe o que acontecera com Waco.

— Onde está esse infeliz? — indagou Brad.

— Eu o deixei no saloon. O médico foi chamado para olhar sua mão.

— Neste caso, o melhor a fazer é ir buscá-lo para que o idiota não dê com a língua nos dentes. Depois de tratado, vamos sumir com ele.

— Mas isso não resolve o nosso problema principal. Eles estão chegando, Brad! — falou Sam, com desespero.

— Aquele seu sobrinho idiota poderá nos ajudar, afinal. É o xerife, não/

— Franklin não saberá lidar com a situação.

— Saberá, se nós o orientarmos. Antes de mais nada, vá buscar Waco. Venha para cá com o xerife. Veremos o que fazer. Enquanto isso, tentarei localizar o resto dos rapazes.

Sam retornou ao saloon, passando antes pela cadeia. Franklin o seguiu.

O médico cauterizado o ferimento de Waco e enfaixado a sua mão.

Sam fez o que Brad recomendara, levando-o até a casa do banqueiro, que os esperava juntamente com os outros sócios.

— Conte-nos o que houve, Waco — ordenou Brad.

— Nós ficamos à espera deles... Eles nos pegaram numa armadilha... Um deles veio puxando os cavalos dos outros, atravessados sobre as selas... Nós o paramos... Ele disse que havia encontrado os dois mortos... Nos aproximamos e eles nos renderam. Mataram dois dos homens que contratei lá na cantina... Depois cortaram meu dedo e me mandaram vir avisá-lo da chegada deles — explicou o pistoleiro.

— Mataram dois homens? — indagou Brad, tendo uma idéia.

— Sim — confirmou Waco.

— Então está resolvido — afirmou Brad. — Xerife, você prenderá os três pelos crimes que Waco descreveu. Teremos quatro testemunhas para acusá-los.

— Ei, está me parece uma boa idéia — afirmou Dave.

— É uma boa saída — confirmou Sam. — Franklin, acha que pode lidar com isso?

— Claro que sim, tio. Convocarei os auxiliares.

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— Isso mesmo. Levo meia dúzia deles. Waco irá com você, bem como os outros que estavam com ele. Quem são, Waco?

— Os dois que trabalham comigo no saloon e um outro homem, um vaqueiro que contratei na cantina.

— E onde estão eles?

— Por aí...

— Pois trate de achá-los e vá para a cadeia esperar pela chegada dos Sherman. Quando eles chegaram, Franklin agirá e nós lhe daremos cobertura.

— Com isto resolveremos a situação de uma vez por todas — afirmou Sam.

Eles entraram cavalgando lentamente na cidade, olhando ao redor com atenção.

Seus olhos aguçados tentavam captar todos os movimentos. As ruas, no entanto, estavam desertas.

— O que acham? — indagou Roy, detendo seu animal.

— Muito quieto para o meu gosto — afirmou Ben.

— Cadê o pessoal desta cidade? — quis saber Jack.

— Lembram-se de alguma coisa? — perguntou Roy.

— Eu me lembro do fogo... Do bosque e do frio no lago... A dor na perna também — disse Ben.

— O fogo e o carvalho... Eu os vejo de vez em quando, em meus sonhos.

— Eu me lembro dos corpos... Como enorme folhas secas balançando nos galho do carvalho — disse Roy.

— Acha que pode ser uma armadilha, Roy? — indagou Ben, liberando o Colt.

— Vamos descobrir — disse o rapaz.

Os cavalos avançaram a trote lento, pela rua principal. Ao chegarem à praça, pararam.

A música do saloon e os cavalos amarrados diante do prédio explicavam as ruas desertas.

Eles, no entanto, olhavam em outra direção. Seus olhos estavam fixos no velho carvalho, agora maior, com um tronco marcado pelo passar dos anos.

Os olhos dos três se encheram de lágrimas, enquanto as cenas daquela noite fatídica lhes voltava à memória.

Ben chegou a sentir de novo o impacto da bala em sua perna, que o deixou manco para o resto da vida.

Roy desviou os olhos para o lago. Não havia mais um bosque, apenas o fim da rua e as águas tranqüilas.

— Vovô disse mesmo que haviam cortado todo o bosque... — mencionou ele.

— Disse que os troncos calcinados foram usados para construir o saloon — lembrou Jack.

— Eu me sinto mal, rapazes — disse Ben, descendo do cavalo e caminhando até o carvalho.

Fechou os olhos, tentando se lembrar. Em algum ponto, atrás dele, ficava o estábulo.

— Eu estou com sede — falou Ben, voltando o olhar para o saloon.

Levou a mão inconscientemente ao pescoço e puxou um colar, onde havia um pingente feito com um pedaço de dente.

Apertou-o na mão.

— E se encontrarmos com algum deles? — perguntou Jack. — Se encontrarmos o homem dos dentes quebrados?

— Vovô nos deu a receita da vingança e vamos fazer como ele disse. Tudo isto aqui será amaldiçoado. Quando terminarmos, Meredith será uma cidade fantasma e assim ficará para todo o sempre — comentou Roy, com amargura e decisão.

— Eu estou com sede — voltou a dizer Ben. — Aquele saloon me parece um ótimo lugar para beber uma cerveja.

— O que me diz, Roy? Vamos lá! — insistiu Jack.

— Ok! Uma cerveja não fará mal a ninguém. E depois, não iríamos achar nossas terras no escuro mesmo — decidiu ele e rumaram para o saloon.

Amarraram os cavalos, tiraram as capas e espanaram a poeira da viagem.

Olharam-se, já na porta do saloon. Lá de dentro vinha uma voz linda, cantando Old Cowboys Don’t Cry.

— É a minha favorita — disse Jack, entrando primeiro.

Parou, extasiado com a beleza da garota que cantava, movendo o corpo graciosamente, enquanto desfiava a letra triste daquela música que o avô costumava cantar.

Ben e Roy o empurraram na direção do balcão. Jack se deixou arrastar emocionado.

— É linda! — exclamou Jack.

— A música ou a garota? — quis saber Ben.

— As duas — respondeu ele, apoiando-se no balcão para ficar olhando a jovem no palco.

Quando ele terminou de cantar, os homens no saloon atiraram moedas no palco.

Jack separou uma nota de cinco dólares e caminhou até lá. A garota recolhia as moedas.

Ele estendeu a nota.

Ela o olhou com surpresa.

— Era a favorita de meu avô — explicou o rapaz, com lágrimas nos olhos.

A visão daquele belo rapaz, com os olhos cheios de lágrimas comoveu Angeline.

Ela estendeu a mão e apanhou a cédula. Jack suspirou, olhando-a nos olhos.

— Como é seu nome? — indagou.

— Angeline!

— É um lindo nome, Angeline — sorriu ele, tocando a aba do chapéu num cumprimento rápido.

Retornou ao balcão, onde um uísque e uma cerveja já o aguardavam.

Tomou o uísque, depois entornou alguns goles de cerveja gelada, estalando a língua e respirando fundo quando terminou.

— Vocês se lembram que vovô dizia que havia conhecido a vovó num saloon, quando ela estava cantando essa música? — comentou ele.

— Eh! Pirou! — falou Jack.

— Puxa, Jack! quando é que você vai crescer? — perguntou-lhe Roy.

— Eu lhe mostro quando! — falou o rapaz, mostrando o punho fechado para o primo.

Neste momento, Angeline anunciou o numero seguinte. Estalos sucessivos de chicotes antecederam a entrada de Mineola.

Ela realizou uma frenética e impressionante coreografia, brincando com o perigoso chicote.

Quando terminou, atirou-o para o lado e apanhou suas lâminas de arremesso.

Acendeu um cigarro. Ergueu-o acima da cabeça.

— Preciso de um homem de coragem — disse ela.

— Epa, é comigo mesmo — resolveu Ben, levantando a mão.

Caminhou na direção do palco, manquitolando como sempre.

— Ela pediu um homem, não um palhaço — gritou alguém.

Todos riram. Ben parou, respirando fundo.

— Eu não disse que a encrenca o persegue? — falou Roy.

— Calma, Ben. É só um idiota grunhindo — gritou Jack para o primo.

O saloon ficou em silencio. No fundo, um homem se levantou de uma das mesas.

— Falou comigo? — indagou.

— Se você é idiota e grunhe, foi com você mesmo — afirmou Jack. — E persegue a mim em segundo lugar, já reparou? — disse para Roy.

— Norris, cale a boca e vamos ver se o rapaz é corajoso mesmo — gritou alguém.

— É, depois você resolveu isso — ajuntou outro.

— É, vamos ver se ele é homem mesmo — disse, sentando-se, finalmente.

Ben foi até o palco. Subiu com dificuldade os degraus. Parou diante da mestiça, sentindo-se estremecer do fitar aqueles olhos negros e brilhantes.

— Encoste-se naquela parede e segure o cigarro com a mão direta estendida — disse a garota para Ben.

Ele caminhou até a parede. Prendeu o cigarro entre os dedos, depois estendeu o braço.

Olhou para a garota, depois para o cigarro.

— Você é boa nisso? — perguntou.

— A melhor.

— Então vamos ver — afirmou ele, pondo o cigarro entre os lábios e ficando de perfil.

— Ele é louco! — gritou alguém.

— Quando a coisa está fácil demais, ele tem de complicar — disse Roy, apanhando outra cerveja.

Mineola olhou o rapaz com admiração. Leu nos olhos dele uma confiança que lhe deu forças para tentar o número.

Jamais fizera aquilo.

— Vamos lá, eu não fumo e isto aqui está me matando — falou ele, em tom de galhofa.

Ela segurou uma das facas entre os dedos da mão direita. Levou-a para trás e a arremessou.

Ben nem teve tempo de piscar. A faca decepou o cigarro e se enterrou na madeira.

O saloon veio abaixo. O pessoal urrou de satisfação, atirando moedas no palco.

— Depois você me dá a minha parte — disse Ben, piscando um olho para ela.

Ele começou a descer a escada. Ela se aproximou. Segurou o rosto dele suavemente entre as mãos.

— Anahtitila! — sussurrou ela.

— Anahtitila! — respondeu ele, no mesmo tom.