A lei do gatilho por L P Baçan - Versão HTML

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Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

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Todos os olhares acompanhavam a aproximação da diligência, quando ela dobrava a Colina Bootrock e vinha, levantando poeira. Naqueles momentos, a calma da pacata cidadezinha era quebrada, pois a chegada da diligência podia significar a esperança de chegada de alguma novidade.

Normalmente trazia a mala do correio, passageiros ou transportava, em segredo, dinheiro para o banco local. Como das outras vezes, as pessoas saíram às janelas e portas, observado a chegada do veículo.

Quando a nuvem de poeira se dissipou, o Xerife Coomb se aproximou da diligência, que cruzara a rua e parara diante do escritório da Companhia Wells Fargo.

— Tudo bem na viagem, Pike? — indagou ao cocheiro que prendia a trava do freio.

Pike cuspiu um resto de fumo de mascar sobre a poeira da rua, antes de responder com sua voz pastosa e enrolada, com um forte sotaque sulista.

— Tudo bem, xerife. Apenas coiotes e abutres durante toda a viagem.

O xerife apoiou-se à porta do escritório, na sombra.

— Passageiros? — indagou.

— Só dois.

— Gente honesta ou jogadores?

— Veja por si mesmo.

Em resposta, dois homens desciam do veículo naquele momento. Um deles, todo encasacado, abanava-se numa nuvem de poeira.

O outro, vestindo paletó, mas sem muita ostentação, mas com roupas caras e sem armas, olhava ao redor, como se procurasse por alguma coisa.

Ao ver o homem com a estrela, aproximou-se e conferiu para ver com quem falava.

— É o xerife daqui? — quis saber.

Coomb apontou para a estrela.

— Sim, sou o Xerife Coomb. O que posso fazer para ajudá-lo, cavalheiro?

— Eu sou Burt Franklin e este é meu amigo, Donald Foubert — respondeu o outro, com ar de quem tinha algo interessante a tratar. — Temos algo que gostaríamos de conversar, mas apreciaríamos se fosse num local mais reservado...

— Talvez seja melhor irmos até o meu escritório então — propôs o homem da lei.

Um grupo de curiosos já começava a se formar ao redor dos forasteiros.

Caminharam pela rua principal de Green Valley, até a cadeia. O xerife entrou, atirou seu chapéu no cabide e foi se sentar atrás de sua escrivaninha.

Apontou duas cadeiras aos recém-chegados, que trataram de se sentar.

— E então, o que desejam?

— Procuramos um homem...

— Quem é ele?

— Conhece este aqui, xerife? — indagou Franklin, retirando um cartaz do bolso de seu colete de couro.

O xerife apanhou-o e examinou-o, com visível desagrado. Era um cartaz de procura-se, oferecendo uma recompensa pela cabeça de um homem chamado James John.

O xerife conhecia James John. Havia chegado à cidade umas duas semanas atrás. Pelo que sabia, James vinha trabalhando como xerife de cidades com problemas.

Havia limpado algumas delas com sucesso. Após devolver a lei e a ordem a elas, seus serviços eram dispensados. Para um homem como ele, que tinha somente as armas como referência, era difícil se manter por muito tempo num lugar só.

Examinou melhor os dois homens a sua frente. Julgou, a princípio, estar às voltas com alguma espécie de caçadores de recompensas.

Apesar de elogiar o que eles faziam, sempre tivera uma aversão por aquele tipo de trabalho e por homens que viviam da morte alheia, como verdadeiros abutres.

Aqueles dois, no entanto, examinando melhor, não se pareciam com caçadores de recompensas. Não usando aquelas roupas e sem carregar nenhum tipo de arma.

Isso o deixou curioso.

— São caçadores de recompensas? — indagou, devolvendo o cartaz.

Seu tom de voz quase agressivo demonstrava seu estado de ânimo e seu conceito a respeito do assunto.

— Não, de modo algum, xerife! Longe de nós esse tipo de profissão. Sou rancheiro e Foubert é banqueiro e também prefeito de Goldrock.

— E o que procuram com James John? De acordo com esse cartaz ele é procurado vivo ou morto no seu Estado...

— Sim, em nosso Estado. Viemos aqui buscá-lo. O Conselho de Cidadãos de Goldrock pôs os detetives da Pinkerton atrás dele por todo o Oeste. Já estávamos desistindo, quando recebemos a informação de que ele estava por aqui — falou Franklin.

— Bom, isso é com vocês, senhores. Não tenho motivos para impedi-los de falar com ele.

Saibam que até agora ele tem se comportado.

— Só queríamos que nos confirmasse que ele se encontra aqui, xerife — insistiu Foubert.

— Por quê?

— Temos uma proposta para ele.

— Trabalho? — surpreendeu-se o xerife. — Querem levar de volta um homem procurado em seu Estado para oferecer-lhe trabalho?

— Sim, trabalho.

— Que espécie de trabalho?

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— O trabalho que um homem como ele sabe fazer: limpeza.

— Entendi... — afirmou o xerife.

— Depois explicaremos com mais detalhes, xerife. Pode nos indicar onde o encontraremos? Temos urgência em falar com ele. Pretendemos aproveitar a volta da diligência, hoje à tarde para retornarmos para nossa cidade.

O xerife se voltou para seu auxiliar que, parado junto ao fogão, vigiando o bule de café, acompanhara toda a conversa com muito interesse.

— Amos, onde está aquele forasteiro, o tal James John? — perguntou o xerife a ele.

— Deve estar no saloon, xerife. Não sai de lá...

— Isso responde à sua pergunta, Sr. Foubert. Podemos ir até lá agora mesmo — afirmou o homem da lei, apanhando seu chapéu e indo esperar os dois na porta.

James John olhou de soslaio para o jogador à esquerda, no momento em que este distribuía as cartas. Pôde perceber claramente quando ele retirou cartas de baixo para passar ao outro jogador a sua frente.

Examinou o ambiente. Jogava contra outros três homens e suspeitara que estavam trapaceando. Acompanhara atentamente naquela mão e tivera certeza disso.

Apesar de estar ganhando, sabia que aquilo era uma estratégia dos trapaceiros. Quando eles começassem a ganhar, James ficaria limpo.

Disfarçadamente levou a mão ao coldre, sacou seu revólver e enfiou-o nas costelas do carteador, que endireitou o corpo de susto.

— O que é isso? — protestou, empalidecendo.

— Não acha que deveríamos anular esta cartada? Que tal dar cartas novamente?

— Por quê? — quis saber o homem para quem o carteador havia entregue as cartas de baixo do baralho.

— Porque vocês estão trapaceando e eu não gosto nem um pouco disso — falou James, tranqüila, mas ameaçadoramente.

Os dois homens se puseram se puseram em pé, ofendidos. Os olhos dos freqüentadores se voltaram para aquela mesa.

Havia tensão e expectativa no ar.

— Você está nos acusando de trapacear nas cartas, forasteiro? — indagou um deles, alto o bastante para que todos no saloon ouvissem.

— Estou — afirmou James, com firmeza.

— Isso é algo muito grave — continuou o outro jogador, sem haver notado que James tinha sua arma enfiada nas costelas do terceiro homem, que não se levantara da mesa ainda.

— Jack... Ele tem uma arma enterrada em minhas costelas — disse, num fio de voz, pálido e trêmulo.

Jack olhou diretamente para os olhos frios e azuis de James e, num movimento repentino, virou a mesa. James jogou-se para trás, enquanto disparava a arma por três vezes.

Foi tão rápido nisso que os tiros soaram como um só. Quando a fumaça se dissipou, havia três corpos esvaindo-se em sangue.

Jack levara um tiro no peito. Seu parceiro, que estava em pé ao seu lado, levara outro, na boca. O último deles, o carteador, tinha as costelas arrebentadas por um tiro à queima-roupa.

James levantou-se, guardando a arma no coldre.

— Cuidado! Atrás de você! — gritou uma das garotas do saloon, em algum lugar a sua frente.

Ele se voltou rapidamente, percebendo os movimentos de um pistoleiro sacando a arma.

Sem vacilar, despejou chumbo quente naquela direção.

Um certeiro balaço atingiu o peito do outro, jogando-o para trás, contra a parede, ainda conseguindo disparar seu revólver uma vez.

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James recuou alguns passos, após sentir algo quente batendo com força em seu ombro.

Levou a mão ao local e percebeu o sangue escorrendo.

— Maldição — murmurou ele, caminhando até o balcão.

Apanhou uma garrafa de uísque, arrancou a rolha com os dentes, cuspindo-a para o lado.

Tomou um gole. Depois derramou um pouco no ferimento, fazendo uma careta de dor.

A garota que o havia alertado se aproximou.

— Deixe-me cuidar disso — pediu ela, gentilmente, examinando o local ferido.

— Obrigado, querida! Salvou minha vida.

— Detesto ver um homem ser morto pelas costas.

— Eu também, principalmente quando esse homem sou eu...

— Seria bom fazer um curativo aqui. Tenho o necessário em meu quarto. Por que não vamos até lá agora mesmo? — indagou ele, solícita.

— Obrigado! Você está sendo muito gentil — disse ele, esboçando um sorriso e cambaleando.

Percebeu, no espelho, que alguém se aproximava por trás dele. Pensou em se voltar, mas seu corpo não o obedeceu.

No momento seguinte viu a coronha de um Colt descendo na direção de sua cabeça. Algo estalou e foi como se o mundo tivesse desabado sobre ele.

Acordou algum tempo depois, atordoado ainda. O xerife o olhava com reprovação. O médico acabara de lhe extrair a bala e feito um curativo no local.

— Vai ter que usar uma tipóia e manter esse braço imobilizado por algum tempo.

Felizmente a bala não pegou nenhum osso, músculo ou nervo, mas é bom não fazer esforço com ele — recomendou o doutor.

— Tentarei, doutor — falou ele, sentando-se no catre da cela.

— Não tente apenas. Faça o que eu lhe disse — frisou.

— Que diabos aconteceu, afinal? — indagou James, olhando para o xerife, enquanto passava a mão na cabeça e percebia ali um galo enorme.

— Eu bati em sua cabeça com a coronha do meu Colt — informou o xerife.

— Por quê fez isso?

— Para acalmá-lo.

— Eu estava ferido, não podia fazer nada...

— Eu não sabia disso. De qualquer modo, funcionou como uma anestesia, enquanto o médico escavava seu ombro.

— Vai me dizer que ainda terei que agradecê-lo pela pancada...

— Esqueça... Agora prepare-se, você tem visitas.

— Visitas? Eu? Quem? — surpreendeu-se o pistoleiro.

— Dois senhores querem vê-lo. Vou chamá-los.

O xerife acompanhou o médico até o escritório, de onde retornou em seguida com os dois recém-chegados à cidade.

— Esses dois? — surpreendeu-se James.

— Sim, estão ansiosos para falar com você...

— E quem disse que quero falar com eles? — protestou.

— Não pretendemos forçá-lo a nada, James — disse Foubert. — Na realidade, temos uma proposta para você.

— Sim, uma proposta muito interessante — acrescentou Franklin.

— Não temos nada a conversar — respondeu James, deitando-se sobre a cama. — Quem são vocês?

A cabeça doía, o ombro doía e a presença daqueles dois significava encrenca.

— Somos de Goldrock e temos algo muito vantajoso para você, James — insistiu Foubert.

— A última coisa vantajosa que vocês me deram naquela cidade um julgamento rápido e a sentença de enforcamento. Se eu não fosse esperto e tivesse conseguido fugir, teria dançado a última melodia na ponta da corda...

— Aquilo tudo já passou. Você não gostaria de voltar a Goldrock e dar a volta por cima?

— Como assim? Querem que eu volte para ser enforcado numa corda de seda ou algo assim? Não, obrigado! Não voltarei para lá para ser morto.

— Não estamos pedindo que volte para ser enforcado.

— Para que, então?

— Para ser nosso xerife?

James olhou-os surpreso e depois explodiu numa gargalhada.

— Eu? Xerife de Goldrock? Que coisa mais absurda, senhores. Tem certeza que não tomaram muito sol na viagem e estão confundindo as coisas?

— Falamos sério — emendou Foubert. — Descobriram ouro em Goldrock, finalmente.

Sabia disso já?

— Ouro! — exclamou James, com os olhos brilhando de cobiça e surpresa.

— Sim, ouro, James. Muito ouro.

— E onde eu entro nisso?

— Muitos bandidos têm chegado à cidade, tem havido muitos assaltos, mortes e estupros.

As carroças que transportam o minério não conseguem chegar ao seu destino. O pagamento dos mineiros é roubado e eles são lesados de todas as formas por espertalhões. O banco já foi assaltado uma vez. A situação exige um homem hábil e durão... Por isso nós o queremos.

— Querem que eu aceite ser xerife dessa cidade? Não, obrigado! Não estou vendo nenhuma vantagem nisso.

— Talvez pense melhor ao ler isto — disse-lhe o banqueiro e prefeito, estendendo-lhe uma folha de papel.

— O que é? — perguntou James, intrigado.

— É um perdão. O próprio Governador assinou sua anistia, livrando-o da acusação.

— Quer dizer que não serem mais procurado?

— Se aceitar o cargo...

— Não terá que se preocupar mais com os caçadores de recompensas... — ajuntou Franklin.

O pistoleiro sentou-se no catre. Olhou os dois homens.

— Não, algo não me cheira bem nisso tudo. Prefiro estar vivo e caçado do que ser livre e morto. Vocês querem que eu limpe a cidade, mas isso me parece mais com servir de alvo para os bandidos, não é?

— Nada disso, James. Queremos que limpe a cidade e só você poderá fazê-lo.

— Como podem confiar em meu trabalho...

— Nós o vimos lá no saloon. Ainda é o mais rápido de todos.

— Isso num duelo frente a frente. Quando lidar com bandidos de verdade não será assim.

Tanto poderei ser atingido pela frente como pelas costas... Além disso, já não tenho mais vinte anos. Quinze anos é muito tempo...

— Recebemos informações sobre seus feitos, James. Sabemos que foi xerife de algumas cidades e impôs a ordem e a lei...

— Trabalhei tão bem que acabei desempregado... Agora chega.

— Não ouviu toda a nossa proposta ainda — cortou-o Foubert.

— Não, nada do que me oferecerem poderá me convencer as voltar lá — disse ele, levantando-se e caminhando um pouco.

Ainda estava atordoado. Apanhou a camisa, que haviam tirado para fazer-lhe o curativo.

— Feargus Dundee ainda está na cidade. Suspeitamos que ele é o chefe dos bandidos, mas não pudemos provar nada contra ele ainda — disse Franklin.

James havia vestido a camisa e ia começar a abotoá-la. Parou e encarou os dois visitantes.

— Eliza ainda está com ele? — indagou, num fio de voz cheio de expectativa.

— Não, ele a abandonou, antes de ter o...

— Ter o quê? — apressou-se James, curioso.

— O filho — terminou Franklin.

— Um filho? Eliza teve um filho? E Feargus a deixou por causa disso?

— Feargus diz que o filho não é dele... O garoto tem quinze anos agora, James.

O pistoleiro olhou desconfiadamente para os dois.

— O garoto... é meu filho?

— Sim, mas apesar de tudo, Feargus gosta muito do menino. E com quinze anos apenas, Wyatt já é um pistoleiro.

— O quê? — surpreendeu-se James.

— Sim, Feargus o tem treinado desde pequeno.

— O que nos diz agora? — indagou Franklin.

James terminou de vestir a camisa. Apanhou seu chapéu. Alisou os cabelos, antes de pô-

lo. Evitara Goldrock nos últimos quinze anos como se aquele lugar fosse amaldiçoado para ele.

Via, agora, que tudo colaborava para levá-lo de volta para lá.

— O que mais ganharei, além de balas no couro? — quis saber.

— Faça seu preço — ofertou Foubert.

— Casa, comida, munição, duzentos e cinqüenta dólares por semana e cinco dólares para cada bandido que tirar de circulação. Quantos homens há no bando de Feargus?

— Uns cem homens. Já mataram o mesmo tanto de mineiros e cidadãos honestos. Se você não nos ajudar, a população vai acabar deixando a cidade e todo o ouro ficará para aquele bandido.

— E os delegados federais?

— Não conseguem se aproximar da cidade. Feargus deve ter contatos em Washington. Os federais simplesmente não chegam a Goldrock.

James caminhou de um lado para outro, pensativo. A idéia de que já tinha um filho de quinze anos não entrava em sua cabeça.

— E meu filho, já matou alguém?

— Sim, dois homens num duelo provocado por Feargus, só para testá-lo.

Os olhos frios de James cintilaram.

— Se eu aceitar, quando partiremos?

— Na diligência, hoje à tarde, se puder viajar com esse ombro.

— Viajarei. Estarei lá, quando a diligência partir.

— Vamos estar no hotel, caso precise de alguma coisa.

— Foi bom lembrar, acho que um adiantamento iria bem. Preciso fazer umas compras.

— Aqui está a primeira semana adiantada — disse o banqueiro, separando as notas e entregando-lhe.

— Acham que serei facilmente reconhecido na cidade, mesmo depois de tanto tempo?

— Você mudou muito, James. Mesmo assim, pode fazer alguma coisa a respeito? —

indagou Franklin.

— Verei o que posso fazer — afirmou ele. — Tem alguma acusação contra mim, xerife?

— Não, você está livre. Todos no saloon testemunhariam que você atirou em legítima defesa. Além disso, eu não iria prender um colega de profissão — afirmou o Xerife Coomb.

James agradeceu-o e deixou a cadeia. Foi até o armazém e entrou, indo até um armário de vidro, onde estavam expostos os últimos modelos de armas.

O vendedor se aproximou.

— Deixe-me ver aquela espingarda Overland, cano duplo e calibre doze.

— É uma excelente arma, senhor — elogiou o rapaz, apanhando-a e entregando-a ao pistoleiro.

James examinou-lhe o peso, empunhou-a com uma só mão, mediu-a bem, engatilhou, testou os gatilhos.

— Qual é o preço?

— É o modelo mais novo, acabou de chegar pela diligência. O preço é especial, quarenta e nove e noventa e nove.

— Certo, eu fico com ela — disse James. — Quero cinco caixas de cartuchos também.

— Chumbo fino ou chumbo grosso.

— Grosso. Sabe onde posso achar o ferreiro a esta hora?

— Deve estar no saloon bebendo. Sempre faz isso, quando não tem serviço e não estou escutando suas marteladas na bigorna.

James pagou a conta e foi até o saloon. A garota que o havia ajudado durante a briga aproximou-se dele.

— Continuo agradecido a você, meu bem, e demonstrarei minha gratidão assim que puder.

Sabe onde está o ferreiro?

— Ali, naquela mesa — apontou ela.

— Eu já volto — disse ele, beijando-a no pescoço.

Foi até a mesa onde o ferreiro bebia e depositou a espingarda diante dele.

— Preciso que serre pela metade os canos desta arma. Pode fazer isso?

— O ferreiro examinou a espingarda.

— É uma boa arma... Modelo novo... Não devia fazer isso...

— Vou precisar. Pode fazê-lo?

— Tem pressa?

— Sim...

O ferreiro mediu-o. Sabia quem era ela e o que podia fazer com uma arma.

— Se você pretende atirar em alguém com ela depois de serrados os canos, vai ser como moer carne...

— Espero não ter que usá-la. Agora responda-me. Pode fazer o que pedi?

— Apanhe-a em duas horas — disse o ferreiro, terminando sua bebida, levantando-se e saindo.

James foi ao encontro da garota. Pediu uma garrafa de uísque. A garota examinou o curativo pelo buraco na camisa.

— Parece que o estrago não foi muito grande, não? — comentou ela, acariciando o local.

— Tenho o couro duro.

— Venha, vamos ao meu quarto. Você me deve a sua gratidão... — falou ela, com malícia.

Quando caminhava na direção da escadaria que levaria ao andar superior do saloon, onde estavam os quartos, a porta se abriu repentinamente e quatro homens entraram, batendo as esporas com força no assoalho.

Todos estavam suados e cobertos de poeira. Pareciam ter cavalgado muito depressa para chegar ali.

— Onde está ele? — gritou o que parecia ser o chefe deles.

— É aquele — apontou um dos homens sentados numa das mesas, na direção de James.

— Ei, você, grandalhão! Quero que venha até aqui — ordenou ele ao pistoleiro.

James pressentiu encrenca da grossa, mas não se intimidou.

— Vá na frente, minha querida. Abra a garrafa e sirva os drinques. Eu logo estarei lá. Só vou ver o que querem comigo — disse ele.

A garota subiu rapidamente a escada e ficou lá de cima olhando. James caminhou na direção dos homens, que imediatamente o cercaram.

— Aqui estou. O que quer comigo?

— Você baleou nossos amigos...

— Sem muita conversa, Joe. Vamos matá-lo logo — disse um dos homens, impaciente.

— Matá-lo é pouco. Vamos atirá-lo no curral com as pernas quebradas e deixar que o gado o pisoteie...

— Esperem um pouco. Por que tantos planos assim? Não estão pedindo a minha opinião, perceberam?

Os homens se olharam e começaram a rir. Um deles trazia um laço nas mãos e ameaçou jogá-lo sobre James, mas não foi feliz. Uma bala atravessou-lhe a mão, estraçalhando-lhe os ossos.

Os outros três ficaram imóveis, pegos de surpresa. James recuou na direção do balcão, mantendo-os sobre suas vistas.

— Não quero ter de matá-los, rapazes. Seus amigos eram três trapaceiros e tiveram o que mereciam.

— Não nos interessam suas explicações. Vamos matá-lo...

— Não creio que possam fazer isso. São vaqueiros, posso reconhece-los pelas roupas...

— Você está com medo. Não pode contra nós três...

Inesperadamente, James virou-se para o barman e pediu um uísque. Apanhou o copo com o braço ferido e começou a bebê-lo, enquanto se voltava na direção dos homens parados na porta.

Eles levaram as mãos às armas, mas foi o revólver de James que encheu o saloon de fumaça. Quatro homens gemia caídos a sua frente.

— Eu poderia tê-los matado, rapazes. Espero que pensem nisso, enquanto se recuperem

— disse ele, indo ao encontro da garota.

— Pensei que não fosse vir — disse ela, pálida e trêmula parada no alto da escada.

— Sempre cumpro meus compromissos — disse ele, abraçando-a.

— Você é muito bom com as armas... É o melhor que já vi em toda a minha vida.

— Bobagem! É apenas um truque — disse ele.

Ela abriu a porta do quarto e foi se deitar na cama. James foi até a penteadeira e examinou os potes e vidros sobre ela.

— Tem tudo o que uma mulher precisa aqui, não? — comentou ele.

— Sim...

— A propósito, você tem aquele produto para mudar a cor dos cabelos?

— O quê?

— Isso mesmo. Vou ter que me disfarçar por alguns dias. Acha que dará para tingir a barba e o bigode, se eu os deixar crescer por alguns dias?

— Isso pode tingir qualquer coisa, mas por que quer fazer isso?

— Já disse, preciso me disfarçar. É verdade. Pode me arrumar um pouco disso e me ensinar a usar?

— Aí eu já terei feito dois favores para você — comentou ela, com provocação.

— Prometo que não se arrependerá — afirmou ele, começando a tirar a camisa.

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Wyatt terminou de preencher os espaços vagos em seu cinturão com cartuchos de 44, depois afivelou-o ao quadril. Amarrou o cordel, que prendia o coldre, pouco acima do joelho. Testou sua rapidez, depois guardou o Colt.

— Onde você vai, Wyatt? — perguntou-lhe a mãe.

— O Sr. Feargus mandou me chamar, mãe. Vou até o escritório dele.

Eliza deu a volta por trás do balcão, encostou a vassoura numa sela e segurou o filho pelos ombros.

— Wyatt, meu filho, pare de andar com aqueles homens. São péssima gente...

— Eu não sou mais uma criança, mãe. Pare de me tratar assim — respondeu ele, rispidamente.

— Será que você não percebe o que está acontecendo entre nós? A cada nos afastamos um pouco mais um do outro...

— Eu sei cuidar de minha vida. Trate de cuidar da sua — finalizou ele, livrando-se dela e afastando-se.

Eliza enxugou uma lágrima e voltou para a vassoura. Era apenas uma pálida imagem do que havia sido no passado. Toda a sua beleza fenecera e os primeiros fios brancos já apontavam.

— Você viu, Jane? Meu filho me trata como se eu não fosse a mãe dele.

— Não se aflija, Eliza! Ele vai melhorar — disse ela, saindo à porta do momento em que a diligência chegava.

Jane era a filha do proprietário do armazém onde Eliza trabalhava. Seus olhos grandes e azuis se fixaram no forasteiro que vislumbrou na janela da diligência, até que esta sumiu na esquina.

Enquanto isso, Wyatt chegava ao escritório de Feargus Dundee. Antes de entrar, arrumou o cinturão ao redor do quadril, levantou a aba do chapéu e puxou o trinco da porta.

— Como vai, Wyatt? — cumprimentou-o alegremente Feargus.

— Muito bem, Sr. Dundee.

— Vejo que está usando a nova arma que lhe dei.

— Sim, gostei muito dela.

— Cuide bem porque ela é uma arma especial, preparada por um entendido do Kansas.

Tem o gatilho muito sensível.

— Já percebi, Sr. Dundee. Mandou me chamar?

— Sim, sente-se, por favor — ordenou o figurão, acendendo um charuto. — Wyatt, hoje você vai receber seu primeiro ordenado. A partir desta data passará a ser um de meus homens de confiança, concorda?

Os olhos do garoto brilharam. Aquilo era o que ele vinha esperando desde que Feargus começara a treiná-lo e a dar-lhe pequenos serviços, em troca de gorjetas.

— Verdade?

— Sim, a mais pura verdade — falou Dundee, estendendo-lhe algumas notas.

— Vinte dólares! — exclamou Wyatt, após examiná-las.

— Com isso pode ajudar sua mãe a não trabalhar tanto.

— Fico-lhe muito grato, Sr. Dundee...

— Por que não vai ao bar comemorar?

— Verdade? Posso mesmo fazer isso?

— Claro, já é um homem agora — incentivou-o Dundee.

— Tem razão... Acha que me servirão uísque?

Feargus riu da pergunta dele.

— Você quer tomar uísque?

— Sim, e jogar pôquer também...

— Vai se lembrar das lições que lhe dei?

— Sim, senhor. Tenho praticado todos os dias...

O figurão foi até a porta e chamou um de seus homens.

— Tom, acompanhe o garoto até o saloon. Cuide para que o tratem bem.

— Certo, chefe — entendeu o pistoleiro.

Pouco depois, Wyatt pedia um uísque no balcão.

— Não servimos bebida para crianças, garoto — disse-lhe o barman, rispidamente.

Tom curvou-se sobre o balcão, segurou-o pelo colarinho e puxou-o.

— Wyatt não é mais uma criança. Agora trabalha para o Sr. Dundee — acrescentou, antes de socar o nariz do outro, derrubando-o atrás do balcão.

Wyatt bateu o punho fechado com força no balcão.

— Sirva-me uísque — ordenou.

— Sim, Wyatt — concordou o barman, com um pano sobre o nariz, tentando estancar o sangue.

— Senhor Wyatt — falou o rapaz, levando a mão à arma, sacando-a e apontando-a para a cabeça do horrorizado barman.

— Sim, Sr. Wyatt — disse rapidamente.

O uísque foi servido. Wyatt segurou o copo contra a luz.

— Sempre sonhei fazer isso — disse ele e, quando ia levar o copo à boca, alguém tocou seu braço.

— Wyatt, por favor, pague-me um drinque — pediu o homem, com humildade.

O garoto se virou e encarou Scotty, o beberrão. Tom agarrou o bêbado pelo braço e ia esmurrá-lo, mas Wyatt interferiu.

— Não, Tom. Solte-o!

O pistoleiro jogou rispidamente o beberrão no assoalho. Ele se arrastou até os pés de Wyatt, erguendo-se com olhos suplicantes.

— Obrigado, Wyatt! Vai me pagar uma dose agora? —insistiu.

Wyatt ficou olhando para ele, depois sorriu. Retirou uma das notas que recebera de pagamento, pondo-a sobre o balcão. Apontou-a.

— Você quer uma destas, Scotty?

— Não, Wyatt, é muito para mim — respondeu Scotty, olhando a cédula de cinco dólares.

— Por que é muito, homem?

— Não, não posso aceitar...

Wyatt olhou para os presentes com uma expressão cruel nos olhos. Apesar da pouca idade, tinha estatura e força. Para surpresa de todos, o rapaz cuspiu na cédula, depois deixou-a cair no assoalho.

— É sua, Scotty. Pode apanhá-la.

O bêbado olhou surpreso e humilhado. Depois se abaixou vagarosamente para apanhar a cédula.

Seus dedos não chegaram a tocá-la. Inesperada e sadicamente, Tom acertou-lhe um pontapé no queixo, jogando-o para trás.

Wyatt riu, divertido, enquanto o bêbado tentava limpar o sangue que escorria de sua boca, mas apenas o espalhava pela cara.

— Vamos, pegue-a, beberrão. É sua, se pegá-la — insistiu o rapaz.

O bêbado se arrastou pelo assoalho, na direção da cédula. O sangue gotejava de sua boca, marcando sua passagem. Quando estendeu a mão para pegar o dinheiro, Wyatt pisou-lhe nos dedos com o salto da bota. Uma careta de dor desenhou-se no rosto do homem.

Desesperado, Scotty empurrou Wyatt com a outra mão, derrubando-o. Quando Wyatt se levantou agilmente, já tinha a arma na mão, enquanto Scotty recuava, segurando a nota.

— Devolva-me esse dinheiro, Scotty — ordenou Wyatt.

— Não... É minha... Você disse que eu podia pegar... Eu peguei...

Tom se aproximou por trás de Scotty e deu-lhe uma coronhada na cabeça, derrubando-o. A nota escapou-lhe da mão e flutuou no ar, deslizando na direção da porta e caindo aos pés de um homem alto, de barba espessa e bigodes.

Era James John, que tingira seus cabelos louros de preto e deixara a barba e o bigode cresceram nos últimos quinze dias. Havia combinado com Foubert e Franklin que não usaria a estrela, até haver examinado a cidade.

Todos olharam para aquele estranho homem, que trazia na mão direita, protegida por uma capa de couro, com desenhos índios e franjas, uma espingarda inesperadamente curta.

— Você, forasteiro! Apanhe essa nota e entregue-a ao garoto — ordenou-lhe Tom.

—Sim, pegue a nota e traga para mim — completou Wyatt, arrogantemente.

Sem nada responder nem lhe dar ouvidos, James passou pela nota e foi até o balcão.

Depositou a espingarda a sua frente.

— O que vai ser? — indagou o barman.

Tinha ainda o pano manchado de sangue sobre o nariz e percebeu que o forasteiro ou era louco ou era corajoso demais. Se a última hipótese estivesse certa, talvez pudesse dar uma lição naquele garoto arrogante.

— Um uísque! — pediu o pistoleiro.

O barman o serviu. Todo o saloon estava em silêncio, observando as reações de Tom e de Wyatt.

Quando James levou a mão para apanhar o copo, uma bala arrebentou-o, espalhando estilhaços pelo balcão.

Sem se perturbar, James pediu outra dose. Tom se aproximou, rindo zombeteiramente.

— Você é surdo, forasteiro? Não ouviu o que eu disse?

— Você está falando comigo — retrucou James, sem se voltar.

— Sim, você mesmo. E olhe para mim quando eu estiver olhando para você.

— Eu o ouvi e não recebo ordens de lixo como você. E se fosse para ficar olhando merda, eu comprava uma carroça.

Tom sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. Como estava com o Colt ainda na mão, após ter batido na cabeça de Scotty, fez menção de engatilhá-lo.

James não lhe deu tempo. Suas mão havia se firmado na coronha da espingarda sobre o balcão. Virou-se repentinamente e bateu com ela na testa do outro, jogando-o no assoalho, com um corte feio na testa, por onde o sangue brotava.

O barman sorriu satisfeito e vingado.

— Você! — disse James a Scotty. — Eu vi tudo, você ganhou a nota. Pode pegá-la.

— Ele não fará isso — discordou Wyatt, com a arma em punho, apontando-a para James.

O pistoleiro mediu-o.

— Como é seu nome, garoto?

— Wyatt...

— Pois bem, Wyatt. Se quer brincar como gente grande, tem que assumir o que faz. Você deu o dinheiro a ele. Eu vi.

— Era só uma brincadeira...

— Não se faz isso com um homem, garoto.

— Scotty é só um bêbado. Quem liga para ele?

James deu alguns passos na direção de Wyatt, encarando- a despeito da arma apontada.

— Bela arma, garoto. Quantos já matou com ela?

— Você será o primeiro que matarei com ela, se insistir em ser intrometido...

— Não me faça rir. Se você olhar melhor na minha mão direita, vai perceber que tenho uma espingarda apontada para você. Se eu apertar os gatilhos, espalharei seus pedaços pelo saloon inteiro e vai ser uma pena sujar um lugar tão bonito com essa merda que você é.

Wyatt estremeceu.

— Uma espingarda não é tão pequena... O que tem aí, uma arma de brinquedo?

Com um movimento de mão, James atirou a capa de couro para o lado, deixando a mostra a arma com os dois gatilhos prontos para disparar.

Wyatt engoliu em seco. Ficou olhando para os presentes, sem saber o que fazer. Percebeu que, atrás de James, Tom se recuperava e apanhava sua arma novamente.

— Não sei quem você é, forasteiro, mas vai se arrepender de tudo isso que fez — disse Wyatt, procurando distrair a atenção de James para que Tom o alvejasse.

James percebeu a manobra e ficou alerta.

Quando ouviu o clique do Colt sendo engatilhado, virou-se e disparou um dos canos da espingarda, fazendo o rosto de Tom simplesmente sumir, transformado numa máscara deformada de sangue. Pedaços de miolos e cérebro foram bater na parede atrás dele, escorrendo macabramente para o assoalho.

Wyatt não resistiu àquela visão, soltando a arma e vomitando ali mesmo. James foi apanhar a arma do garoto e descarregá-la.

— Agora vá embora, garoto, antes que eu lhe chute o traseiro — ordenou.

Wyatt retirou-se humilhado, correndo logo à procura de seu protetor.

James recarregou sua terrível arma e colocou-a sobre o balcão. Depois, para espanto de todos que estavam ali, sacou sua faca e dirigiu-se ao cadáver de Tom, cortando-lhe o dedo indicador da mão direita.

Voltou e colocou o dedo ainda sangrando junto com sua espingarda. Depois olhou para Scotty.

— Já apanhou seu dinheiro?

— Sim — respondeu o bêbado, com gratidão e admiração, aproximando-se.

— Deixe-me pagar-lhe um uísque — ofereceu James.

— Não, por favor, eu faço isso. Tenho dinheiro agora... — comentou pateticamente Scotty.

— Guarde seu dinheiro, homem. Eu pago — disse James, fazendo um sinal para o barman, que se apressou em serví-los.

— Esta é por conta da casa, mas não espalhem — disse o barman, piscando um dos olhos, quando James ia lhe pagar.

— Eu não o conheço de algum lugar, forasteiro? — indagou Scotty, examinando o rosto de James, que o olhava cheio de pena e comiseração.

Scotty havia sido seu melhor amigo. Juntos, quinze anos antes, numa loucura da juventude, haviam realizado um assalto a uma diligência.

James escapara, com a cabeça a prêmio, mas Scotty não tivera a mesma sorte. Havia cumprido dez longos anos.

— Não, nunca nos vimos antes — respondeu James, secamente.

— Mas sua voz e o jeito de andar me são familiar... Mas não consigo me lembrar —

esforçou-se o bêbado.

— Beba seu uísque... Quem sabe ajuda...

Enquanto os dois bebiam, um grupo de homens de Feargus Dundee chegou à porta, liderados por Wyatt. Scotty os percebeu pelo espelho a sua frente.

— Há oito homens junto com o garoto lá na porta. Compreende que estamos perdidos?

— Diabos! Quem é esse garoto metido, afinal?

— Wyatt John é o nome dele. Eu fui muito amigo do pai dele...

James estremeceu, lembrando-se do que Foubert e Franklin haviam dito sobre seu filho.

Aquele garoto perigoso poderia ser morto, antes que pudesse conhecer o pai.

— Você ainda sabe atirar, Scotty?

— Sim, claro...

— Pegue a espingarda — disse James, empurrando a arma sobre o balcão, ao mesmo tempo que puxava os dois gatilhos, deixando-os em posição de tiro.

— E o que vamos fazer?

— Eu vou meter uma bala na perna do garoto. Quando ele cair, você dispara a espingarda, mirando alto. Vai derrubar os oito.

— Tem certeza?

— Não, mas é a nossa única chance.

Wyatt se destacou do grupo e gritou:

— Temos uma conta a acertar, forasteiro.

— Então vamos acertar isso logo, garoto — falou James, virando-se com a arma na mão e acertando uma bala na perna de Wyatt, que rodopiou e caiu.

Imediatamente os oito homens que o acompanhavam levaram as mãos às armas, mas quando os dois canos da espingarda detonaram, espalhando chumbo generosamente, todos foram arremessados para fora, indo cair na rua.

Scotty olhou surpreso para a arma e para o estrago que ela havia feito.

James já caminhava na direção de Wyatt, que se contorcia em dores. O sangue escorria de seu ferimento.

— Vá procurar o médico, garoto idiota! — ordenou-lhe James, furioso por ter sido forçado àquilo.

— Eu ainda vou matá-lo — rugiu Wyatt.

As palavras do filho encheram James de uma raiva inesperada. Ele esbofeteou com força o rosto do rapaz, fazendo-o cuspir sangue.

— Vocês aí, levem-no ao médico — ordenou aos homens numa das mesas.

Os dois apanharam Wyatt e saíram com ele. James sacou a faca e foi até os cadáveres, já cercados por uma pequena e surpresa multidão. Horrorizou-os ao cortar os dedos indicadores direitos dos defuntos, antes de voltar ao saloon.

— Por que faz isso? — indagou Scotty, enojado.

— Tenho meus motivos.

— É bom que sejam os melhores possíveis. Assim que Feargus Dundee ficar sabendo do que houve, somos dois homens mortos.

— Ninguém vive para sempre, sabia? Venha comigo. Quero falar com você — disse James ao bêbado.

Os dois deixaram o saloon. A multidão ao redor dos cadáveres parecia satisfeita ao ver que eram homens de Dundee e não mineiros ou cidadãos. Todos ficaram num silêncio respeitoso, quando aquele homem alto passou por eles, seguido pelo bêbado da cidade.

Foram até o banco. Lá chegando, James entrou direto no gabinete de Foubert, depositando na mesa do banqueiro os nove dedos que havia cortado.

— São quarenta e cinco dólares.

— Você está maluco! — berrou o outro, horrorizado.

— Pensei que gostaria de uma prova do meu trabalho...

— Não precisava fazer isso.

— Vai impor um pouco de respeito e assustá-los também.

— Mas não traga mais isso aqui. É desnecessário. Aceitarei sua palavra. Agora tome o dinheiro — disse Foubert, abrindo uma gaveta e retirando algumas notas.

James recebeu o dinheiro e separou vinte e cinco dólares dali, entregando-os a Scotty.

O bêbado ficou olhando deslumbrado as notas em suas mãos.

— Onde está a estrela? — indagou James.

— Aqui mesmo em minha mesa — respondeu o banqueiro, entregando-a.

— Há estrelas para ajudantes de xerife?

— Sim, tenho três delas.

— Quero-as.

O banqueiro as entregou a James. Ele separou uma delas e espetou-a no peito de Scotty.

O beberrão olhou surpreso para os olhos decididos de James.

— Você está maluco? Scotty é um bêbado inútil — opôs-se o banqueiro.

— Você me disse que eu teria carta branca para agir. Isso inclui minha decisão na escolha dos auxiliares.

— Mas Scotty não usa uma arma há muito tempo...

— Acabou de usar uma agora e se saiu muito bem.

— Faça como julgar melhor, então. E lembre-se, terá que fazer um serviço muito bem feito nesta cidade. E manter-se vivo, também.

— Não se preocupe, estou começando a gostar deste trabalho — afirmou James, saindo.

Scotty olhou sem entender a estrela em seu peito e as notas em suas mãos, depois saiu apressado atrás de James. Foi alcançá-lo na porta da cadeia.

— Eu conheço você — disse.

— Entre — ordenou James, abrindo a porta.

O lugar estava coberto de poeira. As portas das celas pareciam enferrujadas.

— Quando tiveram um xerife aqui pela última vez?

— Há uns seis meses, mais ou menos... Não me lembro muito bem...

— Como ele morreu?

Scotty apontou para um buraco de bala e uma mancha na parede, atrás da escrivaninha.

— Alguém abriu a porta e alvejou a cabeça dele.

— Má sorte! Quanto a você, se quer o emprego, saia, compre roupas, uma boa arma, tome um banho, corte o cabelo e a barba.

— Vou fazer tudo isso e comprar duas boas armas, como nos velhos tempos.

— Sim, como nos velhos tempos, Joe Scotty! — confirmou.

— Eu sabia que conhecia você, seu bastardo filho de uma cadela — disse Scotty, com um sorriso de alegria no rosto.— Mas o que faz aqui? Ficou louco? Ainda não é procurado pela lei?

— Não, não sou mais, depois que aceitei isto — disse James, mostrando um papel para o amigo.

— Ei, aqui diz que você foi perdoado por serviços prestados à comunidade. Que diabo de serviços são esses?

— É o que nós vamos fazer, Scotty. — Limpar esta maldita cidade. Vamos deixá-la respeitável de novo — explicou James.

— Está doido ou o quê? Nós dois sozinhos contra Dundee e sua quadrilha?

— Preciso arrumar mais dois auxiliares, Scotty.

— E nos quatro vamos enfrentar todos eles? Está brincando!

— Pois é exatamente o que vamos fazer, parceiro. Por isso conto com você e com a sorte de achar mais dois homens bons para nos ajudar nesta tarefa ingrata. Conhece algum?

— Quem mais seria maluco de entrar nisso? É morte certa!

— Não seja pessimista, Scotty! Agora vá se cuidar e volte aqui o mais depressa possível. E

não beba nem mais uma gota, senão eu o tranco aqui e jogo a chave fora.

Scotty olhou-o com respeito. Sabia que James faria aquilo mesmo se fosse preciso.

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Quando Scotty retornou, algum tempo depois, era um outro homem, lembrando aquele que James havia conhecido. Estava mostrando suas armas novas a James, quando o banqueiro entrou na cadeia, acompanhado de um outro homem.

— Este aqui é Carlson, dono de uma das minas de ouro — foi dizendo. — Seu carregamento para o nosso banco foi roubado há menos de meia hora.

— Onde?

— Na trilha que vem da Montanha Golden Rock, no desfiladeiro.

— Eu sei onde é, James — disse Scotty.

— Então vamos logo — disse o xerife, apanhando sua espingarda e munição. — Vou precisar de dois bons cavalos — disse a Foubert.

— Apanhe-os na cocheira — disse o banqueiro.

— Sabe quantos eram os assaltantes?

— Cinco homens mascarados — respondeu Carlson.

Pouco depois os dois homens cavalgavam pela trilha, na direção da montanha. Logo chegaram ao local do assalto. Uma carroça estava tombada e alguns homens tentavam colocá-

la sobre as rodas.

— Quem estava na carroça? — indagou James.

— Eu estava — respondeu um deles, com a cabeça enfaixada.

— Viu para onde eles foram depois do assalto?

— É difícil dizer, xerife. O terreno e pedregoso...

— São descuidados, homem da estrela de lata. Sempre deixam vestígios. Só não há gente de coragem para ir atrás deles — disse um índio com botas de couro de búfalo, sentado sobre uma pedra, olhando o trabalho dos mineiros.

— Quem é você?

— Chamam-me Arrows.

— Pode seguir os descuidados?

— Posso.

— Então tome isto. O ordenado é de cinqüenta dólares por semana, casa, comida e munição. Aceita? — disse James, após jogar-lhe uma estrela de ajudante.

O índio apanhou-a no ar. Olhou-a com interesse, depois sorriu para James.

— Você é louco? Vai fazer um índio se tornar agente da lei? Quer mesmo isso?

— Você fala demais para um índio. Aceita ou não?

— Preciso jurar alguma coisa?

— Mais tarde a gente vê isso. Tem um cavalo?

— Não preciso. Sigam-me — disse ele, espetando a estrela no peito e disparando na frente deles, a pé.

Os dois esporearam seus cavalos e partiram atrás dele.

— Você o conhece, Scotty?

— Sim, sei que é muito bom com uma faca e com o rifle.

Seguindo o índio, chegaram à beira de um riacho algum tempo depois. Havia uma fogueira pouco além de umas rochas. Arrows parou e deu um sinal para que James e Scotty desmontassem.

— Acha que são eles? — indagou James.

— Sim, são eles — confirmou o índio.

— Vê alguma sentinela?

— Sim, há um sobre aquela rocha.

— Pode cuidar dele?

O índio nada disse. Apenas deslizou como uma cobra pelo chão, atravessou o riacho e sumiu por entre as pedras. Pouco depois surgia no alto daquela rocha, fazendo sinais para Scotty e James se aproximarem.

Assim que se reuniram, Arrows apontou para um grupo de homens ao lado de uma fogueira, junto à qual havia um bule de café.

— Vamos tentar apanhá-los com vida — disse James.

— Vai ser meio difícil agora. Estão chamando o sentinela — alertou Arrows.

— Demônios! Acho que pretendem partir — praguejou James. Arrows, veja se consegue espantar os cavalos. Eu e Scotty cuidaremos deles.

Após haverem conferido o produto do roubo, os homens haviam feito uma partilha. Metade iria para Feargus Dundee e o restante era deles. Chamavam o sentinela para dar-lhe sua parte e partirem.

Estavam despreocupados porque não esperava que alguém os perseguisse. Isso nunca acontecera antes, por isso foram pegos de surpresa.

— Vocês aí, não se movam! — ordenou James, protegido atrás de uma rocha. — Deixem cair os cinturões bem devagar, depois levantem as mãos.

Em resposta uma bala zuniu perto de seu ouvido.

— Não os pegaremos vivos agora — disse Scotty.

— Então fogo neles — ordenou James, sacando seus Colts.

A fuzilaria foi rápida. Entre dois fogos, os assaltantes foram logo atingidos. Assim que a fumaça se dissipou, os três se aproximaram.

Os quatro pistoleiros jaziam em poças de sangue. Dois haviam sido atingidos pelas balas certeiras de James. O outro tivera a cabeça estourada por Scotty, demonstrando que ele ainda sabia mesmo usar uma arma. O quarto fora atingido no peito pelo índio.

— Não atirei para matar — disse Arrows. — Aquele deve estar vivo ainda — afirmou, indo levantar o ferido.

— Ajudem-me, por favor! Não quero morrer — gemia ele.

— Cale a boca, escória — disse James, enquanto Arrows o levantava pelos cabelos.

O homem gemia, enquanto o sangue escorria de seus ferimentos.

— Se você me der a informação que preciso, eu o deixarei vivo — prometeu James. —

Quem é seu chefe?

— Não posso... Ele me mataria...

— Nós o mataremos se não disser — falou o índio, colocando a faca sobre a garganta do ferido e começando a deslizá-la, cortando a pele e fazendo sangrar. — Ou talvez eu devesse começar pelo seu escalpo — acrescentou, pondo a faca na altura da testa do outro.

— Não, esperem... Espere... Eu digo. É Feargus Dundee. De tudo que roubamos, ele fica com noventa por cento...

— Bom garoto! — falou Arrows, soltando-o.

O homem caiu e ficou gemendo no chão.

— Acha que ele resistirá até a cidade? — indagou James.

— Dificilmente — falou Scotty, olhando a ferida.

— Vai perder todo o sangue — reconheceu Arrows.

— Então só nos resta uma coisa — acrescentou James, indo apanhar uma corda que estava numa das celas dos ladr·es.

— O que pretende? — indagou Scotty.

— Poupar o trabalho do carrasco.

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Pouco depois, apesar dos gritos desesperados, o bandido agonizou dependurado na árvore mais próxima.

— Arrows reuna novamente os cavalos deles. Vamos levar os corpos para a cidade.

Causará impacto.

Os ladr·es foram levados para a cidade. O ouro foi entregue ao banco e James recebeu mais vinte e cinco dólares pelos mortos, repartindo-os com seus auxiliares.

Feargus Dundee esmurrou a cara de seu capanga, atirando-o contra a parede. Quando o homem tentou se levantar, deu-lhe um soco no estômago, derrubando-o. Chutou-o algumas vezes.

— Canalhas! Bando de incompetentes! Não valem um níquel — descarregou ele, furioso.

— Mas chefe...— tentou argumentar o homem caído, mas não teve chance.

Feargus arrebentou-lhe os lábios com um chute. Estava possesso porque nove de seus homens haviam sido liquidados como moscas por um desconhecido, que assumira o posto de xerife e tomara um bêbado como ajudante.

— Mando-os tomarem conta do garoto e eles são apanhados como um bando de imbecis.

O garoto está ferido. Como isso pôde acontecer?

— Chefe, ele destroçou sem piedade nossos rapazes com aquela arma. Nunca vi coisa igual. Parecia um canhão.

— Tolices! Uma bala, uma simples bala poderia tê-lo matado.

— Ficamos com receio depois do que aconteceu...

— Covardes! Seja lá como for agora, só vai nos atrapalhar e será um péssimo exemplo.

Daqui a pouco toda a cidade vai achar que pode nos enfrentar. Quero esse sujeito fora de circulação. Ele é um homem morto, ouviram? E darei mil dólares a quem confirmar isso para mim. E chamem Trigger. Quero me certificar de que o serviço será bem feito.

Os outros homens na sala levantaram o que estava caído e saíram rapidamente. Assim que se viu a sós, Feargus foi se sentar atrás de sua escrivaninha.

Estava furioso. Suas mãos tremiam, quando acendeu o charuto e ficou baforando nervosamente, olhando um Colt que tinha na gaveta, junto com os charutos especiais.

Nesse momento, a porta se abriu com o baque de um corpo contra ela. Um de seus homens entrou rodopiando e foi se estatelar de encontro à escrivaninha.

Feargus apanhou a arma na gaveta e ficou alerta, mas os três homens que entraram em seguida apontando armas o fizeram desistir de qualquer reação.

— O que é isso? Que palhaçada é esta? — indagou, olhando os três homens com estrelas espetadas no peito.

— Se olhar para a rua agora, verá algo que lhe pertenceu — disse James, com ódio.

Feargus se voltou e olhou pela vidraça. Cinco de seus rapazes estavam atravessados sobre as selas de seus cavalos.

— Não sei do que está falando. Não conheço aqueles homens... Agora querem me explicar o motivo desta invasão?

— É tudo muito simples, Feargus. Desta vez você escapou porque não pudemos manter um homem seu com vida para se sentar no banco das testemunhas. Mas cedo ou tarde isso vai acontecer.

— Vamos ter o prazer de vê-lo balançar na ponta de uma corda — falou Scotty.

— Eu conheço você! — exclamou Feargus. — Eu conheço você de algum lugar...

— Não, você não me conhece, pois eu vou ter que lhe dar um aviso. Cuidado! Da próxima vez eu o apanharei e talvez não tenha paciência para aguardar o julgamento. Trate de mandar enterrar seus homens lá fora. E para estragar seu dia, saiba que acaba de perder um carregamento de dez mil dólares em ouro — informou James, saindo com seus amigos.

Feargus ficou furioso, vendo-os sair e jurando vingança. Os capangas parados à porta não sabiam como se explicar.

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— Eles tinham estrelas... — falou um deles.

— E desde quando isso nos assusta? Levem esse paspalho daqui — ordenou, apontando o pistoleiro que ainda estava caído ao pé da escrivaninha.

Sentou-se em seguida e tentou recordar de onde vira aquele rosto que agora era o do novo xerife de Goldrock. Fosse quem fosse, não o seria por muito tempo. Tentou, mas não conseguiu se lembrar.

A porta se abriu e um homem alto, de olhos frios e lábios finos entrou calmamente e se sentou, olhando-o.

— Trigger, temos um novo xerife e eu quero a pele dele.

— Como quer o serviço, chefe?

— Primeiro quero que você o humilhe bastante, que se arraste e implore pela vida. Depois mate-o. E que todos vejam isso para não terem idéias a nosso respeito.

O pistoleiro respondeu com um aceno quase imperceptível de cabeça.

James e seus ajudantes cavalgavam pela rua principal de volta para a cadeia. Ao passarem pelo saloon, viram quando um homem veio de costas pela porta, empurrado com força de lá de dentro, estatelando-se na poeira.

Levantou-se, espanou as roupas com as mãos, ajeitou o cinto da calça e entrou de novo no saloon. James fez um sinal para seus ajudantes e todos desmontaram.

Estavam amarrando seus cavalos no travessão, quando o homem voltou a cair novamente na rua. Mesmo assim levantou-se, espanou a roupa e entrou outra vez.

— Acho que esse aí tem coragem o bastante para ser o terceiro auxiliar — disse James. —

Alguém o conhece?

— Nunca o vi — falou Scotty.

— Nem eu — acrescentou Arrows.

Daí a pouco o homem voltou a cair na rua. Quando ia entrar outra vez, James o segurou pelo braço.

— Você é escocês?

— Sim, como sabe?

— Bem, a barba... E as roupas.

— Sim, acertou. Sou escocês — afirmou, fazendo menção de entrar de novo no saloon.

— Quantos homens está enfrentando lá dentro?

— Só dez.

— Precisa de ajuda?

— Não, acho que estou me saindo muito bem.

James soltou o braço do escocês e ficou esperando. Novamente ele foi atirado à rua. Desta vez, porém, um homem surgiu à porta.

— Escute aqui, seu escocês burro! Se voltar aqui de novo, vamos lhe meter uma bala na cabeça dura, entendeu? — falou o homem, apontando uma arma para ele.

O escocês demonstrou sua decepção, socando o chão. Levantou-se e foi se sentar nos degraus da escada que levava ao saloon. James sentou-se ao lado dele.

— O que foi, amigo? Perdeu a coragem?

— Estou desarmado...

— Contra quem está brigando?

— Capangas de um tal de Feargus Dundee. Eu jogava contra dois deles, eles trapacearam e quando eu descobri eles tomaram o meu dinheiro, minhas armas e me jogaram na rua.

— E qual é seu nome?

— Mac Malcon.

— Muito bem, Mac Malcon, que tal ser ajudante de xerife?

— E o que eu ganho com isso?

— Cinqüenta dólares por semana, casa, comida, armas e toda munição que precisar.

— Bom, preciso trabalho e esse me parece o mais honesto que me ofereceram nos últimos dias. Eu aceito. Pode me emprestar uma arma?

— Sim, e aqui está sua estrela também. Agora você é um agente da lei.

— Ótimo! Devo avisá-lo, xerife, que dentro deste saloon, há homens trapaceando no jogo, tomando dinheiro de vítimas indefesas e espancando-as.

— Bom, então a lei precisa tomar alguma providência. O que sugere, Mac Malcon?

— Vamos ser pacíficos com eles inicialmente, xerife. Vamos tentar conversar e ver se eles aceitarem a prisão pacificamente.

— Eu prefiro que eles reajam — falou Arrows.

— Eu também — afirmou o escocês, quando James apanhou a cartucheira, pondo-a nas mãos dele.

Entraram os quatro no saloon. O pianista parou de tocar por alguns instantes, depois recomeçou furiosamente. Mac Malcon se aproximou dos homens que o haviam espancado.

— Ora vejam só! O palhaço agora conseguiu uma estrela — disse um deles, com ironia.

James, Scotty e Arrows foram até o balcão. Encostaram-se e ficaram de olho.

— De que me chamou? — indagou o escocês.

— Palhaço...

Mac Malcon bateu com a coronha da espingarda no nariz dele, jogando-o de costas.

Engatilhou a espingarda, apontando-a para os outros homens.

— Agora, meus amigos, vamos resolver nosso problema. Dou-lhes cinco segundos para soltarem os cinturões.

Os homens olharam os canos daquela espingarda. Sabiam o que ela já havia feito naquele dia, por isso não tiveram outra alternativa, a não ser obedecer. Os cinturões caíram pesadamente no assoalho.

Scotty e Arrows se apressaram em recolhê-los e empilhá-los sobre o balcão. O escocês foi levar a espingarda para James. Naquele momento, um dos bandidos tirou uma faca da bota e arremessou-a.

Arrows empurrou Mac Malcon para o lado. A lâmina assobiou ao passar entre eles.

— Seus ratos traiçoeiros! — berrou o escocês, avançando na direção do bando e Scotty e Arrows não o deixaram sozinho, enquanto James só observava.

Mac Malcon estava sedento de vingança e logo apanhou dois pelos colarinhos, fazendo-os bater cabeça contra cabeça, desacordando-os.

Scotty, com um pontapé na região mais frágil, colocou outro fora de combate, enquanto Arrows, com um grito de guerra, atirou-se no espaço e levou dois homens consigo na queda.

O saloon se transformou numa praça de guerra. Cadeiras, mesas, dentes e corpos voavam, enquanto os ajudantes do xerife davam e recebiam pancadas.

— Em quanto calcula o prejuízo? — indagou o xerife ao barman.

— Uns cem dólares, xerife.

— Serão pagos — garantiu o homem da lei.

Em poucos minutos os pistoleiros de Feargus Dundee jaziam estatelados, com costelas, cabeças e dentes partidos pelos três ajudantes do xerife.

— Mac Malcon, reviste os bolsos deles. Junte cem dólares para pagar os prejuízos. Depois levem todos para a cadeia.

— Certo, xerife — confirmou ele, polindo a estrela com a manga da camisa.

— Cuide de tudo, Scotty. Acho que está na hora de eu ir me encontrar com alguém — falou James.

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— Eliza vai gostar de vê-lo, James.

— Será que vai me reconhecer? — indagou o homem da lei, deixando-os.

Para James, aquela era uma situação incômoda. Quinze anos depois voltaria a ver a mulher que amara um dia e que lhe dera um filho que ele desconhecia.

— Como está o garoto, doutor? — indagou James, assim que chegou à casa de Eliza e encontrou o outro, já de saída, com sua valise na mão.

— Ficará bom logo. A bala não atingiu nenhum osso.

— E a mãe dele?

— Muito chocada.

James agradeceu, entrou na casa e dirigiu-se ao quarto cuja porta estava aberta. Eliza estava de costas para ele e o garoto parecia dormir.

— Eu sinto muito — disse ele, baixinho.

Ela o olhou furiosa. Ia dizer alguma coisa, mas calou-se, olhando-o fixamente nos olhos agora.

— Você! — exclamou ela, num fio de voz.

— Eu sabia que me reconheceria...

— Como teve coragem de fazer isso com seu próprio filho?

— Fiz isso para salvar a vida dele...

— E quer que eu acredite nisso? — ironizou ela, saindo.

Ele a seguiu.

— Eliza, foi a maneira que encontrei para tirá-lo de circulação sem ter que matá-lo. Ele foi muito insolente...

— É apenas uma criança...

— Já matou dois homens e teria me matado se tivesse chance...

— Oh, meu Deus! A culpa é toda minha — exclamou ela, abraçando-se a ele.

— Não, Eliza. Acho que a culpa é toda de Feargus...

— Por onde você andou, James? Por que me deixou casar com Feargus...

— Agora é tarde para isso, Eliza. Muito tarde mesmo...

— O que faz aqui na cidade? E por que essa estrela de xerife?

— Você saberá com o tempo. Voltarei mais tarde para conversar com Wyatt, se ele quiser me receber.

James deu meia-volta e saiu. Não podia mais olhar para Eliza, um retrato acabado da bela mulher de outrora.

Caminhou até a cadeia, sentindo-se arrasado.

— James, um tal de Trigger o espera no saloon — avisou-o Arrows.

— Trigger? Quem é a fera? O que ele quer de mim?

— Pelo modo como ele cheira, parece um matador.

— Então deve ser outro dos homens de Feargus Dundee...

— Com certeza — informou Scotty. — Eu o conheço bem. É um dos pistoleiros mais rápidos da região. Só aparece quando o serviço é especial.

— Quanta honra para mim. Vejo que Feargus quer mesmo a minha pele...

— E se você sobreviver a esse encontro, temos um convite.

— Que convite?

— Para participar de uma reunião com os cidadãos hoje à noite.

— Não podemos nos queixar de nossa agenda social, rapazes. Vamos ver quem é esse Trigger e o que quer de mim.

— Quer ajuda? — indagou Scotty.

— Não, se ele está sozinho eu dou conta do recado — disse James, examinando sua espingarda e seu Colt.

Quando ia saindo, um dos homens que estavam presos gritou-lhe:

— Ei, xerife! Não pode nos manter aqui sem uma acusação...

— Verdade? — indagou ele, com ironia, aproximando-se da grade.

— Sim, é isso mesmo — concordaram os outros. — Ninguém testemunhará contra nós...

— É isso mesmo, xerife. Terá que nos soltar — acrescentou um outro, zombando, enfiando a cara por entre as barras de ferro.

James socou-o no nariz, jogando-o para trás com a cara lambuzada de sangue.

— Entendam uma coisa agora, rapazes: seu chefe manda e desmanda nesta cidade, mas isso acabou. Agora quem manda aqui sou eu. E para provar isso, vamos levar um de cada vez para ser interrogado. Se confessarem o que desejamos saber, terão uma chance de serem poupados. Se não confessarem... Bem, Arrows ainda sabe tirar escalpo e tem uma técnica índia para retirar a pele de um homem inteirinha, sem matá-lo.

Os homens ficaram em silêncio, percebendo que ele falava sério.

— Não pode fazer isso — protestou outro deles, agarrando-se à grade.

James deu-lhe uma coronhada nos dedos. O sujeito urrou de dor, contorcendo-se pela cela.

— Eu digo que posso e que o farei. Arrows e Mac Malcon, se encarregarão disso.

O xerife saiu e se dirigiu ao saloon. Quando entrou, todos os presentes se afastaram, encostando-se às paredes. Restou apenas um homem de colete negro, sentado numa das mesas, no centro do salão.

— Você é Trigger? — indagou, com a espingarda prudentemente engatilhada.

Sabia que o pistoleiro não viria sozinho. Examinou rapidamente o local. Viu um homem suspeito no alto da escada, outro junto ao balcão e um terceiro empunhando um rifle, sentado num canto sombrio.

— Sim, xerife, e quero conversar com você.

James se aproximou e, quando ia se sentar, Trigger empurrou a cadeira com o pé, quase derrubando-o. O pistoleiro riu.

— Estou aqui para matá-lo, xerife — disse, interrompendo o riso.

— Sei disso, por isso também estou aqui para matá-lo.

Trigger riu com ar de superioridade.

— Mas antes de matá-lo, quero que me faça algo. Quero que limpe as minhas botas.

— Como quer que a limpe, com a língua ou com a barba?

— Com a língua...

— Pois não — concordou James, inesperadamente, abaixando-se para disparar um cano da espingarda e arrebentar o homem no alto da escada.

Virou-se e disparou o outro cano, acertando o que estava no canto.

Quando o último dos três, ao lado do balcão, tentou sacar sua arma, James disparou seu Colt e uma bala arrebentou a cabeça do pistoleiro como se fosse uma abóbora madura.

Trigger continuava impassível, sentado à mesa, enquanto James se levantava.

— Creio que agora poderemos conversar em igualdade de condições — disse James, guardando o revólver.

— Como quiser, mas minhas botas estão esperando.

— O coveiro vai limpá-las para você.

— Acho que já conversamos demais, xerife. Vou matá-lo, mas antes quero que me peça de joelhos, que me implore e que rasteje.

— Os cemitérios do Oeste estão cheios de gente como você que achou que poderiam me obrigar a isso...

— Vou contar até três...

— Não, Trigger, eu contarei até três. Se até lá não tiver soltado seu cinturão, vou lhe meter uma bala em cada olho antes que você consiga ver o que está acontecendo.

— Não seja fanfarrão, xerife...

— Um!

— Pensa que eu...

— Dois!

— Você não...

— Três! — finalizou James, sacando sua arma, antes que Trigger conseguisse se mover.

Todos os freqüentadores ficaram admirados com a rapidez de James, inclusive seu oponente, que perdeu a fala. Grossas gotas de suor começaram a escorrer-lhe pelo rosto.

— E então, Trigger, não vai me matar? — zombou o xerife.

— Eu ainda nem toquei na minha arma... Ela está no coldre... Se atirar será assassinato...

— Então por que não apanha suas armas?

— Não, não vou sacar contra você... Veja... Vou soltar meu cinturão...

— Você é lixo, escória da pior espécie, Trigger. Um covarde...

— Já soltei minhas armas, xerife. Não vai atirar num homem desarmado, vai?

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Em resposta, James tirou seu cinturão e jogou-o sobre o balcão.

— Não preciso de armas para lidar com um imbecil como você — falou o homem da lei, empurrando uma das mesas para o lado.

Trigger apanhou o copo de uísque que estava bebendo e fez menção de levá-lo à boca. Ao invés disso, inesperadamente, atirou-o no rosto de James, partindo para cima dele em seguida.

Cego pelo uísque que lhe entrara nos olhos, James recebeu o primeiro soco sobre os olhos, depois outro na testa e um terceiro no estômago, sendo atirado para cima de uma mesa.

Trigger apanhou uma garrafa pelo gargalo e bateu-a contra o encosto de uma cadeira, improvisando uma arma. Aproximou-se de James.

— Maldita cobra traiçoeira! — exclamou o xerife, apanhando uma cadeira e atirando-a contra o pistoleiro.

A madeira atingiu a testa de Trigger, fazendo-o recuar até trombar contra o balcão. James caiu sobre ele, esmurrando-lhe a cabeça e depois batendo-a contra o balcão.

O pistoleiro ainda tentou esboçar uma reação, mas James derrubou-o e chutou-o até que seu rosto se transformasse numa máscara de sangue.

— Jamais usará uma arma de novo, bastardo — disse James, sacando sua faca.

Aproximou-se de Trigger e cortou-lhe os dois dedos indicadores. O bandido urrou e rolou de dor, contorcendo-se. James deu-lhe um chute na boca, fazendo-o engolir alguns dentes.

— Agora vai descansar um bom tempo na cadeia, depois será expulso da cidade, eu não resolver enforcá-lo antes disso — finalizou o homem da lei, agarrando o pistoleiro pelos colarinhos e arrastando-o para fora do saloon.

O bandido amarrado à árvore tinha o rosto coberto de sangue. Arrows aproximou-se dele, enquanto falava com Mac Malcon, sentado numa pedra sob a sombra.

— Acho que este falará.

— Como sabe disso?

— Pressentimento — disse o índio, jogando um pouco de água na cara do pistoleiro. — E

então, idiota, qual é o seu nome?

— Jack — respondeu o outro, com um gemido.

— Muito bem, Jack. Vamos falar sobre assaltos, o que acha?

— Não sei nada sobre os assaltos...

Não terminou. Arrows acertou-lhe um murro no nariz, fazendo o sangue gotejar.

— Não minta para mim, animal. Fale o que sabe — insistiu o índio.

— Eu não posso falar nada — choromingou o outro.

Mac Malcon, observando a cena, perguntou a Arrows.

— Ainda sabe escalpelar um homem, índio? Sempre tive vontade de aprender a fazer isso.

— Isso nenhum índio esquece como fazer. É muito fácil — respondeu, fitando os olhos aterrorizados do prisioneiro.

— Como se faz? — insistiu o escocês.

— Bem, primeiro amola-se bem a faca — acrescentou o índio, sacando sua faca e examinando o fio. — Ela tem que cortar muito bem para o serviço ser perfeito...

— Espere aí, não pode fazer isso... Não é justo... — protestou o bandido.

— Ninguém aqui está falando em justiça, imbecil. Estou ensinando o meu amigo ali, não percebeu! Cale a boca!

— Até aí eu entendi, índio. E depois? — indagou o escocês.

— Depois é só cortar em linha reta assim — disse, passando a faca pela testa do prisioneiro, que esperneou, urrando de dor.

— Não... Pare... Não deixe ele fazer isso comigo... Eu falo...