A língua (vi)vida: palavra e silêncio em El zorro de arriba y El zorro de abajo de José María... por Ligia Karina Martins de Andrade - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA ESPANHOLA E LITERATURAS

ESPANHOLA E HISPANO-AMERICANA

Ligia Karina Martins de Andrade

A LÍNGUA (VI)VIDA: PALAVRA E SILÊNCIO EM EL ZORRO DE ARRIBA Y EL ZORRO

DE ABAJO DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS

São Paulo

2009

1

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA ESPANHOLA E LITERATURAS

ESPANHOLA E HISPANO-AMERICANA

A LÍNGUA (VI)VIDA: PALAVRA E SILÊNCIO EM EL ZORRO DE ARRIBA Y EL ZORRO

DE ABAJO DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS

Ligia Karina Martins de Andrade

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e

Hispano-americana do Departamento de Letras

Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,

para a obtenção do título de Doutora em Letras.

Orientadora: Profa Dra María Zulma Moriondo Kulikowski

São Paulo

2009

2

Agradecimentos

Agradeço a orientação, estímulo e confiança da Profa. Dra. María Zulma Moriondo Kulikowski.

Ao Prof. Dr. Marcos Piason Natali, pela leitura criteriosa e valiosas contribuições desde minha dissertação de

mestrado.

À Profa. Dra. María Teresa Celada, pelas observações e comentários no Exame de Qualificação.

Aos professores que contribuiram com este trabalho por meio de leituras, comentários e contribuição

bibliográfica, entre eles: Profa. Dra. Consuelo Alfaro Lagorio, Prof. Dr. Victor Vich, Prof. Dr. Julio Luiz Flor

Bernuy, Profa. Leonor N. F. Bráñez, Prof. Dr. George L. Bastin, José Eduardo Hidalgo e Prof. Dr. Biagio

DÁngelo.

Ao Prof. Dr. Willi Bolle, responsável pelo curso de pós-graduação na Universidade de São Paulo, “Walter

Benjamin e a Nova Historiografia”, fundamental para minha introdução no pensamento deste autor.

Ao Prof. Dr. Jean-Claude Laborie, cuja acolhida na Universidade de Jean Moulin –Lyon 3− possibilitou minha

pesquisa nesta instituição.

Aos professores do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras da UFAM, pelo apoio e confiança,

sobretudo aos colegas da área de espanhol, entre eles: Profa. Dra. Elsa Otilia H. Barría.

À FAPEAM, pela bolsa concedida pelo período de um ano.

Aos funcionários da UFAM que auxiliaram em diversas etapas do processo administrativo: Paulo, Ísis, Jasson,

Eliane, Omair (Manaus) e Edite (São Paulo).

Aos amigos de Manaus: Nereide Santiago, Cleo e toda Cia. teatral “A rã Q ri” pelos momentos de alegria.

À minha família que compreendeu minhas ausências com paciência e amor.

Ao Ludovic, pelo afeto e carinho.

A todos que eu não menciono, mas cuja contribuição, em algum momento destes anos de pesquisa, eu guardo na

memória.

3

4

Resumo

Andrade, Ligia Karina M., A LÍNGUA (VI)VIDA: PALAVRA E SILÊNCIO EM EL ZORRO DE

ARRIBA Y EL ZORRO DE ABAJO DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS, 2009, Tese de Doutorado –Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo– São Paulo

Esta tese visa analisar a representação do silêncio como fenômeno discursivo na obra El zorro de arriba y

El zorro de abajo de José María Arguedas. Esta abordagem passa pela relação do silêncio como elemento

constitutivo de todo discurso. A partir de uma perspectiva centrada em Foucault, Orlandi e na teoria

enunciativa de Authier-Revuz, analisar-se-ão as formas de representação do silêncio tanto no discurso

autobiográfico ( diarios) quanto na narrativa romanesca ( hervores). A partir da análise da construção de

uma imagem do sujeito (Arguedas), observar-se-á, sob a aparência de unidade e coesão do fio enunciativo,

a constituição clivada e dividida de sua identidade, atravessada pelo Outro de si mesmo. Verificar-se-á que

a concepção de palavra ligada “à matéria das coisas” e à vida, segundo o autor, entra em contradição com

o processo de erosão dos discursos. A busca pela “lìngua literária”, sob o signo utópico e mítico, sofre um

processo de demolição na obra, que resulta na palavra que traduz o sofrimento da nomeação por meio da

falta, do balbucio e dos silêncios.

Palavras-chave: 1. José María Arguedas 2. Autobiografia 3. Análise do Discurso 4. Silêncio 5. Linguagem

Abstract

Andrade, Ligia Karina M., A LÍNGUA (VI)VIDA: PALAVRA E SILÊNCIO EM EL ZORRO DE

ARRIBA Y EL ZORRO DE ABAJO DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS, 2009, Doctorate Thesis –School

of Philosophy, Language Arts and Human Sciences of the University of São Paulo− São Paulo

This thesis aims at analyzing the representation of silence as speech phenomenon in the work El zorro de

arriba y el zorro de abajo by José María Arguedas. Such approach passes through the relating of silence

as a constitutive element of every discourse. From a perspective focused on Focault, Orlandi and on the

enunciative theory of Authier-Revuz, the forms representing silence will be analyzed both in the

autobiographic speech ( diarios) and in the novel narrative ( hervores). From the analysis of the

construction of an image of the subject (Arguedas), under the appearance of unit and cohesion of the

enunciation, the fragmented and divided constitution of its identity will be observed, crossed by the Other

of himself. In this work, it will be verified that the conception of word linked “to the matter of things” and

to life, according to the author, goes against the process of erosion of the speeches. The search for the

“literary language” in a utopic and mythical manner, suffers a process of demolition in the work, which

results in the word that translates the suffering of naming through the absence, the babbling and the

silences.

Keywords: 1. José María Arguedas 2. Autobiography 3. Speech Analysis 4. Silence 5. Language

5

Para Aracy e Geraldo

6

Hoy me gusta la vida mucho menos

Hoy me gusta la vida mucho menos,

Pero siempre me gusta vivir: ya lo decía.

casi toqué la parte de mi todo y me contuve

con un tiro en la lengua detrás de la palabra.

Hoy me palpo el mentón en retirada

Y en estos momentos pantalones yo me digo:

¡Tánta vida y jamás!

¡Tántos años y siempre mis semanas...!

Mis padres enterrados con su piedra

Y su triste estirón que no ha acabado;

de cuerpo entero, hermanos, mis hermanos,

y, en fin, mi sér parado y en chaleco.

Me gusta la vida enormemente

Pero, desde luego, con mi muerte querida y mi café

Y viendo los castaños frondosos de París

Y diciendo:

Es un ojo éste, aquél; una frente ésta, aquélla... Y repitiendo:

¡Tánta vida y jamás me falla la tonada!

¡Tántos años y siempre, y siempre, siempre!

[...] Que es verdad que sufrí en aquel hospital que queda al lado

Y está bien y está mal haber mirado

De abajo para arriba mi organismo.

Me gustará vivir siempre, así fuese de barriga,

Porque como iba diciendo y lo repito,

¡tánta vida y jamás! ¡Y tantos años,

Y siempre, mucho siempre, siempre siempre!

César Vallejo, in: Los poemas de París. Poemas Póstumos I

7

8

Sumário

Introdução........................................................................................................................01

Hipóteses........................................................................................................................ .12

CAPÍTULO 1 A crise da linguagem na obra El zorro: abertura de um novo ciclo........22

1.1. “Fazer gaguejar a própria lìngua”: a palavra bastarda..............................................23

1.2. Morte do autor e nascimento do leitor......................................................................31

1.3. Política lingüística no Peru: língua e silêncio...........................................................35

1.4.O diálogo mudo e adulterado: o problema da nomeação..........................................45

1.5.Ruìdos do “diálogo impossìvel de Cajamarca” na escrita da modernidade..............49

1.6.Antropologia como possibilidade de discurso mediador?.........................................55

1.6.1. Entre a ficção e a antropologia: silêncio entre práticas discursivas......................64

1.7. Dioses y hombres de Huarochirí: as raposas míticas................................................67

1.7.1. A vitalidade do discurso mítico.............................................................................77

1.8. A crise e o dilema da modernidade vistos por um “demônio feliz”.........................85

1.9. O discurso agônico e a magia.................................................................................100

1.10.

A

“centelha

da

esperança”:

uma

leitura

de

Arguedas

à

luz

de

Benjamin..................................................................................................................... ...105

CAPÍTULO 2 Diários, Subjetividade e Autobiografia: desdobramentos do eu............115

2.1.Subjetividade e Pensamento selvagem....................................................................115

2 . 2 . A construção da subjetividade a partir do “perspectivismo indígena”: a língua vivida

.......................................................................................................................................125

2.3. Escre(vi)ver: metáfora da vida-morte.....................................................................132

2.4.O signo ferido: o discurso suicida nos diarios .......................................................138

2.5. Autobiografia e inscrição da subjetividade............................................................150

2.5.1.“Não é um diário”?...............................................................................................156

2.6. Desdobramentos e escavações do sujeito: eu plural...............................................161

2.6.1.A infância.............................................................................................................161

2.6.2. O educador..........................................................................................................167

2.6.3. A auto-etnografia.................................................................................................171

2.6.4. A auto-tradução...................................................................................................174

2.6.5. A crítica política e social.....................................................................................184

2.6.6. A crítica literária latino-americana......................................................................186

CAPÍTULO 3 Representação e efeitos de silêncio(s) na materialidade discursiva

3.1.O silêncio sob a perspectiva da Análise do Discurso..............................................196

3.1.1.Dizer(se) no silêncio das palavras: a lei do dizer.................................................203

3.2.

Representação

das

formas

do

silencio

pelas

leis

do

dizer

nos

diarios............................................................................................................................ 207

3.2.1

Representação

das

formas

do

silêncio

pelas

leis

do

dizer

nos

hervores......................................................................................................................... 225

CAPÍTULO 4 O mapa da cidade e a arquitetura da língua arguediana

4.1.A arquitetura da língua em Arguedas......................................................................236

9

4.2.A arquitetura babélica de Chimbote: o silêncio da tradução...................................243

4.3.Edificação de Chimbote pelo mapa ou diagrama das raposas.................................253

4.4.Cidade,

silêncio

e

loucura:

o

discurso

“da

verdade

que

falam

os

loucos”...........................................................................................................................257

4.5.“A última centelha a ser acesa”: silêncio final .......................................................264

Considerações finais......................................................................................................266

Bibliografia....................................................................................................................270

Anexo.............................................................................................................................283

10

Introdução

Este trabalho dá continuidade à indagação proposta e desenvolvida em dissertação de

mestrado intitulada “Nas margens da palavra: o silêncio. Uma estratégia de controle e

organização do conflito em Arguedas”1. Nela, foram abordadas as formas de silêncio presentes na

materialidade discursiva na obra do peruano José María Arguedas (1911-1969); analisou-se a

recorrência do silêncio como estratégia discursiva na configuração de conflitos lingüísticos e

culturais, com base na obra Los ríos profundos (1958).

Nesta tese de doutorado, analisa-se a obra El zorro de arriba y el zorro de abajo (1971), considerada pela crítica como um divisor de águas na produção do autor, devido à radicalização e

experimentação com a linguagem (Cornejo Polar 2000; Escobar, 1984; Lienhard, 1988). Tal

escolha reside na necessidade de aprofundar alguns aspectos do estudo da linguagem na obra,

examinando-se sobretudo o silêncio, apontado inúmeras vezes na bibliografia crítica consultada,

que não chega a contemplá-lo como fenômeno discursivo em sua complexidade.

Diante da construção de nosso objeto de estudo e da especificidade do recorte proposto,

algumas perguntas iniciais sobre a representação do silêncio nortearão a investigação que se

segue; a saber: qual a relação entre palavra e silêncio e como o silêncio atua nos processos de

significação de modo central na constituição do sujeito e do sentido no discurso?; como o sujeito

negocia com a heterogeneidade de seu discurso?; de que forma a busca pela palavra ou a “luta”

travada, segundo o próprio autor, tornam-se, muitas vezes, uma angústia da nomeação,

desembocando na crise da linguagem?

A fim de situar melhor as perguntas elencadas anteriormente, as quais servirão de ponto

de partida para reflexão, é preciso considerar que a escrita arguediana está marcada pela busca da

1 Apresentei-a em 2004 à FFLCH-USP, junto à área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-

americana, sob a orientação da Profa. Dra. María Zulma Moriondo Kulikowski.

11

palavra viva; para Arguedas, essa escrita se afigura potencialmente capaz de “transmitir à palavra

a matéria das coisas” (1996, p.7). Dizer que a escrita está marcada implica concebê-la em sua:

marca tanto no tocante ao signo impresso no papel (grafia) quanto na concepção de escritura

arguediana, ou seja, inscrição sobre o corpo (marcas de vida, desejos e marcas de morte, do

revólver sempre apontado para a lìngua, “el tiro en la lengua detrás de la palabra”, anunciado

pelo poeta Vallejo).

O autor, ao longo de sua trajetória, debate-se entre duas línguas: o quéchua, idioma

adotado como materno2, afetivo, encantado e que evoca a esfera do passado, ao qual ele se filia

por meio de uma memória individual e coletiva, e, também, o castelhano, língua de prestígio,

institucional, escolar, considerada racional e pertencente à esfera da memória social forjada pelo

ideal homogeneizante de Nação. Essa divisão é justificada, no primeiro caso, se se considerar o

quéchua3 inserido na tradição indígena, oral e cosmocêntrica, diferindo do castelhano que se

insere na tradição ocidental, escrita e antropocêntrica. Entretanto, como adverte Payer (2006),

trata-se não de simples modalidades de língua ou variantes de uma mesma língua, mas muito

2 Vale notar, de acordo com Forgues (2004a), que há uma imprecisão na biografia arguediana que levou a equívocos

quanto ao seu idioma materno. A língua materna de Arguedas, até a morte de sua mãe, aproximadamente aos três

anos de idade, é o castelhano, sendo o autor considerado branco entre as comunidades serranas. Após este incidente é

que o autor escolhe o quéchua como idioma dos pais adotivos (índias e demais serviçais), o que constitui a fonte de

sua imprecisão quanto ao fato de ser monolíngüe quéchua e da data de sua aprendizagem do castelhano. Portanto,

isto significa ainda que ele se torna bilíngüe na fase inicial de sua vida. Segundo Forgues, o processo que

desencadeia o surgimento do autor bilíngüe, cultural e biologicamente ligado à sua origem e sentimental e

esteticamente filiado ao mundo indìgena, é o seguinte: “Este doble proceso inconsciente de identificación con el

mundo indígena y rechazo de su propio mundo se traduce en el niño por la negación a expresarse en la lengua de los

verdaderos padres que ya no existen para él, y por el deseo de hacerlo en la lengua de los nuevos padres que han

venido a sustituirlos. Se produce pues, fenómeno bien conocido en psicoanálisis, un bloqueo en la mente del niño

Arguedas que lo lleva a silenciar momentáneamente su lengua de origen a la que sustituye por la de sus padres

adoptivos. De aquí surge la convicción sincera que tiene Arguedas de no haber hablado castellano sino quechua en su

infancia. De aquí que haya proclamado invariablemente su inicial monolingüismo quechua y su tardío bilingüismo,

pero sin poder precisar de manera certera y definitiva el momento exacto en que logró expresarse verdaderamente en

castellano.” (2004a, p.32). Cf. entrevista de Arguedas (Christian, 1983). Trata-se, pois, de um complexo processo de

trânsito entre a língua materna e a língua nacional ou de Estado e entre materialidades discursivas particulares que

não caberá analisar neste estudo, mas serão apontados na medida do possível.

3 A língua geral utilizada pelos incas sob seu domínio era designada runasimi. Foi Domingo de Santo Tomás quem

cunhou o termo quéchua, desconhecido até então pelos nativos e, posteriormente, denominado quíchua a partir de

1560. Cf. Pease (2003), “Los incas”, pp.10-14.

12

mais do prestígio que uma assume em relação à outra, excluindo ou reservando a certa

modalidade apenas uma esfera do convívio social; é o caso do castelhano, cujo prestígio é

validado pela instituição escolar e jurídico-administrativa de Estado, enquanto ao quéchua e às

suas variantes fora reservado o espaço doméstico, familiar e da memória oral. Esse conflito entre

a oralidade e a escrita, o prestígio de ambas construído histórico e socialmente, e condensado no

convívio tenso entre quéchua e castelhano, tal como se dá no Peru, é o aspecto central da angústia

visceral vivenciada pelo autor e que estrutura o conflito deflagrado entre dois mundos

aparentemente antagônicos −o andino e o ocidental− no interior do mesmo indivíduo.

A produção de Arguedas (ficcional e científica, sobretudo a antropológica e etnográfica)

busca uma cabal compreensão deste antagonismo e das possibilidades que emergem do contato

entre estes universos. É disto que resulta seu trabalho com a palavra, numa tentativa de, a partir

do ato tradutório, lançar uma ponte entre línguas e cosmovisões em permanente diálogo/tensão

no país4. Sua voz se ergue para traduzir esse embate por meio da experiência vivida entre o ódio e

o amor, como ele sublinha inúmeras vezes. A formação antropológica do autor contribui

decisivamente na tarefa de traduzir línguas que se convertem, por sua vez, numa tradução de

culturas; noção que assume papel fundador na “tradição literária” da América (López-Baralt,

2005). Tal tentativa de mediação e tradução sofrem alterações ao longo de sua obra, sendo

permanentemente revista −basta citar as três versões disponíveis da obra Agua: 1935, 1954, 1967

(Escobar, 1984).

4 Os trabalhos sobre a região do Vale de Mantaro realizados por Arguedas como um modelo de inserção de algumas

comunidades com traços primitivos e comunitários no sistema moderno e industrial de produção revelam as

possibilidades de diálogo na modernidade e a capacidade de adaptação das comunidades quéchuas. No caso da

citada, pela ausência de uma organização autoritária colonial e pela figura do mestiço como elemento mediador,

apesar da ambigüidade que seu papel assume ao longo da história do Peru. Segundo Arguedas, este exemplo: “Nos

servirá también para el estudio del posible proceso de fusión armoniosa de las culturas que ambas regiones

representan, fusión posible, puesto que en esta región se ha realizado. Sin la aparición del caso del Alto Mantaro

nuestra visión del Perú andino serìa aún amarga y pesimista.” (Arguedas, 1987, p.12).

13

A busca de uma nova linguagem, desejada e experimentada em diferentes momentos da

produção do autor, assume configuração ímpar na obra El zorro...5, devido ao seu caráter

demolidor; daí formular-se a hipótese de que há um projeto de implosão da linguagem na obra,

uma vez que toda edificação e arquitetura subjacentes à estrutura literária do autor, por meio da

palavra erigida, vêm abaixo, deixando-se entrever suas ruínas, numa remissão à desconstrução do

mito da linguagem primordial. Com efeito, recupera-se o conflito do desentendimento das

línguas, manifestado por homens que desejavam se aproximar desta língua divina, sonhada ou

utópica de comunhão pré-Babel.

Nessa perspectiva, a hipótese sobre a relação entre o silêncio e a palavra, desenvolvida na

dissertação de mestrado, especificamente na análise da materialidade discursiva em Los ríos

profundos (1958), assume na obra póstuma uma nova dimensão. É justamente esta dimensão e

suas implicações que esta tese procura explorar. O fato de Arguedas definir sua tarefa de escritor

por meio da comunhão entre a palavra e a “matéria viva das coisas”, denominado por Rama de

“palavra-coisa” (1985a), leva o presente trabalho a tomar um posicionamento teórico quanto à

concepção adotada ao termo “palavra”; no caso, em plena conformidade com a concepção

bakhtiniana, definida em relação ao signo lingüístico (ideológico), em seu movimento dialógico e

polifônico (histórico) e, ainda, no sentido mais amplo de “palavra”, equivalendo-a a discurso.

Esta batalha de Arguedas, sintetizada na concepção e no projeto de “uma palavra viva”,

num cenário e num contexto histórico de imposição às leis de mercado capitalista, de produção e

de consumo desenfreados e secularizada, sob o pretexto de uma ideologia progressista que atinge

a todos e cuja ferramenta advém da língua de domínio histórico e cultural –o castelhano− é o

grande desafio apontado pelo autor (“seu alvo”) e a origem de suas contradições e angústias. Não

5 Em virtude da citação reincidente da obra no curso deste trabalho, o seu título, daqui por diante, aparecerá

abreviado.

14

se trata de um ideal de lìngua ingênuo, que escape da arbitrariedade, diferença e convenção −tal

qual nos legou Saussure−, mas de uma concepção de palavra que privilegia a semelhança e a

motivação natural própria do legado mágico-animista da pensée sauvage e na qual diferentes

línguas e suas respectivas materialidades atuam na constituição do sujeito e sua relação com a(s)

língua(s) (Payer, 2007).

Acredita-se que a perspectiva teórico-metodológica da Análise do Discurso contemplará

algumas questões concernentes à relação sujeito, história e discurso, auxiliando na leitura da

constituição contraditória deste sujeito e da produção dos sentidos. Tal perspectiva adotada

encontra ressôo no interesse em analisar a obra arguediana, artefato ideológico, como ideológico

é todo discurso científico, a exemplo deste estudo que olha com lente específica a construção do

sujeito e a produção dos sentidos na obra do autor peruano.

Adota-se ainda um viés interdisciplinar, o qual se justifica e se impõe graças à estrutura

polêmica e aparentemente anárquica da obra. Para isto, procura-se circunscrever o estudo da

linguagem e tecer algumas considerações sobre seu papel na obra. Entretanto, é preciso ressaltar

que o foco central desse estudo repousa na compreensão do fenômeno do silêncio como “fato de

linguagem” (Orlandi, 1997), gerador de determinados sentidos que circulam no jogo das

contradições constitutivas do sujeito e em seus processos de significação.

Em El zorro, a malha de discursos produzidos e vigentes na metrópole de Chimbote,

cenário para o desfile de idioletos e variantes das línguas do país (castelhano, qu échua, aymara

etc.) e de outras línguas (inglês e outras indiretamente como chinês e iugoslavo), compõe um

bricollage sócio-histórico e cultural que esbarra no desejo dos sujeitos de se significarem por

meio do uso da palavra e dos imperativos da nova ordem imposta pelas leis do capital, da

exploração e do fetichismo da mercadoria que geram uma série de tensões e dissonâncias

discursivas no espaço da cidade. Em outros termos, os discursos veiculados, sobretudo pelas

15

personagens, reproduzem determinadas condições de produção, num choque entre o desejo de

dizer e a adesão (ou não) à ideologia imperante. Essa crítica, cuja realização se dá em termos

artísticos, assume uma dupla dimensão nessa obra: de um lado, tem-se uma voz autobiográfica

nos diarios, que desenha uma identidade clivada por contradições internas e diferenças por meio

de uma subjetividade e outridade específicas; de outro, a voz plural, coletiva e ficcional6 dos

hervores.

No primeiro capítulo, analisam-se como os discursos de saber e poder (historiografia

oficial, antropológico e etnográfico, mítico e literário) sofrem um abalo na obra póstuma e

apontam para a crise da legitimidade da representação ficcional do Outro e para a crise da

linguagem num sentido amplo. No segundo capítulo, observam-se, a partir da escritura de si

mesmo ou (etno)autobiográfica e por meio do procedimento arqueológico, a sobreposição das

várias camadas constitutivas do sujeito, configurando a constituição fragmentária desse sujeito

autobiográfico que acusa um processo social e histórico de dilaceramento do sujeito –processo

igualmente observado nas personagens que circulam pela metrópole periférica de Chimbote7.

Esse procedimento arqueológico de escavação das camadas do eu revela uma subjetividade

especìfica que se divide entre aquele autorizado a dizer “eu” e a irrupção do outro no fio do dizer.

No terceiro capítulo, aborda-se a representação das formas do silêncio na materialidade

discursiva, tanto nos diarios quanto nos hervores, a fim de observar a relação entre este Outro

6 Adiante, ver-se-á como a noção de ficcionalidade é questionada pelo autor e ainda todos os demais discursos de

conhecimento ou poder (antropológico, histórico etc.). Por enquanto, entende-se por “ficcional”, em hervores, a

narrativa sobre os acontecimentos de Chimbote e suas personagens, fruto da imaginação de um autor que, ao fabular,

delega voz às entidades ficcionais por ele criadas a partir dos materiais e discursos observáveis, disponíveis e

vigentes na sociedade (Bakhtin, 2002).

7 Não cabe a análise desse aspecto, embora inúmeros estudos apontem a obra do autor como clarividente das

profundas mudanças pelas quais atravessa o país e suas conseqüências futuras, tomando-a como um projeto

histórico-político e nacional, o que constitui uma perspectiva diversa daquela enfrentada pelo autor na mesa-redonda

sobre a obra Todas las sangres, na qual a dura crítica de alguns cientistas sociais com relação à legitimidade da

representação dos conflitos sociais no país encontra nos diários de El zorro uma resposta por parte de Arguedas. Esta polêmica marca profundamente o autor, que reflete e reformula sua produção. Tanto essa crítica no Encuentro de

narradores peruanos (Arequipa,1965) quanto alguns estudos tomam a obra como um retrato sociológico e

documental do país; contudo, Lienhard (1998) observa que El zorro vai além desta classificação reducionista.

16

que constitui uma subjetividade nativa deste “sujeito-efeito” do discurso, sondando a relação

presente na inscrição do dizer dos pontos em que este dizer se torna poroso, rarefeito e abre lugar

às manifestações do silêncio.

O quarto capìtulo, finalmente, está dedicado à arquitetura da “lìngua literária arguediana”

e revela, por meio do mesmo procedimento arqueológico do capítulo dois, mais uma das camadas

nas escavações, agora circunscrita ao espaço urbano, que revelará, no ousado projeto piloto

arquitetado pelo autor, por meio da língua, uma estrutura simbólica e uma cosmovisão

genuinamente andinas, sob a forma de ruínas ou relíquias, subjacentes aos edifícios e escombros

da modernidade e da ocupação do espaço da costa pelos migrantes serranos na cidade de