A lua de mel por Sophie Kinsella. - Versão HTML

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Obras da autora publicadas pela Editora Record

Como Sophie Kinsella

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Tradução de

REGIANE WINARSKI

1ª edição

2013

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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Kinsella, Sophie, 1969-

K64L

A lua de mel [recurso eletrônico] / Sophie Kinsella ; tradução Regiane Winarski. - Rio de Janeiro : Record, 2013.

recurso digital

Tradução de: Wedding night

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-01-10132-7 (recurso eletrônico)

1. Romance inglês. 2. Livros eletrônicos. I. Winarski, Regiane. II. Título.

CDD: 823

CDU: 821.111-3

13-06150

Título original em inglês:

WEDDING NIGHT

Copyright © Sophie Kinsella 2013

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais da

autora foram assegurados.

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: 2585-2000,

que se reserva a propriedade literária desta tradução.

Produzido no Brasil

ISBN 978-85-01-10132-7

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Para Sybella

PRÓLOGO

Arthur

Jovens! Com sua pressa e preocupação e vontade de ter todas as respostas agora. Eles me

cansam, os pobres estressadinhos.

Não voltem, eu sempre digo para eles. Não voltem.

A juventude ainda está onde você a deixou e é lá que deve car. Qualquer coisa que valha a

pena ser levada na jornada da vida já vai estar com você.

Há vinte anos eu digo isso, mas eles escutam? Escutam nada. Lá vem mais um agora.

Ofegando e bufando quando chega ao alto da colina. Trinta e tantos anos, eu diria. Bastante

atraente com o céu azul ao fundo. Se parece um pouco com um político. Eu disse isso mesmo?

Talvez astro de cinema.

Não me lembro do rosto dele do passado. Não que isso queira dizer alguma coisa.

Atualmente, quase nem me lembro do meu próprio rosto quando tenho um vislumbre no

espelho. Consigo ver o olhar desse sujeito avaliando o ambiente, me observando, sentando-se

em minha cadeira sob minha oliveira favorita.

— Você é o Arthur? — pergunta ele abruptamente.

— Na mosca.

Eu o examino com atenção. Parece abastado. Está usando uma daquelas camisas polo de

grife. Provavelmente a fim de alguns uísques duplos.

— Você deve querer um drinque — ofereço de maneira agradável. Sempre ajuda levar a

conversa na direção do bar desde cedo.

— Não quero um drinque — diz ele. — Quero saber o que aconteceu.

Não consigo deixar de sufocar um bocejo. Tão previsível. Ele quer saber o que aconteceu.

Outro banqueiro de investimentos em crise de meia-idade, voltando à cena da juventude. A

cena do crime. Deixe onde estava, eu quero responder. Dê meia-volta. Volte para sua vida

adulta e problemática, porque você não vai resolver nada aqui.

Mas ele não acreditaria em mim. Eles nunca acreditam.

— Querido rapaz — digo com gentileza. — Você cresceu. Foi isso que aconteceu.

— Não — nega ele com impaciência e esfrega a testa suada. — Você não entende. Estou

aqui por um motivo. Me escute. — Ele se aproxima alguns passos, uma altura e forma

impressionantes contra o sol, com o belo rosto tomado de determinação. — Estou aqui por um

motivo — repete ele. — Eu não ia me envolver, mas não consigo evitar. Tenho que fazer isso.

Preciso saber o que exatamente aconteceu…

1

Lottie

Vinte dias antes

Comprei um anel de noivado para ele. Será que foi um erro?

Não é um anel de garota. É um aro simples com um pequenino diamante, que o cara da loja

me convenceu a incluir. Se Richard não gostar do diamante, sempre pode girar o anel.

Ou não usar. Guardar na mesa de cabeceira ou em uma caixa, sei lá.

Ou eu poderia devolver e nunca falar sobre isso. Na verdade, estou perdendo a con ança

quanto ao anel a cada minuto, mas me senti mal por ele não ter nada. Homens não se dão

muito bem em pedidos de casamento. Eles precisam planejar o momento, precisam se apoiar

em um joelho, precisam fazer a pergunta e precisam comprar um anel. E o que nós temos que

fazer? Dizer “sim”.

Ou “não”, obviamente.

Eu me pergunto que proporção de pedidos de casamento termina em “sim” e que proporção

termina em “não”. Abro a boca automaticamente para compartilhar esse pensamento com

Richard, mas fecho-a depressa. Idiota.

— Perdão? — Richard levanta o olhar.

— Nada! — Dou um sorriso largo. — É só… um ótimo cardápio!

Eu me pergunto se ele já comprou um anel. Não me importo se tiver comprado ou não. Por

um lado, é incrivelmente romântico se ele tiver comprado. Por outro, é incrivelmente romântico

escolhermos juntos.

Saio ganhando de qualquer jeito.

Tomo um gole de água e sorrio com amor para Richard. Ocupamos uma mesa de canto com

vista para o rio. É um restaurante novo na

e Strand, pouco depois do Savoy. Todo em

mármore preto e branco, e com candelabros vintage e cadeiras verde-claras com botões no

estofamento. É elegante, mas não espalhafatoso. O lugar perfeito para um pedido de casamento

no horário do almoço. Estou usando uma blusa branca simples ao estilo futura noiva, uma saia

estampada, e gastei um pouco mais com meias sete oitavos de qualidade, do tipo que não precisa

de cinta-liga, para o caso de decidirmos consolidar o pedido mais tarde. Nunca usei meias sete

oitavos antes. Mas também nunca fui pedida em casamento.

Aah, talvez ele tenha reservado um quarto no Savoy.

Não. Richard não é exagerado assim. Ele jamais faria um gesto ridículo e desproporcional.

Um bom almoço, sim; um quarto de hotel caro demais, não. E respeito isso.

Ele parece nervoso. Está mexendo nas abotoaduras, verificando o celular e girando a água no

copo. Quando me vê observando-o, ele também sorri.

— E aí?

— E aí?

É como se estivéssemos falando em código, dando voltas ao redor do verdadeiro assunto.

Mexo no guardanapo e ajeito a cadeira. Essa espera é insuportável. Por que ele não acaba logo

com isso?

Não, eu não quis dizer “acabar logo com isso”. É claro que não. Não é uma vacina. É…

Bem, o que é? É um começo. Um primeiro passo. Nós dois embarcando em uma grande

aventura juntos. Porque queremos encarar a vida como uma equipe. Porque não conseguimos

pensar em outra pessoa com quem preferiríamos compartilhar a jornada. Porque eu o amo e ele

me ama.

Já estou cando com os olhos úmidos. Não tem jeito. Estou assim há dias, desde que me dei

conta do que ele estava pretendendo.

Ele é bem severo, o Richard. Estou falando de uma maneira boa e amorosa. Ele é direto e

objetivo, e não faz joguinhos. (Graças a Deus.) Nem elabora grandes surpresas do nada. No

meu último aniversário, ele começou, muito tempo antes, a dar pistas de que o presente dele

seria uma viagem surpresa, o que foi o ideal, porque eu sabia que tinha que pegar minha maleta

e colocar algumas coisas dentro.

Só que, no nal, ele me pegou sim de surpresa, porque o presente não foi um m de semana

fora, como eu tinha previsto. Foi uma passagem de trem para Stroud, que ele mandou entregar

em minha mesa sem aviso, no meu aniversário no meio da semana. Ele tinha combinado em

segredo com meu chefe de eu tirar dois dias de folga, e quando cheguei a Stroud, um carro me

levou até um adorável chalé Cotswold, onde ele estava esperando com a lareira acesa e um

tapete de pele de carneiro em frente ao fogo. (Hummm. Vamos apenas dizer que sexo em

frente a uma lareira acesa é a melhor coisa do mundo. Menos quando aquela centelha idiota voou

e queimou minha coxa. Mas não importa. Foi só um pequeno detalhe.)

Assim, desta vez, quando ele começou a dar pistas, mais uma vez elas não foram exatamente

indicações sutis. Eram mais sinais enormes, como placas na estrada: Vou pedir você em casamento

em breve. Primeiro, ele marcou a data de hoje e chamou de “almoço especial”. Em seguida, falou

sobre uma “pergunta importante” que tinha que me fazer e deu uma piscadela leve (que ngi

não perceber, é claro). Depois, começou a me provocar perguntando se gosto do sobrenome

dele, Finch. (Acontece que eu gosto. Isso não quer dizer que não vou sentir falta de ser Lottie

Graveney, mas vou ser bem feliz como Sra. Lottie Finch.)

Eu quase desejo que ele tivesse sido mais discreto e que o pedido acabasse sendo surpresa.

Mas, por outro lado, pelo menos pude fazer as unhas.

— E então, Lottie, você já decidiu? — Richard ergue o olhar para mim com aquele seu

sorriso caloroso, e meu estômago gira. Só por um instante, achei que ele estava sendo

espertinho e que esse era o pedido.

— Hum… — Eu baixo o olhar para esconder minha confusão.

É claro que a resposta vai ser “sim”. Um grande e alegre “sim”. Ainda mal consigo acreditar

que chegamos a esse ponto. Casamento. Estou falando de casamento! Nestes três anos em que

Richard e eu estamos juntos, evitei deliberadamente as perguntas sobre casamento,

compromisso e todos os assuntos associados ( lhos, casas, sofás, plantas). Nós moramos mais ou

menos juntos na casa dele, porém ainda tenho meu apartamento. Somos um casal, mas no

Natal cada um vai para a casa de sua família. É nesse ponto que estamos.

Depois de cerca de um ano, eu sabia que éramos um bom casal. Sabia que o amava. Eu o

tinha visto em seus melhores momentos (na viagem surpresa de aniversário, reforçada pela

ocasião em que passei com o carro por cima do pé dele sem querer e ele não gritou comigo) e

nos piores (em que se recusara obstinadamente a não pedir instruções para achar o caminho até

Norfolk, com o GPS quebrado. Levamos 6 horas). E eu ainda queria car com ele. Eu o tinha.

Richard não é do tipo exibicionista. É comedido e decidido. Às vezes parece que ele não está

nem ouvindo, mas ganha vida tão de repente que você se dá conta de que ele estava alerta o

tempo todo. Como um leão, meio adormecido debaixo de uma árvore, mas pronto para o

ataque. Enquanto eu sou mais gazela, saltitando por aí. Nós nos complementamos. É a

natureza.

(Não no sentido de cadeia alimentar, obviamente. Em um sentido metafórico.)

Assim, depois de um ano eu sabia que ele era O Cara. Mas também sabia o que aconteceria

se eu desse um passo em falso. Em minha experiência, a palavra “casamento” é como uma

enzima. Ela provoca todos os tipos de reação em um relacionamento, a maioria do tipo que leva

ao fim.

Veja o que aconteceu com Jamie, meu primeiro namorado rme. Estávamos felizes juntos

havia quatro anos e eu por acaso comentei que meus pais se casaram com a mesma idade que

nós tínhamos (26 e 23). Só isso. Um comentário. Por causa disso, ele teve um chilique e disse

que precisávamos “dar um tempo”. Um tempo de quê? Até aquele momento, estávamos bem.

Portanto, cou claro que ele precisava de um tempo do risco de ouvir a palavra “casamento” de

novo. Ficou claro que essa era uma preocupação tão grande que ele não conseguia nem me ver,

por medo de minha boca começar a formular aquela palavra de novo.

Antes de o “tempo” ter acabado, ele estava com aquela ruiva. Não me importei, porque

naquela altura eu já tinha conhecido Seamus. Seamus, com sua voz sexy e sotaque irlandês. E

nem sei o que deu errado com ele. Ficamos apaixonados por um ano (apaixonados loucos,

fazendo sexo a noite toda e sem nos importarmos com mais nada na vida), até que de repente

começamos a brigar todas as noites. Fomos de eufóricos a exaustivos em 24 horas. Foi horrível.

Depois de excessivas reuniões de Estado sobre “Para onde estamos indo?” e “O que queremos

desse relacionamento?”, camos esgotados. Ficamos mais um ano nos arrastando, e quando

olho para trás, parece que aquele segundo ano é uma mancha grande, negra e infeliz na minha

vida.

Depois, foi Julian. Também durou dois anos, mas nunca decolou de verdade. Era um

esqueleto de relacionamento. Acho que nós dois estávamos trabalhando demais. Eu tinha

acabado de começar na Blay Pharmaceuticals e viajava pelo país. Ele estava tentando se tornar

sócio na rma de contabilidade. Não sei nem se rompemos propriamente, só nos distanciamos.

Ainda nos encontramos de vez em quando, como amigos, e é a mesma coisa para os dois: não

sabemos bem quando tudo começou a dar errado. Ele até me chamou para sair há um ano, mais

ou menos, mas tive que dizer que tinha namorado e que estava feliz. Estava falando de Richard.

O sujeito que amo de verdade. O sujeito sentado à minha frente com uma aliança no bolso

(talvez).

Richard é mais bonito que todos os meus outros namorados. (Talvez minha opinião seja

tendenciosa, mas eu o acho lindo.) Ele trabalha muito, como analista de mercado, mas não é

obcecado. Não é tão rico quanto Julian, mas quem liga? É cheio de energia e engraçado e tem

uma gargalhada vibrante que me lava a alma, independentemente do meu estado de espírito.

Ele me chama de “Margarida” desde que fizemos um piquenique e fiz uma coroa de margaridas.

Às vezes ele perde a paciência com as pessoas, mas não tem problema. Ninguém é perfeito.

Quando avalio nosso relacionamento, não vejo uma mancha negra, como vejo com Seamus,

nem um espaço em branco, como vejo com Julian; vejo um vídeo brega de música. Uma

montagem com céu azul e sorrisos. Momentos felizes. Intimidade. Gargalhadas.

E agora estamos chegando ao clímax. A parte em que ele se ajoelha, respira fundo…

Estou tão nervosa por ele. Quero que tudo corra lindamente. Quero poder contar para os

nossos lhos que me apaixonei pelo pai deles de novo no dia em que ele me pediu em

casamento.

Nossos filhos. Nossa casa. Nossa vida.

Enquanto entrego minha mente às imagens, sinto uma libertação dentro de mim. Estou

pronta para isso. Tenho 33 anos e estou pronta. Durante toda a minha vida adulta, eu fugi do

assunto casamento. Minhas amigas também. É como se houvesse um cordão de isolamento de

cena do crime ao redor da área toda: NÃO ENTRE. Você não cruza esse limite porque, se cruzar,

fica azarada e seu namorado dá um fora em você.

Mas agora, não há nada para dar azar. Consigo sentir o amor uindo entre nós, por cima da

mesa. Quero segurar as mãos de Richard. Quero envolvê-lo em meus braços. Ele é um homem

tão maravilhoso. Tenho tanta sorte. Em quarenta anos, quando estivermos enrugados e

grisalhos, vamos andar pela

e Strand de mãos dadas e nos lembrar de hoje, agradecendo a

Deus por termos nos encontrado. Quais eram as chances nesse mundo repleto de estranhos? O

amor é tão aleatório. Tão aleatório. É um milagre, na verdade…

Ah, Deus, estou piscando para conter as lágrimas…

— Lottie? — Richard reparou nos meus olhos úmidos. — Ei, Margaridinha. Você está bem?

O que houve?

Apesar de eu ser mais sincera com Richard do que já fui com qualquer outro namorado, acho

que é uma boa ideia não revelar todo meu processo de pensamento para ele. Fliss, minha irmã

mais velha, diz que eu penso em tecnicolor hollywoodiano e que tenho que lembrar que as

outras pessoas não conseguem ouvir os violinos.

— Me desculpe! — Eu seco os olhos. — Não é nada. Eu só queria que você não tivesse que

ir.

Richard vai voar amanhã para um trabalho em São Francisco. Serão três meses (podia ser

pior), mas vou sentir muita saudade dele. Na verdade, só a ideia de que terei um casamento para

planejar é que está me distraindo.

— Querida, não chore. Não consigo suportar. — Ele estica as mãos e segura as minhas. —

Vamos nos falar pelo Skype todos os dias.

— Eu sei. — Aperto as mãos dele. — Vou estar esperando.

— Mas é bom você lembrar que, se eu estiver no escritório, todo mundo poderá ouvir o que

você diz. Até meu chefe.

Só um pequeno brilho nos olhos revela que ele está brincando comigo. Na última vez que

viajou e usamos o Skype, comecei a dar conselhos para ele de como lidar com o pesadelo de

chefe, mas tinha esquecido que Richard estava em um escritório amplo e que o pesadelo de

chefe podia passar por ele a qualquer minuto. (Por sorte, não passou.)

— Obrigada pela dica. — Eu dou de ombros, tão impassível quanto ele.

— Eles também conseguem ver você. Então é melhor não ficar completamente nua.

— Não completamente — concordo. — Talvez só com sutiã e calcinha transparentes. Coisa

simples.

Richard sorri e aperta minhas mãos com mais força.

— Amo você. — A voz dele está baixa, calorosa e melosa. Eu nunca, nunca vou me cansar

de ouvi-lo dizer isso.

— Eu também.

— Na verdade, Lottie… — Ele limpa a garganta. — Tenho uma coisa pra te perguntar.

Minhas entranhas parecem que vão explodir. Meu rosto é uma careta de expectativa

enquanto meus pensamentos rodopiam com violência. Ah, Deus, ele vai fazer… Minha vida toda

muda aqui… Concentre-se, Lottie, saboreie o momento… Merda! Qual é o problema da minha perna?

Olhei para baixo horrorizada.

Quem criou essas meias sete oitavos que não precisam de cinta-liga é mentiroso e vai para o

inferno, porque uma delas não cou rme no lugar. Ela escorregou até o joelho e tem uma tira

de plástico “adesivo” nojenta pendurada ao redor da minha panturrilha. Isso é horrível.

Não posso ser pedida em casamento assim. Não posso passar o resto da vida olhando para

trás e pensando: Foi um momento tão romântico, pena que a meia caiu.

— Me desculpe, Richard — interrompi. — Só um segundo.

Me abaixo discretamente e puxo a meia para cima, mas o tecido no rasga na minha mão.

Que ótimo. Agora tenho o plástico e pedaços de náilon decorando minha perna. Não consigo

acreditar que meu pedido de casamento está sendo destruído por um par de meias. Eu devia ter

vindo sem meias.

— Tudo bem? — Richard parece um pouco perplexo quando surjo de baixo da mesa.

— Preciso ir ao toalete — murmuro. — Sinto muito. Desculpe. Podemos fazer uma pausa?

Só por um nanossegundo?

— Você está bem?

— Estou ótima. — Estou vermelha de constrangimento. — Tive… um imprevisto com a

roupa. Não quero que você veja. Você pode olhar pro outro lado?

Richard desvia o olhar obedientemente. Empurro a cadeira para trás e saio andando depressa

pelo salão, ignorando os olhares de outras pessoas que estão almoçando. Não faz sentido tentar

disfarçar. É uma meia caída.

Entro pela porta do toalete feminino, arranco o sapato e a meia idiota, e depois me olho no

espelho com o coração disparado. Não consigo acreditar que acabei de fazer uma pausa no meu

pedido de casamento.

Sinto como se o tempo tivesse parado. Como se aquilo tudo fosse um lme de cção

cientí ca e Richard estivesse em suspenso, e eu pudesse ter todo o tempo do mundo para pensar

se quero me casar com ele.

Coisa de que obviamente não preciso, porque a resposta é: sim.

Uma garota loura, usando uma faixa de cabelo de miçangas, se vira para olhar para mim,

com o lápis de contorno labial na mão. Devo estar um pouco estranha, parada e imóvel com um

sapato e uma meia na mão.

— Tem uma lixeira ali. — Ela indica com a cabeça. — Você está bem?

— Estou. Obrigada. — De repente, tenho a necessidade de compartilhar a importância da

ocasião. — Meu namorado está no meio do pedido de casamento!

— Não acredito. — Todas as mulheres em frente ao espelho se viram para olhar para mim.

— O que você quer dizer com “no meio”? — pergunta uma ruiva magra de rosa, com a testa

franzida. — O que ele disse? “Você quer…”?

— Ele começou, mas tive uma catástrofe com a meia. — Balanço a meia sete oitavos. —

Então fizemos uma pausa.

— Uma pausa? — diz alguém com incredulidade.

— Bem, eu voltaria pra lá rapidamente — diz a ruiva. — Você não quer que ele tenha a

chance de mudar de ideia.

— Que legal! — diz a garota loura. — Podemos ver? Posso te filmar?

— A gente podia colocar no YouTube! — sugere a amiga dela. — Ele contratou um

flashmob, alguma coisa assim?

Acho que não…

— Como isso funciona? — Uma mulher idosa de cabelos prateados interrompe nossa

conversa imperiosamente. Ela está balançando as mãos com irritação debaixo do dispenser

automático de sabonete. — Por que inventam essas máquinas? Qual é o problema do sabonete

em barra?

— Olha, é assim, tia Dee — diz a ruiva com voz tranquilizadora. — Suas mãos estão altas

demais.

Tiro o outro sapato e a meia, e como já estou aqui, vou até o hidratante de mãos para passar

nas pernas. Não quero voltar e pensar: Era um momento tão romântico, pena que meus tornozelos

estavam ressecados. Em seguida, pego meu celular. Preciso mandar uma mensagem de texto para

Fliss. Digito rapidamente:

Ele vai fazer!!!

Um momento depois, a resposta dela aparece na minha tela.

Não me diga que vc está mandando um torpedo no meio do pedido!!!

No toalete. Respirando um momento.

Demais!!! Vcs são um ótimo casal. Dá um beijo nele por mim. bjs

Pode deixar! Conversamos depois bjs

— Quem é ele? — diz a loura quando guardo o celular. — Vou ter que olhar! — Ela sai do

toalete feminino e volta alguns segundos depois. — Aah, eu vi. O cara moreno no canto? É

demais. Ei, seu rímel manchou. — Ela me passa uma caneta removedora de maquiagem. —

Quer dar uma ajeitadinha rápida?

— Obrigada. — Sorrio agradavelmente para ela e começo a apagar as pequenas marcas

pretas abaixo dos olhos. Meus cabelos castanhos ondulados estão presos em um coque banana, e

de repente me pergunto se deveria soltá-los para que caiam sobre meus ombros para o grande

momento.

Não. Brega demais. Acabo puxando algumas mechas e as enrolo junto ao rosto enquanto

avalio o resto. Batom: um belo tom de coral. Sombra: cinza cintilante para acentuar meus olhos

azuis. Blush: com sorte, não vai precisar de retoque, pois estarei ruborizada de empolgação.

— Queria que o meu namorado me pedisse em casamento — diz uma garota vestida de

preto, de cabelos compridos, me observando com melancolia. — Qual é o segredo?

— Sei lá — respondo, desejando poder ajudar mais. — Já estamos juntos faz um tempo,

sabemos que somos compatíveis e nos amamos.

— Mas meu namorado e eu também! Moramos juntos, o sexo é ótimo, tudo é bom.

— Não o pressione — diz a garota loura com sabedoria.

— Falo no assunto tipo uma vez por ano. — A garota de cabelos compridos parece muito

infeliz. — E ele ca nervoso e paramos de falar. O que devo fazer? Me mudar? Já se passaram

seis anos.

Seis anos? — A mulher idosa levanta o olhar das mãos que estava secando. — Qual é o

seu problema?

A garota de cabelos compridos fica vermelha.

— Não tenho problema nenhum — diz ela. — Eu estava tendo uma conversa particular.

— Particular nada. — A senhora idosa faz um gesto brusco indicando o banheiro feminino.

— Todo mundo está ouvindo.

— Tia Dee! — A ruiva parece constrangida. — Shhh!

— Não me venha fazer shhh, Amy! — A idosa olha para a garota de cabelos compridos com

os olhos brilhando. — Os homens são como criaturas da selva. Assim que encontram a caça,

eles a comem, viram pro lado e dormem. Bem, você entregou a caça pra ele no prato, não foi?

— Não é simples assim — diz a garota de cabelos compridos com ressentimento.

— Na minha época, os homens se casavam porque queriam sexo. Era uma grande

motivação! — A senhora idosa dá uma gargalhada brusca. — Vocês garotas querem dormir

junto, morar junto e depois a aliança de noivado. Está tudo ao contrário. — Ela pega a bolsa. —

Venha, Amy! O que você está esperando?

Amy nos lança um olhar desesperado pedindo desculpas e desaparece do banheiro com a tia.

Trocamos olhares com sobrancelhas erguidas. Que louca.

— Não se preocupe — digo para acalmá-la, e aperto seu braço. — Tenho certeza de que as

coisas vão se ajeitar pra você. — Quero espalhar a alegria. Quero que todo mundo tenha a sorte

que Richard e eu temos: de encontrar a pessoa perfeita e saber disso.

— Sim. — Ela faz um esforço óbvio para se recompor. — Vamos torcer. Desejo uma vida

muito feliz pra vocês dois.

— Obrigada! — Devolvo a caneta removedora de maquiagem para a garota loura. — Lá vou

eu! Me desejem sorte!

Saio do toalete feminino e observo o restaurante movimentado, me sentindo como se tivesse

acabado de apertar a tecla “play”. Ali está Richard, sentado exatamente na mesma posição de

quando saí. Ele não está nem olhando o celular. Deve estar tão concentrado no momento

quanto eu. O momento mais especial das nossas vidas.

— Me desculpe. — Eu me sento na cadeira e dou a ele o meu sorriso mais amoroso e

receptivo. — Vamos continuar de onde paramos?

Richard sorri para mim, mas percebo que ele perdeu um pouco do impulso. Talvez

precisemos voltar ao ritmo gradualmente.

— É um dia tão especial — digo de maneira encorajadora. — Você não sente?

— Sem dúvida — concorda ele.

— Este restaurante é lindo. — Faço um gesto indicando o salão. — O lugar perfeito para…

uma conversa importante.

Deixo as mãos sobre a mesa de maneira casual e, como eu pretendia, Richard as segura. Ele

inspira fundo e franze a testa.

— Falando nisso, Lottie, tem uma coisa que eu queria perguntar. — Quando nossos olhos se

encontram, meu rosto se franze um pouco. — Acho que não vai ser uma grande surpresa…

Ah Deus, ah Deus, é agora.

— Sim? — Minha voz é um gritinho nervoso.

— Aceitam pão?

Richard leva um susto e eu levanto a cabeça de repente. Um garçom se aproximou tão

silenciosamente que nenhum de nós dois reparou. Quase antes de eu perceber, Richard solta

minha mão e está falando sobre pão preto. Quero dar um tapa na cesta de frustração. O garçom

não conseguiu perceber? Eles não são treinados para identificar um quase pedido?

Noto que Richard perdeu o rumo. Garçom idiota, idiota. Como ele ousa estragar o grande

momento do meu namorado?

— E então — digo de maneira encorajadora, assim que o garçom se afasta. — Você tinha

uma pergunta?

— Bem. Sim. — Ele se concentra em mim e respira fundo, depois sua expressão muda de

novo. Eu me viro surpresa e vejo que outro maldito garçom surgiu. Bem, para ser justa, acho que

é isso que se espera em um restaurante.

Nós fazemos o pedido (mal percebo o que escolho) e o garçom some. Mas outro vai voltar a

qualquer minuto. Sinto mais pena de Richard do que nunca. Como ele vai conseguir fazer o

pedido nessas circunstâncias? Como os homens conseguem?

Não consigo evitar um sorrisinho sarcástico.

— Não é o seu dia.

— Não mesmo.

— O garçom das bebidas vai chegar a qualquer momento — observo.

— Parece o Piccadilly Circus aqui. — Ele revira os olhos com sofrimento e tenho uma

sensação calorosa de cumplicidade. Estamos nisso juntos. Quem liga se ele vai fazer o pedido?

Quem liga se o momento não for perfeito? — Quer pedir champanhe? — pergunta ele.

Não consigo deixar de dar um sorriso de compreensão.

— Não seria um pouco… prematuro, talvez?

— Bem, depende. — Ele levanta as sobrancelhas. — É melhor você me dizer.

A mensagem subliminar é tão óbvia. Não sei se quero gargalhar ou abraçá-lo.

— Bem, nesse caso… — Faço uma pausa deliciosa, esticando-a por nós dois. — Sim. Minha

resposta seria sim.

Richard relaxa as sobrancelhas e consigo ver a tensão sumindo do corpo dele. Ele achou

mesmo que eu poderia dizer não? Ele é tão modesto. É um homem tão carinhoso. Ah, Deus.

Vamos nos casar!

— De todo coração, Richard, sim — acrescento para dar ênfase, com a voz repentinamente

trêmula. — Você precisa saber o quanto isso significa pra mim. É… Não sei o que dizer.

Os dedos dele apertam os meus, e é como se tivéssemos nosso código particular. Quase sinto

pena dos outros casais que precisam dizer as coisas às claras. Eles não têm a ligação que temos.

Por um momento, camos apenas em silêncio. Consigo sentir uma nuvem de felicidade nos

cercando. Quero que essa nuvem que no mesmo lugar para sempre. Consigo nos ver no

futuro, pintando uma casa, empurrando um carrinho, decorando uma árvore de Natal com

nossos lhos pequenos… Os pais dele talvez queiram car para passar o Natal conosco, e por

mim está ótimo, porque amo mesmo os pais dele. Na verdade, a primeira coisa que vou fazer

quando anunciarmos isso é ir ver a mãe dele em Sussex. Ela vai adorar ajudar no casamento,

pois eu nem tenho mãe para fazer isso comigo.

Tantas possibilidades. Tantos planos. Uma vida tão gloriosa para vivermos juntos.

— E aí — digo depois de um tempo, massageando delicadamente os dedos dele. —

Satisfeito? Feliz?

— Não podia estar mais feliz. — Ele acaricia minha mão.

— Pensei nisso durante uma eternidade. — Eu suspiro com satisfação. — Mas nunca

pensei… Você não pensa, pensa? Tipo… como vai ser? Como vamos nos sentir?

— Sei o que você quer dizer.

— Sempre vou me lembrar desse salão. Sempre vou me lembrar da forma como você está me

olhando agora. — Aperto a mão dele com mais força.

— Eu também — concorda ele simplesmente.

O que amo no Richard é que ele consegue dizer tanto com apenas um olhar de lado ou uma

inclinação de cabeça. Ele não precisa falar muito, porque sou capaz de compreendê-lo

facilmente.

Vejo a garota de cabelos compridos nos observando do outro lado do salão e não consigo

deixar de sorrir para ela. (Não é um sorriso de triunfo, porque isso seria insensibilidade. Um

sorriso humilde e agradecido.)

— Desejam algum vinho, senhor? Mademoiselle? — O sommelier se aproxima e dou um

sorriso largo para ele.

— Acho que precisamos de champanhe.

Absolument. — Ele sorri para mim. — Champanhe da casa? Temos também um ótimo

Ruinart para ocasiões especiais.

— Acho que o Ruinart. — Não consigo resistir à vontade de compartilhar nossa alegria. —

É um dia muito especial! Acabamos de ficar noivos!

Mademoiselle! — O rosto do sommelier se abre em um sorriso largo. — Félicitations!

Senhor, meus parabéns! — Ambos nos viramos para Richard. Mas, para minha surpresa, ele

não está entrando no espírito do momento. Está me olhando como se eu fosse algum tipo de

espectro. Por que ele parece tão apavorado? Qual é o problema?

— O que… — A voz dele está estrangulada. — O que você quer dizer?

De repente, me dou conta do que o perturba. É claro. Eu sempre estrago tudo me

adiantando.

— Richard, me desculpe. Você queria contar para os seus pais primeiro? — Eu aperto a mão

dele. — Entendo perfeitamente. Não vamos contar pra mais ninguém, prometo.

— Contar o quê? — Ele está com os olhos arregalados e vidrados. — Lottie, não estamos

noivos.

— Mas… — Olho para ele com insegurança. — Você acabou de me pedir em casamento. E

eu disse sim.

— Não pedi! — Ele arranca a mão da minha.

Certo, um de nós está cando louco aqui. O sommelier recuou demonstrando tato, e consigo

vê-lo afastando o garçom com o cesto de pão, que estava se aproximando de novo.

— Lottie, sinto muito, mas não faço ideia do que você está falando. — Richard en a as mãos

nos cabelos. — Não mencionei casamento, nem noivado, nem nada.

— Mas… mas era disso que você estava falando! Quando pediu o champanhe e me disse “É

melhor você me dizer”, e eu respondi “De todo coração, sim”. Foi sutil! Foi lindo!

Eu o observo, desejando que ele concorde; desejando que sinta o que sinto. Mas ele só

parece desnorteado, e sinto uma pontada repentina de medo.

Não… foi isso que você quis dizer? — Minha garganta está tão apertada que mal consigo

falar. Não consigo acreditar que isso esteja acontecendo. — Você não pretendia me pedir em

casamento?

— Lottie, eu não te pedi em casamento! — diz ele com vigor. — Ponto final!

Ele precisa exclamar tão alto? Cabeças interessadas estão se levantando para todos os lados.

— Tudo bem! Entendi! — Esfrego o nariz com o guardanapo. — Não precisa contar pro

restaurante todo.

Ondas de humilhação percorrem meu corpo. Estou rígida de infelicidade. Como posso ter

entendido tão errado?

E se ele não estava me pedindo em casamento, então por que não estava me pedindo em

casamento?

— Não entendo. — Richard está falando praticamente sozinho. — Nunca falei nada, nunca

discutimos o assunto…

— Você disse um monte de coisas! — Dor e indignação jorram de mim. — Você disse que

estava organizando um “almoço especial”.

— É especial! — diz ele na defensiva. — Vou pra São Francisco amanhã.

— E você me perguntou se eu gostava do seu sobrenome! Seu sobrenome, Richard!

— Estávamos fazendo uma pesquisa de brincadeira no escritório! — Richard parece

perplexo. — Era só uma conversa sem importância.

— E você disse que tinha que me fazer uma “grande pergunta”.

— Não uma grande pergunta. — Ele balança a cabeça. — Uma pergunta.

— Eu ouvi “grande pergunta”.

Faz-se um silêncio terrível entre nós. A nuvem de felicidade sumiu. O tecnicolor de

Hollywood e os violinos sumiram. O sommelier coloca cuidadosamente uma carta de vinhos no

canto da mesa e se afasta rapidamente.

— O que é então? — Eu acabo por dizer. — Essa pergunta tão importante de tamanho

médio?

Richard parece encurralado.

— Não é importante. Deixa pra lá.

— Vamos lá, me conta!

— Tá, tudo bem — diz ele. — Eu ia perguntar o que eu devia fazer com minhas milhas.

Achei que podíamos planejar uma viagem.

— Milhas? — Não consigo evitar o tom ferino. — Você reservou uma mesa especial e pediu

champanhe pra falar de milhas?

— Não! Quero dizer… — Richard faz uma careta. — Lottie, me sinto péssimo quanto a

tudo isso. Eu não fazia a menor ideia…

— Mas acabamos de ter uma maldita conversa sobre estarmos noivos! — Consigo sentir as

lágrimas surgindo de novo. — Eu estava acariciando sua mão e dizendo o quanto eu estava feliz

e o quanto pensava nesse momento há séculos. E você estava concordando comigo! Do que

você pensou que eu estava falando?

Os olhos de Richard estão em movimento como se em busca de uma rota de fuga.

— Pensei que você estivesse… você sabe. Falando de coisas.

— Falando de coisas? — Eu olho para ele. — O que você quer dizer com “falando de coisas”?

Richard parece ainda mais desesperado.

— A verdade é que nem sempre sei do que você está falando — diz ele, em uma onda

repentina de confissões. — Então, às vezes eu só… vou concordando com a cabeça.

Concordando com a cabeça?

Olho para ele em estado de choque. Pensei que tivéssemos um laço especial, único e

silencioso de compreensão. Pensei que tivéssemos um código particular. E o tempo todo ele só

estava concordando com a cabeça.

Dois garçons colocam saladas à nossa frente e rapidamente se afastam como se percebessem

que não estamos no clima para conversas. Pego o garfo e volto a colocá-lo na mesa. Richard

nem parece ter reparado no prato.

— Comprei um anel de noivado pra você — digo, rompendo o silêncio.

— Ah, Deus. — Ele esconde a cabeça nas mãos.

— Não tem problema. Eu devolvo.

— Lottie. — Ele parece torturado. — Precisamos…? Vou viajar amanhã. Não podemos

mudar de assunto?

— Mas você vai querer se casar algum dia? — Quando faço a pergunta, sinto uma profunda

angústia. Um minuto atrás, pensei que estivesse noiva. Eu tinha corrido uma maratona. Estava

passando pela linha de chegada, com os braços levantados de euforia… Agora estou de volta à

linha de partida, amarrando os tênis, me perguntando se a corrida vai mesmo acontecer.

— Eu… Deus, Lottie. Não sei. — Ele parece encurralado. — Quero dizer, sim. Acho que

sim. — Os olhos dele se movem de um lado para o outro, cada vez mais. — Talvez. Você sabe.

Um dia.

Bem. Não dava para ter um sinal mais claro. Talvez ele queira se casar com outra pessoa um

dia. Mas não comigo.

E de repente, um desespero desolador toma conta de mim. Eu acreditava de coração que ele

era O Cara. Como pude errar tanto? Sinto que não posso mais con ar em mim mesma para

nada.

— Certo. — Olho para minha salada por alguns momentos, passando os olhos por folhas e

fatias de abacate e sementes de romã, tentando organizar os pensamentos. — A questão,

Richard, é que eu quero me casar. Quero um casamento, lhos, uma casa… o pacote completo.

E queria com você. Mas o casamento é uma coisa bilateral. — Faço uma pausa, respirando

pesadamente, mas determinada a manter a compostura. — Então, acho que é bom sabermos a

verdade mais cedo, e não mais tarde. Obrigada por isso, pelo menos.

— Lottie! — diz Richard alarmado. — Espere! Isso não muda nada…

— Muda tudo. Estou velha demais pra car em uma lista de espera. Se não vai acontecer

entre nós, pre ro saber agora e seguir em frente. Sabe? — Tento sorrir, mas meus músculos da

felicidade pararam de funcionar. — Divirta-se em São Francisco. Acho melhor eu ir. —

Lágrimas se equilibram em meus cílios. Preciso ir embora rapidamente. Vou voltar para o

trabalho e veri car a apresentação de amanhã. Eu tinha tirado a tarde de folga, mas que sentido

faz? Não vou ligar para as minhas amigas para dar a boa notícia, afinal.

Quando estou saindo, sinto a mão de alguém segurando meu braço. Viro-me em choque e

vejo a garota loura, com a faixa de cabelo de miçangas, olhando para mim.

— O que aconteceu? — pergunta ela animada. — Ele te deu um anel?

A pergunta dela é como uma faca perfurando meu coração. Ele não me deu um anel e nem é

mais meu namorado. Mas eu preferiria morrer a admitir isso.

— Na verdade… — Levanto o queixo com orgulho. — Na verdade, ele me pediu em

casamento, mas eu disse “não”.

— Ah. — Ela leva a mão à boca.

— Isso mesmo. — Atraio a atenção da garota de cabelos longos, que está concentrada na

mesa ao lado. — Eu disse “não”.

— Você disse “não” ? — Ela parece tão incrédula que sinto uma pontada de indignação.

— Disse! — Olho para ela com expressão desa adora. — Eu disse “não”. Não éramos certos

um para o outro, então tomei a decisão de terminar. Apesar de ele querer mesmo casar comigo

e ter filhos e um cachorro e tudo.

Consigo sentir olhares curiosos nas minhas costas e me viro para encarar mais pessoas ainda,

ouvindo com excitação. Será que o maldito restaurante inteiro está nessa agora?

— Eu disse “não”! — Minha voz está se elevando com a a ição. — Eu disse “não”. Não!

Eu falo alto para Richard, que ainda está sentado à mesa, com uma expressão atônita. — Sinto

muito, Richard. Sei que você está apaixonado por mim e sei que estou partindo seu coração

agora. Mas a resposta é “não”!

E, sentindo-me um pouquinho melhor, saio a passos largos do restaurante.

Volto para o trabalho e encontro minha mesa lotada de bilhetes. O telefone deve ter tocado

loucamente enquanto estive fora. Sento-me e dou um longo suspiro. Ouço uma tosse. Kayla,

minha estagiária, está de pé na porta da minha pequena sala. Ela é a estagiária mais empolgada

que já vi. Escreveu dos dois lados de um cartão de Natal dizendo o quanto eu era um exemplo

inspirador e que ela jamais teria feito estágio na Blay Pharmaceuticals se não fosse pela palestra

que dei na Bristol University. (Foi mesmo uma boa palestra, devo admitir. No estilo dos

melhores discursos de recrutamento de empresas farmacêuticas.)

— Como foi o almoço? — Os olhos dela estão brilhando.

Meu coração despenca. Por que contei para ela que Richard ia me pedir em casamento? Eu

estava tão con ante. Ganhei uma dose nova de energia ao ver o entusiasmo dela. Senti-me uma

supermulher completa.

— Foi bom. Bom. Era um ótimo restaurante. — Começo a mexer nos papéis na minha

mesa, como se estivesse procurando uma informação vital.

— E então, você está noiva?

As palavras dela são como suco de limão sobre pele ferida. Ela não tem nesse? Não se

pergunta diretamente para a chefe: “Você está noiva?” Principalmente se ela não está com um

anel enorme e novinho em folha, o que obviamente não estou. Eu talvez use isso na avaliação

dela. Kayla tem dificuldade em trabalhar dentro do limite certo.

— Bem. — Eu limpo meu casaco para ganhar tempo e para engolir o bolo que sinto na

garganta. — Na verdade, não. Na verdade, achei melhor não.

— É mesmo? — Ela parece confusa.

— É. — Mexo a cabeça a rmativamente várias vezes. — Sem dúvida. Cheguei à conclusão

de que, neste momento da minha vida, da minha carreira, não era um gesto inteligente.

Kayla parece arrasada.

— Mas… vocês ficavam tão bem juntos.

— Bem, essas coisas não são tão simples quanto parecem, Kayla. — Mexo nos papéis mais

rapidamente.

— Ele deve ter ficado arrasado.

— Bastante — digo depois de uma pausa. — É. Bem arrasado. Na verdade… ele chorou.

Posso dizer o que eu quiser. Ela nunca mais verá o Richard. Eu provavelmente nunca mais

vou vê-lo. E, como um golpe no estômago, a enormidade da verdade me atinge de novo.

Acabou. Fim. Tudo. Nunca mais vou fazer sexo com ele. Nunca mais vou acordar com ele.

Nunca mais vou abraçá-lo. De alguma forma, é isso que me faz querer chorar, mais que

qualquer coisa.

— Deus, Lottie, você é tão inspiradora. — Os olhos de Kayla estão brilhando. — Saber que

uma coisa é ruim pra sua carreira e ter a coragem de rmar o pé e dizer “Não! Não vou fazer o

que todo mundo espera”.

— Exatamente — concordo de forma desesperada. — Eu estava rmando o pé por todas as

mulheres.

Meu queixo está tremendo. Preciso concluir essa conversa agora, antes de as coisas darem

muito errado e eu cair no choro na frente da estagiária.

— Algum recado importante? — Passo os olhos pelos bilhetes sem vê-los.

— Um do Steve sobre a apresentação de amanhã, e um cara chamado Ben ligou.

— Ben quem?

— Só Ben. Ele disse que você saberia.

Ninguém se chama “Só Ben”. Deve ser algum estudante ousado que conheci em alguma

palestra de recrutamento, tentando ganhar espaço na empresa. Não estou com paciência para

isso.

— Tudo bem. Vou repassar minha apresentação. — Clico o mouse sem parar em pontos

aleatórios da tela até ela ir embora. Respiro fundo. Queixo rme. Siga em frente. Siga em

frente, siga em frente, siga em frente.

O telefone toca e atendo com um gesto autoritário.

— Charlotte Graveney.

— Lottie! Sou eu!

Luto contra o instinto de desligar o telefone.