A mascara da morte por E.T.A. Hoffman - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
E. T. A. Hoffmann

A M¡SCARA DA MORTE

***********

No dia de S. Miguel, quando as ave-marias batiam no convento do Carmo, uma elegante berlinda de viagem puxada por quatro cavalos de posta rolava com estrondo pelas ruas da pequena cidade de Lilinitz, nas fronteiras da PolÛnia, indo parar diante do port„o da casa que o velho burgomestre alem„o habitava.

Os filhos do burgomestre, cheios de curiosidade, correram para a janela; mas a dona da casa levantou-se e atirou zangada para cima da mesa com os apetrechos de costura.

- Maldita ideia a tua de mandares dourar a pomba de pedra, que encima a porta! - disse ela ao marido, que saÌa precipitadamente dum quarto prÛximo. - AÌ tens mais viajantes, que tomam a nossa casa por uma hospedaria!

O velho sorriu com malÌcia, sem responder uma ˙nica palavra. Despiu num instante o roup„o e vestiu o seu fato de cerimÛnia, o qual, escovado com cuidado quando o envergara para ir

‡ igreja, estava estendido nas costas duma cadeira. Antes que a mulher estupefacta tivesse aberto a boca para o interrogar, correra para a portinhola da berlinda que um criado abrira. O burgomestre tinha debaixo do braÁo o seu bonÈ de veludo, e na obscuridade do crep˙sculo brilhava-lhe a cabeÁa com reflexos de prata.

Uma senhora idosa, envolvida num manto cinzento de viagem, desceu da carruagem, seguida por outra mais nova com o rosto velado; esta encostou-se ao braÁo do burgomestre e encaminhou-se para a habitaÁ„o, mais arrastando-se do que andando. Logo que entrou no aposento foi cair, meio desmaiada, numa poltrona, que, a um sinal do marido, a dona da casa se apressara em oferecer-lhe.

- Pobre crianÁa! - disse a senhora idosa ao burgomestre, em voz baixa e melancÛlica. …

preciso que fique alguns instantes ao pÈ dela.

E, ajudada pela filha mais velha do burgomestre, tirou o manto de viagem. O seu vestido de freira e a brilhante cruz, que trazia ao peito, denunciavam-na como abadessa dum convento da ordem de Cister.

Entretanto a dama velada n„o dera sinais de vida a n„o ser um gemido fraco, pouco perceptÌvel. Pediu por fim um copo d'·gua ‡ dona da casa. Esta foi buscar toda a qualidade de elixires e de licores fortificantes, cujas propriedades maravilhosas elogiou, e pediu licenÁa ‡ dama para lhe tirar o vÈu espesso, que devia dificultar-lhe a respiraÁ„o. Mas foram in˙teis as inst‚ncias da mulher do burgomestre; a dama repeliu-lhe a m„o voltando a cabeÁa com sinais de terror. A doente bebeu dois os trÍs goles d'·gua, na qual a serviÁal dona da casa deitara algumas gotas dum poderoso cordial; consentiu tambÈm em respirar um frasco de sais, mas sem levantar o vÈu.

- Preparou tudo como lhe foi indicado? - perguntou a abadessa ao burgomestre.

- Sim, minha senhora, respondeu o anci„o; espero que o nosso serenÌssimo prÌncipe fique contente comigo, bem como esta senhora, para quem tudo preparei o melhor que pude.

- Bem. Deixem-me por alguns instantes a sÛs com a pobre crianÁa, tornou a abadessa.

A famÌlia saiu do aposento. Ouviram a abadessa falar ‡ dama com fervor e unÁ„o e esta pronunciar algumas palavras num tom que comovia profundamente o coraÁ„o.

Sem querer escutar, a dona da casa ficara junto ‡ porta do quarto. Falavam italiano, o que contribuÌa para tornar a aventura mais misteriosa e aumentava a ang˙stia da mulher do burgomestre.

Este disse ‡ filha e ‡ mulher que preparassem vinho e refrescos e tornou logo a entrar no aposento.

A dama velada estava em frente da abadessa, com a cabeÁa inclinada, as m„os postas, parecendo mais sossegada. A abadessa aceitou alguns refrescos, que a dona da casa lhe ofereceu. Depois disse comovida:

- Vamos, j· È tempo!

A dama velada caiu de joelhos. A abadessa estendeu-lhe as m„os sobre a cabeÁa e murmurou uma oraÁ„o.

Depois abraÁou-a, apertando-a contra o coraÁ„o com urna veemÍncia que bem provava o excesso da sua dor, e o rosto banhou-se-lhe de l·grimas. Com uma imponente dignidade abenÁoou a famÌlia e, ajudada pelo velho, subiu precipitadamente para a berlinda, cujo tiro havia sido renovado.

O postilh„o excitou os cavalos, que rinchavam ruidosamente, e a carruagem afastou-se com rapidez.

Quando a dona da casa compreendeu que a dama velada, para quem haviam tirado da berlinda duas pesadas malas, ia ficar talvez por mui tempo ali hospedada, n„o pÙde evitar um penoso sentimento de inquietaÁ„o e de curiosidade. Foi ter com o marido ao vestÌbulo, detendo-o na ocasi„o em que ia voltar para o aposento.

- Em nome do Cristo, murmurou ela com voz perturbada; quem meteste em casa? PorquÍ, estando tu prevenido de tudo, nada me disseste?

- Dir-te-ei tudo o que sei, respondeu tranquilamente o anci„o.

- Ah! Ah! - prosseguiu a mulher redobrando de agitaÁ„o; mas talvez que tu n„o saibas tudo, pois n„o estavas h· pouco no aposento. Logo que a senhora abadessa saiu, a dama, naturalmente incomodada pelo espesso vÈu, tirou-o e vi...

- Ent„o o que viste? - interrompeu o velho.

A mulher tremia e passeava em torno de si uns olhares espantados, como se houvesse visto um espectro.

- Nada, continuou ela. N„o pude distinguir completamente as feiÁıes, porque o rosto ficou coberto por outro vÈu mais fino, mas pareceram-me as dum cad·ver, duma horrorosa cor de cad·ver. E tambÈm deves notar que È evidente, o mais evidente possÌvel, claro como o dia, que a dama est· gr·vida. O parto n„o deve demorar-se muitas semanas.

- J· o sabia, mulher, disse o burgomestre com modos desagrad·veis. E com medo de que caias doente de inquietaÁ„o e curiosidade, vou esclarecer-te este mistÈrio em duas palavras. O

prÌncipe Zapolski, nosso poderoso protector, escreveu-me h· algumas semanas, dizendo-me que a abadessa do convento cisterciense de Oppeln me traria uma dama, pediu que eu a recebesse em minha casa, sem ruÌdo, e evitando com cuidado olhares indiscretos. A dama, apresentada com o nome de Celestina, ter· em minha casa o parto e depois ir-se-· embora com a crianÁa. O prÌncipe recomendou-me com inst‚ncia que tivesse para com ela as maiores atenÁıes. Para me indemnizar de despesas e trabalhos, mandou-me uma grande bolsa cheia de ducados, que podes ver, se quiseres remexer na minha cÛmoda. Acabaram-se-te os escr˙pulos?

- Somos ent„o obrigados, disse a mulher, a auxiliar os pecados que os grandes cometem?

Antes que o anci„o tivesse tempo de responder, a filha saiu do aposento e disse que a dama, tendo necessidade de descanso, desejava ser conduzida ao quarto que lhe era destinado.