A mascara da morte por E.T.A. Hoffman - Versão HTML

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II

O burgomestre fizera arranjar o melhor possÌvel dois pequenos quartos no andar superior e ficou seriamente embaraÁado quando Celestina lhe perguntou se, alÈm daquelas duas divisıes, n„o tinha nenhuma outra, cuja janela desse para as traseiras da casa.

Respondeu negativamente, ajuntando, por descargo de consciÍncia, que havia outro quarto mui pequeno, com uma sÛ janela para o jardim, mas que a bem dizer n„o era um quarto e sim uma pÈssima mansarda, uma miser·vel cela, em que sÛ cabia uma cama, uma mesa e uma cadeira.

Celestina pediu logo para ver o tal quarto e, assim que entrou, declarou que era exactamente o que desejava, e que mudaria para outro mais espaÁoso, se tivesse necessidade duma enfermeira.

O burgomestre comparara o pequeno quarto a uma cela; desde o dia seguinte esta comparaÁ„o tornou-se bem exacta. Celestina pregou na parede uma imagem da Virgem Maria e colocou em cima da mesa um crucifixo. O leito era um saco de palha com um cobertor de l·. Excepto um escabelo de pau e outra mesa mais pequena, Celestina recusou quaisquer outros mÛveis.

A dona da casa, reconciliada com a desconhecida pela compaix„o que lhe causava a profunda e dilacerante dor demonstrada pelo seu aspecto, julgou do seu dever ir fazer-lhe uma visita, ela porÈm, rogou-lhe com as mais enternecedoras inst‚ncias que n„o lhe perturbasse a solid„o onde encontrava as consolaÁıes que a Virgem e os santos lhe dispensavam.

Todas as manh„s, logo ao despontar do dia, Celestina ia ouvir a missa das almas ao convento do Carmo.

Parecia consagrar o resto do dia a exercÌcios de devoÁ„o, pois que, sempre que havia necessidade de entrar no quarto, a encontravam orando ou lendo livros religiosos.

SÛ comia legumes e sÛ bebia ·gua. O burgomestre representou-lhe que o seu estado e a conservaÁ„o da sua sa˙de exigiam melhor alimentaÁ„o, mas sÛ ‡ forÁa de muitas s˙plicas conseguiu que ela aceitasse um pouco de caldo e de vinho.

As pessoas de casa consideravam este modo de vida austero, claustral, como expiaÁ„o duma falta grave; todavia sentiam pela desconhecida uma comiseraÁ„o e veneraÁ„o profundas, aumentadas pela nobreza das suas maneiras e pela cativante graÁa dos seus movimentos. Mas a persistÍncia em nunca levantar o vÈu, misturava a estes sentimentos uma espÈcie de terror. A n„o ser o burgomestre e a famÌlia, ninguÈm dela se aproximava, e os habitantes, que nunca haviam saÌdo da pequena cidade, n„o podiam reconhecer as feiÁıes dum rosto que nunca tinham visto e n„o conseguiam assim desvendar o mistÈrio. Para que servia ent„o o tal vÈu?

A activa imaginaÁ„o feminina inventou logo uma histÛria medonha.

Um terrÌvel sinal, diziam as mulheres, a marca das garras do diabo, arrogara horrorosamente o rosto da desconhecida; daÌ o uso do vÈu.

O burgomestre teve mui trabalho em reprimir as murmuraÁıes, e em impedir que, pelo menos defronte da casa, n„o se juntassem fazendo errÛneas conjecturas a respeito da desconhecida, cujos passeios ao convento do Carmo tambÈm foram notados. Passaram a chamar-lhe á dama negra do burgomestreª, qualificaÁ„o que envolvia a ideia duma apariÁ„o sobrenatural.

O acaso quis que um dia, quando a filha do burgomestre levava o jantar a Celestina, uma corrente de ar erguesse o vÈu. A desconhecida voltou-se com a rapidez do rel‚mpago, para se subtrair ao olhar da rapariga; esta empalideceu e pÙs-se a tremer; n„o lhe distinguira as feiÁıes, mas como sua m„e, vira uma face cadavÈrica dum branco marmÛreo, e, profundamente encovados, uns olhos de fulgor estranho.

O burgomestre combateu com razıes as ideias da rapariga, mas ele prÛprio n„o estava mui longe de as partilhar e desejava ver sair de sua casa essa desconhecida, que ali levara a inquietaÁ„o, n„o obstante a devoÁ„o de que fazia tanto alarde.

Uma noite, o anci„o acordou a mulher e disse-lhe que j· h· alguns minutos ouvia queixumes, e gemidos, acompanhados de ligeiras pancadas, que pareciam vir do quarto de Celestina. A dona da casa, pressentindo o que seria, correu ao quarto da desconhecida. Foi encontra-la vestida e envolvida no vÈu, deitada na cama quase sem sentidos e convenceu-se de que o parto estava prÛximo. Desde h· mui que os preparativos necess·rios se achavam feitos, e, pouco tempo depois, nasceu um menino encantador e bem constituÌdo.

Este acontecimento teve por efeito o acabar com o constrangimento que tornava pouco agrad·veis as relaÁıes da famÌlia com Celestina. A crianÁa era como que o medianeiro da reconciliaÁ„o da m„e com a humanidade. O estado de Celestina n„o lhe permitia as pr·ticas ascÈticas, e a necessidade que tinha dos cuidados assÌduos dos seus semelhantes habituou-a gradualmente ‡ sua presenÁa. A dona da casa, que tratava da doente e que por suas prÛprias m„os lhe preparava os caldos nutritivos, esqueceu, entregando-se a estes trabalhos domÈsticos, a desconfianÁa que desde o comeÁo lhe inspirara a enigm·tica desconhecida. O

burgomestre, todo contente, brincava e ria com o pequeno como se ele fosse seu neto e acostumou-se, assim como o resto da famÌlia, a ver Celestina sempre com o vÈu, que nem mesmo por ocasi„o das dores de parto quisera tirar. A parteira fora obrigada a jurar-lhe que, mesmo no caso dum desmaio, n„o lhe tiraria o vÈu, o que sÛ faria, no caso de eminente perigo. Era certo que a mulher do burgomestre vira Celestina sem o vÈu, mas aquela limitava-se a dizer:

- Pobre senhora! Bem precisa de esconder o rosto!

Dias depois voltou o monge do convento do Carmo que baptizou a crianÁa. A sua conversaÁ„o com Celestina, que ninguÈm se atreveu a ir perturbar, durou mais de duas horas. Ouviram-no falar acaloradamente e orar. Logo que ele saiu, foram encontrar Celestina sentada numa poltrona, com o filho deitado nos joelhos; a crianÁa tinha os ombros cobertos com um escapul·rio e via-se-lhe ao peito um Agnus Dei.

Semanas e meses se passaram sem que viessem buscar Celestina e o filho, como o burgomestre esperava e como lhe afirmara o prÌncipe Zapolski. A desconhecida entraria na intimidade da famÌlia se n„o fosse o fatal vÈu. O burgomestre lembrou-se um dia de lhe pedir explicaÁıes, porÈm ela respondeu com voz surda e solene:

- SÛ trocarei este vÈu pela mortalha.

O burgomestre calou-se e de novo desejou a volta da berlinda e da abadessa.