A mascara da morte por E.T.A. Hoffman - Versão HTML

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III

Tornara a primavera; a famÌlia do burgomestre voltava dum passeio e trazia ramilhetes de flores, as mais belas das quais eram destinadas ‡ devota Celestina.

Na ocasi„o em que iam a entrar em casa, parou um cavaleiro defronte da porta. Trazia o fardamento dos oficiais de caÁadores da guarda imperial francesa; perguntou com inst‚ncia pelo burgomestre.

- Sou eu, disse o anci„o, e est· ‡ minha porta.

O cavaleiro apeou-se rapidamente, prendeu o cavalo a um poste e correu para dentro de casa, gritando com voz estridente:

- Ela est· aqui! Ela est· aqui!

Subiu rapidamente a escada. Ouviu-se uma porta que se abria, e Celestina dar um grito de ang˙stia. O burgomestre acudiu cheio de medo.

O desconhecido arrancara a crianÁa do berÁo, envolvera-a no manto, e agarrava-lhe com o braÁo esquerdo enquanto com o direito repelia Celestina, que empregava todos os esforÁos para tirar o filho ao raptor. Nesta luta, o oficial fez cair o vÈu e viram ent„o um rosto p·lido e inanimado, assombreado por madeixas de cabelos negros, uns olhos que dardejavam rel‚mpagos e uns l·bios imÛveis e entreabertos donde saÌam clamores estridentes.

O burgomestre compreendeu que Celestina tinha uma m·scara branca estreitamente ligada ao rosto, cujos contornos desenhava.

- HorrÌvel mulher! - gritou o oficial, queres que eu partilhe a tua loucura?

E repeliu Celestina com tanta forÁa que esta caiu no ch„o. A pobre senhora abraÁou-lhe os joelhos, esmagada por urna dor invencÌvel.

- Deixa-me essa crianÁa, disse ela num tom suplicante, que dilacerava o coraÁ„o. Pela tua salvaÁ„o eterna, n„o ma roubes! Em nome do Cristo e da Virgem Santa, d·-me essa crianÁa!

E, apesar destas veementes lamentaÁıes, nenhum m˙sculo mexia; os l·bios daquele rosto de cad·ver ficavam imÛveis; os circunstantes sentiam que o sangue se lhes gelava nas veias, de horror.

- N„o! - retorquiu o oficial, como que arrebatado pelo desespero, n„o, mulher desumana e inexor·vel! Podes arrancar-me o coraÁ„o, mas, no teu delÌrio funesto, n„o deves perder este ente, que o cÈu destinou a minorar as dores duma ferida que sangra ainda!

O oficial apertou com mais forÁa a crianÁa contra o seio; esta pÙs-se a chorar e a gritar.

- VinganÁa! - uivou Celestina com voz surda - que o castigo do cÈu caia sobre ti, assassino!

- Deixa-me, deixa-me, afasta-te, apariÁ„o saÌda do inferno - exclamou o oficial.

E, empurrando com o pÈ Celestina, com um movimento brusco, tentou alcanÁar a porta. O

burgomestre embargou-lhe a passagem, mas o oficial puxou rapidamente por uma pistola e apontou-a ao velho.

- Uma bala na cabeÁa daquele que tentar tirar o filho a seu pai!

Dizendo isto, desceu precipitadamente a escada, correu para o cavalo, sem largar a crianÁa, e partiu a galope.

A dona da casa, com o coraÁ„o comprimido, dominando o horror que lhe inspirava a terrÌvel m·scara de cad·ver, entrou no quarto no intuito de consolar Celestina; foi encontrar a pobre m„e no meio da casa, imÛvel e muda como uma est·tua, com os braÁos pendentes. N„o podendo suportar a vista da m·scara, a mulher do burgomestre pÙs a Celestina o vÈu que caÌra no ch„o. Esta n„o pronunciou uma palavra, n„o fez um movimento; estava reduzida ao estado de autÛmato. Ao vÍ-la assim, a mulher sentiu redobrar a sua inquietaÁ„o e ansiedade e pediu a Deus que a livrasse da funesta desconhecida.

FÙra ouvida aquela prece, porque imediatamente a berlinda que trouxera Celestina parou defronte da porta. A abadessa entrou acompanhada pelo prÌncipe Zapolski.

Quando este soube o que acabava de passar-se, disse com mui sossego, suavemente:

- Chegamos mui tarde! Submetamo-nos ‡ vontade de Deus!

Celestina foi levada e colocada na carruagem, sem movimento, sem fala, sem dar o mÌnimo sinal de vontade, de pensamento. A berlinda partiu.

O anci„o e a famÌlia como que acordavam dum mau sonho, que os enchera de inquietaÁıes.

Pouco depois das cenas passadas em casa do burgomestre, era enterrada com uma solenidade desacostumada, uma religiosa da ordem de Cister, em Oppeln. Correu o boato de que esta freira era a condessa Hermenegilda de Czernski, que todos julgavam estar em It·lia com a irm„ do pai, a princesa Zapolski.

Pela mesma Època, o conde Nepomuceno Czernski, pai de Hermenegilda, veio a VarsÛvia e reservando para si apenas uma pequena propriedade na Ucr‚nia, renunciou ao resto dos seus bens a favor dos dois filhos do prÌncipe Zapolski, seus sobrinhos. Perguntaram-lhe se dotava a filha; por ˙nica resposta ergueu ao cÈu os olhos h˙midos de l·grimas, dizendo com voz surda:

- J· est· dotada!

N„o empregou meio algum para confirmar o boato da morte de Hermenegilda no convento de Oppeln, nem para destruir as suposiÁıes que faziam sobre a sorte da filha, que todos julgavam como vÌtima levada prematuramente ao t˙mulo pela dor.

V·rios patriotas polacos, humilhados, mas n„o abatidos pela queda da p·tria, procuraram fazer entrar de novo o conde numa associaÁ„o secreta, que se destinava ‡ libertaÁ„o da PolÛnia; mas n„o encontraram j· nele o homem ardente, amante entusi·stico da liberdade e da p·tria, cuja coragem herÛica outrora os auxiliara nas suas nobres empresas. Tornara-se um velho sem energia, feito misantropo por uma dor profunda, estranho a todas as cousas mundanas.