A narrativa neopirrônica: uma análise das obras de Porchat e Fogelin por Bruno Batista Pettersen - Versão HTML

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BRUNO BATISTA PETTERSEN

A narrativa neopirrônica: uma análise das

obras de Porchat e Fogelin

Belo Horizonte

Julho - 2012

1

BRU O BATISTA PETTERSE

A narrativa neopirrônica: uma análise das obras de Porchat e Fogelin

Tese de doutorado apresentada ao

Departamento de Filosofia da Faculdade de

Filosofia e Ciências Humanas da

Universidade Federal de Minas Gerais,

como requisito parcial à obtenção do título

de Doutor em Filosofia.

Linha de Pesquisa: Lógica e Filosofia da

Ciência

Orientadora: Profa. Dra. Lívia Guimarães

Belo Horizonte - MG

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

Julho - 2012

2

Agradecimentos

Nestes anos entre a escolha do tema desta tese e a sua finalização, muitos

professores, colegas e amigos desempenharam uma papel fundamental em minha

pesquisa. Quero iniciar agradecendo aos meus professores, e preciso começar pela

minha orientadora, Lívia Guimarães, que me ensinou como escrever esta tese e que

passou de apenas minha orientadora para uma amiga querida. Aos professores Ricardo

Fenati e Paulo Margutti que geraram em mim o desejo de continuar a pesquisar

filosofia. Agradeço também ao professor Ernesto Perini que me ensinou, ainda no meu

mestrado, a precisão requerida nos meus argumentos e ao professor José Raimundo

Maia Neto por ter me apresentado o ceticismo pelo qual me apaixonei. Não posso me

esquecer de dois encontros: em 2004 com Robert Fogelin, que me orientou nas fases

iniciais desta tese e, em 2010, com Oswaldo Porchat, que apoiou minha leitura de sua

proposta filosófica. Finalmente agradeço ao professor João Paulo Monteiro por ter me

recebido em Portugal durante o meu período de doutorado sanduíche.

Mas realmente esta tese não teria se realizado sem o apoio de minha esposa

Anice Lima. Ela não apenas me inspirou a trabalhar em um tema que eu amo, como me

suportou – em todos os sentidos – durante estes longos anos.

Quero agradecer aos meus colegas do Grupo Hume, Matheus, Hugo e Júlio pela

convivência acadêmica durante esses anos. Não posso me esquecer de meus amigos fora

da vida acadêmica, Flávio, Igor, Leonel, Anderson, Renata e Miguel pelo tempo de

divertimento.

A minha família, especialmente minha mãe Kathia, minha irmã Luciana, meu

pai Alexandre, minha sogra Maria Luiza, e meus tios Henrique e Pedro Paulo pelo

apoio sempre incondicional.

Aos professores Delmar Cardoso, Álvaro Pimentel e João MacDowell da FAJE

por terem me dado o apoio necessário para conciliar pesquisa e docência. Aos meus

alunos das instituições que leciono. Aos funcionários do departamento de Filosofia da

UFMG, especialmente a Edilma e Andrea pelo apoio fundamental para a pesquisa.

Ao CNPq, pelos quatro anos de bolsa para a realização desta pesquisa.

A todos, o meu eterno obrigado!

3

Ao meu avô, João Batista Filho,

Em memória.

Para Anice.

4

If I must be a fool, as all those who reason or believe

anything certainly are, my follies shall at least be natural and agreeable.

David Hume

This has gone far enough

After all we've been through

We can't be blamed,

We've done all we can humanly do

It's a time to be tough

A time to be wise

We must stop chasing false dreams,

And recover our lives.

I believe my own eyes

Know I've come to the end

All my patience is gone

When I'm doubtful I tend

To believe my own eyes

Pete Townshend – Tommy

5

Índice

ota acerca dos trechos citados ..............................................................................pg.10

Resumo .....................................................................................................................pg.11

Introdução ................................................................................................................pg.13

1. Primeiro Capítulo: Sexto Empírico e o Pirronismo

Introdução ..................................................................................................................pg.19

1.1. De Pirro a Sexto Empírico ................................................................................. pg.19

1.2. Sexto Empírico e o livro I do Esboços do Pirronismo .......................................pg.24

1.2.1. Quem é o cético pirrônico? ..............................................................................pg.27

1.3. Os modos de Suspensão do juízo .......................................................................pg.38

1.4. Vida, Fenômeno e a Medicina ............................................................................pg.53

1.5. A vida cética ...................................................................................................... pg.67

Apêndice 1: A rede cética ..........................................................................................pg.70

2. Segundo Capítulo: Ceticismo e vida comum na obra de Oswaldo Porchat

Introdução ..................................................................................................................pg.72

2.1. Conhecendo as peças fundamentais: as fases, as orientações e algumas ideias

constantes do pensamento de Porchat .......................................................................pg.75

2.1.1 As influências de Porchat ................................................................................ pg.76

2.1.2. Ideias Comuns nas Duas Fases de Porchat ......................................................pg.81

2.2. A Primeira Fase – A Vida Comum .....................................................................pg.83

2.2.1 O conflito das filosofias: a experiência da diaphonía até a recusa da filosofia.pg.85

2.2.1.1. Diferença do uso do termo diaphonía ..........................................................pg.85

2.2.1.2. O funcionamento da diaphonía e o conflito das filosofias ...........................pg.86

2.2.1.3. A diaphonía no sentido autobiográfico ........................................................pg.88

2.2.2 A recusa do Ceticismo ......................................................................................pg.89

2.2.2.1. Primeira fase de rejeição do ceticismo: o ceticismo não é uma solução para a

diaphonía ...................................................................................................................pg.90

2.2.2.2. Segunda fase de rejeição do ceticismo: o ceticismo como uma forma negativa

de filosofia .................................................................................................................pg.91

2.2.2.3. Terceira fase de rejeição do ceticismo: o ceticismo como uma filosofia

mentalista ...................................................................................................................pg.92

6

2.2.3. Da redescoberta da vida comum até a promoção filosófica da visão comum..pg.94

2.2.3.1. Primeira fase da visão comum: A recusa da filosofia dogmática .................pg.95

2.2.3.2. Segunda fase da visão comum: A elaboração inicial da “promoção filosófica da

visão comum” ............................................................................................................pg.96

2.2.3.3. Terceira fase da visão comum: A elaboração definitiva da “promoção filosófica

da visão comum” .......................................................................................................pg.97

2.3. A Segunda Fase – Neopirronismo.....................................................................pg.101

2.3.1. O Neopirronismo, a diaphonía e a Filosofia .................................................pg.107

2.3.1.1A força antinômica do neopirronismo – o lado negativo do neopirronismo.pg.108

2.3.1.1.1 Os primeiros passos com a diaphonía .......................................................pg108

2.3.1.1.2. A diaphonía como argumentação ............................................................pg.110

2.3.2. O Fenômeno – o lado positivo do neopirronismo .........................................pg.113

2.3.2.1. Tò phainómenon: aquilo que aparece ........................................................pg.113

2.3.2.2. Visão geral do fenômeno ...........................................................................pg.114

2.3.2.3. Os quatro critérios do fenômeno e o naturalismo de Porchat .....................pg.116

2.3.3 Verdade e realismo no neopirronismo ............................................................pg.123

2.3.4. A filosofia e o fenômeno ...............................................................................pg.127

2.3.5. Uma avaliação da segunda fase de Porchat ...................................................pg.130

2.4. O debate em torno de Porchat ...........................................................................pg.131

2.4.1. Críticas Amplas .............................................................................................pg.132

2.4.2. Críticas Específicas ........................................................................................pg.137

Conclusão.................................................................................................................pg.141

Terceiro Capítulo – Fogelin e o Problema do Conhecimento

Introdução ................................................................................................................pg.142

3.1. Conhecendo as peças fundamentais: As raízes de Robert Fogelin ...................pg.142

3.1.1. Uma breve apresentação de Robert Fogelin ..................................................pg.142

3.1.2. As influências de Fogelin ..............................................................................pg.144

3.1.2.1. Sexto Empírico ...........................................................................................pg.144

3.1.2.2. David Hume ................................................................................................pg.145

3.1.2.3. Ludwig Wittgenstein ..................................................................................pg.146

3.2. Uma definição cética para o conhecimento ......................................................pg.149

3.2.1. A definição clássica do conhecimento e o problema de Gettier ...................pg.149

7

3.2.2. Solução de Fogelin ao problema de Gettier ...................................................pg.154

3.2.3.Uma nova descrição de conhecimento ...........................................................pg.160

3.2.3.1. Esquemas justificatórios .............................................................................pg.161

3.2.3.2. Nível de escrutínio e esquema justificatório ...............................................pg.162

3.2.3.3 O nível variável de escrutínio e a determinação do conhecimento .............pg.167

3.2.4. Ceticismo e Conhecimento ............................................................................pg.170

3.3. Os limites da razão humana ..............................................................................pg.171

3.3.1. Os Modos de Agripa na Filosofia de Fogelin ................................................pg.171

3.3.1.1. As teorias contemporâneas da justificação .................................................pg.172

3.3.1.2. Uma nova organização para as teorias contemporâneas ............................pg.173

3.3.2 As Teorias da Justificação e suas limitações a partir de Agripa ....................pg.177

3.3.2.1. O Fundacionismo de Roderick Chisholm e as Críticas Pirrônicas de Fogelin

..................................................................................................................................pg.177

3.3.2.2 Fogelin e o Coerentismo ..............................................................................pg.182

3.3.2.2.1. Bonjour e o Coerentismo .........................................................................pg.183

3.3.2.2.2. Davidson: Coerentismo e Justificação ....................................................pg.189

3.3.3. Os Limites da Razão: (a) inconsistência de regras, (b) ilusões dialéticas, (c)

duvida ......................................................................................................................pg.195

3.3.3.1. Os primeiro limite da razão: a inconsistência das regras ............................pg.195

3.3.3.2. O segundo limite da razão: as ilusões dialéticas .........................................pg.199

3.3.3.3. O terceiro limite da razão: as dúvidas céticas .............................................pg.201

3.4. A Vida Pirrônica ...............................................................................................pg.205

3.5. O debate em torno do ceticismo de Fogelin .....................................................pg.209

Conclusão ................................................................................................................pg.217

4. Quarto Capítulo: A narrativa neopirrônica

4.1. Pirronismo e Neopirronismo ............................................................................pg.220

4.1.1. Pontos de Contato ......................................................................................... pg.220

4.1.1.1. A postura pirrônica .....................................................................................pg.221

4.1.1.2. Os modos de Agripa ..................................................................................pg.222

4.1.1.3. Os critérios da ação pirrônica ....................................................................pg.223

4.1.2. Pontos de Divergência ...................................................................................pg.224

4.1.2.1. A importância da revolução científica para o neopirronismo .....................pg.224

4.1.2.2. Porchat e Verdade; Fogelin e Justificação .................................................pg.226

8

4.1.3. Ainda é Pirronismo? ......................................................................................pg.227

4.2. O neopirronismo, entre Descartes, Hume e Wittgenstein. ...............................pg.228

4.2.1. Descartes e o Neopirronismo..........................................................................pg.228

4.2.2. Hume e o Neopirronismo...............................................................................pg.230

4.2.3. Wittgenstein e o Neopirronismo ....................................................................pg.232

4.2.4 Neopirronismo e suas múltiplas conexões ......................................................pg.233

4.3. Porchat e Fogelin ..............................................................................................pg.234

4.3.1. As várias perspectivas do neopirronismo ......................................................pg.234

4.3.2. A escolha da pessoa do verbo no neopirronismo ..........................................pg.236

4.3.3. Os Modos de Agripa ......................................................................................pg.237

4.3.4. Técnica e Ciência ...........................................................................................pg.239

4.3.5. A vida Comum ...............................................................................................pg.241

4.4. A narrativa neopirrônica ...................................................................................pg.243

4.4.1. O neopirronismo e a compreensão do desafio contemporâneo da filosofia – Uma

teoria dos limites da racionalidade ..........................................................................pg.244

4.4.2. Uma nova imagem para o conhecimento ......................................................pg.247

4.4.3. Filosofia Naturalizada ....................................................................................pg.249

4.4.4. O neopirronismo e a condição humana..........................................................pg.251

4.5.Conclusão: Porque neopirronismo? ..................................................................pg.253

Apêndice 2: Moral e Política no Neopirronismo .....................................................pg.255

5. Conclusão ...........................................................................................................pg.258

6. Bibliografia..........................................................................................................pg.260

9

Nota acerca dos trechos citados

Para facilitar a compreensão dos argumentos dos autores optamos pela seguinte

forma de citação:

No primeiro capítulo, sempre que citamos as obras de Sexto Empírico,

colocamos logo depois da citação o livro de onde a citação foi retirada, depois, no caso

do Outlines of Phyrronism, indicamos o livro e o parágrafo de onde o texto foi retirado.

No segundo capítulo, para demonstrar a mudanças e evolução das teses de

Porchat, sempre que citamos um artigo, optamos por colocar o nome do artigo, a data de

publicação e a página, conforme aparecem na mais recente publicação dos artigos de

Porchat, intitulada de Rumo ao Ceticismo.

No terceiro capítulo, como não houve uma mudança nas teses de Fogelin,

optamos por uma citação mais simples, indicando apenas em qual livro o trecho aparece

e qual é a página da edição que consultamos.

No quarto capítulo, mantivemos as regras dos capítulos anteriores.

Divergência acerca dos termos em grego clássico

Principalmente nos dois primeiros capítulos, usamos algumas palavras oriundas

do grego clássico. Esse uso obedeceu sempre a maneira pela qual o autor citado usa os

termos. Abaixo, listamos as divergências que aparecem entre o uso do termo na

tradução de Sexto Empírico por Annas e Barnes e o uso que Porchat faz dos termos.

• Porchat usa o termo epokhè, enquanto Barnes e Annas usam o termo epoché.

• Porchat usa o termo teknhè, enquanto Barnes e Annas usam o termo techné.

• Porchat usa o termo diaphonía, enquanto Barnes e Annas usam diaphónia.

Lista de abreviações das obras mais citadas

Sexto Empírico

HP: Outlines of Phyrronism

Robert Fogelin

PR: Phyrronian Reflections on Knowledge and Justification

WTR: Walking the tightrope of reason: the precarious life of a rational animal

10

Resumo

O objetivo deste trabalho é apresentar duas versões neopirronismo: a de Oswaldo

Porchat e a de Robert Fogelin. Para isso, dividimos a tese em quatro capítulos. No

primeiro capítulo, em busca de uma definição clara de “pirronismo”, vamos à obra de

Sexto Empírico para revelar os principais aspectos da atitude pirrônica. Nele,

abordamos principalmente dois aspectos, (i) os chamados “modos céticos” que são

coleções argumentativas que visam combater as filosofias dogmáticas e (ii) os critérios

de ação do cético. A partir desta caracterização inicial, fomos visitar a obra de Porchat e

Fogelin.

A nossa aproximação da obra de Oswaldo Porchat gerou a ideia de dividi-la em duas

fases. A primeira fase tem como característica a recusa ao ceticismo, mas com a

manutenção de uma temática cética, passando pelas ideias de abandono da filosofia e a

opção pela vida comum. Na sua segunda fase, Porchat adere francamente ao pirronismo,

passando a pensar seu neopirronismo.

Juntamente com Porchat, o outro neopirrônico investigado nesta tese é Robert Fogelin.

O argumento de Fogelin pode ser dividido em duas partes, a primeira parte tem como

característica principal uma análise neopirrônica da ideia de “conhecimento”, a partir do

chamado problema de Gettier. A segunda parte tem como característica central a ideia

da precariedade da razão filosófica.

A quarta e última parte tem dois focos principais: o primeiro diz respeito à possibilidade

de reunir o neopirronismo de Porchat e Fogelin em uma mesma tendência neopirrônica.

O segundo diz respeito a como o neopirronismo pode ajudar a se compreender o debate

epistemológico atual, e nossa hipótese é que os chamados “modos de Agripa” precisam

desempenhar, hoje, um papel central.

11

Abstract:

The goal of this work is to show two versions of Neopyrrhonism: one of Oswaldo

Porchat and the other from Robert Fogelin. To accomplish that, we divided the thesis in

four chapters. In the first chapter, in a search to obtain a clear definition of

“pyrrhonism” we take a closer look on Sextus Empiricus’s works in order to reveal two

aspects, (i) the so called “sceptical modes” which are collections of arguments to

combat any dogmatic philosophy and (ii) the sceptic criteria of action.

In the second chapter we approach Oswaldo Porchat’s works. To better understand his

philosophy, we divide his works into two distinct phases. In his first phase, he opts for a

refusal of scepticsm, but at the same time he maintains a sceptical thematic. In his

second phase, Porchat embraces scepticism and gives us contemporary reflections on

Neophyrronism.

Together with Porchat, we have another neopyrrhonic: Robert Fogelin. Fogelin’s

thoughts can be divided in two arguments, the first one takes a closer look at the idea of

“knowledge” from the so called “Gettier’s problems” perspective. Its conclusion is a

sceptical view of the foundation of knowledge. The second argument resides in the idea

of the precarious life of human reason.

In the last chapter we give two central arguments. The first one is about the relation of

Porchat’s and Fogelin’s Neopyrrhonisms. The second one is about the importance that

Neopyrrhonism can take in contemporary philosophy.

12

Introdução

O ceticismo sempre teve um lugar importante nos debates epistemológicos. No

entanto, observamos que, no século XX, o ceticismo perdeu força nas discussões

filosóficas. Nesta tese, nosso objetivo é apresentar uma forma original de se pensar o

ceticismo hoje e como ele poderia desempenhar um papel importante nos debates atuais

da epistemologia. Ao nos concentrarmos na epistemologia, estamos recortando um dos

muitos tópicos do ceticismo. No entanto, como veremos, as tentativas atuais de atualizar

o ceticismo são todas centradas de algum modo na epistemologia.

Antes de iniciarmos uma discussão dos argumentos céticos é interessante

revermos o porquê deste desinteresse em relação ao ceticismo na epistemologia

contemporânea. Esse desinteresse é bem notado por Robert Fogelin, um de nossos

autores centrais. Fogelin percebeu um dado curioso: no livro Skepticism – A

contemporary reader, editado por De Rose e Warfield, se formos ao índice de nomes, o

nome de Sexto Empírico aparece como “Empiricus, S.”, supondo que “Empírico” seria

o sobrenome de Sexto! Além disto, as duas citações de Sexto que aparecem neste livro

são apenas notas de rodapé. O fato é: num livro sobre o ceticismo há um erro sobre a

maior fonte do ceticismo antigo. Se isto não demonstra um desinteresse, o que mais o

poderia fazer? Mai quais seriam realmente as razões disto ter acontecido?

A centralidade do ceticismo no debate epistemológico tem início na

modernidade. É a partir de autores como Montaigne e Descartes que o ceticismo passa a

ser não apenas uma importante tese epistemológica, mas a grande tese a ser vencida ou

desenvolvida. Mas houve muitos tipos de ceticismos na modernidade. Tivemos uma

tentativa de reviver o pirronismo, o ceticismo hiperbólico cartesiano, formas mitigadas

de ceticismo, um ceticismo sobre a religião, entre outras possibilidades. Há ceticismos

13

para todos os gostos na modernidade. Mas, de modo geral, poderíamos resumir o

ceticismo moderno como um argumento que aponta para a fragilidade da racionalidade

humana. A história do ceticismo moderno foi a de aprofundar tal fragilidade, tentar sair

dela ou tentar conciliá-la com a natureza humana. Entretanto, não há nenhuma dúvida

acerca da centralidade argumentativa do ceticismo na modernidade.

O ceticismo começa a se tornar lateral no século XIX. Nossa hipótese é que isto

aconteceu pela entrada do positivismo em cena. A ciência se tornou a grande fonte

explicativa na epistemologia. Não fazia sentido criticar a racionalidade depois dos feitos

de Newton, Maxwell e Darwin. Ser cético em relação à razão seria duvidar da enorme

força da ciência. Como veremos ao longo da tese, ser um cético não implica, de maneira

nenhuma, em abandonar a ciência. Mas isto não foi percebido ao longo do século XIX.

No fim do século XIX e no início do século XX, ainda sem um representante de

peso, o ceticismo se abrigaria na história da filosofia. Foi o começo do enorme sucesso

exegético que o século XX demonstrou acerca do ceticismo. Esse é um movimento que

começou com Victor Brochard e seu Les sceptics grècs em 1887. O ceticismo moderno

teve também grandes intérpretes ao longo do século XX, com destaque óbvio para

Richard Popkin e seu History of Scepticism, que examina as origens e características do

ceticismo moderno. Nas universidades, o ceticismo se consolidou como uma das mais

importantes áreas de pesquisa histórica.

No entanto, o século XX representou algumas dificuldades importantes para o

ceticismo como argumento epistemológico. Essas dificuldades atingiram o ceticismo de

tipo moderno com uma força quase decisiva, e isso aconteceu através de um ataque não

ao próprio ceticismo moderno, mas exatamente contra a própria modernidade. Não há

dúvida que parte fundamental das teorias contemporâneas em filosofia analítica

14

funcionam como uma reação à teses modernas como o “mentalismo”, o “véu das

ideias”, o “dualismo mente/corpo” e o “fundacionismo”, para aqui citar apenas algumas

das teses modernas atacadas.

Quem representa bem este golpe nas teses modernas é Ludwig Wittgenstein.

Depois de seus argumentos, apresentados principalmente no seu Investigações

Filosóficas, como o chamado “argumento da linguagem privada”, tornou-se quase

impossível manter algum tipo de epistemologia moderna. Assim, ao atacar as bases da

modernidade, Wittgenstein atacou também os fundamentos do ceticismo moderno.

Como duvidar do “mundo externo”? Como manter uma “dúvida hiperbólica”? Se

lermos atentamente Wittgenstein, o ceticismo moderno não tem lugar como tese central

na epistemologia.

No entanto, apesar deste bloqueio teórico, algumas tentativas foram feitas de se

pensar um ceticismo com feições modernas, sendo que duas tentativas merecem

destaque: a versão “cartesiana” do ceticismo de Peter Unger no seu Ignorance e o

ceticismo de Barry Stroud no seu The significance of philosophical scepticism. Não

vamos aqui examiná-los, mas basta dizer quem ambos autores recorrem a formas

argumentativas tipicamente modernas para recuperar o ceticismo. Mas acreditamos que

estas formas estão realmente fadadas ao fracasso, exatamente pelos mesmos argumentos

wittgensteianos que apresentamos acima. Não há, realmente, como pensar algo como a

dúvida acerca do mundo externo ou um argumento do sonho sem cair na suposição de

uma linguagem privada.

Assim, não é nenhuma surpresa a não-centralidade e o desinteresse pelo

ceticismo como player no o debate atual em epistemologia.

15

No entanto, será realmente que Wittgenstein bloqueou todo tipo de ceticismo?

Duas respostas são possíveis. A primeira é que realmente parece que Wittgenstein

impediu qualquer tipo de ceticismo de características modernas – mas há sempre espaço

para um cético hiperbólico tentar a refutação de Wittgenstein, o que não será nossa

intenção. Uma segunda resposta possível é dizer que, ao invés de bloquear o ceticismo,

Wittgenstein possibilitou a volta de um tipo específico de ceticismo: o pirrônico.

Como os grandes filósofos, Wittgenstein abre mais possibilidades do que as

fecha. Duas destas possibilidades acabam no ressurgimento dos pirrônicos, a saber: (a)

uma crítica das capacidades da filosofia e da racionalidade para explicar o mundo e (b)

uma vez que esse problema é constatado, um recomeço da investigação a partir das

práticas comuns. Esse movimento, que vai da crítica da filosofia para a vida comum é

exatamente o mesmo movimento teórico feito pelos antigos pirrônicos. Nossa suposição

não é de um Wittgenstein cético, mas, sim, de um autor que reabre as condições para um

tipo de argumentação pirrônica germinar.

É na continuidade desta história do ceticismo que dois autores neopirrônicos

surgem no fim do século XX, especificamente, na década de 1990: Robert Fogelin e

Oswaldo Porchat.

Porchat e Fogelin vieram de tradições muito diferentes em filosofia. Oswaldo

Porchat, um filósofo brasileiro, teve sua formação inicial mais ligada aos

desenvolvimentos da chamada “filosofia continental”. No entanto, desde o seu primeiro

artigo, Porchat sempre demonstrou, mesmo que de modo inerente, uma veia cética. Ele

se aproximará mais e mais do ceticismo de tipo pirrônico justamente pelo mesmo

caminho que apontamos acima: ao reconhecer as falhas do ceticismo de tipo moderno,

Porchat conceberá um ceticismo neopirrônico. Já Fogelin é tipicamente um filósofo

16

nascido e criado na tradição “analítica”. Seus primeiros trabalhos foram interpretações

muito influentes de Hume e Wittgenstein. Mas é na década de 1990 que ele começará a

desenvolver sua forma de neopirronismo.

É neste contexto que nossa tese se encaixa. Ela tem dois propósitos. O primeiro,

que ocupará quase a totalidade da tese, é uma reconstrução histórica do neopirronismo.

Até onde pesquisamos, não há nenhuma tentativa nem de sistematizar o pensamento de

Porchat e Fogelin, nem de oferecer uma interpretação do neopirronismo. Assim, nossa

tese tem o objetivo de ser a abertura para uma discussão de um neopirronismo como

uma escola contemporânea de reflexão. O nosso segundo objetivo é mostrar que

caminhos o ceticismo neopirrônico terá de seguir para se colocar novamente como

central na filosofia. Nossa hipótese é que os modos de Agripa devem ser inseridos no

debate filosófico como modo de avaliação das teorias e, principalmente, que o ceticismo

deverá recuperar sua força para a análise da racionalidade.

Para tal, a tese será composta de quatro capítulos. O primeiro capítulo tratará do

ceticismo pirrônico antigo. Esse capítulo tem como objetivo oferecer a estrutura

argumentativa que será utilizada tanto por Fogelin quanto por Porchat, afinal de contas

eles se colocam como pirrônicos. Este primeiro capítulo foca em dois pontos: a

definição do cético que Sexto Empírico dá no seu Outlines of Phyrronism e os modos

céticos, principalmente os chamados “Modos de Agripa”.

O segundo capítulo tratará da filosofia de Porchat. A grande dificuldade deste

capítulo é justamente oferecer uma sistematicidade ao pensamento de Porchat que,

originalmente, parece fragmentado. Este capítulo examinará as duas fases pensamento

de Porchat. A primeira fase se desenrola em dois eixos: o primeiro é a constatação da

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falha do discurso filosófico e o segundo é a ideia da “promoção filosófica da visão

comum”, mas como veremos, nessa primeira fase, Porchat recusa o ceticismo. O

ceticismo surge como a posição de Porchat na segunda fase de seu pensamento. Esse

momento de seu pensamento retoma a ideia da falha do discurso filosófico, mas dá uma

saída cética para ela, a saber, o fenômeno.

O terceiro capítulo discute a filosofia de Fogelin. Ao contrário de Porchat,

Fogelin é um autor mais sistemático, o que facilita nossa exposição, e nos permite ver,

desde o início, o seu intento neopirrônico. A tese de Fogelin pode ser dividida em dois

grandes argumentos. O primeiro é o seu diagnóstico do problema do conhecimento a

partir do chamado “Problema de Gettier”. Fogelin oferece uma caracterização

neopirrônica para o conhecimento, a partir do que ele chamará de “esquemas de

justificação”. O segundo argumento de Fogelin é o que ele chama de “precariedade da

vida racional”, que é uma instigante ideia acerca dos limites da racionalidade.

O quarto e último capítulo é um “apontar”, no sentido de verificar dois tópicos: a

relação entre Porchat e Fogelin e que tipo de ceticismo poderia surgir deles. Tentaremos

apontar para o neopirronismo como tarefa a ser empreendida, não apenas como esforço

exegético, mas como alternativa filosófica a ser empreendida.

18

1. Primeiro Capítulo: Sexto Empírico e o Pirronismo

Introdução

O objetivo deste capítulo será apresentar o ceticismo pirrônico. Para tal,

traremos de alguns dos céticos anteriores a Sexto Empírico para, em seguida, passarmos

a uma análise mais detida de Sexto, principalmente do Livro I de seu Outlines of

Scepticism. Devemos lembrar que este capítulo pretende oferecer uma interpretação

global do ceticismo pirrônico antigo, com o objetivo de realçar certas características e

aspectos que serão úteis para pensarmos o pirronismo contemporâneo. Este passo na

tese visa: (a) apresentar aspectos que serão retomados hoje e (b) esclarecer o debate

sobre o ceticismo na contemporaneidade, visto que a maior parte dos problemas que

temos encontrado no debate atual sobre o ceticismo encontra-se na incompreensão

mesma do que o ceticismo significa.

Neste esboço do ceticismo, seguiremos o seguinte caminho: apresentaremos uma

rápida história do ceticismo na antiguidade, mencionando os principais nomes e suas

ideias; em seguida, iremos a Sexto Empírico e às características fundamentais do

pirrônico, principalmente a suspensão do juízo, os modos do ceticismo, destacando os

Cinco Modos de Agripa e os critérios de ação do cético e finalmente analisando como a

medicina pode ser pensada a partir de um destes critérios.

1.1. De Pirro a Sexto Empírico

Diógenes Laércio1, em certo momento da sua descrição da vida de Pirro, tenta

estabelecer uma linhagem cética, que teria, aparentemente, um início em Homero,

1 As observações sobre Diógenes Laércio são feitas a partir do texto: DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e

doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília: Ed. UnB, 1988.

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passando por pré-socráticos e chegando a Pirro2. Apesar desta possível linhagem

estabelecida por Diógenes ser passível de problematização, é certo que o trabalho atual

em se tentar estabelecer uma linhagem ou uma datação precisa dos céticos antigos é

também muito difícil e pouco precisa. Existem vários problemas relacionados com a

localização histórica dos céticos antigos. Primeiro, muitos deles, talvez os mais

importantes, nada escreveram ou, se escreveram, não nos restaram mais do que