A outra noite por Reginaldo B. Ribeiro - Versão HTML

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A Outra Noite

Maldita Herança

Prefácio

Nunca se está pronto para as grandes descobertas da vida. Desafios. Ainda que

estudadas meticulosamente e treinando com exaustão para superá-las debaixo de uma

sombra que permeia as situações mais estranhas e alucinantes em sua volta.

Período cinza e opaco da vida - diz sobre a falta de alegria e acúmulo de energia -

em atribuir a nobre missão de proteger os seus das mais adversas armadilhas do

tenebroso acaso.

Amber Knight sente-se solitária, impotente e nutri um desejo ardente em seu ser.

Um desejo comum de adolescente, aquele desejo de sentir o máximo da vida, ou de ir ao

extremo duma condenada paixão e o ímpeto do amor, mas o que ela está prestes a

conhecer não tem nada de simples e muito menos compreensível a seu círculo de

amizade.

Seu pai tenta lhe dar uma vida familiar e social de forma normal: carinho, afeto,

amizade, compreensão e dedicação. A atenção que qualquer garota adolescente deveria

receber de seus pais.

Porém, uma força sinistra quer apossar do poder descomunal que pertence a sua

família. Então, o desespero e a obscuridade cercam-na ambicionando tal poder.

O passado de qualquer mortal esconde segredos de vida ou de morte e o dela

desperta uma terrível maldição. Poderá a jovem Amber conviver com tudo que

descobrirá e ainda suportar as investidas dos muitos seres sombrios que a sombria

penumbra noturna por toda a sua volta?

I - Túmulo Sob Sangue e Neve

Cemitério frio e tranquilo com penumbras perturbadoras causadas pelas

luminárias preguiçosas que despontam sobre os postes de ferro fundido. O branco

estonteante cobre uma relva rasteira e queimada pelo gelo. No vem e vai do vento range

portinholas de jazigos jactanciosos. Um ambiente sossegado e fantasmagórico cercado

por monumentos pomposos e muitas cruzes de bronze e latão.

Gotas de sangue caem sobre o túmulo gelado. Deve ser o pior dia desde que

começou este inverno. O frio está cortando os lábios e prejudicando a pele de qualquer

mortal. A inscrição na lápide diz: “jaz Anna Smith Knight, amada esposa e mãe”.

Parece que foi ontem que tomamos um chocolate quente, pensou a não tão franzina

menina deitada sobre o concreto gelado. Flocos de neve começaram a dançar em volta

dela. As árvores sussurravam ao sabor do vento preguiçoso e junto às gotas de sangue

que caíam dos pulsos sobre a pedra, de seus olhos grandes e vibrantes gotejavam

lágrimas cintilantes ao ponto de se cristalizarem entes de tocar a superfície do túmulo.

Amber era seu nome. Mais uma vez passava a navalha nos pulsos. O sangue era

tão preguiçoso e aparentemente seus cortes se fechavam rápido demais. Banhada pelas

luzes pálidas do cemitério sentia o ar entrar em seus pulmões com gentileza e num

instante algumas lâmpadas piscavam. Fazia algumas horas que estava ali e seu pai

deveria já estar louco à sua procura. Pois naturalmente é o que ela achava. As sombras

das grades levemente enferrujadas se projetavam sobre alguns túmulos os tornando

como listras de zebras. Montes de neve já ocupavam algumas covas, jardins e jazigos

daquele lugar silencioso e um tanto assombroso. A maquiagem pesada da menina se

desmanchava nas lágrimas ininterruptas que caíam. Se estivesse em sua casa estaria na

cama bem confortável e quente navegando na rede com seu laptop e ouvindo um Death

Metal de uma banda não muito conhecida. Talvez seu blackberry tocasse a chamada

com um hit de sua banda preferida e amigos, os poucos que tinha, a chamariam para um

cinema e depois um lanche muito gorduroso. Essa era sua vida, dizia ela: vidinha boa.

Trouxe para ali seu Music Player com mais de trezentas músicas, mas acabara de lançar

na cruz de pedra sobre um túmulo rústico. Deveria jazer ali alguém que viveu uma vida

longa e simples, deveria ser importante, notado pela inscrição com detalhes romanos,

um sacerdote cristão presumia a menina que tinha olhos curiosos.

Soluçava muito. Havia completado dezoito, mas desde os quatorze anos não via

mudança nenhuma em sua medíocre vida, na estrutura, no seu corpo para ser mais

concreto. Seus seios eram firmes, mas não grandes como ela desejava... seu pai dizia

que nem tudo que queremos podemos conseguir. A lápide diante dela não identificava o

ano da morte de sua mãe e isso a enfureceu mais ainda. O aparelho Music Player que o

diga!

A nevasca aumentou depois da meia noite e meia. Veio de suéter, seu preferido,

rosa-choque, porém o frio exigia no mínimo uma jaqueta de couro sobre o suéter. Tinha

uma, mas não quis trazer consigo. Morrerei hoje mesmo – opinara antes de sair de casa,

- de frio ou de hemorragia. Um pio de coruja veio da parte mais arborizada do parque

sepulcral. Sorriu. Pensou que estivesse sozinha. O pio assustaria qualquer um, menos

ela. Temer as sombras noturnas e seus agentes sonoros nunca fizera parte de seus

verdadeiros temores.

- Desculpe-me, dona coruja. Mas não estou me sentindo desse mundo. E, você vai

ficar aí me encarando? Sai fora daqui. Vai-te embora! Suma como eu quero sumir! –

seus braços estavam dormentes. Seu rosto mais pálido do que o de costume, ela era

muito clara mesmo, mas agora estava horrivelmente translúcida sua pele clara. Seus

lábios debaixo daquele batom rosado deveriam estar mais alvo que aquela neve absurda

de fria que caía. Seus lábios se contraíam e sua pele parecia não se importar com a

temperatura. Nunca tremia. Não sentia o frio como uma pessoa normal. De fato ela não

se sentia normal. Como outras meninas. Meninas normais eram exibidas, oferecidas,

faladeiras, fofoqueiras, insinuantes e outros adjetivos que se pareçam com esses. Ela

nunca fora assim ou nunca se sentira assim. Amor? Que é isso? Calor e paixão eram

palavras impossíveis dentro de um coração que palpitava lentamente e debaixo daquele

semblante frio corria apenas o desapego a qualquer coisa que não fosse sua mãe. Por

isso escolhera aquele local, onde jazia sua amada mãe. Não lembrava muito sobre ela.

Mas tudo parecia vago em sua mente juvenil. O ontem parecia ter ocorrido há mais de

cem anos. O hoje só interessava estar ali. O amanhã que se dane! Então a mente da

menina se perdia no profundo lago gelado da memória e toda a falta de importância dela

e de sua vida se deparava com o fôlego desesperado do único fio que fazia sentido,

disse: - Adeus pai, adeus amiga Brigite. – Tentou falar mais alto com a ave: - Coruja

tola!

Os flocos silenciosos pareciam soar como notas musicais aos ouvidos da menina.

Imaginem um farfalhar de flocos pousando em toda extensão do parque, da cidade, da

região e assim por diante. O som do vento assoviava mais forte que algum instrumento

de sopro. Dormente. O corpo todo dormente. Seriam seus últimos instantes. O pio da

coruja pareceu tenebroso. O corpo esticado sobre o túmulo não reclamava mais do frio.

Seus olhos viam nuvens espectrais passando sob um céu negro sem as cintilantes

estrelas. Flocos pousavam em sua boca e derretiam. Sua língua lambera vários deles.

Seus cabelos louros e levemente cacheados aninhavam uma porção de flocos alvos e

lindos. Sentiria a calça toda molhada se o corpo não estivesse dormente. O suéter

maravilhoso demorou um pouco mais para ficar encharcado. Seus tênis jeans haviam

sido lançados a três metros dali. Sua meia com desenhos de uma gata branca recebiam

os flocos singelos e constantes.

Silêncio total. A coruja não piou mais. O vento parou. Os flocos desapareceram. O

céu imenso foi engolido pelo nada. O nada era maior que tudo e se fez presente como

nunca. O frio amedrontador sumiu. A noite escafedeu-se. Tudo tragado pelo sono. Um

sono. Que sono! Mortal. Desmaio. Somente dela? O sono dela.

II – Sobrevida

O sol apareceu de manhã sem qualquer diferença dos outros dias de inverno. Um

astro flamejante distante e preguiçoso permitiria o dia continuar gelado. A manhã

possuía um tom azulado sob um céu cinzento onde a bola de fogo parecia com tal

timidez. O cheiro de torradas e waffle enchiam a casa. Tropel se ouvia no andar de

baixo. As escadas de madeira foram subidas indescritivelmente rápidas, a pensar pelo

som específico das passadas pesadas, e sem demora dois toques na porta foram

efetuados.

- Coraçãozinho! – falou uma voz potente do lado de fora da porta. - É o último dia

de escola da semana e não vai se atrasar meu bem. Vamos lá! Levante-se! Estou

terminando seu café. Venha logo – e desceu com menos pressa, ao reparar pelo som

descompassado e pelo barulho com que sua bengala golpeava a madeira da escada.

- Já acordei, pai. Logo eu desço! – coçava os olhos.

A menina eliminou o cobertor magnífico e lentamente foi se despindo do pijama

abarrotado de desenhos daquela gata branca. Bocejou sonoramente e mirou o banheiro.

Antes, passou pelo grande espelho em seu closet e se deteve. Seu rosto angelical era

clarinho; olhos cinza-esverdeados; seus cabelos loiros e levemente cacheados; seu corpo

era digno de passarela e moda; pernas longas e bem torneadas; seu piercing no umbigo

trazia uma pequena cruz incrustada de diamantes diminutos. Seguiu para o boxe e ligou

o chuveiro abençoado com água quente. O vapor foi enchendo o ambiente e ela se

ensaboava como se aquilo fosse um ritual. A fragrância de seu sabonete lembrava da

loja onde o comprou perto do natal no ano que passou a menos de um mês.

Saiu do banheiro e parou novamente sob seu reflexo no espelho. Correu as mãos

sobre seus mamilos e massageou despercebidamente seu aparelho virginal. E, como

num pensamento relâmpago perdeu seu olhar nos pulsos. Perfeitos. Intactos. Sem

cicatriz alguma. Teria sido um sonho bem maluco aquele. Teria sido sim se ela não

tivesse corrido para sua escrivaninha e notado o que havia escrito na superfície de lisa

do móvel na noite passada.

“Eu quero morrer!” – escrito em garranchos horríveis. Escrito com sua caneta de

tinta-gel prateada.

Ignorou o relance de pensamento. Correu para pegar suas roupas de colégio. Seu

suéter rosa-choque estava lá no closet, limpo e cheiroso. Seu par de tênis preferido

estava ali também. Porém, não encontrou suas meias de gatinha. Ignorou novamente o

que pensara. Deveria ter sido um sonho bem maluco àquele.

Respirava com satisfação o ar gelado da manhã. Como poderia ter pensado em não

existir mais? Até passar pelo retrato da mãe sobre a mesinha da cabeceira da cama. Seu

blackberry se agitou. Mensagem de sua amiga Brigite. Olhou a mensagem e sorriu. Seus

dentes lindos eram branquíssimos. Olhou para porta e correu numa disparada ajeitando

sua jaqueta depois de passar uma escova ligeira e precisa sobre seus cachos luzentes às

luzes do cômodo.

Desceu como uma criança desesperada pelo cereal matinal.

- Bom dia para o melhor pai do mundo! – correu e pulou sobre os braços do seu

velho.

O homem tinha o cabelo quase todo grisalho; aparentava uns cinquenta e todos

anos; era robusto; rosto austero; mancava de uma perna, por isso a necessidade de uma

bengala – sua filha achava que aquilo era charme dele, pois seu pai era forte e corria,

manquitolando, mas corria até mais do que ela. A bengala era trabalhada em marfim e

no seu topo havia uma cabeça de elefante esculpida magnificamente. A história da

bengala teria sido conjunta com o seu acidente quando era fotógrafo de uma revista que

se tratava de viagens selvagens pela África e seus safáris extraordinários. Desde então

havia se aposentado, mas ora ou outra pegava sua câmera, filha e mochilas e iam pra

lugares estupendos.

- Meu coraçãozinho acordou. Hoje você está mais bonita do que ontem minha

querida – e estalou beijocas na bochecha pálida da menina.

- Pai... – fez charminho ao se sentar à mesa, - o senhor se lembra do meu pedido

de segunda-feira?

- Já faz quatro dias e não devo estar me lembrando bem – sorriu para ela trazendo

um imenso copo.

- O festival de rock que eu te falei – emburrou a menina franzindo a testa. – Em

Paris. No mês que vem.

- Ah! Tá.Vai ter show daqueles caras que arrancam cabeças de morcegos com os

dentes e estrangulam frangos em cima do palco por pura diversão? – parou e fitou-a

com o semblante firme.

- Pode ser que sim. Não posso garantir coisa alguma dessas. Mas, que vai ser

demais, isso vai e eu quero muito.

- Sozinha você sabe...

- Vou com minha turma de escola, pai. É nosso último ano antes da faculdade e

queria torná-lo memorável.

- Tudo já está sendo memorável, coraçãozinho! No natal estivemos por lá, no

verão na Espanha... isso não foi...

- Paizinho lindo. Viajar contigo é sempre maravilhoso, mas eu estarei com os

amigos e isso é extremamente diferente.

- Minha pequena cresceu e eu tenho que concordar – fez cara de coitado e pousou

sobre a mesa aquele copo enorme.

- Essa coisa nojenta e pegajosa de novo?

- Filha o doutor Charles receitou para curarmos sua anemia. É aquele líquido

nojento sim: suco de beterraba roxa com fígado de boi. Bem nutritivo – sorriu ele. –

Para mim, isso está ótimo apesar da aparência gosmenta – riu encarando a menina que

obediente levava o copo à boca e sem demora começou a engolir.

O olhar do pai ganhou o tom de ternura enquanto a adolescente comprimia os

olhos e sorvia aquela nutritiva bebida.

Sonoramente a menina bateu o copo na mesa de mármore – Pronto! É o que o

senhor queria? – lambeu os lábios como se tivesse o interesse em não perder uma gota

daquilo.

- Boa menina! – sorriu e foi buscar os demais alimentos. – Agora, sim, você pode

desfrutar do meu melhor waffle e das minhas torradas com pasta de amendoim.

- Entendi! Primeiro o purgatório e depois o céu, né?

- Onde viu isso? Seu colégio não é católico.

- Amigos, pai. Amigos.

- Minha princesa – chegou depositando as maravilhas da manhã perto dela e

afagou os cabelos antes de beijar o alto de sua cabeça.

- Acho que devemos trocar de médico.

- Por que diz isso?

- É que faz tempo que a gente passa nesse doutor Charles e ele parece... como o

senhor dizia: disco arranhado; e repete a mesma coisa e a mesma ladainha. Bla, bla, bla.

- Filha, ele cuida da nossa família há anos. É um ótimo médico, mas talvez eu te

leve em outro na próxima consulta – coçou o queixo vendo a menina comer com

ferocidade.

- Mas... – engoliu, - e o show? O senhor não vai se esquivar, não. Tenta me

seduzir com essas gostosuras e vai ficar sem me dizer? – e mordiscou novamente o

waffle.

- Vão somente os adolescentes? – encarou-a com sorriso singelo e seus

penetrantes olhos cinza.

- Ann vai com a gente. Feliz agora? Quero dizer... melhor agora?

- Uma pessoa com mais de trinta já é um bom começo para fiscalizar suas

atividades... acho bem melhor... agora.

- Fisca... o quê meu pai?

- Desculpe-me, filha, mas você sabe que somos apenas nós dois e... eu fico

preocupado.

- Parou! Entendi. Não fique triste e eu sei me cuidar muito bem – fitou o velho e, -

ainda levo na minha bolsinha o spray de pimenta que o senhor me deu ano passado.

- Então verifique se ele está dentro da data de validade.

- Pai! – aumentou a voz, a menina, com um olhar terno para o seu velho. – Eu irei

verificar isso. Não se preocupe.

- A propósito. A Ann Bertozzi ainda continua solteira?

- Pai! – berrou a menina, e respondeu com os olhos alegres – continua sim.

- Qualquer dia eu a convidarei para um chá... será que posso fazer isso?

- Ela é italiana e não sei se gosta de chá como a gente, mas sem problemas. Por

que pergunta? O senhor sabe que eu quero te ver feliz meu paizão.

Pouco tempo depois.

- Deixa “eu” voar porque o ônibus deve estar aqui em instantes. Um beijo meu

velho – ficou na ponta dos pés e beijou o rosto barbeado do seu pai e ele sorriu. –

quando eu sair da escola, irei com a Brigite comprar uns CDs numa loja no centro... eu

pego um táxi para voltar. Ok?

- Leva um casaco para chuva minha princesa. Você conhece muito bem nossa

Londres – o sol que era tímido no céu havia se escondido de vez. – Traz algum rock

clássico pra mim.

- “Podexar”!! Eu trago. Eu te amo, pai – e se metia pelo portão afora lançando a

mochila nos ombros.

O pai ficou olhando a menina se perder por entre pedestres que circulavam no

bairro indo e vindo. E no ponto não tão perto de sua casa o ônibus parava para meia

dúzia de alunos adentrarem. Seus olhos se perdiam no infinito e sua mente nos

pensamentos longínquos. Ela se parecia com sua esposa. Tal mãe, tal filha. Lindas,

como eram lindas. Por minutos intermináveis lembrou-se de Anna no tempo da

faculdade. Faculdade bem diferente das de hoje em dia. Tudo muda com o tempo.

Ainda que para sua garotinha parecesse que não!

III - Algo Familiar

Num bairro próximo uma criança chorava até o momento em que sua mãe lhe

trouxe uma mamadeira com um leite em boa temperatura. Uma mulher de cabelos

ruivos e olhos muito verdes como esmeralda acariciava um bebê chamado Donovan.

Seu único filho nesses dez anos de casada. Pela aparência ela não tinha mais do que

trinta e cinco anos e seu marido de quarenta acabara de sair para o trabalho. Ele era

contador de uma grande indústria farmacêutica e cobria a esposa de perfumes,

hidratantes, cremes, entre outras novidades da fábrica de cosméticos.

A mulher deitou o bebê após ter dado o leite da criança e foi para a sala mexer em

alguns papéis, aqueles que vão se aglomerando até ao ponto de serem eliminados de

nossas gavetas. Seus ouvidos se aguçaram de repente e ela saltou para trás do sofá cor

de vinho.

- Alguém está aí? – voltou-se para a porta que dava para os fundos da casa.

O silêncio engoliu seu ouvido afinado num instante e pareceu ouvir dentro de sua

imensa casa até onde uma classe média podia conseguir; ponteiros trabalhando nos

relógios da sala e dos quartos; o congelador; o aquecedor; e o ressonar do bebê. Nada

demais. Deve ter sido um pássaro que teria pousado no peitoril da varanda dos fundos.

Nada além do normal. Pensava e se dirigia aos seus papéis mofos e desbotados. Havia a

casa para ser arrumada e isso seria coisa rápida, mais rápida que mexer com papéis

vencidos. Seu marido iria chegar somente depois das seis da tarde e teria tempo de sobra

para ir ao mercado e comprar algo diferente para o jantar.

Robert era muito compreensivo e a amava muito. Admirava a dedicação da esposa

desde que tiveram o pequeno Donovan. Robert tivera uma promoção há alguns dias e

foram celebrar com os poucos amigos que tinham: Juliet, uma mulher de negócios duma

empresa própria de papel cartão e decorações em geral; Sandra, uma mãe solteira,

dedicada no ramo de joias e relógios, e seu filho de oito anos se chamava Patrick;

Arnold, solteiro e dono de uma livraria e antiquário; Pierre, motorista de táxi e casado

com Brenda que era uma ótima estilista.

Um ruído diferente do quarto da criança surgiu quase que imperceptível. Talvez

para um ouvido comum o fosse, mas não para aquela mãe tão dedicada. Correu com

todo ímpeto e explosão para o quarto do filho e urrou ao ver o menino nos braços de um

homem, um ser, que reconheceu de imediato.

- Barak? – vociferou a mulher. – Que faz aqui? Largue meu filho agora mesmo!!

- Como vai a vidinha de mortal, minha doce rainha? – falou com um desdém e

falseou uma reverência inclinando sobre o berço. – Durma bem querido... alteza:

príncipe Donovan – um descarado desdém.

- Você sabe que não sou mortal e posso arrancar sua cabeça antes de você piscar

seus olhos, monarca – vociferou encarando o ser depositando o bebê no berço.

- Não é, mas tem vivido como tal. Como disfarçou estar grávida pelos oito

meses...

- Nove!

- Não interessa as coisas de mortal para mim. Você sabe disso! – pausou e se

aproximou da mulher. – Mas como enganou o seu círculo de amizade com a falsa

gravidez, se todo útero de vampira é seco, e não pode engravidar... vocês, fêmeas nem

menstruam – abriu um sorriso sarcástico.

- Nem todas nós somos assim, seu idiota... – foi até a criança.

- Ah! Você quer dizer que ainda há matusaléns no nosso meio. Porque até onde eu

sei apenas o útero de uma matusalém pôde ovular.

- Não sei se ainda há, matusaléns, mas isso não me interessa. Essa é a vida que eu

escolhi... entre os mortais e sendo visualmente um deles.

- Isso que eu chamo de se rebaixar.

- Cale sua maldita boca! – ergueu a voz e o garotinho choramingou.

- Que belezinha! É a cara da mãe – riu largamente e caminhou para a janela. –

Mas, como se disfarçou de grávida?

- Conheço um bruxo e ele me ajudou com uma poção que estufou minha barriga

pelo tempo necessário...

- Boa... daí em secreto foi a algum lugar e adotou o bebê. Maneira bem humana e

age como tal – demonstrou o mesmo desdém.

- Mas isso não te interessa em nada, não é? Então, por que está aqui me

importunando?

- Viva como quiser, majestade. Eu quero apenas uma coisa...

Um toque na campainha soou em desespero.

- Não se mexa... eu vou atender.

- O cheiro dela é bem agradável – ficou anelando o ar voltando o rosto para o lado

da porta.

- Minha amiga... nunca se meta com os meus amigos! Fui clara?

- Vai lá querida e atenda logo. Humanos para mim só servem para uma coisa... –

deu uma pausa e terminou assim que ela foi até a porta, - prazer.

O vampiro sentou-se perto de algumas caixas com brinquedos e bolas. E analisava

um chocalho bem diferente. Ele não conseguiu pegar sentindo uma misteriosa força que

o impelia.

- A rainha pensou em tudo mesmo. E eu tenho que conhecer esse tal bruxo. Deve

ser algum trabalho dele neste chocalho. Com toda a certeza.

Neste ínterim a mulher entra e o adverte num olhar.

- Nem toquei!

- Como se pudesse – deu de ombros e depositou o menino de volta ao berço e

colocou o chocalho na mãozinha dele.

- Mas Tânia... minha visita é em prol da nossa vida perpétua... nosso império

esquecido e nossos castelos eternos...

- Cala a boca. Século novo. Milênio novo. Então, tente viver!!

- Sabe que o que temos não é vida e sim uma semi-vida porque somos semi-

mortos... seu sangue não reproduz o que um sangue de um mortal reproduz, por isso

vampiras não menstruam minha rainha... você sabe melhor do que eu disso. E a única

forma de possuirmos filhos é mordendo alguém e dar a ele um pouco do nosso sangue

maldito. E nem poderíamos andar de dia se não fosse as obras mágicas que alguns

bruxos antigos nos presentearam...

Tânia fitou o colar que Barak escondia atrás de sua jaqueta jeans.

- ... objetos como o do seu filho que nos afastam são obras de bruxos, não são?

- Exato. Conheço um que vive como um humano normal, aqui, também.

- Preciso conhecê-lo.

- Por que, seu amuleto para andar de dia está falhando?

- Digamos que sim. Mas, seu dote feiticeiro pode descobrir uma coisa para mim.

- Posso saber? Eu exijo saber!

- Exigia. Quando você era a nossa rainha você podia exigir qualquer coisa, e antes

de se juntar a eles eu te falaria com prazer.

- Então descubra por si só. Eu não falarei mais nada. Saia de minha casa, por

favor!

- Ficou educada com as etiquetas humanas... isso é pra rir minha cara. Responda-

me somente mais uma perguntinha ou duas?

- Se prometer sair depois delas.

- Juro.

- Manda.

- Como disfarçará perante o envelhecimento de seu marido e de seu filho, e você –

analisou o corpo escultural da mulher, - e você sempre a mesma bonitona de trinta e

poucos anos?

- Tenho uns segredinhos guardados para o tempo necessário. Poções e amuletos.

- Quantos maridos você já teve, querida...?

- Não é da sua conta. Eu amo o Robert e você vai dando o fora daqui.

- Já não está mais aqui quem falou – e saiu dando risada alta e olhava de viés para

o rosto firme da vampira e notou que os olhos dela mudaram do verde esmeralda para

brasas vermelhas incandescentes.

Tânia pegou o bebê e embalou numa cantiga antiga numa língua desconhecida e o

menino sorria sacudindo o chocalho cheio de areia. Os olhos esmeraldas da mulher

foram assumindo um ar meigo e terno enquanto cantava um refrão comprido e cheio de

pausas.

A vampira deitou a criança depois de minutos e foi para a sala remexer os papéis.

Não ficara sabendo corretamente do que se tratava a visita do vampiro. Mas a obsessão

por um bruxo levantou algumas perguntas que passaria a tarde toda a refletir. Queria

apenas uma poção? Descobrira algum artefato antigo que só os bruxos conheceriam a

funcionalidade e o poder? Queria ele dominar alguma arte bruxa? Queria alguma

orientação sobre o saber milenar dos bruxos ou de outros seres antigos?

Rasgou muitos papéis e amassou a outros com uma destreza digna de vampiro e

foi para a cozinha analisar o que tinha para o almoço e o que estava precisava para fazer

o jantar de logo mais à noite. Olhou dentro da geladeira e pegou um imenso bife. Pegou

uma taça e encheu de um líquido vermelhíssimo. Sem usar tempero algum, fatiava o

bife e comia com muita apreciação. Bebeu aquela bebida espessa e fitou por um instante

a garrafa. Depois de almoçar, escondeu a garrafa debaixo de uma pedra solta no chão da

cozinha debaixo da pia. E ocultou com outras vasilhas aquela pedra.

Lembrou-se do tempo das crueldades que praticara contra aldeões e a devastação

contra vilarejos. Sacudiu a cabeça, pois não queria pensar mais aquelas coisas horríveis

que praticava outrora num passado remoto. E naquele tempo ela era conhecida como a

Treva em pessoa e a chamavam de Rainha Sa‟Tânia.

IV – Loja de Discos

O sinal que anuncia o fim da aula soou e o pandemônio se armou enquanto os

alunos se agitavam para sair de suas sofríveis aulas. Mais horríveis ainda para quem

odeia algum tipo de matéria em que tem de prestar atenção por mais de quatro horas um

professor falando e mostrando. A correria se iniciava na boca do corredor e saiam

disparados para seus ônibus. Os primeiros escolheriam o melhor lugar para se sentarem.

Coordenadores e inspetores tentavam organizar a multidão de crianças que escapavam

por todos os lados do pátio. Era mais de meio dia e o sol ainda cultivava aquela timidez

típica de inverno. Se esfriasse mais um pouco iria nevar e isso era certo. Se aumentasse

a brisa úmida poderia chover. Alguns alunos estavam preparados para o que viesse.

Capas e guarda-chuvas passavam esfregando-se nos narizes dos adultos que esperavam

os alunos do lado de fora da escola.

Foi uma loucura conseguirem escapar da torrente de alunos que desciam para o

portão por quatro escadarias situadas de frente para o portão que despejaria a multidão

nas ruas geladas de Londres. Mas conseguiram. Amber e Brigite abriram um sorriso

quando se dirigiram para o lado esquerdo até que atravessaram para a outra calçada. As

duas não paravam por um instante de falarem coisas peculiares à escola, amigos,

professores e garotos... Brigite insistia em dizer que Freddy era mais bonito que Dyllan.

E nisso foram caminho afora até quando entraram na rua da loja das músicas. As luzes

do painel piscavam descompassadas e um velho de barbas compridas e cinza segurou a

porta para as meninas entrarem. Elas agradeceram e o senhor sorriu amistosamente.

- Amiga! Eu não me lembrava que a loja era enorme – disse Amber ao se deparar

com um mega-poster de uma banda muito popular. Seu pai queria disco desses senhores

do rock. Imaginou que o pedido do pai seria a coisa mais fácil de conseguir de toda sua

vida... isto é, se você está no lugar certo. Sorriu disfarçadamente.

- Eles devem ter ampliado isso tudo. Não estou identificando a prateleira de Heavy

Metal, Death, Thrash, Gothic...

- Eles jogam nosso som pelos cantos como as locadoras de filmes fazem com os

pornôs – concluiu a fala da amiga.

- Você ainda ouve os sons góticos?

- Não muito. Estou procurando alguma coisa que sove os instrumentos sem

piedade – falou Amber.

- Essa é minha garota! – olhou para um canto e, - acho que é por ali, Amb.

Algo fez os pensamentos de Amber sobrevoar a loja e pousar o olhar num homem

no fim do corredor. O homem de barba mal feita analisava o encarte do CD de uma

banda pop e elevou a sobrancelha ao ser notado pela menina e deu de disfarçar

pigarreando e se virando para o lado das trilhas sonoras de filmes românticos. O homem

trajava um sobretudo esfarrapado de velho e tinha uma boina de cor crua.

Amber voltou para a amiga que falava algo que ela não conseguiu pegar a ideia.

- ... eles deram de parar, mas o pouco de grana que entrou fez a diferença e só

assim resolveram voltar com a banda e prosseguir. Quando a gente vê que tá perdendo

algo, aí, encaramos a realidade.

- Hm! Desculpe-me a distração.

- Besteira. É sobre uma banda idiota. Nem dado eu levo essa bosta pra casa.

- Realidade... você disse?

- Parece que sim – e vasculhava outra fileira de discos.

- Pareceu – ficou muda por segundos.

- Ah! Amiga eu tenho que te contar...

Quebrou o silêncio e fitou os olhos cinza de Amber.

- Conta então e não enrola.

- Lembra da nossa conversa sobre a primeira vez?

- Acho que sim... – acanhou-se encolhendo os ombros como se não lembrasse

realmente.

- Pois é. Eu pensei que seria na faculdade e não esperei por tal...

- Daí?

- Billy.

- O cara mais pilantra da escola. Você sabe que ele deu fora em muitas meninas

gatas e patricinhas da escola?

- Claro que ele é um idiota. Mas aquela festa que você não quis me acompanhar eu

bebi umas batidas com vodka e fiquei muito louca. Ele me acompanhou até minha casa,

mas meus pais nunca estão quando eu preciso deles e o chamei para entre e a merda foi

feita.

- Que vaca?!

- Eu sei, mas tem o pior.

- O que poderia ser? – segurava um Thrash Metal.

- Achei que tinha ficado grávida porque minha menstruação atrasou.

- Puta merda Brigite, - derrubou o CD e o barulho ecoou menos alto que seu

espanto, - gravidez?

- Suspeitei... mas graças aos céus foi um alarme falso. Imagina ficar grávida de um

idiota como aquele.

- Nem sonhe! – a palavra menstruação tentou se firmar em sua mente e não quis

perguntar o que era para não parecer uma idiota. Pois, se sua amiga mencionou é porque

é um assunto normal de meninas. E, talvez fosse uma boa pergunta a fazer para o seu

médico, o doutor Charles.

- Ainda bem que vou continuar usando meus absorventes – sorriu Brigite

recolhendo os cacos do plástico do CD, - o interno. – Levantou-se e sorriu entregando

os pedaços para a amiga que derrubara. – Se você não trouxe grana para pagar pode

deixar comigo.

- Não. Eu trouxe sim. E, já ia levá-lo mesmo – tentou sorrir, mas torceu o nariz

para identificar o odor que se aproximava delas.

- Ainda bem que quebrou apenas a capa – Brigite ressaltou e voltou a escolher os

seus na fileira dos Thrash.

O cheiro foi ficando próximo e não parecia vir de nenhum canto, mas do lado

delas. Alguém deixara um cão entrar na loja? Amber vasculhou os pés da prateleira.

Nada e ergueu os olhos e deu um pulo para trás.

- Senhorita Knight?

- S-s-s-sim. Ela mesma. Eu te conheço? Ou, como me conhece?

Brigite retesou o corpo e ajeitou as alças da mochila. Parecia se preparar para

pegar alguma coisa pontiaguda de uma bolsinha externa.

- Na verdade eu conheço seu pai, o velho bruxo Caleb – ameaçou um riso sob a

barba mal feita.

- Do que você chamou meu pai?

- Desculpe-me senhorita... tempos de colégio e faculdade... você sabe... os hábitos

– fitou a menina e se afastou das duas que nutriam uma cara de assustadas e pouco

amistosas.

- Velhos hábitos... creio que sim – Amber fixou os olhos no homem e não afastou

um centímetro sequer.

- Diga a meu velho amigo que eu preciso vê-lo o mais rápido possível, porque... –

ia dar a falar, mas resolveu se calar. Talvez falaria coisas que iam alem da compreensão

das garotas. Sorte que meu faro é aguçado e alguma coisa na mochila da menina

identifica as velhas poções de Caleb.

- Onde e quem eu digo que o procura? ... – encarou com simpatia os olhos tristes

do homem e teve pena de vê-lo usar aquelas roupas esfarrapadas. Suas luvas de lã

estavam muito desfiadas e exibiam alguns dedos com unhas grandes e sujas.

- Diga que o velho Lobo quer se encontrar com ele...

- Lobo? – Brigite interveio.

- Faculdade... meninas... velhos apelidos – ensaiou uma risada que terminou num

pigarreado horrível.

- Mas onde?

- Na Livraria e Antiquário da rua detrás – apontou com o indicador o lado, - lá tem

um bom café. Cinco horas da tarde. Ótimo café, mesmo! Com certeza não é coado em

meias – abriu um sorriso e foi saindo.

As meninas viram o homem desaparecer pela porta e o cheiro sumiu com ele.

- Confia nele?

- Não, mas ele conhece meu pai.

- Vamos logo porque eu estou com uma puta fome – Brigite agarrou dois CDs.

- Vai pagando os seus que eu pegarei o “clássico” para o meu pai.

O lugar foi enchendo de gente quando as garotas chegaram a pagar e davam de

sair pela porta e deram de cara outra vez com o frio absurdo que fazia. A brisa era

proporcional a mais uma noite de neve e bem fria por sinal. As ruas tinham poucos

veículos e além das duas em algumas ruas não passava ninguém. Viram uma lanchonete

e entraram urrando de fome. Sem demora foi trazido o pedido das duas. Lanches com

dois hambúrgueres, muito queijo derretido e batatas fritas. Um copo de meio litro de

refrigerante de cola para acompanhar.

Pagaram cada uma com seu cartão. Saíram. Estenderam a mão e um táxi que

passava devagar parou de imediato. A casa de Brigite seria a primeira parada, e depois

que ela desceu, Amber pensava em duas palavras: menstruação e lobo.

V - O Som Doce das Notas

A noite entrava com um assovio terrivelmente agudo por entre as árvores e nas

frestas de algumas casas e portões de tábua. O céu fechado dava indício de neve. Poucos

carros circulavam mesmo na parte mais movimentada da cidade onde ficava um teatro

de arquitetura medieval, embora tenha sofrido reformas alguns detalhes ainda eram

conservados de maneira íntegra.

As portas imensas do Castelo, como era chamado, estavam trancadas com uma

enorme tranca e cadeado. Cartazes se desfaziam na parede. O último evento ali teria

sido um concerto clássico com cordas há mais de dez meses.

Nesse momento um som fluía de dentro da nave de pedras. Um som doce

melodiado em piano de cauda. Era magnífico... o piano mecânico com suas cordas

afinadíssimas fazia qualquer um chorar numa melodia triste e ora ou outra mudava para

acordes tensos que atacavam os ouvidos. Pouca gente transitava do lado de fora da

imensa parede gelada e o ar úmido em extremo trouxe os primeiros flocos de neve da

noite que adentrava depois de um dia claro e acinzentado.

O Castelo fora palco de inúmeros shows de rock na década de oitenta e os

nostálgicos vinham beber conhaque e tocara violões em frente à porta em dias que

faziam menos frio. Na torre do Castelo uma janela entreaberta deixava adentrar os alvos

flocos e soar o vento gelado e comprido até cair escadarias abaixo.

Freneticamente o som do piano foi mudando de músicas reflexivas para mais

complexas e exageradas em notas agudas. Algo que irritaria o ouvido mais apurado ou

sensível como de um cão.

- Dá pra você parar com esse som! – gritou sob a penumbra de colunas que se

alinhavam no interior da nave.

- Quem está aí? – disse a mulher que tocava o piano e se pusera de pé

fantasticamente lançando a banqueta a três jardas dali. Seu semblante austero, porém

pálido, ganhou um ar tenebroso e seus olhos se abrasaram focando o lado mais escuro

do interior do grande teatro.

O eco repetiu os aplausos que de forma fantasma se espalhava por todos os cantos

do lugar e os dentes caninos da mulher se ouriçaram.

- Não brinque comigo... seu „sei-lá-quem‟.

- Calminha aí minha flor. Você me conhece de muito tempo – tentou deixar a voz

com mais imponência – e como pode ter se esquecido da minha voz.

Relances de memórias ganharam a mente da pianista e ela sentou sobre as teclas

fazendo-as ecoarem como um acorde espectral dentro de uma tumba.

- Não pertenço mais ao mundo ensanguentado! – gritou e curvou a cabeça

deixando as presas recuar sob os magníficos lábios contornados por brilho rubi que

cintilava.

- O que tem acontecido com os de nossa raça, irmã?

- Não pode ser você? Rômulo? Rômulo Crow?

- O Primeiro Sangue voltou minha querida irmã. Para retomar a rédeas da

Sociedade Noturna que tem se desfeita com o passar do tempo...

- Hoje os tempos são outros... não há motivos para sairmos por aí fazendo as

mesmas barbáries que costumavam há mais de cem anos.

- Engana-se! – a voz surgia de vários lados obscuros da câmara teatral.

- Nunca teve um porquê exato para as atrocidades que nossa raça cometia. Éramos

simplesmente movido pela fome e irracionais para administrar nossa fúria emboscando

mortais e sugando-lhes o líquido vital. Por que não nos contentávamos com o sangue de

gazelas e veados, são ótimos... e...

- Não sei quem mudou a porcaria de mente de vocês, mas não estou gostando nada

do que estou presenciando – veio caminhando lentamente desde o fundo do teatro. Era

um homem alto; semblante saudável e jovial; presas protuberantes; olhos abrasados;

cabelo longo e esvoaçante ao vento espectral que o rodeava.

- Estamos muito bem e muitos vampiros que têm recaídas se contentam em roubar

os bancos de sangue de hospitais. Não há necessidade em matar pessoas.

- Não se trata de matar... querida – aproximou-se velozmente do pescoço da

mulher, - Trata-se de vingarmos o nosso primeiro Pai.

- Sophia não está mais entre nós para nos orientar nesta investida, Rômulo.

- Quem precisa dela. Você e eu somos do Primeiro Sangue e temos tanto poder

como ela...

- Mas a sabedoria dela...

- Cale-se Desdemona!

- Sei que você sofreu demais e que nada que eu diga vai surtir efeito para uma

reflexão... mas temo uma nova Era das Trevas...

- Seu irmão Simon morreu e isso não deve te fazer parar ou desistir do futuro

brilhante que temos neste novo milênio, minha querida... – beijou e raspou suas presas

sobre o pescoço de Desdemona fazendo escoriações minarem sangue.

- Sophia se foi... eu já te disse – ela foi se entregando aos braços do vampiro como

uma marionete que desaba quando se corta os fios condutores de seus movimentos.

- Ela era uma Matusalém e sei que era o único útero fértil...

- Mas vocês... - (vampiros) olhou por um instante nos olhos profundos e mórbidos

de Rômulo, - vocês machos são estéreis, sendo Matusalém ou do Primeiro Sangue.

Ele rosnou e mordicou o queixo da mulher.

- Sim. Claro que não possuímos sementes. Mas aquela vadia deve ter tido um

coito com algum bruxo, homem ou quem sabe um desprezível lobisomem.

- Vampiro e lobisomem seria uma coisa horrível de aturar... nem quero pensar

nesta besteira que acabou de me dizer.

- A filha de Sophia deve morrer – alterou a voz o vampiro depois de recolher a

imensa língua bifurcada que passeava pelo pescoço de Desdemona.

- Que perigo uma garotinha pode nos oferecer?

- Fora entregar ao mundo nossos pontos de fraquezas?

- Muitos deles as pessoas já conhecem: luz do dia; objetos pontiagudos de madeira

no coração; detestamos alho; e bla, bla, bla.

- E, muitos ainda pensam que corremos de crucifixos – sorriu Rômulo puxando do

pescoço da vampira um cordão que trazia uma cruz de cobre com cinco pedras de

diamante: uma no centro e uma em cada extremidade da cruz.

- É verdade que dessa lenda muitos de nossa raça foram tão supersticiosos ao

ponto de sentirem-se mal ao se deparar com uma – ria belamente com os lábios

cintilando à pouca luz do ambiente. Avançou aos lábios do vampiro e lhe beijou com

fúria.

Os dois se entrelaçaram como serpentes pelo palco aos pés do piano. As peças de

roupa de Desdemona pareciam flutuar ao redor deles devido ao vento espectral que

circulava por ali. Escoriações faziam gotículas de sangue saírem de seu corpo escultural.

Devido ao poder de regeneração logo os arranhões e riscos se fechavam e as listas que

se desenhavam em vermelho era do sangue que escorria ora ou outra. Os corpos sentiam

uma sede aterrorizadora e parecia que a fome não cessaria nem se um devorasse o outro.

Rômulo urrava e Desdemona respondia com guinchos agudos.

Começava a noite e as trevas tomavam conta de tudo acompanhada pela nevasca

incessante que espreitava todos os lares. Assombros noturnos eram seguidos de uivos de

vento, ladrar de cães, pio de corujas e motor de automóveis.

- Você precisa conhecer a nossa Plêiade – jogou os cabelos castanhos claros e

sedosos para trás e encarou o vampiro.

- Duvido que ela seja tão boa quanto ao grupo de fuzileiros que quero formar – em

tom de desdém tomou o braço da vampira e mordeu com muito prazer. – Desculpe-me?

Sei que está fraca porque abandonara o néctar da vida humana por plasmas de animais

quadrúpedes – acariciou a mão da mulher e beijou cada um de seus dedos. – Anorexia

vampírica?! Essa é boa. De fato esse é um novo milênio. Depressão. Estresse. Que mais

eu perdi?

- Quem sabe o cavalheirismo de outrora!? – a vampira se levantou e num piscar de

olhos vestiu suas roupas de baixo e se enfiou no vestido azul-bebê que havia lançado de

lado. Esbravejando foi até a parede e pegou a banqueta, trazendo-a para perto do piano.

Seus pés pareciam nem tocar o assoalho de madeira encerada. Parecia um fantasma

deslizando sobre o piso.

- Perdoe-me querida. É que fiquei muito tempo fora e perdi muitas coisas. Você

bem que podia ter me procurado e me trazido de volta a respiração – encarou a mulher

que se sentara na banqueta e dobrara a cabeça fazendo seus cabelos cobrirem seus olhos

faiscantes.

- Digamos que você não merecia minha clemência, meu carisma, que os mortais

chamam de amor.

- Agora pouco você se entregou de maneira bem diferente das atitudes de suas

palavras.

- Nostalgia, talvez nostalgia. Temos muita coisa guardada em nossa cabeça e

lembrança é uma de nossas maldições. Lembranças boas, ruins e outras desprezíveis.

- Claro que temos coisas demais na cabeça: são séculos, milênios de ódio, caçadas,

fome, perseguição, terror, amor, paixão, histórias que não tiveram um fim e nem terão.

- Foi bom te ver, mas como eu disse, minha vida está diferente e não me

alimentarei de sangue de pessoas novamente. Não importa se viverei tão fraca como

uma velha carcomida. Muitos normais não chegam aos cem anos e devo me entregar ao

capricho da idade igualando-me aos mortais – apesar da minha aparência estar pouco

próximo dos quarenta anos, tenho mais de dois milênios.

- Essa é nova para mim e uma grande anedota para eu contar para as criancinhas:

uma vampira velha cheia de rugas. Bruxas tem rugas e até verrugas, mas uma vampira

com rugas seria coisa nova para mim. Daqui a pouco estaremos comprando bolsas de

sangue pela internet ou até encomendando uma boneca de silicone que venha com

sangue humano dentro para nossos vampiros mais tímidos praticarem a mordedura.

Essa foi boa, você deve admitir que eu deva correr para patentear essa grande ideia que

tive, – abriu um sorriso sarcástico e mirou os olhos obtusos da vampira.

- Você é um grande imbecil!

- Essa era está demais. Muita informação querida. E, por isso eu vou encontrar o

fruto do ventre de nossa primeira Matusalém. A vampira que envelhece... isso mesmo!

Como eu sou genial. Se nasceu uma criança do ventre de Sophia,... não existe vampiros

crianças, ou melhor, pode até haver, mas serão crianças eternamente... agora, uma

criança vampira que vai se tornando adolescente e adulta posteriormente vai ser a

primeira vez que acontece – ficou conversando com os botões do paletó e abotoava

lentamente dando as costas para a mulher que começava a dedilhar um folclore francês.

- O que sua maldita mente está raciocinando? – sem parar com a música.

- Dedique-se a sua musica querida. Preciso de um cyber-café aberto agora e a

internet me levará a essa criança notável que: deve ter se destacado em várias escolas;

repetindo séries por séculos mesmo sendo a melhor da turma; a mais dedicada, atlética e

forte nas competições e esportes escolares; e...

- Idiota – parou a música e se pôs na frente do vampiro de maneira assustadora, - a

pessoa que procura deve ter mudado de endereço e nome por muitas gerações...

- Sei que você esta querendo mais um pouco disso... – cravou os dentes no

pescoço dela e ela desabou em seus braços, - Séculos sem isso... e sem a Verdadeira

Bebida te fizeram uma fraca minha querida. Um dos modos de nos matar – devo ou não

devo, - é eliminar até a última gota de sangue de um ser como nós. Talvez é o que você

procura minha adorável Desdemona. Eu te farei esse favor. Sugarei você até o final –

abocanhou novamente o pescoço da vampira.

O salão enorme ficou apertado de repente e o vampiro largou a mulher no chão.

Seu coração acelerava e descompassava. Seus olhos viam sombras se mexendo e

algumas lâmpadas se apagando. O piano começou a voar de maneira fantástica e as

cortinas ganhavam o formato de pessoas e repetiam nomes de vítimas antigas. Um

castiçal se acendeu na frente do vampiro e ele atordoado cambaleava de um lado para o

outro. As cortinas se aproximaram dele e o vampiro socava cada uma delas com

ferocidade. Segundos que nunca terminavam e minutos que preenchiam o âmbito gelado

do teatro. Uma bruma branca e fantasmagórica surgiu por toda extensão da nave de

pedra. Uivos de lobos encheram os ouvidos do vampiro que se ajoelhava ao lado do

corpo desmaiado de Desdemona.

De repente da coxia saiu uma figura alta, levemente arcada: um homem de

semblante frio; queixo fino e nariz pontudo; olhos ausentes de alegria; lábios finos;

orelhas pequenas; cabelos ensebados e juntados para trás, não muito longos, amarrados

com uma fita roxa; olhos amarelos como fogueiras; muitíssimo magro.

O sujeito chegou perto e recolheu a mulher lançando-a em seu ombro esquerdo e

pulou para as escadas que levavam à torre mais alta, e desapareceram.

A bruma aos poucos foi se dissipando e o vampiro atormentado voltava ao juízo

normal livrando-se das visões de fantasmas e sons de lobos. Ajeitou o paletó e começou

a gargalhar como uma hiena. Risada irritante e levava a mão ao rosto.

- Babel! Babel, seu desgraçado! – totalmente dissipado as brumas ele se pôs de pé

e caminhou lentamente para a escadaria.

De cima da torre ele analisou as possibilidades de encontrar a criança gerada pela

Matusalém e riu da sua própria capa que momentos atrás havia se transformado num

imenso morcego. Os flocos brancos pousavam em sua face cinzenta e ele se satisfazia

com a brisa gelada que lhe acariciava o rosto e pensava – isso é melhor que as mãos de

Desdemona me acariciando a face.

VI - Médico da Família

O dia amanhecia depois de uma noite absurdamente gelada. Um nevoeiro sinistro

teimava em não se dispersar de imediato.

Amber pulou da cama e arrumava a banheira enchendo-a com água e lançando

sais de banho perfumado. Seu corpo frio sentiu um arrepio ao tocar a superfície quente

da água e o vapor inundou o lugar embaçando vidros e espelhos. Amarrara uma toalha

roxa no cabelo e deitava sobre a banheira e pensava nas coisas da vida e no que tinha

conversado com a amiga no dia anterior. O vapor passeava desenhando figuras no ar e

ela os soprava como um ato encantado. Seus dezessete anos estava para dar lugar a sua

maioridade e não via a hora de seu dia chegar. Ouviu passos mancos pela escada.

- Filha! O café está na mesa – deu apenas uma batida na porta e se virou para

descer.

- Eu saio em dois minutos – foi se levantando lentamente, relutando a deixar o

líquido quente longe de sua derme. A fragrância era espetacular. Seu próprio pai era

quem comprava os elementos e misturava no sabão. Pensava ela, que ele daria um ótimo

químico ou farmacêutico.

Seus pequenos pés encontraram o chão frio e ela deu um gritinho e depois um

salto. Seu salto foi coisa de atleta. Ela foi parar perto da cama onde um par de pantufas

de lebre a esperava para ser calçada. Seus olhos fugiram das órbitas e ela tombou no

travesseiro de pena de ganso e deu de cochilar subitamente. Palavras eram sussurradas

em seu ouvido neste devaneio.

“Cuidado com eles querida. Eles querem aquilo que sua mãe lhe proporcionou.”

Minutos depois, vestida e arrumada para sair estava a menina tomando seu café da

manhã e bebendo aquela vitamina de gosto horrível que seu pai lhe preparava toda

manhã.

- Filha... você não se lembra de mais nenhuma palavra? – olhos cuidadosos de seu

pai a fitavam.

- Foram apenas estas que eu te contei, papai.

Um silêncio cresceu entre os dois e ele coçava a pequena barbicha grisalha

pensando nas palavras que sua filha ouvira de alguém. Voz masculina, afirmara ela.

Assentou-se numa banqueta distante da mesa e alisava sua bengala de marfim

matutando coisas estranhas e que não deveriam ser pronunciadas na presença da

menina.

- O que é que tá te preocupando meu pai? – ela se levantou e tomou o agasalho

que estava enroscado num prego no batente da porta e vestiu.

- Coisas malucas filha. Não é nada que você se preocupe. Apenas coisas de velho.

- O senhor está doente?

- Não. Não é isso não – antes fosse, guardou na cabeça.

- Quer ouvir uma coisa maluca...

- Hã!?

- Um cara de roupas surradas disse te conhecer e queria encontrar o senhor na

Livraria e Antiquários do centro pelas cinco da tarde.

- Disse quem era?

- Ele te chamou de bruxo... e disse que era o velho lobo quem o procura...

O semblante de Caleb tornou-se estranho como nunca Amber tinha visto.

- É algum conhecido do senhor e da mamãe lá da América?

- Sim. Cammo. Era um... velho conhecido nosso da Nova Inglaterra, filho de pai

inglês e mãe romena, e, deve ter voltado para cá assim como sua mãe e eu o fizemos –

falava com o tom de quem fala de algo muitíssimo distante.

- Outra coisa...

- Sobre o velho lobo?

- Não. Sobre mim.

- Diga linda.

- Por que eu não mênstruo como as outras garotas da mesma idade ou até mais

novas que eu?

Os olhos de Caleb se ejetaram no nada ao final daquela pergunta. Ele coçou

freneticamente o queixo e pulou da banqueta como se tivesse rejuvenescido uns trinta

anos.

- Justamente por isso que eu marco o doutor Charles para você... e hoje a gente

pode passar por lá antes de qualquer coisa.

- Tudo bem. Vou pegar meu celular e te vejo no carro em menos de um minuto.

Caleb andou de um lado para o outro observando os ponteiros de seu relógio de

pulso como se estivesse dentro de uma redoma onde não houvesse escapatória.

A menina desceu graciosamente as escadas e notou que seu pai havia deixado a

bengala perto da banqueta. Ela a tomou e saiu para a garagem com ela. O carro roncava

na garagem e a menina se apressou. No meio do trajeto foi mandando mensagens de

texto para sua amiga. Seu dedo ligeiro acabou uma frase de cinquenta caracteres

usando-se de várias abreviações e símbolos para uma comunicação rápida.

Entrou no carro e jogou a bengala no banco traseiro e seu pai sorriu. O carro

disparou pela avenida até ganhar um pavimento melhor e uma rua mais fluente. Bueiros

expeliam vapores e traços de pneus desenhavam o caminho nas ruas menos trafegadas.

Pararam em frente a um prédio velho com placas comerciais. Havia de tudo um

pouco naquele prédio: boliche; bares; lojas de conveniências; consultórios

odontológicos; clínicas médicas; e salão de beleza.

Na parte onde havia clínicas, uma das salas dizia pertencer ao Doutor Charles

Babel. Caleb tocou a campainha e a porta nada.

- Ele nunca demorou pra atender, papai.

- Um dia teríamos que esperar um pouco mais – riu-se da situação, - e esse dia

chegou.

A porta destravou-se depois de alguns minutos.

- Olha se não é minha adorável princesa Amber – o doutor magricela veio

ajeitando os óculos no nariz fino e abrindo um sorriso na cara chupada que tinha. Ele

era alto e um pouco curvado. Deu a mão para a menina e ela se sentou na cadeira dele,

era muito confortável. O médico perguntou encarando o pai: - Como andam as coisas

com nossa pequena?

- Sabe como é adolescentes... ela está preocupada com o ciclo dela... – fingiu um

acanhamento para falar, - menstruação.

- Querida... – olhou para a menina, - posso levar um particular com o seu pai antes

de te atender... você sabe? Burocracia? Novo valor de consultas? Somos amigos a tanto

tempo e acho chato falar disso, mas é necessário diante de tantos impostos e coisas do

tipo.

- Fiquem a vontade enquanto eu ouço um som no meu aparelho – a menina

embutiu um fone de ouvido e espichou os pés para cima da mesa do doutor. – Esse papo

de grana é só com ele mesmo – e sorriu.

Entraram numa saleta e fecharam a porta. A saleta tinha uma luz fraca e vários

livros pendiam para fora das prateleiras ao ponto de caírem a qualquer sopro. Ainda se

via ali: uma mesinha com duas gavetas; um telefone antigo; um abajur vermelho-

sangue; garrafas de vodka; e objetos cirúrgicos dentro de uma câmara de esterilização.

- Você sabe que está sendo mais do que difícil. Deveras arriscado o que temos

feito à mente de sua filha. Ela está ficando forte cada vez mais e ficar apagando coisas a

cada instante que ela lembra ou questiona uma situação pode surtir efeitos colaterais

irreparáveis. Efeitos que seus remédios e minhas ações psicológicas não darão conta de

reparar.

- Você quer dizer que devo trabalhar com a verdade sobre ela ser diferente das

amigas de colégio e de tudo o mais.

- Sinto dizer que sim meu velho amigo. Sua filha deve saber que é uma híbrida.

Parte vampira e parte bruxa.

- Venho aqui buscar ajuda e você quer acabar com nossa vida normal – elevou o

tom da voz e do outro lado da parede a menina ouvia um Death Metal muito alto no seu

mídia player do celular.

- Que vida normal, Caleb? – Pausou e, - ficar mudando de cidade em cidade, país

e estados a cada cinco ou dez anos não é a solução e nunca foi uma vida normal. Você

apenas imita a vida dos meros mortais...

- Mas somos mortais – berrou e lágrimas partiram dos cantos dos olhos.

- Você é um bruxo... eu vampiro, claro que minha raça vive quase que eterno, digo

a você que nunca vi um vampiro morrer de velho – produziu um sorriso para o amigo.

- Vocês vampiros, sim, são eternos, mas eu queria curtir minha filha como um

homem mortal faz... vendo ela crescer, se alimentar, ir para escola, namorar, menos

casar-se – limpou uma pequena torrente de lágrima que descia. Eu não sou imortal

como vocês... nem minha raça e nem meus amigos lobisomens.

- Viu!? Essa é a razão pela qual você deveria abrir-se com sua filha. Em vez de

apagarmos sempre sua memória, poderíamos ajudá-la a conviver entre os mortais

mesmo ela sendo uma imortal.

- Tem toda a razão meu caro amigo. Quanto mais tempo terei de vida, eu não sei...

mas devo prepará-la para o mundo que é muito mais cruel que nós todos juntos – tentou

sorrir. Lembrou-se dos velhos companheiros de magia que se foram e de velhos cães da

noite que pararam de respirar um dia.

- Não se prejudique com pensamentos infelizes meu amigo – Babel sabia o que

ocorria na mente de seu amigo bruxo: era o medo de partir e deixar a menina assustada

no meio de um mundo que nunca a compreenderia e sempre a caçaria como um diabo

cruel que arrasa as plantações na Tasmânia.

- Tenho apenas um pouco mais de quinhentos anos – sorriu, - como sub-capitão do

MayFlower deixei muita gente perecer de doenças sem saber o que fazer com minhas

habilidades mágicas e agora que sou velho na magia estou temendo o que fazer para

minha garotinha encarar sua real situação neste mundo...

- Não desista meu velho... você sabe que muitos antes de perecer por lá se

entregaram aos vampiros para não morrerem de pestes perante o oceano... trabalhe com

sua filha para que ela não escolha morrer pela peste a viver como uma descendente

imortal de uma Matusalém. Corta-me o coração ter de buscá-la outra vez no cemitério

com os pulsos cortados a cada depressão que ela sentia. Meu coração gelado não

aguenta aquela situação outra vez e sei que o seu também não.

- Quantas vezes ela quis se matar... por quê?

- Ela tem vivido uma mentira de vida. É por isso que ela tem querido se sentir

viva, se cortando, sentindo dor, e por fim, se matando em quase todos os invernos

quando a frieza do corpo encontra a frieza da vida nos pensamentos insatisfeitos e sem

motivos para existir.

Caleb sentou-se num sofá cheirando a formol.

- Tome este frasco.

- Posso saber o que é?

- Acho melhor não. Apenas dê a menina antes que vá dormir... depois do jantar

melhor dizendo. É um restaurador de mente.

- Você não poderia...

- Subtrair os embaralhos mentais que tenho provocado nela todos esses longos

anos?! Poderia, mas isso seria colocar uma bagagem contrária a outra que eu já havia

colocado. Seria uma espécie de acúmulo ou, para dizer melhor, sobrecarga. Este

antídoto irá aos poucos eliminando a camada de camuflagem mental com que temos

feito na cabeça de sua filha ao longo desses duzentos anos.

- Parece que foi ontem que Ann e eu fugimos das garras de Simon para termos

nosso bebê.

- O tempo voa até para nós – sorriu o vampiro entregando o frasquinho com um

líquido azul.

- Atenda minha filha e logo vamos embora, doutor – iam saindo da salinha e a

menina balançava a cabeça ao estilo Heavy Metal e mascava um chiclete insanamente,

como se quisesse destroçá-lo, morder parecia um prazer e lançava à boca a quarta goma

de mascar em forma de bola. – Depois eu deposito o dinheiro da consulta – disfarçou.

- Como posso ver sua garganta com toda essa borracha doce em sua boca, minha

princesa?

- Eu tiro – pegou a gosmenta crosta e o doutor a examinou, - viu! Agora eu posso

voltar...

- Que nojento isso aí, filha! – disse o bruxo.

- Não tem nenhum menino por perto... por isso não tô nem aí!!

Os dois velhos amigos se entreolharam e sorriram com a humanidade e

ingenuidade da menina.

Charles, mesmo de pé, encurvou-se sobre a mesa e lavrou uma receita médica e

um atestado para escola indicando o porquê do atraso.

- Mas doutor? Só isso? E minha menstruação quando virá? – ela encarou o doutor

que coçou a orelha esquerda.

- Bem... Huhum! Hum! – limpou a garganta. – Com a sua idade já era para isso

acontecer, por isso estou prescrevendo um remedinho e um suprimento hormonal e não

deixe de tomar as vitaminas que seu pai prepara com carinho.

- Aquilo sim é mais nojento que minha bola de chiclete salivada – sorriu com

graciosos olhos e saiu antes do pai e se deteve no corredor encarando uma linda mulher

com uma criança nos braços. – Que filho lindo o seu!

- Obrigada! – a mulher de olhos esmeraldados a encarou e fitou profundamente os

olhos da menina de voz magnífica. – Que voz angelical a sua, menina! Tem tudo para

ser cantora.

- Obrigada. Eu amo cantar... rock é meu som favorito.

- Já sou sua fã – deu um sorriso magnífico e seguiu para a porta do doutor Charles

Caleb segurou o braço da menina e meneou a cabeça num cumprimento tímido à

mulher que segurava a criança. E saíram rapidamente. Ele cumprimentava quase todos

que via pelo corredor.

- O senhor conhece muita gente... e está mais rápido do que nunca... e sem sua

bengala.

- Esqueci a porcaria da bengala lá no consultório. Não se preocupe... depois de te

deixar na escola eu passo aqui pego a porcaria da bengala.

A menina sorriu da cara que o pai fazia e ele deu a puxar a perna como antes.

Entraram no carro e se enfiaram na pista expressa, uma pressa que podia ser de grande

valia para não se atrasarem mais do que já estavam. Caleb abriu o porta-luvas e puxou

uma lancheira e abocanhou um sanduíche de presunto e bacon, sua filha pegou algumas

batatas crocantes de uma lata e comia com muita fúria depois de cuspir o chiclete num

saco de lixo dentro do carro. O prédio Saint Peter‟s Building foi ficando para trás

velozmente. A escola não ficava muito longe e por isso o maior tempo que levaram foi

para destroçar seus almoços.

VII - Velho Amigo

O dia avançou em sua normalidade na escola. Mas Caleb em sua casa matutava

sobre o poder que estava em suas mãos, o de tornar sua filha uma excelente e poderosa

vampira sem fazê-la com que revoltasse com ele pelos tantos anos sendo enganada.

Ligou para um velho amigo bruxo e pediu uns conselhos e o velho do outro lado com a

voz fraca e terna disse palavras confortáveis entre algumas confrontantes sobre a

educação da menina. A conversa durou uma hora e acabou com uma intimada a Caleb

em participar do próximo encontro da Plêiade do Sangue. Onde sangue puro e híbrido

se reuniam mensalmente para comungarem expondo suas lutas, fraquezas e vitórias

sobre o mundo deveras cruel. Caleb disse que estaria na próxima oportunidade, que não

seria nesse próximo encontro.

A tarde chegou tão rápida que Caleb mal pôde adiantar o jantar para logo mais

quando sua filha chegasse do colégio. Fitando o relógio cuco na parede da sala viu que

era quase a hora de se encontrar com o velho lobo no lugar determinado. Tentava

imaginar o que Cammo iria querer depois de cinquenta anos sem dar aparecer pela

Inglaterra. Correu até seu quarto e no fundo do closet pegou uma bolsa de couro muito

antiga e lanço-a sobre o ombro esquerdo e saiu numa velocidade incrível, descendo

escadas e ganhando as ruas em mais uma tarde gelada. Dentro de um casaco de pele de

foca ignorou o carro e iniciou uma caminhada alucinante até o local do encontro.

Pensamentos viajavam por sua cabeça chocando-se com as mentiras que dissera todos

os anos para sua filha. E a mentira maior seria sobre a mãe da garota. Como poderia

contar sobre a mãe da menina sem que a menina o odiasse por toda a eternidade.

- Agora, sim, eu precisava um pouquinho da sabedoria de Ann – sussurrou pra si

mesmo ao dobrar a última esquina antes de avistar a Livraria e Antiquários.

O ambiente estava agradável e o ar leve dentro da livraria. Caleb passeou por dois

corredores de prateleiras de livros antigos até avistar a figura conhecida. O lobo estava

sentado a uma mesa tomando chá amargo e lendo jornais antigos, o mais recente era de

meio século.

- Como está a bolsa nesse jornal?

- Ferrada, meu amigo, ferrada. Eu tinha perdido uma nota preta naquele tempo.

- Quanto tempo meu velho – Caleb jogou sua bolsa na cadeira e deu um abraço no

homem de roupas esfarrapadas que se levantou para cumprimentá-lo.

- Pois é. Quem é vivo... já disse o ditado.

- Para quem é imortal então, nem se fala!

- Quem tem esse privilégio maldito é só os caras da noite... você me entende?!

- Ô se entendo – foram se sentando e um garçom veio com uma bandeja de

bronze. Uma chaleira de barro fumegava e uma vasilha de cerâmica trazia uma porção

de biscoitos.

- Esse lugar é fantástico desde que fundaram há quase duzentos anos. – o garçom