A outra noite por Reginaldo B. Ribeiro - Versão HTML

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depositou a bandeja na mesa e saiu.

- Parece que foi ontem que a gente veio aqui... Ann e eu... Roxie e você.

- Você não precisa chamar sua mulher de Ann perto de mim meu amigo...

- Desculpe-me, mas eu prefiro...

- Eu é que tenho de pedir desculpas, pois devo muito respeito a você meu amigo.

E continuaremos a chamando de Ann. Ann Smith Knight.

- Obrigado – bebeu uma golada generosa de chá amargo.

- Os biscoitos de alecrim e cevada daqui são os melhores que já comi.

- Qualquer hora a gente vem aqui para tomar o chá de Valerianas que eu tenho

muita saudade, porque hoje eu preciso te contar sobre Caim...

- O irmão de Desdemona?

- Correto... ele retornou do sepulcro e levantou outros terríveis vampiros com ele:

o Monarca, o Principal e a Espectra.

- A Sociedade das Trevas não pode voltar à ativa meu velho...

- Concordo com você, Cammo... mas minha quase-vida-normal me impede de eu

me aventurar nesse negócio de caça aos vampiros... pelo bem de minha garotinha que

está saindo – olhou para o imenso relógio nos fundos do salão – da escola neste

momento.

- Pois estou te avisando por ser teu amigo de longa data, Caleb.

- Caim foi cruel com sua esposa... – abaixou a cabeça e segurou firme a caneca de

chá. Um vento fria passeou por eles vindo da porta do estabelecimento que se abria.

- Eu não quero apenas o desgraçado morto, meu caro, por causa da atrocidade que

ele fez a minha Matilha Sagrada... – seus olhos se perderam na infinidade de livros atrás

de Caleb. Os livros cheiravam a mofo e as prateleiras sacudiam quando alguém passou e

esbarrou nelas.

Era uma garota de pouco mais de vinte anos que enchia os braços com livros

manchados e cheirando mofado. A menina deu um sorrisinho para ele após citar sua

matilha. Ela tinha cabelos longos e loiros; grandes óculos pendiam no nariz dando um ar

de estudiosa. Sentou-se numa mesinha para uma pessoa e empilhou os livros ali.

- Peço perdão por fazê-lo lembrar de sua esposa.

- Que isso, meu amigo. Essa ferida já se fechou... mas a cicatriz me alimenta o

ódio por aquele bastardo.

- Pena que a descendência dos Helsing desapareceu do mapa desde o século

passado – abocanhou um biscoito.

- Por isso devemos contar com a Plêiade do Sangue para nos ajudar – encarou o

amigo com um semblante piedoso e cruel ao mesmo tempo.

- Cara! Eles são oitenta e oito por cento vampiros. Não vão nos ajudar a pegar um

ser como eles próprios, pois o lema deles é combater a crueldade vampírica mostrando

que todo vampiro pode viver pacificamente com os demais seres no mundo.

- Então... que a Plêiade catequize esses bastardos que estão formando a Sociedade

das Trevas se for capaz. Pois sei – falou quase em sussurros, - que eles estão

doidamente procurando a filha de Sophia.

- Você está brincando? – Caleb esmurrou a mesa e ela cambaleou jogando dois

biscoitos no chão.

- Eu queria estar... – imperou um silêncio quebrado apenas pelo folhear de páginas

do espesso livro que a menina loira lia não muito distante deles.

O ar sobrecarregou de forma espectral. Luzes piscaram e um vento gélido soprou

as folhas do livro aberto da menina.

- Você ainda precisa disso? – Caleb abriu a bolsa de couro e mostrou um frasco

para Cammo.

- Eu aprendi a fazer essa poção e nunca mais virei a criatura indesejada – Sorriu

para o amigo. – Diga-me?

- Pois não?

- Eles aceitam cães na Plêiade do Sangue?

- Creio que sim, meu amigo. O bispo de lá é um bruxo e não mais um vampiro

ancião como foi por séculos e séculos. Lá se reúnem os bruxos, vampiros, lobisomens e

híbridos.

- Mas, sem ser vampiro, somam-se doze por cento.

- Creio que sim, e terei confirmação daqui a uns dias quando irei assistir a uma

palestra do bom e velho Nicodemos.

A menina deixou um livro cair ecoando o barulho pelos corredores da livraria e a

atenção de todos se voltaram para ela enquanto recuperava-o do chão. A amenina ficou

vermelha de vergonha e abriu um refrigerante em lata bem gelado para acalmar-se.

- Garçom – chamou Caleb erguendo a mão com a caneca. O homenzinho

magricela de cara assustada aproximou-se depressa.

- Sim, meu senhor!

- Traga-me um licor de jasmim com absinto – pensou na filha voltando da escola.

- E você, amigo?

- Não. Muito obrigado. Bebo um remédio que não pode misturar com isso.

- Só para mim, então, meu rapaz. Havia me esquecido.

- Nenhum mal-estar em qualquer lua que faça – sorriu satisfeito o homem de

cabelos maltratados e barba mal feita.

- Parabéns meu amigo. Parabéns.

A menina levantou e jogou a mochila nas costas dirigindo-se ao balcão com dois

livros de capa marrom. Capas deterioradas quase que esfarelavam ao serem

manuseadas. Pagou pelos livros e ajeitou a mochila. Deu uma olhadela para a mesa dos

dois amigos que pressentiram algo familiar na fisionomia da garota, mas não

conseguiram decifrar o que era. A menina saiu e o ar gelado passeou de novo pelo

estabelecimento de livros e antiguidades.

A preocupação com a filha não impediu que Caleb ficasse por um pouco mais e

tomasse seu licor na companhia do amigo de longa data. A hora voou e já passava das

sete da noite.

VIII - Solidão e Escuridão

Amber em sua casa andava de um lado para outro se sentindo muito febril e não

sabia que remédio tomar das centenas que enchiam a prateleira do armário superior na

despensa.

Subiu até seu quarto e se jogou na cama produzindo um som abafado. Os fones de

seu ipod estavam em volume três, mas parecia que estavam a mais de trinta. Seus olhos

tornaram-se em brasas e ela se olhou no espelho achando que estava ficando louca.

- Não é possível! Estou vendo e sentindo coisas que nunca senti. Nem quando

tomei um porre na festa da Stephanie Grasser.

Cambaleou até o banheiro e achou aspirinas. Mandou a mão cheia de

comprimidos à boca e bebeu um copo de água para ver se parava com a tal enxaqueca.

Desceu as escadas tocando em poucos degraus e aquilo estava muito louco para

sua mente. Caiu no meio da sala com a cara no tapete e urrou de dor.

- Gosto disso – ao sentir a dor ela deu um sorriso e se colocou de pé num piscar de

olhos. – Preciso de um instrumento para eu me sentir legal – correu até a cozinha e

apanhou uma faca. – Mamãe, desta vez eu vou até você! Ninguém vai me parar.

A neve caía ininterruptamente enquanto a menina saía pela janela e cruzava a

parte dos fundos da casa que dava para um beco e depois ganhou as ruas correndo como

desvairada com a faca nas mãos. Seus pés descalços entravam na alvíssima neve e suas

pernas se rosavam por causa do frio. Um mendigo na esquina ficou boquiaberto em ver

uma garota com camiseta e um mini-short correndo num frio daqueles. O mendigo

tomou o resto da vodka, que estava na garrafa em suas mãos, num surpreendente gole.

O céu estava escuro e as luzes dos postes davam o tom tenebroso na noite. Amber

chegava ao cemitério e procurava o túmulo de sua mãe. Ela não conseguia entender por

que nunca conseguia encontrar logo de primeira o tal jazigo. Era como se, sempre

esquecesse o lugar.

Pulou e esbarrou em muitas cruzes até se deparar com a lápide escrita “Ann Smith

Knight, amada esposa e mãe”.

Pulou sobre o túmulo e deitou como se fosse sua confortável cama. Os flocos

brancos gelavam seu rosto e cristalizavam suas lágrimas. Abraçou o concreto gelado e

depois ergueu a faca como se preparasse a si mesma para um sacrifício.

- Hei, você!? – alguém gritou de não muito longe.

- Deixe-me em paz! – a garota olhou e não viu coisa alguma. Os olhos vermelhos

ferviam de um ódio aparentemente sem motivo. Um ódio pela própria vida ou pela falta

de alguém, a saber, sua mãe.

- Menina. Deixe esta faca de lado... quero apenas uma confirmação e depois te

deixo fazer o que você quiser.

- Confirmar algum endereço?

- Não! Para isso eu uso o GPS. Confirmar se você é tão linda quanto um amigo

tinha me dito – o rapaz foi se aproximando coberto com um enorme casaco e ficou

parado fixando o olhar na desconcertada menina.

- Que brincadeira é essa? – a menina olhou ao redor. – Brigite, saia de onde estiver

– berrou. – Não brinque desse jeito comigo. Você podia ter esperado para me apresentar

esse idiota no horário de aula.

- Calma. Princesa, eu não conheço Brigite nenhuma.

- Quer parar com isso! – ela se sentou na pedra gelada e pôs a faca de lado. Seus

cabelos voaram para frente do rosto e ela os retirou da vista para fitar o rapaz. Sua

camiseta se apegou a pele e ela sentiu vergonha disso, logo, cruzando os braços

escondeu seus peitos.

- O frio está terrível e você não devia estar aqui sem um agasalho. Tome o meu -

ele retirou seu próprio agasalho e jogou para a menina que instintivamente se enfiou

nele. – Melhor, não?

- Está. Mas você?

- Estou com esse suéter que minha avó me fez e dá para aguentar um tempinho.

- Obrigado... é... incrível garoto das neves – sorriu singelamente.

- Mil perdões. Meu nome é Bellmont, Karl Bellmont.

- E eu acho que sou quem tal pessoa disse a você, mas como soube que eu estaria

aqui? – o silêncio foi perturbado por um pio de coruja. – Sou Amber... e esta é minha

mãe... quero dizer, o túmulo dela.

- Um prazer enorme conhecer você Amber... hm! hm!... boa noite senhora Knight

– fitou o jazigo.

A menina sorriu e se colocou de pé. Seus pés entraram na neve macia e o rapaz

olhou para as pernas da menina que estavam rosadas por causa do frio.

- Por que me procurava? E como sabia que eu estava...?

- Sei que vai ser estranho e maluco demais para você entender... mas sei que não é

a primeira vez que você vem aqui e se corta... tentando se matar... – diminuiu o som da

voz, - achando que a dor ou a morte seria melhor ou faria mais sentido do que viver para

sempre sem saber que está vivendo.

- Você usou drogas, não? Qual é a tua? Estuprador ou apenas um viciado viajando

e querendo pegar uma mina?

- Nada disso. Eu te disse que iria soar de forma maluca.

- Bem doida mesmo. Essa é a primeira vez em que venho aqui para por um fim na

minha medíocre vida e me aparece um anjo para me salvar, mas o cara na verdade é um

viciado em pornografia e heroína.

- Não sou viciado, Amb.

- Agora acha que é tão intimo que pode me chamar de Amb. Sabia que era coisa

da Brigite. Só porque eu disse a ela que nunca transei e ela me apronta uma dessa.

- Não conheço essa garota, eu já havia dito e passo longe de qualquer droga.

- Meu anjo – encarou o rapaz, - diga-me então quem é você e como soube que eu

estaria aqui?

- Karl. E, eu vim te prevenir de pessoas que adorariam fazer isso com você –

apontou a faca.

- Faça-me um favor...

- Da outra vez você havia quebrado seu MP-20 e agora você jogou na entrada do

cemitério o seu ipod... apareceu algum pensamento? Relances? Deja vu? Clareou?

- Puta merda... parecia que aquilo tinha sido um sonho louco... você só pode ser

um anjo para saber essas coisas que sonhei.

- Não foi um sonho e anjos não leem ou veem sonhos dos outros. Isso é coisa só

para Deus.

- Você é cristão?

- Lógico e bem óbvio – no pescoço pendia um crucifixo de prata e no pulso uma

pulseira de orações. Ele exibiu com mais exatidão os apetrechos.

- Então eu sou uma suicida que já tentou em outras oportunidades...

- Exato. Eu mesmo te recolhi deste lugar com os pulsos ferrados e sem nenhum

batimento.

- Então você chamou a ambulância e me ressuscitaram, bla, bla, bla...

- Não. Eu te levei para seu pai e ele te deu um frasco de... sei lá, e você foi se

recobrando e voltando a pulsar em menos de meia hora.

- Fala o nome desse filme pra mim. Eu quero comprar no pay per view ou está

ainda nos cinemas?

- Isso é sério Amb. Conversei com o doutor Babel hoje. Há pouco fui a sua casa e

não havia ninguém, daí segui suas pegadas pela neve. Não pensei noutro lugar que não

fosse aqui. E corri como um relâmpago, ou quase igual – deu um sorrisinho.

- Se conhece meu pai, por que nunca te vi antes?

- Tudo vai ser revelado no momento certo, Princesa.

- Amb, tudo bem, mas princesa eu pego aquela faca e te fisgo – deu uma risada

provocante.

- Valeu a dica Amb. Princesa, não mais, ou por enquanto – foi saindo devagar.

- Você não quer tomar um chocolate quente lá em casa... esperamos papai e

conversaremos sobre...

- Melhor não.

- Não mesmo! Porque eu sou quem estaria ferrada nessa conversa toda.

- Por isso eu disse: melhor não – riu sonoramente e saiu.

Amber olhou para o túmulo e a faca havia sumido. Olhou para a direção do rapaz

e ele também.

- Que filho da p... levou a faca por precaução... lógico que eu não ia me ferir...

agora. Que droga de noite fria! Meus pés estão formigando. Vou ver se consigo correr

sem perder lascas dos meus dedos hipotérmicos e roxos.

Correu desenfreadamente pela rua dentro do casaco algo muito pontudo espetou

seus seios. Amber sem parar foi apalpando o objeto. Uma seringa com agulha.

- Maldito viciado!!!

IX - Horror a Primeira Vista

Entrou na rua em que morava e adentrou pela porta da frente. Estava destrancada.

Um homem alto; face cinzenta; cabelos castanhos e escorridos; e jaqueta jeans,

virou-se com os olhos em chamas e a menina caiu sentada ao tentar frear sua corrida

desesperada.

Um vento espectral assolou o lugar e atrás dele uma figura estava caída.

- Papaaaai! – berrou a menina ofegante.

- Não se preocupe. Ele ainda está vivo – o homem veio na direção da menina.

- O que fez com ele, seu monstro de merda.

- Uma boca dessas desagradaria sua mãe que era elegante e charmosa.

- Quê que você sabe de minha mãe? – a menina deu passos para trás e seus olhos

flamejaram. Uma dor lancinante tomou suas têmporas e as gengivas ardiam quando seus

dentes caninos se aguçavam. Era uma sensação estranha e boa. Nunca tinha sentido isso

ou talvez tivesse se esquecido de que já passara por isso outras vezes. – O que está

havendo comigo papai? – gritou olhando para seu pai paralisado sobre o chão. Seu

semblante ficou nefasto e sua memória foi ampliando junto aos seus sentidos. Ouvia o

som dos flocos de neve que caía metros atrás de si. As unhas que agora pareciam fortes

garras se esticaram centímetros. Se sua memória não tivesse sido ampliada, aquilo seria

a coisa mais agonizante do que qualquer mal-estar.

- Isso mesmo! Se mostre para mim criança vampira.

- Vampira? Vai se fod... haaargghhhh ...não – a voz ecoava rouca. – Não sei o que

houve comigo, mas estou me sentindo ótima, atraente, poderosa e sensual demais.

- Seu pai escondeu isso de você? Que peninha deixar para saber por um

desconhecido como eu. He! He! He! He! – gargalhou e sumiu da gente da garota e

reapareceu por trás dela colocando as mãos no pescoço magro da pequena.

- Solte-me maldito! – a menina se contorcia em vão. Não conseguia se

desvencilhar das mãos potentes do vampiro alto.

- Não antes de experimentar o fluido da sabedoria que corre em suas veias. Sua

mãe fez um ótimo trabalho tendo você para servir a mim, Barak, o Grand Monarca das

trevas. – baixou até seu nariz encostar-se à pele sedosa da pequena vampira. Fungou. –

Cheiro espetacular. E com seu sangue agindo em mim serei o maioral dos vampiros, até

o Principal se curvará diante de mim. Mais do que isso – lambeu o pescoço saboroso, -

terei mais poder do que o Toma-vidas. – aguçou os caninos para penetrarem no pescoço

da bela garota.

- Ninguém sorverá sangue nenhum aqui! – berrou uma voz conhecida para Amber.

- O cara do cemitério?!

- Agora os coveiros querem infernizar a vida dos seres da noite... piada comigo?

- Desculpe-me Amber, mas isso pode te ferir muito. - E ergueu um objeto em

forma de cruz. Reluzia como prata polida. Gritou – fiat lux! – e um clarão inundou o

ambiente de forma avassaladora.

Haaargggffffhhhh – berraram os vampiros. – Karl correu para abraçar a menina e

envolveu-a em seu agasalho, aquele mesmo que tinha a entregado no cemitério. O

tecido do agasalho protegeu a garota de um dano maior, protegendo-a como se fosse

uma capa. A luz lancinante continuava a brilhar e o berro do vampiro de jaqueta jeans

desapareceu. A menina ainda gemia e choramingava.

A luz foi diminuindo e um som agudo perturbava a vampira. Karl apressou-se a

pegar a cruz de prata.

- O que você fez comigo? Seu animal. – Amber com o rosto queimado e

semblante de volta a humano sofria dores terríveis.

- Um pouco de calma e eu te ajudo. Deve ter uma seringa aqui nesse agasalho que

te emprestei.

- Você é um viciado duma figa! Por que quer acabar comigo?

- Não. Não quero acabar com você. Quero acabar com aqueles que são como o que

estava aqui pronto para abocanhar sua coronária e sorver todo o seu sangue vampírico.

- Que droga é essa?

- Um segundo... – o rapaz pegou um frasco e a seringa. – Vinte... acho que dá.

Você se queimou pouco porque fui terminar de te cobrir com esse meu tecido especial.

Tem medo de injeção?

- Nunca tomei uma para saber – a menina retirou o braço de dentro do casaco.

- Sempre tem a primeira vez. É o que dizem – pensou em sorrir, mas o sofrimento

da garota fez com que cortasse o sorrisinho.

- Com certeza os dentes do desgraçado causariam uma dor pior que essa – viu a

agulha penetrar e o líquido ser introduzido em seu corpo.

- Digo que sim. Eu conheço a Sacrum Medicina.

- Você é um médico?

- Caçador. Minha filha, ele é um caçador! – dificultosamente falou o bruxo.

- O que caçador tem a ver com remédios.

- Seu pai está certo. E os remédios são para curar aqueles como você, querida

Amber. Existem muitos vampiros que abandonaram as artes das trevas e com a ajuda de

alguns bruxos como seu pai eles até podem andar durante o dia. Valendo-se de

encantamentos ou amuletos mágicos. Na história, muitos caçadores foram bruxos e as

poções foram passando de geração em geração. Porém a Santa Inquisição dispersou os

feiticeiros e bruxos. Daí pra frente os caçadores andaram sozinhos atrás das bestas

noturnas: vampiros e lobisomens.

- Lobisomens?

- Sim. Pessoas amaldiçoadas a transformarem num lobo gigantesco – retirou do

casaco uma pena branca e levou até o bruxo que ainda não conseguia se levantar do

chão. O bruxo mexia apenas os olhos e a boca.

- Caleb, meu velho. Ser pego por um vampiro não era tão fácil para você

antigamente – abriu um sorriso.

A menina se admirava por ter sarado da queimadura instantaneamente logo que a

agulha foi retirada.

- Karl, meu jovem aprendiz... fico feliz de ter encontrado minha filha antes dela

cometer mais uma idiotice daquelas – olhou para menina que pegava uma toalha e se

cobria com ela.

- A picada da pena vai doer mais que a agulha que apliquei em sua filha. – A ponta

da pena continha uma tinta roxa. Extrato de flores. Arte da Sacrum Medicina.

- Já sou crescidinho... Aiii!

Ficou em pé e cambaleou até sentar no sofá. Os olhos da menina o indagavam de

forma horrenda. Karl puxou uma cadeira para a garota e outra para ele.

- Acho que devo começar do começo...

- Espero! Porque ontem eu era humana e agora sou uma vampira. Porque uma

droga de luz me queimou. Deve ser por isso que eu me suicidava e nunca morria... tinha

como se fosse apenas um sonho... porque nem cicatrizes ficavam nos meus pulsos.

- Você é a única filha de vampira. Todas as vampiras e vampiros são estéreis. Mas

uma, somente uma pôde gerar um bebê. Sua mãe: Sophia.

- Que diabo é isso de Sophia? Minha mãe era Anna Smith Knight.

- Isso foi o que eu inventei para te criar como humana e dependendo do seu

desenvolvimento nós nos mudávamos. Porque seus amiguinhos perceberiam que você

não crescia como os outros, e você já completou os anos escolares diversas vezes que

até perdi as contas.com a ajuda do doutor Abel, que também é um vampiro, apagávamos

alguns pensamentos e introduzíamos outros...

- Como pôde...? você realmente é o meu pai?

- Claro querida. Eu amei demais sua mãe... como há pouco soube que os bruxos e

caçadores capturavam os seres das trevas... foi assim que encontrei sua mãe há mais de

quinhentos anos...

- Mentindo novamente... ela tem explicação de uma vida longa, mas o senhor é

meio novo pra mais de quinhentos.

- Todo bruxo que encontra a Pedra Filosofal possui o elixir da vida e assim

podemos viver centenas de anos. Não somos imortais como os vampiros, mas vivemos

muito tempo com uma vida focada nos conhecimentos da natureza e suas medicinas.

Um bruxo qualquer pode viver muito, mas aquele que encontra a Pedra Filosofal pode

atravessar um milênio pelo menos.

- Isso aí! Eu sou um caçador de seres noturnos – piscou para a menina que fazia

cara de entusiasmada, - mas, também sou um aprendiz de feiticeiro. Pois é, quem não

tem sangue bruxo tem de se contentar com um título de Feiticeiro.

- Você também viverá muito?

- Eu espero que sim... principalmente se eu achar a tal pedra.

- Mas, pai, eu quero saber mais de você e a mamãe – a menina encarou o bruxo

com um olhar inquiridor.

- Bem... vou preparar um chá de raízes enquanto vocês conversam. E podem ficar

tranquilos porque o Monarca não estará em bom estado antes de vinte e quatro horas

depois do meu disparo solar por essa beleza de cruz – deu um beijo no artefato de prata

que era repleto de símbolos estranhos. O objeto cintilava como se tivesse sido polido

com muita precisão. Depositou-a novamente no imenso bolso do agasalho.

Karl entrava na cozinha assoviando uma cantiga infantil cantada em pré-escolas.

Caleb pigarreou e ajeitou-se no sofá de frente com a filha.

- Vamos lá:

X - O Mestre das Artes da Caça

John Cape era o caçador mais velho da aldeia e tinha um conhecimento invejável

na Sacrum Medicina e nas armas de caça. Fazia arcos e flechas incríveis e conhecia as

artes e ciências ocultas. Era o único caçador que sabia de magia e aliando aos seus

truques de caça multiplicava seu poder de captura dos seres noturnos. Era profundo

conhecedor das artes de matar vampiro e lobisomen. A vila toda pedia conselhos a ele,

mais do que pediam aos seus anciãos e isso causava inveja em muitos aldeões e médicos

do tempo. Minha família veio de Gales e nos instalamos por aqui como alguns celtas os

fizeram. Havia Festa da Fogueira e rituais druidas não me lembro quantas vezes por

ano. Meu pai e minha mãe eram humildes e não possuíamos nada além do casebre que

meu pai construiu num terreno doado por um criador de cabras. Meu pai trabalhava para

o homem e de vez em quando fazia remédios medicinais para vender na feira. Meu pai

nunca ambicionou viver muito e se aprofundar nos Conhecimentos da Magia. Minha

mãe não tinha sangue bruxo, por isso saíram de Gales. Sofreram perseguição, mas logo

foram esquecidos, deixados a sorte. Minha mãe sofreu para dar a luz a mim. Esse é o

problema de sangue mestiço. Não há muitos nascimentos entre humano e bruxo. Por

isso somos muito poucos no mundo. As pessoas têm casado ou ficado com quem se ama

e não têm dado importância às tradições e raças.

Eu cresci e me tornei um bom caçador. Outros da minha idade admiravam quando

eu trazia muita carne e dava aos órfãos e viúvas do vilarejo. Então foi despertado em

John o interesse de me ensinar mais coisas devido à conduta que eu tinha de repartir

com o mais necessitado as minhas caças. Não demorou a ele perceber minhas intuições

e dedicação extraordinária. Deu a me ensinar o que sabia e na parte oculta muito mais

do que eu tinha visto nas Festas da Fogueira. Saía de casa e voltava depois de meses.

Meses gastos no meio da floresta aprendendo a ouvir os sons e identificá-los. Meses

aprendendo as reações dos animais silvestres. Meses conhecendo as plantas medicinais

e raízes curadoras de uma imensidão de doenças.

Estaca! - Disse John enquanto eu arrancava uma lasca dum cervo que tínhamos

acabado de assar numa fogueira. E eu perguntei o que tinha haver aquilo? Ele

respondeu: amanha você usará uma estaca de madeira para matar um cervo. Eu te

proíbo o uso de flechas e lanças. Tampouco essa adaga druida que seu pai te deu.

John era um homem de semblante altivo e muitas vezes ele era carrancudo. Mas

isso não conseguia deixá-lo menos que uma ótima pessoa. – Você precisa combater

corpo a corpo sua presa amanhã e escolha uma boa árvore para construir sua estaca.

Pois a estaca pontiaguda deve entrar no peito do animal e atingir o coração antes que ele

te encare. Coma logo isso e vá dormir! O sol clareará em breve. A lua está cheia e

minha aljava está com flechas com ponta de prata. – Fui dormir sem entender coisa

alguma do que dizia. Pois antes desse dia era apenas: animais; plantas; insetos; rochas;

solo sagrado; ventos; pontos cardeais; mas nada enigmático como dali para frente.

A noite foi incomum. Fria e tensa. Pelo menos para mim. Enrolei-me num manto

de pele de gazela. John cobriu-se com a capa de lã e pesadamente dormiu. O fogo foi se

extinguindo na calada da noite e os pios de coruja e uivos de lobos começaram uma

melodia sinistra. Demorei a pegar no sono.

John me acordou no outro dia retirando meu manto e dizendo – ficarei a mercê da

natureza enquanto você não trouxer a comida. Você precisa arrumar uma boa estaca e

matar um cervo para nossa próxima refeição. Ficarei aqui em meditação profunda, não

me levantarei para nada, entrarei na alma do Espírito da natureza. Comerei apenas os

insetos que passarem sobre mim e beberei água se porventura chover. Não assarei nada

em fogo, nem farei um para me aquecer. Lançarei minha alma ao solo dormirei,

meditarei e me fortalecerei enquanto você não chegar com a carne. Você é Bruxo e quis

ser caçador, eu sou homem apenas, um caçador, que quer descobrir as artes escusas da

magia e me tornar um bom feiticeiro.

Eu o elogiei – para mim você já é um grande Mestre Feiticeiro. – Ele sorriu e se

jogou com o rosto na terra e eu entendi que era para eu partir.

Coloquei minha adaga na cintura e não poderia levar mais nada comigo, pois era

para usar apenas a estaca. Atingir o coração com a madeira pontiaguda. Um desafio e

tanto. Ele não tinha dito que deveria ser um cervo adulto. Pensei que um novinho não

me causaria fatiga ou exaustão. Precipitei pelo mato enquanto o sol começava a queimar

de manhãzinha. A saúde do meu Mestre estava também no jogo, na caça, no meu

desafio. Ele acreditara em mim, por isso não poderia contrariá-lo e nunca fraquejar

diante da tarefa.

Não podendo usar arco e nem lanças. E durante esse dia avistei apenas uma

gazela, mas ainda não tinha feito minha estaca. Não demorou muito para eu encontrar

uma árvore cheia de galhos formosos e labutei para arrancar um galho de bom porte.

Confeccionei três estacas com aquele galho. O sol estava a pico quando comecei o

trabalho e terminei na tarde escura e fria. Achei alguns gravetos e fiz uma fogueira.

Lamentei o Mestre não estar ali. Encontrei alguns lagartos e assei dois deles para minha

refeição. Deitei a cabeça numa pedra quente, pois ela absorvera o calor durante o dia e

os lagartos se aqueciam nela por causa de seus sangues frio. Dispersei três e assei dois.

Dormi depois de pensar muito sobre a meditação de John e tive fé que ele encontraria o

Espírito da natureza nesse tempo em que o deixei.

Acordei com os primeiros raios de sol que conseguiram desvencilhar as folhas das

espessas copas de imensas árvores imponentes e frondosas. Minha primeira visão foi

um cervo de pelo menos três anos de idade. Agarrei minhas estacas e corri como um

leopardo atrás dele. Depois de adentrar as matas fechadas e ser surrado por galhos

baixos e espinhos sobressalentes encurralei o vigoroso animal que fungava a baforadas

quentes fazendo vapores subirem das narinas naquela manhã gelada entre as matas. Fiz

o possível para não fitar o olhar apreensivo do bicho. Sempre tinha usado flechas e

lanças para matar um animal, mas agora, corpo a corpo era outra história. Um animal

vigoroso, bonito e que mal algum tinha me feito... aquilo era bem diferente. Por isso

Cape disse-me para não fitar os olhos formidáveis do quadrúpede. Um inocente e dócil

animal seria nossa refeição naquele dia. Minha barriga estava prestes a roncar de fome.

Imaginava como estaria meu mestre há quase dois dias sem comer um bom bocado de

carne.

Aproximei-me com cautela e o cervo dava de subir nas ramas espinhentas e o

sangue corria em suas pernas compridas e finas. Assustado. Apavorado. E eu nutrindo o

pensamento de que aquilo era preciso. Joguei-me contra o pescoço do animal e caímos

sobre um arbusto espinhento. Cortei as costas centenas de vezes ao rodopiar com o

bicho no chão. Imaginei onde estaria o coração do cervo elevei meu braço com a estaca

mais pontiaguda que eu havia confeccionado e cravei no coração do animal. Sua força o

deixou. Sua alma voltou ao Espírito da natureza. Eu tinha muita comida por alguns dias.

A luta não foi nada fácil. Corpo a corpo com um ser que é mais rápido que você é uma

coisa muito difícil. Tinha de ser sagaz contra a presa. Eu estava no topo da cadeia

alimentar.

Retornei e encontrei meu mestre estendido no chão. Imóvel. Chamei-o duas vezes.

Algo estranho, pois ele nunca precisaria ser chamado uma vez se quer, pois sentiria

minha presença e se levantaria antes que eu desse a mostrar minha cara suja pós luta.

Cheguei perto e desvirei-o. Ele estava morto. Seu pescoço dilacerado por alguma

criatura. Não podia ser qualquer animal simples da qual encontrávamos pela floresta.

Aquilo era brutal e desumano, e não um ato de feras do campo. Estava outra vez

sozinho no meio da mata. Com muitas lições a serem aprendidas solitariamente.

Debaixo da capa de John havia um manuscrito. Enrolei o papiro e guardei. Joguei o

cervo nos ombros e fui descendo as montanhas. Aquele animal deveria servir de

refeição, esse era o desejo do mestre, não podia jogar o pobre cervo ali. Levei o cervo

até a primeira vila que encontrei e pedi ajuda de alguns homens para buscarmos meu

mestre e capturarmos a criatura que fizera aquilo com ele. Na vila, alertaram-me que

seria um lobisomem. Uma criatura maldita. Um forasteiro passara por ali dias atrás e

varias mulheres e crianças sumiram desde então. Um homem que se transformava num

gigantesco lobo. Depois que recuperamos o corpo do meu mestre do meio do mato o

enterramos no cemitério da vila. Lavrei cartas para minha e para a família do meu

mestre. Alguns deles vieram para uma singela cerimônia na capela.

Cinco noites depois sumiram um casal de jovens que namoravam no celeiro de

uma fazenda próxima. Eu estava terminando de ler o papiro. O papiro continha vários

símbolos alquímicos e segredos de bruxos entre outras revelações. Ali encontrei a arma

fatal para os seres noturnos. A prata. Prata. Por trinta moedas de prata foi traído um

sangue inocente. O Mestre dos mestres. O livro sagrado cristão conta essa história e por

isso o metal maldito tornou-se a Arma mágica contra esses seres. Tanto lobisomem

quanto vampiros são vulneráveis por tal metal. As maneiras de matar os seres eternos

foram aumentando conforme se descobria novas armas e modos de vencê-los. Todo que

morria sobre madeiros era considerado maldito. Assassinos eram dependurados nas

cruzes romanas e dali surgia as estacas. Um pedaço de madeira no coração do infeliz

vampiro é capaz de matá-lo. Pois o madeiro é para os malditos.

XI - A Fuga

O cheiro do chá estava formidável. Karl vinha trazendo o líquido cheiroso. Foi

dada a pausa na história para que experimentassem o fumegante chá.

- Então. Antes disso tudo ninguém matava essas... criaturas? – pensou em si

mesma.

- Matavam sim. Aprisionando os vampiros em lugares para tomarem os raios

diretamente do sol. Decapitação. Fogueiras. Essas foram as maneiras primitivas até que

conseguiram, nós caçadores conseguimos utilizar as armas de fogo abastecidas com

projéteis de prata. – Pausou, soprou e bebeu um gole, - a estaca já era usada quando eu

li aquilo no papiro, não pense que foi dali em diante que foi usado essa forma de matar

vampiros.

- Bem! Gostei de saber do senhor, mas cadê a mamãe em toda essa história? –

Balançou a xícara e soprou o líquido esverdeado.

- Não quero apressar vocês, mas foram descobertos e precisam de um novo lugar

para continuar a história – alertou o caçador olhando para as janelas e portas.

- Ele está certo querida. Vamos até a Plêiade de Sangue e lá estaremos seguros por

muito mais tempo. Preciso telefonar para Nichodemos... avisando que estaremos

chegando em meia hora. Pegue o necessário e entre no carro filha.

- Ok! Eu já volto. – Amber subiu ligeiramente as escadas, sem notar que se

utilizava da velocidade vampírica.

- Acha que a Plêiade é o melhor lugar... – viu o vulto da menina terminando as

escadas, - para se esconderem?

- Você escolheria um outro?

- O edifício Saint Peter.

- Lá tá cheio de vampiros ruins e muitos são associados aos assassinatos, enquanto

na Plêiade estão apenas os convertidos à Humanidade. Os que querem se parecer com

pessoas normais tendo família, trabalho, lazer e até mesmo uma religião. São muitos os

que por amuletos e encantos mágicos conseguem ser caminhantes do dia e andam por

lugares abarrotados de humanos.

XII - Recordações

Nichodemos passeava pelo pátio externo da grande nave de pedra conhecida como

a Igreja da Madrugada devido às suas reuniões que aconteciam na calada da noite e

nunca tinha seus portões abertos se não uma vez por mês no dia em que turistas podiam

conhecer um pouco, apenas um pouco, do interior do grande castelo de arquitetura

gótica e singular. O velho Nichodemos andava pensativo e balbuciava palavras antigas e

proibidas aos normais. Parecia invocar um vento quente na noite geladíssima que fazia.

Esperava impaciente pela chegada de Caleb e Amber.

Conhecia Caleb desde quando o encontrara na floresta, desmaiado e ferido a ponto

de morrer. O levara para seu casebre, no tempo, e curara suas feridas mortais com

bálsamos, óleos de aloés, pó de mirra e palavras proibidas. Ficara sabendo que o

moribundo acabara de ser treinado nas artes da caça a seres das trevas. Pois dias antes

havia morrido a lenda dos caçadores, o feiticeiro John Cape. – Lembrava o ancião como

se fosse acontecimento de ontem. – Nisso percebe-se que na mente o tempo é

irrelevante e ao mesmo tempo eterno.

Caleb despertava com dores em toda parte de seu corpo e via um velho a sua

frente na claridade de um castiçal de bronze muito reluzente.

- Como se sente meu filho?

- Como se uma avalanche tivesse passado sobre mim.

- Então você está ótimo – e o velho levantou dirigindo-se a uma chaleira

fumegante pendurado na lareira.

- Tome isso e sua força voltará aos poucos. Há quase um mês eu te encontrei

semi-morto num ermo da floresta.

- Meu Mestre?!!? – gritou Caleb.

- Acalme-se! Ele se foi, mas seus ensinamentos o faz vivo dentro de você. –

Entregou uma caneca de cobre com o líquido quente e forte.

O jovem caçador bebericou fazendo caretas.

- É um pouco ruim.

- Percebi mesmo... mas, depois que se engoli parece que nossa língua fica

adocicada.

- Exato. Assim somos e vivemos. Achamos que as coisas estão ruins e intragáveis,

mas depois de passarmos por elas, revela-nos o adocicado sabor da continuidade,

eternidade.

- Mas sinto o vazio e dor por ter perdido o meu mestre.

- Ele passou o suficiente tempo aqui para lhe mostrar o segredo e força de um

caçador... sei que foram os seres noturnos que o levaram, mas nem todos eles são das

trevas. Pois, crendo nisso eu estou criando um assembleia dos seres noturnos que

querem viver uma vida civilizada com o resto da humanidade. Tenho pregado a

humanidade dentro de cada vampiro e lobisomem. E tenho mostrado que muitos

humanos são mais monstruosos que esses seres que muitas vezes não tiveram opção por

ser ou não amaldiçoados com suas transformações. Para Cape todos eram do mal, mas

ele estava enganado e um sobrinho dele fora salvo num penhasco por um lobisomem

chamado Cammo e isso lhe fez pirar por um instante, perturbando-se por ter matado

muitos lobisomens sem saber ao certo se eram apenas comedores de galinhas como as

raposas ou se eram caçadores de gente.

- Então, apenas os vampiros são os atormentadores de gente.

- Foi o que Cape pensou por um instante, mas soubera que alguns davam vida em

vez de tirá-las.

- Como assim?

- Pessoas em vilarejos que sofriam de alguma peste ou pragas mortais, alguns

peregrinos vampiros iam de vilarejo em vilarejo dizendo serem médicos e davam uma

gota de seu sangue para o enfermo e em horas a pessoa enferma era curada. Alguns

curandeiros vampiros ficaram famosos por isso.

- Mas os desgraçados não se alimentam de sangue humano?

- Não há necessidade de ser sangue humano, pois o sangue de animais também o

saciaria de alguma forma, porém o sangue mais próximo do humano é o do porco.

- Mas já vi pessoas arrasadas por estes desgraçados das trevas e não era nada

bonito de se ver meu caro velhote! – berrou Caleb.

- E se eu dissesse que uma vampira me mostrou onde você estava...

- Se fosse boazinha como você está dizendo ela mesmo me traria aqui ou a uma

hospedaria para um atendimento médico.

- O sol estava nascendo e ela não poderia perder tempo algum lá fora, desde então

ela pergunta todos os dias sobre seu estado de saúde.

- Posso conhecer essa boa samaritana?

- Lógico que sim meu amigo. Ela lutou contra três vampiros que haviam te

desmaiado e mordicavam você aos poucos, quase esgotaram seu sangue.

- Sugadores malditos!! E minhas estacas?

- Ela mesma as guardou e lhe entregará em breve.

XIII - Estorvo e Luz

A história percorria a mente veloz do velho Nichodemos enquanto longe dali o

carro de Caleb saía disparado pelas ruas congeladas e Karl dirigia enquanto a mesma

história estava sendo explanada por Caleb, contando como conhecera sua esposa:

- Não vejo a hora de conhecer essa vampira boazinha que você está falando meu

senhor...

- Eu me chamo Nichodemos e é um prazer te conhecer Caleb. Bruxo e Caçador.

- Você... também é um dos seres das trevas?

- Eu? – o velho sorriu sonoramente e tossiu, - olhe para minhas barbas brancas,

rugas e aparência decaída... sou um velho... vampiros não demonstram idade como nós.

- Nós? Você também é bruxo?

- Exato. Muitíssimo velho por sinal. Espero varar meu segundo milênio – sorria

largamente exibindo os dentes amarelados.

- Meu pai era bruxo e minha mãe humana... o que sou?

- Você tem a opção de ser o que quiser meu jovem. Você tem sangue Bruxo e

deveria continuar a aprender as artes bruxas e com a parte humana deveria praticar a

astucia e aprender utilizar o maior número de armas possíveis como um ótimo caçador,

como John Cape foi. Viva muito e ame o máximo que puder. Mas, agora descanse e

pela manhã a sua salvadora virá lhe visitar.

Passei a noite pensando em como seria a tal mulher das trevas que tinha o coração

bom a ponto de salvar um indivíduo que nunca vira e talvez nem soubesse o nome do

infeliz.

Amber encarou seu pai e notou seus olhos marejando, os dois estavam no banco

traseiro e Karl acelerava muito mais na avenida sem muito trânsito.

- Amanheceu e abri os olhos naquela manhã sob a escuridão do quarto e logo uma

luz de vela se propagou em minha direção.

- E mamãe? – Perguntou Amber desesperada.

... continuou a história:

- Era ela. Maravilhosa. Lábios carnudos; olhos verdes, atenciosos e grandes;

cabelos longos, loiros e levemente cacheados; magra e alta; aparentando no máximo

trinta anos de idade; sua palidez não tirava sua beleza nem um pouco; e sua voz era

penetrante e doce.

- Como você está? – perguntou a vampira sentando-se ao lado do caçador.

- Depois de tudo... posso dizer que bem, mas conhecendo você eu posso dizer que

estou melhor do que nunca – a vampira segurou a mão trêmula do caçador. – Perdoe-me

por caçar sua espécie... – se sentiu idiota ao dizer isso.

- Devo dizer que alguns merecem uma estaca no coração – exibiu as presas

salientes ao sorrir.

- Pois é – fitou os olhos da mulher e viu o verde tornando-se vermelho enquanto as

delicadas mãos geladas da vampira acariciavam seu braço.

- Uma vampira estava perto de sugar seu pescoço quando cheguei. Suas

derradeiras gotas de sangue esvairia com a sua vida...

- Conhece a maldita?

- Sim. Ela já me roubou alguém que amei no passado remoto e surrei-a ao tirá-la

de cima de você.

- Bem feito para ela – tentou sorrir e a vampira aproxima-se demais de seu rosto

ou pescoço.

- Era Sa‟Tania.

Seus lábios cobiçosos e muito gelados encostaram-se aos do jovem bruxo. E se

beijaram como casais apaixonados que estiveram separados por uma viagem longa a

países distantes. Num piscar de olhos a vampira estava sobre os cobertores do jovem.

- O velho senhor...?

- Ele levantou cedo e foi comprar mantimentos no vilarejo distante... temos tempo

demais e meus ouvidos estão aguçados para ouvir qualquer mosca que se aproxime

desse casebre. Apenas me ame Caleb.

- Não precisa dominar minha mente... eu me encantei com você... com seu

cheiro... e sua pele fria...

- Senti que você gostava de mim desde o primeiro dia que me sentei ao seu lado e

você sussurrou um obrigado.

- Eu fiz isso?

- No sétimo dia em que vim te ver...

- Esse cheiro... seu perfume... estou me recordando dele ao meu lado... do meu

lado... esteve aqui todos os dias...

- Claro! – e o beijou loucamente.

- Você poderia me dizer quais seres me atacaram, e quantos você afugentou?

- Fora a Sa‟Tania havia Sir Crow e Madame Goeth, essa eu matei separando a

cabeça do corpo com minhas próprias garras – aguçou as unhas para mostrá-las ao

jovem bruxo.

- Essa tal de Tania é a Rainha deles?

- Dita a mais cruel dos vampiros, mas não a mais forte, pois ela pertence ao

primeiro sangue e não ao Matusalém.

- Você é uma Matus...?

- Exatamente... – beijou-o mordendo levemente seus lábios e um fio de sangue

escorreu para o queixo do rapaz, - a mais sábia dos Matusaléns.

A historia foi interrompida quando Karl usou o freio com precisão para não bater

em uma criança que buscava uma bola no meio da rua deserta.

- O senhor a amou demais, não foi?

- Desde que abri meus olhos e a vi. Ou melhor, desde que ela me salvou dos seres

das trevas e cada dia sentia seu cheiro ao meu lado, uma mistura de sangue e nardo.

Nardinium. Doce, lenhoso e cálido – suspirou como estivesse sentindo o fragrante

cheiro.

- Senhor Caleb... devemos voltar!? – assustou-se o jovem caçador.

- O que temos aí?

- Aquele menino tem os olhos como brasa... ele é um... – o menino sumiu nesse

instante e reapareceu na porta de Karl.

- Poderiam dar-me uma mãozinha? – enterrou a mão na lataria da porta rasgando-a

como se fosse papel. O astuto caçador pulou para o outro banco e segurou seu crucifixo

de prata.

Caleb e Amber pularam para fora como gatos pela janela. Amber ficou febril em

instantes e seu semblante vampiro dominou a feição sempre meiga de menina.

O menino aparentava ter doze ou treze anos e Karl berrou um nome:

- Caim. O Toma-Vidas. Ele copiou essa criança depois de te-la sugado a vida.

- Verdadeira bebida. Eu costumo dizer que ainda terei o poder de um Matusalém.

- Estejam prontos para correr pessoal – berrou Karl. – Esplendidus Lux – apontou

a cruz de prata para o infante vampiro e ele começou a se contorcer com a esplendida

luz.

- Vamos filha. Entre no carro, não está muito longe o castelo e lá estaremos

seguros.

- E Karl?

- Ele é esperto e estará lá em pouco tempo. Segurará o Caim até sairmos desta

parte da cidade.

Saiu a toda velocidade e os pneus cantaram na primeira curva.

- O que é que você quer...? aprendiz de feiticeiro – com dores e queimaduras o

menino vampiro falou gemendo.

- Eu quero salvar a Amber de coisas como você. Eu sou como um cavaleiro dela e

a desposarei um dia...

- He! He! He! Hilário. Você é um peste hilariante.

- Vou aumentar essa luz e você verá o que é hilariante – girou a cruz três vezes na

horizontal e três na vertical – Lux Excelléntis!

Um clarão e um horrendo grito ecoaram por toda a vizinhança.

- Você ferrou meu novo corpo. – Estava todo queimado e o rosto irreconhecível. –

E seus brinquedinhos são uma piada, feiticeiro de merda – enterrou a mão no peito do

rapaz e comeu o coração dele enquanto a luz se dissipava dando lugar ao tom sombrio e

gelado. Sorveu o sangue quente, sumiu com o corpo e enterrou os artefatos mágicos do

rapaz no cemitério mais próximo. – Como um coração e assumo essa nova identidade,

porque sou o Errante Caim.

Começou a gargalhar depois de sumir com todos os vestígios.

O céu estava triste e carregado de nuvens obscuras que derrubavam seus flocos

alvos e elegantes de neve. Milhares de flocos dançavam no ar como um gigantesco

ginásio de balé. Centenas de milhares de dançarinas giravam e rodopiavam ao sabor da

brisa gelada.

XIV - A Alcateia

Caleb pisou bruscamente no freio e o carro bambeou para direita e para esquerda

parando em frente a um portão enferrujado. Uma placa enorme desprendeu do poste e

caiu sobre o capô do carro. Uivos atormentavam a noite. O cheiro de morte e sangue

adentravam as narinas com violência.

Amber deu um salto ligeiro para fora do automóvel e se espantou com a própria

rapidez com que fez aquilo. O coração da menina batia descompassado e desacelerava a

cada instante. Ela nunca havia sentido aquilo e seu estômago começou a reclamar uma

fome devastadora. Comeria um carneiro inteiro ou um boi naquele instante. Suas unhas

aguçaram como garras firmes e afiadas. Seus olhos enxergavam muitíssimo bem na

escuridão. O gelo da madrugada não feria a pele como antes. Sua palidez exibia varias

veias roxas ramificadas sob a pele sensível de seu rosto. Ela encarou seu pai que saía

com dificuldade pelo para-brisa estourado. Ela puxou-o com precisão.

- Filha... lamento você ter de encarar horríveis coisas nesse dia e ter de saber sobre

sua natureza de uma hora para a outra...

- Não se desculpe... mais cedo ou mais tarde o senhor não conseguiria guardar esse

magnífico poder que estou sentindo e essa puta fome também – exibiu os caninos para

seu velho pai e o bruxo sorriu.

- Vamos entrando... meus amigos! – uma voz cansada rompeu pela penumbra do

umbral de pedra.

- Venha papai – a garota arrastou o bruxo com facilidade pelo curto caminho de

cascalhos até o umbral.

O velho alisava a barba e após entrarem fechou-se a porta de aço com um

tremendo baque e falou um encantamento ao travá-la.

Chegaram ao enorme salão principal onde os assentos circulavam focados num

pequeno púlpito de acácia no centro com dois castiçais. Bruxuleavam as chamas das

velas e o interior do salão cheirava a incenso e canela.

Cinco pessoas estavam sentadas nos primeiros bancos e acompanhavam a chegada

das visitas com um olhar de esguelha.

- Caleb – com entusiasmo um dos cinco se levantou. – Ficamos sabendo do ataque

que sofreu a pouco. – Aproximou do velho amigo bruxo e o abraçou – Tânia, a nova

convertida, passou por você em Saint Peter e contou a Babel que ela recebera uma

desprezível visita. Barak.

- Pai... essa Tânia é aquela que passou por nós ao sairmos do médico?

- Sim, a antiga Sa‟tania... que por pouco não me matou – massageou o queixo com

ar de riso.

- Mas ela hoje vive convertida a humanidade e casada com um humano. Robert é

o marido dela e tem vindo com ela aqui algumas vezes – disse o velho Nichodemos.

- Como ele não percebe que aqui há seres estranhos como nós? – perguntou a

menina com os olhos em chamas.

- Ela o serve um cálice de vinho antes de virem aqui. Um vinho especial, lógico –

sorriu o velho alisando a barba alva. – Seu pai prepara um vinho tão bom quanto o meu

e ela pega todo mês uma garrafa... um vinho do porto... Porto das Almas.

- Nenhum ressentimento? Por ela ter querido te matar, papai?

- Filha... ela, depois de algum tempo foi quem nos ajudou a entrar no MayFlower

para irmos à Nova Inglaterra. Ela conhecia o capitão do navio e a Inglaterra estava com

seus cavaleiros e caçadores loucos por derramar sangue de bruxos, feiticeiros, vampiros

e lobisomens, pois não compreendiam que alguns de nós não nos deixamos levar pela

obscuridade da alma amaldiçoada.

- De fato vejo que não temos culpa de nascer assim... eu até ontem era humana –

ensaiou um sorriso, mas engoliu.

- Você foi a única que nasceu vampira... pois os vampiros são estéreis. Mas,

lobisomens, bruxos e feiticeiros realmente herdam de seus genitores e vampiros geram

filhos com agressão, como uma boa mordida e mortais sugadas. Por isso, menina, você

é especial. Gerada com amor.

- Ser sugado por um vampiro já é o bastante para um humano se transformar? –

encarou o pai e depois o velho.

- Não. É necessário que a vítima seja reanimada com o sangue do seu agressor,

pois se não for do próprio agressor as chances são mínimas de transformação. Um

vampiro novo não saberia animar sua vítima, pois ele suga quase todo o sangue da

vítima, deixando-a bem seca, porque há um limite para ser sugado quando se quer

transformar, ou melhor, amaldiçoar alguém.

- Bem. Estamos aqui por sabermos que este é o lugar mais seguro de toda a

Inglaterra nesse momento – disse Cammo caminhando de um lado para o outro. – Por

isso trouxe a Matilha aqui. Luke – um rapaz ruivo e magircela, - Alfred – um senhor de

meia idade com óculos de meia lua, - Sarana – uma mulher clara de cabelos negros e

olhos azuis como de um cão siberiano e – Tobby – um menino de quatorze anos

franzino e loiro.

- Sua Matilha está segura aqui – afirmou o velho virando-se para o Caleb. – Nós

estamos...! – todos olharam para o teto quando um som estranho adentrou os paredões

do castelo.

- Aguce sua audição minha pequena – Caleb fitou a filha.

- Isso tudo é novo pra mim, mas vou tentar... – ela fitou o teto e seus olhos

contabilizaram até mesmo as teias de aranha de lá.

- Existe uma câmara mais segura que este salão, meu velho? – disse Cammo.

- O porão guarda uma maldição. A mais terrível de todas que vocês possam

imaginar. Há mais de quatrocentos anos eu não entro lá.

- O que seria isso?

- O primeiro ser que adentrar os porões não retornará.

- Deixem-me ser o primeiro e vocês todos estarão livres da maldição – disse o

velho lobo e uivou baixo. – A vida perdeu o sabor para mim desde que perdi a Roxie

para os dentuços... Desculpe-me falar assim pequena Amber.

- Que isso. Não me imagino como aqueles dentuços, apesar de ser uma... agora.

Um segundo barulho ruiu pedras da grande nave e os lobos uivaram

moderadamente. O menino loiro parecia amedrontado e a mulher aguçava as garras e

dentes. O homem e o rapaz despiam dos capuzes que usavam até agora. Rosnavam

como cães.

Um baque surdo no portão principal. Passos pela escuridão da nave. Ecoavam

sapatos de solado de madeira no piso de pedras. Parecia ser um. Depois dois. E logo,

pareciam três seres no interior do salão. Olhos flamejantes. Três pares de olhos ferozes

se propagavam no fundo do castelo. O encanto havia sido quebrado. O encantamento de

segurança do local havia sido rompido por aqueles seres infernais. Uma brisa mortal e

gélida passeou por dentro do salão. Cheiro de sangue chegou às narinas dos que

estavam refugiados no meio do salão, em volta do púlpito de acácia.

XV - O Tormento

As corujas piavam lá fora num coral fúnebre. Os três pares de olhos avançavam

para o centro do salão. A lua lá fora brilhava parcialmente, era crescente, por detrás das

nuvens escuras. De repente um corpo juvenil foi lançado para o centro se estatelando no

púlpito.

- Brigite – berrou a menina vampira. – Seus desgraçados! Ela é um pobre e

inocente humana. – Os olhos flamejantes de Amber se acenderam mais do dos três

vampiros juntos.

- Vejo que tem muita amizade em jogo aqui! – disse uma voz rouca e feminina de

uma vampira. – Era morena e em suas unhas havia sangue. Seus lábios eram

constantemente lambidos por uma língua bifurcada. Seu nariz e orelhas pendiam vários

piercings.

- Maldita Melissa! – Esbravejou o bruxo Caleb.

- Olha se não é o bom e meigo Caleb... – a vampira se adiantou e se pôs frente a

frente com o bruxo encarando-o.

Amber numa velocidade incrível socou-a com toda força que pôde e continuou

indo para cima da morena, em cada soco lhes arrancava algumas peças de metais do

rosto dela.

- Você devia amar aquela vaquinha lésbica! – passou as garras no pescoço de

Amber jogando-a para a escuridão no fundo do salão.

Nichodemos tentava algumas magias de proteção enquanto os lobisomens

brigavam com os outros dois vampiros. Por não ser lua cheia a transformação não

poderia ser completa. Somente dentes e garras se aguçavam sem a proteção da pele

grossa e peluda de lobisomem. Caleb correu para a escuridão à procura de Amber.

Rômulo comandava uma ventania dentro da nave. Barak congelava o menino Tobby.

- Ataque com tudo o vampiro de poder congelante, ele não está parecendo muito

bem – disse Cammo notando que Barak estava com a pele muito ressecada e queimada.

- Eu, sem os dois braços posso com vocês seus bandos de pulguentos.

Alfred avançou no pescoço do vampiro e o jogou contra os primeiros bancos de

madeira rústica.

Luke uivava e pula de banco em banco espreitando a vampira morena. Sarana

uivou e conseguiu uma transformação completa, uma imensa loba branca.

Cammo sorriu e se concentrou o que pôde e logo começou a se transformar num

gigantesco lobo cinza.

Alfred estraçalhava um braço do vampiro Barak.

- O Monarca já não é o mesmo – caçoou Caleb trazendo nos braços a filha

desacordada.

- Subestimam-me seus bruxos e cães fedorentos – o vampiro pulou o mais alto que

conseguia e seu braço cicatrizava duma maneira fantástica. Umas tochas foram acesas

nos cantos da grande nave. Tudo estava um pouco mais visível. As chamas foram

atiçadas pelo velho Nichodemos através de uma magia.

- Cadê Karl? Ele está demorando demais para chegar com seus artefatos para

expelir os dentuços.

- Suas mágicas estão uma piada meu velho Nicho... – encaminhava Barak, -

Melissa usou palavras simples e o sangue daquela menininha, e puff! Entramos! Hia!

Hia! Hia!

- Pague para ver seu imundo e sem alma – o velho encarou o vampiro. – Verum

Venenum! – berrou Nichodemos enquanto Barak pregava as presas terríveis no pescoço

dele.

Um rebuliço entre os bancos estalavam como que quebrassem aos mil pedaços.

Alfred separava a cabeça do corpo de Melissa. Ajudado pelos meninos Tobby e Luke.

Alfred estava exausto, havia conseguido se transformar num lobão preto e levemente

despelado nas costas. Caiu de tão cansado, suas patas sangravam.

Cammo e Sarana lutavam com o Principal. Rômulo estava cercado e invocava

muitos ventos gelados.

Um imenso nevoeiro se propagou e ninguém podia ver um ponto de luz, pois se

apagaram as chamas das velas e tochas dentro do salão.

Um silêncio infernal rompeu dentro da gigante nave de pedras. Jazia ali os corpos

de Melissa, Brigite e Barak.

- Fiat lux – Nichodemos usando um encanto fez acender alguns castiçais e um

candelabro de prata no fundo onde havia um órgão de fole, com móvel em carvalho e

teclas artesanalmente feitas de ossos humanos. E a luz se fez presente pela voz frágil e

debilitada do velho.

- O que houve com Barak? – perguntou Caleb impressionado com a fisionomia

azulada do vampiro Monarca.

- Lavrem uma estaca daquele órgão. Arranquem um bom pedaço e lavrem uma

estaca de carvalho e meta no coração desta praga – respirou com dificuldade, - andem

rápido. Vocês me ouviram – com ímpeto o velho ordenou e foi deslizando encostado no

púlpito.

Cammo foi ligeiramente e arrancou uma boa lasca da madeira do órgão e voltou

ferozmente babando para terminar com o vampiro paralisado ali no centro. Chegou e

voltando aos poucos em forma de homem levantou a estaca e bravamente enterrou no

peito de Barak.

- O Que houve com ele...? para que paralisasse – perguntou o menino Luke.

Caleb deixou a filha deitada num banco, dos poucos que estavam inteiros, e tentou

socorrer o velho com algumas palavras antigas e encantamentos. O velho foi ficando

com a coloração azul e sumindo o sentido fechou os olhos.

- Ele está morrendo? – berrou Tobby.

- Infelizmente sim. Ele envenenou o próprio sangue com o encanto do verdadeiro

veneno. Assim conseguiu paralisar o dentuço imbecil que foi sugá-lo. – fez força para

sorrir, mas seu rosto se desmanchou em choro e lamento. – Vampiro que suga bruxo

consegui evitar ou atiçar alguns encantamentos, por isso Melissa tinha alguns dotes

mágicos... tive o desprazer de ser sugado por ela uma vez... num tempo remoto...

quando namoramos... certa vez, quase me levou a morte.

- Mas ele pediu para metermos uma estaca no maldito... – completou Cammo.

- Pois um vampiro, nesse nível, como Barak poderia se curar do envenenamento,

dependendo do tanto de sangue que tomara, daí o velho bruxo teria morrido em vão.

- Que nível é esse? – despertava Amber.

- Ele é do Primeiro Sangue, mas domina os elementos, espectros ou poderes como

os Matusaléns fazem.

- E essa vaca? – perguntou Sarana.

- Ela é do Segundo Sangue, mas adquiriu conhecimentos de Primeiro Sangue e

algumas mágicas como disse anteriormente.

- Eu... não posso partir sem dizer... a maldição no porão desse castelo requer uma

vida e todos os conhecimentos estarão libertos... eu nunca vi nem entrei lá... se tivesse

força... eu mesmo... agora entraria lá... tem de ser espontâneo... e dar-se por inteiro ao

desconhecido local... e deveras maldito... – deu o último suspiro e morreu.

O ar estava tenebroso e alguns relâmpagos se propagavam lá fora inundando o

interior do salão com seus clarões frenéticos. Sarana uivou e fitou as sombras

tenebrosas que dançavam após eles no centro.

XVI - Retomada

Os meninos lobisomens retiraram de uma mala um enorme pedaço de presunto e

ofereceram à menina faminta, Amber não pensou duas vezes em pegar.

- Está bom, mas... falta alguma coisa – a menina encarou o pai e Caleb inclinou-se

em atenção a ela.

- Sangue... filha. Esta é sua maldição. A sede de sangue a fome voraz que

perturbará seu estômago. Mas, você é uma hibrida e conseguira com mais facilidade

controlar sua sede e utilizar sangue de animais uma vez ou outra para manter-se forte.

Eu fazia-lhe chás de todas as espécies para inibir seu lado sombrio, mas agora é hora de

seu controle próprio.

- Entendo... – mirou a amiga esticada no chão de pedras polidas. – Temos de

entregá-la a sua família.

- Pode deixar comigo – disse Cammo ajeitando um jaleco amarelo e um crachá

falsificado que o identificava como um agente de polícia de estradas. – Posso dizer que

houve um acidente com a menina, mas preciso de um amuleto de confiabilidade...

- Existe tal coisa? – indagou a mulher de cabelos negros e olhar sedutor.

- Existe muita coisa que nem podemos imaginar, minha amiga, e com este velho

aos nossos pés morreram boa parte da sabedoria dos bruxos – Caleb limpou uma gota de

lágrima. – Levarei este velho ao fundo e o cremaremos antes do nascer do sol – devia

ser umas cinco e meia naquele instante.

- Teremos um pouco de paz de dia, não teremos? – a menina devolvia um bom

pedaço e os meninos Luke e Tobby acabaram com o resto do presunto.

- Acredito que pelo menos até a próxima noite, querida.

- Dê-me um pouco de sangue para que eu fique um pouco mais forte meu pai.