A outra noite por Reginaldo B. Ribeiro - Versão HTML

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Caleb observou dentro do seu casaco e trouxe para fora um frasco de cristal. O

líquido vermelho cintilava nas tímidas luzes que o apresentavam.

- Sangue de porco. Alguns humanos comem isso cozido – falou Alfred se

levantando do chão frio e franzindo o carão que tinha. Ajeitou os óculos.

- Não deveriam... – com abatimento no semblante o bruxo deu a sua filha.

- Vocês se transformam fabulosamente – Amber fitou a mulher e Cammo.

- Alguns lobisomens fora da lua cheia conseguem transmutar-se em lobos... nem

todos... mas os que são amigos de bruxos conseguem um berloque contendo um encanto

de animália... a pessoa transforma-se na fera que mais lhe apraz ou deseja. Esse encanto

nós três conseguimos com o velho Nichodemos. – Envolveu o corpo de Brigite numa

toalha branca que cobria uma grande mesa rústica. Caminhou para fora acompanhado

pela Sarana que vestia um jeans azul e lançara sobre si uma manta de lã. Acompanhou

até a porta que dava para rua, após a saída de Cammo a mulher fechou os portões

estourados com estrondo empenhando enorme força para travá-los.

- Um pouco de privacidade é o que nós precisamos para ajeitar as coisas aqui –

comentou Sarana.

- Eu preciso ver o doutor Babel – disse Caleb. – Fique aqui meu amor. O lugar

com o nascer do sol ficará um pouco seguro.

Caleb foi saindo pela porta do fundo levando o corpo do velho com a ajuda de

Alfred. Há uma pedra cerimonial nos fundos do terreno deste castelo, o colocaremos lá.

Duas tochas foram inflamadas e o velho foi posto deitado sobre a pedra

cerimonial. Gravetos foram colocados um a um sob palavras em latim: cremo carus dux

hodie. Honoro humilis in immortalis hortus.

Encostou as tochas e a chama se levantou rapidamente.

Depois de longos segundos cabisbaixo, Caleb elevou os olhos para a direção da

fumaça.

- Vem do norte um casal de caçadores e vem do sul cinco seres das trevas – ao

ouvirem as palavras do bruxo todos se arrepiaram, exceto Amber. – Não há muito

tempo, vou ver Babel e buscar uma força e mais ajuda com ele. Recebam o casal e se

cuidem aqui dentro do perímetro do castelo.

Todos desviaram um segundo de olharem para o bruxo e ele já desaparecera.

XVII - Os Caça-Trevas

Poucas horas depois que Caleb saíra. Uma caminhonete azul bem antiga subiu os

gramados sagrados do jardim da frente e parou sobre um canteiro de orquídeas

carnívoras.

Um rangido e as portas do veículo se abriram sincronizadamente.

Botas escarlates pisaram o chão relvado com firmeza e um chicote pendia à

cintura da mulher de quase trinta anos, Rebecca Saintcross: cabelos lisos e castanhos

claros; olhos verdes penetrantes; sobrancelhas finas; lábios provocantes e brilhantes;

unhas vermelhas; jaqueta vinho de couro; um metro e setenta e sete; pele clara. Numa

alça pendia uma escopeta calibre doze e seis estacas de madeira presas ao colete de

baixo da jaqueta.

Uma figura masculina desceu por outra porta usando um sobretudo preto; calça

jeans azul e camiseta verde oliva. Dante Jordan: olhos cinza claros; pele pálida; cabelos

extremamente negros curtos e arrepiados. Trazia duas pistolas sob o casacão.

Havia apenas um item em comum com casal que descera da caminhonete: um

crucifixo de prata pendendo no peito. Formato gótico e a corrente era de grandes elos.

- Houve ataques por aqui – Dante tinha uma voz seca e interrogativa, - e estamos

no local onde nosso mapa apontou.

- Clarividência? – perguntou Luke.

- Não, meu rapaz. GPS mesmo. Quem me dera ser vidente com alguns feiticeiros e

bruxos – sorriu gentilmente ao garoto de olhos estalados.

- Mas devo acrescentar que foi um aviso dado pelo doutor Charles Babel no blog

da Plêiade – completou a voz doce e profunda da caçadora. – Havia risco nesta região...

incidência de ataques dos seres das trevas.

- Correto. Estavam corretos as informações e pessoas boas e inocentes já

morreram nessa noite – esbravejou Amber.

- Uma amiga dela... uma humana... – cochichou Sarana e o homem pálido ouviu

claramente por sua audição aguçada.

- Lamento sua perda, minha jovem... vampira – Dante se aproximou e levantou o

queixo da menina. Os olhares cruzaram como uma seta de fogo que se aprofunda no

alvo.

- Sua lamentação não a trará de volta – deu de ombros de correu para dentro do

castelo.

- Nos desculpe. Ela ficou sabendo a pouco que é uma vampira e ainda perdeu a

melhor amiga de escola – Sarana aliviou a tensão.

- Eu sei o que é isso, ...

- Sarana, meu nome é Sarana.

- Sou Dante. E sei o que é perder alguém.

- Sou Rebecca, caçadora e parceira deste vampiro grosso aí – sorriu apontando o

dedo ao companheiro, - e sou humana.

- Que cruzes maneiras vocês têm aí! – Tobby falou.

- Nossa força a mais, nosso diferencial – sorriu lindamente Rebecca. Havia uma

joia no centro da cruz. Muito vermelha. Parecia uma bolha de sangue viva. Uma pedra

de jaspe vermelhíssima. – Nossa Lapis Sacra.

- Seu chicote é estranho – Luke curioso rodeava a mulher.

- Meninos, para que incomodar nossos amigos – Sarana ficou brava.

- Deixe-os Sarana. Eu explico. – Retirou da cintura e espichou o chicote e depois

uniu a ponta com a parte que saía do cabo – isso é terrivelmente mortal aos vampiros...

- Eu fico meio... que longe quando ela vai usar esse treco – sorriu o vampiro.

A mulher uniu e o chicote tornou-se um rosário de contas vermelhas e negras. As

que saiam perto do cabo eram mais grossas e gradativamente diminuíam até chegarem à

ponta.

- O Rosário do Sangue. Cada conta tem uma gota de sangue de um santo ou

caçador milenar. As contas que estão negras são as que já foram utilizadas. Eu preciso

descobrir quem nos nossos dias é capaz de encontrar o local em que se recarrega o

poder deste artefato. Ele é magnífico em sua eficácia.

- Eu posso imaginar – suspirou Alfred encarando o objeto enquanto a caçadora o

recolhia à sua cintura. Suspirou com um pouco de uivo ao fitar a beleza sem igual da

humana.

A manhã foi clareando e todos prepararam bolos de carne nos fogões internos no

castelo, na ala leste. Beberam vinho tinto e comeram bocados de bolos. Amber sentiu-se

bem pela primeira vez desde a primeira transformação. Havia tomado aquele frasco de

sangue e agora se empanturrava de bolo. Sua mente fervia em pensamentos de como

estariam reagindo os familiares de Brigite. Pobre sonhadora. Não perdoaria qualquer

vampiro das trevas naquele momento.

XVIII - Saint Peter

As coisas pareciam ter enlouquecido em cada canto, rua, esquina e pubs por onde

Caleb passava. Estava dirigindo uma van que era de propriedade da Plêiade do Sangue.

Alguns acenavam para o van, deveriam ser filantropos que auxiliavam a entidade ou

alguns membros e congregados dela. Briga nos bares barra pesada deixaram sinais nas

ruas como garrafas e cadeiras quebradas, poucos carros de policiais passavam por ali.

Traços de sangue próximo ao local onde ficava o edifício Saint Peter. Dúzias de

pessoas circulavam por ali meneando a cabeça e resmungando idiomas estranhos.

Parando o van o bruxo percebeu que eram pessoas que não conseguiram entrar no

edifício desde a vigília passada.

Uma bruxa corcunda e cheirando a naftalinas chegou perto de Caleb:

- Oi, doutor Caleb – era considerado doutor em Herbologia Amazônica, - o senhor

sabe o que se passa, pois nenhum de nós pôde entrar. Deve ser uma grande magia nos

interrompendo fazê-lo.

- Deixe-me ver a situação das portas e janelas – o bruxo ficou nas pontas dos pés

estudando alguma coisa que um normal não enxerga. – Está trancada por dentro. Uma

magia obscura. Preciso de três pessoas conhecidas lá dentro. Alguém conhece quem

pode estar lá?

- O doutor Babel é certo que esteja – falou uma moça de cabelo muito branco,

como lã, e bem liso.

- Eu vi Tânia e o pequeno Donovan – disse um velho de rosto muito enrugado,

suas bochechas pareciam as de um buldogue.

- Obrigado senhor e a senhorita – a menina sorriu singelamente e o velho tossiu.

- Sou Patty de Patrícia... sou a cabeleireira que o senhor nunca visitou – fez cara

de brava.

- Desculpe-me senhorita. Vou tentar não cortar meu próprio cabelo e passarei no

seu salão.

- O senhor parece brigar com o pente todos os dias. Desculpe-me a franqueza?

- Que isso – riu esticando os lábios fechados.

- Espero sua filha linda também – sorriu novamente.

- Pode deixar, senho...rita Patty – engoliu palavra.

Alguns vampiros estavam apavorados, pois alguns possuíam poções em berloques

e colares que tinham pouca durabilidade perante o sol. Aguentariam um pouco de sol

até começarem a queimar, por isso alguns já haviam voltado para suas residências. A

combustão vampírica é horrível. Primeiro eles começam a esfumaçar até serem

inflamados pelos raios ultravioleta do sol.

Lobisomens uivavam como cantigas e isso perturbava quem tinha pressa para

fazer algum trabalho dentro do prédio.

- Vai demorar doutor? – perguntou um negro. Vampiro dentista. – Meu bracelete

suporta cinco horas de sol por dia e hoje farei compras com minha esposa... não posso

desperdiçar os minutos preciosos.

- Entendo e pelo jeito ela é humana, não?

- Exatamente meu caro doutor.

- Não demoro. Preciso me concentrar agora e lembrar algumas Palavras Antigas. –

agachou-se perto da porta principal e mexia os lábios como em uma oração intensa

pronunciando fonemas incomuns a qualquer idioma conhecido, e indescritíveis.

Um estampido ensurdecedor rajou e umas dezenas de vidros se estraçalharam.

- Correto... as três pessoas citadas por vocês estão lá dentro e lutavam para sair

desde ontem a noite...

Um alvoroço se formou e em segundos ninguém mais estava na calçada,

principalmente os vampiros.

- Caleb – gritava Tânia, - que bom vê-lo meu amigo. Eu e Babel estávamos

preocupados com você e com os outros.

- Vocês sabem o que houve?

- A Vidente Hilma... – uma bruxa de cabelos ruivos acenou no canto da sala,

enquanto Tânia dizia... - nos anunciou a morte do ancião Nichodemos e o ataque dos

filhos das trevas... – respirava fundo e... – cadê os desgraçados?

- Acredito que algum deles fez essa tranca mágica aqui no prédio.

- Não veio ninguém incomum aqui ontem pela tarde ou de noite... – pensava

Babel.

- Pense bem meu amigo. Reflita em algo menos que incomum – Caleb olhou para

uma cadeira e viu uma vampira muito magra.

- Pode ter sido ela – cochichou o bruxo, mesmo sabendo que a vampira poderia o

ouvir perfeitamente.

Ela despertou e o fuzilou com os olhos em brasas.

- Impossível. Quase morri pelas presas de Rômulo Crow o Principal... se não fosse

Babel eu seria uma cantiga em bocas de velhas nesse momento.

- Exato. Ela foi atacada no teatro e eu atirei de lá. Ela está muito fraca... a

abstinência de sangue de todo os tipo, humano ou animal, está aniquilando sua vida.

- As beterrabas e raízes bravas não estão dando resultado como deu a minha filha

por centenas de anos?

- Pois sua filha nunca havia tomado sangue e isso fez que o trtamento com

beterrabas e raízes surtissem melhor efeito, mas a uma vampira velha e sugadora de

sangue é quase impossível uma mudança radical dessas.

- Tirando a “velha”, vocês podem me tratar como quiserem... doutores!

- Desculpe-me! – sorriu Charles e voltou a conversar com Caleb. – Disse que ela

deve tomar sangue de animal regularmente e ela não quer.

- Eu quero morrer. É isso mesmo! Para que serve a eternidade? Beber e beber?

Transar e não ser fértil para gerar um bebê sequer.

- Faça como eu, Desdemona, adote um filho – brincou com o Donovan e ele

sacudiu o pequeno chocalho.

- Preciso de um pai... um cara que eu queira ter sexo e família primeiro...

- Isso mesmo... já é um ótimo começo... querer mudar de atitude além de ter

mudado de prática, como a prática sanguinária em que vivia.

- O Rômulo é o cara que eu queria, mas ele é patético e continua com sua sede a

tona...

- Ele faz parte da Sociedade das Trevas e parece irredutível no caminho obscuro.

Não se converte a humanidade nem com toda magia do planeta.

- O desgraçado é o Principal... e me chupou nesse dia em que Babel me socorreu...

ele estava para por um fim em mim... mas eu nunca... nunca diria a ele nadinha sobre a

Poderosa Sophia...

- Você sabe onde está Sophia? Depois que ela desapareceu na Nova Inglaterra a

dei como morta e continuamente apagava as lembranças dela da memória de nossa filha

e até de mim mesmo...

- Não me diga que tomou alguns dos meus remédios de esquecimento? – Babel

perguntou com extrema indagação. Caleb balançou a cabeça positivamente.

- Por isso nem mesmo eu saberia dizer muitas coisas para minha filha sobre ela...

estava contando a história de como nos conhecemos e a partir do navio MayFlower...

tudo ficou desbotado na memória e apagado.

- Olha... pensando bem... falando em memória, lembrei-me de alguém que veio

ontem por altas da noite... – coçou o queixo.

- Quem, Charles?

- Seu aprendiz... o Karl. Ele estava estranho e te procurava como louco.

- Engraçado. Saímos de casa juntos e íamos para o castelo da Plêiade do Sangue.

No caminho ele enfrentou um vampiro e até a hora em que saí do castelo ele não havia

chegado...

- Quem era o vampiro? – indagou Tânia.

- Creio que fosse Caim...

- O Toma-Vidas?! – a fisionomia de Babel ficou assustadora.

- Está explicado, então. – Desdemona pulou e ficou de pé. – Ele come o coração e

transforma-se naquele indivíduo. Ele matou e comeu o coração de Karl o rapaz caçador

e aprendiz de feiticeiro. Era um belo jovem. Pena não ter tido tempo de catá-lo em uma

noite dessas – olharam para ela. – Calma pessoal. No bom sentido é lógico. Parei de

fazer mal as coisas bonitas do mundo – sorria friamente e seu semblante foi ficando

vampiresco.

- Devo voltar o mais rápido possível até o castelo, pois minha filha pensará que o

jovem é ainda o caçador Karl – elevou a voz o bruxo.

- Vou contigo – Babel vestiu um casaco de búfalo.

- Eu não perderia por nada – Desdemona puxou a jaqueta e vestiu.

- Eu preciso cuidar de Donovan e voltar para casa, pois meu marido passou a noite

sem mim. E inventar uma boa história.

- Diga que por uma magia estranha você ficou presa no consultório do doutor

Charles – Desdemona deu uma gargalhada sinistra.

- Cala sua boca, vadia!

- Estou brincando, meu docinho – saiu mandando beijos para Tânia.

Os três entraram no van e saiu a toda pela avenida que tinha pouco trânsito. Tânia

os fitava virando a esquina e suspirou em Palavras Proibidas.

O sol esquentava, mas não muito, nem perto de derreter o gelo amontoado, devido

à nevasca dos últimos dias, nos telhados.

XIX - Lacaios dos Seres das Trevas

O van era munido de muitas armas. Havia duas escopetas e várias munições de

prata. Uma espada de samurai, dardos, cutelos de madeira, adagas de prata e diversos

potes com misturas de raízes e ervas mal cheirosa.

- Esse carro me dá arrepios! – exclamou Desdemona.

- De fato aqui dentro há um arsenal bem legal para quem quer acabar com a nossa

raça e a dos lobisomens – apontou para os projéteis de prata.

- Todo cuidado e defesa é pouco em se tratando de vocês, vampiros, meus amigos

– o bruxo deu uma risada apreciativa e os dois vampiros riram obliquamente.

- Olhem para aquilo – indicou Desdemona colando-se ao para-brisa.

- Lobos gigantes. Transmorfos – são os únicos que se transformam durante o dia,

geralmente são usados como cães dos vampiros, – pensei que a Matilha das Trevas

havia se extinguido em mil oitocentos e dezoito.

- Pois é. Aquele seu amigo Cammo chegou a ser o líder da matilha – disse Charles

pegando a escopeta e projéteis de prata.

- Por que a prata machuca esses cães? – indagou Desdemona analisando a espada

de esplêndido brilho.

- Ela nos machuca também. Mais que um chumbo qualquer... – Babel explicava, -

mas os lobisomens e transmorfos são afetados até mesmo se tocarem.

- As trinta moedas de prata amaldiçoadas por trair um sangue inocente –

completou o bruxo ajeitando um trinta e oito na cintura.

Puxou o freio de mão jogando o veículo em três cães vermelhos acastanhados,

dois pularam no para-brisa quebrando-o metendo as garras com ferocidade. Uma rajada

de escopeta explodiu no peito da besta e ela foi parar longe do carro. Babel pulou para

fora e engatilhava o trabuco novamente. Estavam a duas quadras do castelo da Plêiade

do Sangue. Haveria quase uma centena de lobos e enormes cães por ali. O bruxo seguia

a frente dos vampiros e disparava nos cães menos covardes ou mais corajosos em atacá-

lo. Desdemona desferia golpes e lances magníficos com aquela espada samurai. A

vampira aplicava cortes perfeitos e fatais. Uma cena de guerra e terror na claridade do

dia se misturava aos gritos de poucos humanos que passavam por ali e os urros de feras

raivosas.

Um garotinho gordo corria de um cão que só não o devorara ainda por estar

gostando de vê-lo correr suando, berrando, caindo e levantando. O bruxo foi em direção

ao cão usando alguma magia para que seus passos fossem mais rápidos que o normal.

Disparou três tiros e dois pegaram o enorme cão que brincava com sua presa

rechonchuda.

- O senhor é policial? – bufava de cansaço o garoto gordo.

- Quase isso, menino, quase isso! Diria que sou do Controle de Animais. Corra

para um lugar seguro. Corre! Corre!

O gordinho saiu capotando e levantando até virar a esquina.

Um trilha de sangue e chamas se fazia atrás dos dois vampiros. Caleb ia mais

distante, porém com a visão focada nos parceiros vampiros.

Já avistavam o grande castelo de pedras e uma alcateia se formava em frente a ele.

XX - Cães Entre Nós

Um ruído fora do castelo perturbou o final da refeição dos que estavam no interior

do castelo. Logo as janelas altas se estilhaçaram de uma vez e enormes cães entraram.

Dezenove cães ferozes se propagaram no interior gelado do castelo. Sarana se

concentrou o bastante e transformou-se na gigantesca loba branca, ela dava três dos cães

em estatura. Olhou para os meninos e eles entenderam que era para se esconderem, pois

Luke e Tobby não eram transmorfos e suas forças de lobisomem se faziam na presença

da lua, a saber, completamente em lua cheia. Os meninos magricelas entraram de volta

na cozinha e se trancaram. Alfred jogou os óculos na parede e se transformou babando

de raiva e no primeiro lance pegou um cão pelo pescoço e lançou-o nos degraus

próximos ao centro do salão. Sarana eliminava o segundo cão gigante rasgando-lhe a

barriga com suas potentes garras.

Dante disparava contra dois cães. Aguçava seus olhos e ouvidos para sentir qual

dos animais estaria mais próximo dele ou de sua parceira. Rebecca lançava adagas de

prata e não errava um tiro sequer.

Amber estraçalhava os cães como se fossem cabritos novos. As garras de um cão

negro rasgou a face de Amber e na ferocidade da luta a menina aguçou suas unhas e as

enterrou no peito do grandalhão e ele esganiçou até morrer. O rosto de Amber foi-se

curando enquanto ela desferia um soco violento no focinho de um cão pardo, e ele foi

para nos fundos do salão, morto com apenas um soco.

Ganidos, urros e muitos sons de destruição podiam ser ouvidos do lado de fora da

nave de pedra. Agora. Faltavam apenas dois cães.

Dois disparos vieram de fora. Babel e Caleb os efetuaram.

- Como estão vocês? – Caleb veio correndo para sua filha e a abraçou e a menina

foi retornando às feições singelas de uma inofensiva adolescente. Suas unhas

normalizaram. Seus olhos voltaram das brasas. Suas presas diminuíram.

- De onde vieram esses cães? – disse Sarana no momento em que voltou a forma

humana, pois em forma de lobo os transmorfos não emitem palavras.

- Matilha das Trevas... creio que seja – respondeu Babel passando um trapo velho

da arma dando um lustre nela.

- Estão pegando pesado... mesmo – gemia Alfred. – Fui atacado por cinco ao

mesmo tempo. Aí ferrou!

- Tenho no carro alguns potes de pasta curativas feito de inúmeras ervas. Vou

busca-lo. O carro ficou a duas quadras daqui.

- Não, – disse Desdemona. - Fique com sua vampirinha que eu busco o furgão. –

A vampira muito magra e seca se moveu numa velocidade incrível e ninguém, a não ser

os vampiros dali, a viu sumir pela entrada principal. A grande porta estava escancarada

novamente. Com toda certeza os vampiros eram mais velozes que os lobisomens.

Os meninos lobisomens saíram do esconderijo e viam o estrago feito pela briga.

- Demais! – Luke disse boquiaberto.

Dante amarrava suas botas e numa delas cintilava um punhal de exímio brilho e

uma dezena de cruzes estava gravada no corpo da lâmina.

Caleb de longe via sua filha numa conversa muito gesticuladora com o caçador de

vampiros. Estaria ela reafirmando os ditos do pai, confirmando a veracidade sobre os

vampiros, pensava o bruxo inquieto.

XXI - Pior, Que Seja!

Babel trabalhava com os ferimentos em Alfred e conversava com Caleb sobre sua

última visita ao velho Nichodemos.

Rebecca arrumava suas tralhas de guerra e era cobiçada pelos olhares dos

lobisomens adolescentes a ponto de uivarem disfarçadamente. Ela os chamou para que

se aproximassem dela e deu de conversar com eles.

A tarde chegava trazendo um frio horrível e Cammo despontou pela porta com um

semblante aterrador...

- Que houve? – indagou Caleb.

- Aquela vampira vaca! A Desdemona jogou um furgão em cima de mim e capotei

como um cachorro de rua por cima de alguns latões de lixo – ele mancava e mostrava a

pouca roupa que tinha rasgada e os ferimentos cicatrizando-se lentamente.

- Está com fome? – Sarana docilmente perguntou.

- Morrendo...

- Por favor – indicou que a seguisse, - na cozinha ainda há bolos de carne.

- Também estou com fome, mas – sorriu – diria melhor com a palavra sede –

pegou um cantil de dentro do sobretudo e o abriu. – Algum vampiro quer um gole? –

apontou primeiro para a menina vampira e depois para Babel.

- Não. Obrigado! – respondeu o médico.

- É de gente ou de animal? – Amber ficou curiosa.

- De gente. Mas não a matei. Tirei o suficiente para que ela fosse internada, mas

não a matei.

- Dante. Por favor?! – Rebecca esbravejou e se pôs de pé.

- Desculpe-me, mas falei a verdade – ele com sua voz galanteadora seduziria

qualquer mortal a lhe dar o sangue que precisasse, principalmente as mulheres.

- Posso experimentar? – Amber fitou o pai.

- Filha não a proibirei de nada. Porém, esteja ciente que uma vez provando o

sangue humano não tem mais volta. Nunca o sangue de animal a saciará novamente.

Veja o exemplo de Desdemona que acabou de nos trair sabe-se lá por quê.

O clima ficou mais tenso enquanto Dante virava o cantil na boca.

Babel irrequieto começou a resmungar.

- Que foi, amigo? – o bruxo o encarou.

- Temos de despertar Sophia – falou com a voz rouca e tenebrosa. Seu corpo

magro e espichado girou como vara verde até encontrar os ativos olhos de Amber.

- Mamãe está por perto?

- Fiquei sabendo que sim... numa das visitas ao bruxo ancião Nichodemos.

- E escondeu de mim... – Caleb enfureceu-se.

- Quanto menos pessoas soubessem disso, melhor seria para a Plêiade do Sangue.

- Meu melhor amigo escondeu de mim o paradeiro de minha amada...

- Não é bem assim, Caleb...

- E como é?

- Ela não está entre nós... ela jaz no descanso provisório Capital dos Sem Alma.

Uma prisão em que o corpo dorme eternamente e apenas por maldição ele consegue

retornar.

- Não brinca comigo... nunca ouvi de tal lugar...

- Eu também nunca tinha ouvido meu velho amigo... olha que sou mais de mil

anos mais velho que você – tentou contrair nos lábios finos um sorriso e seus caninos

apareceram.

- Como tiramos mamãe de lá?

- Por que mexer com uma vampira que descansa? – indagou Dante arrumando o

colar com o crucifixo gótico.

- Porque um mal, um ser mais maldito que tudo está por trás daqueles vampiros

que começaram essas investidas e eles estão atrás dela. Se a despertarem, eles poderão

conduzi-la em seus feitos malignos e o mundo sofrerá a Peste Vampírica que na Baixa

Idade Média dizimou um terço da população no planeta.

- Aprendi na escola que isso era a Peste Bubônica.

- Sim Amber. Podem até dizer que os culpados eram pulgas e ratos, para não

referirem aos seres noturnos que sugavam pessoas e elas ficavam fracas e vulneráveis a

qualquer bactéria por mais simples que fosse.

- Nossa! – os lobisomens meninos em coro.

- Várias pestes acometeram o povo do mundo desde os tempos mais remotos e só

centenas ou milhares de anos depois foram que a ciência deu uma explicação... então

ficamos com a que mais nos fizer sentido – Babel riu um pouco de cabeça baixa

olhando para os sapatos de couro marrom.

- Bem! Agora Desdemona diz aos das trevas onde estamos e pereceremos aqui

trancados – lentamente Alfred explanou um comentário.

Rebecca sentou-se no púlpito elegantemente esticando sua perna esquerda sobre a

madeira e com a outra golpeou o assoalho debaixo do púlpito.

- Gosto de madeira velha. Com um golpe rompemos e descobrimos coisas

interessantes.

- Pois é minha parceira! Você achou a entrada secreta duma cripta no subsolo

desta nave.

- Nunca fui só um corpinho bonito meu caro Dante – ela sensualmente debruçou-

se ao buraco e acendeu sua lanterna procurando algum dispositivo para entrarem na

câmara oculta, a saber, a tal cripta.

Um vento frio assoviou dentro do grande castelo e o teto pareceu ranger com algo

pesado.

- Espero não ser tarde! – Charles Babel olhou para cima.

- Que devemos temer mais que acordar a Sophia? – Dante o encarou.

- O pior dos demônios vampíricos: Evil-Mardoc.

- Já ouvi dizer que ele tem uma pele grossa, cara monstrenga, asas, rabo, etc.

- E muita maldade minha pequena Rebecca – Babel respondeu calmamente a

mulher caçadora.

Ela esqueceu um pouco da lanterna e deixou que seu parceiro procurasse algo na

escuridão do buraco, pois a visão de vampiro no escuro é melhor que binóculos

infravermelhos, que dizer de uma lanterna.

- Vi uma alavanca... quebrada... mas deve ser o dispositivo – Dante arrancou umas

tábuas com garras, socos e tapas.

Os ruídos nas pedras do castelo se intensificaram.

Babel jogava um líquido de cheiro horrível sobre os ferimentos de Alfred, pois os

remédios necessários nunca voltariam com Desdemona e o furgão.

Grunhidos animalescos do lado de fora imperavam e a tarde se tornava negra.

Muita nuvem escura favorecia os caminhantes noturnos naquele instante. O terror e a

tensão saiam pelos poros. Grunhidos como de porcos selvagens aproximavam. Aos

ouvidos vampíricos chegava o som milésimos de segundos depois dos ouvidos de

lobisomens. O faro dos lobisomens também era mais aguçado que a dos vampiros. Mas,

uma visão no escuro era o melhor dos sentidos para um vampiro, sua força descomunal

e inteligência tornavam os vampiros muito superiores aos lobisomens. Fora que a força

total de um lobisomem acontece somente no período de lua cheia.

XXII - Destrancando Maldições

O silêncio assolou toda a nave. Cessaram os ruídos nos paredões de pedra. Os

lobisomens farejavam o ar sinistro e gelado que adentrava pela frente, pela porta

entreaberta. Ninguém queria pensar numa batalha tão logo. Dante escavava as madeiras

como se fossem gravetos ressecados. O vampiro aguçava as garras e sua parceira o

fitava com muito apreço. Suas cruzes cintilavam em consonância com seus olhos.

Aquele crucifixo eximia um brilho esplendoroso diante dos pequenos feixes de luz

dentro do castelo. Amber admirava a joia vermelha no centro da cruz.

- Coração de Pedro...

- Como? – indagou Amber.

- É como chamam essa joia. Vermelho-sangue. E atrás dela há uma agulha.

- Por que isso? Vocês são masoquistas... ou adeptos a algum tipo de culto?

- Não querida. Essa é uma relíquia antiga e com uma extrema magia. A cruz e seu

metal poderiam ser de qualquer mineral, mas o segredo está na joia. Essa jaspe foi

banhada com algumas gotas de sangue de Dante e a que está com ele foi banhada no

meu. Pois, nunca se morre com essa magia. Se eu estiver morta e alguém socar a cruz e

assim a agulha enterrar-se no meu peito voltarei à vida, ou se eu sentir que estou

morrendo eu mesmo posso fazê-lo. Isso acontece com a de Dante também.

- Então, você não sendo vampira acaba tendo certa imortalidade.

- Graças ao encanto dessa pedra – Rebecca mostrou o lado de trás da cruz e

Amber admirou-se da agulha que era mínima. Ela soltou a cruz e ajeitou o chicote que

envolvia sua cintura.

Amber olhava o vampiro destruindo as últimas tábuas e apontando para a porta de

pedra.

O ruído no teto voltou com terror.

Grunhidos ferozes de javalis invadiram o local.

- Parasitas! – gritou Babel.

O visual era horripilante. Os parasitas eram homens e mulheres semimortos com

cabeças de porcos ou javalis em vez de cabeça humana.

Eles entraram loucamente e Dante pulou para fora do buraco em que estava e

começou a atirar assim como sua parceira já fazia.

Os parasitas sucumbiam aos tiros certeiros.

- Tentem abrir a porta de pedra! – disse Dante.

Alfred se pôs de pé e seus pelos e garras se aguçaram. Mesmo muito ferido ele

vociferou.

- Acho que consigo devorar esses porcos – suas presas e focinhos se alongaram.

Os meninos lobos foram para a luta imediatamente. Sarana transformou-se na

enorme loba branca e avançou em dois parasitas os reduzindo a retalhos de carne.

Caleb tentava achar um meio de destrancar a pedra encantada da porta.

- Tem de haver um meio! – pensava alto com seus botões.

Amber sentiu sua face estranha novamente e seus olhos arderem em chamas. Sua

transformação era muito dolorosa e descontrolada ainda. Mas, quando garras, presas,

visão, audição e força vinham à tona ela sentia-se ótima. Sem demora partia para a luta

lançando três parasitas ao paredão.

O cheiro de sangue fétido. Odor de suor animal. Fedor de saliva ressecada. E

muita carne espalhada pela nave.

Babel estava trêmulo.

- Que foi doutor? – perguntou Amber.

- Utilizei meu poder embaralhador de mente além, muito além do normal.

Baguncei a mentes desses cinquenta e oito parasitas...

- Você contou?!

- Não precisei... minha áurea psíquica foi atingindo cada um que entrava...

- E eu pensando que eles eram muito burros por natureza – Dante tentou rir, mas

engoliu o riso ao fitar a parceira que ajeitava sua bota esquerda.

- Gente! – berrou Sarana com o lobo Alfred no colo. – Ele deu o resto de si na

batalha.

- Grande cara! – o vampiro fez o sinal da cruz. Ele não era religioso, mas amava

fazer tal sinal. – Devemos beber em homenagem a ele – retirou de dentro de seu

sobretudo uma garrafa de conhaque e bebericou. Rosqueou a tampa e guardou.

Os meninos uivaram. Tobby segurava o braço direito deslocado. Luke ajoelhou e

pareceu iniciar uma oração.

- Seremos alvos fáceis aqui. Temos de ralar daqui o mais rápido possível, pessoal

– Dante parecia impaciente.

- Encarar o Evil-mardoc não será pouco doloroso – Cammo estava perto e na luta

guardara às costas de Caleb.

- Lembre-se do que o velho bruxo dissera: “Tranca Maldição” ou sei lá o quê? –

disse o vampiro Dante sentando perto de um parasita estraçalhado.

Sarana e os lobos choravam em volta de Alfred e os outros estavam mais

próximos de Caleb. O bruxo incansavelmente ditava magias antigas e línguas profanas

ao portal de pedra.

- Até parece que se disser “blablabla” ela irá abrir...

- Dante... dá um tempo – Rebecca calou o amigo. O vampiro extremamente pálido

calou-se.

A pedra ruiu. Pedacinhos se desprendiam e começou a correr para dentro da

grande câmara.

Teias de aranha se esticavam no máximo e se arrebentavam exibindo o fundo

escuro da câmara.

- Não é que deu certo! P... – Dante pulou vampiricamente a frente de todos. –

Deixem-me ir adiante. Caso alguma maldição me consuma... apertem meu crucifixo

contra meu peito...

- Já que insiste – Caleb deu passagem ao vampiro.

Cammo e Babel vinham logo atrás de Caleb. Os meninos lobisomens e Sarana

ficaram fora. Rebecca e Amber vinham no final da fila. Os vampiros tinham uma ótima

visão no escuro, mas os bruxos, humanos e lobos precisavam de um ponto de luz.

Cammo acendeu um candelabro que trazia duas velas.

A câmara era enorme como o salão superior. Demarcações no chão eram símbolos

ritualistas. Dante avançava e lá atrás sua parceira caçadora o fitava com preocupação.

Babel caiu e se contorcia como louco.

- Que houve amigo? – perguntou Caleb.

- A maldição da câmara me pegou... é meu fim...

- Mas eu sou quem está à frente do grupo. Como ela o pegou?

- Cammo o leve para fora imediatamente – Caleb disse.

Rapidamente o lobo colocou o vampiro nos braços e correu para fora.

- Deveria ser sua fraqueza após o uso excessivo de seu poder lá fora – comentou

Rebecca.

Assim que Cammo pulou para fora da câmara o vampiro Dante caiu contorcendo-

se de dores.

- Deixe-o! – Rebecca impediu que outros tentassem fazer alguma coisa e leva-lo

para fora. – É necessário que ele sofra e morra – uma gota de lágrima saía de cada olho

da parceira. – Precisamos avançar e reaver sua mãe minha querida – Rebecca tomou

Amber pelas mãos e a conduziu passando pelo parceiro que se debatia no chão. O

coração de Amber nunca esteve tão dolorido e apertado de angústia como nesse

instante.

Caleb avançava e chamava as meninas. A agonia de Dante não terminava e eles se

distanciavam. Momentos depois o vampiro parara. Perecera em dores malditas. O

Tranca Maldições havia sido quebrado. No fundo escuro e gelado da gigantesca câmara

jazia uma mulher muito bela. Pálida. Cabelos longos levemente cacheados e loiros.

Seminua. Peitos à mostra sob um vestido de ceda que mal lhe cobria. Um cálice de ouro

perto dela. Uma bacia de pedra perto do cálice. Uma água borbulhante expelia vapores.

Parecia estar fervendo. O cálice brilhava como se tivesse sido polido há pouco. Caleb

tentava ler ou interpretar os sinais na bacia.

- Posso! – Amber avançou alguns passos. Seu pai lhe deu permissão. Ela pegou o

cálice e mergulhou na bacia. A água fervente era extremamente gelada. Sua mão ficou

dolorida e um pouco empedrada.

- Filha! – preocupou-se Caleb, mas a menina fez que estava tudo bem.

Rebecca acompanhava com satisfação cada ato da menina. Cada passo da vampira

era um avanço no desconhecido.

- Beba mamãe e volte para nós! – levou o cálice até os lábios pálidos da vampira e

com a outra mão levada ao queixo da mulher fazendo com que abrisse um pouco a boca

derramou o líquido lentamente. Um fio do líquido escorreu por fora da boca e descia

como sangue. Um vermelho vivo. Espesso como sangue. Os lábios se avermelharam

com o líquido.

O coração lento de Amber acelerou e descompassou.

Rebecca exibiu um sorriso e jogou seus cabelos para trás.

- Querida – Caleb arregalou os olhos diante da grande maravilha.

- Meu amor! – a voz rouca e assustadora da vampira encheu a câmara. Ao

assentar-se Amber pulou em seus braços.

Recebendo a Herança

XXIII – Sangue do Meu Maldito Sangue

- Você se tornou a princesa que eu sempre sonhei e desejei ser, minha querida –

abraçou apertadamente a menina franzina em seus braços e mordiscou o pescoço dela

com delicadeza e carinho. As feridas causadas pelas presas iam se fechando

imediatamente.

- Mãe, vamos embora daqui porque alguns seres querem vir tomar sua sabedoria...

- Fique tranquila, meu bebê. Evil-Mardoc não poderá entrar nesta cripta nem com

toda ciência milenar... – um baque explodiu no piso acima de suas cabeças e poeira

desceu fazendo o bruxo espirrar.

- Acho que são os caras das trevas... – disse Caleb aproximando-se da mulher e da

filha.

- Não dê mais nenhum passo... – e o teto desabou aos pés de Caleb.

- Essa foi de raspão! – suspirou o bruxo... – Sua clarividência ainda está apurada,

meu amor.

- Tire a humana daqui e leve o vampiro parceiro dela meu amor, e logo eu sairei

com Amber... – ela puxou a filha do outro lado da câmara e o teto continuou a desabar.

O vampiro magricela estava apagado, morto, mais frio que o de costume e Caleb o

lançou ao ombro para levá-lo para fora.

- A maldição é forte... – comentou o bruxo, - mas encontrarei um jeito de trazê-lo.

- Não se preocupe senhor bruxo – Rebecca juntou os punhos e socou com

tremenda força a joia do crucifixo do vampiro e ele acordou cuspindo sangue.

O vampiro tossia e urrava. Cuspia sangue e rosnava.

- Nunca... havia morrido desse jeito minha cara... nunca a morte foi tão dolorosa –

cuspiu e urrou por mais uns segundos. Puxou do bolso interno do sobretudo uma garrafa

de conhaque. Havia uma cruz na garrafa semelhante à que ele usava no peito, uma cruz

gótica. – Só assim para aquecer meu coração gelado – deu uma golada servida e sorveu

o líquido amarelado, amargo, ardente e refrescante.

- Cadê os outros? – o bruxo fitava os cantos e o centro do grande salão.

- Que inferno houve aqui em cima? – guardava a garrafa. O vampiro engatilhou

um revolver de seis tiros e caminhou lentamente. Seus cabelos azulados cintilavam a luz

da lua formosa do alto da janela. As laterais do cabelo arrepiadas para trás esvoaçavam

no pouco vento.

- Quanto tempo nós ficamos lá embaixo?

- Achava que não fosse muito... incrível que em poucos minutos os das trevas

tenham feito essa bagunça... ou essa limpeza.

Sumiram todos. Sarana. Babel. Luke. Tobby. Cammo.

- Os corpos dos parasitas desapareceram também.

Um vácuo rompeu entre eles. A nave tremeu.

No portão surgiu uma figura conhecida com um semblante descaído.

- Karl?

O sujeito andava depressa e parecia não sair do lugar.

- Alguma ilusão de ótica, velho bruxo – Dante fez o sinal da cruz com a arma.

O frio golpeou os três espantados pela visão.

- Um ser das trevas fazendo sinal da cruz por causa de medo. Intriga-me ver isso.

- Não tenho medo de nada espectro voador – apontou a arma, - passarei fogo em

seu corpo de halos encantados. Faço o sinal da cruz porque amo a humanidade.

- Coisa que você deixou há muito de ser meu bizarro vampiresco de terceira

classe.

- Terceiro sangue sim, mas terceira classe é sua vovozinha! – disparou três

projéteis em direção ao vulto.

- Merda! – urrou a sombra.

- Você o acertou – disse Rebecca soltando seu chicote da cintura, - e veremos o

que esse imbecil pode fazer de ruim para nós!?

- Que vocês botam nessa porra de bala? Dói pra cacete!

- Mercúrio, sulfato de prata, e um pouco de água... quando esfriamos a bala após

confeccioná-la... disparou as outras três e deu a carregá-la ligeiramente.

- Para você ficar sabendo... é água benta! – completou Rebecca.

A sombra gemia por ter sido atingida novamente e um rosto conhecido se

propagou na escuridão.

- Karl... é você?

- Meu velho mestre está do lado desses monstros das trevas... logo o senhor meu

bruxo!

- Cala sua maldita boca. Caim! – imperou a voz firme e forte de Sophia.

- O Toma-vidas? – suspirou Caleb.

- O primeiro e único. Tenho orgulho de ter sido o mal encarnado em diversas eras.

E essas balas são do cacete – Uufh! Urfh!

- Cadê nossos amigos? – indagou Amber.

- A pequena vadia pensa que seres tão diferente têm amigos... poupe-me, criança.

- Criança? Eu arranco sua cabeça se ousar me chamar assim novamente.

- Ao lado da mamãe e do papai até um rato tem coragem gostosinha. Pena eu estar

usando essa forma decadente...

- Não diga isso do Karl...

- Senti que a gatinha sentia algo pelo dono desse corpo... seria seu charme ou sua

discrição que encantara a jovem híbrida. – Ele caminhou distanciando. – Meio bruxa e

meio vampira... vai ser uma ótima mistura quando eu tomar sua vida... nunca gostei

muito de ser mulher, mas quando tomo um corpo como o seu... eu me sinto... como

posso dizer: o máximo!

- Cale-se. Falou pra raios! – disparou uma escopeta de dois canos na feição

horripilante do Toma-vidas.

Um vento forte. Um sopro descomunal.

- O diabo sumiu! – disse Amber.

- Torço por vocês... na busca pelos seus amigos.

- Mas mãe?!?

- Por enquanto eu não posso deixar a Plêiade do Sangue. Eu dormia na Maldição,

agora acordada nela, porém ainda presa a ela.

- Então ficarei contigo.

- Não precisa se preocupar, filha. Por que acha que eles retiraram seus amigos

daqui e por que o Caim tomou quase todos os tiros disparados pelo terceiro aí – fitou o

vampiro que alisava o cano do trabuco com uma flanela encardida.

- Deve ser porque eu sou bom no tiro minha rainha – sorriu o vampiro magro.

- Sim, mas o Toma-vidas é mil vezes mais rápido do que aquilo que ele

demonstrou aqui. A Força dentro desses paredões impede o mal de imperar.

- Por isso vencemos toda luta travada aqui dentro. E Babel ajudou muito... e nosso

bom e velho Nichodemos deu tudo de si para manter a magia do bem aqui dentro.

- Isso mesmo meu amado Caleb – encarou e aproximou-se do bruxo, - merece um

beijo que valha pelos séculos que perdemos – e sua língua parecia golpear a do bruxo.

- Hm! Hm! É hora de irmos andando – Dante foi saindo de manso. Vamos

querida, pois seus pais estão matando a saudade.

Amber sorriu e deu um tapinha nas costas do vampiro de cabelo espetado e no

momento roxo.

- Já te disseram que seu cabelo muda de cor?

- Rebecca já me disse um trilhão de vezes. Acho que tem a ver com meu humor –

riu de viés.

- Bosta! Vampiro sentimental – Rebecca pareceu com ciúmes e seguiu após eles.

O casal se afastou com dificuldade devido a saudade.

O bruxo alcançou os garotos que chegavam à porta de frente com a rua.

- Filha da Sabedoria lembre-se de Verbum Tutus – e correu deixando seu leve

vestido esvoaçando na penumbra da grande nave e o céu cheio de estrelas e de luar

fenomenal ilustrava o rosto angelical da vampira mais sapiente do mundo.

Caleb olhou para trás e gotas de lágrimas caíram.

Na caminhada pelas ruas o bruxo ia se martirizando com pensamentos legíveis.

Como: sei que ela faz isso para nos proteger e nossa filha não precisa saber o demônio

que sua mãe pode se tornar fora daquelas paredes de pedras sagradas. Tentei ajuda-la de

muitas formas. Com muitos feitiços e nada. Nem toda a sabedoria do velho Nichodemos

pode mudar a natureza cruel de Sophia. Dentro dos paredões ela consegue se conter pela

Magia Antiga. Mas ela odeia a humanidade que a queimou viva em Salém. Ela se

entregou no meu lugar e por alguns bruxos e bruxas de verdade. Por ser vampira

suportaria a quase morte e se recuperaria das queimaduras em algum prazo de tempo, e

assim o foi. Cuidei de suas horríveis queimaduras. Ela me amava e me ama. Eu a amo

demais. Preciso entregar-me por ela como ela fez por mim certa vez. Mas fui covarde.

Um merda de um covarde me escondendo na humanidade e fazendo minha filha todos

esses anos viver ilusoriamente uma humanidade falsa e forçada. Espero que ela me

perdoe. Espero que as duas vampiras mais importantes da minha vida me perdoem.

Pois, como? Se nem eu me perdoo. Como Deus consegue perdoar?! Esse talvez seja o

mistério mais nebuloso de todos. Não é fácil pedir perdão e... merda, como é difícil

perdoar.

- Pai... aperte o passo. Está ficando muito para trás.

- Tem ideia de onde procurá-los? – o bruxo correu um trecho.

- Não tenho o olfato de lobisomem, mas sinto cheiro de sangue no ar como um

tubarão o sente na água.

- E vamos para lá – indicou Rebecca.

- Edifício Saint Peter. Que droga!

- Eu pensava o mesmo. Pensava que aquele seria o lugar neutro... e não dominado

pelos das trevas.

A noite era fria e clara. As corujas piavam. Não nevava há horas. E nesse instante

tanto fazia. O ar era fria demais. As narinas ardiam. As bochechas ruborizavam.

Rebecca e Caleb batiam o queixo. Amber e Dante não eram afligidos pela temperatura.

Chegaram.

XXIV - Nada Parece Ser O Que É!

O frio tenebroso aterrorizava toda a redondeza do edifício Saint Peter.

Andaram e maquinaram sobre a ideia de invadir o local silencioso e

aparentemente desabitado.

Rebecca arrumava seus aparatos de caçadora e recarregava uma escopeta.

Dante desvencilhava-se do sobretudo e exibia sua forma magricela e pálida.

Recarregava um revólver de seis tiros. Ajeitava duas adagas nas botas e colocava a

garrafinha de conhaque na cintura.

- Por que escolheu ser caçador de sua própria raça? – indagou Amber com os

olhos curiosos e grandes sobre o vampiro.

- Não é minha raça. Não sou um matusalém. Nem sou híbrido como você minha

gatinha!

- Ele é de terceiro sangue – completou Rebecca fitando a menina.

- Isso mesmo. Era um humano como a Becca e fui transformado nisso.

“Meus pais eram missionários e voltávamos da Índia em plena primavera

britânica. Houve um baile de máscaras e conheci Abby. Filha de um conde dinamarquês

que casara com uma inglesa. Fiquei sabendo mais tarde que uma das missões de meus

pais era exterminar seres das trevas, mas ainda entendia que isso seria algum ato de

exorcismo e não de caça. Então, os seres noturnos, sabendo do regresso dos

missionários Jordan a Melissa Hard, a Expectra, amante do conde pediu-lhe um baile e

isso lha foi concedida.

Eu estava esgotado com a viajem e não queria de modo algum ir com meus pais

até o baile, mas fiquei boa parte do evento do lado de fora, no jardim, pois então eu vi

aquele ser angelical. Juvenil, bela, moleca, atraente, de olhos apreciativos, cabelos

ondulados castanhos-avermelhados; aproximei-me:

- Não está gostando da festa? – perguntei, mas ela resistiu e não disse nada. – Caso

queira falar com alguém... pois também não gosto de bailes de máscaras... causa-me

medo. – percebi um singelo sorriso nos lábios dela.

- Existe uma mulher que domina meu pai – falou chorosa.

- Já ouvi os adultos falarem disso... isso é ruim.

- Muito. E foi essa mulher que pediu uma festa desse tipo para o meu pai.

- E sua mãe?

- Ficou na Suíça... casa de parentes dela... ouvi um nome diferente de todos os

parentes que eu conhecia: Rômulo Crow e esposa Alice Gommer.

- Você não quis ficar com ela?

- É que eu não tive opção. Nenhuma. Fui trazida aqui contra minha vontade.

- Se estivéssemos próximos de algum porto eu te convidaria a pegar o primeiro

barco para a França e de lá partiríamos para a Suíça.

- Faria isso por mim?

- Claro. Não pensaria duas vezes – e a garota me abraçou com um aperto

espantoso. Senti uma extrema força. Uma menina de catorze anos não teria tal força.

De repente o pandemônio começou no interior do baile. Tiros. Gritos. Desespero.

Meia dúzia de gente saiu com as mãos ao pescoço. Sangrando. Nem imaginava o que

estaria acontecendo lá dentro. Minha mãe saiu e cambaleou até onde a menina e eu

estava. Eu a ergui nos meus braços de adolescente de dezesseis anos.

- Mãe... o que houve? Cadê o papai? – ela meneou a cabeça negativamente e

suspirou pela última vez em meus braços.

O lugar foi incendiado logo depois disso. Quem fugira, fugira, mas quem ficou viu

muito sangue encharcando o jardim mui belo daquele castelo. Abby me puxou pelo

braço separando-me de minha mãe. Ela corria como uma gazela e eu era muitas vezes

arrastado por ela. Não havia percebido nada de estranho por a perturbação de perder

meus pais não me deixavam raciocinar direito. Roubamos um cavalo e galopamos até os

mares onde entramos numa embarcação fedendo a peixe. Zarpamos. Por dias

conversamos. Eu comia peixe. Ela sei lá como se alimentava. Na França. Numa pousada

de estrada ela me revelou que nunca seria uma mulher. Sempre seria aquela garotinha

que eu estava vendo. Eu a amaria de qualquer jeito. Eu disse a ela! Ela estava obstinada

a encontrar Alice Gommer. Soube ser sua antiga babá e nenhum parentesco. Falava que

ela deveria pagar pela animalidade causada em sua vida. Ainda não conseguia entender.

Seu destino e segredo eram incógnitos e eu parava de chorar pela perda de meus pais.

Passei a amar a garota que me resgatara do baile em chamas.

- Dante – disse ela numa tarde, - agora posso te dar isso. Deu-me esse brinco. Uma

argola de ouro. - Com isso pude ir aos campos e riachos com você por esses anos. Bebi

sangue de cervos e outros animais enquanto você dormia. Agora você tem vinte e três...

eu ainda dezesseis... e não quero ter dezesseis para sempre. Nesse brinco há uma magia

que me permitia andar sob o sol. Sem ele, serei fulminado pelos raios celestes desse

astro rei.

- Mas... como? – entristeci demasiadamente, - Você desistiu de procurar sua mãe e

de se vingar da Gommer.

- Não. Minha mãe já não existe mais. Fiquei sabendo na semana que passou –

pausou como se chorasse, - e a mulher eu dei um jeito nela ontem enquanto você dormia

inocentemente. Fui ao palacete da mulher. Durante a manhãzinha e cravei uma bela

estaca de madeira no peito dela. Foi a segunda melhor coisa que fiz na vida. Se é que

ainda posso chamar de vida!

- A primeira...

- Foi te conhecer e te amar... Dante Jordan.

- Mas por que está me dando isso?

- Você está dormindo há mais de quarenta e oito horas...

- Não parece!!

- Foi a última vez em que fiz amor com você... eu te mordi. Suguei-te. E, para não

te perder eu te dei o meu sangue. Maldito sangue. Logo você será um vampiro como eu

sou... ou fui.

- Pretende morrer?!? – tentei pular da cama. Fraco. Meus pés vacilaram e eu

desmaiei.

Deixou-me uma carta que dizia o seguinte:

- Durma bem e seja forte meu doce vampiro. Vinguei-me da vaca que destruiu a

mim e minha família. Agora serei a cinza que o vento levará pelos cantos do mundo.

Completei minha carreira... e espero que você cace os infelizes que fizeram isso

conosco e me perdoe por ter me descontrolado e feito de você um maldito. Perdoe-me?

Meu amor é para sempre!

E quando acordei minha garganta queimava como meu estômago. E fui

aprendendo a ser isso e a me enturmar com humanos de tempos em tempos... pois

viajava sem parar. Caçando. Certa vez encontrei Nichodemos e ele me contou desse

brinco. Ele dera à mãe de Abby, que por sua vez dera a Abby sabendo que ora ou outra

os seres a transformaria em vampira. Isso foi há mais de trezentos anos. – Segurava a

orelha esquerda onde o objeto dourado brilhava sob a luz turva do céu.

Ao terminar de contar, Dante guardou silêncio.

- Deve ser algo magnífico ter vivido um grande amor como você e meu pai

viveram nos tempos passados... – pareceu choramingar a Amber.

- Filha, por favor, me desculpe de privá-la das lembranças passadas pelas suas

décadas de vida?

- Acho que já superei isso, papai. Quero apenas viver, se for vida o que temos,

algo tão espetacular quanto vocês... pessoas centenárias.

- Você está apenas começando sua jornada minha cara – Rebecca a abraçou. –

Você viverá milênios. E encontrará alguém para amar.

O pai bruxo sorriu singelamente e sua mente percorreu os perigos das eras que já

passou e das sombras terríveis que as vindouras podem trazer.

O portão rangeu assombrosamente. Corujas piaram.

XXV - Fortaleza

Um homem sisudo saiu no portão e com semblante fechado encarou os visitantes.

Em uma das mãos um pesado facão arrastava no chão riscando o piso de granito escuro.

A entrada no Saint Peter era formosa. Muito linda sua arquitetura gótica medieval.

- A vampira nova e o pai dela – foram as poucas palavras do grotesco homem de

avental verde manchado de sangue.

- Qual é a de vocês, açougueiro? – Dante apontou um trabuco em direção ao

homem que o fitou com olhar flamejante.

- Você não me assusta seu magricela. Nem você, nem sua amiga piranha de calça

apertada – voltou os olhos para Rebecca.

- Vem para cá e vou te mostrar a força da piranha seu monte de músculos

desajeitado! – vociferou a mulher desenrolando o chicote que envolvia sua cintura.

- Vocês é quem sabem. Tenho de deixar apenas o pai e a filha entrarem, mas se me

vencerem entra os quatro.

- Parece justo! – afirmou Caleb.

- Mas, apenas os caçadores lutarão comigo, pois são eles que estão proibidos de

entrar.

- Mais justo ainda! – engatilhou o trabuco o vampiro pálido.

A mão pesada do grandalhão botou o pai e filha do lado de dentro dos portões e

ele saiu levantando seu facão que passou rapidamente perto da orelha esquerda de

Dante, o vampiro suspirou. Rebecca pulou nas costas do homem e tentou sufocá-lo com

o chicote de Rosário.

- Isso funcionaria num vampiro minha cara vagabunda... quanto a mim eu o

despedaço como a um colar de pérolas – o brutamontes deixou o facão no chão, com

uma mão grudou a perna da moça e coma a outra puxou o Rosário espalhando as contas

negras e vermelhas pelo chão. Lançou a moça por cinco metros e tomou o facão do chão

enquanto Dante disparava dois tiros precisos contra o peito do homem. Os estilhaços

dos projeteis feriram, mas não tombaram o grandalhão que avançou apontando o facão

para o vampiro ligeiro. A rapidez vampírica veio a calhar enquanto recarregava a arma e

o facão lambava no ar de um lado para outro com rapidez impressionante.

A luta prosseguia para o outro lado da rua estourando calçadas, portões, muros,

estabelecimentos comerciais. A velocidade de Dante era sua escapatória. A inteligência

de Rebecca era sua chance de sobrevivência. Adagas e outros objetos lançados contra o

gigante pouco o arranhava. Socos e lambidas do facão causavam feridas em Dante e em

sua parceira de caça.

Amber ruía as unhas sentindo-se impotente com tudo aquilo. Os portões e

muradas de Saint Peter impediam que Caleb pronunciasse qualquer encantamento.

O tempo voava com cada gota de sangue que empesteava o ar com o cheiro

adocicado da morte. Sangue e flocos de neve dançavam como se sincronizassem num

salão. Rebecca caía como que em câmera lenta. Seu peito fora aberto pelo imenso facão.

Seu colar despedaçou-se e o crucifixo ficou na sarjeta.

- Becca! – berrou seu companheiro de caças. – Não me abandone agora meu anjo

do céu...

O gigante socou as costas de Dante e ele foi parar do lado oposto da amiga.

Amber e seu pai agoniados vociferavam palavras inóspitas.

- Abra este portão e eu te mando pro inferno! – gritava Amber com todo ímpeto de

seu interior furioso e abrasivo – suas têmporas queimavam e seus dentes caninos

aguçavam três vezes mais do que antes. – Acabo com você gigante de merda. – uma voz

rouca e demoníaca tomou a menina. Boa parte de suas vestes se despedaçaram, sua

aparência frágil deu lugar a aguçados músculos e suas unhas cresciam

assustadoramente.

Dante soluçava o nome da amiga humana morta perto do bueiro. O sangue da

moça formava uma poça.

O céu brilhou tenebrosamente e um ser angelical desceu paralisando o tempo num

slow motion impressionante.

- Menina – dirigiu-se a Amber, - guarde sua força para o que vai encontrar aí

dentro. Vá com o seu pai e resgate os outros. Eu cuido desta criatura inescrupulosa e

doentia.

A mulher trajava véus que a rodeavam sem tocá-la e seu corpo escultural

encantava qualquer olho masculino que a fitasse. Sua pele cintilava ao brilho de si

mesma. Seus cabelos loiros esvoaçavam pelo vento espectral que a circundava. Seus

olhos turquesa penetravam e fazia morrer a infelicidade da alma mais cinza que pudesse

existir. Brincos de ouro balançavam como gangorras douradas. Seu colar de esmeralda

cintilava como ondas do mar sendo banhadas pelo infinito sol. Sedosa pele bronzeada

brilhava como que untada em azeite. Empunhava um cetro de cristal. A ponta do cetro

esfumaçava vapores gelados.

- Vou gostar de acabar com sua perfeição mulher! – rosnou o grotesco homem. –

Lamberei você por inteira. Tirarei todo seu ar de pura.

- Calarei sua boca grande com apenas três movimentos meus – fechou os lindos

olhos e seu semblante sereno fez a brisa gélida esquentar. Flocos de neve pousavam

nela e se desmanchavam formando gotículas luminosas.

Amber e seu pai entraram pela porta do edifício confiantes na moça celestial que

descera do céu – criam assim.

- Anja.

- Quem? – indagou Amber. – Por que desceu do céu?

- Não. O nome dela é Anja Dorminev.

- Que espécie de ser é essa Anja?

- Uma bruxa ascendida. Toda a complexidade de bruxaria se encontra nela. Seria a

mãe de todas as bruxas, mas não a mais velha e sim a mais poderosa. Impedida de amar

e viver entre nós por tal assombro que é seu poder. Ela mesma não pode se meter em

qualquer assunto que quiser, precisa consultar os oráculos das eras antes de intervir em

determinadas situações. Nunca a tinha visto. Apenas ouvi sobre ela nos antigos Escritos

dos Bruxos Isolados do primeiro século.

Anja imóvel aguardava a aproximação do grandalhão. Levantou o cetro e ficaram

suspensos por uma brisa pesada e gelada. O homem sorriu e atacou com o facão

atravessando a moça. O gigante gargalhou. A moça abriu os olhos e o facão estava

atravessado no próprio ventre do gigante, ele cuspiu sangue e mais sangue. A moça

voou para o lado e seu facão subiu do ventre até a garganta. As entranhas do homem

caíram e o gigante tombou num baque surdo.

No canto da rua Dante chorava e recolhia os cacos do colar enfeitiçado.

- Minha doce Rebecca. Quando me irei para escuridão do outro lado do hades para

te ver novamente. Meu coração hoje tornou-se mais gelado do que nunca. Caso pudesse

eu iria até o sheol te buscar! – Chorou copiosamente. Faltava-lhe lágrimas.

- Não chores por essa jovem adorável, vampiro. Posso concertar o crucifixo, mas

não devolver a vida dela – a voz aveludada e um pouco sensual ecoava deslizante pelo

ar. – Os Oráculos das Eras não me permitem trazer de volta quem se foi, mas talvez esse

artefato concertado possa fazer o feitiço que lhe fora proposto nas gotas de sangue de

santos.

- Senhorita iluminada... tente... por favor. Quero Becca outra vez comigo.

- Gostei de seu coração, vampiro. Espero que dê certo. Dê-me esses cacos e a cruz.

– a mulher estendeu a mão. – Tente não encostar em mim.

- Obrigado, grande luz!

- E, por favor... poupe-me de seus elogios – deu-lhe um singelo sorriso.

Imediatamente devolveu o colar cintilante como se fosse polido há pouco.

- Obrigado – tirou os olhos do colar e a imagem majestosa da moça havia sumido

como um raio de luz que se vai num piscar de olhos.

XXVI – Constelação da Madrugada

As horas se propagavam pela penumbra assustadora da madrugada sem vida.

Nenhum ser por mais pestilento que fosse transitava à frente do majestoso Saint Peter

Building. Quem adentrou não sairia e quem ficou de fora não adentraria pela magia

quase impossível de se quebrar imposta sobre os muros, grades e paredões do local.

A neve apertou. A nevasca congelava a pele do vampiro debruçado sobre sua

parceira de tantos anos no combate contra as trevas. Becca esfriava aos poucos, desta

vez parecia que o encanto do crucifixo não estava valendo de nada. Havia se esgotado a

gota de sangue santo que havia dentro da pedra no centro da cruz gótica pendurada no

belo e frágil pescoço da maravilhosa mulher.

Os olhos em brasa do vampiro queimavam a pior dor que a que sentira no castelo