A palavra cantada ou a concepção de linguagem de Jean-Jacques Rousseau por Mauro Dela Bandera Arco Júnior - Versão HTML

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I

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Mauro Dela Bandera Arco Júnior

A palavra cantada ou a concepção de linguagem de

Jean-Jacques Rousseau

(VERSÃO CORRIGIDA APÓS A DEFESA)

SÃO PAULO

2012

II

Mauro Dela Bandera Arco Júnior

A palavra cantada ou a concepção de linguagem de

Jean-Jacques Rousseau

Dissertação

apresentada

ao

Programa de Pós-Graduação em

Filosofia do Departamento de

Filosofia da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Mestre em

Filosofia, sob orientação da Prof.

Dra. Maria das Graças de Souza.

(VERSÃO CORRIGIDA APÓS A DEFESA)

A Prof. Dra. Maria das Graças de Souza está de acordo com esta versão da dissertação:

SÃO PAULO

2012

III

À minha avó Dila

IV

AGRADECIMENTOS

É difícil lembrar todas as pessoas que contribuíram – cada qual com seu quinhão

– para a realização deste trabalho. Além disso, os agradecimentos sempre estarão aquém

da generosidade daqueles que me ajudaram e me suportaram durante a feitura desta

dissertação.

Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, à minha orientadora, a Prof. Dra.

Maria das Graças de Souza, por gentilmente ter aceitado orientar este trabalho desde

seus primeiros esboços e por ter me ensinado, com paciência e generosidade, muito

mais que um começo.

Sou muitíssimo grato aos Professores Doutores Pedro Paulo Garrido Pimenta e

Jacira de Freitas Rosa pelas agudas observações no exame de qualificação e pelo

interesse em minha pesquisa.

Agradeço imensamente aos queridos amigos Anderson Aparecido Lima da

Silva, Virginia Helena Ferreira da Costa e Júlia da Costa Chiacchio, que, com paciência

e dedicação, me ajudaram a organizar o caos.

Serei sempre grato aos meus pais, Regina Célia Morcelli Dela Bandera e Mauro

Dela Bandera Arco, que sempre me apoiaram e me incentivaram; ao meu irmão,

Nicolau Dela Bandera Arco Netto, pelo constante exemplo de vida e suporte quando

necessário. Aos membros da extensa família Morcelli e Dela Bandera (Tios, tias,

primos, primas e agregados), pelos momentos de descontração e alegria.

Agradeço a todos meus amigos e irmãos do oeste paulista, que sempre se

fizeram presentes em momentos decisivos de minha vida: Emerson Curuja, Renan

Buchini, Fábio Luis Neves, Élder Ribas, Diego Scalada, Felipe, Patrícia, Diego

Aureliano, Diego Guita, Alexandre Falcão, Diego Tatu, Uiara, Jéssica, João Paulo,

Adriano, Renato Spinosa, Virna; ao Tiago Bertolin, pelas infindáveis e estimulantes

conversas.

Aos paulistanos e migrantes que adotaram a cidade fumaça como morada e

fizeram dela um ambiente aconchegante: Chico Veiga, Flávio Reis, Fernando Lopes,

Júlio Valim, Tatiana Castro, Vitor Mortara, Martha, Paulo, Natália Leon, Mário

Sagayama, Juliana Ramos, Glalce Finotello, Leda e Guilherme. Aos habitantes do 304

(Bloco A do CRUSP): Alfredo Cristofoletti, Rafael Versolato, Lucas, Alex e a todos os

outros que por lá passaram em algum momento de suas vidas. À Carolina Grego

Donadio que, além de tudo, me ajudou muito na reta final.

V

À Luna Safira, pela leveza e carinho desses últimos tempos.

Aos membros e amigos do grupo de estudos Jean-Jacques Rousseau, pelas

produtivas conversas realizadas ao longo de todos esses anos: Ciro Borges, Eduardo

Leonel, Homero Santos, Márcia Rodrigues, Taynam Bueno, Leonardo Canuto, Ellen

Elsie, Thiago Azevedo. Ao Prof. Dr. Thomaz Kawauche, pelas indicações

bibliográficas, amizade, dedicação e carinho; ao Fábio Yasoshima, interlocutor

inestimável, cujos apontamentos precisos e refinados foram de muita valia para a

confecção de meu trabalho; ao Prof. Dr. Evaldo Becker, pelas profícuas trocas

bibliográficas e pelas constantes conversas ao longo dos tempos.

Ao Mario Spezzapria, pela preciosa colaboração na reta final.

Aos meus amigos franceses ou que lá conheci: Claire-Marie Dejean, Claire

Hardy-Guilbert, Vincent Aitzegagh, Lila Aitzegagh, Nicolas Fayette, Nathália

Capellini, Isabel Collazos, Vincent, Florian Samson-Kermarrec, Mân, Laurent, Priscila

Achcar, Coralie Duby, Pascal e Benoit.

Às meninas do Departamento de Filosofia da USP, pela amizade, apoio e

generosidade ímpar: Geni Ferreira Lima, Luciana Nóbrega, Maria Helena de Souza e

Marie Marcia Pedroso.

Agradeço, finalmente, à FAPESP pela concessão do financiamento desta

pesquisa, sem o qual seria impossível realizá-la.

VI

Carrego meus primórdios num andor.

Minha voz tem um vício de fontes.

Eu queria avançar para o começo.

Chegar ao criançamento das palavras.

Lá onde elas ainda urinam na perna.

Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Quando a criança garatuja o verbo para falar o que

não tem.

Pegar no estame do som.

Ser a voz de um lagarto escurecido.

Abrir um descortínio para o arcano.

Manuel de Barros. Livro sobre nada.

VII

RESUMO

ARCO JÚNIOR, Mauro Dela Bandera. A palavra cantada ou a concepção de

linguagem de Jean-Jacques Rousseau. 2012. 162 f. Dissertação (Mestrado) –

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia,

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

Trata-se de analisar a teoria da linguagem de Jean-Jacques Rousseau tal como

desenvolvida no Ensaio sobre a origem das línguas e em outros textos e fragmentos

concernentes à música e à linguagem. Buscar-se-á, com isso, investigar em que medida

a música se apresenta, ao longo do Ensaio, como o paradigma segundo o qual a história

e a essência da linguagem são pensadas. Ao aplicar o modelo musical aos fenômenos

linguísticos, Rousseau concebe o valor da linguagem na força evocativa e

extrarrepresentativa, produzida pela cadeia sucessiva dos sons, e não no fato da palavra

ser o sinal convencional de algo. Rousseau eleva a música enquanto articuladora de sua

concepção de linguagem e não uma teoria binária do signo, como fazem os homens de

Port-Royal. Isso acontece porque a essência e o destino da linguagem, sua força ou

impotência, são decididos no interior de uma organização social. Cada língua particular

tem sua construção e seus desenvolvimentos inscritos em uma historicidade própria e

marcados pelo aspecto geográfico e climático que a envolve e que estabelece diferentes

modelos de sociabilidade entre os homens. Nesse sentido, é fácil observar que Rousseau

se opõe à universalidade e ao caráter a-histórico da razão que organiza a estrutura das

línguas, na medida em que as condições dos homens em relação aos meios de

subsistência influenciam diretamente suas trocas mútuas e, consequentemente, a

formação das línguas. Essas influências se fazem, no seio de cada sociedade, por meio

de um processo singular que só se torna inteligível se referido à análise completa de

uma situação histórica, a todos os elementos constitutivos do modo de vida dos homens

e, em primeiro lugar, às relações efetivas entre os homens e a natureza. Vislumbra-se,

assim, qual é o laço que une um ensaio sobre as línguas à esfera social e política, e por

qual motivo é possível fazer uma história da liberdade e da escravidão dos povos a

partir de uma análise de suas línguas. Tudo isso está muito distante dos conteúdos

desenvolvidos nos escritos de Descartes e dos homens de Port-Royal. Almejar-se-á,

então, reconhecer algumas das singularidades das reflexões de Rousseau sobre a

linguagem e apontar uma articulação decisiva não abordada pela concepção cartesiana

VIII

de linguagem. Com isso, pretende-se mostrar o que há de novo na perspectiva de

Rousseau frente ao pensamento clássico e, assim, indicar o lugar preciso ocupado pelo

filósofo genebrino no que concerne aos estudos da linguagem.

Palavras-chave: Rousseau, linguagem, música, política, cartesianismo linguístico.

IX

ABSTRACT

ARCO JÚNIOR, Mauro Dela Bandera. The sung word or a conception of

language in Jean-Jacques Rousseau. 2012. 162 p. Thesis (Master Degree) –

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia,

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

The aim of this research is to analyze the language theory of Jean-Jacques Rousseau, as

it is developed on the Essay on the Origin of Languages and in other texts and

fragments concerning music and language. The study sought to investigate to what

extent music is presented, throughout the Essay, as the paradigm according to which the

history and the essence of language are thought. While applying the musical model to

the linguistic phenomena, Rousseau conceives the value of language in its evocative and

extra-representative force, produced by the successive chain of sounds, and not on the

fact that the word is a conventional sign of something. Rousseau lifts up music while

the articulator of his language conception and not as a binary theory of sign, as the Port-

Royal thinkers do. This happens because the essence and the destiny of language, its

force or impotence, are decided within a social organization. Every particular language

has its constructions and developments written in its own historicity and marked by

geographic and climatic aspects, which involves and establishes different models of

sociability between men. In this sense, it is easy to notice that Rousseau stands out

against the universality and the unhistorical character of reason that organizes the

structure of languages, insofar the conditions of men in connection with their means of

subsistence directly influence their mutual exchanges, and consequently the formation

of languages. These influences take place, in the heart of each society, through a

singular process that only becomes intelligible if referred to a complete analysis of a

historical situation, to every constitutive elements of the way of life men have and, first

and foremost, to the effective relations between men and nature. Thus, we can discern

the ties that binds an essay on the origin of languages to the political and social sphere,

and to which reason it is possible to conceive a history of liberty and enslavement of

people, starting from an analysis of their languages. All of this is quite far from the

contents developed on the works of Descartes and on those of the thinkers of Port-

Royal. We will attempt, then, to recognise some of the singularities of the reflexions

made by Rousseau about language and to draw up a decisive articulation, not dealt by

X

the cartesian conception of language.Thus, we intend to show what is new in the

perspective brought by Rousseau in comparison with the classical thought, and, in this

way, to indicate the precise place occupied by the Geneva philosopher, as far as the

studies of language are concerned.

Key words: Rousseau, language, music, politics, linguistic cartesianism.

XI

ÍNDICE

INTRODUÇÃO...............................................................................................................12

CAPÍTULO I – UM ESPELHO INFIEL: ROUSSEAU E A CONCEPÇÃO

CARTESIANA DE LINGUAGEM................................................................................33

1.1 - A concepção cartesiana de linguagem.....................................................................34

1.2 - A eclosão da idade clássica.....................................................................................42

1.3 - Rousseau e a concepção cartesiana de linguagem...................................................54

CAPÍTULO II – A LINGUAGEM E SEUS ARCANOS EM ROUSSEAU..................60

2.1 - O gesto e a fala........................................................................................................60

2.2 - Os acentos da paixão...............................................................................................69

2.3 - A Querela dos Bufões: o debate entre música francesa e italiana...........................79

2.4 - A melodia: o debate entre Rousseau e Rameau e a crítica ao materialismo...........82

2.5 - O paradigma musical e a linguagem indireta..........................................................94

2.6 - A fala e a escrita....................................................................................................101

2.7 - O avesso da representação linguística...................................................................108

2.8 - A diversidade das origens ou a multiplicidade das línguas...................................111

CAPÍTULO III – VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA: LINGUAGEM E

POLÍTICA EM ROUSSEAU........................................................................................129

3.1 - Sobre verdade e mentira........................................................................................134

3.2 - Rousseau e Isócrates..............................................................................................141

3.3 - Fim da História, Fim do Discurso.........................................................................145

BIBLIOGRAFIA...........................................................................................................156

4.1 - Obras de Jean-Jacques Rousseau..........................................................................156

4.2 - Bibliografia secundária.........................................................................................157

12

Introdução

Pode-se afirmar que o “cidadão de Genebra” é um desses pensadores nos quais a

filosofia contemporânea adora se reconhecer, pois a segunda metade do século XX viu-

se envolta por uma efervescência que encontrou na figura de Jean-Jacques Rousseau um

interlocutor ou um predecessor privilegiado. Não é preciso ir muito longe, basta citar

algumas das aventuras do pensamento francês: Gilles Deleuze1 e Claude Lévi-Strauss2

em 1962, Jacques Derrida3 em 1967.

O que existe em comum nestas leituras é que todas elas privilegiam, dentre

outros textos de Rousseau, o Ensaio sobre a origem das línguas que, até a década de

1960, foi praticamente ignorado pelos comentadores. Somente em meados do século

XX, com o aparecimento dos trabalhos de Derrida e de outros autores, houve interesse

direto pelo Ensaio, de modo que ele passou a ser lido de forma não mais secundária ou

à luz de outros textos tidos até então como mais célebres.

1 Em 1962, Deleuze escreve um artigo intitulado “Jean-Jacques Rousseau précurseur de Kafka, de

Céline et de Ponge” por ocasião das comemorações do 250º aniversário de Jean-Jacques Rousseau. In:

Deleuze, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006, pp. 73-77.

2 Lévi-Strauss reconhece muito mais do que uma simples inspiração rousseauísta em seu ofício.

Também por conta das comemorações do 250º aniversário de nascimento de Rousseau, Lévi-Strauss

afirmou, sem titubear, que este autor não simplesmente se limitou a prever a etnologia tal como a

conhecemos, mas a fundou. Cito: “Rousseau não foi somente um observador penetrante da vida

campestre, um leitor apaixonado dos livros de viagem, um analista atento dos costumes e das crenças

exóticas: sem receio de ser desmentido, pode-se afirmar que ele havia concebido, querido e enunciado

a etnologia um século inteiro antes que ela fizesse sua aparição, colocando-a, de pronto, entre as

ciências naturais e humanas já constituidas” (Lévi-Strauss, Claude. “Jean-Jacques Rousseau, fundador

das ciências do homem”. In: Antropologia estrutural dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993).

Como bem lembrou Jacques Derrida, para além do fato de Lévi-Strauss reconhecer Rousseau como o

“fundador das ciências do homem”, pode-se afirmar que os escritos do etnólogo belga são perpassados

em muitos momentos por argumentos e temas próprios do cidadão de Genebra. Em verdade, Jacques

Derrida busca rastrear, nas páginas da Gramatologia dedicadas à Claude Lévi-Strauss, tanto a herança

rousseauísta herdada e reclamada pelo etnólogo moderno, quanto os limites desta herança, no

momento em que ele se afasta dos princípios diretores do pensamento de Rousseau.

3 Jacques Derrida publicou em 1967 seu livro Gramatologia e um artigo intitulado “A linguística de

Rousseau”. Para Derrida, o ocidente, desde pelo menos o Fedro de Platão até o Curso de linguística

geral de Ferdinand de Saussure, sempre rebaixou a escritura em benefício da linguagem oral e de um

ideal de presença que não poderia ser atingido pela inscrição gráfica. Aristóteles, Rousseau, Saussure,

Lévi-Strauss, e até mesmo Husserl, assim como muitos outros pensadores, repetem esse gesto

platônico. Cada qual a sua maneira, é verdade. Mas, o que importa é que eles sempre privilegiaram a

palavra falada em detrimento daquilo que consideravam exterior, representativo ou simplesmente o

efeito epidérmico que apenas sobrecarrega a relação plena do sentido com a fala viva. A obra de

Rousseau se inscreve na posteridade de Platão. Ela aparece como a repetição do gesto que instaura a

tradição da metafísica – metafísica da presença. Todavia, ela também anuncia a transgressão possível

dessa metafísica. Jean-Jacques Rousseau abala a lógica da derivação que desqualifica metafisicamente

a escritura. Assim, ele declara o que quer dizer, a saber: que a escritura e a articulação são uma doença

pós-originária da língua; e ao mesmo tempo ele diz ou descreve o que não quer dizer: a articulação e

consequentemente o espaço da escritura operam na origem da língua. Rousseau valoriza e desqualifica

ao mesmo tempo a escritura.

13

Claro que o Ensaio não foi esquecido pelos demais comentadores. Um grande

número de contendas, tão difíceis de serem resolvidas quanto a quadratura do círculo,

foi gerado desde pelo menos o fim do século XIX. A maior parte dos estudos sobre o

Ensaio foi consagrada à reflexão sobre as relações entre o Ensaio e o Discurso sobre a

origem da desigualdade 4. Vários comentadores também se debruçaram sobre as

seguintes questões: quando, afinal, o Ensaio foi escrito? Por que ele permaneceu

cuidadosamente guardado e só veio a lume em 1781, três anos após a morte do autor? E

qual é sua posição na economia do pensamento de Jean-Jacques?5 O problema aumenta

substancialmente pelo fato de o Ensaio ser um texto sobre o qual Rousseau pouco se

explicou6. Uma ampla variedade de artigos e muitos livros foram dedicados ao tema e,

4 De fato, existem diversos trabalhos sobre o Ensaio que antecederam os trabalhos de Derrida e Lévi-

Strauss. Muitos desses estudos são dedicados às possíveis relações de continuidade ou de contradição

existentes entre este livro e o Discurso sobre a desigualdade entre os homens. O debate em torno

dessas relações representa um dos principais assuntos das controvérsias nos estudos rousseauístas

desde 1884, quando Albert Jansen publicou um projeto de prefácio de Rousseau (Jansen. Jean

Jacques Rousseau als musiker. Berlin, 1884). Ver sobre isso o artigo de Charles Porset:

“L’inquiétante étrangeté de l’ Essai sur l’origine des langues: Rousseau et ses exégètes”. In: Studies

on Voltaire and the Eighteenth Century, CLIV, 1976. Porset discute pelo menos vinte e cinco autores

que, desde o final do século XIX, produziram dezenas de obras abordando esse assunto.

5 Como afirma Makoto Masuda, “entre todas as obras de Rousseau, o Ensaio sobre a origem das

línguas é sem dúvida aquela que suscitou as mais vivas controvérsias sobre sua gênese e sobre sua

situação cronológica na carreira do autor. Com efeito, a maior parte dos estudos sobre o Ensaio foi

consagrada à reflexão sobre as relações entre o Ensaio e o Discurso sobre a origem da desigualdade,

cada comentador sustentando a anterioridade ou a posteridade do Ensaio seguindo sua própria

interpretação da obra de Rousseau em seu todo” (Masuda, Makoto. “La diversité originelle des

langues et des sociétés dans l' Essai sur l'origine des langues”. Etudes Jean-Jacques Rousseau. Tome

second, Reims, 1988, p. 87). Exemplos clássicos desse tipo de leitura, dentre tantos outros, são os

textos de Gustave Lanson, “L'unité de la pensée de Jean-Jacques Rousseau” (publicado em 1912 nos

Annales de la société Jean-Jacques Rousseau) e de Pierre-Maurice Masson, “Questions de

chronologie rousseauiste” (publicado em 1913 nos mesmos Annales). Um breve histórico sobre o

tempo da redação exata do Ensaio pode ser encontrado no já citado artigo, assim como na observação

presente logo no início da edição comentada do Ensaio, de Charles Porset (In: Rousseau, J.-J. Essai

sur l’origine des langues. Edição feita por Porset, Charles. Bordeaux: Ducros, 1969, pp. 16-24); na

tese de doutorado de Evaldo Becker: Política e Linguagem em Rousseau. São Paulo, FFLCH-USP,

2008, pp. 207-215; e em Jacques Derrida: Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2004, pp. 204-238.

Ver também o artigo de Robert Wokler: “L’ Essai sur l’origine des langues en tant que fragment du

Discours sur l’inégalité: Rousseau et ses ‘mauvais’ interprètes”. In: Rousseau et Voltaire: Actes du

Colloque international de Nice. Genève – Paris: Editions Slatkine, 1981. Neste artigo, o autor

esclarece algumas controvérsias sobre a cronologia e sobre o debate acerca das relações existentes

entre o Ensaio e o segundo Discurso.

6 Além de referências presentes em cartas e algumas citações pontuais, são duas as declarações do

próprio Rousseau acerca do Ensaio: a primeira é uma passagem importante das Confissões e a

segunda um prefácio de 1763. Rousseau escreve nas Confissões: “Além desses dois livros [o Emílio e

o Contrato social] e do Dicionário de música, no qual trabalhava de vez em quando, tinha alguns

outros escritos de menor importância, todos em estado de aparecer, e que tencionava ainda dar, quer

em separado, quer na minha compilação geral, se alguma vez a empreendesse. Destes escritos, na sua

maior parte ainda nas mãos de Du Peyrou, o principal era um Ensaio sobre a origem das línguas, que

dei a ler a monsieur de Malesherbes e ao cavaleiro de Lorenzy, que mo elogiou. Contava que todas

estas produções juntas me valessem, feitas todas as despesas, um capital de oito a dez mil francos, que

eu queria transformar em uma renda vitalícia” (Rousseau, J-J. Les confessions. Œuvres Complètes.

Paris: Éditions Gallimard, 1959, p. 560). A segunda referência é um prefácio para uma antologia. Por

14

mesmo assim, ainda hoje, ignora-se a data exata de sua composição e a posição real que

seu autor lhe atribuía em relação à totalidade de sua obra.

Buscaremos, por nossa conta, analisar mais detidamente as peculiaridades da

teoria da linguagem do cidadão de Genebra, procurando traçar algumas relações com a

concepção de linguagem de Descartes e dos homens de Port-Royal. Procuraremos,

assim, reconhecer algumas das singularidades das reflexões de Rousseau sobre a

linguagem e, de carona, apontar uma articulação decisiva que questiona pontos

nevrálgicos da concepção cartesiana de linguagem. Trata-se, pois, de indagar como se

configuram as reflexões de Rousseau sobre as línguas e o que elas anunciam de

interessante e de desafiador para aquilo que se entende por pensamento clássico.

Essa perspectiva investigativa, apesar de pouco explorada nos estudos

rousseaunianos, já foi anunciada por alguns autores. Dentre eles podemos destacar o

livro de Bento Prado Júnior, escrito nos anos setenta e publicado postumamente com o

título A retórica de Rousseau: o discurso político e as belas-letras 7; o artigo de Patricia

Palácios: “Sources de la théorie du langage chez Jean-Jacques Rousseau”8; e,

finalmente, Franklin de Matos em um artigo intitulado “A melodia dos signos”9.

***

Como se sabe, existe no Discurso sobre a origem e os fundamentos da

desigualdade entre os homens um desenvolvimento sobre a linguagem e sobre os

embaraços para se pensar sua origem. Desse modo, antes de analisarmos o Ensaio

propriamente dito, vejamos, como ponto de partida, em que medida a digressão sobre a

linguagem se insere na economia do Discurso sobre a desigualdade. Com isso, não

pretendemos seguir a perspectiva traçada pela maior parte de nossos antecessores.

volta de 1763, Rousseau pretendia copilar em um pequeno volume três textos, a saber, a Imitação

teatral, o Ensaio sobre a origem das línguas, e o Levita de Efraim. No entanto, este projeto não

chegou a se efetivar, restando somente um esboço de prefácio no qual Rousseau admite ser o Ensaio,

em um primeiro momento, apenas um fragmento do segundo Discurso: “O segundo escrito [ Ensaio

sobre a origem das línguas] foi de início apenas um fragmento do Discurso sobre a desigualdade, que

eu suprimi por ser muito longo e fora de lugar” (Rousseau, J-J. Essai sur l’origine des langues. Fac-

similé du manuscrit de Neuchâtel. Paris: Honoré Champion Editeur, 1997, pp. 13-14).

7 Prado Júnior, Bento. A retórica de Rousseau e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

8 Palácios, Patricia: “Sources de la théorie du langage chez Jean-Jacques Rousseau”. In: Études Jean-

Jacques Rousseau. Vol. XVI, “Langues de Rousseau”. Montmorency: Musée Jean Jacques Rousseau,

2005-2006.

9 Matos, Luiz Fernando Batista Franklin de. “A melodia dos signos”. Publicado no Jornal de Resenhas,

n. 41, Folha de São Paulo, 12 de setembro de 1998 e, posteriormente, no livro O filósofo e o

comediante: ensaio sobre filosofia e literatura na ilustração. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

15

Portanto, não almejaremos mapear as relações de contrariedade ou de continuidade

existentes entre o Ensaio e o Discurso sobre a desigualdade, nem aspiraremos colocar

um ponto final na controversa questão da cronologia do Ensaio. Trata-se, tão somente,

de inserir o excerto sobre a linguagem na metodologia utilizada por Rousseau ao longo

de toda a primeira parte do Discurso sobre a desigualdade.

De acordo com a leitura de Marcelo Dascal, a linguagem e a fala são

mencionadas na primeira parte do Discurso sobre a desigualdade quase que

exclusivamente em “contextos epistemológicos”10. Ela entra em discussão quando está

em questão analisar os poderes mentais do homem, sua capacidade para adquirir e

transmitir conhecimentos. Como isso se dá no texto de Rousseau?

Em primeiro lugar, é preciso notar que toda a incursão de Rousseau sobre a

origem das línguas faz parte de um todo maior cuja função é salientar o hiato que separa

o homem social do homem natural. Nesse sentido, Rousseau se esforça em animalizar o

ser humano, tornando-o incapaz de realizar certos tipos de operações mentais que o

homem social pode efetuar. O método presente no segundo Discurso consiste em

despojar do homem natural todo e qualquer atributo que este pôde historicamente

adquirir. O que se almeja é demonstrar que tudo o que a tradição definira como original

da natureza humana é na verdade obra humana. O surgimento da linguagem articulada,

a sociedade, a propriedade, a racionalidade, as regras formais do direito são,

essencialmente, criações humanas. Com isso, Rousseau mostra que a natureza não

preparou o homem para a sociedade, e que os inconvenientes e os defeitos desta não

estão irremediavelmente arraigados naquela11.

Toda reflexão sobre a linguagem faz parte desse movimento. Rousseau apresenta

uma sucessão de aporias que explicitam toda a dificuldade para descrever sua origem e

seu processo de constituição. De acordo com Jean Starobinski,

para nos fazer entender que o homem falou tarde, [o autor] acumula

tão grandes dificuldades que parece sustentar que o homem jamais

falou. [...] Ao enunciar os inúmeros obstáculos que se opõem à

invenção das línguas, obriga-nos a admitir pelo menos uma enorme

10 Dascal, Marcelo. “Linguagem e pensamento segundo Rousseau”. Manuscrito, vol. III, n. 2, Campinas,

1980, p. 52.

11 “Sejam quais forem essas origens, vê-se pelo menos, no pouco cuidado que teve a natureza em

aproximar os homens por necessidades mútuas e em lhes facilitar o uso da palavra, quão mal ela

preparou a sociabilidade deles e quão pouco de si mesma colocou em tudo quanto eles fizeram para

lhes estabelecer os vínculos” (Rousseau, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da

desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins Fontes, 2005, pp. 185-186).

16

distância, um imenso lapso de tempo entre o homem primitivo e o

homem dotado de linguagem12.

Formula-se aquilo que Starobinski chama de “antropologia negativa” em

Rousseau: antes de afirmar como se deu, historicamente, a origem e o desenvolvimento

das línguas, Rousseau se preocupa em dar, tão somente, uma resposta negativa, dizendo

quais são as impossibilidades e as dificuldades para o seu surgimento neste estágio do

desenvolvimento humano. Tudo se passa como se o autor lançasse mão de um recurso

metodológico para radicalizar sua argumentação:

O homem natural define-se pela ausência de tudo que pertence

especificamente à condição do homem civilizado. O método de

Rousseau consiste em despojar o homem de todos os atributos

“artificiais” dos quais este pôde tomar posse no curso da história. É

então por uma espécie de “via negativa” que ele procura traçar a

imagem do homem da natureza. [...] Toda a passagem sobre a origem

das línguas toma lugar nesse movimento negativo: trata-se menos de

retraçar o desenvolvimento, as diversas etapas de sua formação, do

que de mostrar suas dificuldades e seus embaraços13.

Como caracterizar o homem natural de Rousseau? Um ser estúpido e sem

linguagem? Como bem lembrou Starobinski, Jean-Jacques procura insistir, ao longo da

primeira parte do Discurso sobre a desigualdade, que há um “tempo indispensável à

maturação da razão. Por meio das vicissitudes do vir a ser histórico, o homem atualiza

suas faculdades virtuais: ele não é num primeiro momento um animal racional; ele se

torna racional cessando de ser animal”14. Assim,

o homem selvagem, entregue pela natureza unicamente ao instinto, ou

melhor, compensado daquele que talvez lhe falte, por faculdades

capazes primeiro de o substituírem e depois de elevá-lo muito acima

do que era, começará, pois, pelas funções puramente animais:

perceber e sentir será seu primeiro estado, que lhe será comum com

todos os animais15.

12 Starobinski, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo, seguido de sete ensaios

sobre Rousseau. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 314.

13 Idem, p. 314.

14 Starobinski, Jean. “Introductions”. In: Rousseau, J.-J. Œuvres Complètes. Paris: Éditions Gallimard,

1964, p. LVI.

15 Rousseau, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São

Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 174. Apesar do homem possuir uma alma, sua constituição dual não

produz no estado de pura natureza qualquer descontinuidade notável em relação ao reino animal.

17

O autor diverge da tradição filosófica quanto ao problema da distinção entre

homem e animal16. Rousseau afirma – e assim ele concorda com Condillac17 – que se

essa distinção existir, ela não poderá ser encontrada a partir da noção de entendimento.

Em certo sentido, os animais também possuem um “entendimento” ou determinados

poderes intelectuais:

Todo animal tem ideias [afirma Rousseau], uma vez que tem sentidos;

chega a combinar suas ideias até certo ponto, e o homem, a este

respeito, só difere do animal na intensidade; alguns filósofos

afirmaram até que há mais diferença entre um homem e outro do que

entre um homem e um animal. Portanto, não é tanto o entendimento

[...] que confere ao homem sua distinção específica entre os animais18.

No que tange o eixo sensação-pensamento, o homem difere do animal apenas

quantitativamente e não qualitativamente. A continuidade entre o homem natural e o

animal é evidente no campo de seus poderes intelectuais. Os poderes intelectuais

humanos são idênticos aos de seus colegas animais e, além disso, ambos são explicados

de acordo com as leis da mecânica19.

Reside, portanto, em outro polo o critério de diferenciação. Apesar de em um

primeiro momento Rousseau animalizar o homem natural, ao dar especial ênfase na

semelhança entre ele e o animal – despojando-o de toda e qualquer peculiaridade que a

tradição empregava para distingui-lo –, ele concebe propriedades específicas do homem

que o distinguem dos animais, a saber, a liberdade20 e a perfectibilidade21.

16 Para Rousseau, “as três soluções alternativas resumidas por Condillac – a) os animais têm sensação e

pensamento (a concepção ‘comum’); b) eles têm sensação, mas não pensamento (a concepção

escolástica); c) eles não têm nem sensação nem pensamento (a posição cartesiana) – estão igualmente

equivocadas. Todas pressupõem que a distinção – se é que existe – está numa diferença entre o

‘entendimento’ do homem e do animal” (Dascal, Marcelo. “Linguagem e pensamento segundo

Rousseau”. Manuscrito, vol. III, n. 2, Campinas, 1980, p. 53).

17 Goldschmidt, Victor. Anthropologie et politique: les príncipes du système de Rousseau. Paris:

Librairie philosophique J. Vrin, 1983, p. 293.

18 Rousseau, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São

Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 173.

19 “A física explica de certa maneira o mecanismo dos sentidos e a formação das ideias” (Idem, p. 173).

20 A liberdade se caracteriza por fazer o ser humano concorrer com a natureza no que diz respeito a sua

conservação. O homem, ao exercer sua liberdade, pode desobedecer a voz da natureza (o instinto), ao

contrário do que acontece com o animal que, como ser bruto, é comandado por ela. Rousseau vê “em

todo animal somente uma máquina engenhosa, a quem a natureza deu sentidos para funcionar sozinha

e para garantir-se, até certo ponto, contra tudo que tende a destruí-la ou desarranjá-la. Percebo [diz o

autor] precisamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que a natureza faz tudo

sozinha nas operações do animal, ao passo que o homem concorre para as suas na qualidade de agente

livre. Um escolhe ou rejeita por instinto e o outro, por um ato de pura liberdade” (Rousseau, J-J.

Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins

Fontes, 2005, p. 172). Segundo Starobinski, “a lei natural tem então para o homem o caráter ambíguo

de um instinto que perdesse seu caráter mecânico para tornar-se intimação; antes mesmo que o

18

Mas, se, por um lado, o entendimento não servirá como faculdade distintiva,

peculiar ao ser humano, por outro, ele exercerá um papel capital para ressaltar o hiato

entre o homem natural e o homem civilizado. Ao negar o entendimento (desenvolvido)

ao homem natural e dificultar seu surgimento com aporias, nosso autor quer demonstrar

o abismo existente entre o homem tal como ele sai das mãos da natureza e o homem,

que convive em sociedade, já dotado de entendimento. Como aponta Victor

Goldschmidt,

após ter concordado com Condillac, afirmando que o entendimento

não servirá para distinguir o homem do animal, Rousseau mostrará

que o entendimento é um critério, e um critério decisivo, para

distinguir o homem civil do homem natural. E como o homem natural

permanece ainda próximo da animalidade, isso significa dizer que a

distância é maior entre o civilizado e o primitivo que entre o homem e

o animal. O entendimento vai assim recuperar toda a importância que

nos parecia recusada22.

Nesse momento, à questão do entendimento juntam-se as reflexões sobre a

linguagem. Ambas frentes fazem parte de um mesmo movimento no texto de Rousseau,

homem primitivo reflita e fale, a natureza deixa de ser para ele um simples condicionamento físico

[...]. Para ele, a voz da natureza é uma informação que não se inscreve diretamente na forma do

comportamento” (Starobinski, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo, seguido

de sete ensaios sobre Rousseau. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p-312-313).

21 A perfectibilidade, por sua vez, é uma faculdade muito peculiar que nos possibilita o desenvolvimento

e a atualização de todas as nossas faculdades, que anteriormente estavam em estado virtual. De acordo

com nosso autor, “a faculdade de aperfeiçoar-se; faculdade essa que, com a ajuda das circunstâncias,

desenvolve sucessivamente todas as outras, e reside, entre nós, tanto na espécie quanto no indivíduo”

(Rousseau, J-J. “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”. São

Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 173, grifo nosso). Ela não é, nas palavras de Victor Goldschmidt,

“nem invenção, nem reflexão, ela não é razão. Ela é somente a condição prévia e formal que torna

possível todas essas faculdades” (Goldschmidt, Victor. Anthropologie et politique: les principes du

système de Rousseau. Paris: J. Vrin, 1974, p. 288). A perfectibilidade pode nos levar tanto para o bem

quanto para o mal, podendo ser tanto a fonte de nossas alegrias quanto a fonte de todas as nossas

infelicidades. É ela que faz com que o homem esteja sujeito a tornar-se imbecil, caindo em um estado

“mais baixo do que o próprio bicho [...]. É ela que o tira, por força do tempo, dessa condição

originária em que ele passaria dias tranquilos e inocentes; [...] é ela que, fazendo desabrochar com os

séculos suas luzes e seus erros, seus vícios e suas virtudes, torna-o com o tempo o tirano de si mesmo

e da natureza” (Rousseau, J-J. “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os

homens”. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 174). Todavia, não devemos atribuir-lhe a

responsabilidade por nossas misérias, pois a perfectibilidade não tem em si o poder do bem e do mal.

Rousseau não concebe que ela seja uma faculdade que distribua a seu bel-prazer progressos e

misérias, vícios e virtudes. Para ele a perfectibilidade não é uma faculdade ofensiva que empreenda

uma iniciativa, mas sim uma faculdade defensiva ou de resposta. Ela sempre entra em cena para

responder a uma provocação vinda de fora. A sua (re)ação está inteiramente condicionada às

necessidades que os homens possuem. Sem esta faculdade o homem, certamente, sucumbiria às

intempéries do clima e do solo, já que para sobreviver, ele tem que vencer constantemente os

obstáculos que a natureza cria. Cabe lembrar que a perfectibilidade, no puro estado de natureza,

permanece sem emprego. Faltam necessidades que possam desencadear o mecanismo.

22 Goldschmidt, Victor. Anthropologie et politique: les príncipes du système de Rousseau. Paris:

Librairie philosophique J. Vrin, 1983, pp. 293-294.

19

já que a questão da linguagem intervém na argumentação do autor para dificultar o

desenvolvimento do entendimento e, portanto, para tornar mais árdua a explicação da

passagem do homem natural ao homem dotado de um aparelho intelectual plenamente

desenvolvido.

Uma das primeiras menções acerca da linguagem no Discurso sobre a

desigualdade ocorre em uma nota de rodapé. Ela confirma esse movimento único na

argumentação de Rousseau. Trata-se da nota h:

Todas essas observações sobre a variedade que mil causas podem

produzir, e de fato produziram, na espécie humana fazem-me

desconfiar que vários animais semelhantes aos homens – tomados

pelos viajantes, sem um exame acurado, por bichos, ou por causa de

alguma diferença, que notavam na conformação exterior, ou somente

porque esses animais não falavam – seriam de fato homens selvagens,

cuja raça dispersa antigamente nos bosques não tivera oportunidade de

desenvolver nenhuma de suas faculdades virtuais, não adquirira

nenhum grau de perfeição e se encontrava ainda no estado primitivo.

[...] Atendo-nos aos relatos anteriores, encontramos na descrição

desses pretensos monstros conformidades impressionantes com a

espécie humana, e diferenças menores do que as que poderíamos

assinalar de homem para homem. [...] Não encontramos nessas

passagens as razões nas quais os autores se fundamentam para recusar

aos animais em questão o nome de homens selvagens, mas é fácil

conjecturar que é por causa de sua estupidez e, também, porque não

falavam; razões fracas para aqueles que sabem que, embora o órgão

da palavra seja natural ao homem, a palavra em si não lhe é, porém,

natural e que sabem até que ponto sua perfectibilidade pode ter

elevado o homem acima de seu estado original. [...] Que juízos cremos

que poderiam fazer tais observadores acerca da criança encontrada em

1694 [...] que não dava nenhuma mostra de razão, andava sobre os pés

e as mãos, não tinha linguagem alguma e formava sons que em nada

se assemelhavam aos do homem? [...] Se, para a sua infelicidade, essa

criança houvesse caído nas mãos de nossos viajantes, não se pode

duvidar que, depois de ter-lhe notado o silêncio e a estupidez, teria

tomado a resolução de mandá-lo de volta para os bosques ou de fechá-

la em um zoológico; em seguida, falariam dela com erudição em belos

relatos, como de um bicho curiosíssimo que se parecia bastante com o

homem23.

23 Rousseau, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São

Paulo: Martins Fontes, 2005, pp. 309-314. Nas palavras de Dascal, “Rousseau se queixa da rapidez

com que certos exploradores classificam espécies de macacos como não humanas, baseados em

pouquíssimos dados. Rousseau conjectura que a razão de tal prática é a suposta estupidez e falta de

linguagem desses macacos. Mas isto, diz ele, não exclui a possibilidade de que sejam humanos, já que

tanto a linguagem quanto a inteligência são capacidades adquiridas e não naturais ao homem” (Dascal,

Marcelo. “Linguagem e pensamento segundo Rousseau”. Manuscrito, vol. III, n. 2, Campinas, 1980,

p. 52).

20

Esta citação nos mostra que a capacidade da fala, ou melhor, sua ausência não é

em absoluto uma forma segura para garantir a não humanidade de um ser vivo no

segundo Discurso 24. O mesmo se dá com a ausência de um aparelho intelectual

desenvolvido. Desse modo, a nota de rodapé “completa, ao acrescentar a dimensão

linguística, a exposição da concepção de Rousseau sobre o problema tradicional da

distinção entre homem e animal”25.

Vejamos a partir de agora como Rousseau irá formular alguns obstáculos ou

“círculos aporéticos”26 para adiar o aparecimento do entendimento e da razão e como a

digressão sobre a linguagem tomará parte nesse movimento global.

O primeiro obstáculo diz respeito à ação recíproca que liga o entendimento às

paixões em um círculo fechado e os solidificam em uma relação estática que, para

ganhar movimento, requer o auxílio de novas circunstâncias que engendram novas

necessidades. Se, por um lado, nossa razão somente se aperfeiçoa por meio da atividade

de nossas paixões, posto que buscamos conhecer apenas na expectativa de satisfazer um

desejo latente ou cessar um temor insuportável; por outro, somente desejamos e

tememos algo que já conhecemos ou que a natureza impõe:

Digam o que disserem os moralistas, o entendimento humano deve

muito às paixões, que, segundo uma opinião geral, lhe deve muito

também: é pela sua atividade que nossa razão se aperfeiçoa; só

buscamos conhecer por desejarmos usufruir, não sendo possível

conceber por que aquele que não tivesse desejos nem temores se daria

ao trabalho de raciocinar. As paixões, por sua vez, originam-se de

nossas necessidades, e seu progresso em nossos conhecimentos, pois

só se pode desejar ou temer as coisas conforme as ideias que se podem

ter delas, ou pelo mero impulso da natureza; e o homem selvagem,

privado de qualquer tipo de luzes, só experimenta as paixões dessa

última espécie; seus desejos não ultrapassam suas necessidades

físicas27.

Poderíamos facilmente sair dessa circularidade ao interpretar este trecho da

seguinte maneira: as necessidades naturais fundam as paixões primitivas fazendo com

24 Para Claude Lévi-Strauss, “Rousseau preferiria admitir que os grandes macacos da África e da Ásia,

mal descritos pelos viajantes, fossem homens de uma raça desconhecida, antes de correr o risco de

contestar a natureza humana de seres que poderiam possuí-la. E o primeiro erro teria sido menos

grave” (Lévi-Strauss. “Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências dos homens” . In: Antropologia

estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993, p. 49).

25 Dascal, Marcelo. “Linguagem e pensamento segundo Rousseau”. Manuscrito, vol. III, n. 2, Campinas,

1980, p. 52.

26 Idem, p. 55.

27 Rousseau, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São

Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 175.

21

que estas operem como, pelo menos, um ponto de partida: “Querer e não querer, desejar

e temer, serão as primeiras e talvez as únicas operações da alma [dos homens selvagens]

até que novas circunstâncias nele provoquem novos desenvolvimentos”28. Essas paixões

suprem a motivação inicial para que a busca de conhecimento se efetive, já que

Rousseau afirma ser impossível conceber como um homem que não tenha desejos nem

temores se daria ao trabalho de raciocinar. As novas circunstâncias farão então o resto

do trabalho. Elas criarão novas necessidades e colocarão em movimento novas paixões

visando a satisfação de tais necessidades, o que, por sua vez, levará a novos

aperfeiçoamentos da mente. Em contrapartida, esses progressos do espírito suscitarão

novas paixões e assim por diante. Nesta perspectiva, Rousseau formula

fundamentalmente uma teoria da evolução humana em que necessidades, paixões e

progressos intelectuais estão estreitamente ligados. De acordo com suas palavras, “os

progressos do espírito foram precisamente proporcionais às necessidades que os povos

haviam recebido da natureza, ou às quais as circunstâncias os haviam sujeitado, e, por

conseguinte, às paixões, que os levavam a prover tais necessidades”29.

Contudo, as coisas não são tão simples assim se levarmos em consideração que

as “módicas necessidades” do homem natural são insuficientes para fornecer um

estímulo capaz de movimentar as paixões e, consequentemente, o entendimento. O

homem no estado de natureza necessita apenas de alimentação, uma fêmea e repouso,

afirma Rousseau. Teme somente a dor e a fome30. Assim, no puro estado de natureza,

nenhuma necessidade que exige progressos e que seja capaz de tomar a iniciativa é

concebível. A imaginação do homem selvagem (ou natural)

nada lhe descreve, seu coração nada lhe pede. Suas módicas

necessidades encontram-se tão facilmente ao alcance da mão e ele está

tão longe do grau de conhecimentos necessários para desejar adquirir

outros maiores, que não pode ter nem previdência, nem curiosidade. O

espetáculo da natureza, à força de se lhe tornar familiar, torna-se-lhe

indiferente31.

28 Idem, p. 174.

29 Idem, p. 175.

30 “Sem dúvida, tais paixões elementares são comuns ao homem e ao animal, apesar de ser este último

desprovido de alma” (Dascal, Marcelo. “Linguagem e pensamento segundo Rousseau”. Manuscrito,

vol. III, n. 2, Campinas, 1980, p. 54).

31 Rousseau, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São

Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 176.

22

Neste sentido, existe uma grande diferença entre as puras sensações e a mais

ínfima porção de conhecimento32. É por isso que, para Rousseau, o homem selvagem

começará por funções animais.

Ainda que vencêssemos esse primeiro obstáculo e supuséssemos o homem

selvagem tão esclarecido quanto imaginam os filósofos, cairíamos em um segundo

obstáculo, pois de nada lhe adiantaria tanta luz, já que ela não poderia ser comunicada

para o restante do gênero humano.

Ainda que quiséssemos supor um homem selvagem tão hábil na arte

de pensar como nos fazem supor os nossos filósofos; ainda que

fizéssemos dele mesmo, a exemplo dos nossos, um filósofo, que

descobrisse por si só as mais sublimes verdades, elaborasse, mediante

sequências de raciocínios muito abstratos, máximas de justiça e de

razão tiradas do amor à ordem em geral, ou da vontade conhecida de

seu Criador; em suma, ainda que lhe supuséssemos no espírito o tanto

de inteligência e de luzes que deveria ter e que, na verdade, nele

encontramos de lentidão e de estupidez, que utilidade retiraria a

espécie humana de toda essa metafísica, que não poderia ser

comunicada e pereceria com o indivíduo que a houvesse inventado?33

Segundo nosso autor, “é impossível conceber como um homem poderia ter,

somente por suas forças, sem o auxílio da comunicação e sem o aguilhão da

necessidade, transposto tão grande intervalo”34.

Além de pensarmos nesta questão da comunicação e da transmissão dos

conhecimentos e das descobertas, outra, anterior e, poderíamos até dizer, mais

fundamental, deve ser colocada e discutida. Trata-se da quantidade de ideias que, para

serem formuladas, necessitam diretamente do apoio das palavras. É nesse sentido que

entra em cena o debate acerca da linguagem e a sua ligação intrínseca com um contexto

epistemológico.

Se pensarmos quantas ideias devemos ao uso da palavra, como a

gramática exercita e facilita as operações do espírito; e se pensarmos

nos esforços inconcebíveis e no tempo infinito que deve ter custado a

32 Idem, p. 176.

33 Idem, p. 178.