A pastelaria da rua quinze por L P Baçan - Versão HTML

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1ª Edição Eletrônica

L P Baçan

Autor

Edição Eletrônica: L P Baçan

Novembro de 2009

All rights reserved

Copyright © 2009 do Autor

Distribuição exclusiva através do

SCRIBD

Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

A PASTELARIA DA RUA QUINZE

"Na parada seguinte, entrou uma mocinha de calças compridas, bem justas nas nádegas. Os seios, vistos de baixo, não era grande coisa, mas a cintura fininha prometia bastante."

(Esdras do Nascimento em Tiro na Memória).

— Qualquer um?

— Não, um bem torradinho.

Às cinco da tarde, saí do escritório. Pensei em tomar logo um ônibus, mas, como a tarde estivesse muito agradável, misturei-me ao povo e desci até a Rua Quinze. Lá, antes de mais nada resolvi comer alguma coisa. O cheiro delicioso que vinha de uma pastelaria atraiu-me. Entrei. Sobre o balcão, um litro de suco de pimenta. Sentei-me no tamborete a bati os dedos no balcão. O

chinês (ou japonês?) virou-se e exibiu o rosto suado. Pedi um pastel e comi-o, carregando na pimenta. Gosto de pimenta. Não gosto de molho de tomate. Um dia fizeram-me uma brincadeira com molho de tomate. Sujaram-me durante uma briga preparada. Senti tanto medo que as feridas de molho de tomate doeram.

Eu fumava meu cigarro à porta da pastelaria, quando a polaquinha chegou. Confesso que senti um vazio no estômago. Que peça. Cruzei a rua e fui ver os cartazes do Cine Avenida. Uma bomba. Ao sair, esbarrei numa senhorita de casaco de pele. Posso jurar que era coelho. Falsa! Mas era bonita e senti de novo o vazio no estômago. Lembrei-me, então, da minha necessidade.

Olhei as vitrines do Magazine Caçula, namorei uma motocicleta nas Lojas Motosima e paquerei a caixa do Magazine Odeon.

Seria mais ou menos cinco e meia, quando atravessei a Voluntários da Pátria e parei à espera do ônibus. A minha frente, uma moreninha exibia as pernas abaixo da mini-saia. Encostei-me nela. Esfreguei-lhe o joelho. Ela virou. Fez beicinho. Piscou-me. De novo o vazio no estômago. Eu estava, de fato, necessitado. Precisava dar um jeito na vida. Quando o ônibus chegou, quase morri. Ela fez questão de mostrar a calcinha ao subir. Preta! Tenho fixação pelo preto. Não sei porquê? Talvez porque minha primeira mulher usasse calcinhas pretas. Um negócio de mulher! Pena que tivesse apanhado aquilo na vida e não quisesse me transmitir. Penso até que ela gostava um pouco de mim para fazer aquilo. Fosse uma outra, teria me posto de molho por um bom tempo. Pobre Estela!

No ônibus, consegui um lugar junto da moreninha. Chamava-se Margarida. Quem a visse juraria ser outro seu nome. Poderia ser outro, qualquer outro, só Margarida que não. Confesso que me desinteressei. Onde já se viu uma morena como aquela chamar-se Margarida?

— Já vou embora.

— Por quê?

* * *

— Qualquer um?

— Não, um bem torradinho.

Amaldiçoei aquela pensão com todos os nomes do meu vocabulário.

Onde já se viu servir água fria a seus inquilinos? Só porque eram pobres rapazes jogados na vida tinham esse direito?

A comida estava horrível. Lembrei-me do pastel da pastelaria da Rua Quinze e do rosto suado do japonês (ou chinês?).

Após o jantar, saí para a rua e sentei-me no muro. Garotas passavam assanhadas. Colegiais? Não, biscates. À última tragada, atirei o toco do cigarro sobre a capota de um Wolksvagem estacionado no outro lado da rua.

Ao cair, lançou fagulhas e deixou uma mancha acinzenta na pintura. De onde eu estava não pude ver, mas juro como ficou. Sempre ficava.

Tirei do bolso a carteira e examinei o dinheiro. Pagas as contas, restava-me ainda o suficiente para os cigarros e um ou dois programinhas baratos.

Quando a loira passou no Galaxie a minha frente, senti de novo o vazio no estômago. Lembrei-me, então, das vitrines do Magazine Caçula, da motocicleta da Motosima e da caixa do Magazine Odeon. Onde será que ela estaria? Talvez à noite ela até estivesse livre... Podia ser que sim, podia ser que não. Afinal de contas, aquelas moças sabiam se virar.

De novo o vazio no estômago ao ver um cachorrinho correr atrás de uma cadelinha. Também depois, quando os primeiros anúncios de Tergal, vindo ao meu encontro, mostravam a mulher seminua. Outro ainda, quando cruzei com o fardado, acompanhado de uma menininha. Posso garantir como aquela estava carregada. Pobre soldado! Em menos de uma semana acabaria na enfermaria do quartel. E o médico apontaria o vidrinho de éter com o pau do Cabo João, desintegrado pela gonorréia. O soldado tremeria, tomaria sulfa (sulfa?) e, antes que sarasse, estaria passeando de novo com alguma outra vagabunda. Aqueles caras nãos sossegavam nunca.

Cortei a rua e entrei na Praça Osório. Um bicha, encostado em um poste, fez-me sinais.

— Filho de uma puta! Pensa que eu sou o quê?

Virei o rosto e dei de encontro com uma garotinha, girando nas mãos uma bolsinha branca. Por certo era biscate. Noventa e nove por cento era biscate. O um por cento restante era suspeita encaminhada.

Atravessei a praça. O vazio no estômago se repetiu. Chegou a bambear-me as pernas, quando passei pela filhinha de papai que subia no Corcel novo, exibindo as meias pretas (pretas?). Gostosa! Pisquei um olho e ela riu. Riso de mofo, como se dissesse:

— Pobre coitado! Sou, mas não para o seu bico!

— Já vou embora.

— Por quê?

* * *

— Qualquer um?

— Não, um bem torradinho.

Quando saio para procurar mulher, tem que ser coisa boa. Não basta somente o vazio no estômago. Nem somente o bambear das pernas. Tem que ser daquelas que causam um vazio no estômago, um bambear nas pernas, uma dorzinha de cabeça e uma sensação de flutuação. Quando acontece, chego a ficar louco. Uma vez achei uma que me fez até desmaiar. Agora procuro me controlar. Quando desmaiei, ela, assustando-se, fugiu. Sofri calado uma semana. Saudades de uma mulher que eu não pude ter. Fraqueza? Não sei. Só que agora isso não se repete. Há poucos dias mesmo, quase desmaiei.

Agüentei firme, porém. Com uma boa dose de boa vontade e comedimento, posso superar esses rudes golpes.

Fui até a estação rodoviária. Uma vez consegui apanhar uma doninha que veio do interior. Era virgem. Deve ter vindo somente para aquilo mesmo. Não sei como consegui. Ela desceu de um ônibus, apanhou as malas e saiu. Foi até os táxis. Não apanhou nenhum. Era umas nove horas da noite. Ela parou ali como quem não queria nada e procurava tudo. Observei-a de longe. Cheguei.

Passei perto. Ela olhou. Eu pisquei. Ela fez beicinho. Quinze minutos depois eu estava com ela na Pensão Santa Helena, dez contos mais pobre. De santa a pensão não tinha nada. Cama rangedeira, porteiro mal encarado, banheiro embolorado. Mesmo assim, passei a noite com a menina. Inexperiente!

Na estação rodoviária, dessa vez, não consegui nada. Fui até a Santos Andrade. Lembrei-me de que precisava passar uns pontos a limpo. Qualquer outro dia. Senti fome. Engraçado, senti fome. Lembrei-me, então, do pastel da pastelaria da Rua Quinze, do chinês (ou japonês?) da cara suada e do molho de pimenta. Voltei à rua Quinze. Passei pelas vitrines do Magazine Caçula, namorei a motocicleta da Motosima e encontrei fechado o Magazine Odeon. A caixa deveria estar ocupada. Fui até a pastelaria. Comi só um pastel. Não agüentei mais do que um.

Eu estava ali, firme na porta, cigarro acesso, quando uma chinezinha passou. Olhei-a bem: pernas roliças e firmes, ancas suaves, corpo em forma de taça, cabelos compridos e negros. Ela olhou para trás e para mim. Quase desmaiei. Ela sorriu. Foi até uma parada de ônibus. Segui-a. Quase chegando perto dela, atirei o cigarro na sarjeta. Uma água suja corria esverdeada. O

cigarro fez tchiii ao apagar-se. Coitado! Aproximei-me da chinezinha e segurei sua mão. Ela não protestou. Espalmei a outra mão em suas costas e quase caí mesmo. Era... Era... Puxa vida! Era o máximo!

— Já vou embora?

— Por quê?

* * *

— Qualquer um?

— Não, um bem torradinho.

Àquela hora, o Juvevê-Campo Santo estava quase vazio. Uns poucos passageiros. Paguei a passagem da menina.

— Oitocentos, trocado, faz favor.

Sentei-me junto dela. Encostei-me e passei o braços sobre seus ombros.

Ela me olhou e sorriu. Respirava difícil e, sob a blusa, imaginei seu coração batendo. Um hálito de molho shoio enojou-me. Detesto-o tanto quanto molho de tomate. Planejei fazê-la escovar bem os dentes. Quem sabe um chiclete de hortelã?

— Mora onde?

— Juvevê.

Seu sotaque era oriental.

— Sozinha?

— Não. Meu marido, mas ele só chega depois da meia-noite.

— E você fica sempre sozinha?

— Nem sempre fico. Aliás, dificilmente.

Seu riso era malicioso. Desgraçada! Imaginei, pegar pela primeira vez uma oriental que tem um hálito que cheira a molho shoio e quase nunca fica sozinha!

O ônibus parou. Sinal vermelho. Olhei as vitrines de um posto de gasolina e lembrei-me das do Magazine Caçula. Lembrei-me também da motocicleta da Motosima e da caixa do Magazine Odeon. Senti em mim um cheiro de pastel. Olhei a bolsa da moça e lembrei-me de uma prestação.

— Quantos anos você tem?

— Dezessete.

Fiquei olhando-a, apalpando-a e imaginando: o que havia de errado com seu marido? Com ela? Conosco? Por que em tudo o gosto carregado de pimenta sobre um pastel torradinho da pastelaria da Rua Quinze, com seu japonês (ou chinês?) de rosto suado?

— Escute, meu bem, você é japonesa ou chinesa?

— Sou...

Não concluiu. O motorista gritou furioso, após frear violentamente.

Havia uma mulher seminua no Opala vermelho que atravessava o sinal. Senti de novo o vazio no estômago.

— Seu nome?

— Lis.

— Lis do quê?

— Somente Lis e nada mais. Nome de guerra.

— Ah!

Gostei da resposta e olhei a moça com admiração. Quase desmaiei outra vez.

— Já vou embora.

— Por quê?

* * *

— Qualquer um?

— Não, um bom torradinho.

Sua casa não se parecia em nada com uma vitrine de loja. Para chegarmos até lá, saltamos perto de um manicômio. Os loucos jogavam futebol na rua, sob os olhares complacentes dos enfermeiros, que marcavam nos dedos a contagem. Seguimos em frente e dobramos à direita. Após uma ladeira, entramos à esquerda e fomos até o fim. Lembro-me de que ela parou umas duas ou três vezes para tirar pedregulhos da sandália. Não havia asfalto, mas a iluminação era boa. A cada vez que ela fazia aquilo, o vazio no estômago, o bambear de pernas, a tontura, a dorzinha de cabeça, todas essas sensações eram maiores em mim. Ela fazia questão de levantar bem aquela perna e mostrar a calcinha branca. Lembrei-me que era a primeira vez que uma delas me aparecia com uma calcinha branca. Apostei comigo mesmo como, na hora agá, ela trocaria. Sempre trocavam.

Na escuridão da varanda, quando ela parou para tirar a chave da bolsa, segurei-a por trás, com as duas mãos sobre seus seios. Esfreguei-me vagarosamente nela. Ela gostou. Virou-se e a beijei. Quase desmaiei! Seu beijo não tinha gosto de pastel, de molho shoio ou de molho de tomate. Tinha, assim, um gosto estranho, exótico, como que de pólvora e sangue, de balas e estilhaços. Um gosto violento que machucou-me de tanto prazer. Soltei-a e ela abriu a porta. Entramos. Sua casa não era como a vitrine do Magazine Caçula, com a vitrine da motocicleta, e ela não era como a caixa do Magazine Odeon.

Olhei-a bem e lembrei-me do rosto suado do chinês (ou japonês?) da pastelaria da Rua Quinze. Pobre homem! A suar como um doido o dia inteiro.

E o que eu poderia fazer? Não suava eu, por acaso, o dia todo, atrás daquela papelada miserável, no escritório do Fundo de Investimentos Boa Ação? Que se rachassem os rostos suados e os pobres que trabalhavam porque precisavam, como eu fazia. Que poderia eu resolver?

— Já vou embora.

— Por quê?

* * *

— Qualquer um?

— Não, um bem torradinho.

Como eu previra, ela trocou de calcinha. Colocou uma azul com rendinhas. Que doçura!

Seu quarto era todo oriental, com esteiras de bambu, cama baixa e travesseiro duro, talvez um tijolo. Eu que nunca apanhara uma oriental, surpreendi-me. Como são agradáveis. Confesso que quase desmaiei. Não fosse meu autocontrole...

— Como era mesmo seu nome?

— Lis.

— Moram aqui há muito tempo?

— Quase um ano.

Imagine! Morar numa casa daquela há dois anos. Uma casa exótica, diferente. Não se parecia nem um pouco com as vitrines do Magazine Caçula, nem ela com a caixa do Magazine Odeon. Posso jurar, porém, que ela era muito melhor que a motocicleta da Motosima.

— Ah, lembrei-me! Você é chinesa ou japonesa?

— Sou vietnamita.

Puxa vida, pensei! Vietnamita. Depois disso, nem me passou pela cabeça perguntar se do sul ou do norte. Deus me livre! Podia ser que tivesse por ali uma faca de bambu, uma espada de samurai ou uma flecha mongol. Veio-me à mente o japonês-chinês (ou vietnamita?) lá da pastelaria, a exibir seu rosto suado. Ora bolas, quem diria? Vietnamita!

Enquanto ela jurava que iria me trazer um café, fiquei imaginando e indagando. Onde estaria a caixa do Magazine Odeon? Margarida? Um Wolksvagem azul com uma mancha acinzentada no capô? As colegiais? O

bicha? Cabo João? A biscatinha? A filhinha de papai? A mocinha da pensão Santa Helena, com sua cama rangedeira, porteiro mal encarado e banheiro embolorado? Poderia estar em qualquer parte: nas vitrines no Magazine Caçula, sobre a motocicleta da Motosima ou no Magazine Odeon. Poderia ser encontrados na Pastelaria da Rua Quinze, no Cine Avenida, na Praça Osório ou na Santos Andrade. Em qualquer lugar.

De uma coisa eu sabia, porém. Todos, todos, indistintamente, traziam na boca algo semelhante ao gosto carregado do molho de pimenta da pastelaria da rua Quinze sobre um pastel torradinho.

— Deve ser seu marido chegado.

— Fique!

Não sou nenhum tonto. Rápido pulei a janela, tropecei nos pedregulhos e saí para o frescor da noite. Acendi um cigarro. O barulho lá fora era do vietnamita chegando.

— Já vou embora.

— Por quê?

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