A produção da subjetividade na formação contemporânea do clero católico por Silvio José Benelli - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE PSICOLOGIA

SÍLVIO JOSÉ BENELLI

A PRODUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

NA FORMAÇÃO CONTEMPORÂNEA

DO CLERO CATÓLICO

São Paulo

2007

SÍLVIO JOSÉ BENELLI

A PRODUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

NA FORMAÇÃO CONTEMPORÂNEA

DO CLERO CATÓLICO

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia

da Universidade de São Paulo como parte

dos requisitos para obtenção do grau de

Doutor em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia Social

Orientador: Prof. Dr. Geraldo José de Paiva

São Paulo

2007

AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE

TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA

FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

Catalogação na publicação

Serviço de Biblioteca e Documentação

Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

Benelli, Sílvio José.

A produção da subjetividade na formação contemporânea do clero

católico / Sílvio José Benelli; orientador Geraldo José de Paiva. -- São

Paulo, 2007.

486 p.

Tese (Doutorado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia.

Área de Concentração: Psicologia Social) – Instituto de Psicologia da

Universidade de São Paulo.

1. Psicologia e religião 2. Análise institucional 3. Subjetividade

4. Seminários 5. Educação do clero I. Título.

BL51

FOLHA DE APROVAÇÃO

Sílvio José Benelli

A Produção da Subjetividade na Formação Contemporânea do Clero Católico

Tese apresentada ao Instituto de

Psicologia da Universidade de São

Paulo para obtenção do título de

Doutor.

Área de concentração: Psicologia

Social.

Aprovado em:

Banca Examinadora

Prof. Dr. _____________________________________________________________

Instituição: ___________________________ Assinatura: ______________________

Prof. Dr. _____________________________________________________________

Instituição: ___________________________ Assinatura: ______________________

Prof. Dr. _____________________________________________________________

Instituição: ___________________________ Assinatura: ______________________

Prof. Dr. _____________________________________________________________

Instituição: ___________________________ Assinatura: ______________________

Prof. Dr. _____________________________________________________________

Instituição: ___________________________ Assinatura: ______________________

DEDICATÓRIAS

À família Benelli, pelo carinho e incentivo que sempre soube oferecer,

acompanhando meu percurso acadêmico, alegrando-se com as etapas vencidas.

À família Kisara, com carinho e gratidão, especialmente à Tereza, companheira

das horas alegres e também nas dificuldades e tristezas das quais a vida não nos poupa.

A José Benelli e Santo Benelli (in memoriam) pai e avô.

A Odair Antonio Benelli (in memoriam), irmão caçula muito amado, vítima da

violência e da injustiça social que campeiam pelo Brasil, cujo desaparecimento repentino nos deixou a todos uma saudade incomensurável: a terra clama pelo seu sangue derramado, assim como clamou pelo de Abel.

AGRADECIMENTOS

Aos bispos e padres formadores responsáveis pelo seminário teológico, pela

abertura a essa investigação em análise institucional.

Aos seminaristas estudantes de teologia, pela intensa convivência ao longo das

visitas e entrevistas, pela sua amizade, confiança e sinceridade.

Ao orientador Prof. Dr. Geraldo José de Paiva por me receber como orientando no

doutorado, por sua imensa gentileza, solicitude e cordialidade.

Ao Prof. Dr. Abílio da Costa-Rosa, por sua amizade e disponibilidade analítica,

pelo prazer de pesquisar e publicar juntos.

À Profª. Drª. Maria da Graça Chamma Ferraz e Ferraz, por todos esses longos

anos de amizade intensa.

Aos Marianistas, amigos e irmãos queridos, pelo incentivo e apoio ao longo dos

anos.

Aos colegas professores Rosana Maria Figueiredo e Paulo Rogério Lustosa,

companheiros imprescindíveis de muitas peripécias profissionais.

A Marcio José de Araújo Costa, colega genealogista, pesquisador dos devires

seminarísticos.

À Ângela Ianuário, leitora atenta em busca de caminhos outros para a existência.

A Carlos Roberto Merlin, revisor exímio, especialista meticuloso das filigranas da língua portuguesa, amigo querido.

À CAPES, pelo financiamento desta pesquisa.

BENELLI, S. J. A produção da subjetividade na formação contemporânea do clero católico.

São Paulo, SP, 2007, 486f. Tese (Doutorado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.

RESUMO

Esta pesquisa de doutorado é uma investigação em psicologia social sobre a produção da subjetividade eclesiástica, tal como ela se processa na instituição seminário católico.

Utilizando o instrumental teórico da análise institucional com base em Baremblitt, Foucault, Goffman e Costa-Rosa, mapeamos os operadores institucionais subjetivadores do dispositivo pedagógico “seminário”, enfocando tanto suas relações de poder quanto seus aspectos místicos, atentos às dimensões instituintes e instituídas. Nosso campo de pesquisa é um seminário católico diocesano de teologia, onde vivem 50 seminaristas em regime de internato, na etapa final de preparação para o sacerdócio, os quais, uma vez ordenados, passarão a ocupar posições de relevância que consistem na coordenação de comunidades paroquiais amplas. Os dados foram obtidos através da observação do cotidiano institucional e de entrevistas semidirigidas com os diversos atores institucionais. Os resultados obtidos indicam que a formação do clero pode ser considerada como um domínio ainda flutuante, constituindo um campo de noções conexas que reconhecemos como sendo pertinentes aos saberes

pedagógicos, psicológicos e teológicos. Há uma grande desconexão entre o contrato simbólico plasmado nos projetos e programas e a implementação concreta de operadores outros no dia-a-dia, produtores de efeitos diversos. A formação sacerdotal não seria regida pelos projetos oficiais, pela teologia da vocação ou pela teologia da espiritualidade, mas parece ser improvisada e fortemente condicionada pela realidade econômica precária das dioceses que mantêm o estabelecimento. As diversas correntes teológicas e espirituais parecem ter menos incidência na formação dos seminaristas (embora a dimensão acadêmica ocupe um espaço relevante no processo), do que os diversos rituais de passagem que transformam um candidato leigo em sacerdote católico: rito de admissão oficial como seminarista diocesano, ritos de instituição dos ministérios de leitor e acólito, rito de ordenação diaconal e, finalmente, o rito de ordenação sacerdotal. Há o desconhecimento e a denegação da dimensão totalitária e disciplinar do seminário teológico. O modo de funcionamento hegemônico do seminário seria o asilar ou conventual, baseado no enclausuramento, na tutela completa da existência do candidato ao sacerdócio, na vivência grupal e no panoptismo, atraído pela força gravitacional do paradigma tridentino. Concluímos que o atual formato do seminário teológico seria promotor de um padre fortemente clericalizado, com tendências ao autoritarismo e à centralização de poder. Provavelmente seria difícil que pudesse produzir um padre orientado pelo paradigma libertador, capaz de implementar as práticas desse modelo. Em termos de seus efeitos éticos, esse seminário estaria produzindo uma subjetividade serializada, submetida e alinhada com a manutenção do status quo eclesial e social. Parece que os futuros padres egressos da formação aí desenvolvida apresentariam uma tendência preponderante para

“funcionários do sagrado”, mais do que para “profetas libertadores”.

PALAVRAS-CHAVE: psicologia e religião, análise institucional, produção da subjetividade, seminário católico, formação eclesiástica.

BENELLI, S. J. The production of subjectivity in contemporaneous formation of Catholic clergy. São Paulo, SP, 2007, 486p. Thesis (Doctorate).Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.

ABSTRACT

This doctorate research is an investigation in Social Psychology about the ecclesiastical subjectivity production, as it is processed in a Catholic Seminary. Using the theoretical tool of institutional analysis based on Baremblitt, Foucault, Goffman and Costa-Rosa, we mapped the institutional operators that subjectivate the pedagogical device, the Seminary, focusing both their power relations and their mystical aspects, attentive to establishing and established dimensions. Our research field is a Catholic Diocesan Theological Seminary, where 50

seminarians live in boarding system, in final stage of preparation to priesthood; once ordained, they will be settled in relevant positions concerned to coordinate large parish communities. The data were obtained by observing the institutional daily life and by semidirected interviews with the diverse institutional actors. The outcomes indicated that ecclesiastical formation can be considered as a yet floating domain, composing a field of connected notions that we recognized as being pertaining to pedagogical, psychological and theological knowledge. There is a remarkable disconnection between the symbolical pact mould in projects and programs and the real implementation of other day-by-day operators: productors of diverse effects. The priest formation would not be led by official projects, by theological vocation nor by theological spirituality, but it seems to be improvised and strongly conditioned to dioceses’s economical and precarious reality which maintains the

establishment. The manifold theological and spiritual tendencies seem to be less incident in Seminarians formation (though academical dimension plays a great role in the process), than the rituals of passage which transform a candidate layman in a Catholic priest: rite of admission to candidacy as a Diocesan Seminarian, rites of institution in the ministries of reader and acolyte, rite of diaconal ordination and, finally, the rite of priestly ordination.

There is neither recognition nor admission of totalitarian and disciplinary dimension by Theological Seminary. The homogeneous way of functioning of the Seminary would be retreat or conventual, based on enclosurement, thorough tutorship of candidate’s existence to priesthood, on group livelihood and panoptism, attracted by gravitational force of Tridentine paradigm. We concluded that the actual format of the Theological Seminary would promote a priest strongly ecclesiastical, with tendencies to authoritarianism and to power centralization.

Probably it would be difficult to come to produce a priest oriented to the liberator paradigm, able to implement practices from such model. In terms of ethical effects, this seminary would be producing a serialized subjectivity, subdued and aligned to the maintenance of ecclesiastical and social status quo. It seems that the future priest from such developed formation would present a major tendency to “sacred servants” more than to “liberator prophets”

KEYWORDS: Psychology and religion, Institutional Analysis, production of subjectivity, Catholic Seminary, ecclesiastical formation.

SUMÁRIO

Apresentação.............................................................................................................................13

1 A instituição como agência de produção de subjetividade...............................................18

1.1 Análise institucional de um seminário teológico católico..................................................19

1.2 Concepções científicas distintas no campo psi: o psiquismo como interioridade psicológica e o tema da produção de subjetividade..................................................................23

1.3 A perspectiva institucional na pesquisa em psicologia social............................................30

1.3.1 Recursos teóricos-técnicos da análise institucional.........................................................35

1.4 A genealogia das práticas disciplinares e a formação institucional do clero católico........39

1.5 Goffman e Costa-Rosa como analistas institucionais.........................................................49

2 Investigação institucional de um seminário teológico católico.........................................56

2.1 Sujeitos da pesquisa............................................................................................................56

2.2 Objetivos.............................................................................................................................60

2.3 Hipóteses de pesquisa.........................................................................................................64

2.4 Análise institucional e produção de subjetividade..............................................................62

2.5 Observação participante......................................................................................................66

2.6 Entrevistas semidirigidas....................................................................................................70

2.7 O plano do saber eclesiástico..............................................................................................73

2.8 Análise e interpretação das práticas discursivas e não-discursivas.....................................74

3 O cotidiano institucional do seminário teológico: práticas e discursos em análise........78

3.1 Relatos da observação participante.....................................................................................78

3.1.1 Caracterização do seminário teológico............................................................................79

3.1.2 A história da fundação do seminário teológico......................................................................80

3.1.3 Aspectos gerais do funcionamento do seminário teológico.............................................86

3.1.4 A equipe de padres formadores: reitor, diretor espiritual e diretor de estudos................93

3.1.5 Assembléias comunitárias no seminário teológico........................................................100

3.1.6 A dimensão acadêmica do seminário teológico.............................................................107

3.1.6.1 O curso teológico e a formação sacerdotal................................................................109

3.1.7 O projeto de unificação local dos cursos de filosofia e de teologia...............................114

3.1.8 Consulta sobre a situação da formação sacerdotal interdiocesana.................................118

3.1.8.1 Sublevação dos seminaristas do segundo ano do curso de teologia............................122

3.1.9 O auto-exame como tecnologia pedagógica de formação..............................................125

3.1.10 Exercício de oração e espiritualidade no seminário teológico.....................................134

3.1.11 O projeto da dimensão espiritual.................................................................................139

3.1.12 Etapas institucionais do sacramento da ordem no percurso do seminarista................145

3.1.13 Jornadas de Estudos Teológico-Filosóficos.................................................................158

3.1.14 Organização dos Seminários e Institutos Teológicos do Brasil (OSIB)......................160

3.1.15 A experiência como pesquisador-participante no processo formativo do seminário...165

3.2 O discurso do sujeito coletivo dos seminaristas estudantes de teologia...........................170

3.2.1 Os vocacionados novatos no seminário teológico.........................................................172

3.2.2 Os seminaristas veteranos da casa.................................................................................178

3.2.3 Os seminaristas concluintes do curso teológico e do processo formativo.....................178

3.2.3.1 Os seminaristas que já são diáconos...........................................................................179

3.3 O discurso do sujeito coletivo da equipe de padres formadores...................................... 256

3.3.1 A supervisão do processo formativo eclesiástico pelo padre reitor...............................257

3.3.2 A direção espiritual num seminário teológico...............................................................275

4 Paradigmas eclesiais e pedagógicos e a formação do clero católico..............................309

4.1 Os paradigmas eclesiais e suas configurações políticas, pedagógicas e místicas.............310

4.2 A construção do paradigma eclesial tridentino.................................................................314

4.2.1 A eclesiologia tridentina................................................................................................318

4.2.2 A crise e desconstrução do paradigma tridentino..........................................................319

4.2.3 Dissolução do imaginário social e religioso..................................................................320

4.2.4 Desestruturação do enquadramento clerical...................................................................324

4.2.5 Desestruturação do enquadramento dos fiéis leigos......................................................328

4.3 Reações dialéticas ao processo de desmoronamento do paradigma tridentino.................332

4.3.1 Eclesiologia dissolvente radical.....................................................................................333

4.3.2 Eclesiologia integrista e fundamentalista.......................................................................334

4.3.3 Eclesiologia neofundamentalista....................................................................................337

4.3.4 Eclesiologia da libertação..............................................................................................342

4.4 Cenários eclesiais na atualidade........................................................................................346

4.5 Paradigmas pedagógicos no campo da Educação.............................................................349

4.6 Paradigmas eclesiais e pedagógicos e a formação sacerdotal...........................................355

4.7 Operadores teológicos, pedagógicos, psicológicos e espirituais da formação sacerdotal segundo o discurso oficial institucional..................................................................................364

4.7.1 A educação dos vocacionados no seminário segundo a “Ratio Fundamentalis”...........365

4.7.2 Diretrizes básicas da formação presbiteral da Igreja no Brasil......................................372

5 Cartografias da formação do clero católico.....................................................................385

5.1 A formação sacerdotal na América Latina, no Brasil e nos Estados Unidos da América: principais problemas comuns..................................................................................................385

5.2 Uma pesquisa latino-americana com os bispos.................................................................386

5.3 O ambiente educativo nos seminários maiores do Brasil.................................................395

5.4 Critérios psicológicos para o discernimento vocacional num seminário católico............400

5.5 Sondagem psicossocial sobre o sentimento de realização dos presbíteros no Brasil........401

5.6 A formação sacerdotal nos Estados Unidos da América..................................................403

5.6.1 Contradições pedagógicas na formação dos seminaristas..............................................404

5.6.2 Efeitos do seminário na formação do presbítero............................................................411

5.6.2.1 A cultura clerical e o clericalismo...............................................................................415

5.7 A importância do dispositivo de formação para o clero diocesano..................................419

6 Conclusões: o seminário teológico católico como dispositivo de produção de

subjetividade..........................................................................................................................424

6.1 Considerações gerais sobre os seminaristas diocesanos: filósofos e teólogos..................424