A questão de Molyneux em Diderot por Edna Amaral de Andrade Adell - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Filosofia

Programa de pós-graduação em Filosofia

EDNA AMARAL DE ANDRADE ADELL

A questão de Molyneux em Diderot

São Paulo

2010

EDNA AMARAL DE ANDRADE ADELL

A questão de Molyneux em Diderot

Dissertação apresentada ao Programa de

Pós-Graduação

em

Filosofia

do

Departamento de Filosofia da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo para obtenção do

título de Mestre em Filosofia sob a orientação

do Prof. Dr. Pedro Paulo Garrido Pimenta.

São Paulo

2010

AGRADECIMENTOS

Quando decidi voltar à vida acadêmica não imaginei que encontraria pela frente

um ambiente tão agradável e harmonioso, e pessoas tão sensíveis e amigas. Este

acolhimento proporcionou minha completa integração no programa de mestrado da

Faculdade de Filosofia, o que auxiliou muito na minha trajetória dentro da

Universidade. Apesar de toda a ajuda que recebi desde o primeiro dia, essa não foi uma

tarefa fácil. Na verdade, a conclusão desse trabalho é fruto de muito esforço e dedicação

e não teria sido possível sem o apoio e carinho de pessoas especiais que participaram

dessa jornada de desafios. Dessa forma, seguem meus sinceros agradecimentos a todos

que trilharam comigo este caminho.

Minha dívida intelectual, minha eterna admiração e estima para com meu

orientador Prof. Dr. Pedro Paulo Garrido Pimenta não poderiam ser descritas em poucas

linhas. Por esse motivo, limito-me a agradecer, antes de tudo, por ele ter aceitado a

árdua tarefa de me orientar na elaboração e desenvolvimento da presente tese. Com

certeza, sem sua paciência infinita, seu apoio e suas intervenções e comentários precisos

esta pesquisa não teria chegado ao fim.

À Professora Maria das Graças de Souza e ao Professor Luís Fernandes dos

Santos Nascimento, que participaram da banca de qualificação e cujas brilhantes

considerações, sugestões e críticas levantadas no exame de qualificação muito

contribuíram para a redação final da presente tese.

Aos professores do Programa de Mestrado em filosofia da FFLCH, pela

competência com que ministraram as disciplinas, em especial ao Prof. Dr. Luiz

Fernando Batista Franklin de Matos e ao Prof. Dr. Alberto Ribeiro Gonçalves de

Barros.

Ao CNPQ pela concessão da bolsa de mestrado e pelo apoio financeiro para a

realização dessa pesquisa.

À Secretaria do Departamento de Filosofia da USP, em especial à Marie Márcia

Pedroso, Maria Helena de Souza, Geni Ferreira Lima e Luciana Nóbrega, por toda

colaboração, atenção e delicadezas dispensadas.

À minha mãe, por seu carinho e por ser a inspiração deste meu trabalho.

Aos meus irmãos Edmea e Celso, por toda a ajuda que me prestaram na minha

estadia em Paris, no início da minha pesquisa.

À minha irmã Edilene, que tantas vezes precisou compreender minha

indisponibilidade, e me apoiou do início ao fim do trabalho.

Ao meu colega Leonardo Rennó Ribeiro Santos, que tornou as aulas mais

divertidas com seus comentários perspicazes e que desde as nossas primeiras conversas

se mostrou um amigo atencioso e dedicado.

A todos os amigos e colegas, que de algum modo contribuíram para o desenrolar

dessa tese.

Por fim, mas não menos importante, ao meu amigo e companheiro Darci, por

seu carinho e compreensão em todos os momentos desta longa jornada.

Ao Dr. Lucio Galvão Dantas, Dra. Luciene Barbosa de

Souza e a todos os médicos empenhados em devolver a luz

àqueles que vivem na escuridão.

RESUMO

ADELL, E. A. A. A questão de Molyneux em Diderot. 2010. 118 p. Dissertação

(Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de

Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

O objetivo principal da presente dissertação é mostrar a brilhante solução dada

por Diderot à questão de Molyneux que foi proposta à Locke por Molyneux e tinha o

seguinte enunciado: um cego de nascença que aprendeu a identificar uma esfera e um

cubo pelo tato, quando curado e puder enxergar, poderá distinguir estes objetos apenas

pela visão? Esta questão leva a discussões filosóficas a respeito de percepções táteis e

visuais. Ampliando a abordagem do problema podemos questionar outros pontos, tais

como: 1) O cego que recupera a visão pode transferir para o domínio visual o

conhecimento adquirido pelo tato?; 2) Pode este homem perceber a tridimensionalidade

do espaço?; 3) A percepção do espaço é inata ou adquirida?

Diderot vai além desta investigação e questiona: 1) Como o cego recém-operado

relataria suas novas sensações?; 2) Por esta investigação específica não seria possível

descobrir como o indivíduo adquire seu conhecimento do mundo?; 3) Pode-se afirmar

que a moral e a religião dependem da percepção?; 4) Existe alguma relação entre a

percepção e a linguagem?; 5) No caso desta relação de fato existir, quais são suas

implicações epistemológicas?

As considerações de Diderot sobre o tema encontram-se na Carta sobre os cegos

para o uso dos que veem (1749). Nesta obra, o filósofo francês mostra como as nossas

ideias dependem dos nossos sentidos e conduz um estudo muito interessante sobre a

origem do conhecimento e de que maneira a falta de um dos cinco sentidos modifica as

noções adquiridas com relação aos conceitos de visão, moralidade e a existência de

Deus. Diderot empenha-se em compreender como a abstração de certas percepções pode

conduzir um indivíduo a determinados conceitos. Ele retoma várias vezes o problema de

Molyneux para analisar como o cego de nascença pode representar o espaço e em todas

suas afirmações encontra a solução no conhecimento da geometria.

O texto possui três momentos fundamentais. No primeiro, Diderot interroga o

cego de nascença Puiseaux e relata como esse cego vive em seu mundo e como ele

define objetos dos quais não pode possuir nenhum conhecimento sensível devido à falta

de visão. Na segunda parte do texto, Diderot descreve como o matemático Saunderson,

cego desde um ano de idade, adquiriu conhecimentos pelo tato como se não fosse

privado da visão. Em seguida, Diderot atribui a Saunderson, em um diálogo com o

reverendo Holmes, um discurso no qual especula os conceitos de Deus, do bem e do

mal em um indivíduo privado de um dos sentidos. Dessa forma, ele mostra como nossas

ideias concernentes à existência de Deus e à moral não são absolutas e sim relativas à

nossa condição física e à conformação de nossos órgãos.

No terceiro momento da Carta, Diderot expõe o problema de Molyneux e

reponde à questão, comparando suas considerações com as de Locke e Condillac.

Palavras-chave: Problema de Molyneux, teoria do conhecimento, cego de nascença,

percepção, sensação e linguagem.

ABSTRACT

ADELL, E. A. A. Molyneux’s question in Diderot. 2010. 118 p. Thesis (Master

degree) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de

Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

The main objective of this thesis is to show the brilliant solution given by

Diderot to Molyneux‟s question which was proposed to Locke by Molyneux. It said: a

born blind man who learnt to identify a globe and a cube by his touch, when having his

sight restored and being able to see, will he be able to distinguish these objects just

looking at them? This question leads to philosophical discussions regarding to tactile

and visual perceptions. Extending the approach to the problem we can ask other points,

such as: 1) Can the blind man who recovers his sight transfer to the visual domain the

knowledge acquired by touch?; 2) Can this man perceive the three dimensions of the

space?; 3) The perception of space is innate or acquired?

Diderot goes further and asks: 1) How would the new-sighted man present his

new sensations?; 2) Through this scientific investigation, could it not be possible to

discover how an individual acquires his knowledge of the world? ; 3) Can one say that

moral and religion depend on perception?; 4) Is there any relation between perception

and language?; 5) If this relation really exists, what are its epistemological implications?

Diderot‟s accounts on the subject can be found in the Letter on the blind (1749).

In this text, the French philosopher shows how our ideas depend on our senses and he

guides a very interesting study on the origin of knowledge and how the lack of one of

our five senses can modify the acquired notions regarding to the concepts of sight,

morality and the existence of God. Diderot strives to understand how the abstraction of

some perceptions can lead the individual to certain concepts. He retakes Molyenux‟s

problem many times to analyse how the born blind man can represent the space and in

all his assertions he finds out the solution for the problem in geometry.

The text has three fundamental moments. In the first one, Diderot questions the

born blind Puiseaux and reports how that blind man lives in his world and how he

defines objects of which he cannot have any sensible knowledge due to his lack of

vision. In the second part of the text, Diderot describes how the mathematician

Saunderson, blind since one year old, acquired knowledge by touch as he was not

deprived of sight. After that, Diderot attributes to Saunderson, in a dialogue with

Reverend Holmes, a speech in which he speculates the concepts of God, of good and

evil in an individual deprived of one of the senses Thus, he demonstrates how our ideas

related to the existence of God and to the moral are not absolute, but relative to our

physical condition and to the conformation of our organs.

In the third moment of the Letter, Diderot exposes Molyneux‟s problem and

answers to the question, comparing his considerations to Locke‟s and Condillac‟s.

Key-words: Molyneux‟s problem, theory of knowledge, born blind people, perception,

sensation and language.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Imagem invertida formada na retina .....................................................108

Figura 2 – Imagem de um globo – Círculo sombreado ...........................................109

Figura 3 – Ábaco algébrico de Saunderson ..............................................................110

Figura 4 – Ábaco geométrico de Saunderson ...........................................................111

SUMÁRIO

Introdução .....................................................................................................................12

Capítulo 1 – O Problema de Molyneux no Século XVIII ..........................................16

Capítulo 2 – A Solução de Diderot para o Problema de Molyneux .........................35

Capítulo 3 – Alargamento do Conceito de Sensibilidade ..........................................78

Conclusão ....................................................................................................................104

Referências Bibliográficas .........................................................................................112

12

INTRODUÇÃO

Contrariamente ao que seria de se esperar, as teorias da visão desenvolvidas nos

séculos XVII e XVIII não tiveram nenhuma finalidade solidária ou compassiva e não

pretendiam melhorar a qualidade de vida das pessoas que viviam na escuridão. Na

verdade, as teorias da visão elaboradas pela maioria dos pensadores da época tinham por

objetivo determinar e estabelecer uma teoria do conhecimento unificada, que pudesse

explicar todas as operações da mente.

A busca por esta teoria do conhecimento tem seu ponto de partida numa questão

que despertou o mais vivo interesse na filosofia iluminista: seria um homem cego de

nascença, após uma cirurgia que lhe restituísse a visão, capaz de distinguir um cubo de

um globo, olhando os dois objetos, porém sem tocá-los? Este é o problema formulado

por William Molyneux1, e endereçado a Locke por meio de duas cartas enviadas em

julho de 1688 e março de 1693.

A simplicidade do problema de Molyneux poderia nos induzir erroneamente a

considerá-lo irrelevante para um estudo profundo. No entanto, sabemos que na história

da filosofia moderna da percepção existiram poucos problemas que tenham suscitado

maior reflexão, uma vez que a partir desta questão iniciou-se uma série de discussões

filosóficas e psicológicas a respeito das percepções táteis e visuais, e muitos pontos

complexos, que merecem uma análise mais detalhada, foram levantados. Sendo esta

questão primariamente epistemológica, ela abre um vasto campo para uma investigação

1 William Molyneux (1656 – 1698), cientista irlandês, fundador da “Dublin Royal Society” e autor da

Dioptrica Nova, obra que contém uma breve explicação de nossa percepção comum da distância. Porém,

nesta obra ele não analisa a questão da percepção de tamanho e figura, uma vez que tamanho e figura

pressupõem a apreensão da distância dos objetos. Molyneux deve ter presumido também que tanto o

tamanho quanto a figura são o resultado de operações cognitivas baseadas em outros dados. Vamos ver

que Locke compartilhou esta ideia no An Essay Concerning Human Understanding (capítulo sobre

Percepção). Na Dioptrica Nova, Molyneux menciona os diferentes métodos descritos por Descartes para

determinar distâncias, incluindo o método de triangulação. No entanto, ele não trata das questões

psicológicas, como por exemplo, se aprendemos os tamanhos destes ângulos como parte dos cálculos

cartesianos.

13

científica sobre as reflexões e experiências em torno do conceito de espaço, percepção e

principalmente sobre a transição da sensação para o juízo. Dado que a percepção é um

instrumento muito importante para a aquisição do conhecimento, não surpreende que

vários pensadores tenham analisado a questão em profundidade e desenvolvido teorias a

respeito. Podemos, a partir da formulação desta questão, ampliar sua abordagem, e

adicionalmente, por inferência, questionar alguns pontos, como por exemplo: 1) O cego

que recupera a visão pode transferir para o domínio visual o conhecimento adquirido

pelo tato?; 2) Pode este homem perceber a tridimensionalidade do espaço?; 3) A

percepção do espaço é inata ou adquirida?; 4) O espaço apresenta um caráter empírico

ou a priori?; 5) Este espaço é um elemento unitário e indistinto ou uma realidade plural

e diferente que sofre variações em função do campo ser visual ou tátil?; 6) É correto

afirmar que a experiência educa a percepção?; 7) Os sentidos nos fornecem dados puros

sobre o mundo exterior, ou estes dados são alterados pelo juízo?; 8) Cada um dos

sentidos é suficiente a si mesmo ou a colaboração de outros sentidos é necessária para

que possamos apreender as realidades exteriores?

Para Ernst Cassirer, este conjunto de problemas fundamentou a teoria do

conhecimento e a psicologia do século XVIII. Para ele duas questões são de extrema

relevância:

Haverá uma conexão interna que nos permita passar diretamente de um setor a

outro, por exemplo, do mundo tátil ao mundo visível? 2

E ainda:

Poderá ele (o homem cego de nascença curado) distinguir de imediato, por meio

da visão, um cubo de uma esfera, ou terá que realizar um longo e difícil esforço

2 CASSIRER, Ernst, A Filosofia do Iluminismo. Campinas: Editora da Universidade Estadual de

Campinas – UNICAMP, 1997. Trad. Álvaro Cabral, p. 153 – 154.

14

de conciliação antes de chegar a estabelecer uma ligação entre as impressões

táteis e a forma visível de um e de outro volume? 3

Cassirer conclui que essas questões ficaram sem uma solução geral imediata,

mas tiveram grande repercussão em meios científicos e filosóficos.

De fato, muitos filósofos analisaram a questão de Molyneux encontrando no

problema uma oportunidade para discutir o papel que a visão desempenha na construção

de conceitos. Segundo Cassirer, A Nova Teoria da Visão (1709) de Berkeley “nada mais

é, em suma, do que uma tentativa de desenvolvimento do problema de Molyneux até as

suas últimas consequências para o elucidar.” 4

Ele ainda acrescenta que

Voltaire consagra-lhe (ao problema) uma análise penetrante em seus Elementos

da Filosofia de Newton (1738); Diderot coloca-o no centro da sua primeira obra

de psicologia, de teoria do conhecimento, a Carta Sobre os Cegos (1749). Quanto

a Condillac, está fascinado a tal ponto por essa questão que declara sem rodeios

ter que se procurar aí a origem e a chave de toda a psicologia moderna. 5

E resume, de forma concisa, a razão pela qual a questão de Molyneux suscita

tanta discussão até os dias de hoje:

A importância teórica decisiva do problema de Molyneux é, portanto,

perfeitamente clara, de fato: para além do exemplo particular que ele destaca,

encontra-se colocada a questão geral de saber se o “sentido” como tal está em

condições de construir para a nossa consciência a forma do mundo real. 6

3 Ibidem, p. 154.

4 Ibidem, p. 154.

5 Ibidem, p. 154.

6 Ibidem, p. 154 – 155.

15

No capítulo 1, o problema de Molyneux será apresentado e enunciado. Veremos

também a resposta dada pelo próprio Molyneux e por Locke, bem como as bases que os

levaram a estas soluções.

O capítulo 2 mostrará a análise da Carta sobre os cegos, na qual se encontra a

solução dada por Diderot. Esta obra é muito complexa e trata de vários assuntos antes

de culminar na questão em referência. Alguns pontos são relevantes para que possamos

explicar as razões que levaram Diderot à sua resposta tão original. Por este motivo,

antes de apresentarmos a solução e sua explicação faremos uma análise desses tópicos

cruciais.

O capítulo 3 tratará do alargamento do conceito de sensibilidade apresentando

uma relação entre a linguagem e a percepção e sensação.

16

CAPÍTULO 1

O PROBLEMA DE MOLYNEUX NO SÉCULO XVIII

A visão é a rainha dos sentidos e a mãe destas ciências sublimes,

desconhecidas do grande público ao pequeno vulgar. A visão é a

benfeitora prestativa que nos dá as mais agradáveis sensações que

nós recebemos das produções da natureza. É à visão que nós

devemos as descobertas surpreendentes da altura dos planetas, e

de suas rotações em volta do sol, o centro comum da luz. A visão

estende-se até mesmo às estrelas imóveis, e quando é impossível ir

mais longe, ela remete-se à imaginação, para tornar cada uma

delas um sol que se move sobre seu eixo, no centro de seu

turbilhão. A visão é também a criadora das belas artes; ela dirige

a mão sábia destes artistas célebres, que ora amam o mármore, e

ora imitam por seu pincel as abóbodas do azul dos céus. O amor e

a amizade nos contam as alegrias que a visão de um objeto amado

produz após uma longa ausência! Enfim, quase não existem

sentidos tão úteis quanto a visão, e evidentemente, nenhum é tão

fecundo em maravilhas. (Artigo Vue da Encyclopédie)

Os estudos de óptica no século XVII intrigavam a grande maioria dos filósofos.

O fato de a luz imprimir na superfície convexa da parte de trás do olho uma imagem

invertida dos objetos externos (Figura 1) era tido como algo surpreendente. Partindo do

princípio que a percepção visual ocorre através do olho, fica implícito que é pelos olhos

que recebemos as informações sobre a distância à qual os objetos nos são apresentados.

É interessante notar que os pontos em ângulos diferentes de inclinação ou em diferentes

direções projetam luz em partes diferentes da retina, e pontos que diferem somente no

que diz respeito à distância projetam luz sobre a mesma parte do olho. Isto significa que

onde quer que os objetos estejam colocados (próximos ou distantes do olho), desde que

alinhados, a imagem será formada no mesmo local na retina, pois suas posições não

fazem diferença para a impressão no olho. Levando-se isto em consideração, e também

que a mente (ou cérebro) só é afetada como consequência da forma como o olho é

afetado, infere-se que a informação sobre as distâncias exteriores não é transmitida à

mente. E pode-se concluir que o olho não percebe distância nem movimento e que ele

somente percebe a direção dos objetos e percebe isto pela luz que reflete deles. A

17

distância em si mesma, como explica Molyneux, não é perceptível, pois “é uma linha

(ou uma longitude) apresentada ao nosso olho e cuja terminação está em nossa direção,

a qual portanto será somente um ponto, e este é invisível.” 7

Vale dizer que não recebemos da visão nenhuma ideia de espaço, apenas ideias

da inclinação de direções dos objetos. Por conseguinte, a percepção visual não tem

informação suficiente sobre distâncias exteriores, o que implicaria a consciência de

imagens que são projeções bidimensionais de objetos sólidos em um espaço

tridimensional, uma vez que a imagem impressa pela luz no olho é bidimensional.

Molyneux, apesar de ter estudado astronomia, mostrou interesse pelo assunto, e

seu trabalho científico mais conhecido trata das leis da óptica.8 Inspirou-se

provavelmente em Locke, no Livro II, capítulo III, § 1 (Das ideias de um sentido) do

Essay Concerning Human Understanding 9 ( Ensaio Acerca do Entendimento Humano)

para elaborar o problema que leva seu nome. Com essa questão, Molyneux esperava

ampliar algumas afirmações epistemológicas feitas por Locke na primeira edição da

obra (1689) e estabelecer a natureza da percepção e o papel que o juízo desempenha na

sensação. Molyneux tentou problematizar algumas proposições empiristas que Locke

havia ali analisado. Locke, assim como Molyneux, não acreditava na existência de um

sentido comum aos órgãos da percepção, nem na capacidade inata de julgar distância

pela visão. Para ambos, esta habilidade precisava ser adquirida. A aquisição dessa

capacidade justifica o método “histórico-descritivo” adotado no Ensaio por Locke. De

acordo com Duscheneau, esse método “trata, de fato, de evitar toda explicação do tipo

7 MOLYNEUX, William, Dioptrica Nova, a Treatise of Dioptriks. Londres: Benj Tooke, 2ª edição, 1709,

p. 113.

8 Dioptrica Nova.

9 LOCKE, John, An essay concerning human understanding. Londres: William Tegg & CO., Cheapside,

1849, p. 66 -67.

18

especulativa e reconduzir a análise intelectual à simples observância, descrição e

classificação dos fatos.” 10

O cientista irlandês, para formular seu problema, pode ter se baseado nas

afirmações de Locke sobre a existência de uma distinção entre as ideias que nós

adquirimos através de um sentido daquelas que adquirimos através de mais de um

sentido. Locke afirma:

Existem algumas ideias que têm acesso (à mente) apenas por um único sentido,

que é especialmente adaptado para recebê-las. Portanto luz e cores, como branco,

vermelho, amarelo, azul, com seus vários graus ou tons e misturas, como verde,

escarlate, roxo, verde-marinho, e o restante entram somente pelos olhos; todos os

tipos de ruídos, sons e tons somente pelos ouvidos; e vários gostos e odores pelo

nariz e paladar.11

Para Locke, o indivíduo que não possui um dos sentidos nunca será capaz de

adquirir as ideias pertinentes a ele; por exemplo, um cego de nascença nunca será capaz

de entender a ideia de cores. Dentre as ideias que somos capazes de adquirir através da

combinação de sentidos, encontramos espaço, repouso, movimento e forma, esta última

constituindo a maior parte do problema de Molyneux. Segundo Locke:

As ideias que nós adquirimos por mais de um sentido são as de espaço ou

extensão, de figura, repouso e movimento. De fato, suas impressões são

perceptíveis tanto pelos olhos como pelo tato, levando-nos a receber e conduzir

às nossas mentes as ideias de extensão, figura e movimento dos corpos, tanto

pelo ver quanto pelo sentir. 12

Por motivos desconhecidos, a primeira carta enviada à Locke por Molyneux em

07 de julho 1688 nunca foi respondida. Todavia, em março de 1693, Molyneux

10 DUSCHENEAU, François, L’empirisme de Locke. La Haye : Ed. Martinus Nijhoff, 1973, p. 136.

11 LOCKE, John, op. cit., Livro II, capítulo III, § 1, p. 67.

12 Ibidem, Livro II, capítulo V, p. 71.

19

apresentou novamente o problema a Locke pedindo a ele que o incluísse no Ensaio.

Locke, julgando o problema extremamente engenhoso, decidiu inseri-lo na segunda

edição do Ensaio publicado em 1694. Em sua formulação original, ligeiramente

diferente da que foi publicada no Ensaio de Locke (e que comentaremos mais à frente),

o problema diz o seguinte:

Seja Um Homem cego de nascença, tendo um Globo e um Cubo,

aproximadamente do mesmo tamanho Colocados em suas Mãos, e que aprendeu

ou foi informado qual se chama Globo, e qual se chama Cubo, de modo a

facilmente distingui-los por seu Tato ou Sensação ( Touch or Feeling). Então,

ambos lhe sendo retirados das mãos e Postos sobre uma Mesa, Suponhamos que

sua Visão seja Restabelecida. Poderia ele, por intermédio da Visão, e antes de

tocá-los, saber qual é o Globo e qual o Cubo? Ou Poderia ele saber pela visão,

antes de estender sua Mão, se ele Poderia ou não Alcançá-los, estivessem eles

afastados a 20 ou a 1000 pés de distância? 13

Veremos adiante que Molyneux retirou do enunciado do problema a questão da

distância quando o enviou pela segunda vez a Locke. A inclusão do problema de

Molyneux foi feita no capítulo IX do Livro II. Esse capítulo mostra que muitas ideias

que recebemos na idade adulta, que transmitem as informações fornecidas pelas

percepções sensíveis, são de fato juízos implícitos, e que não temos uma consciência

clara desses juízos porque eles já se tornaram parte das sensações pelo hábito. São esses

juízos que exprimem a dependência entre as ideias recebidas pela visão e as ideias

recebidas pelo tato, conforme constatamos na experiência.

13 DEGENAAR, Marjolein, Molyneux’s Problem – Three centuries of Discussion on the Perception

Forms, In International Archives of the History of Ideas, Vol. 147. Holanda: Kluwer Academic

Publishers, 1996, Trad. do holandês para o inglês por Michael J. Collins, p. 17. Esta é a formulação do

problema em sua forma original. Na verdade, esta carta foi endereçada ao “Author of the Essai

Philosophique Concernant L’entendement” aos cuidados da firma de Waesberge em Amsterdã, uma das

editoras da Bibliothèque Universelle, onde esta obra foi publicada em fevereiro de 1688, uma vez que

Molyneux não conhecia Locke na época. A segunda carta enviada a Locke não fazia menção da primeira

carta. Locke respondeu à segunda correspondência agradecendo Molyneux pelo engenhoso problema e o

publicou na segunda edição do Ensaio no Livro II, capítulo IX, § 8.

20

Parece-nos relevante analisar, ainda que brevemente, o interessante caminho que

Locke percorreu para incluir este problema no Ensaio na formulação da sua teoria da

percepção visual, bem como porque ele julgou esta inserção necessária.

No capítulo IX, Locke inicia a discussão assinalando que a ideia de percepção

é a ideia mais simples de reflexão que se pode adquirir passivamente, pela atenção dada

às várias sensações. Segundo Locke,

A percepção, como é a primeira faculdade da mente utilizada por nossas ideias,

também é a primeira e mais simples ideia que temos a partir da reflexão, e é por

alguns denominada “pensamento” em geral. 14

Em seguida, ele faz uma distinção entre a percepção real e os casos em que

existe um estímulo no órgão do sentido que não alcança, porém, a observação da mente

(nunca se torna consciente) e, por conseguinte não é uma percepção. Locke afirma:

Não existe percepção se quaisquer alterações ocorridas em nosso corpo não

alcançarem a mente ou se quaisquer impressões causadas nas partes externas não

forem notadas pelas partes internas. 15

Isto pode ocorrer quando a atenção da mente está ocupada observando um outro

objeto. Todos nós já passamos por esta experiência; não nos damos conta de ruídos

emitidos ao nosso redor, por exemplo, ou simplesmente não os notamos quando

estamos em profunda reflexão. Locke acrescenta:

Com que frequência pode um homem observar em si mesmo que enquanto sua

mente está intencionalmente empregada na contemplação de alguns objetos, e

curiosamente pesquisando algumas ideias que estão ali, ela não nota as impressões

que corpos sonoros produzem no órgão da audição (...). Deve existir um impulso

14 LOCKE, John, op. cit., Livro II, capítulo IX, § 1, p. 82.

15 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 3, p. 82.

21

suficiente no órgão; mas não alcançando a observação da mente, segue-se uma não-

percepção. 16

A seguir, Locke admite que a percepção pré-natal, no útero, possivelmente

ocorre. Todavia ele reafirma a inexistência de ideias inatas. 17 Para o filósofo inglês

não há ideias inatas e todas as nossas ideias provêm da experiência. Isto é, as ideias

chegam à mente, “e não adquirem mais, nem outras, do que as fornecidas pela

experiência e a observação das coisas que aparecem em seu caminho”. 18 Esta tese é de

suma relevância, pois é daí que se pode deduzir que nosso conhecimento é limitado, não

podendo ir além da experiência. Esta limitação se dá por dois fatores. Primeiro, porque

o entendimento não pode ir além do que nossa experiência permite conhecer, ou ainda,

“não podemos ter conhecimento de algo que ultrapasse nossas ideias” 19 e “mesmo

quando nós temos ideias, não podemos apreender todas as suas relações nem todos os

tipos de relações.” 20 Segundo, porque só podemos ter certeza da existência de coisas

que se encontram dentro dos limites da experiência. De acordo com Michaud, “nosso

conhecimento da existência se limita à nossa própria existência, à existência de Deus e

aos objetos externos quando estão presentes.” 21

Os três próximos parágrafos (8 – 10) encontram-se sob o título “Ideias da

sensação frequentemente alteradas pelo juízo” e é o momento do texto que nos

interessa, pois é então que Locke inicia suas considerações sobre a transição que ocorre

da percepção para ao juízo e a relação que existe entre estas duas operações. Ele relata

como nós conseguimos atribuir à visão as ideias que nós recebemos somente pelo tato.

16 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 4, p. 82.

17 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 5 – 7, p. 83.

18 Ibidem, Livro I, capítulo IV, § 2, p. 37 – 38.

19 Ibidem, Livro IV, capítulo III, § 1, p. 396.

20 MICHAUD, Yves, Locke. Paris: Ed. Bordas, 1986, p. 128.

21 Ibidem, p. 129.

22

É precisamente no final do parágrafo 8 que Locke insere o Problema de Molyneux. Na

primeira parte desse parágrafo, Locke trata das ideias recebidas pela visão:

(...) as ideias que nós recebemos pela sensação são frequentemente alteradas pelo

juízo em pessoas adultas sem que nos apercebamos disto. Quando colocamos diante

dos olhos um globo redondo, de cor uniforme, por exemplo, ouro, alabastro ou

azeviche, é certo que a ideia por esse meio impressa em nossa mente é de um círculo

achatado diversamente sombreado, com vários graus de luz e brilho chegando a

nossos olhos.22

Isso quer dizer que as ideias produzidas quando aplicamos nossos sentidos a

objetos particulares são resultados tanto da sensação quanto do juízo. Para ilustrar esse

fenômeno, Locke analisa nossa percepção visual de uma esfera. Quando olhamos para

um globo, a ideia visual que nós recebemos é a de um círculo diversamente sombreado.

Como sabemos que este círculo sombreado é na verdade uma esfera sólida? Como

sabemos a que distância o objeto se encontra de nós? Como obtemos a percepção de

profundidade? Por que não percebemos o mundo tridimensionalmente? Isto é explicado

na sequência do texto:

Mas, como estamos habituados a perceber que tipo de aparência os corpos

convexos costumam causar em nós, que alterações são feitas nas reflexões da luz

pela diferença das figuras sensíveis dos corpos, o juízo, imediatamente, por um

costume habitual, converte as aparências em suas causas; de modo que, a partir

daquilo que é de fato uma variedade de sombra ou cor reunindo a figura, faz-se

passar por uma marca da figura e molda a percepção de uma figura convexa e

uma cor uniforme; quando a ideia que recebemos é somente um plano

diversamente colorido, como se evidencia na pintura.23 (Figura 2)

22 LOCKE, John, op. cit., Livro II, capítulo IX, § 8, p. 83.

23 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 8, p. 83 – 84.

23

Esses trechos destacam a importância de determinados juízos imediatos que de

maneira inconsciente, ou involuntária, modificam as aparências visuais, o que torna

possível a apreensão de distância, grandeza e forma pelo sentido da visão. Com a ajuda

deste exemplo da pintura, Locke vai demonstrar que as figuras sólidas ou volumétricas

não podem ser os objetos imediatos da visão, pois estas figuras imprimem no fundo do

olho superfícies planas. Ou melhor, as ideias de distância e espaço não nos são

fornecidas somente pela visão. Para tornar tridimensionais as figuras que vemos

bidimensionalmente nós somos obrigados a recorrer ao único sentido que, segundo

Locke, pode nos dar a ideia de solidez, e, por conseguinte a ideia de espaço: o tato. É o

sentido do tato associado com o sentido da visão, ou para sermos mais precisos, é a

partir da combinação habitual das ideias recebidas pela visão e pelo tato, que nasce o

juízo que nos faz perceber os relevos dos quais a visão somente nos mostra planos. O

filósofo inglês supõe que conhecemos qual o tipo de imagens que os corpos convexos

produzem em nós e quais alterações ocorrem com a reflexão da luz segundo as

diferenças sensíveis dos corpos. Portanto, após uma longa experiência, tornamos-nos

capazes de julgar a distância e a grandeza dos objetos de uma maneira tão rápida e

automática que não percebemos mais a operação que ocorre em nossas mentes.

Podemos afirmar pela nossa experiência ao olhar quadros bidimensionais que esta

modificação realmente ocorre. De acordo com Michael Baxandall,

O primeiro e peculiar material da percepção visual é a luz, portanto, da qual

podemos tirar informações sobre as formas e as situações por inferências sobre as

causas da modificação de sua aparência. O uso, a experiência de relacionar o

aparecimento da luz refletida com formas e situações, nos capacita a fazê-lo. E se

isso é inconsciente, se não temos consciência de passar por tal processo de

24

inferência, é porque uma longa experiência nos levou a passar por ele de maneira

tão corriqueira e rápida que deixamos de notar a operação.24

Locke apresenta três argumentos: o primeiro é que a percepção visual consiste

na extensão de luz e cor dispostas organizadamente em planos bidimensionais, isto é, os

objetos apropriados ao sentido da visão são somente luz e cores; o segundo argumento é

que tudo o que apreendemos visualmente de forma tridimensional é resultado de

operações mentais, que nós chamamos de juízo: é o juízo que muda a imagem

bidimensional formada na retina em uma imagem óptica tridimensional; o terceiro e

último é que a agilidade e facilidade com que desempenhamos estas operações, uma vez

que elas se tornam habituais, prova que não as percebemos mais, ou melhor, as etapas

pelas quais a mente passa neste processo das operações ocorrem de forma tão rápida que

nos parece uma etapa única, mesmo se tentarmos concentrar toda a atenção no momento

em que elas ocorrem. É isto que nos leva a confundir juízo com percepção.

Adicionalmente, não é somente a visão que nos fornece a ideia de uma figura

convexa de cor uniforme; esta ideia nos é dada pela visão em conjunto com juízos

baseados em percepções anteriores.

Na verdade, o que Locke demonstra com a ajuda do último exemplo (§ 8) é que

as figuras sólidas não podem ser objetos imediatos da visão, uma vez que estas figuras

somente imprimem no fundo do olho superfícies planas. Este argumento é de suma

importância, pois de acordo com Law:

Uma das afirmações fundamentais do empirismo (...) é que o mundo como nós

“enxergamos” é na verdade plano: que o que nós realmente vemos quando nós

olhamos o mundo é um arranjo de cor, luz e figura bidimensional, que somente a

24 BAXANDALL, Michael, Sombras e Luzes. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997,

Trad. Antonio de Padua Danesi, p. 36 - 37.

25

inferência, o hábito ou a associação podem transformar em uma impressão do

espaço tridimensional. 25

É neste ponto que Locke decide incluir o problema de Molyneux para esclarecer

a questão e corroborar sua tese. É essa questão que permite explicar pelos fatos a

passagem da sensação ao juízo. Ele pretende mostrar como podem ser sutis e enganosas

as maneiras pelas quais os juízos que envolvem ideias previamente adquiridas pela

experiência modificam nossas percepções. As pessoas habitualmente pensam que veem,

de maneira direta, formas de três dimensões, mas na verdade o que ocorre é que os

juízos que modificam a percepção, uma vez costumeiros, são raramente observados e

percebidos. Vejamos na íntegra o enunciado do problema:

Suponhamos um homem cego de nascença, e agora adulto, que aprendeu pelo

tato a distinguir entre um cubo e uma esfera do mesmo metal e aproximadamente

do mesmo tamanho, de modo a poder dizer, quando sente um e outra, qual é o

cubo, qual a esfera. Suponhamos então que o cubo e a esfera sejam postos em

cima de uma mesa e que o cego passe a ver. Pergunta-se se por sua visão, antes

de tocá-los, ele poderia agora distingui-los e dizer qual é o globo, qual é o cubo.

A que o perspicaz e judicioso proponente responde: “Não. Pois embora tenha

obtido experiência de como um globo, e como um cubo afeta seu tato, todavia ele

ainda não alcançou a experiência de que o que lhe afeta dessa ou daquela maneira

deve afetar-lhe a vista dessa ou daquela maneira, de que um ângulo protuberante

em um cubo, que lhe pressionou a mão de forma desigual, aparecerá ao seu olho,

tal como o faz no cubo”. 26

Molyneux responde a sua própria pergunta de forma negativa, afirmando que o

cego de nascença não distinguirá a esfera do cubo, pois embora esse cego tenha

experiência de como estes dois objetos afetam seu tato, ele ainda não tem experiência de

que o que afeta o seu tato de uma maneira deve afetar a sua visão da mesma maneira, ou

25 LAW, J.D., The Rhetoric of empiricism. Estados Unidos: Cornell University Press, 1993, p. 3 - 4.

26 LOCKE, John, op.cit., Livro II, capítulo IX, § 8, p. 84.

26

de que o ângulo protuberante no cubo que pressiona sua mão de forma desigual

aparecerá a seus olhos como aparece no cubo.27 De acordo com Molyneux, recebemos

uma imagem bidimensional que se forma na retina, e para deduzir a partir dela a visão

tridimensional do mundo precisamos acrescentar mais informações de outras fontes, de

outros sentidos. Esta resposta é baseada na premissa de que não percebemos distância

visualmente por meio de juízo natural, mas que adquirimos certa habilidade que nos

permite perceber esta distância instantaneamente, dada uma determinada imagem

bidimensional. Isso porque a distância tomada como uma linha reta torna-se um ponto

quando projetada na retina e desta forma não pode ser percebida.

Locke concorda com Molyneux e afirma que, em sua opinião, um cego de

nascença, curado de sua cegueira, de início não será capaz de afirmar com certeza qual é

a esfera e qual é o cubo, pois ainda não aprendeu a associar uma certa aparência do tato

com a aparência da visão. Locke especifica as razões que o levaram à sua resposta

negativa afirmando o seguinte:

Concordo com este insigne cavalheiro, (...) com sua resposta para este problema;

e sou da opinião que o homem cego, de início, não seria capaz de dizer com

alguma certeza, qual seria o globo, qual o cubo, apenas olhando esses objetos;

embora ainda que ele pudesse nomeá-lo infalivelmente pelo seu tato, e

certamente distingui-los pela diferença das figuras que ele sentisse. 28

O fundamento em que Locke se apoia para ter tanta certeza de sua resposta é o

fato de que o experimento foi especificamente formulado de forma que o homem

recém-dotado de visão, não tendo nenhuma experiência de como o campo visual

corresponde ao campo do tangível, não é capaz de fazer nada senão perceber e deixar

que as sensações visuais entrem passivamente na sua mente. Isto significa que qualquer

27 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 8, p. 84.

28 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 8, p. 84.

27

coisa que ele observe não será realmente percebida; será necessário descobrir e

aprender as correlações existentes entre o que ele vê e o que ele já conhece pelo tato.

Para que a visão nos dê a ideia que nós achamos que ela nos dá, uma operação do juízo

que é estabelecida por percepções prévias visuais ou de outros sentidos deve ocorrer

em conjunto. Para Locke, não existe outra maneira pela qual os sentidos podem

transmitir sensações. Os sentidos podem se suplementar uns aos outros, mas seria

enganoso afirmar que o conhecimento adquirido a partir de sensações táteis possa

ocasionar um entendimento imediato, baseado em sensações visuais. Segundo

Molyneux, para que a visão permita ao homem recuperado identificar quais objetos

produzem certas ideias quando tocados, um conjunto de informações adicionais

resultantes de experiências passadas devem ocorrer, indicando como as ideias dos

diferentes campos sensoriais estão relacionadas. Mas para Locke, é errado afirmar que

as ideias de uma linha reta e de uma linha curva produzidas pelo tato são as mesmas

ideias produzidas pela visão, isto é, que a mente recebe das linhas sentidas pela mão

formadas pela substância tangível as mesmas ideias das linhas vistas pelo olho

formadas pela substância visível. As ideias recebidas pelo tato e pela visão não podem

ser comparadas de forma alguma, pois são totalmente distintas, não possuindo

nenhuma semelhança entre si.

O problema de Molyneux mostra que algo similar ocorre no reconhecimento de

objetos tridimensionais, pois o homem recém-vidente não tem a experiência necessária

para relacionar sensações visuais com qualquer outra coisa. Uma vez que, de acordo

com Locke, estas sensações consistem exclusivamente de extensões de luz e cor

bidimensionais, não existe um cubo, uma esfera ou qualquer outro objeto

tridimensional para ser percebido pela visão do homem. Para ver estes objetos não há

necessidade de percepção; o que é necessário é a “experiência, aperfeiçoamento e

28

noções adquiridas”, para que ele saiba como o que ele vê ele sente na sua mão e como

os objetos visíveis mudam suas propriedades quando o campo sensorial é alterado. E é

exatamente isto que falta ao nosso homem de Molyneux. Logo em seguida o filósofo

inglês explica o motivo pelo qual ele inclui este experimento no seu Ensaio:

Isto eu estabeleci, e deixo ao meu leitor, como uma ocasião para que ele

considere, o quanto ele pode ser reconhecido à experiência, aperfeiçoamento, e

noções adquiridas, onde ele pensa que ele não tem o menor uso, ou ajuda destes.29

Logo a seguir, ele explica porque transformamos as ideias da visão em ideias do

tato e porque isto não ocorre com dois outros sentidos quaisquer:

Mas isto não é, penso eu, habitual em qualquer uma de nossas ideias exceto

naquelas recebidas pela vista; porque a vista, a mais abrangente de todos os

nossos sentidos, transmite para nossas mentes as ideias de luz e cores, que são

peculiares somente a esse sentido; e também as diferentes ideias de espaço, figura

e movimento, as diversas variedades que mudam as aparências de seus próprios

objetos, a saber, luz e cores; levam-nos por costume a julgar um pelo outro. Em

muitos casos, por um hábito arraigado em coisas das quais nós temos experiência

frequente, isso é feito tão constantemente e tão rapidamente, que nós o tomamos

pela percepção de nossa sensação que é uma ideia formada pelo nosso juízo;

então a sensação serve somente para excitar o juízo, e mal toma consciência de si;

como um homem que lê ou ouve com atenção e compreensão não presta muita

atenção nas pessoas ou nos sons, mas presta atenção nas ideias excitadas por

eles.30

Isso quer dizer que transformamos as ideias de espaço, figura e movimento

visíveis produzidos pela luz no olho nas diferentes ideias de espaço, figura e movimento

produzidas pelo tato. A percepção das ideias da vista é produzida pela impressão da luz

nos olhos, por conseguinte as cores são o único objeto da visão. No entanto, o olho toma

29 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 8, p. 84.

30 Ibidem, Livro II, capítulo IX, § 9, p. 84.

29

conhecimento das ideias de espaço, figura e movimento, e estas ideias são comuns tanto

ao tato quanto à visão. A habilidade particular de julgar com base numa imagem

bidimensional formada na retina, quando o mundo real é tridimensional, é adquirida

com auxílio do tato. Segundo Locke, “nós adquirimos a ideia de espaço tanto pela visão

quanto pelo tato”.31 A ideia de espaço como percebido pelo tato ajuda o juízo a

modificar a ideia original que é bidimensional em ideia tridimensional, uma vez que a

ideia de espaço está intimamente relacionada com a ideia de solidez.32 A solidez é

recebida pelo tato e é a ideia que mais constantemente recebemos desse sentido.33 A

maneira como adquirimos as ideias de espaço e solidez é similar, embora Locke enfatize

que são ideias distintas entre si.34

A resposta negativa de Molyneux e Locke à questão envolvendo o cego de

nascença mostra que a imagem formada na retina, por ser bidimensional, à primeira

vista não fornece as informações necessárias para percebermos três dimensões e, por

conseguinte, para percebermos a distância. Precisamos do sentido do tato para aprender

a interpretar a imagem bidimensional formada na retina como tridimensional. Esta

habilidade só pode ser adquirida através da experiência que fará com que o juízo, apesar

de inconsciente, altere as aparências em suas causas. Conforme M. Lievers,

A resposta negativa à questão de Molyneux implica, portanto que a imagem da

retina por si mesma não fornece à primeira vista as informações necessárias para

percebermos três dimensões, isto é, a distância. Isso significa que a premissa de

Molyneux (que a distância, sendo uma linha e então um ponto como projetado na

retina, não pode ser percebida) é supostamente verdadeira. Nós precisamos do

sentido do tato para aprender a interpretar a imagem bidimensional formada na

retina como tridimensional. A habilidade para interpretar a “pintura” formada na

31 Ibidem, Livro II, capítulo XIII, § 2, p. 99.

32 Ibidem, Livro II, capítulo IV, § 2, p. 68.

33 Ibidem, Livro II, capítulo IV, § 1, p. 68.

34 Ibidem, Livro II, capítulo IV, § 3, p. 68 – 69.

30

retina como tridimensional tem que ser adquirida pela experiência, assim como a

habilidade de perceber três dimensões em um quadro precisa ser aprendida.35

Locke postula a existência de uma consciência perceptual que é modificada e

afetada pelos conceitos que já adquirimos através de experiências anteriores. Por esse

motivo, o cego recém-recuperado não é capaz de distinguir as figuras tridimensionais ao

vê-las. O que Locke e Molyneux sustentam é que não há qualquer ligação essencial

entre a visão e o tato, porém esta relação é necessária e apreendida pela experiência. Um

desdobramento do problema no campo das ciências vem corroborar essas conclusões.

O cirurgião William Cheselden36 demonstrou, ou acreditava ter demonstrado,

que a experiência tátil é necessária para o reconhecimento dos objetos após a extração

de cataratas de um jovem em 1729. O jovem de quatorze anos viu a luz pela primeira

vez, porém Cheselden mostrou que o paciente, recuperando a visão, não tinha adquirido

a faculdade de ver 37. Essa experiência parecia confirmar a tese empirista e tudo o que

Locke e Molyneux haviam previsto: o jovem não era capaz de distinguir grandeza,

posição e figura.

Para que se tenha uma ideia do impacto causado pelo experimento científico-

filosófico de Cheselden, basta recordar que é a partir do comentário de seus escritos que

o problema de Molyneux começa a ser debatido também na França, onde recebe

atenção, principalmente dos filósofos que então se encontravam sob o encanto da

filosofia de Locke. De acordo com Voltaire, “durante muito tempo”, depois de ser

operado por Cheselden, o garoto cego de nascença

não distinguiu grandeza, nem situação, nem mesmo figura. Um objeto de uma

polegada, colocado diante de seu olho, e que lhe escondia uma casa, lhe parecia

35 LIEVERS, Menno, “The Molyneux Problem” In Journal of the History of Philosophy 30, nº 3, 1992, p.

410.

36 CHESELDEN, William, (1683 – 1735), cirurgião e anatomista.

37 Com outros pacientes, as experiências tiveram o mesmo resultado.

31

ser tão grande quanto a casa. De início, tudo o que via lhe parecia estar sobre seus

olhos, e tocá-los, como os objetos do tato tocam a pele. Não conseguia, no

começo, distinguir o que havia julgado redondo com a ajuda das mãos, daquilo

que havia julgado angular, nem discernir com os olhos se o que suas mãos com o

tato, haviam sentido estar no alto ou embaixo estava com efeito no alto ou

embaixo.38

Este problema com a percepção de profundidade e a confusão que confrontou o

menino por algum tempo fez Voltaire absolutamente seguro da validade da resposta de

Locke.

Quanto à forma, não foi pedido ao menino que distinguisse um cubo de uma

esfera, como propunha o Problema de Molyneux. No entanto, o menino não conseguia

distinguir seu gato de seu cachorro, o que torna o relato próximo da questão levantada

pelo cientista irlandês. Cheselden relata o seguinte: