A radiografia das caras por Vitor Century - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

A RADIOGRAFIA DAS CARAS

Como é por dentro outra pessoa?

Ou a visibilidade do que é invisível.

1- INTRODUÇAO

Caras, rostos, máscaras, vozes e sons vocais associados são

um aspecto global e filosófico; as caras são como mini-teatros “ambulantes”:Os

elementos coreográficos em movimento da expressão plástica (agitação do

pescoço, piscar de olhos, o mexer sincronizado das retinas; o mover das faces,

5

lábios - do riso ou sisudez -) acentuam num conjunto coerente ou variado, a

tendência melo-dramática de vários sentimentos acoplados e sentidos

intelectualmente (por outrem que nos encara), e pela inscrição num pequeno

espaço ovalizado da cabeça do corpo humano. (este texto recupera e retracta

alguns temas do livro “ARIANOM, A LIBERTAÇÃO DO “EU”, da minha autoria,

publicado em 1976). Do ponto de vista psicológico a expressão do “nosso”

rosto (efeito em “feed back” da”nossa”cara, observada no outro) é uma ilusão

imaginosa, para “nós” mesmos (sugestão): pela auto insinuação imaginada na

observação intuída desse efeito que se provoca no outro (sentida como mais

ou menos repelente) e quando estamos face a face com esse mesmo outro. Na

nossa memória de contextos essa sugestão é eclipsada, pelo efeito directo que

a cara do outro (enquanto não nos habituamos a ela) na realidade nos provoca

a nós que a olhamos. Gera-se assim um complexo: será que o “outro” se

apercebe do efeito (de maior ou menor repelência) que a sua expressão natural

de rosto provoca a terceiros? Claro que não pode conhecer (sentir) esse efeito

a não ser “ter” uma difusa opaca e ténue intuição de curiosidade. Todas as

caras, enquanto expressão estática, inspira sentimentos como tristeza,

desespero, raiva, medo, riso; o “outro” entra em empatia fisiológica e psíquica,

pela insinuação provocada pelos mesmos (expressão estática); podendo dar

origem a uma banal crise em vertigens mentais, e alucinações, sob certas

condições propícias do “Eu”(não auto resistência psicológica ocasional). As

caras podem expressar beleza ou fealdade; Os rostos traduzem a identificação

da raça; as máscaras reflectem a alegria, tristeza o medo, etc.; os sons vocais

sugestionam e acentuam os efeitos dos objectos a que estão referidos a este

conjunto de caras deve ser incluído o dos rostos e corpos humanos que nos

fazem lembrar (em proto ideias) alguns animais conhecidos: pinguim, cão e

macaco em simultâneo; fuças de foca e porca; peixe comprido e estreito a

andar; monstro e pessoa, etc, etc.1/12/2006 * As caras, as máscaras, as vozes

estão intimamente ligadas às fobias alucinadas; estas são como o joio, planta

parasitária do trigo; o trigo é o tónus anímico-intelectual do Eu, de cada um; o

joio, é metaforicamente, o inimigo desse tónus.

2 - Introdução

A cultura é uma descoberta daquilo que há dezenas de anos temos tido à

nossa frente e nunca compreendemos; incluindo aquilo que esquecemos e

queremos lembrar. A cultura é também o conhecimento de gestos e palavras

6

em quantidade e em qualidade nos significados dos mesmos; incluindo o

inerente ao comportamento humano de alguém com outrem.

A primeira razão que deu origem a este livro, é o facto de estar convencido que

os seres, a cuja raça pertenço, serem altamente perplexiveis, tal como

qualquer um de vós; e que essa perplexidade provoca incómodos e embaraços

mentais, a partir duma aparentemente simples inspiração numa máscara.

A ORIGEM DO ABORRECIMENTO

O aborrecimento tem diversas origens; a primeira é no complexo de igualdade

contraído por contágio presencial directo com outra pessoa e sob a pré

convicção de que todo o ser oriundo da raça humana é aborrecido por

natureza, despojado de qualquer interesse cultural súbito de curiosidade

existencial prioritária.

A foto cútis fobia é o aborrecimento provocado pela reacção do cérebro à

imagem física directa de outro ser humano constituído por qualquer cor de

pele.

A eco sonoro fobia é o aborrecimento provocado pela reacção do cérebro à voz

humana.

A foto máscara fobia é o aborrecimento provocado pela reacção do cérebro à

imagem virtual do interior do crânio representada nas feições do rosto de

outrem, que se recordam de forma automática posteriormente.

O que deriva deste tipo de aborrecimento é uma fobia subjacente a uma

sensação de esquentação das neuro-celulas fibromialgicas do cérebro, com

alguma produção de ligeiras ou profundas alucinações ocasionais; esta

esquentação alterna-se com uma outra sensação de aftose neuro-cerebral-

estomacal, constituindo-se as duas sensações como bipolares de alternância,

interferindo por ansiedade própria na disposição de humor do indivíduo.

A origem da fobia não é o medo, ao contrário do que afirmam outros autores do

pensamento clássico; mas sim na relação de afectação com a máscara,

enquanto objecto bruto.

A segunda origem deriva do facto fisiológico de todo o ser depender do

equilíbrio electro químico da saúde dos seus neurónios, enquanto conjunto de

biliões de células sujeitas a grande melindre de fácil alteração periódica, ou de

momento súbito, por falta de repouso ou falha de rigorosa nutrição

vulgaríssima.

Sobre estes conjuntos de células alteradas forma-se um “bolor” tóxico, causa

directa do aborrecimento, o qual desaparece por si mesmo, em consequência

do regular repouso; ou por feliz coincidência ocasional ainda desconhecida que

resiste à formação do citado resíduo; este “bolor” é eliminado pela normal

corrente sanguínea. Quando assim não acontece produzem-se ligeiras

disfunções nas faculdades mentais, com reflexos na memória de contextos e

concentração.

Todas estas causas provocam fracos complexos, os quais por sua vez

originam uma réplica de segundo aborrecimento automático inevitável e fatal,

subjacente a alucinações sentidas com alguma profundidade.

7

Estas réplicas perpetuam-se no tempo e fixam-se por deslocalização em novos

símbolos da memória de contextos, de recentes e novas caras, vozes e cores

de pele, semelhantes a antigos símbolos provocando perplexidade ou

nostalgia.

Na globalidade da raça humana, de seres iminentemente perplexíveis, de

mentalidade variada, somos ambígua e aborrecidamente iguais, como as

outras pessoas, com a suposição dessa igualdade como fundo, porque

objectivamente iguais uns aos outros só o somos quando estivermos mortos

por paragem definitiva da vida; na pontualidade radical de seres individuais,

somos todos animadamente diferentes; e é esse aborrecimento de parecermos

iguais e essa diferença radical de possuirmos uma mentalidade variada, cujo

modo misterioso de variação não é possível alguma vez prever, que nos deixa

perplexos e nos confunde profundamente, no entendimento mútuo, entre nós e

as outras pessoas.

Como é por dentro outra pessoa?! A ideia precedente responde a Fernando

Pessoa que não conseguiu resolver totalmente esta questão.

Também J.P. Sartre se convenceu da meia-verdade de que o aborrecimento

tinha origem no tédio ou no medo; o aborrecimento e a fobia de aborrecimento

são consequências, não são causas, cujas origens já descrevi acima.

Identifico assim, por auto-psicogenia mental, os maiores perigos no

relacionamento humano: a falsidade de amizade, a perenidade da pequena

paisagem (cara, voz, cor de pele), os vícios fisiológicos de libido e excesso de

consumos, a confusão mental e o excesso de conhecimento teórico sob

confusão;

O problema principal estará no facto de ficarmos sempre perplexos (porque

somos seres de raça perplexivel), mesmo assustados, com o facto de nos

podermos aborrecer com máscaras, com vozes e com cores de pele de

pessoas das nossas raças. Não estará pois no aborrecimento em si mesmo

com o qual se contemporiza de qualquer modo.

Harryx Potteryx

Harryx Potteryx na sua brutalidade de ser perplexível, tinha sido em tempos,

um grande compositor musical, mas farto da música que gostava da qual tinha

milhões de associações mnemónicas para cada momento ou atitude banal,

deixou subitamente de compor fosse o que fosse desprezando as notas

musicais, as pautas, os outros músicos, as orquestras, as bandas, ou as

inovações e decidiu passar a ouvir só, os sons melódicos, aleatoriamente.

Olhava até com dificuldade para tambores, bombos, pianos, violinos, órgãos

electrónicos acústicos, clarinetes, saxofones. Fora também atacado por um

8

vírus, repelente de tudo o que era música, tal como todos os outros milhões de

indivíduos compositores, instrumentistas e cantores da Europa.

Para cúmulo desta situação, os governos europeus, inspirados em ideias muito

ambicionadas na antiguidade, aplicaram pesadas multas e prisão a quem

fizesse ou consumisse música, fosse ela qual fosse. Outros governos

obrigavam, por bilhete pré-pago, os seus cidadãos a participar em procissões

de bonecos transportados aos ombros, em andores; representando a figura e a

cara dos seus vizinhos e conterrâneos vulgares, ou não, de toda a população,

em vez de santos ou santas; cujas imagens físicas eram de alguma forma

cúmplices e ligavam-se num imediato a memórias muito próximas de todos os

seus malogros de existência objectiva; contraía até um gosto irracional bem

radical e ofensivo por querer ver bem longe de si, e do sítio onde morava, todos

aqueles que simbolizavam essa virtual e bizarra oposição.

Quem não possuísse bilhete para circular na rua ficava sujeito a prisão. Alguns

desertores, pateticamente, por efeito de contágio, realizavam sós, e todos os

dias a sua procissão privada, sem companhia, sem andores e sem nada; era o

caso particular de Harryx e do primo, correndo o risco de serem fiscalizados,

porque nunca adquiriam bilhete previamente.

Os sons harmoniosos eram considerados cientificamente como factores

intermédios de instalação psicológica de todos os piores vícios compulsivos

alienantes que podiam existir, escravizando comportamentos maciços de

muitos indivíduos simplórios e pacóvios, como dóceis e inofensivas cobaias

sociais, disponíveis para ser explorados sem oporem qualquer resistência

cultural, quer à música, quer ao produto de consumo orgânico que lhe era

associado em aliciamento sub-reptício, por cabala privada proibida ou por

descarada propaganda pública ofensiva das melhores modas alguma vez

atingidas pela humanidade.

A música era uma surreal imitação artificial feita por instrumentos rudes e

improvisados, do rumor da voz humana ou pressão de ar pulmonar, expelido

por nariz e garganta animal, à qual se subtraíam os significados inteligentes de

palavras; e amputavam ou ocultavam ecos de tiragens sonoras súbitas,

lassidões ou aceleramentos de ritmos de saída de ar levemente comprimido,

bocejos fanhosos, tosses, gemidos, ênfases, exclamações, exaltações, risos,

choros, assobios, apupos, entoações, estalidos, gaguejos; golpes sonoros

súbitos de arfagens, espirros, berros, sopros nasais súbitos rugidos ou urros.

Como se a voz fosse uma força vertiginosa que podia abrir e fechar pequenas

e múltiplas gavetas diferentes, a uma velocidade estonteante igual a teclas

dum piano louco a tocar descomandado; gavetinhas estas que eram colocadas

em posição vertical, dum mesmo “armário” surreal invisível, e dissimuladas por

um movimento paulatino contrastante de outro “abrir e fechar” mecânico,

repetitivo de maxilares de rosto, estes dispostos de forma horizontal e bem

visíveis por outrem que escutasse perto de quem falava.

Um misto solto de inteligência e loucura organizada, sob um estado de

alucinação e perplexidade, que proporcionava algum agrado (simetria) e bem-

estar reflexo à “susceptibilidade” das neuro-células do hipo tálamo, era também

a música; aquilo que era consumido e se lhe associava em imagem material

íntima, sempre de forma oportunista, a negação da mesma; para acabar com o

9

produto químico viciante e de acção corrupta sobre o indivíduo o sistema

público optava por proibir a música. Era este o raciocínio dominante. E ainda

bem que era assim.

Harryx, antes de desgostar de música, tinha contraído uma doença no impulso

de mobilidade e posteriormente, em consequência deste, foi afectado por outra

que lhe atacou o impulso de empatia, como algo assimétrico. Por essa razão

veio a padecer de complexos de que nunca sofreu noutras idades ou

condições.

Desgostar de música era como afligir-se com a própria língua materna ouvida e

memorizada quando era uma criança. Sonhava-se a fugir dos locais onde

antes tinha dirigido orquestras.

Nos derradeiros anos em que exerceu a função de maestro, todos os concertos

lhe corriam mal; perdendo todo o virtuosismo de reflexos expressado

ostensivamente por gestos de braços, mãos e semblantes; embora não o

soubesse, o seu fantasma estereopático (eco de ressentimentos remotos)

assediava-o com acessos de raiva e de más reflexões, motivo pelo qual

cometia erros sobre erros, no exercício da profissão, e em tudo aquilo em que

pensava, imaginando e trocando subitamente o real pelo abstracto, e o

abstracto pelo real, numa estranha embolia de ocasião felizmente passageira,

mas que o deixava impaciente consigo mesmo. Queria definitivamente retirar a

“cabeça das nuvens”, onde sistematicamente vivia, tal como qualquer outro ser

desorientado; queria com esta ambição assentar os pés na terra que todos os

dias também pisava. Também procurava sair duma “nuvem” feita de frases,

palavras e letras, numa intensa vaidade de carácter comum.

Estes ecos eram dilemas mentais do compositor, com excesso de importância

ou confiança intensa prolongada, dada no passado a certas situações de

rivalidade social, em qualquer idade anterior, e que agora, após se

deslocalizarem para o momento presente, o torturavam e oprimiam.

De forma surreal ele acreditava ter um crânio feito de diamantes, em vez de

ossos macios; se, por reunião involuntária de impulsos agressivos, tivesse que

enfrentar alguém, incluindo o vizinho, sentia-se dotado com a maior dureza

material, de ossos-diamantes brilhantes, para ao mínimo contacto, quebrar os

fragmentos córneos da cabeça do mesmo, fazendo-a em cacos, partindo-a

como a um tijolo, sem sofrer a menor beliscadura; e num fenómeno mental

estranho e surreal, anexou todo o espaço material ocupado antes pelo crânio

desfeito alvo de destruição virtual, passando a dirigi-lo como uma força

planetária de mágico pensamento inferior, vinda do impulso de ráptus sem

remorso ou misericórdia, pelo ser vitimado (fenómeno mental de clonismo

remoto, no qual o ser se sente projectado de forma virtual no cérebro da vitima

para a dominar à distância).

Noutro registo afectivo, acumulava tristeza e dó de si mesmo, como se fosse ar

contaminado que lhe espargia os neurónios, deformando-os, ou eclipsando-os,

distorcendo a hiper visão e ultra poder de sentimento dos mesmos, como se

fossem nano cataratas ou nano bolas de esferovite de cor sépia-velho

10

preenchendo as cavidades ósseas de todo crânio; quando nos concertos, já

não era capaz de enfrentar as caras dos espectadores: sentia-se envolto em

sentimentos vertiginosos de algum ódio por cada máscara ou canastro que lhe

parecia esconder a hipotética má vontade daquele que a exibia (pareidolia);

como se fossem pequenos monstros, do tamanho dum candeeiro de

iluminação de pé alto, a espreitar descaradamente para o criticar nos seus

gestos automáticos de direcção musical complexando-o, situação que nunca

acontecera antes. Irritava-se muito com a inofensividade que pressentia nesses

músicos que dirigia, pela brutalidade que a mesma lhe sugestionava,

associando-a caprichosamente a ausência de moral básica, situação que o

deixava descontrolado e perplexo consigo mesmo; gostava por outro lado de

cercear saudades, imaginando recordações vulgares da sua infância, porque

sabia que se não o fizesse regularmente, isso aumentava-lhe o

embrutecimento do cérebro, lançando-o num desespero crónico, julgado

irreversível, pela espera interminável que também provocava ao ansiar pelo

seu fim.

Para Harryx toda e qualquer espécie de sentimento era indizível; cabendo à

experiência de cada um sofrê-los; se são indizíveis não é possível comunicá-

los ou auscultá-los doutrem seja por visualização, por palavras, por música, por

gestos, por mímica ou por outra forma qualquer; constituem-se assim em cada

um realidades místicas, ilusórias ou simplesmente fruto de imaginação racional

ou não.

Sofria de ansiedade e saudade da intensidade de momentos sistemáticos com

que viveu tudo nos seus tempos de menino; que julgava impossíveis de alguma

vez mais voltarem a repetir-se, pelo cansaço reflexo que isso provocou, e de

que nunca soube prever para evitar agora. Esta ansiedade obrigava

automaticamente a memória a repetir o início da mobilidade, por sistema diário

imutável, sempre que acordava do acto de dormir. Esta saudade era também a

tristeza aniónica fatalista, e aquela que contraía, todos os dias, quando deixava

de ver a luz do Sol, ao fim da tarde; e quando via a escuridão aproximar-se

lentamente acompanhada da brutalidade do silêncio nocturno, os quais,

teimosamente e os dois, estavam sempre a associar-se, como dois aborrecidos

bandidos cúmplices, ladrões do sossego de cada um; no gratuito golpe de sol

seguinte ficava perplexo com o malogro que representava essa nova luz

matinal; deslocalizava esse malogro, susto e perplexidade para as caras dos

outros habitantes, com quem convivia ou avistava de soslaio, razão porque

sentia necessidade de os evitar de qualquer forma; perplexidade esta que era

acompanhada dum sentimento de paralisação do pensamento, duma

insuficiência de entusiasmo psíquico, duma ausência de estímulo, que não lhe

agradava sentir; e duma susceptibilidade biológica e psicológica, sentida de

forma subtil, brutal, nervosa, mesmo doentia, mais própria de animais ferozes,

do que de supostos seres ditos humanos.

Para o seu algo sobredotado cérebro, a máscara de qualquer pessoa, era um

objecto símbolo de trauma, de inibição, de malogro e de ódio difuso, mas era

também uma reles tampa esburacada, oca e irregular, como se tivesse a

função simples de tapar uma panela (resto da cabeça); algumas contagiavam-

11

no de austeridade e intransigência crónicas, por lhe parecerem pequenos

promontórios inclinados e escarpados feitos de pedra lascada, suspensos ao

pescoço e ao tronco; não só a máscara mas também a imagem imaginada do

interior do crânio pressentido, a figura física, a simples silhueta, ou fotografia da

mesma (enquanto imagens virtuais). Bastava que pressentisse uma máscara

próxima para se enervar e aborrecer, nem que fosse por recordação da

mesma; tudo não era nada, nada era tudo, no que se refere ao valor emocional

provocado por essa súbita recordação, sentido por si de forma involuntária; a

estéreo-emoção é a sensação que se sente quando as neuro células, são

atravessadas pelos impulsos; e era isso que ele também sentia em simultâneo,

com outros sentimentos colaterais de circunstância.

Era como se adquirisse a cara doutrem por empréstimo momentâneo; e

simultaneamente deixasse de se recordar da auto imagem das caras que tinha

de si mesmo, por intromissão da cara deslocalizada desse outrem súbito,

imaginada pela nossa imaginação automática e instantânea, e numa sensação

tanto estranha como excêntrica, como geradora de incómoda auto repulsa de

difícil despistagem real e virtual; que procurava logo esconder do mesmo num

receio; e numa reacção de duplo sentido: uma de rejeição; outra de

contemporização por influência da regra básica de convivência para-social.

Num comportamento influenciado adquirido com os anos sentia-se

intelectualmente, cada vez mais, ineficaz para apagar a virtual má reacção a

esse símbolo que era a máscara; cujo mau efeito era agravado pelo cálculo

que antecipadamente fazia daquilo (o objecto símbolo máscara) a que

hipoteticamente reagiria para sempre, aumentando a intensidade do dilema;

noutro registo emocional oposto embora mais fraco, a cara também era alguma

marca de êxito e inocência, tornando flutuante, porque hesitante, o seu

inexprimível sentimento emocional; o sentir cerebral ultra matemático radical.

Adoptou, entretanto, uma vontade e um sentimento antropológico moderno,

para fazer elevar em si o superior benefício de anti-aborrecimento, relacionado

com todas as máscaras com quem por um súbito, espontâneo e inesperado

impulso empático involuntariamente se comparava, por estranha imitação

mímica, procurando identificar-se cada vez mais com a raça a que

genuinamente pertencia, tendo a sua própria cara como modelo e símbolo

único exclusivo a dirigir-se por mímica recordada de si mesmo, no meio da

confusão babilónica das figuras de todas as outras máscaras de raças cuja

existência pressentia, numa repelência, como não sendo nada igual nem algo

próxima, e que revia frequentemente na rua, na televisão, na internet, nos

filmes; meios onde muitos moldes, dessas máscaras bizarras, se infiltravam e

impunham de forma abusadora e oportunista, cometendo um delito crónico,

tornado banal, contra a simetria natural, a melhor proporção e dimensão das

formas físicas de rostos ditos humanos, enquanto direcção inteligente de uma

evolução ainda não alcançada; mas ao mesmo tempo, mantendo-se num perfil

simétrico (cara vista de frente) e num outro assimétrico (cara vista de lado).

A máscara doutrem associava-se, em memória de contextos, de forma

espontânea, ao momento afectivo sempre variado, tornando-se assim, nessa

associação virtual, com o que se sentiu nesse maior ou menor instante de

12

duração, um objecto símbolo de afectação e sentimento sempre misto de

inutilidade material e moral, indiferença, cooperação, agressão e repelência.

A cara, na sua expressão estática, era um misto de riso e pavor, misturados de

forma nunca igual; a expressão do semblante de cada cara, a partir desse

misto de insinuação confunde posteriormente a memória de contextos da

mesma cara. O que memorizamos visualmente será essa mistura sempre

diferente, de pessoa para pessoa, mas tão próximas umas de outras, dentro de

contextos variáveis.

A máscara de cada um de nós, é um objecto símbolo de uma mistura

variadíssima de pânico-riso, em proporções divergentes em cada indivíduo;

enquanto símbolo comunicado visualmente, transmite ao observador uma

ilusão emocional afectiva, influenciando-o e gerando um efeito dissuasor

inoportuno; o observador, sob esta influência, sugestão e complexo, pensa e

interpreta, num ápice, a expressão estática do rosto, sob esta ilusão, como

sendo uma proposta cínica da vontade alheia (de que espontaneamente se

desconfia) num abuso primário e ofensivo de confiança gratuita; sob esta

influência e iminência de desafio em algo, não ocorre ao receptor qual o

sentimento real que o transmissor da ilusão estará a viver no momento.

O seu modelo e símbolo cara, enquanto êxito e dignidade, por muito que fosse,

era sempre pouco. O símbolo máscara doutrem, enquanto malogro, dó e ódio

difuso por pouco que fosse era sempre muito, pelo inevitável e crónico efeito

em golpe psicológico de perplexidade que todas as máscaras lhe provocavam

e sempre subjacentes à mistura do riso-pavor da expressão estática comum a

todas as caras.

Em resumo, e numa pareidolia contraída na infância, as máscaras são as faces

irregulares de abóboras,cabaças feias ou ovos gigantes instáveis colocados em

cima do pescoço; sendo todas iguais, ou parecidas nos contornos, divergindo

somente em ridículos e insignificantes pormenores que cada uma exibe

naturalmente aos outros e sem qualquer vontade objectiva do dono, a

determinar essa exibição, mas que aborrece a boa disposição de outrem alheio

que a visualize.

Num outro registo simultâneo, conseguia reconhecer, na profundidade de si

próprio, uma paragem de pensamento, um medo inexplicável, e uma hesitação,

no mesmo sentimento desta globalidade de perplexidade e alumbramento,

quando sob um estado de para-alucinação ocasional; estado este vulgaríssimo

e comum a quaisquer seres humanos, ou seja: não o considerando, portanto,

um sentimento exclusivo seu, mas próprio de todo o ser humano ou animal.

Um dia perguntou a alguém conhecido e sabedor qual o motivo porque se

pressentia, em certos momentos como estes, um inepto complexado ou

sempre zonzo. Tornou-se mesmo discípulo de Freud, um dos últimos vampiros

da Europa, tal como milhares de outros, atraído por uma estúpida moda

cultural. Mas de nada serviu, deixando-o mais confuso e decepcionado, iludido

pelas ideias em complexos de superioridade, inferioridade e consciência que

não existem; e com as questões irracionais que o incomodavam

permanentemente, fazendo-o pressentir-se um indolente sem vontade e

13

habilidade para pensar bem ou fazer certo fosse o que fosse. Sempre que lhe

“nascia” a vontade de realizar uma tarefa, habitual ou não, despoletava

simultaneamente nele, uma falsa contra-vontade que lhe paralisava de forma

magnética toda a decisão e acções subjacentes à mesma, deixando-o

“eternamente” prostrado; este era um dos seus maiores distúrbios

“esquizofrénicos” transversais, embora na fase de embrião, e sem que fosse

esquizofrénico,

que

lhe

pareciam

irreversíveis

ou

impossíveis

de

desmagnetizar, causa directa de medo de medos, de tristeza, de

aborrecimento, de complexos. O que existia, isso sim, era a hegemonia de

sugestões e um complexo jogo de simulação de sugestões; consciência,

inconsciência e hierarquia do eu não existiam.

Mais concretamente, eram sintomas de fraqueza corporal das suas glândulas

endócrinas a resistirem a vírus e contra-vírus, que naturalmente influenciavam

o funcionamento das células nervosas do cérebro, levantando então estados

confusos com ilusões e alucinações, por vezes muito duradouras, mas que não

eram habituais; e que o tempo acabaria por diluir.

Antes disto, nunca obteve uma resposta convincente que explicasse o

fenómeno sobre isto que sentia e o facto de errar frequentemente. O mau

relacionamento com os outros fossem músicos ou não, degradou-se

radicalmente; a vontade de se mover, para participar em concertos, fosse onde

fosse foi totalmente afectada.

Paralelamente possuía um bizarro e aborrecido paradoxo por não gostar de se

sentir neuro-alérgico e igual ao inepto, ao ambivalente, ao cobarde, ao apático,

ao rude, ao mentalmente preguiçoso, ao falso de vida, ao vazio de ideias, ao

doente e à monstruosidade antevistos e pressentidos noutrem, que até lhe

roubavam a alegria de viver; reagia logo pensando, num reflexo de estupidez

absurda, que era preciso ser ainda mais inteligente do que aquilo que já era,

para saber evitar a hipócrita empatia de culpa pressentida, com algo

assimétrico, pela sua imaginação irracional, nesses outros, pelos malogrados

estados de contágio expostos, que não tinham origem, com toda a certeza, no

seu privilegiado e imaculado ser único exclusivo; mas que, por um segundo

paradoxo simultâneo, o confundiam quanto a esta suposta ideia contraída

através dessa involuntária empatia impossível de provar, com certeira

objectividade quanto ao começo da mesma, tal como não se saber aquilo que

nasceu primeiro se o ovo, se a galinha, numa irracionalidade dupla; o que eram

factos verdadeiros é que não gostava desse impulso e que essa dúvida seria

eterna; virtualmente essas duas realidades, que deram origem à vida e às

espécies, surgiram de uma sequência e consequência biológicas, tal como

essa empatia; ou o que era projectado antes pela imaginação, retornava depois

à origem que era ele mesmo, como algo assimétrico.

Se fosse possível viver dentro da cabeça de outro animal, sentiríamos o terror,

a híper tristeza permanente, a abulia, o híper aborrecimento, a super raiva ou

inveja, como assimetrias próprias e comuns às raças de cada um desses

animais; estes sentimentos extremos são aquilo que sentiríamos em

14

permanência; e que também nos distingue profundamente uns dos outros e

desses animais sejam domésticos, sejam selvagens.

No entanto, em consequência desse impulso, tinha sempre outra segunda

dúvida, se esses defeitos que via nos outros, não eram antes simbolizações de

comportamentos seus, tidos noutras idades, épocas e condições de vida social

por contágio afectivo com outros indivíduos e gerações, e que o estado de

alucinação aglutinou e recordou na memória psicológica de forma maléfica,

num ressentimento.

Isto é: tinha um nano medo irracional e excêntrico, germinado pela inteligência

inferior, de se sentir neuro-alérgico, igual e estúpido, pela inibição em

mobilidade física e auto-provocação, que isso representava, cuja consequência

imediata se reflectia na falta de comparência em sítios públicos habituais ou

simplesmente ter paciência para passear na rua, ou mesmo contactar outrem

por hábito de saudação social.

Num ressentimento remoto de infância, o seu cérebro nunca foi prevenido para

resolver essas auto-provocações; jamais soube como ensiná-lo a organizar-se,

para se auto-proteger de tais condicionamentos banais, que, quanto mais

comuns e próximos eram, mais o aborreciam, se é que é humanamente

possível aprender a evitar tal fenómeno irracional involuntário e comum a todas

as espécies; estava a ter um retrocesso na idade, ao qual se juntava uma

perda generalizada de interesse para observar ou contactar fosse com o que

fosse; era o estado de zonzo, ou para-alucinação, que estava instalado

abusivamente, alternando-se com o seu espírito dominante, sempre no “lugar”

de si mesmo; sofria de ansiedade devido ao transtorno provocado, no entanto,

ao enfrentar essa incómoda e intrusa alternância, queria que a mesma fosse

provisória e pouco ou nada frequente no seu “eu”.

Queria imaginar as caras dos outros que via na rua como um simples objecto,

desafectado de expressão de inspiração, sem olhos, sem boca, sem nariz, sem

orelhas, sem feições, mas as mesmas teimavam em permanecer sempre as

mesmas todos os dias, numa fatalidade inevitável; e virtualmente assim seria

até um dia; Por estes sinais exteriores que via nos outros sentia-se obrigado a

empatisar na globalidade de ser igual, mesmo parecido na raça, como um auto-

castigo tácito e natural, que ainda por cima em nada o ajudava a distinguir-se

de outros indivíduos, de outras raças de quem não gostava, como são os seres

para-humanos, tão semelhantes, mas tão diametral, oposta, instintiva, mental e

intelectualmente diferentes de si.

Numa utopia surreal, queria ver (imaginando) a cara doutrem sem estar

escondida num plano atrás dos maxilares duplamente simétricos e arrogantes,

como uma alavanca tipo guilhotina, ou tesoura, os quais o faziam a si reagir por

complexo; em que imaginava ver, na mesma ilusão, essa mesma cara de perfil,

como se fosse um tractor miniatura com rodas, inclinado para a frente e a parte

traseira mais elevada; que podia dirigir e empurrar mentalmente e à distância,

tocando-lhe com a ponta dum compridíssimo taco de jogo do bilhar; como

forma de lhe provocar andamento mágico automático; como se fosse vulgar

brinquedo de um menino imperador que mandava em tudo; cujo combustível

desse veículo mecânico eram nano bolinhas de esferovite de cor sépia-velho,

15

fácilmente explosivas dentro de um hipotético micro motor de combustão,

escondido no centro da cabeça balofa e oca, escondida atrás duma espécie de

tampa oval sem forma, pejada de pequenos buracos, que se auto suspendia

acrobàticamente na mesma.

Ou ver, também sob lúcida imaginação, outras caras, como se fossem

pimentos soprados como balões de borracha, de cor grés, negras e de

australopitecos, com a superfície da pele em pasta -betume engelhada ou bem

lisa, feita a mesma de plasticina e esferovite, num acabamento superior

rigoroso da sua textura artificialmente inexcedível; e ver ainda outras caras que

antes de serem colocadas num forno, passavam previamente por um processo

em que eram humedecidas, adquirindo uma cor igual à exibida pela raça

indiana, meio escurecida, meio baça.

Ou continuar sempre a ver um outro ilusório perfil de reconhecida ou nova cara

feminina como a ponta duma micro prancha de surf de linhas suaves, inclinada,

descendo numa onda de agradável e natural calor, supostamente carentes de

geometria virtual inteligente; ou imaginar a meio das noites de inverno, a força

do sol atravessando todo o planeta, como um raio exclusivo só para o iluminar

a ele que o pressentia bem a essas horas escuras, em que a Terra voltava

diametralmente “as costas” ao astro-rei.

Ultrapassar por mobilidade pontos de medo magnético-psicológicos,

simbolizados num micro itinerário virtual, quando saía de casa, usando chaves,

abrindo portas, recordando, de forma automática, máscaras de vizinhos ou de

outros seres habituais de convivência; recordando automaticamente contornos

urbanos de nano paisagens frontais rasantes, subjacentes ao seu hiper poder

de memória psicológica, era para ele, um intrincado complexo muito irracional;

por onde se manifestava este fantasma esteropático gerador de opressiva

indolência mental (porque o esforço físico obrigado até era mínimo) que se

penetrava abusivamente na disponível boa disposição, querida manter por

vontade a qual nunca considerava ser suficiente para apagar de vez essa

estranha embolia, mesmo após a execução dessa sempre repetida saída de

casa; no outro dia tudo parecia ter voltado à mesma fobia inevitável e

aborrecida, como um pequeno mosquito nervoso perdido algures dentro do seu

dominador super cérebro.

A projecção magnética da timidez, quando no sítio onde se habita, para a

aparente função simples e iminente de se mover o corpo, poucos metros para

lá desse sítio, mesmo próximo do primeiro, converte-se numa estúpida

sensação de embolia e apatia; deslocalizada não se sabe de onde, se de

dentro, se de fora de si, nem se sabe porquê e que incomoda e condiciona o

sistema nervoso central e periférico, num reflexo fisiológico directo sentido

pelos diversos neurónios, enquanto sintoma residual dum traumático dilema

remoto, não resolvido na vontade em acessível e fácil habilidade de execução;

que se manifesta de forma exaustiva, compulsiva e crónica, todas as vezes

sempre que está para acontecer essa vulgar acção actual de movimentar-se o

corpo que se fez levantar todos os dias após o sono.

Essa pré magnetização de timidez, é pré projectada no micro itinerário virtual

de todos os dias ao levantar após dormir, e concretamente sobre imagens

16

opacas (para-poéticas) de virtuais seres que são habituais encontrarem-se,

assim como contornos de edifícios e objectos, detectados e conservados em

associação crónica pelo hiper sensível super cérebro, que os reconhece de

forma meteórica, por intuição, também mega repetida em si todos os dias,

quando da iminência da deslocação; a tensão sob alguma dor neuropática

reflexa correspondente, pressiona e subsiste, no mesmo cérebro,

desaparecendo, num alívio de vontade, só depois da mesma tarefa se realizar,

isto é, desmagnetizando-se a timidez, entretanto introjectada da sequência de

realidade pontual encontrada de seres, de objectos e de contornos dos imóveis

antes virtuais e alvos de pré magnetização dessa timidez antropológica

projectada.

A realidade é a sensação oposta à ilusão, à virtualidade (projecção) do sonho e

da alucinação (timidez), razão pela qual o sonho, a ilusão e a alucinação só

podem ser imaginados, nunca sentidos, escutados ou vistos por sensação real,

de ouvidos e olhos, nem por qualquer outro sentido.

Quando estamos perante uma realidade física, sentimos um impacto afectivo e

mental dessa mesma realidade; quando estamos perante a virtualidade,

sentimos o fantasma (máscara), dessa virtualidade, ou seja: sem o impacto

psíquico como acontece quando se enfrenta a realidade

A sensação está relacionada com a realidade, e às vezes, com o sonho:

sensação de “mim” mesmo, incluindo o tempo psíquico de juízo perfeito que

dura essa mesma sensação (vida); sensação de luz, sensação de cores,

sensação de contornos de imagem; sensação de escuridão, sensação de

presença de alguém, sensação de contornos de pessoa ou objecto em

movimento, sensação de contornos de pessoa ou objecto parado.

O impacto anímico destas sensações interfere com o débito nervoso sobre o

ritmo cardíaco.

A impressão é inerente à máscara, ao fantasma, à superstição, ao pormenor, e

ao objecto onde se projecta a ilusão; e a tudo aquilo a que se reage de forma

psíquica que não tem discrição possível.

A impressão interfere com o ritmo de pensamento, e não está relacionada com

a realidade nem com o sonho; a impressão é diluída pela sensação. Por este

motivo, não é possível existir o recalcamento como erradamente a psicanálise

propõe. A impressão (virtualidade) confunde o ritmo de pensamento, logo

confunde o comportamento e o juízo perfeito espontâneo inerente ao mesmo.

Harryx tinha ainda outro problema: quando dentro dos edifícios, sentia um

medo, só por saber que o Sol nunca entraria em certos corredores, mesmo

iluminados por luz artificial; quando os atravessava, e ao chegar à rua, ficava

mais contente e animado, mas enquanto se deslocava nesses corredores

metidos entre paredes que não recebiam a luz natural, uma impressão de

ligeiro susto perdurava no seu cérebro.

17

Harryx, tinha uma certeza: a doença mental não existia. O que existia era uma

doença corporal no seu impulso de mobilidade deslocalizado para o impulso de

empatia com os objectos e com a recordação de outrem, como algo

assimétrico, numa absurda teia mental de ser perplexivel. Assim, sob este

último impulso, e o grave perigo que corria em imaginar adoecer de forma

irreversível, era natural que procurasse encontrar nos outros seres humanos

conhecidos ou estranhos a habitar no mesmo sítio, a solução desesperada dos

seus problemas vitais projectando-se e desprojectando-se no fácil

relacionamento com os mesmos, de forma excêntrica, mesmo animal. A

doença mental, não existe; o que existe é a vulnerabilidade corporal, a

fragilidade, a perda de resistência e disposição saudável, perante obstáculos

virtuais, como são os complexos, as compulsões e as vertigens, enquanto

“prisões” de pensamento e de instabilidade emocional, que as máscaras dos

outros instintivamente nos inpsiram; e por pertencermos todos a uma raça com

e sem sanidade mental previamente garantida; embora alta e naturalmente

beneficiários privilegiados em tiradas de lucidez frequentes, condição básica

esta, com a qual todos também nascemos, ao contrário dos animais que não

nascem com esta conjuntura e poder superior de auto simetria mental. São

estas tiradas de lucidez que derrotam esses obstáculos que se colocam

permanentemente ao “eu” num desafio como sendo algo de babilónico.

É também esta condição que nos distingue dos animais: estes ficarão

eternamente mergulhados, psíquica e permanentemente, em terror, em

estados de tristeza, em mega angústia, em tédio, em aversão mortal instintiva a

outros seres vivos, em raiva, em inveja, em apatia e em abulia; e sem a

possibilidade de alguma vez poderem sair dessa sua fatal condição típica de

vida, que se situa nos antípodas da vida mental do normal ser humano.

Harryx, no seu melhor íntimo preservado, nunca deixou de considerar-se a si

mesmo e todos os dias um militar-general; não necessitava de formação em

academias de belicismo; o seu inimigo era o inimigo da Europa: O Irão e todas

as hiper sociedades sárabes, a quem designava de seres-objectos a destruir,

não os indivíduos arregimentados aos mesmos; ou assimilados pela língua e

religião a essa sub cultura; na razão directa de que os mesmos tinham também

como único objectivo destruir a Europa mais avançada. Pode ser por isso e

também, para além de europeu general, o Almansor dum integrado e futuro

sistema sárabe a eleger porque viveu nesses países algum do seu “milionário”

tempo passado cultural, onde já nunca mais regressará.

A guerra era o seu estado de espírito sob permanente vigilância, medindo

todos os movimentos do inimigo Orão, e seus aliados, mesmo vivendo distante,

sentia-se virtualmente perto do mesmo. Desconfiava se o seu vizinho, estranho

ou conhecido não era descendente remoto de árabes, para saber qual era o

seu comportamento a tolerar ou, se fosse caso disso, responder, em nome da

geometria virtual visigoda vencedora que herdou geneticamente.

Detestava a paz, enquanto reles vício daquele estado de ânimo, que se

traduzia por baixas intrigas (calhandrices), com ou sobre vizinhos e familiares;

tinha que estar sempre preparado para não se deixar contagiar por aqueles

que de forma doentia viviam essa podre paz, como uma repelente, mesquinha,

18

falsa, gratuita e cobarde curiosidade, abaixo de animal, deixando contaminar-

se espontaneamente numa primeira fase; e já viciados, voluntariamente numa

segunda fase, pondo a descoberto a crise profunda em que mergulhava a

malograda existência vazia nos mesmos; falhos de auto-direcção de

comportamentos virtuais conhecidos a atingir em função deles mesmo.

Para os músicos dirigidos por Harryx, os rostos, todos em forma de funil

inclinado, e os corpos enfatuados pendentes, eram máscaras e canastros

“mortos”, sendo estes imóveis, mas com uma alma aparentemente viva, ágil,

presa, exausta, cansada, mal disposta, condenada a viver neles e toda a vida

nesse mesmo “sítio” forrado de pele por todo o lado que eram eles próprios

com cada um invisível dentro dele mesmo; deixavam perplexos, aqueles que

os percepcionam mesmo na penumbra pela contradição entre o invariável

exterior, pela cor uniforme dessa pele que exibiam, e o variável ânimo e

desânimo interior que se pressentia, pela forma de exposição visual, no

movimento mecânico dos dentes, e olhos; contorno do crânio flutuante, como

uma bóia, num pescoço torto a mover-se como o de uma vagarosa tartaruga;

braços e mãos desocupados, simultâneos da emissão dos sons buzinados

provenientes do abrir e fechar oval, variado e meteórico do tubo interior

invisível, delta do esófago que terminava na faringe; visível e confirmado em

simultâneo, por outro abrir e fechar horizontal, coerente e subjacente dos lábios

ocultando e expondo muitos bagos irregulares, como se fosse milho pintado de

tinta branquíssima, igual à aplicada nos olhos, parecendo duas minis meias

coroas preciosas de joalharia artística, ali bem arrumadas como prémio, mas

num panorama-cara de três dimensões multi disforme, chocha ou esticada,

variada, feia, balofa e esburacada feita de ossos expostos arrogantemente

avançados, mal encobertos pela pele do rosto, de brutal contraste com essas

coroas geométricas; contorno de cara, esse aí colocado, como castigo genético

que despertava o ridículo noutrem ou o riso ou o circunspecto, ou o rácico ou o

pavoroso; Os rumores de som do eco das vozes eram recordados, associados

à forma opaca, da imagem turva do relevo variado dos contornos e semblante

do rosto desigual de cada um, por destacada embolia de impressões e ilusões

inoportunas; eternamente e a maior parte das vezes, à volta do insolente e

escancarado som alfabético “À”, e pelas conversas absurdas de todos os dias,

onde imperavam de forma espontânea, arrogância, medo, cobardia,

insegurança,

tristeza,

dó,

ódio

nascido

duma

vergonha

qualquer,

arrependimento, precipitação em desespero delírio e alucinação; ou sinais de

crise profunda de malograda existência, misturados com jogos de ideias

verdadeiras, mentirosas e de resignação ou seja, numa ambivalência

existencial absurda, pressentida pela intuição num rápido e volátil segundo.

Era um grande erro de pensamento, sentir qualquer vergonha; vergonha de ver

ou pressentir comportamentos miseráveis e deficientes na mente de outros

seres próximos e a viver na mesma comunidade, num sentimento irracional

dominante de qualquer juízo perfeito; que para o resolver bastaria não ter esse

mesmo juízo automático de comparação espontânea com esse outrem. Como

já foi dito antes é a vergonha que dá origem à raiva, incluindo paradoxalmente

19

o ódio auto reversível que o indivíduo pode sentir por si mesmo. A qualquer tipo

de vergonha está ainda subjacente um outro sentimento de perplexidade

paralisante do ânimo que angustia e incomoda o ser; cuja maior vontade

consiste em projectar noutrem, essa mesma perplexidade.

A vertiginosa agitação do conjunto lábios, dentes, e simultânea da emissão de

sons, mais pareciam crepitantes chamas de fogueira, de onde saltavam e

estalavam súbitos golpes de luz vermelha e amarela, logo antes de se

transformarem em fumos a esvaírem-se, no ar.

Os

músicos,

pelo

maior

ou

menor

poder

de

despreplexização,

descomplexação,

desinfluenciação

e

desalucinação,

que

possuíam,

diferenciavam-se uns dos outros; a maioria deles eram alucinados irreversíveis,

condição que Harryx pretendia eliminar de si mesmo, persistindo em cultivar o

erudito dessa saudável desigualdade psicológica de forma voluntária. Muitos

tinham um clone virtual de si mesmo, sempre a seu lado, com uma vontade

divergente e variada do outro clone real, que também era ele mesmo; outros,

exigiam de forma fanática que só houvesse uma única equipa de futebol em

todo o planeta; e a que todos os outros seres teriam forçosamente de

pertencer;

Outros procuravam reconstruir as suas referências sobre os mais prestigiados

dirigentes militares nacionais, para se identificarem socialmente; e porque

tinham uma necessidade de carácter psicológico, duma referência social,

hierárquica, disciplinar, como se tivessem de esconder por detrás da sua cara a

máscara desse outrem admirado pela neutralidade exibida, relativa ao

problema do viver ligado a sociedades antagónicas por natureza.

O homem de honra, sábio, justo, honesto e solidário, não existe no mundo real;

existe sim mas no espectro psíquico e virtual de cada um.

Outros esperavam encontrar a imagem visual e virtual do tempo, sem memória

de contexto, no minuto em que saíam do ventre materno.

Harryx Potteryx decidiu desistir de ser maestro e afastar-se da música para

sempre, como se fosse uma outra qualquer imensa matéria de que se gostou

durante anos e passou a querer desgostar-se em definitivo; como se fosse um

“menino amimado”, com a cara perplexa de Tin Tin ao perder o cão, que

virasse bruto órfão; mas, o que ficou inicialmente foi alguma ambivalência de

tender para gostar cada vez menos de música, por um lado, e de querer

desgostar da mesma, por outro, e cada vez mais, por se mentalizar para isso.

Ele acabou enquanto músico numa altura em que a música era perseguida por

muitas doutrinas e opiniões comuns da população anónima, com as quais até

concordava plenamente; também não queria que a sua cara e pessoa fosse um

símbolo social de destruição devido à conotação da música com produtos de

consumo ou comportamentos imundos.

No entanto tarde de mais reagiu detestando a profissão. A fama que tinha era

suficiente para ser considerado, pela polícia do sistema em vigor, como um

inimigo das multidões.

20

Quis regressar à idade feliz e inocente própria da infância, mas a sua história

profissional de músico comprometia-o. Voltar a ser mais um membro não

acorrentado da multidão, auto reproduzindo o comportamento que lhe foi típico,

renegando o passado, já não era possível.

Curiosamente e num paradoxo do sistema, como era considerado

publicamente um excelente compositor foi o último músico a ser perseguido e

preso. Antecipou-se no entanto ao regime social em vigor e começou a realizar

“procissões” muito particulares, onde só ele participava; às vezes

acompanhado do seu primo.

Um músico era um ser magnânimo comum a milhões de outros, mas vivia num

frágil mundo robótico, mesmo patético; os humanos, por muito que de perto já

alguma vez tivessem participado do mesmo espaço, sentiam-se cada vez mais

inseguros, fóbicos, errantes, silenciosos, escondidos, incompatíveis e

obsoletos, desprezando-se mutuamente uns aos outros de forma animal,

olhando-se de viés ou de costas uns, viciando-se em mediocridade; mas,

estarem perto ou longe uns dos outros, pouco reforma essa negativa situação

emocional; são seres geneticamente programados com forte magnanimidade,

embora passíveis de comportar decepções e falhas, porque estão também

sujeitos à réplica de empatia irracional instintiva do factor dó e tristeza, como

algo agiometrico, que entre eles incide, por inteligência rude e inferior, mesmo

que se avistem a grandes distâncias do olhar, mesmo não sabendo quem são,

sugestionando-se como imagem real, silhueta ou por figura virtual,

transformam-se em mais um símbolo de fatalidade inevitável a carregar

emocionalmente pela espécie, por cada um, e pela civilização, só pelo facto de

se não ter a culpa de estar vivo, mesmo alucinado, sob esse crónico dó e

tristeza; divagando sistematicamente na pesquisa real e virtual de um qualquer

ideal hipotético de razão para se submeterem compulsiva e mentalmente à

mesma, numa projecção supersticiosa de ilusão, falácia e auto opressão

emotiva.

Quando se juntavam em grupo, obedecendo a um instinto da espécie,

comparavam-se mutuamente desmagnetizando-se de timidez.

Alguns reagem, no entanto, com a vontade de evadir-se, reduzindo o excesso

de importância e confiança, a esse incómodo factor parasita de timidez, que

detestam pressentir, inventando adversários para se compararem e definirem

ilusória e falaciosamente diferentes provocando publicamente de si mesmo,

explosões artificiais e encenações de guerra ou de ardor fácil, a que chamam

“futebol”. Mas, ressentirem-se zonzos, mudos e empáticos é uma condição

química e mecânica que faz parte do seu inferior esboço instintivo de seres

irracionais perdidos e perenes.

É bom evadir-se, para querer ressuscitar, dissimulando essa conjuntura fraca

porque abranda a intensidade terrível da rude força empática, mas talvez

insuficiente para aplacar a irracionalidade do mau instinto sempre hiper

exigente. Acreditar paulatinamente e com muita força, para o futuro, no

despertar de algo bom que já existe adormecido de um impulso que extirpe

esse intruso maléfico que gravita paradoxalmente em sub actividade

automática, simultânea e paralela, ao funcionamento de magnanimidade e

sensatez do ser psíquico, é um reforço de consolidação infalível, que anula

21

essa penosa tensão, porque a sua superior programação genética anónima

para isso foi pré-concebida na origem. Um cérebro humano funciona num

ambiente nervoso de para-alucinaçao permanente, mas sempre apostado em

vencer-se de forma a manter-se espontaneamente lúcido e são, por si mesmo;

Sob alucinação, o cérebro distorce e confunde as imagens reais e virtuais;

Despistar essa alucinação é uma das suas funções, por isso e para isso o

cérebro pensa, porque será sempre aquilo que pensa que o sugestiona e

nunca o que sente porque vê, lê ou ouve.

Harryx Potteryx sem ligação a nada, caído involuntária e parcialmente na

ambivalência, nos complexos e na superstição; que percepcionava de muito

perto experiências exigentes de execução, pelas quais também podia ser um

alvo de acusação ainda mais fácil de perseguição e prisão, praticado por um

hipotético poder inquisitório oculto, só pelo facto supersticioso de ter

testemunhado a realização de tarefas próprias de uma qualquer profissão

técnica. Esse era o seu complexo. Para as multidões era virtualmente um ser

inepto e subliminarmente rasca, que, projectava essa inépcia em todos aqueles

que exerciam uma qualquer profissão, embora contagiado por um hiper

sistema social subdesenvolvido impossível ou difícil de aceitar como algo

definitivo, ou minimamente tranquilizador, justo e mentalmente protector. Se

fosse ateu pedia ajuda a outrem, para transportar a cruz às costas, fugindo, tal

como os outros, depois de ter chegado ao “calvário”, conservando-se vivo e

“leader” daqueles que o ajudaram nesse excêntrico transporte, atentatório dos

modernos direitos humanos.

Enquanto outros desiludidos com a música realizavam de forma ridícula

peregrinações solitárias à porta de lugares onde outrora actuaram e foram

aplaudidos ruidosamente pelas multidões, Harryx, afastava-se cada vez mais

com a sombra de si mesmo projectada na figura dos mesmos pelo dó e tristeza

que as cenas desses sítios do passado lhe evocavam; o desaparecimento do

seu grande entusiasmo era absoluto, desprezando tudo que o fizesse recordar

concertos de música; ao contrário de outros que estupidamente permaneceram

nostálgicos.

A normal variação entre entusiasmo de viver e a perenidade habitual

incomodava-o mais do que essa recordação ao ponto de sofrer grande

perturbação de inépcia e de angústia. A perenidade é um fenómeno magnético

e nuclear, cuja carga energética estática, prejudica o funcionamento anímico do

cérebro, sempre supersensível à perenidade nuclear; este mesmo cérebro

ilude-se a si mesmo e toma essa carga nuclear como aborrecimento, tristeza

aniónica, fobia e desânimo ao acordar, facto que não lhe agrada; são neurónios

específicos do mesmo cérebro encarregados de eliminar, progressivamente, e

ao longo do dia estas cargas negativas, que se acumularam durante o sono

nocturno, e com o acto inevitável de dormir.

Mil pensamentos alucinados lhe surgiam, em forma de raio virtual súbito, que

era “perseguidor” com força e objectivo demolidor, e como sendo o mais

recente factor inspirador da condição de zonzo, que também era agora a sua,

sendo mais um pólo de contaminação pública que se somava a milhares de

22

iguais não músicos; num bizarro paradoxo, espelhava-se, instantânea e

involuntariamente, enquanto músico inepto ambíguo, em outrem, a quem

transmitia por estupidez e culpa a vida profissional malograda que abandonara,

como se fosse o único e último mentor desse mal previsto; trocava surreal,

ocasional e magicamente de fardamento com ele, o último primeiro-ministro, o

último ministro, o último político governante, o último político, o último

advogado, o último economista, o último médico, o último psiquiatra, o último

psicólogo, o último cirurgião, o último engenheiro, o último astronauta, o último

cientista, o último poeta, o último escritor, o último pintor, o último artesão, o

último industrial, o último proprietário, o último inventor, o último professor, o

último leitor, o último actor, o último artista, o último cantor, o último palhaço; o

último condutor, o último piloto, o último ser livre, o último preso, o último

general, o último juiz, o último administrador, o último treinador, o último

técnico, o último banqueiro, o último comerciante, a última vedeta do desporto,

o último locutor, o último jornalista, o último comentador, o último estudante, o

último militar, o último polícia, o último ladrão, o último patrão, o último chefe, o

último propagandista, o último apostador, o último reclamante. O último

pedinte; o último passeante de rua ou avenida.

Por extensão a crenças ou meios de organização sociais, no que de maléfico e

dividido existe nos mesmos projectava-se também em: o último supremo de

justiça; a última selecção mundial de futebol; o último conselho de justiça, o

último vampiro, a última assembleia politizada, o último canal de televisão, o

último canal rádio, o último clube tribal, o último partido oportunista, o último

operador de telefones, O último conteúdo corrupto ou rede de internet. O último

automóvel imperfeito. O último ser duplo amistoso e repelente. Profissões que

sentia terem acabado; organizações que tinham falido; funções que

simbolizavam ser inúteis, pela má fama e pelo malogro da acção que passou a

caracterizar as mesmas depois de terem sido testemunhadas.

Descobrindo-se assim todas as eventuais vítimas possíveis do irracionalismo

que era a memória psicológica, feita abusivamente força intrusa, por irregular

sentimento inepto de falácias, sentimentos alucinados de dó, tristeza, ódio e

medos ou invejas, destilados pelo cérebro como líquidos revelados e como

fantasmas perdidos, que provisoriamente se auto recordavam à vontade e à

inteligência intuitiva, contrariando teimosamente os melhores propósitos de

vida formando o estado de zonzo comum a cada uma destas profissões.

As multidões, devido a esse estado de zonzo pressentido em outrem, opõem-

se as estas hipotéticas funções e serviços inerentes, auto reproduzindo um

sentimento de desconfiança de forma pandémica, enquanto símbolos utópicos

das sociedades civis oportunistas supostamente bem organizadas; embora não

dispensando o benefício e utilidade de cada uma, essas multidões, num acesso

de ira imbecil e megalomania céptica irreverente desprezam-nas, repelindo-as

irracionalmente, e troçando delas como se de um gigantesco bando de vis

zonzos dispersos se tratasse; depois de aceitarem o seu contacto com as

mesmas, rebelam-se contra, receando um mau contágio do estado de zonzo a

23

elas inerente. Este era mais um dos ressentimentos habituais, de auto-

provocação, postos a descoberto por hilaridade simultânea e ciência.

Esta é também outra dimensão da pessoa que Harryx Potteryx parcialmente

significa, representando todos os ineptos e gente reles que exercem profissões

de grande responsabilidade, que se relacionam com as multidões de indivíduos

aparentemente normais, anónimos, analfabetos ou sob iliteracia, dispersos por

toda a Europa; e uma vez que é impossível descrever a sua grandeza

inteligente e o estado de integridade invariável, da mesma forma que se

manifesta o estado de zonzo, próprio da estupidez e alucinação.

O lado maléfico das profissões por inépcia ou defeituoso exercício, surge

também simbolizado na figura de balofos, esqueléticos, vadios, sóciopatas,

maníacos e em zonzos ou vampiros, pasmados e sem vivacidade alguma; que

adquirem essa genérica fisionomia deformada, multi assimétrica, como

consequência duma severa punição sofrida, por não serem suficientemente

inteligentes para se libertarem dessa circunstância aberrante, oposta a uma

qualquer exigência estética universal, por muitíssimo fácil ou simples que fosse

de praticar.