A recompensa dos Deuses por Jorge Manuel Diogo Peres - Versão HTML

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A

RECOMPENSA

DOS DEUSES

jorge peres

-

O sinal abriu verde. Carregou no

acelerador e, curvando à direita, entrou na

grande Avenue de la Motte-Piquet.

Paris é sempre Paris. Pode-se estar alguns

tempos sem a visitar, mas o fascínio que exerce

sobre os forasteiros é sempre igual.

É como se fosse sempre a primeira vez.

A viagem de avião foi maçadora. Uma

hora e meia, que por acção de uns barulhentos

companheiros de viagem, se tornou maior do que

o tempo.

Felizmente que desta vez não houve

problemas com a bagagem. Quando chegou ao

tapete rolante do bonito aeroporto Charles De

Gaulle, já lá estavam as suas três malas.

Depois tudo bateu certo. Foi só dirigir-se

ao stand da empresa de alugueres de

automóveis. Os papéis estavam todos tratados e,

em pouco mais de vinte minutos, já estava de

posse da chave de um Opel Corsa Swing +.

II

Passou apenas pelo hotel para deixar a

bagagem e resolveu dar uma volta pelo centro da

cidade.

O relógio digital do veículo marcava as

duas e meia da tarde. Aquele céu cinzento de fins

de Outubro dava uma luminosidade especial a

todo o ferro da Torre Eiffel.

Caía uma chuva miudinha mas a

temperatura era amena.

Virou de novo à direita. Um dos prédios do

lado esquerdo apresentava, em toda a sua

fachada, uma grande campanha de publicidade, e

embelezava de uma forma original a discreta Rue

du Laos. Bem no cimo desse prédio um écran

gigantesco indicava a temperatura e a data.

Inclinou-se um pouco no banco para poder

avistar o topo do prédio e conseguiu ler : ‘ 13 de

Outubro de 1985’ .

Foi então que, olhando para a frente do

veículo, deu conta que alguém atravessava a

passadeira, de que não se tinha apercebido.

Reagiu energicamente. Em condições

normais a travagem seria suficiente. Mas o piso

estava molhado por aquela morrinha. O carro

deslizou. Fechou os olhos ao som daquele baque

surdo. Quando de novo os reabriu, uma mulher

jazia inerte no chão.

Saiu de imediato do carro, ainda ele mal

se havia imobilizado por completo.

No chão a mulher parecia não se mexer.

Através do telemóvel ligou o 112. Despiu o

casaco e enrolando-o colocou-o por debaixo da

cabeça da acidentada.

A Ambulância não tardou a chegar.

Enquanto ministravam os primeiros socorros

estacionou o carro num espaço que encontrou

quase em frente.

Olhou em redor. Dezenas de pessoas,

curiosas, faziam um largo circulo, bem mais largo

do que seria em Portugal. Mas a sua disposição

não estava para aquelas comparações.

III

No entanto não parecia haver alguém que

conhecesse aquela mulher. Resolveu, por isso,

que não a deixaria ser levada para o hospital

sozinha. O mínimo que poderia fazer era

acompanhá-la.

Assim fez.

A viagem foi sinuosa.

Sempre acompanhada por uma equipe

médica a mulher parecia não sentir os solavancos

do caminho.

--- Está a recuperar ! --- suspirou alguém.

Respirou fundo. Talvez não fosse nada de

muito grave.

Nem deu pelo veículo parar. Quando as

portas traseiras se abriram, ele leu na parede

daquele edifício creme ... ‘Hôpital Vaugirard’.

Ficou a ver a maca ser levada

rapidamente por uma porta que dava acesso a

uma área restrita.

Foi-lhe explicado que não poderia passar

dali, mas que lhe seriam dadas informações

regulares sobre o evoluir da situação.

Foi também procurado por um gendarme,

que o informou, que teria de abrir um auto de

ocorrências.

Tudo decorreu sem problemas e, cerca de

duas horas depois, foi informado de que a doente

se encontrava bem, lúcida, e que iria mesmo

abandonar o hospital dentro da próximas horas.

Afinal não era grave, não chegara mesmo

a fazer traumatismo craniano.

Respirou de alívio. Achou que, assim

sendo, deveria esperar e apresentar-lhe o seu

mais sincero pedido de desculpas.

E por ali ficou, andando para a frente e

para traz, vezes sem conta.

Começava já a anoitecer quando o

chamaram para o informar que Lilianne

Mouchotte de Raynouard iria sair dentro de

breves instantes.

IV

Tinham passado uns dez minutos quando

se abriu a mesma porta por onde havia entrado a

maca e saía, com um passo de certo modo

hesitante, uma mulher que só reconheceu pela

roupa que trazia vestida.

Ficou surpreso. Não lhe parecera na altura

do acidente que fosse tão nova, não ultrapassaria

os trinta anos ... e bonita ...

Uns olhos vivos voltearam em redor, por

certo em busca de alguém, de algum apoio.

Ele recuperou e avançou ...

--- Madame Lilianne, suponho .. ---

murmurou um pouco a medo.

--- Sim ... !!!

--- Mil perdões senhora ... eu fui o

imprudente distraído que a atropelei. Peço

imensa desculpa. Eu sei que isso de pouco vale

perante as dores que deve sentir por minha

causa ... ...

--- Tenha calma. Essas coisas acontecem.

Obrigado por ter cuidado de mim.

A sua voz era doce e calma, o seu olhar

macio como veludo.

Observando bem, era um pouco mas baixa

do que ele, cabelos de um loiro natural, não

muito claros.

Uma expressão de rosto nunca vista. O

seu vestuário prático deixava adivinhar um corpo

bem interessante.

Uma mulher pode ser adjectivada de

bonita pelo seu rosto esbelto, jeitosa, pelo seu

aspecto físico e bem feito ... ou linda ... uma

mistura de todas as coisas fazendo adivinhar um

interior igualmente belo.

Ela era simplesmente ... linda.

--- Permita-me que a leve a casa, ou a

qualquer lugar ... É o mínimo que posso fazer

depois de tudo !!!

Por breves momentos pareceu vacilar.

Deu mais um passo para a amparar. Segurou-a

pelos ombros.

V

--- Vê ??? !!!

--- Está bem. Tem razão. É melhor aceitar

a sua oferta.

--- Venha. Apanhamos um taxi até onde

tenho o carro.

Não vacilava já, mas ele continuava a

ampará-la. Já na rua deu-se conta disso e

afastou-se um pouco.

Foi fácil apanhar taxi. A praça estava

repleta deles.

Chegaram ao local da tragédia sem

qualquer palavra. Por ironia o táxi deixou-os

mesmo em plena passadeira. A mesma

passadeira que umas horas fora palco de um

atropelamento ... o dela ...

Instintivamente levou a mão à testa

colocando os dedos no largo penso que lhe

tinham colocado no hospital.

--- Foi então aqui ... !!!

--- Renovo as minhas desculpas.

... Não o culpo. Sabe ?! Eu também

conduzo aqui em Paris. Um dia pode acontecer-

me o mesmo. Ninguém está livre de uma situação

assim.

Ele sentiu-se sem palavras. Ao chegar

perto do Opel Corsa olhou por cima do ombro e

viu uma pastelaria aberta , o ‘Madeleine Café’ .

Lembrou-se que ela poderia ter fome.

--- Perdoe a ousadia ... mas ... tem fome ?!

Ela olhou-o intrigada e interrogativa. Fez

um gesto com a cabeça na direcção do

estabelecimento.

--- Ah! Sim! --- sorriu --- Por acaso sinto-

me fraca.

Àquela hora os frequentadores do café

eram em numero reduzido. Segurou a cadeira,

para que se sentasse mais facilmente.

Ficou olhando bem para ela enquanto o

empregada não chegava.

VI

Aquele penso devia esconder um belo

galo. A marca por certo permaneceria durante

alguns dias.

Pediram torradas e café.

--- Poucos esperariam que eu saísse. Foi

simpático da sua parte. --- sorria-lhe com tudo,

boca ... olhos ... ...

Pousou o telemóvel em cima da mesa

virado para ela.

--- Não sei se necessita de contactar com

alguém. Esteja à vontade.

--- Obrigado ... mas não ...

--- A sério --- insistiu --- Não se acanhe.

Para dizer a verdade, não sou eu que pago a

conta final ...

--- Tudo bem ! Eu estou à vontade. A

verdade é que não tenho ninguém para quem

contactar.

--- A senhora desculpe, mas ...

--- Não me trate mais por senhora. Já fui

casada, mas é uma história que já vai longe no

tempo. Hoje sou divorciada e vivo só. Ninguém

poderá dar por minha falta.

--- Mas por certo terá família !

--- Sim. Tenho uma irmã. Vive em Nimes.

Passamos meses sem nos contactarmos.

Ouvia-a encantado.

--- Mas fale-me de si. O seu francês é

muito bom, mas dá para notar que é estrangeiro.

Negócios ou turismo ?

--- Negócios. Sou de Portugal.

--- Bravo! Não sabia que em Portugal

falavam tão bem o francês. E ... que faz por cá ...

perdoe a indiscrição ...

--- Esteja á vontade. Não é indiscrição

nenhuma. Sou o responsável no meu país da

Trucicam, uma empresa multinacional de

produtos farmacêuticos. Todos os anos temos

uma convenção na Europa, para actualização de

dados, este ano escolheram Paris.

VII

--- E já cá está há muito tempo ?! --- os

olhos dela pareciam brilhar enquanto o

metralhava com todas aquelas perguntas.

--- Devo confessar que cheguei hoje ...

aliás ... tinha acabado de chegar quando ... ... ...

--- Isso é o que se chama destino marcado.

Acabou de chegar e, com tantos milhões de

pessoas, foi-me logo atropelar a mim ... --- o tom

da voz tentava ser ríspido mas sorria ... e de que

maneira .

--- Está hospedado aqui perto, suponho.

--- Mais ou menos. Estou no St Georges, ali

na Rue de Passy.

--- Sim . Sei! Ali perto da Praça da Costa

Rica, não é verdade ?

--- Exactamente.

--- Casado, pelo que vejo --- olhou

incisivamente para a aliança da mão esquerda .

Hesitou um pouco. Olhou-a nos olhos.

--- Sim. Sou. --- suspirou. Os seus olhos

tornaram-se tristes.

--- Perdão. Não quis ser indiscreta ... ---

pousou a mão no seu ombro.

Sentiu como que uma corrente eléctrica

percorrer todo o braço fazendo estremecer a sua

mão.

Fez-se um curto momento de silêncio

enquanto bebiam os cafés.

Foi ela quem quebrou o jejum curto de

palavras.

--- Não falemos disso ... se o incomoda ...

reparei que o seu semblante ficou nebulado e

triste ... ...

Ele respirou fundo. Precisava de ar.

Propôs-lhe sair dali. Ela aceitou.

--- E que tal um pequeno passeio a pé ?!

Sinto-me bem e Paris, depois do pôr do sol, tem

um encanto bem especial.

Era uma excelente ideia. Seguiram lado a

lado. Só a presença dela, ali tão perto, fazia-o

sentir sensações há muito não sentidas.

VIII

Foram subindo, quase sem falar, a larga

Avenue de Suffren. Quando deram por isso, o

Sena, e todo o esplendor de luzes reflectidas no

rio, presenteava-os com um espectáculo único.

--- Lilianne ... não escondo que sou

casado. Aliás nunca foi minha intenção.

--- Nem pensei nisso. Se quisesse

esconder a sua situação não usaria aliança. ---

continuava a sorrir.

--- Exacto! Casei há seis anos com a

Mafalda ... Mafalda é uma excelente pessoa. No

entanto é uma sofredora.

--- Doente ?!!!

--- Diabética ... em alto grau ...

detectámos a doença à cerca de três anos, mas

tem vindo a piorar cada vez mais. Está deitada

vai para seis meses, presa a uma cama e com

cuidados permanentes de uma enfermeira.

--- E sente ?!!!

--- Esse é o problema. Psiquicamente está

perfeita e tem uma lucidez que nos faz sentir

ainda mais pena do seu estado. Ela é muito

inteligente ... teria ido longe se não fosse ... ...

O sorriso dela esmoreceu. De novo lhe

colocou a mão no braço.

--- A vida prega-nos partidas, não é

verdade?!

Limitou-se a encolher os ombros. Mas era

verdade. E que partidas ... sentiu-lhe um

arrepio ...

--- Frio ?!!!

Ela assentiu com a cabeça. De pronto ele

tirou o casaco. Abraçou-a com ele e foram

encaminhando-se para a viatura. Recomeçou a

chuvinhar quando já estavam a entrar.

--- Onde quer que a deixe ?

--- Se não for abusar da sua boa vontade,

gostaria de ir para casa.

--- Se tiver a gentileza de me dizer onde

fica, terei todo o gosto.

IX

--- Avenue Marceau ... diz-lhe alguma

coisa ?!!!

--- Sinceramente não.

--- Fica perto do Arc du Triumphe, mas eu

vou-lhe indicando o caminho.

Ainda ficava um pouco longe. De vez

enquando olhava para ela aproveitando os

semáforos vermelhos. Era realmente uma

companhia muito agradável.

--- Vire, por favor, a próxima à esquerda,

estamos perto.

Estavam efectivamente perto. Estacionou

num espaço proibido.

--- Não quer subir um pouco ? Acho que

tenho Whisky no meu bar.

Hesitou. Queria realmente subir. Mas não

devia. O dia já tinha sido suficientemente

confuso. Estava arrasado, cansado, confuso ... ...

tinha de ligar para Mafalda ...

--- Não. Agradeço mas não. Fica para uma

outra vez.

Leu no rosto dela uma sombra de

decepção logo disfarçada. Regressou o sorriso.

--- Claro. Compreendo. Por favor, não me

interprete mal.

--- Acha que fica bem?!

--- De momento sinto-me perfeitamente.

E pronto. Acabava ali todo o contacto. Por

certo não voltaria a vê-la. E perante a confusão

da sua cabeça talvez fosse mesmo melhor assim.

Mas ... cortar assim ... tão abruptamente ... ...

--- Olhe ... ficava mais descansado se

soubesse que estava mesmo bem. Se me desse o

seu numero de telefone poderia ligar-lhe mais

logo ... só para saber se continua tudo bem ...

Os olhos dela iluminaram-se. Procurou na

sua mala e tirou um cartão.

--- Aqui tem.

--- Obrigado ... e ... boa noite ... ---

esticou-lhe a mão para uma despedida formal.

X

Ela aproximou a cara e deu-lhe um beijo

na face. Sentiu ruborizar-se. Vermelho ... ??? !!!

ele !!! ??? ...

Ficaram a olhar-se breves instantes.

Depois ela voltou-se e entrou no prédio.

Regressou ao carro e rumou para o hotel.

De tal forma ia embrenhado nos seus

pensamentos, que quando deu por si estava já no

seu quarto. A primeira coisa que fez foi ligar para

Mafalda. Claro que estava preocupada. Não lhe

contou muitos pormenores. Prometeu ligar todos

os dias.

Deitou-se em cima da cama ainda vestido.

Apenas com o candeeiro da mesinha de cabeceira

ligado, o quarto envolvia-o numa semi-

obscuridade, que lhe devolvia uma paz já

perdida, algures.

Olhou fixamente o tecto branco, agora

cinzento e viu Lilianne. Parecia mesmo estar ali,

com aquele sorriso luminoso e radiante. Mas que

esperava ele?! Não tinha já na sua vida bastante

preocupações e problemas ?! Só tinha era que

esquecer... ... no entanto ligaria para ela, só uma

vez ... só para saber ... ...

Foi rápido a marcar o número que estava

no cartão.

Esperou uns segundos que lhe pareceram

uma eternidade. Então do outro lado conheceu-

lhe a voz.

--- Estou ? ... !!!

--- Lilianne ?! Sou eu.

--- Olá! Sabe que não me chegou a dizer o

seu nome?!

--- A sério ? !!! Mas é imperdoável !

Chamo-me Carlos Filipe Gomes ... apenas Carlos .

--- Pois bem, chamá-lo-ei de ‘ apenas

Carlos ‘ .

Riram ambos.

--- Chame-me como quiser.

--- Estou a brincar. Será Carlos ... claro ...

--- E como se sente ?!!!

XI

--- Bem. Muito bem mesmo. Não se

preocupe mais comigo. Eu já nem me lembro do

que aconteceu.

--- Vamos então esquecer ?!!!

--- Nem tudo é para esquecer ... nem

tudo ...

Resolveu ignorar aquela expressão dela.

Levá-los-ia para caminhos perigosos.

--- Então não a incomodo mais. Durma

bem.

--- Não incomoda nada. Uma boa noite

também para ti.

Desligou. Ficou a pensar em toda aquela

conversa. Demorou uns minutos a perceber que

ela se tinha despedido tratando-o por tu.

Carlos adormeceu vestido em cima da

cama.

A manhã foi movimentada. Acordou com o

despertar do hotel à hora que combinara

previamente na recepção e depois foi um acelerar

contínuo.

O Hotel des Invalides era algo de

sumptuoso. A sue enorme sala de congressos

XII

tinha sido escolhida para a convenção daquele

ano.

Foi durante a primeira reunião, uma ‘seca’

de apresentação sem nada de novo, que Carlos

pensou pela primeira vez em Lilianne.

Terá sido real ? No entanto as marcas,

bem visíveis naquela manhã, na frente do carro

não lhe deixavam dúvidas. Acontecera mesmo.

Por volta do meio dia os trabalhos foram

interrompidos. Dirigiu-se para a saída.

“--- Sr. Carlos Gomes é favor dirigir-se à

recepção onde o aguarda uma chamada

telefónica.”

Eram as colunas do hotel, espalhadas por

todo o lado. Parecera-lhe ouvir o seu nome.

Esperou para ouvir de novo. Confirmou que assim

era. Ao chegar à recepção identificou-se e

indicaram-lhe uma cabine.

Levantou o

auscultador.

--- Sim ?!!!

--- Carlos ?

--- O próprio !!!

--- Lilianne ...

Estava longe de pensar que fosse ela.

Pareceu-lhe irreal. Não se lembrava de lhe ter

dito onde seria a convenção.

--- Olá Lilianne .

--- Carlos, desculpa a ousadia. Queria

apenas perguntar-te se quererias almoçar comigo

hoje ?

--- Oh! Lilianne ! Não posso. Saí mesmo

agora e os trabalhos recomeçam daqui a uma

hora, não dá tempo para nada. Só estou

disponível após as quatro e meia.

--- Paciência.

--- Como deste comigo aqui ?!!!???

--- Tenho alguns contactos no teu ramo.

Foi só procurar onde se realizava uma convenção

de empresas farmacêuticas. Mas não foi fácil.

Tive mesmo de contactar a Trucicam em

Portugal.

XIII

Carlos estava atónito. Todo aquele

trabalho só para o convidar par almoçar. Que

querida !!! ... Merecia uma recompensa ...

--- Muito inteligente, a menina. --- usara o

tom mais afectuoso que conseguira --- Olha

Lilianne, como te disse saio às quatro e meia,

mais coisa menos coisa ... tens muito que fazer ?

--- Eu não. Estou de férias, tenho muito

tempo livre.

--- Então que tal sairmos e dar uma volta?

Se estiveres de acordo poderemos jantar num

local calmo à tua escolha.

--- Por mim está óptimo. Onde nos

encontramos?

--- Posso passar aí por tua casa.

--- Então está combinado, esperarei a

partir das quatro e meia.

Desligou o telefone mas permaneceu na

cabine um pouco mais. Olhou o seu quartzo de

pulso. Já só tinha tempo para comer qualquer

coisa de muito leve.

A reunião da tarde já foi um pouco mais

absorvente mas Carlos ia ficando cada vez mais

nervoso e impaciente consoante se ia

aproximando da hora do fim dos trabalhos.

Mas essa hora chegou. Saiu do grande

hotel em passo apressado e arrancou com o carro

um tanto bruscamente.

O trânsito não estava fácil. Demorou mais

do que desejaria a chegar a casa dela. No

entanto, e em compensação, arranjou um lugar

para estacionar mesmo em frente à porta do

prédio. Pegou no telemóvel e ligou-lhe.

--- Sim ?!!! Lilianne, cheguei.

--- Oh! Carlos. Desculpa estou um pouco

atrasada. Sabes como são as mulheres. Não

queres subir um pouco enquanto me apronto ?

Ele já ali estava, o carro estava bem

estacionado ... porque não ? !!! ...

--- Ok. Subo em seguida, se me disseres o

andar, claro.

XIV

--- Sim. Sim. Segundo direito. Vou abrir a

porta da rua.

Poderia ter subido pelo elevador mas

resolveu que iria pelas escadas. Chegado ao

segundo direito tocou subtilmente a campainha.

A porta abriu-se para uma das mais

maravilhosas visões que tivera na sua vida.

Reparou logo que tinha ido ao cabeleireiro.

Possivelmente teria sido essa a razão do atraso.

Estava linda ... simplesmente maravilhosa ...

tentou traduzir o que sentia por palavras, sem no

entanto se expor demasiado ... mas apenas

conseguiu balbuciar algo inconcreto ... ...

--- Vejo que está muito bem ...

Já não ostentava o penso na testa e a

marca estava muito bem disfarçada. Alguém que

não soubesse do acontecido, nada notaria.

Cumprimentou-a com dois beijos na face.

Reparou então que ela envergava um robe

comprido, atado à cintura com um cinto, tudo em

tons de lilás, curiosamente a sua cor predilecta.

--- Não vais ficar aí à porta pois não ?

Claro que não. Sentia-se como um puto de

escola. Mas ele não era já um puto. Os quarenta

já lá iam havia cinco anos e pretendia pensar

tratar-se de um homem feito e sabido.

Entrou observando sem atenção um

apartamento simples onde no entanto se

denotava uma certa preocupação estética e onde

se revelava um gosto requintado.

--- Que bonito! --- murmurou enquanto ela

o encaminhava para a sala --- percebes de

decoração!

--- Claro! É a minha vida. Sou decoradora

de profissão, não te tinha já dito?

Não. Não tinha. Mas que importava lá isso.

Embora observasse tudo em redor era nela que o

olhar de Carlos parava mais demoradamente.

--- Não vais ficar aí na entrada pois

não ?!!! --- olhava-o aparentemente deliciada com

o seu não-à-vontade.

XV

Dirigiu-se para o sofá, muito

vagarosamente. Ao fazê-lo teve que passar mais

perto dela ... demasiado perto ...

Pararam a escassos centímetros um do

outro olhando-se frente a frente. Tudo parou. O

mundo, os ponteiros do relógio, os outros ... ... só

não parou o bater dos corações de ambos ... e no

silêncio apenas ondulava a crescente ofegante

respiração ... depois ... depois foi tudo muito

rápido ...

Agarrou-a pelos ombros, puxou-a para si e

beijou-lhe os lábios, uns lábios que se

entreabriram como se o esperassem já.

Trocaram-se línguas, salivas e suspiros.

Beijaram-se como se fosse a primeira vez

que o faziam nas suas vidas. Respiraram o ar de

cada um, retribuíram a ternura que ambos davam

em cada gesto ... e então ... então as mãos de

Carlos ganharam vida.

Sempre com a sua boca colada na de

Lilianne encontrou o cinto que fechava o robe

dela. Podia ter desfeito aquele nó simples de uma

forma brusca e rápida.

Mas não. Fê-lo lentamente ... muito

lentamente ... Quando terminou a tarefa as suas

mãos tiveram uma enorme e agradável

surpresa ... nada mais havia a tirar!

Um bonito e bem feito corpo de mulher

emergiu resplandecentemente naquela sala

fazendo concorrência ao fraco sol que, lá fora,

tentava afastar a chuva de véspera.

A Lilianne cabia agora uma tarefa um

pouco mais demorada e mesmo complicada do

que havia sido a de Carlos. Mas a pouco e pouco

as roupas deste foram ficando espalhadas pelo

apartamento.

Carlos beijou-lhe todo o corpo, sem

excepção, sentindo com prazer o estremecer dela

por cada centímetro de pele que os seus lábios

afloravam.

XVI

Depois foi a vez dela lhe retribuir beijo a

beijo, gesto a gesto.

Só bem mais tarde fizeram amor, um acto

pleno de entrega, pleno de sentimento, pleno de

carinho e ternura. Não eram dois seres mas a

fusão num único. Parecia que se tinham amado

toda a vida, ou então, que toda a sua existência

se destinava a encontrarem-se naquele

momento, aparentemente fatídico.

Algumas horas depois, deram por si

deitados por sobre a cama, ternamente

abraçados, ela com a cabeça sobre o peito dele.

Lá fora as luzes de Paris haviam já há muito

substituído a luz solar.

Beijou-lhe os cabelos. Ela enroscou-se

ainda mais a ele. Que pele cheirosa a dela.

--- Não era suposto estarmos a jantar

algures ?!!! --- disse-lhe sorrindo.

--- Mas tu és o meu jantar. Eu serei o teu

jantar. Queres melhor ?! ...

Ele fez um ar pensativo evidenciando

possíveis dúvidas que estava longe de sentir.

Ela fez o papel de furiosa dando-lhe

palmadas no peito. Riram ambos alegremente.

--- Sabes ?! É bom estar contigo Lilianne.

--- Sério ?! --- olhou-o apaixonada.

--- Sinto que nunca falei tão a sério em

toda a minha vida.

E era verdade. Falava mesmo a sério.

Sentia-se completo, preenchido, como se a

conhecesse toda a vida.

Mas como era possível transformar toda a

sua vida em menos de vinte e quatro horas?

Como explicar isso para si próprio?! E como

explicar aos outros ?!!!

Para já não queria pensar nisso. Estar ali,

naquele momento, com ela, assim bem juntinho,

era tudo o que ele mais queria.

Foi ela quem reagiu primeiro.

--- Isto é uma loucura ... !!! ... Uma

verdadeira loucura ... !!! ...

XVII

--- sssschiuuu !!!! Não digas nada. Eu sei

que é uma loucura. Mas é uma loucura tão boa e

doce que não me importava de morrer nela e

mesmo por ela.

--- Desejei-te assim que saí do hospital e

te vi. Acreditas ?!!!

Claro que acreditava. Beijou-lhe de novo

os lábios quentes.

--- Lilianne ...

--- Sim ... ... ???

--- Pode parecer uma loucura mas sinto

uma vontade enorme, mas mesmo enorme de te

dizer uma coisa.

--- E porque não dizes?

--- Queres mesmo que diga ?!!!

--- Claro que quero! Vá lá diz ... diz ... ---

ia-o beliscando.

--- Amo-te ... --- ela ficou silenciosa ---

amo-te como se te conhecesse há anos, como se

tivesses sido sempre o amor de minha vida. Fiz

amor contigo fazendo e sentindo coisas que

nunca havia feito ... nem sentido ...

--- Meu querido ! Amanhã nem te vais

voltar a lembrar destes momentos ...

Ele reagiu instintivamente como que

picado por algo invisível, quase a assustando.

--- Duvidas do que te digo ?!!! --- tinha um

tom de voz sentido e ofendido.

--- Desculpa Carlos. Por favor desculpa.

Não falei a sério. Claro que te amo meu querido.

Só que aprendi com a vida a não fazer muitos

planos e viver apenas o momento ... e de

momento ... o que realmente me interessa é que

estou aqui contigo, bem juntinha, e me sinto a

mulher mais feliz e realizada que pode assistir à

face da Terra.

Voltaram a fazer amor, calma e

ternamente. Depois adormeceram .

Despertou eram já cinco da manhã. Carlos

tinha de ir ao hotel preparar-se para mais um dia

de convenção.

XVIII

Deu-lhe um beijo ao sair da cama, mas de

forma a que ela não acordasse.

Encontrou na cozinha um bloco de notas e

uma caneta. Escreveu-lhe um bilhetinho de

despedida.

“ Minha querida. Tenho de ir ao hotel.

Hoje a convenção só me ocupa a parte da manhã.

Estou livre a partir das duas horas. Gostaria de

estar contigo depois. Estarás disponível? Depois

telefono. Amo-te. Carlos.”

Colocou-o perto da almofada de modo a

que ela o visse assim que abrisse os olhos. Saiu

de mansinho sem fazer ruído.

Telefonou-lhe à hora de almoço. Estiveram

juntos toda a tarde, mas toda a tarde fora de

casa. Juntos foram visitar locais que ele já há

muito não via. Lilianne conhecia, obviamente,

muito mais de Paris do que ele.

Não nascera ali, mas ali casara a primeira

e única vez, e ali se fixara com o seu ex-marido. O

XIX

casamento não durou muito. Ela preferiu sair e

começar do nada. Daí o ter alugado o pequeno

apartamento.