A rede ferroviária e a urbanização da freguesia do Brás: estudo onomástico contrastivo por Alessandra Martins Antunes - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

ALESSANDRA MARTINS ANTUNES

A REDE FERROVIÁRIA E A URBANIZAÇÃO DA FREGUESIA DO BRÁS.

ESTUDO ONOMÁSTICO CONTRASTIVO

São Paulo

2007

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ALESSANDRA MARTINS ANTUNES

A REDE FERROVIÁRIA E A URBANIZAÇÃO DA FREGUESIA DO BRÁS.

ESTUDO ONOMÁSTICO CONTRASTIVO

Tese apresentada à Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo para

obtenção do título de Doutor em

Semiótica e Lingüística Geral.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Vicentina

de Paula do Amaral Dick

São Paulo

2007

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FOLHA DE APROVAÇÃO

Alessandra Martins Antunes

A rede ferroviária e a urbanização da freguesia do Brás. Estudo onomástico contrastivo

Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo para obtenção do

título de Doutor.

Área de Concentração: Semiótica e Lingüística

Geral.

Aprovada em __________________________.

Banca Examinadora

Prof. Dr. _________________________________________________________________

Instituição: _____________________________ Assinatura: ________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________

Instituição: _____________________________ Assinatura: ________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________

Instituição: _____________________________ Assinatura: ________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________

Instituição: _____________________________ Assinatura: ________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________

Instituição: _____________________________ Assinatura: ________________________

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Aos meus pais, pela minha existência

e pelo sentido que trazem a minha vida.

A minha vovó, exemplo de força e de amor.

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Agradecimentos

A realização deste trabalho só foi possível graças a minha sempre orientadora,

Profa. Dra. Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, que há tantos anos me acolheu e,

desde então, com carinho e dedicação, revela os mistérios dos nomes e, com paciência e

entusiasmo, ilumina minhas reflexões. Meus especiais agradecimentos à Senhora,

Professora.

Agradeço às Professoras Doutoras Maria Aparecida Barbosa, Jeni Silva Turazza e

Leonor Lopes Favero pelas sugestões minuciosas durante o Exame de Qualificação, que

tanto contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho, e aos amigos da área de

Toponímia, por compartilharem os medos da pós-graduação e as dúvidas e as certezas da

arte de dar nomes.

Aos meus irmãos e aos meus amigos do coração, meus sinceros agradecimentos

por tornarem a minha vida mais leve e os meus sonhos mais intensos.

Devo agradecer, também, a Carlos Goulart, pelo Abstract, aos funcionários das

bibliotecas da FFLCH, FAU, FEA e EP, que, prestativamente, auxiliaram-me durante a

coleta do material que integra esta Tese, e ao CNPq – Conselho Nacional de

Desenvolvimento Científico e Tecnológico, por financiar minhas pesquisas desde os

tempos de Iniciação Científica.

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Resumo

ANTUNES, A. M. A rede ferroviária e a urbanização da freguesia do Brás. Estudo

onomástico contrastivo. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, 2007.

De um extremo a outro, entende-se a toponímia de regiões urbanizadas como resultante de

homenagens ou como resquícios da história de formação da comunidade. No primeiro

caso, a denominação é entendida como retribuição a uma ação realizada em prol do local,

dedicada àqueles que se empenharam em sua consolidação, ou impostas por autoridades

políticas e como reflexos de mudanças históricas e sociais. No segundo caso, interpreta-se a fixação de designativos como testemunhos da passagem de determinados indivíduos na

região ou como a descrição de características inerentes ao local, em geral perdidas com a sua ocupação maciça. Ignora-se, em ambos os casos, a pesquisa do processo de formação,

de cristalização e de ressemantização do topônimo, gerando, muitas vezes, conclusões

equivocadas. No presente trabalho, aplicamos a metodologia de recuperação de causas

denominativas do Projeto Atlas das Cidades, coordenado por Dick (1996), à freguesia do

Brás, região a leste do antigo núcleo paulistano. Após o levantamento dos designativos e dos referencializadores utilizados entre os anos de 1850 e 1914, analisamos o

desenvolvimento da maneira de singularizar os espaços em contraste à ocupação da região

e à mudança do perfil do morador. Constatamos três fases de engendramento de

topônimos: na primeira, até a década de 1870, enquanto a freguesia do Brás mantém-se

isolada do restante de São Paulo, os designativos são formados pela descrição do espaço; entre as décadas de 1880 e 1900, período em que os antigos chacareiros loteiam suas

propriedades, a denominação sistemática é visível na região, mas a fixação dos

designativos atende antes à referencialização, no caso de antropotopônimos indicados, e ao desejo de atribuir topônimos que remetessem a regiões prósperas, no caso dos

corotopônimos, do que à escolha aleatória e à homenagem propriamente dita; é após a

Proclamação da República e a ocupação da freguesia do Brás por imigrantes e migrantes

pobres, quando se evidencia a urbanização, que a homenagem a autoridades políticas e a

indicação de topônimos a partir de motivações toponímicas pré-estabelecidas tornam-se

tendências denominativas.

Palavras-chave: Onomástica; Toponímia urbana; freguesia do Brás.

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Abstract

ANTUNES, A. M. The railway and the urbanization of freguesia do Brás. Essay

onomastic contrastive. Thesis (Doctoral) – Faculty of Philosophy, Languages and Human Science, São Paulo 2007.

From out to out, place names are understandable as results of homage or rest as community history formation. In the first case, the name is understandable as retribution for a done action in favor of the local, dedicated to whose enforced to consolidate it, or ordered by politicians and socials and historic changes of reflex, In the second case, interprets the fixation of names testimonials of passage of determined people in the region or as

description of characteristic names to the local, in general lost with its massive occupation.

To ignore in both cases, the research of the formation process, of crystallization and

resignification of place names creating, many times, wrong conclusions. In this research, we apply the methodology of recovery of denominating cases from Cities Atlas Project

coordinated by Dick (1996), at freguesia do Brás, east side in the old paulistano nucleous.

After rising up of the characteristics and the referenced used between years 1850 to 1914, we analyzed the development in way to singularize the spaces in opposition to occupation of the region and to change the resident profile. We realized three steps of the creation of place names: in the first, till a decade of 1870, while the freguesia do Brás kept away of the rest of São Paulo, the characteristics are formed by description of the space; between the decades of 1880 and 1900, period where old farmers allotted their own properties, the

systematic denomination is clear on this region, but the fixation of the characteristics serve before the referenced, in case of the personal names indicated, and the wish to attribute place names that permit to rich regions, in case of the choronym, that an aleatory choice and to homage necessary said; happened after os the republic’s proclamation and

occupation of freguesia do Brás by poor migrants, when the urbanization is evident, that homage to politicians authorities and the indication of the place names from motivations pre established turn to denominated tendencies.

Key words: Onomastic; urban place names; freguesia do Brás.

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Lista de abreviaturas e siglas

ACSP

Ata da Câmara de São Paulo

CDT

Cartas de Datas de Terra

CMP

Casa da Memória Paulista

DI Documentos

Interessantes

EFCB

estrada de ferro Central do Brasil

EFDP

estrada de ferro Dom Pedro

EFN

estrada de ferro do Norte

EFSJ

estrada de ferro Santos-Jundiaí

RT Registro

de

Terra

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Sumário

Introdução......................................................................................................................................... 1

Fundamentação Teórica ................................................................................................................. 8

Metodologia ................................................................................................................................... 24

I. Os nomes da São Paulo Oriental do século XVI ao XIX ........................................................ 30

I.1. Os primeiros referenciais da São Paulo Oriental: os aldeamentos ............................................ 30

I.2. As paragens de tropas de burros ................................................................................................ 39

I.3. A capela de Nossa Senhora da Penha ....................................................................................... 46

II. Os nomes da São Paulo Oriental do século XVI ao XIX ...................................................... 53

II.1. Surge a Freguesia do Brás. Mas quem foi o Brás? .................................................................. 53

II.2. A hierotoponímia da freguesia do Brás ................................................................................... 59

II.2.1. Os representantes da Igreja na freguesia do Brás ................................................................. 61

III. Os nomes indígenas da freguesia do Brás ............................................................................. 67

III.1. A toponímia de origem indígena no Brasil ............................................................................ 67

III.1.1. Os cursos d’água e a hidrotoponímia .................................................................................. 69

III.1.2. A flora e a fauna da freguesia do Brás e a cristalização da fitotoponímia e zootoponímia de origem indígena ............................................................................................................................... 74

III.1.3. O solo, a terra molhada e a atividades humanas .................................................................. 79

III.2. A formação dos bairros e a atribuição de designativos indígenas originais por translação toponímica ....................................................................................................................................... 83

III.2.1. Designativos de bairros formados a partir de hidrônimos ................................................... 86

III.2.2. A fixação do topônimo bairro da Mooca ............................................................................ 91

IV. A descrição no processo de formação de designativos.......................................................... 95

IV.1. Os elementos descritivos e os arquétipos toponímicos ........................................................... 95

IV.1.1 As pontes da freguesia do Brás ............................................................................................. 98

IV.2. A função da Toponímia no resgate de memória .................................................................. 108

IV.2.1. Termos geográficos populares ........................................................................................... 108

IV.2.2. O ambiente e a ação do homem ........................................................................................ 110

IV.2.3. A toponimização de termos geográficos ........................................................................... 120

IV.3. A formação de designativos espontâneos por descrição associativa .................................... 121

IV.4. A Descrição do ambiente e a ampliação de referenciais ...................................................... 125

IV.4.1. A demarcação dos limites da municipalidade: o Marco da Meia Legoa ........................... 128

IV.4.2. A tomada da freguesia do Brás: do largo do Brás à rua da Concórdia ............................. 133

IV.4.3. O aterrado do Gasômetro: da ponte do Mercado à do Gasômetro .................................... 136

10

IV.4.4. Do hospital dos Lázaros à construção do hospital de Isolamento ..................................... 142

IV.4.5. O Hipódromo Paulistano ................................................................................................... 146

IV.5. O estabelecimentos de ferrovias na freguesia do Brás ......................................................... 148

IV.5.1. A Estrada Ingleza na freguesia do Brás e os designativos do núcleo provenientes de ferrovias ......................................................................................................................................... 149

IV.5.2. Da estrada de ferro do Norte à E.F.Central do Brasil ....................................................... 153

IV.5.3. A EFSJ na freguesia do Brás e a formação de novos topônimos ...................................... 157

V. Os topônimos sistemáticos da freguesia do Brás .................................................................. 164

V.1. O processo de urbanização da freguesia do Brás: reflexo no processo denominativo .... 167

V.1.1. A concessão de datas de terras na freguesia do Brás nas décadas de 1870 e 1880 e a designação de ruas abertas pela Câmara Municipal ...................................................................... 169

V.1.2. Os mecanismos de denominação das novas ruas ................................................................ 177

V.2. O loteamento de antigas chácaras: os designativos indicados pelos proprietários ................ 199

V.2.1. A abertura de ruas: a formação de antropotopônimos ........................................................ 202

V.2.2. Os designativos de motivação religiosa ............................................................................. 210

V.3. A estabilização do processo de engendramento de topônimos sistemáticos ......................... 212

Conclusão ..................................................................................................................................... 230

Bibliografia .................................................................................................................................. 239

Anexos .......................................................................................................................................... 246

1

Introdução

A Onomástica, sendo uma das ciências do léxico, objetiva, nos seus dois ramos de

estudo – a Toponímia e a Antroponímia –, a pesquisa dos denominativos, em diversos

domínios de experiência. Os nomes, tornados palavras-ocorrência de discursos

significativos, envolvem uma rede intricada de mecanismos étnicos de formação. Cabe ao

pesquisador, ao reconstruir o percurso de enunciação do onoma, apontar a sua motivação e relacioná-la com as circunstâncias que levaram a sua criação.

Apesar de os nomes próprios, especialmente os nomes de lugar, serem objeto de

estudos científicos desde meados do século XIX, a consolidação de tais pesquisas pelo viés teórico e metodológico dos estudos lingüísticos só foi viabilizada nas últimas décadas,

sobretudo em trabalhos de Dick (1990, 1992 e 1997).

A Toponímia, a partir de então, vem sendo temática de estudos tanto em

perspectiva sincrônica – os processos de atualização da significação e ressemantização do signo toponímico –, como diacrônica – a análise do próprio ato de nomear o espaço e das

substituições de nomes por questões político-ideológicas ou por não mais serem utilizados pelos membros da comunidade.

Neste sentido, esta última vertente de estudo dos designativos possibilita a detecção

de valores sociais e econômicos, avanços tecnológicos, práticas rotineiras, ideologias e religiosidade e o mapeamento de camadas lingüísticas que marcam o espaço; antes restrita à reconstrução do significado original, levando em conta apenas fenômenos fonológicos ou influências geográficas.

Assim, define-se os objetivos desta Tese pelo levantamento e a pela análise

lingüística e histórico-semântica de designativos da região a leste da cidade de São Paulo, do período anterior à ocupação maciça e à urbanização até a normatização da ação de

engendrar designativos. A hipótese central que norteou a definição tanto da região quanto do momento histórico é a de que o ato denominatório acompanha a visão que o homem

possui do próprio espaço, levando à formação de verdadeiros ciclos denominativos: Organizados em torno de um sistema de valores, tendem a refletir não só a estrutura

se sociedades constituídas em função de mentalidades ou ideologias de épocas,

2

como a própria natureza do código lingüístico, na valorização de seu léxico e de

seus arranjos morfo-sintáticos. (Dick: 1995, 62)

Assim, dois momentos distintos de formação de topônimos foram postos à prova: o

período em que a ação de designar os espaços mantém um caráter espontâneo versus

aquele que enseja o estabelecimento de designativos sistemáticos.

O ponto de partida da análise fixou-se, aproximadamente, no terceiro quartel do

século XIX. Antes disto, apesar de conhecida desde as primeiras entradas de europeus em

terras paulistas, a região a leste da cidade paulistana, a São Paulo Oriental, como

denominou Azevedo (1958), não propiciou adensamentos consideráveis, salvo

aldeamentos indígenas e um bairro no entorno da capela de Nossa Senhora da Penha.

Destaca-se, neste contexto, a freguesia do Brás, desmembrada em 1818, trecho da

São Paulo Oriental entre os ribeirões Tamanduateí e Aricanduva. A proximidade com a

região central de São Paulo não foi suficiente para sua inserção na expansão da cidade, já na primeira metade do século XIX verificada a Norte, a Noroeste e, em parte, a Oeste do

centro velho da cidade de São Paulo, ora núcleo. Por mais de três séculos, a várzea do

Carmo, uma larga faixa alagadiça do ribeirão Tamanduateí, dificultava o acesso à região a leste durante a maior parte do ano.

A travessia pela ladeira do Carmo, um paredão íngreme e pouco resistente, só foi

viabilizada no início do século XIX, com a construção de uma ponte. Ainda assim, seguir

pela ladeira esburacada e cruzar a várzea alagadiça, cujas pontes frequentemente eram

levadas pelas águas do ribeirão, não era uma tarefa tranqüila. Neste ponto, o Tamanduateí representava a principal proteção do núcleo, o que levou a escolha do núcleo para a

fundação do Colégio dos jesuítas. No momento em que se visava ampliar os limites da

cidade, torna-se um obstáculo (Monbeig, 1958, 8; Reis, 2004, 24).

No século XVIII, a fixação da capela de Nossa Senhora da Penha, na margem

direita do ribeirão Aricanduva, atrai fiéis de diversos pontos da cidade, especialmente em períodos de secas prolongadas e epidemias. Apenas a estrada cruzada por estes romeiros,

contudo, tem relativa mudança com a fixação de um pequeno comércio. A freguesia do

Brás permanece isolada e sem adensamentos humanos significativos.

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No século seguinte, as condições precárias de higiene e a constante falta de água do

núcleo levaram seus habitantes abastados aos arredores paulistanos, em busca de espaço e água em abundância para construir belas e confortáveis moradas, longe do foco das

epidemias que assolavam com freqüência a população. O isolamento da freguesia do Brás

constitui-lhe espaço ideal para o estabelecimento das antigas chácaras paulistanas

(Canabrava, 1953).

Os Registros de Terras destas propriedades (RT), em decorrência da Lei de Terras

(1850), evidenciam os mecanismos de referencialização utilizados por estes chacareiros. A formação de designativos espontâneos, a partir da descrição de elementos encontrados na

região, e a permanência de antigos topônimos de procedência indígena compõem a

toponímia da freguesia do Brás na década de 1850.

Reflexo da alteração do perfil comercial de São Paulo, a paisagem da São Paulo

Oreintal começa a ser alterada especialmente nos últimos anos da década de 1870. Nos

primeiros anos do oitocentismo, o café começa a substituir lentamente a produção de

açúcar, com diminutas, mas importantes, investidas desde o final do século anterior. Gera-se, primeiramente, enriquecimento no vale do Paraíba e, depois, no oeste paulista.

Até 1687, o café produzido na região Noroeste de São Paulo era escoado pelo

antigo caminho do Mar, que percorria parte da margem direita do rio Tamanduateí, um

lento e oneroso trajeto. A construção da Estrada de Ferro de Santos a Jundiaí (EFSJ), para atender à ascendente economia cafeeira paulistana, passa a atingir a margem esquerda do

rio Tamanduateí, cortando a cidade de São Paulo transversalmente, de Noroeste a Sudeste, alcançando a freguesia do Brás.

A Estrada de Ferro do Norte (EFN), posteriormente Estrada de Ferro Central do

Brasil (EFCB), parcialmente inaugurada em 1875, atravessava a leste a cidade de São

Paulo, em busca do vale do Paraíba, e, na cidade de Cachoeira (atual município de

Cachoeira Paulista), entroncava com outro caminho de ferro, anterior a este, rumo ao Rio de Janeiro. Diferente de outras ferrovias construídas no Brasil, o ramal paulista da EFCB

margeava o principal caminho da freguesia do Brás, a estrada da Penha.

A elaboração da Lei de Terras, que gerou os RTs, reflete este enriquecimento pela

produção cafeeira, por normalizar e incentivar o cultivo de terras não aproveitadas pela 4

venda de títulos de pequenos lotes pelas municipalidades, a fundação de povoações e, no

sentido de ampliar o espaço ocupado, a abertura de estradas e caminhos que ligassem

aglomerados humanos. Concomitantemente, questiona-se a criação de programas para o

incentivo à imigração para o Brasil.

Em geral, o estabelecimento das ferrovias levou ao desaparecimento de antigos

povoados, em virtude do desmantelamento do antigo sistema de transporte de carga e do

comércio ligado a serviços desta natureza. Novas rotas se organizam das quais as ferrovias funcionam como agentes orientadores. Este processo altera profundamente a paisagem

paulistana. Os tropeiros evitavam as várzeas, limitando-se, em geral, a cruzá-las. Os

financiadores de ferrovias, ao contrário, procuravam os terrenos mais baixos, sem a

necessidade de construção de pontes e patamares e, ao mesmo tempo, evitando

expropriações demais vultuosas.

Isso não ocorreu, contudo, na São Paulo Oriental, ao menos nas primeiras décadas,

já que os trilhos da EFCB acompanhavam a estrada da Penha até proximidades do ribeirão

Aricanduva. Além disso, as romarias eram normalmente feitas a pé, seguindo o andador

com a imagem do santo, e a ferrovia não atingiu a freguesia da Penha, localidade que atraía grande número de peregrinos. Ao mesmo tempo, as ferrovias iniciam um processo efetivo

de ligação física da freguesia do Brás com o núcleo, após três séculos de isolamento.

As solicitações por datas de terras aumentam consideravelmente quando os trilhos

começam a ser assentados na região. A grande mudança, contudo, diz respeito à fixação de novos moradores, especialmente a partir de meados da década de 1880. A fuga de antigos

proprietários abastados e a retalhação de suas chácaras para construção de bairros

populares alteram profundamente a paisagem.

Os indivíduos que passam a buscar a São Paulo Oriental são migrantes e imigrantes

pobres, especialmente italianos e portugueses e, em menor número, espanhóis e sírio-

libaneses. Modestas residências e numerosos cortiços se confundem, agora, em meio a

estabelecimentos fabris. Fatores de mútua atração trazem empreendedores e mantêm

imigrantes nesta região: para a instalação de fábricas, ainda de forma incipiente nos

primeiros anos do século XX, foram decisivos o transporte barato, os terrenos de baixo

valor e a construção da Hospedaria dos Imigrantes em 1886, na Moóca; e, para os

5

imigrantes, o fato de serem deixados em local onde possam residir por baixos aluguéis e

encontrar trabalho.

Em 1893, Elisée Réclus (1894, 371-2), após visitar os grandes monumentos, os

belos edifícios destinados à educação e à cultura, os prédios destinados ao comércio e os jardins, destinados ao lazer e os bairros elegantes a noroeste do núcleo, apresenta

observações não tão animadoras da região a leste da cidade, indicando as condições

insalubres das ruas e dos esgotos e o contraste entre a planície baixa e as fábricas. Poucas são as ações no sentido de sanar os problemas da freguesia do Brás.

Nos períodos de cheia, a várzea do Carmo continua a inundar-se. Na década de

1880, quando o aterramento da várzea é concluído, a solução deste problema é vista como

prioritária, evidenciando antes a segregação social, com o incentivo à permanência da

população pobre no local, do que a preocupação com a qualidade de vida na freguesia do

Brás. A canalização do ribeirão Tamanduateí, que garantiu o fim do espraiamento de suas

águas, ao menos na maior parte do ano, só foi concluída em 1914.

Caracteriza-se, assim, o segundo momento de formação de topônimos. Ainda na

década de 1870, tanto às ruas abertas pela Câmara Municipal, quanto àquelas demarcadas

em terrenos de antigos chacareiros, são atribuídos designativos sistemáticos. Inicialmente, nota-se que os nomes indicados não se fixam rapidamente e que, na maior parte dos casos, a escolha não é aleatória, mesmo no caso de homenagens. Em meados de 1880,

especialmente após a Proclamação da República, o engendramento de topônimos fixa-se na

escolha de determinada motivação toponímica e em verdadeiras homenagens a autoridades

políticas.

Desta forma, a toponímia torna-se, cada vez mais, uma ação política. A expansão

da cidade justifica, de certa maneira, a necessidade de regulamentação de logradouros

públicos. Em 14 de março de 1914, ano em que as obras da várzea do Carmo e do

Tamanduateí são concluídas, pelo Ato nº 671, todas as denominações de ruas relacionadas

na Planta da cidade de S. Paulo, levantada pelos engenheiros F. Costa e A. Cocci, em 1913, são oficializadas. O processo de denominar dezenas de ruas sem discriminá-las

torna-se rotineiro. A nomeação, a partir de então, passa a ter um caráter oficial que não impõe ao denominador qualquer relação ou mesmo conhecimento prévio do local a ser

nomeado.

6

Além disso, tal alteração na maneira de se designar acompanha a mudança da

função do espaço. Inicialmente, percebe-se uma estreita relação entre as poucas famílias proprietárias e a terra. No segundo momento, ocorre a chegada de novas famílias, que,

privadas da terra natal e relegadas à miséria, mantêm a identidade restrita à privacidade do lar.

A fixação da análise até o ano de 1914 também se baseia em outras alterações na

paisagem. Os problemas que afligem a população nos anos que seguem a 1920 possuem

natureza diversa da de outrora. O primeiro fator é que os primeiros imigrantes já possuem descendentes brasileiros, a maior parte bilíngüe. Esta nova geração vê no Brasil a sua única morada possível; diferente dos pais, eles trabalham não para fazer a América, mas conscientes das ínfimas possibilidades de conquistarem melhor qualidade de vida.

As grandes fábricas começam a se estabelecer em São Paulo, e seus proprietários

criam verdadeiros monopólios. Surgem movimentos grevistas baseados em correntes

filosóficas européias trazidas por imigrantes diferentes daqueles que chegaram nas décadas anteriores. Além disso, a gripe espanhola de 1918 dizimou grande parte da população e

ampliou medidas de segregação. O mesmo se verifica em relação a revoluções, que

marcam profundamente a população; na Revolução de 1924, por exemplo, muitos

morreram, e partes do Brás e Moóca precisaram ser reconstruídas (Reale: 1982, 37-40).

Além disso, têm-se o início da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, e a participação do

país de origem de muitos dos imigrantes do lado oposto ao do governo brasileiro, o que

gera novos embates sociais.

Com base neste cenário, analisaram-se as causas denominativas que levaram ao

engendramento de designativos para logradouros da freguesia do Brás. Após a

apresentação das teorias que antecedem e que norteiam este estudo e a metodologia

adotada para o levantamento e a análise do corpus, apresentam-se cinco capítulos de discussão propriamente dita do tema.

No Capítulo I, delineou-se uma breve descrição e análise dos primeiros

designativos atribuídos a São Paulo Oriental; os nomes fixados na freguesia do Brás

provenientes da prática tropeira também figuram neste capítulo.

7

No Capítulo II, a partir da apresentação dos limites estabelecidos para a freguesia

do Brás, em 1818, analisam-se as causas toponímicas atribuídas equivocadamente para este designativos e os hierotopônimos cristalizados na região, até a década de 1870.

No Capítulo II, dedica-se à discussão a respeito dos topônimos de procedência

indígena fixados na freguesia do Brás antes do desenvolvimento da toponímia sistemática e dos processos de translação toponímica.

No Capítulo IV, tem-se o estudo do processo de formação e de fixação de

topônimos descritivos; destaca-se, neste momento, a toponímia como testemunho de

mudanças na freguesia do Brás.

No Capítulo V, desenvolve-se a análise apenas de topônimos sistemáticos; busca-

se, especialmente, levantar as razões que ocasionaram a não atribuição de designativos

sistemáticos antes do final da década de 1870 e a formação exclusivamente de topônimos

sistemáticos a partir da década de 1890.

8

Fundamentação Teórica

O nome próprio passou a ser objeto de estudos científicos a partir das últimas

décadas do século XIX, na Europa. Os trabalhos desenvolvidos por Houzé, Quicherat,

Cocheris e Lognon demonstram a possibilidade de descobrir vestígios de antigas

populações por meio da recuperação de formas de língua ininteligíveis. Dentre estes

pesquisadores, ressalta-se, sobretudo, o nome de Auguste Lognon pela realização de um

estudo metódico e sistemático em Les Noms de lieux de la France, publicado,

postumamente, em 1920.

Em 1922, na École de Hautes Études, Albert Dauzat e uma equipe de jovens

estudantes retomam estes estudos e desenvolvem pesquisas tanto sobre nomes de lugares

quanto de pessoas, campo fértil para estudos das mudanças nas / das línguas. Em 1924,

Dauzat publica o manual Les Noms de lieux, no qual apresenta, ao mesmo tempo, a

Toponímia, a Oronímia e a Hidronímia da França e pontua conhecimentos intuídos em

décadas anteriores. No ano seguinte, Dauzat lança o livro intitulado Noms de personnes, no qual já se encontra referências aos nomes de lugares em relação aos nomes de pessoas:

Noms de lieux et noms de personnes ont toujours eu et ont encore entre eux des

rapports d’interdépendance, plus ou moins accussés suivant les époques. Ville ou

village tire souvent son appellation du nom de son fondateur ou du possesseur du

domaine autour duquel une agglomeration s’est formée plus tard. En revanche,

l’individu ou la famille est fréquemment dénomé d’après sa localité, sa province, sa

patrie d’origine, d’après sa propriété ou d’après telle particularité de son habitation.

(...)

Noms de personnes et noms de lieux offrent, à toute époque, les mêmes

phénomènes de cristallisation et de stérilisation linguistique, sur lesquelles nous

allons revenir. Mais les premiers, dans l’ensemble, sont beaucoup moins archaïques

que les seconds. L’aspect du sol, les montagnes, les rivières les rivages restent fixes

à travers deux ou trois millénaires d’histoire; la ville, le village même dure des

siècles. Au contraire, les genérations se succedent, rapides, favorisant les

changements et les disparitions de noms, surtout au cours des périodes troubles. Les

noms de famille n’ont été fixes qu’aux époques de forte organization politique et

sociale. Enfin les variations de la mode, si puissantes pour les noms de personnes,

n’ont guère de prise sur les noms de lieux. (Dauzat: 1946, 4-5)

9

Ao mesmo tempo, em diversos outros países, como Bélgica, Suíça, Itália,

Catalunha, Alemanha e Portugal, surgem grupos que se dedicam, num primeiro momento

regionalmente, à temática dos nomes. A reunião e a divulgação do material produzido só

foram possíveis em Paris, no ano de 1938, quando ocorre o 1º. Congresso Internacional de Toponímia e Antroponímia, com a presença de representantes de dezenove países.

A Revista Onomastica, fundada por Dauzat em 1947, mantém discussão

permanente entre os principais estudiosos da época. Os trabalhos publicados são de cunho filológico, pela apresentação de etimologias, as quais são cotejadas com acontecimentos

sociais e históricos ou relacionadas a características geográficas. É a partir deste tratamento dos nomes que se depreendem informações sobre a manutenção/permanência de nomes

encontrados e deslocamentos populacionais.

Deve-se o desenvolvimento da vertente filológica dos estudos onomásticos, em

grande parte, à consolidação da Geografia Lingüística, que ia de encontro ao modelo

positivista de neogramáticos e sua rígida teoria das leis fonéticas. Dauzat, que foi aluno do próprio Guilliéron, colabora na formalização da teoria das áreas e, muito do método

empregado e material recolhido para este fim, utilizou na elaboração de seus trabalhos

sobre toponímia. É o que se percebe, claramente, na obra intitulada Mélanges de

linguistique, que lhe oferecem alunos e amigos. Esta obra, publicada em 1951, é composta de trinta e oito artigos, sendo que vinte e oito tratam, especialmente, de assuntos ligados à Geografia Lingüística e seis, à Toponímia.

Em Portugal, destaca-se, especialmente, o nome de Leite de Vasconcelos (1931). O

volume III da reunião de seus textos, intitulada Opúsculos, é dedicado a Onomatologia, entendida como ramo da Glotologia e subdividida em três partes, assim definidas:

1. Antroponímia (expressão que empreguei a primeira vez em 1887, na Revista

Lusitana, I, 45), ou estudos de nomes individuais, com o dos sobrenomes e

apelidos;

2. Toponímia, ou estudo do nome de sítios, povoações, nações e bem assim de rios, montes, vales, etc. – isto é, os nomes geográficos;

3. Vários nomes próprios, isto é, que não estão contidos nas duas classes

precedentes, por exemplo, de entidades sobrenaturais, de astros, ventos, animais, de

coisas (espadas, navios, sinos). (Vasconcelos: 1931, 3-4)

10

Leite de Vasconcelos, desta forma, inicia seus estudos de nomes próprios antes da

formação do grupo coordenado por Dauzat e não restringi, como normalmente se faz, suas

pesquisas à Toponímia e à Antroponímia. Em sua vasta produção, salienta-se a divisão das pesquisas toponímicas em três temáticas (idem, 139-151):

* nomes de lugar, classificados por línguas, pelo mapeamento a procedência lingüística dos nomes;

* modos de formação toponímica ou a Gramática toponímica, pela análise da estrutura morfossintática dos designativos;

* categorias de nomes, segundo as causas que lhes deram origem, pela classificação dos nomes a partir dos motivos que levam a sua formação. A saber: nomes provenientes da

hidrografia, construções hidráulicas, etc; da agricultura; da meteorologia; da caça; de caminhos; de campos; da natureza do solo; da configuração do terreno; de rochas; da fauna; da flora; de construção civis e religiosas; da história; da indústria; de instituições sociais; do lume; da milícia; de nomes próprios de pessoas e alcunhas; de povoações ou arredores; da religião e congéneres; de cemitérios.

Na América, o processo de colonização e a diversidade de línguas indígenas

existentes levam à vinculação dos estudos onomásticos a diferentes áreas do conhecimento humano. No Brasil, mais especificamente, a difusão da língua tupi por bandeirantes e

jesuítas ao longo dos dois primeiros séculos de colônia portuguesa lega uma toponímia

repleta de indigenismos:

Recebiam, então, um nome tupí as regiões que se iam descobrindo e o conservavam

pelo tempo adeante, ainda que nellas jamais tivesse habitado uma tribu de raça tupí.

E assim é que, no Planalto Central, onde dominavam povos de outras raças, as

denominações dos valles, rios e montanhas e até das povoações são pela mór parte

da lingua geral.

Bem poucos, na verdade, são os nomes de procedencia tapuya, conservados na

Geographia Nacional, e estes mesmos nas regiões centraes, onde a catechese jámais

penetrou ou se iniciou muito tarde por motivos particulares que atrasaram a

conquista. (Sampaio: 1928, 5-6)

11

As primeiras tentativas de registrar as línguas indígenas foram realizadas por

missionários. Segundo Grasso (1958, 16),

A la vez hicieron un daño indirecto, pero que igualmente se habría produzido sin

ellos: interesados en generalizar algunas lenguas para facilitar la conversión de los

indígenas a la fe cristiana, hicieron desaparecer muchas otras, de las cuales apenas

si nos ha quedado el nombre, algunas veces ni eso, sin haberse recogido ningún

material de ellas, ni siquiera una palabra que nos pudieran prestar alguna luz para

clasificarlas.

Nos anos que seguem a Proclamação da Independência, em busca de uma

identidade nacional, elege-se o índio como símbolo da origem do povo brasileiro.

Multiplicam-se os topônimos e os antropônimos formados com termos de origem tupi. Mas

a língua geral1, pela qual o tupi colonial era conhecido, desaparece ao longo da primeira metade do século XVIII.

Surgem, então, estudiosos que realizam o levantamento de listas de nomes de

origem tupi, seguidos de seus possíveis significados, como subsídios à Literatura, à

História, à Geografia, à Botânica e à Etnografia e à Etnologia. Não se pode afirmar que se caracterizem estudos filológicos, dada a sua realização superficial e a falta de qualquer método.

A criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro possibilita a sistematização

destes trabalhos. Theodoro Sampaio destaca-se pela introdução de método de restauração,

à maneira portuguesa, da grafia original e pela elaboração de etimologias para diversos

topônimos brasileiros, a partir das quais grupos de investigação histórica de topônimos de procedência tupi são formados. Tais estudos, discutidos em reuniões periódicas,

encontram-se impressos na Revista deste Instituto.

É a Sampaio (1928: 129) que se deve, pelo cotejamento de nomes em várias regiões

do país, a identificação de diferentes dialetos por meio de variações vocabulares, sobretudo de ordem morfológica, e a afirmação categórica do caráter descritivo da toponímia de

origem tupi, como impressões nítidas reaes, vivas da percepção do acidente geográfico a ser nomeado.

1 Ver, especialmente, Dick, A língua de São Paulo. In Revista da USP, São Paulo, v. 63, n. 1, p. 36-63, 2004.

12

O estudo de línguas indígenas vivas, até então restrito à análise documental do tupi

colonial, só se concretiza com a publicação do livro Toponímia brasílica, de Armando Levy Cardoso, em 1960. Como integrante da Comissão Brasileira de Limites do Setor

Norte, é enviado para a fronteira da Guiana Britânica, onde se detém no linguajar e na

toponímia de diversos grupos indígenas que encontra (Drumond: 1965, 15).

Neste trabalho, Cardoso (1961a) se propõe a identificar e mapear os lugares pouco

conhecidos da Amazônia pelo estudo etimológico de designativos caribes e aruacos e, conseqüentemente, aponta diversos dialetos destas famílias lingüísticas. Afirma, contudo, que não o faz sistematicamente e que esta modalidade de pesquisa não era realizada no

Brasil. No ano seguinte, conclui a obra intitulada Amerigenismos, na qual se dedica ao estudo de vocábulos que foram incorporados à nossa língua (Cardoso: 1961b, 29).

Ainda na década de 1960, o prof. Carlos Drumond (1965) apresenta, em sua Livre-

Docência, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da Universidade de São Paulo, o

estudo de outra língua indígena viva e de origem não tupi, o bororo. Este trabalho torna-se marco por condenar, em âmbito acadêmico, a realização de listas de palavras de origem indígena, acompanhadas de um provável significado, simplesmente a título de curiosidade.

Fixou-se, assim, a necessidade de elaboração de método científico para os estudos

toponímicos, adequado à realidade lingüística do Brasil, e seu emprego de forma

sistematizada.

Ao mesmo tempo, a fim de colaborar na formação de técnicos em cartografia para o

mapeamento das terras brasileiras, realizado pelo Exército, o Major Sebastião da Silva

Furtado (1960) apresenta obra intitulada A Toponímia e a Cartografia, cuja principal contribuição diz respeito à reflexão acerca da estrutura dos topônimos:

O topônimo compõe-se duma parte genérica e doutra especifica. Exemplos: Rio

Amazonas, Rio Paraná, Serra Geral, Serra do Mar, Lagoa dos Patos, Lagoa Mirim,

etc., nos quais rio, serra e lagoa constituem o gênero geográfico, ao qual

corresponde o têrmo geográfico; e, Amazonas, Paraná, Geral, do Mar, dos Patos e Mirim, a parte específica, que precisa a espécie do lugar ou acidente nomeado.

Uma – o gênero –, determina-o; a outra – a espécie –, qualifica-o. (Furtado: 1960,

18)

13

Esta subdivisão deve-se a própria perspectiva dos cartógrafos que utilizam, em

geral, símbolos para a identificação daquilo que Furtado chama gênero geográfico e reservam a transcrição à espécie.

Por outro lado, Furtado restringi o restante desta obra a reproduzir outros estudos.

Desta forma, a partir de Leite de Vasconcelos, apresenta exemplos de topônimos

brasileiros aplicados à classificação por línguas, por modos de formação toponímica e as causas que lhe deram origem (idem, 15-8) e, pelos estudos de línguas indígenas desenvolvidos nos anos anteriores, induz a busca desenfreada por topônimos de

procedência tupi, a fim de justificar os designativos como descrições dos elementos

geográficos que nomeiam:

Como corruptela e interpretação deploráveis, Almeida2 apresenta, entre muitos

casos semelhantes, em São Paulo, o topônimo Matias Peres, que designa uma das

corredeiras do rio Tietê. Diz êle tratar-se duma corrupção de Mbo-ti-yo-api-yéré, alusivo a ondas e redemoinhos. (idem, 56)

Apresenta, a seguir, o apontamento realizado nos relatos monçoeiros de Teotônio

Juzarte e Lacerda de Almeida, segundo os quais o topônimo Matias Peres é referência a

indivíduo que morreu nesta corredeira. Conclui, entretanto, pela explicação de Almeida, já que o significado indígena é claro (idem, 57).

Assim, a reivindicação de Drumond só é completamente atendida em 1980, com a

elaboração da tese de doutoramento de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick,

apresentada ao Departamento de Lingüística e Letras Orientais da Universidade de São

Paulo.

Neste trabalho, Dick (1990) indica uma nova maneira de analisar a toponímia,

então apenas restrita à reconstituição de etimologias ou a serviço do mapeamento de terras.

A Toponímia, assim como a Antroponímia, passa a ser entendida pelo seu papel nas

comunidades, enquanto modo de referencializar e singularizar aquilo que se designa,

conferindo-lhe características específicas.

2 Cf. Almeida, João Mendes de. Dicionario Geographico da Provincia de São Paulo, 1902.

14

A toponímia, em especial, é analisada como crônica de um povo, reminiscência de

um passado talvez esquecido e a sua presença dinamizada. Assim, como verdadeiros

“testemunhos históricos” de fatos e ocorrências registrados nos mais diversos momentos da vida de uma população, os nomes são vistos por aquilo que transcende ao próprio ato da

nomeação.

Iconicamente simbólico, vai permitir, portanto, através de uma reconstituição de

suas características imanentes, a captação de elementos os mais diferenciadores da

própria mentalidade do homem, em sua época e em seu tempo, em face das

condições ambientais de vida, senão totalmente, pelo menos de forma considerável.

(Dick: 1990, IV)

Dentre as questões levantadas neste trabalho, ressaltam-se a contestação da

ausência de autonomia dos estudos toponímicos brasileiros, fundamental para a criação da subárea, em nível de graduação – Toponímia Geral e do Brasil – e do respectivo curso de

pós-graduação; a fixação de princípios teóricos dentro da área de Lingüística e de um

rigoroso método de trabalho científico; e a divisão do plano de investigação em duas

modalidades: sincrônica / diacrônica.

O topônimo, não mais visto como simples fato geográfico ou oficial, passa a ser

analisado em sua relação binômica. Dick (1992, 10), neste sentido, revê a terminologia

adotada para os elementos que o compõem:

Dessa simbiose, depreendem-se dois dados básicos, um, que se convencionou

denominar termo ou elemento genérico, relativo a entidade geográfica que irá

receber a denominação, e o outro, o elemento ou termo específico, ou topônimo

propriamente dito, que particularizará a noção espacial, identificando-a e

singularizando-a dentre outras semelhantes. Atuam ambos no sintagma toponímico,

de forma justaposta (rio das Amazonas) ou aglutinada (Parauna, "rio negro"),

conforme, portanto, a natureza da língua que os inscreve.

Sob a perspectiva sincrônica dos estudos toponímicos, é criado o Projeto ATESP –

Atlas Toponímico do Estado de São Paulo –, coordenado por Dick. Como uma pesquisa de

caráter dialetológico, o objetivo central é o de remapear este Estado de acordo com as

15

diferentes línguas e suas respectivas variantes e verificar campos semânticos de motivação dos designativos, e não segundo suas fronteiras políticas.

A realização deste Projeto, cujo banco de dados consta de mais de 41.000 nomes,

só é possível graças à proposição, em 1980, de categorias terminológicas de motivações

toponímicas – as taxinomias, o que permite inferir a freqüência de determinados modelos denominativos (....), o perfil denominativo do lugar, o padrão de nomes utilizados e a ideologia da sociedade (Dick: 1998b, 104).

A- Taxionomias de Natureza Física

1- Astrotopônimos: topônimos relativos aos corpos celestes em geral. Ex: Estrela (AH BA); rio da Estrela (ES); Saturno(AH ES).

2- Cardinotopônimos: topônimos relativos às posições geográficas em geral. Ex: praia do Leste (PR); serra do Norte (MT); Entre-Rios (AH AM); ribeirão ao Norte (MG); lagoa do Sul (SC).

3- Cromotopônimos: topônimos relativos à escala cromática. Ex: rio Branco (AM); rio Negro (AM); rio Pardo (SP); serra Azul (SP).

4- Dimensiotopônimos: topônimos relativos às características dimensionais dos acidentes geográficos, como extensão, comprimento, largura, grossura, espessura, altura, profundidade. Ex: ilha Comprida (AM); serra Curta (BA); Larga (AH GO); riacho Grosso (CE); morro Alto (GO); córrego Fundo (MT); igarapé Profundo (RO).

5- Fitotopônimos: topônimos de índole vegetal, espontânea, em sua individualidade (arroio Pinheiro, RS), em conjuntos da mesma espécie (Pinheiral, AH RJ), ou de espécies diferentes (morro da Mata, MT); Caatinga (AH BA); serra da Caatinga (RN), além de formações não

espontâneas individuais (ribeirão Café, ES) e em conjunto (Cafezal, AH PA).

6- Geomorfotopônimos: topônimos relativos às formas topográficas: elevações ( montanha: Montanhas, AH RN; monte: Monte Alto, AH SP; morro: Morro Azul, AH RS; colina: Colinas, AH

GO; coxilha: Coxilha, AH RS) e depressões do terreno ( vale: Vale Fundo, AH HG; baixada: Baixadão, AH MT) e as formações litorâneas ( costa: Costa Rica, AH MT; cabo: Cabo Frio, AH

RJ; angra: Angra dos Reis, AH RJ; ilha: Ilhabela, AH SP; porto: Porto Velho, AH RO).

7- Hidrotopônimos: topônimos resultantes de acidentes hidrográficos, em geral. Ex: água: serra das Águas (GO), Água Boa (AH MG); rio: Riozinho (AH PI); Rio Preto (AH SP); córrego: Córrego Novo (AH MO); ribeirão: Ribeirão Preto (AH SP); braço: Braço do Norte (AH BA); foz: foz do Riozinho (AH AM).

8- Litotopônimos: topônimos de índole mineral, relativos também à constituição do solo, representados por indivíduos ( barro: lagoa do Barro (BA); barreiro: córrego do Barreiro (AM); tijuco: Tijuco Preto (AH SP); ouro: arroio do Ouro (RS), conjunto da mesma espécie (córrego Tijucal (SP)), ou de espécies diferentes (Minas Gerais AH MG); Cristália (AH MG), Pedreiras (AH

MG)).

9- Meteorotopônimos: topônimos relativos a fenômenos atmosféricos. Ex: vento: serra do Vento (PB); Ventania (AH SP); Botucatu (AH SP); neve: riacho das Neves (BA); chuva: cachoeira da Chuva (RO); cachoeira do Chuvisco (MT); Chuva (AH MG); trovão:Trovão (AH AM); cachoeira Trovoada (PA).

10- Morfotopônimos: topônimos que refletem o sentido de forma geométrica. Ex: Curva Grande (AH AM); Ilha Quadrada (RS); lagoa Redonda (BA); Triângulo (AH MT).

11- Zootopônimos: topônimos de índole animal, representados por indivíduos domésticos ( boi: rio do Boi (MG)) e não domésticos ( onça: lagoa da Onça (RJ)) e da mesma espécie em grupos ( boiada: ribeirão da Boiada (SP); Vacaria (AH RS); Tapiratiba (AH SP)).

16

B- Taxionomias de Natureza Antropo-Cultural

1- Animotopônimos ou Nootopônimos: topônimos relativos à vida psíquica, à cultura espiritual, abrangendo a todos os produtos do psiquismo humano, cuja matéria prima fundamental, e em seu aspecto mais importante como fato cultural, não pertence à cultura física. Ex: vitória: Vitória (AH

CE); triunfo: Triunfo (AH AC); saudade: cachoeira da Saudade (MT); belo: Belo Campo (AH

BA); feio: rio Feio (SP).

2- Antropotopônimos: topônimos relativos aos nomes próprios individuais. Ex: prenome: Abel (AH

MG); Benedito (igarapé, MT); Fátima (AH MT); hipocorístico: Bentinho (AH MG); Chiquita (ilha MT); Nico (Igarapé, AC); prenome + alcunha: Fernão Velho (AH AL); Joaquim Preto (igarapé do, PA); Jorge Pequeno (ribeirão MG); Maria Magra (serra da, MG); Pedro Ligeiro (AH GO); apelidos de família: Abreu (AH RS); Barbosa (arroio RS); Silva (AH PA); Tavares (rio SP); prenome +

apelido de família: Antonio Amaral (AH MG); Francisco Dantas (AH RN); Manuel Alves (rio GO).

3- Axiotopônimos: topônimos relativos aos títulos e dignidades de que se fazem acompanhar os nomes próprios individuais. Ex Presidente Prudente (AH SP); Doutor Pedrinho (AH SC); Duque de Caxias(AH RJ).

4- Corotopônimos: topônimos relativos aos nomes de cidades, países, estados, regiões e continentes. Ex: Brasil (AH AM); Europa (AH AC), Amazonas (AH BA); Uruguai (AH MG).

5- Cronotopônimos: topônimos que encerram indicadores cronológicos, representados, em Toponímia, pelos adjetivos novo/ nova, velho/ velha. Velha Boipeba (AH BA); rio Novo Mundo (GO); Nova Viçosa (AH BA); Velha e Nova Emas (AH SP).

6- Ecotopônimos: topônimos relativos às habitações de um modo geral. Ex: Casa da Telha (AH

BA); Ocauçu (AH SP); Sobrado (AH BA).

7- Ergotopônimos: topônimos relativos aos elementos da cultura material. Ex.: flecha: córrego da Flecha (MT); jangada: Jangada (AH MT); relógio: Relógio (AH PR).

8- Etnotopônimos: topônimos referentes aos elementos étnicos, isolados ou não (povos, tribos, castas). Ex: Guarani (AH PE); Ilha do Francês (RJ); rio Xavante (MT); Chavantes (AH SP); Árabe (arroio, RS).

9- Dirrematotopônimos: topônimos constituídos por frases ou enunciados lingüísticos. Ex: Há Mais Tempo (AH MA); Valha-me Deus (AH MA); Vai Quem Quer (Igarapé, AM); Deus me Livre (AH

BA).

10- Hierotopônimos: topônimos relativos aos nomes sagrados de diferentes crenças: cristã, hebraica, maometana, etc. Ex: Cristo Rei (AH PR); Jesus (rio GO); Alá (lago AM); Nossa Senhora da Glória (AH AM); às efemérides religiosas: Natividade (AH GO); Natal (AH AC); às associações religiosas: Cruz de Malta (AH SC); aos locais de culto: igreja: serra da Igreja (PR); capela: Capela (AH AL); Capelazinha (AH MG). Os hierotopônimos podem apresentar, ainda, duas subdivisões: a- hagiotopônimos: topônimos relativos aos santos e santas do hagiológio romano: São Paulo (AH SP); Santa Tereza (AH GO); Santana da Boa Vista (AH RS); b-mitotopônimos: topônimos relativos às entidades mitológicas. Ex: saci: ribeirão do Saci (ES); curupira: lago Curupira (AM); jurupari: Jurupari (AH AM); anhangá: Anhangá (AH BA).

11- Historiotopônimos: topônimos relativos aos movimentos de cunho histórico-social e aos seus membros, assim como as datas correspondentes. Ex: Independência (AH AC); rio 7 de Setembro (MT); Inconfidência (AH RJ); Inconfidentes (AH MG); rua Vinte e Um de Abril (SP).

12- Hodotopônimos (ou Odotopônimos): topônimos relativos às vias de comunicação rural ou urbana. Ex: Estradas (AH AM); Avenida (AH BA); córrego do Atalho (GO); Travessa (AH BA); Rua de Palha (AH BA); Ladeira (AH MA).

13- Numerotopônimos: topônimos relativos aos adjetivos numerais. Ex: Duas Barras (AH BA); Duas Pontes (AH RO); Três Coroas (AH RS).

14- Poliotopônimos: topônimos constituídos pelos vocábulos vila, aldeia, cidade, povoação, arraial. Ex: rio da Cidade (RJ); serra da Aldeia (PB); Arraial (AH BA); Vila dos Anjos (AH MG); Povoação (AH PI); Tabapuã (AH SP).

15- Sociotopônimos: topônimos relativos às atividades profissionais, aos locais de trabalho e aos pontos de encontro dos membros de uma comunidade (largo, páteo, praça). Ex: Sapateiro (serra do, 17

SP); Pescador (AH MG); Tropeiros (serra dos, MG ); Engenho Novo (córrego, MG); Oficina (AH

MG); Pracinha (AH SP).

16- Somatotopônimos: topônimos empregados em relação metafórica a partes do corpo humano ou do animal. Ex: Cotovel (AH MG); Pé de Boi (AH SE); Pé de Galinha (AH BA); Mão Esquerda (rio da, AL); Mão Quebrada (lagoa da, PI); Dedo (Igarapé do, RR); Dedo Cortado (córrego do, GO); Dedo grosso (AH SC). (Dick: 1992, 31-4)

Nota-se, portanto, que a classificação do sintagma toponímico e das taxionomias

atende a aspectos lingüísticos e terminológicos, não claramente definidos na obras

anteriormente indicadas.

É a partir da perspectiva diacrônica que se analisam os processos de formação e de

ressemantização dos nomes e justificam-se formas denominativas cujo significado tornou-

se opaco. O topônimo, desta forma, é entendido não apenas pelo seu resultado final, como termo cristalizado, mas pelo seu processo de engendramento. Vinculados aos mesmos

princípios teóricos do ATESP, dois novos projetos são propostos nesta perspectiva de

estudo toponímico: o Caminho das Águas, Povos dos Rios: Uma Visão Etnolingüística da

Toponímia Brasileira, que visa, especialmente, ao resgate etnolingüístico seguindo o

percurso dos hidrônimos – “Águas e rios, religião e fé, desde o início da ocupação da terra, consubstanciam os mitos dos homens” (Dick: 2001, 153) – e o Atlas das Cidades (Dick:

1992).

O primeiro trabalho no âmbito do Atlas Toponímico das Cidades foi a tese de

Livre-Docência de Dick (1996), um estudo do centro da cidade de São Paulo, entre os anos de 1554 e 1897, proporcionando modelo e método ainda mais específicos para a toponímia

urbana. A realização desta pesquisa rompeu tabus até então existentes. Primeiramente,

porque se acreditava na impossibilidade de se desenvolver, em âmbito acadêmico,

trabalhos que prioritariamente versassem sobre toponímia urbana. Antes se contemplava

somente os acidentes geográficos físicos, e os antrópicos eram tratados esporadicamente: alguns poucos em obras que abordavam a toponímia de forma geral ou para demonstração

de processos de translação toponímica (Dick: 2001), ressaltando a forte função referencial de cursos d’água e elevações e depressões do terreno no momento do estabelecimento de

novos aglomerados humanos.

Além disto, este trabalho foi estabelecido, principalmente, com base em

documentação da época – Atas da Câmara da Vila / Cidade de São Paulo – e não apenas na cartografia. A leitura desta documentação permitiu a reconstrução da toponímia desde

18

os primeiros anos da tímida Piratininga, encerrada no alto do planalto e vulnerável a

ataques indígenas, até vésperas da entrada do século XX, expandida em diferentes

direções, muito além das terras altas.

Assim, Dick (1996, 14-15) relaciona o incipiente processo denominativo à atração

que o sertão exercia sobre os moradores de Piratininga e a estruturação da toponímia do

planalto ao declínio do ciclo bandeirante. No primeiro caso, correspondente aos séculos

XVI e XVII, o despovoamento da vila implica em retrocesso desenvolvimentista [e] torna desnecessário o aparecimento de mais nomes. Num segundo momento, a partir do século XVIII, a manutenção da população proporciona a consolidação de atividades

administrativas no núcleo e, consequentemente, passa a se estruturar melhor e em maior quantidade de nomes, o que vai se consolidar no século XIX.

O reconhecimento do valor teórico e metodológico desta tese na recuperação das

diversas camadas denominativas e do percurso gerativo da criação do nome abre caminhos

para a realização de novas pesquisas em toponímia urbana.

Maria da Penha Marinovic Doro (2000) apresenta em sua Dissertação de Mestrado,

em 2000, estudo da toponímia urbana de um pequeno bairro da zona Leste de São Paulo: a

Vila Nova Savóia. Loteado por Jean Jules Arthaud Berthet, um francês positivista, este

terreno foi nomeado dentro dos princípios filosóficos seguidos pelo proprietário e dentro do contexto de urbanização e industrialização vivenciado nesta região nas primeiras

décadas do século XX.

Amparado teoricamente pela Antropologia urbana, o corpus deste trabalho foi

construído pela análise de documentos oficiais, mapas e, sobretudo, relatos de antigos

moradores, revelando as intensas relações existentes entre o(s) nomeador(es), o espaço a ser nomeado e a linguagem.

Retomando a temática de estudo da região central da cidade de São Paulo, no ano

seguinte, Ricardo Vianna Van Acker (2001) apresenta em sua Dissertação de Mestrado,

intitulada Os signos do centro nas fotografias do triângulo paulistano na primeira década do século XX, análise das três principais ruas comerciais paulistanas por meio de fotos.

19

A elaboração de tais trabalhos demanda larga consulta a documentos históricos. O

objetivo central é recuperar motivações e as formas lingüísticas originais e acompanhar os designativos ao longo de tempo em que se mantêm atualizados na comunidade da qual

fazem parte, localizando as diferentes forma de referencializar o espaço em diferentes

épocas. Verifica-se, assim, todo o processo de seguidas ressemantizações do nome próprio.

Neste sentido, entende-se motivação toponímica como a divisão de designativos

por campos lexicais, correspondentes às taxionomias, e causa denominativa, em referência as razões que levam ao engendramento dos nomes. A primeira classificação dos processos

de formação de topônimos foi realizada por Dick, em 1995:

As recorrências lingüísticas presentes nos topônimos, evidenciam, como já se fez

sentir, os dois mecanismos ordenadores da nomenclatura em qualquer terreno, ou

seja, a espontaneidade e a sistematização dos batismos. No primeiro caso, a

expressividade das formas de linguagem corresponde à adequada representação

simbólica dos lugares pelos seus constituintes imediatos (cor, forma, grandeza,

etc.); as ocorrências toponímicas prendem-se aos campos dialetológicos

reconhecidos na região em exame e qualquer análise pretendida deveria recobrir a

verificação das fronteiras lingüísticas definidas pelos topônimos, assim como sua

integração nos valores culturais do grupo, isto porque se trata do corpus

nomenclatural mais antigo. Os topônimos sistemáticos são resultados de uma

política administrativa de nomeação, do agir consciente da comunidade ao eleger

determinados padrões de designação como os seus paradigmas; geralmente se opõe

aos precedentes pelo aspecto dedicatorio, devocional ou comemorativo de fatos ou

costumes; homenageiam pessoas e reverenciam momentos de fé; podem até ser

bajulatórios em sua reverência, conforme o momento político em que foram

gerados; de qualquer forma, são interacionais em sua pontuação, muito embora

cheguem a constituir áreas lexicais características do ponto de vista da toponímia.

(Dick: 1995, 63-4)

Reconhece-se, neste contexto, o engendramento de designativos espontâneos e

sistemáticos a partir das motivações toponímicas. A análise da documentação que compõe o corpus desta Tese, ao contrário, possibilita a verificação das motivações toponímicas em função da causa denominativa.

20

Observa-se, igualmente, que a referencialização do espaço por meio da indicação

de alguns dos elementos existentes recobre-se de intencionalidade, base para

engendramento de nomes. Zelinsk (2002) chama a atenção dos pesquisadores para

questões que vem ao encontro destas constatações. Primeiramente, problematiza os

conceitos daquilo que, equivocadamente, reconhece-se como nomes próprios, já que o estudo de topônimos, sobretudo no plano diacrônico, leva à constatação de uma série de

exemplos que caem no limbo entre substantivos comuns e próprios:

the obsession with achieving a rigorous definition of names, staking out that elusive

boundary between proper and common nouns. (...). Much of it is highly technical in

character, and after several decadades of intense cerebration, the pursuers of this

holy grail of an ironclad definition seem no closer to the goal than they were at the

outset. (Zelinsky: 2002, 244-5)

Zelinsky, então, considera como objeto de estudo de todo tipo de nomeação, de

marcas registradas a passos de dança e propõe o levantamento exaustivo de nomes-tipos, a fim de formular uma definição mais precisa do que verdadeiramente vêm a constituir os

substantivos próprios.