A relação entre sensação e produção de conhecimento na obra de Wilhelm Reich por Ailton Bedani - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE PSICOLOGIA

AILTON BEDANI

A RELAÇÃO ENTRE SENSAÇÃO E PRODUÇÃO DE

CONHECIMENTO NA OBRA DE WILHELM REICH

São Paulo

2013

AILTON BEDANI

A RELAÇÃO ENTRE SENSAÇÃO E PRODUÇÃO DE

CONHECIMENTO NA OBRA DE WILHELM REICH

(Versão original)

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da

Universidade de São Paulo como parte dos

requisitos para a obtenção do título de Doutor

em Psicologia.

Área de Concentração: Psicologia Escolar e do

Desenvolvimento Humano.

Orientador: Prof. Dr. Paulo Albertini.

São Paulo

2013

AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO,

POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO,

PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

Catalogação na publicação

Biblioteca Dante Moreira Leite

Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

Bedani, Ailton.

A relação entre sensação e produção de conhecimento na

obra de Wilhelm Reich / Ailton Bedani; orientador Paulo

Albertini. -- São Paulo, 2013.

212 f.

Tese (Doutorado – Programa de Pós-Graduação em

Psicologia. Área de Concentração: Psicologia Escolar e do

Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia da

Universidade de São Paulo.

1. Reich, Wilhelm, 1897-1957 2. Sensação 3. Percepção

4. Epistemologia I. Título.

RC506

FOLHA DE APROVAÇÃO

Ailton Bedani

“A relação entre sensação e produção de conhecimento na obra de

Wilhelm Reich”

The relation between sensation and knowledge production in the work of

Wilhelm Reich

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade

de São Paulo como parte dos requisitos para a obtenção do

título de Doutor em Psicologia.

Área de Concentração: Psicologia Escolar e do

Desenvolvimento Humano.

Aprovado em: ____/____/______

Banca Examinadora

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _____________________________________________________________

Assinatura: _____________________________________________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _____________________________________________________________

Assinatura: _____________________________________________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _____________________________________________________________

Assinatura: _____________________________________________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _____________________________________________________________

Assinatura: _____________________________________________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _____________________________________________________________

Assinatura: _____________________________________________________________

DEDICATÓRIA

À Nancy Romanelli,

pelo companheirismo intenso, fortalecedor e bem-humorado!

E pela criteriosa leitura desta tese e preciosos comentários.

AGRADECIMENTOS

É muito reconfortante agradecer por escrito às pessoas que contribuíram

para este trabalho, embora eu não tenha certeza de que a listagem abaixo faça jus

a todos que, de uma maneira ou de outra, acompanharam o desenvolvimento da

pesquisa.

É com esse sentimento de dúvida, mas também com profunda gratidão, que

eu gostaria de prestar meus agradecimentos:

Ao prof. Dr. Paulo Albertini, orientador de minha dissertação de mestrado e

desta tese, pelo respeito aos caminhos nem sempre lineares da pesquisa e pelas

intervenções certeiras. E, uma vez mais, pela ousadia de ter aberto um inovador

espaço acadêmico de interlocução com o pensamento reichiano.

Aos profs. Drs. Iray Carone e Claudio Mello Wagner, pela cuidadosa e

estimulante apreciação deste trabalho por ocasião do Exame de Qualificação.

Ao Jovino Camargo Junior e à Márcia D’Aglio Foss ( in memoriam), por

terem compartilhado comigo suas inspiradoras reflexões sobre o papel da sensação

na obra reichiana.

Aos participantes do Grupo de Aprofundamento em Teoria da Corporalidade

— André Luiz Arouca, José Luís Schifferli Lopes, Marcia Walter Haro e Olinda

Yoshiko Miura —, que acompanharam de perto, com acolhedor afeto, o gradual

desenvolvimento desta pesquisa, dando sugestões fundamentais e não temendo

embarcar nas mais insólitas viagens teóricas.

À Claudia Guzzardi Altieri e ao Guilherme Luz Fenerich, pela leitura atenta

e instigantes comentários.

Ao Yevaldo Lemos Pereira, pela generosidade a todo o momento.

À Paula Fábrio, pelas pertinentes dicas sobre a língua pátria.

À Joyce Romanelli, pelo incrível suporte logístico.

Ao meu filho, Icaro, pela “força” e torcida.

Aos meus pais, Lourdes e Luciano, pelo apoio contínuo.

“A liberdade que às vezes sentia não vinha de reflexões nítidas, mas

de um estado como feito de percepções por demais orgânicas para

serem formuladas em pensamentos. Às vezes no fundo da sensação

tremulava uma ideia que lhe dava leve consciência [...].”

(Clarice Lispector, 1943 – Perto do Coração Selvagem)

“Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz”

[(Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), 1925 - “O guardador de rebanhos”]

RESUMO

BEDANI, A. A relação entre sensação e produção de conhecimento na obra de

Wilhelm Reich. 2013. 212 f. Tese (Doutorado) Instituto de Psicologia,

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

Esta tese examina os estudos clínico-terapêuticos, laboratoriais e epistemológicos

que Wilhelm Reich endereçou, no transcurso de sua obra, ao tema da sensação.

Consultaram-se as seguintes fontes de dados: a) artigos, livros, correspondências,

diários e transcrições de uma entrevista e de algumas conferências de Reich; b)

trabalhos de comentadores da produção reichiana; c) textos de autores que

marcaram significativamente as pesquisas de Reich sobre a apreensão sensorial, em

particular, Friedrich A. Lange, Henri Bergson, Sigmund Freud e Richard Semon; d)

estudos nos campos da História da Ciência e Filosofia da Ciência que permitiram

resgatar linhas de investigação e posicionamentos epistemológicos que inspiraram

as reflexões reichianas sobre a sensação. Procurou-se apontar quatro áreas de

pesquisa que contribuíram para os estudos sensorialistas de Reich: as ciências

biológicas e médicas (tais como a Protozoologia e Neurologia), o conhecimento

psicológico (particularmente a Psicanálise), uma disciplina fundada pelo próprio

autor (a Orgonomia) e a Teoria do Conhecimento (em especial, certa tradição

neokantiana). Examinando-se as incursões de Reich por essas áreas, buscou-se

identificar os estudiosos e correntes de pensamento que o estimularam em suas

pesquisas sobre a dimensão sensorial e examinar as proposições estritamente

reichianas — de teor clínico, experimental e epistemológico — a respeito da

sensação. Observou-se que Reich partilhou da concepção de que uma

sensorialidade básica se manifestaria em todos os seres vivos. Resgatou-se a tese

reichiana de que níveis perceptivos elementares estariam diretamente associados,

em organismos vivos, a uma singular força natural (a energia orgone), que o autor

julgava ter descoberto e objetivado. Analisou-se a asserção de Reich de que, na

produção humana de conhecimento, certas funções perceptivas rudimentares

(filogeneticamente arcaicas) seriam continuamente modeladas pela estrutura de

caráter (instância construída na relação dialética indivíduo-sociedade). Constatou-

se, por fim, que Reich, transitando por diferentes setores do saber e perseguindo

rotas investigativas originais, procurou articular dois aspectos extremos do

fenômeno sensorial: a sensação como propriedade básica da matéria viva e como

ingrediente central da produção humana de conhecimento.

Palavras-chave: Reich, Wilhelm, 1897-1957. Sensação. Percepção. Epistemologia.

ABSTRACT

BEDANI, A. The relation between sensation and knowledge production in the work

of Wilhelm Reich. 2013. 212 f. Tese (Doutorado) Instituto de Psicologia,

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

This thesis examines the laboratory, clinical therapeutic and epistemological

studies that Wilhelm Reich, in the course of his work, dedicated to the subject of

sensation. The following resources were consulted: a) articles, books,

correspondences, diaries and transcriptions of an interview and of some of Reich’s

conferences; b) works of Reich’s commentators; c) papers from authors that have

significantly influenced Reich’s research on sensorial apprehension, particularly

Friedrich A. Lange, Henri Bergson, Sigmund Freud, and Richard Semon; d) studies in

the fields of History of Science and Philosophy of Science that allowed the recovery

of lines of investigation and epistemological positionings that have inspired the

reichian reflexions on sensation. We tried to indicate four fields of research that

have contributed to Reich’s sensorial studies: the biological and medical sciences

(such as the Protozoology and Neurology), the psychological knowledge

(particularly the Psychoanalysis), a discipline created by the author himself (the

Orgonomy), and the Theory of Knowledge (specially certain Neokantian tradition).

Examining Reich’s investigations on these fields, we tried to identify the scholars

and currents of thought that have stimulated him in his research on the sensorial

dimension and we tried to examine the strictly reichian propositions – of clinical,

experimental and epistemological content – regarding sensation. It was observed

that Reich shared the notion that a basic sensoriality would manifest in all living

beings. We recovered the reichian thesis that elementary perceptive levels would

be directly associated, in living organisms, to a singular natural force (the orgone

energy), which the author believed to have discovered and objectified. We

analyzed Reich’s assertion that in human knowledge production, certain

rudimentary perceptive functions (phylogenetically archaic) would be continuously

modeled by the structure of character (a sphere built in the dialectic relationship

individual-society). Finally, it was verified that Reich, transiting through different

sectors of wisdom and chasing original investigative routes, tried to articulate two

extreme aspects of the sensorial phenomenon: the sensation as a basic property of

the living matter, and as a central ingredient of the human production of

knowledge.

Keywords: Reich, Wilhelm, 1897-1957. Sensation. Perception. Epistemology.

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO................................................................ 11

2

SENSAÇÃO E MOTILIDADE............................................. 19

2.1 Gelatina viva................................................................

22

2.2 Energia primordial........................................................ 27

2.3 Função protoplasmática................................................ 52

2.4 Motilidade vegetativa...................................................

57

2.4.1 Crítica ao centralismo cerebral..................................... 59

2.4.2 Anterioridade filogenética da função vegetativa........... 68

2.4.3 Vitalidade vegetativa e dimensão sócio-histórica........... 72

2.5 Couraça humana. ......................................................... 74

2.5.1 Encouraçamento caracterial.......................................... 75

2.5.2 Encouraçamento somático............................................

80

2.6 Sensações de corrente.................................................. 84

2.7 Considerações gerais..................................................... 92

3

SENSAÇÃO E EXCITAÇÃO.............................................. 95

3.1 Psicologia como ciência natural.................................... 97

3.1.1 Psicologia sem alma...................................................... 98

3.1.2 Energia e psiquismo...................................................... 104

3.1.3 Quantitativo e qualitativo............................................. 108

3.1.4 O terceiro fator............................................................ 113

3.1.5 Para além da psicologia................................................ 116

3.2 Considerações gerais..................................................... 120

4

SENSAÇÃO E EMOÇÃO................................................... 124

4.1 Psicologia celular.......................................................... 127

4.2 Emoção plasmática....................................................... 135

4.3 Expressão emocional..................................................... 139

4.4 As sensações de corrente no contexto terapêutico......... 142

4.5 Sensação, autopercepção e consciência........................ 145

4.6 Considerações gerais..................................................... 152

5

SENSAÇÃO E CONHECIMENTO....................................... 155

5.1 Sensação plasmática e visão de mundo.......................... 157

5.1.1 Couraça e subjetividade................................................ 158

5.1.2 Organização psicofísica................................................. 164

5.1.3 Estrutura biopsíquica.................................................... 172

5.2 Estrutura mecanicista e estrutura mística..................... 176

5.2.1 Encouraçamento e mecanicismo.................................... 178

5.2.2 Angústia orgástica......................................................... 180

5.2.3 Encouraçamento e misticismo....................................... 183

5.3 Estrutura não encouraçada............................................ 185

5.3.1 A função da empatia..................................................... 187

5.4 Considerações gerais..................................................... 189

6

CONCLUSÃO.................................................................. 193

REFERÊNCIAS......................................................................... 199

1 INTRODUÇÃO

“A sensação é o maior mistério da ciência natural.”

(W. Reich, 1949 - Ether, God and Devil).

11

O presente trabalho se propõe a examinar os estudos que o médico e

cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957) endereçou, no transcurso de sua obra,

ao tema da sensação.

Bastante interessado, desde o início de sua produção, pelo problema da

apreensão sensorial, Reich continuamente integrou a sensorialidade ao conjunto de

suas pesquisas e fez dela um elemento-chave ao incursionar pelos terrenos clínico-

terapêutico, laboratorial e epistemológico.

Ainda que o autor, ao longo de suas quase quatro décadas de trabalhos,

tenha dedicado grande atenção ao fenômeno da sensação, não identificamos, na

produção dos comentadores, análises aprofundadas sobre esse aspecto da pesquisa

reichiana. Almejamos, aqui, dar alguma contribuição para minimizar essa lacuna.

Quatro áreas de estudos contribuíram significativamente, a nosso ver, para o

entendimento de Reich sobre a sensação, e optamos por estruturar o presente

texto de acordo com elas. Assim, examinamos, de forma sequencial, as influências

que as asserções sensorialistas reichianas receberam: a) das ciências biológicas e

médicas (tais como a Protozoologia e Neurologia); b) do conhecimento psicológico

(particularmente, a Psicanálise); c) de uma disciplina fundada pelo próprio autor (a

Orgonomia); d) da Teoria do Conhecimento (em especial, de certa tradição

neokantiana).

Acompanhando o trajeto de Reich por tais setores, dedicamo-nos, sobretudo,

a duas tarefas. Buscamos, sempre que possível, identificar os estudiosos e

correntes de pensamento que o influenciaram em suas reflexões e pesquisas sobre

a apreensão sensorial. E procuramos examinar as investigações estritamente

12

reichianas — de teor clínico, experimental e epistemológico — a respeito do tema

da sensação.

A conclusão geral a que chegamos, aqui, é a de que o autor, transitando por

diferentes áreas do saber e perseguindo rotas investigativas próprias e originais,

esforçou-se em estudar e articular dois aspectos extremos do fenômeno sensorial: a

sensação como derivação de ancestrais matrizes fenomênicas do vivo e do cosmo e

como ingrediente central da produção humana de conhecimento.

Ainda no que se refere ao escopo de nossa pesquisa, cumpre mencionar que

não nos aventuramos a estabelecer quaisquer contrastes entre as proposições

sensorialistas reichianas e outros referenciais teóricos ou estudos mais recentes

acerca da sensação. Contrastes desse gênero são, sem dúvida, fundamentais e

necessários, mas, dada a escassa pesquisa em relação ao tema da sensação na obra

de Reich, optamos por dirigir nossos esforços, antes de tudo, no sentido de

recuperar as conceituações formuladas pelo próprio autor e, na medida do

possível, prospectar suas fontes históricas. Quando, contudo, nos deparamos com

conceitos da Biologia ou Neurologia do século XIX e começo do século XX que não

mantiveram, nos dias de hoje, seus significados originais, procuramos indicar (a

título de breve contextualização e sem nos estendermos em análises críticas) a

visão geral que se têm, atualmente, acerca de tais conceitos.

No que tange à pesquisa bibliográfica, consultamos, no campo da literatura

reichiana, artigos, livros, correspondências e diários redigidos pelo autor ao longo

de seu trajeto, além de uma entrevista concedida por ele e transcrições de

algumas de suas conferências. Procuramos recorrer, também, aos comentadores do

trabalho do cientista, embora ainda sejam raras, como mencionamos há pouco, as

referências à temática em apreço. Consultamos ainda diversas obras, publicadas no

13

século XIX e primeiras décadas do século XX, que permitiram resgatar matrizes da

produção reichiana e valemo-nos de estudos nos campos da História da Ciência e

Filosofia da Ciência.

O presente trabalho contém, além deste capítulo introdutório, cinco outros.

O segundo e próximo capítulo, “Sensação e motilidade”, aborda certas

contribuições da biologia e medicina para o entendimento reichiano acerca da

sensorialidade. Nossas análises tomaram como ponto de partida, nesse capítulo, a

filiação de Reich à tese de que a apreensão sensorial estaria diretamente associada

a uma substância básica da matéria viva ― o protoplasma ― e far-se-ia presente

mesmo em organismos que não apresentam sistema nervoso (tais como os seres

unicelulares). Para compreender essa ampla sensorialidade plasmática, achamos

por bem examinar, em um primeiro momento, o conceito de protoplasma na

Biologia da segunda metade do século XIX e início do século XX. Julgamos

necessário revisar brevemente, também, uma diretriz investigativa que permeou

praticamente todo o trabalho de Reich: seus estudos sobre a energia, inclusive a

energia orgone (uma ‘força’ natural que, de acordo com a visão reichiana, seria

primária em relação à matéria). Após esses dois atalhos, examinamos a proposição

do autor de que o protoplasma seria movido e se manteria vivo devido à ação

daquela peculiar energia. Na sequência consideramos a tese reichiana de que

haveria, em seres humanos, uma identidade entre o primitivo fenômeno da

motilidade protoplasmática e a função vegetativa (função essa que unificaria toda

massa plasmática do organismo humano). Nesse contexto pinçamos as críticas do

autor à neurologia de sua época, a qual, apesar dos avanços no estudo do cérebro,

estaria, a seu ver, desconsiderando a raiz filogenética do funcionamento

plasmático-vegetativo. Acompanhamos, em seguida, os estudos de Reich a respeito

14

de certo amortecimento ou encouraçamento, nas sociedades autoritárias, da

função vegetativa e suas concomitantes pesquisas sobre um importante indicador

da flexibilização desse encouraçamento: o fenômeno das correntes vegetativas (a

livre movimentação do plasma no organismo). Pudemos identificar, então, um

primeiro (e nuclear) elemento da teorização reichiana sobre a sensorialidade

humana, posto que aquelas correntes ou fluxos se traduziriam, na visão de Reich,

em um gênero específico e fundamental de apreensão sensorial (denominada por

ele, de sensação plasmática, sensação vegetativa, sensação orgonótica ou sensação

de órgão). Por se tratar de aspecto central no entendimento do autor sobre a

dimensão sensorial e por ter suscitado, ao longo da obra reichiana, investigações

clínicas, experimentais e epistemológicas, o conceito de sensação plasmática

continuará sendo analisado a partir de diferentes ângulos, nos próximos capítulos

deste trabalho.

No terceiro capítulo, “Sensação e excitação”, examinamos as influências de

certo conhecimento psicológico nas proposições sensorialistas reichianas. Para

tanto, retomamos o interesse do autor por uma psicologia científico-natural,

algumas de suas aproximações com o freudismo e as críticas que dirigiu à psicologia

wundtiana. Averiguando inicialmente o posicionamento reichiano de que as

investigações experimentais de Wundt acerca da sensação e percepção não

confeririam cientificidade à pesquisa em psicologia, resgatamos, na sequência, a

simpatia de Reich, no primeiro estágio de sua produção, pelos referenciais

energéticos freudianos. Analisamos então como essas críticas à abordagem

experimental e o contato com a teoria psicanalítica contribuíram para uma crucial

diretriz de pesquisa reichiana: a tentativa de ampliar o entendimento acerca da

relação entre sensação psicológica de prazer e impulso sexual somático e de

15

encontrar, também, a matriz ou denominador comum desses dois fenômenos.

Nesse contexto pudemos observar a forte influência, não apenas de Freud, mas de

autores como Lange, Bergson e Semon no projeto reichiano de vincular, de um

ângulo científico-natural, o âmbito sensório-qualitativo (a partir da percepção

prazerosa) e o âmbito energético-quantitativo (a partir da excitação corporal). E

constatamos que a busca de Reich por um denominador comum entre sensação e

excitação determinou sua trajetória científica e apontou, uma vez mais, para a

questão da motilidade plasmático-vegetativa.

O quarto capítulo, “Sensação e emoção”, analisa a teorização estritamente

reichiana acerca da apreensão sensorial. Como ponto de partida, resgatamos uma

vez mais a tese de Reich de que as reações de prazer e angústia estariam

enraizadas no automovimento protoplasmático, mesmo em micro-organismos.

Procuramos demonstrar, então, que essa proposição reichiana se inspirou em uma

perspectiva investigativa conhecida como psicologia celular, perspectiva essa que

vislumbrou a existência, em seres unicelulares, de rudimentos do psiquismo

humano. Retornando à pesquisa do autor, pudemos notar que ele, amparando-se

em seus estudos clínicos e laboratoriais, não apenas atribuiu o movimento

plasmático à ação de uma força específica e concreta (a energia orgone, a seu

ver), como também, concebeu tal motilidade espontânea como fator unificador no

campo do vivo. Observamos então que Reich se esforçou em demonstrar que o

automovimento plasmático estaria na base da sensorialidade humana e, até

mesmo, das complexas funções psicológicas. Verificamos ainda, nesse âmbito, que

o autor atribuiu um novo sentido ao termo emoção, alargando consideravelmente

seu escopo: a emoção como movimento plasmático espontâneo, em toda e

qualquer criatura vivente. E averiguamos como ele articulou aquela emoção

16

plasmática, não apenas ao tema da sensorialidade, mas também ao fenômeno da

autopercepção e à instância da consciência.

O quinto capítulo, “Sensação e conhecimento”, examina como as

proposições sensorialistas reichianas se inserem em certa tradição neokantiana a

respeito da construção do conhecimento. Para iniciar esse capítulo, pautamo-nos

por um duplo movimento sugerido pelo autor: a sensação plasmática determinando

a produção de conhecimento e, ao mesmo tempo, sendo determinada pela

estrutura biopsíquica do sujeito. Focando a primeira parte dessa formulação

dialética, retomamos o argumento reichiano de que a sensorialidade plasmática

seria um ingrediente fundamental e, até mesmo, a base para a construção do

pensamento lógico. Voltando-nos ao outro lado da moeda, averiguamos a asserção

do autor de que haveria uma arraigada instância — por ele denominada, entre

outras expressões, de estrutura biopsíquica — que valoraria e regularia o contato

do indivíduo com suas próprias sensações plasmáticas. Nesse momento

consideramos cabível retomar certas origens filosóficas desse conceito de estrutura

biopsíquica, tarefa que nos fez encontrar, uma vez mais, certas ideias de Lange,

especialmente seu projeto de atualizar a teoria kantiana do conhecimento por

meio da noção de organização psicofisiológica. Após nos familiarizarmos com essa

visão langeana acerca da modulação da subjetividade, passamos à teoria de Reich

de que haveria, nas sociedades autoritárias, dois grandes grupos de estruturações

ou formatações biopsicológicas: a estrutura mecanicista e a estrutura mística,

segundo a terminologia proposta pelo autor. Nesse contexto, analisamos o ponto de

vista reichiano de que ambas as estruturas teriam sofrido profundas disfunções em

suas correntes e sensações plasmáticas e a sua tese de que haveria, na estrutura

não encouraçada, uma promissora retroalimentação entre sensorialidade e visão de

17

mundo afirmativa. E nos debruçamos, por fim, em duas importantes formulações

do autor: a de que existiria um grande número de pesquisadores afetados por

crônico amortecimento da vitalidade vegetativa e a de que tais pesquisadores, por

bloquearem ou distorcerem suas sensações plasmáticas, poderiam colorizar a

investigação científica com elementos mecanicistas ou espiritualistas.

No sexto e último capítulo, “Conclusão”, tecemos algumas apreciações

gerais sobre a pesquisa sensorialista reichiana e os limites do presente estudo.

18

2 SENSAÇÃO E MOTILIDADE

A percepção faz-se presente desde as primeiras

expansões e contrações plasmáticas.

(W. Reich, 1944 - Orgonotic Pulsation. Part One).

19

Para começarmos a averiguar a questão da sensorialidade na obra reichiana,

retomaremos algumas proposições gerais sobre o fenômeno, apresentadas pelo

autor em Ether, God and Devil (“Éter, Deus e o Diabo”), um escrito de teor

epistemológico publicado em 1949. Na obra em apreço o pesquisador caracterizou

a apreensão sensorial como um fenômeno de suma importância, não apenas para a

existência humana, mas também para o funcionamento dos seres vivos em geral:

O organismo vivo percebe o entorno e a si mesmo tão somente por meio de suas

sensações” (REICH, 1949/1973c, p. 56, tradução nossa, grifo do autor). A sensação,

quando abordada “funcionalmente”, expressaria “uma cuidadosa sondagem

(feeling out) da realidade”, um contínuo rastreamento dos estímulos “internos e

externos”. Essa perscrutação sensorial poderia ser facilmente visualizada, segundo

o autor, nos movimentos “lentos, tateantes e ondulares” das “antenas ou

tentáculos” (p. 96, tradução nossa) de certos animais.

Ponderando sobre as matrizes biológicas do fenômeno sensorial, Reich

partilhou da polêmica tese de que a sensorialidade manifestar-se-ia até mesmo em

criaturas que não apresentam sistema nervoso: “Toda matéria plasmática percebe,

com ou sem nervos sensoriais”. Um micro-organismo como a ameba seria dotado,

realçou o autor, de algum nível de apreensão sensorial, apesar de não dispor de

“quaisquer nervos sensoriais ou motores” (REICH, 1949/1973c, p. 117-118,

tradução nossa). O “protoplasma” desse unicelular apresentaria, até mesmo,

“funções de expansão prazerosa e contração angustiosa” (p. 111, tradução nossa).

É possível identificar diversas outras menções, na produção reichiana, ao

protoplasma e a sua sensorialidade, anteriores inclusive à publicação de Ether, God

20

and Devil. Em 1934, o autor já havia expressado a opinião de que “os aparatos da

função sexual e da função de angústia” (REICH, 1934/1982a, p. 38, tradução nossa)

estariam presentes em criaturas unicelulares. Ao se amparar, a partir de 1935, em

seus próprios experimentos microbiológicos,1 o cientista continuou designando

como prazerosos e angustiantes determinados movimentos de expansão e retração

observados por ele mesmo (e por pesquisadores que lhe foram contemporâneos) no

protoplasma de alguns organismos unicelulares (REICH, 1938/1979).2

Na visão reichiana haveria, portanto, íntima conexão entre certas sensações

(especialmente, de prazer e angústia) e a plasticidade do protoplasma

(particularmente, os movimentos de contração e expansão), mesmo em organismos

que não apresentam sistema nervoso. Indo mais longe, o autor, pautando-se por

suas pesquisas teóricas e experimentais, chegou a afirmar que a própria vida

tomaria raízes na “contração plasmática” (REICH, 1948/2007, p. 36, tradução

nossa).

Antes de nos aprofundarmos nessas proposições sensorialistas reichianas,

cabe compreender melhor um de seus principais elementos: o conceito de

protoplasma. Desempenhando importante papel na obra de Reich e no trabalho de

diversos pesquisadores que o antecederam ou lhe foram contemporâneos, a

substância protoplasmática, como notaremos logo abaixo, estaria associada não

apenas à perscrutação sensorial, mas também às funções motrizes e à dinâmica

geral da própria vida.

1 Retomaremos brevemente esses experimentos, mais adiante.

2 Como veremos em detalhes no quarto capítulo do presente estudo, a ideia de que haveria algum nível

de apreensão sensorial em organismos unicelulares não é nativa da produção de Reich, tendo sido

explorada por diversos pesquisadores que o antecederam, alguns deles, adeptos da tese de que os micro-

organismos carregariam rudimentos não apenas da fisiologia, mas também do psiquismo humano.

21

2.1 Gelatina viva

Uma das “mais significativas” (WELCH; CLEGG, 2010, tradução nossa)

proposições da História da Biologia, o conceito de protoplasma despontou na

primeira metade do século XIX e despertou grande interesse nas ciências biológicas

até as décadas iniciais do século XX (CORREA, 1998; GEISON, 1969). Para os

cientistas do período, o protoplasma designava, em linhas gerais, um composto

gelatinoso, contráctil e irritável que, fazendo-se presente nas cavidades dos

organismos unicelulares e das células dos multicelulares, estaria diretamente

associado às propriedades essenciais da vida.

Em 1835, o biólogo francês Félix Dujardin (1802-1860) propôs o termo

sarcode — que não tardaria a evoluir para protoplasma (TIXIER-VIDAL, 2010) — com

o intuito de designar a substância viscosa, elástica, homogênea, transparente e

contrátil que ele identificara no interior dos rizópodes.3 Em trabalho publicado em

1838, o biólogo afirmou que o sarcode dos “animais superiores” poderia revelar

“um grau de organização mais complexo” (na forma, por exemplo, de fibras ou

membranas), mas que nos “animais localizados na base da escala” nada mais se

visualizaria do que uma “gelatina viva, contrátil” (DUJARDIN, 1838, p. 256-257,

tradução nossa).

A partir de tais pesquisas começou a se formar, como veremos a seguir, a

ideia de que as propriedades vitais de todo ser vivo dependeriam diretamente da

presença, em suas células, de “substâncias fluídas” (HALL, 1950, p. 339, tradução

nossa), tais como as que Dujardin descreveu. Veremos também que o grau de

3 Rizópodes: categoria de unicelulares — a qual pertence a ameba — que fazem uso de pseudópodos para

se locomover e obter alimentos.

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organização ou estruturação dessa substância tornou-se um tema relevante para

diversos pesquisadores, inclusive Reich.

Em 1840, o fisiologista checo Johannes E. Purkinje (1787-1869) empregou

pela primeira vez o termo protoplasma para designar certos grânulos esféricos e

gelatinosos que comporiam o embrião animal (HUGHES, 1959; CORREA, 1998). O

botânico alemão Hugo von Mohl (1805-1872) utilizou o mesmo vocábulo em 1846,

referindo-se à presença de protoplasma nas células das plantas (GEISON, 1969).

Não tardou para que Ferdinand Cohn (1828-1898), outro botânico alemão, visse

uma identidade entre o protoplasma das plantas e dos animais (HALL, 1950),

propondo em seus estudos que as cavidades de todos os tipos de células seriam

preenchidas por “substância contrátil” (COHN, 1850, citado em GEISON, 1969, p.

275, tradução nossa). A própria célula chegou a ser vista, na época, como mero

alojamento para o protoplasma (WELCH; CLEGG, 2010).

Amparado por pesquisas empreendidas no período 1858–1861, o anatomista

alemão Max Schultze (1825-1874) chamou atenção para certas propriedades que

seriam inerentes ao protoplasma — como a contratilidade (movimento espontâneo)

e a irritabilidade (capacidade de responder aos estímulos) —, concebendo-o como

“substrato da atividade vital dos tecidos de todos os organismos, fossem tais

organismos simples ou complexos”. Com os estudos de Schultze, o termo

protoplasma, como indica um comentador, passou a ser amplamente adotado para

designar “a substância viva de animais e plantas” (GEISON, 1969, p. 276-277,

tradução nossa).

Na segunda metade do século XIX disseminou-se rapidamente a concepção de

que as condições essenciais da vida residiriam “em uma substância chamada

protoplasma” (GEISON, 1969, p. 278, tradução nossa), substância essa que

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simbolizaria a “funcionalidade da vida em seu nível mais básico” (WELCH; CLEGG,

2010, tradução nossa). Na década de 1860, por exemplo, o protoplasma era

frequentemente definido como uma massa viscosa e transparente de caráter

homogêneo, “sem estrutura” e “sem organização visível” (M’KENDRICK, 1888,

citado em WELCH; CLEGG, 2010).

Matéria viva par excellence, o protoplasma seria dotado, antes de tudo, de

contratilidade, como salientou em 1878 o médico e fisiologista Claude Bernard

(1813-1878). Para o eminente cientista, a propriedade contráctil estaria presente

na “maior parte das massas protoplasmáticas animais ou vegetais” (BERNARD,

1879, p. 224, tradução nossa), daria sustentação a todo e qualquer movimento dos

seres vivos e seria regulada exclusivamente por determinações físico-químicas

internas e externas, não por forças vitais especiais.

Além da contratilidade (e da irritabilidade), outras características foram

atribuídas à substância protoplasmática no decorrer do século XIX, tais como

digestão (assimilação de nutrientes), respiração e reprodução (WELCH; CLEGG,

2010). Tamanha seria a importância do protoplasma, que o biólogo inglês Thomas

H. Huxley (1825-1895) se referiu a ele, em conferência proferida em 1868, como a

“‘base física da vida’” (HUXLEY, 1870, p. 7, tradução nossa). Em sua opinião, as

investigações sobre o protoplasma deveriam se assentar na mais estrita abordagem

físico-química — ou seja, “na natureza e disposição das moléculas” (p. 26, tradução

nossa) —, não em um entendimento da vida como algo que atuaria “por meio da

matéria”, mas seria “independente dela” (p. 7, tradução nossa).

Certo grupo de pesquisadores vitalistas julgou, porém, que a noção de

protoplasma teria potencial para “explodir a concepção mecanicista de vida”

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(GEISON, 1969, p. 284, tradução nossa).4 O médico e microscopista inglês Lionel S.

Beale (1828-1906), por exemplo, recusou-se a reduzir o funcionamento

protoplasmático (e o próprio fenômeno da vida) exclusivamente a fatores físico-

químicos; em obra publicada em 1870, ele afirmou que não haveria nada na

matéria viva que se assemelhasse a um “mecanismo”. No protoplasma,

“pequeníssimo

material

transparente

e

incolor”,

estariam

contidas

“impressionantes forças ou propriedades” responsáveis pela “forma, função e

estrutura” dos seres vivos. Essas impressionantes propriedades ou potências não

teriam quaisquer semelhanças com as forças físicas conhecidas e encontrariam

tradução na forma de três fenômenos vitais: “crescimento, movimento espontâneo

e organização (formation)” (BEALE, 1870, p. 32, tradução nossa). A capacidade de

movimento representaria, aliás, um dos mais importantes “atributos da matéria

viva” (p. 75, tradução nossa) e a criatura vivente seria inimaginável sem essa

característica. Dos “menores organismos dotados das mais básicas características”

às “texturas dos seres mais complexos” seria possível identificar, no entendimento

do microscopista, dois estados básicos que, inclusive, definiriam o ser vivo de

forma mais adequada do que a noção de protoplasma: a “matéria viva ou

germinativa” e a “matéria estruturada (formed)” (p. 32, tradução nossa).

Expressando com clareza a ação de uma força vital, a parcela do organismo

concernente à “matéria viva ou germinativa” seria responsável pelas funções de

4 Ora apoiando-se em perspectivas teológicas, ora circulando pelo campo da filosofia, ora procurando

calcar-se na experimentação científica, surgiram, entre o século XVIII e o início do século XX, diversas

proposições de índole vitalista. De forma geral, os vitalistas questionavam enfaticamente a aplicação, ao

estudo da vida, de conceitos e métodos originários das ciências do inorgânico. Privilegiando perspectivas

mais holísticas ou sistêmicas do que pontuais ou atomistas, eles procuraram analisar as relações — ou

oposições — que se estabeleceriam entre o fenômeno ‘vida’ e os processos mecânicos e físico-químicos.

Também foi comum, às diversas formas de vitalismo, a crença de que os organismos vivos seriam regidos

por um fator intrínseco especial (força vital, potência prospectiva, entre outros) que fugiria ao alcance

da análise mecanicista (BEDANI, 2007a).

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movimento espontâneo, crescimento e multiplicação. A “matéria estruturada

(formed)”, por sua vez, diria respeito à porção do corpo que, embora tivesse

apresentado em algum momento a propriedade de desenvolvimento espontâneo,

teria se tornado posteriormente inerte e incapaz de se multiplicar por si mesma.

Nas amebas — “massas animadas” de “matéria movente transparente” — poder-se-

ia observar com facilidade a propriedade do “automovimento (p. 37, tradução

nossa). A “fibra nervosa” humana seria, por sua vez, um exemplo de “matéria

estruturada (formed)” (p. 53, tradução nossa).

Procurando compreender o protoplasma a partir de referenciais estritamente

físico-químicos ou tentando identificar nele a ação de uma singular força vital

irredutível às leis da mecânica (ou ainda, tentando conciliar de alguma forma as

duas perspectivas), diversos biólogos do século XIX e início do século XX

partilharam da ideia, em suma, de que existiria — em plantas e animais, em

unicelulares e multicelulares — uma substância contráctil-irritável elementar.5

Herdeiro confesso de certas realizações “científicas e humanistas do século

XIX e início do século XX” (REICH, 1949/1973c, p. 8, tradução nossa), Reich sofreu

forte influência da teoria protoplasmática e valeu-se dela para formular seu

entendimento a respeito da apreensão sensorial. Mas, ainda que tenha se inspirado

5 Sem qualquer propósito de examinarmos o impacto e implicações da teoria protoplasmática na biologia

atual, cabe mencionar en passant que o biólogo, naturalista e historiador da ciência Ernst W. Mayr (1904-

2005) esclareceu que o protoplasma, “o material celular fora do núcleo”, é atualmente designado como

citoplasma. Mayr comentou, ainda, que a teoria protoplasmática caiu em desuso na literatura biológica,

pois a bioquímica e a microscopia eletrônica do século XX teriam estabelecido “a verdadeira composição

do citoplasma” e elucidado “a verdadeira natureza de seus vários componentes: organelas celulares,

membranas e macromoléculas” (MAYR, 2008, p. 34-35). Em trabalho publicado recentemente, dois outros

comentadores chamaram atenção, por sua vez, para o fato de que a teoria protoplasmática, por

conceber a célula como “um todo dinâmico”, desempenhou importante papel na história da Biologia,

pavimentando o caminho para o estudo de “tudo o que, agora, associamos com a estrutura e função

celular” e para o atual entendimento da célula como um sistema. Resíduos do conceito de protoplasma

reapareceriam, na atualidade, em estudos que abordam a célula viva a partir de uma perspectiva

dinâmica, funcional e “holística” (WELCH; CLEGG, 2010, tradução nossa). Foi essa perspectiva dinamista

que, sem dúvida, cativou Reich e o influenciou significativamente em suas ponderações sobre o

protoplasma, como veremos a seguir.

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na concepção protoplasmática, ele a reexaminou de uma singular perspectiva

energética — perspectiva essa que permeou, aliás, toda sua produção.

Como a sensorialidade, para Reich, tomaria raízes em um protoplasma

energeticamente excitado, precisaremos tomar um atalho e examinar, ainda que

panoramicamente, a que energia se referia o autor. Após essa breve retomada dos

estudos reichianos sobre a energia, estaremos mais instrumentalizados para

compreender como o cientista, partindo de uma interpretação energética do

protoplasma, construiu suas próprias teorias sensorialistas.

2.2 Energia primordial

Não apenas as formulações de Reich a respeito do protoplasma e da

apreensão sensorial, mas praticamente todos os estudos que empreendeu ao longo

de sua carreira — fossem eles de índole científica, laboratorial, sociológica ou

epistemológica — receberam fortes colorações energéticas. Contudo, não nos

aprofundaremos, aqui, nos diversos questionamentos que a pesquisa energética

reichiana certamente suscita. A fim de não nos distanciarmos excessivamente de

nossas investigações, vamos nos limitar a descrever as proposições do autor, a

respeito da energia, que nos pareçam fundamentais para o entendimento do tópico

da sensação.

O próprio Reich, que acreditava que seu trabalho se inseria no campo da

ciência natural, realçou, aos 53 anos de idade, o papel determinante da dimensão

energética em sua obra. Em uma palestra proferida em 26 de agosto de 1950, ele

deixou claro que sua preocupação com o tema da energia remontava à fase inicial

de seu trabalho:

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