A revelação por Carlos da Terra - Versão HTML

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Carlos da Terra

Conto

A Revelação Carlos da Terra 2012 © by Carlos da Terra

Capa: Photopront

Terra, Carlos da

A Revelação / Carlos da Terra – São Paulo BR

Ficção – espiritualidade – mistério

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A Revelação Carlos da Terra É PROIBIDA A REPRODUÇÃO

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou mesmo

transmitida por meios eletrônicos ou gravações sem a permissão, por escrito, do autor. Os

infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98

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A Revelação Carlos da Terra Entre real e o fantástico, certamente existe uma lacuna ainda maior do

que pode conceber o imaginário, até mesmo de um poeta.

Digo até mesmo de um poeta, porque a este é possível exacerbar sua

imaginação desde o óbvio até o sobrenatural, ou sombrio.

A ciência, tida como fonte de saber, nega-se a conjeturar e seu âmbito

é, por isso mesmo, restrito; mas longe do método, o próprio cientista poderá fazer isso, sem

nenhum prejuízo cabível e até com algum ganho ao adentrar a imensidão do desconhecido.

A própria diversidade de vida animal a nossa volta é surpreendente;

fantástica sob todos os aspectos, mas por vezes, nos passa despercebida em sua grandeza e nas

inúmeras possibilidades que ela mesma nos oferece para desvendarmos os enigmas da criação

e do universo.

Meu amigo Roberto e eu conversávamos justamente sobre essas

coisas e ponderávamos, especificamente, que qualquer acontecimento pode ser considerado

possível ou impossível, dependendo da referência que se use para estudá-lo. A ótica é variável

tanto nos métodos de observação, quanto na natureza da espécie de um observador.

Cito como exemplo um dado familiar e corriqueiro: uma distância de

cem metros é relativamente grande para uma pessoa, porém muito pequena e quase

insignificante para um cavalo.

Dizíamos, em acalorado debate, que as viagens interplanetárias e

também a vida em outras paragens ou planetas, bem podem ser possíveis de existirem, se

considerarmos o conhecimento que já possuímos sobre as diferenças relativas que nos cercam,

entre matérias e, principalmente, entre os seres animais.

Para reafirmar minha tese eu criei, na mesma hora em que estávamos

debatendo, uma espécie de fábula, pretendendo com ela exemplificar como para todos os

seres vivos, a realidade pode e deve aparentar-se completamente diferente; Assim a fábula

pretende mostrar que, o que para uns é muito, a outros é pouco, ou o que para alguns é longe,

é perto demais para alguns e o que estivermos considerando impossível, poderá ser exequível

ou de fácil realização, a outros seres.

Para que não me julguem louco pela história que lhes vou contar após

a fábula – que confesso, parece mesmo loucura -, vou lhes propor uma breve reflexão pelo

que ela ilustra e considerem a seguinte hipótese, apenas como uma alça para um pensamento

mais profundo, a que chegaremos adiante:

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A Revelação Carlos da Terra Vamos imaginar juntos, – para maior deleite (uma vez que raciocinar

é agradável quando leva a íntimas descobertas ) – uma viagem. Mas essa viagem terá muito

pouco a ver com as viagens humanas, que costumamos fazer.

A viagem hipotética será levada a efeito por três animais de espécies

distintas, sendo que um deles será um homem, o outro um cavalo e um terceiro animal será

uma pequenina formiga.

A primeira característica dessa viagem é que ela terá apenas

aproximadamente de um a dois quilômetros de distância entre o ponto inicial e o ponto final,

ou de chegada.

Esses três indivíduos empreenderão uma viagem solitária, embora

tenham partido no mesmo momento, mas pelo ritmo de cada um, durante o percurso, vão se

distanciar e chegarão em momentos diferentes não importando agora os propósitos que eles

poderiam ter para tal viagem.

Passo a passo, na fábula, tentaremos demonstrar que uma viagem

interplanetária é, não apenas possível, mas provável também. E o acontecimento que lhes é

contado depois da fábula, é que nos fez ver assim a realidade.

Estimando pela velocidade normal desses animais, poderemos supor

que o cavalo chegaria em um tempo bem mais curto que os demais, sua viagem demoraria

aproximadamente três ou quatro minutos, enquanto o homem demoraria para esse percurso,

talvez, uma hora, ou quase isso e a formiga poderia levar, possivelmente, no mínimo uma

semana para chegar ao final.

Supondo a maneira idiossincrática de cada um desses seres, na

observação da realidade, somos levados, inexoravelmente a importantes deduções, que ao

final, como eu já disse, provará a exequibilidade de uma grande viagem interplanetária.

Continuando em nosso plano apenas imaginário dessa fábula, vamos

acrescentar que no ponto final da viagem, existe uma comunidade de insetos conhecidos

como Ephemeridas e que têm uma vida muito curta. Esses insetos têm, melhor dito, vida

curtíssima e seu tempo é suficiente apenas para acasalar e porem ovos, e não se mediu ainda

cientificamente o tempo que eles teriam para, pelo menos, se alimentarem. Vivem os

minúsculos insetos Ephemeridas, apenas poucas horas. Devemos nos lembrar que a vida

média do homem é de 60 anos, enquanto a do cavalo é de 20 anos e da formiga 12 dias

apenas, ilustrando que o tamanho dos seres não tem razão direta com sua durabilidade no

planeta.

Considerando esses dados, teremos que para o cavalo, a viagem

representou muito menos em proporção, por ele viver apenas um terço do homem e à formiga,

em relação ao homem, terá ocupado muito mais tempo de sua vida nesta viagem,

considerando-se que entre os três, é ela quem tem menor tempo de vida.

E em nossa explanação, esses três animais, ao chegarem ao seu

destino,a colônia de Ephemeridas, permaneceram por lá um pequeno tempo e realizaram

alguma proezas e ao partirem de volta ás suas casas, “disseram” que voltariam algum dia.

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A Revelação Carlos da Terra E então todos eles ao retornarem ao ponto de partida, descansaram e

empreenderam novamente a mesma viagem à colônia de Ephemeridas; por três dias

descansaram e depois rumaram novamente para a comunidade dos insetos de vida curtíssima.

Eu perguntei ao Roberto:

- O que você pode deduzir que acontecerá na alma ou no

entendimento dos Ephemeridas, quando os três animais chegarem até eles, cada um a seu

tempo?

Roberto começou a conjeturar:

- Sua fábula, Christino, é deveras interessante; jamais me ocorreu

refletir nesse âmbito! E ao dizer, empreendeu prolongada pausa e continuou franzindo o

sobrolho:

- O cavalo, possivelmente encontraria os mesmos insetos, porém, estes

teriam uma aparência bastante envelhecida, enquanto ele, o cavalo, pareceria ao inseto,

exatamente igual ao que era na hora da partida. Se o cavalo fosse e voltasse novamente, o

resultado seria assombroso para os Ephemeridas, que poderiam estar próximos de sua hora

terminal.

- E o homem? Eu interpelei, interrompendo-o

- O homem, - ele disse – ao voltar apresentaria também um resultado

característico, considerando-se que a vida do homem é mais longa e, portanto, sua

transformação seria ainda menor.; assim, praticamente, sobre os ephemeridas o efeito poderia

ser muito parecido; mas e a formiga? – perguntou-me-.

- Imagino que a formiga, por tanto demorar, não encontraria na

colônia dos Ephemeridas, nenhum ser vivente da época em que a visitou pela primeira vez e

aí é que está o cerne da compreensão dessa realidade que estamos abordando tendo como base

a fábula – eu disse e continuei..

- A formiga encontraria isso sim, netos ou bisnetos dos Ephemeridas

que morreram e que devem ter deixado muitas histórias sobre a visita da formiga, que para

eles ocorreu há muito tempo. Os membros da colônia contarão incríveis histórias. Alguns vão

acreditar, porém outros não! Será uma questão de fé!

A visita dos três animais pode ter deixado alguma evidência, mas não

será fácil encontrá-la, porque os indivíduos daquela colônia já estarão em uma geração muito

mais à frente.

Assim, eu falei essa pequena fábula, para exemplificar - como eu disse

no começo -, que o possível e o impossível são questionáveis e, sobretudo, relativos.

Assim, passemos agora ao plano das viagens interplanetárias e

examinemo-la à sombra da fábula.

Vemos que à luz dessa fábula, uma viagem interplanetária seria

perfeitamente possível para uma espécie dotada de atributos assombrosos para nós, como os

atributos do cavalo são assombrosos para o ephemeridas.

Ao comentar estas coisas com o meu amigo Roberto, que é um

homem afeito apenas ao palpável, ao ortodoxo, me interrompeu dizendo ter ouvido há muito

tempo atrás, de um viajante, uma história bastante singular, muito misteriosa.

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A Revelação Carlos da Terra Segundo essa história, haveria um homem, vivendo como um ermitão,

em uma espécie de templo, localizado nos confins de uma enorme caverna e que – explicava

gesticulando freneticamente – dizia esse viajante também, que nessa caverna nenhum inseto

nocivo adentrava enquanto, mesmo pássaros que não gostam da penumbra, entravam e saiam

livremente, parecendo não senti-la.

Apesar de sua ortodoxia, intrigava também ao Roberto, a existência de

tal homem que se dizia remanescente de uma civilização muito antiga... milenar.

Diante de nossa própria fábula inventada, não pudemos deixar de nos

assombrarmos com essa afirmativa do tal viajante e resolvemos pesquisar.

Nossas bibliotecas, tanto particulares como públicas e mesmo as mais

completas, nada, mas absolutamente nada pudemos encontrar que citasse o fato ou mesmo

essa alusão estonteante.

Estonteante, mas como a fábula...

Por várias noites eu permaneci acordado e completamente intrigado

por essa história, até que um dia fui bater à porta do Roberto:

Como sempre, ele me recebeu cordialmente e puxou uma cadeira

convidando-me para um café, que ele já estava preparando.

Sentei-me e após respirar fundo, comecei a falar, mansamente,

temendo ser taxado de visionário ou tão crédulo que poderia beirar o insano...

- Meu amigo Roberto... vou sair para uma viagem. Vou conhecer

aquele homem sobre o qual discorreu o viajante e, se é que esse homem existe, vou encontrá-

lo e extrair dele esclarecimentos para coisas que perturbam meu espírito, porque me sinto mal

na ignorância.

Ao invés da ironia que eu esperava do meu amigo, a resposta foi a

mais inesperada possível...

- Já trilhamos muitos caminhos antes – disse-me o Roberto -, e não

vou ficar esperando por sua explanação. Quero também seguir nessa viagem e se há alguma

verdade nessa história, quero também a comprovação. Lembre-se que sua fábula me

reformulou o raciocínio – sentenciou e riu discretamente-.

Fomos até a estante de livros do Roberto e verificamos vários mapas

da região apontada pelo viajante e logo percebemos a carência de transportes para essa região,

aparentemente inexplorada.

- Vamos com o meu carro – eu disse - e nos caminhos mais difíceis e

lugares inóspitos, nós iremos com o transporte local, seja à cavalo ou a pé. Deixaremos o

carro no lugar mais próximo da estrada e na volta o retomamos.

- Ótimo! Bradou o Roberto, esfregando as mãos e sorrindo

satisfeito.Vou preparar minhas coisas e levar minha máquina fotográfica.

Repentinamente ele mesmo, o Roberto, lembrou-se de outra coisa que

o viajante lhe contou:

- Ah! Tem um detalhe. Nessa caverna ninguém consegue tirar fotos!

Misteriosamente, ao sair da caverna tudo se esvanece como num passe de mágica. A máquina

ficará vazia, até mesmo dos filmes e fotos antigos que ela contiver.

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A Revelação Carlos da Terra

- Não faz mal, Roberto! Leve mesmo assim a máquina! Vamos

fotografar a fauna e a flora para guardarmos como recordação.

E descemos então a Serra de Juquiá, observando atentos e

fotografando a vegetação cerrada e uma infinidade de bananeiras de todas as qualidades. Pelo

visto, nossa alimentação, não seria problema. Também se verificava a presença de grandes

palmeiras, que produzem o saboroso palmito pupunha, abundantemente e caprichosamente

dispostos pela natureza.

Nosso mapa já estava totalmente demarcado, até o nosso destino final,

mas não tínhamos idéia de que tipo ou qualidade de estrada ou caminho nós encontraríamos

quando terminasse o asfalto.

Chegamos então a uma parte enlameada, terreno íngreme, impossível

de transitar de automóvel e consideramos que uma velha cabana, que avistávamos ao fundo,

seria uma adequada sinalização para deixarmos o carro estacionado, ali em baixo mesmo –

onde estávamos - e seguirmos a pé mata a dentro.

Paramos então o carro e fomos por uma estreita picada no meio da

mata densa, até a casa pequena, de taipa, que distava – por nossos cálculos – a quinhentos ou

seiscentos metros de onde deixamos o nosso veículo.

.Embora o caminho não fosse tão longo, era, inegavelmente, de difícil

acesso e por isso chegamos um tanto cansados à porta da cabana, que agora, vista de perto

tomava ares um tanto sombrios.

Uma porta velha, semi cerrada nos serviu de alarme para indicar nossa

presença, além do barulho de alguns patos e gansos que vagueavam ao redor do casebre.

Esperávamos que com o ruído da porta e o grasnido dos gansos

alguém aparecesse, mas isso não aconteceu.

- Não há ninguém aí, Roberto... empurre mais forte a porta! Talvez ela

esteja abandonada. Abra-a e vamos ver o que tem nela!

Roberto empurrou cuidadosa, mas fortemente a porta conseguindo

abri-la apenas parcialmente. Ambos nos precipitamos a olhar pela fresta.

- Está escuro, Christino, vou acender a lanterna.

Ao fundo, imediatamente vislumbramos o que nos pareceu um grande

crucifixo de pau tosco, amarronzado, pregado ao centro de uma parede e, no meio da pequena

sala, um fogão à lenha, com brasa ardente, fervendo água em um bule amassado. Tornamos a

fechar logo a porta.

Baseando-nos no bule com água fervendo, concluímos que havia sim,

um morador e que ele deveria chegar logo.

Esperamos do lado de fora pacientemente, sentados em um toco de

árvore. Estávamos cansados da pequena caminhada e, provavelmente o oxigênio abundante da

densa e impoluta floresta, ao qual não estávamos acostumados, tenha nos provocado uma

sonolência e um torpor quase hipnótico, também.

Por todo o caminho e agora sentados à porta do casebre, nós ríamos de

nós mesmos, questionando se deveríamos mesmo ter empreendido esta louca jornada quando

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A Revelação Carlos da Terra ouvimos ruído de passos, quebrando os gravetos atrás de algumas moitas da densa mata

atlântica, que contornavam o casebre.

Sentimos um certo receio nessa hora, porque o homem – que

supúnhamos seria o morador daquele casebre - , ao chegar poderia se assustar e nos receber de

modo nada amistoso. Os sons dos gravetos quebrados se tornavam mais audíveis e

pressentíamos que estavam mais próximos, embora não percebêssemos qualquer mudança em

sua cadência. Mas o crepitar se tornava mais e mais forte; percebia-se também uma

contrastante leveza nos ruídos, o que nos causava apreensão e curiosidade. Poderia ser algum

animal perigoso – imaginamos -.

Eu imaginava que, ali, longe da civilização, seria difícil a um homem

barbear-se com assiduidade ou vestir-se com roupas comuns como as que conhecíamos, além

do que, seria muito difícil alguém estar, naquele lugar, informado sobre os avanços

tecnológicos e os acontecimentos da cidade. Deveríamos, em minha opinião, esperar por um

homem rude e de reações completamente imprevisíveis.

Certamente o homem daquela caserna, que não ousamos abrir a porta

além da fresta que nos permitiu ver o crucifixo, poderia mesmo ser agressivo e pensando

assim, quase não pudemos acreditar no que realmente surgiu pela estreita picada em meio as

moitas ao redor da cabana. Vimos surgir, não um homem barbudo como prevíamos mas sim

uma mulher de aparência jovem e conservada, que vinha seguida, não por um homem, como

seria fácil supor, mas por um coelho do mato, amarelo, daqueles que correm assustados à

qualquer presença humana que se aproxime.

Pasmados vimos o coelho a poucos metros da mulher que se

aproximava incontinenti de nós. O coelho parecia proteger-se atrás do corpo da mulher,

demonstrando uma confiança inusitada.

Ao nos ver, a mulher não interrompeu e sequer diminuiu seu ritmo no

andar, aproximando-se com semblante tranqüilo e um sorriso amável e pelo seu tom de voz,

deu-me a impressão de que ela já nos esperava.

Ao parar à nossa frente, com o olhar fixo em nossos semblantes,

pasmados, ela nos perguntou

- Faz tempo que chegaram? Estão cansados?

Respondemos quase ao mesmo tempo, mas...

- Enquanto eu dizia não, o Roberto dizia sim, possivelmente

respondendo as perguntas diferentes, ou quem estivéssemos respondendo à primeira pergunta,

apenas, mas com respostas conflitantes porque o tempo tem para cada pessoa uma

determinada dimensão: enquanto para alguns um determinado tempo é curto, para outros esse

mesmo tempo pode parecer uma eternidade.

Logo ficamos sabendo que Paula era o nome da mulher serena que

chegou carregando apenas um pequeno cesto de vime, também tosco porém ricamente ornado

com desenhos coloridos e coberto com um pano muito branco e cheio de frutas silvestres.

Reparamos também imediatamente que a mulher, Paula, era

especialmente bela e que sua beleza tinha alguma coisa diferente. Não era como as mulheres

bonitas que costumávamos ver por aí. A beleza de Paula, tinha alguma coisa a mais, que nós

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A Revelação Carlos da Terra não conseguíamos definir: alguma coisa muito misteriosa havia por trás do seu olhar e do seu

sorriso; seus cabelos eram suaves e esvoaçavam à leve brisa, cobrindo as vezes, parcialmente

o seu rosto amorenado.

- Vamos entrar – disse abrindo a mão com a palma virada para cima-

mostrando a porta da cabana- Suponho que vocês estejam muito cansados! – concluiu-.

Aceitamos imediatamente o seu convite e novamente fomos

surpreendidos: a porta, outrora emperrada, abriu-se silenciosa e suavemente como se fosse

mágica, ao leve toque de Paula, e o casebre, outrora tão escuro, tornou-se claro apenas com o

facho luz da porta aberta.

Era exuberante a limpeza e a arrumação interna, parecendo-se mais a

um castelo de nobres do que à barraca de um eremita como pensamos antes. Na verdade tudo,

lá dentro, tinha o aspecto da pureza e eu notei também, logo a seguir, que a indumentária de

Paula, igualmente, inspirava pureza, tanto pelo modelo singelo da vestimenta, quanto pelo seu

candor.

Quanto minha vista percorria lentamente as paredes, fui tomado de

profundo assombro; estarrecido eu vi, afixado à esquerda do crucifixo um quadro pintado a

mão em que me pareceu ver um cavalo branco e majestoso, um homem ainda primitivo e uma

formiga, marchando enfileirados em direção à uma espécie de sol que brilhava profusamente.

Enquanto eu ainda olhava o quadro e sem querer era remetido à fábula

que precedeu nossa viagem; que estranha coincidência. Dei com o cotovelo no braço do meu

amigo e apontei com o queijo o quadro, que ele olhou assombrado.

Ficamos quietos por um período prolongado e quando nos refizemos

do espanto, Roberto perguntou com sutileza:

- Paula, considerando que não é tão comum uma mulher viver em um

lugar ermo, como este, não nos é difícil supor que alguém viva aqui com você, ou venha, vez

por outra, ajudá-la.

Respirando fundo mas tranquilamente, Paula nos disse:

- Vivo aqui, com minhas lembranças, minhas aspirações, os animais e

os frutos que vocês vêem. As almas de meus dois irmãos que foram levados para outros

mundos também me fazem companhia.

Ao dizer isso, apontou para a outra parede – oposta à parede do

crucifixo – onde dois jovens, que não tinham mais do que 20 anos – apareciam em um retrato

emoldurado.

Aceitamos sentarmo-nos ao som dos pássaros que gorjeavam lá fora e

a clara luz da candeia interna, que ficamos sabendo depois, jamais se apagava e era abastecida

por material inflamável que ela mesma havia aprendido a produzir naquele lugar. Uma

espécie de etanol, retirado de plantas nativas, com uma técnica surpreendentemente simples

que ela nos mostrou.

A candeia, embora acesa sempre, não foi vista por nós quando

chegamos e empurramos a porta. Era intrigante!

Intrigava-me também que havia, na verdade duas camas igualmente

limpas e arrumadas.

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A Revelação Carlos da Terra

- Paula... se você mora sozinha aqui e, como disse, não recebe visitas,

para que tem duas camas prontas?

Ela respondeu que um cão, vez por outra, lhe fazia companhia à noite.

Disse também, que ele deveria estar na mata, em busca de alguns frutos e raízes que ele

apreciava, e que logo mais o cão deveria vir ao nosso encontro. Afirmou também que estava

convencida de que nós dois nos simpatizaríamos com seu cão, de modo especial.

Roberto e eu nos olhamos e procuramos conter nossa estupefação.

Sempre aprendemos que esse animal era um predador voraz, carnívoro. Era certo, pela nossa

troca de olhares, que tínhamos a mesma dúvida: Como poderia, então, o cão haver “saído em

busca de raízes e frutos silvestres?”.

Aproveitamos o lapso de tempo e de olhares e eu perguntei outra coisa

que meu amigo e eu estávamos ávidos por saber:

- Porque você, Paula, não temeu nossa presença? Não seria

conveniente uma análise prévia para a aproximação à pessoas estranhas neste lugar tão

deserto?

Vendo nosso espanto diante de todo o quadro inusitado e também

quando intimamente permanecíamos chocados com a característica alimentar do cão ela,

parecendo adivinhar, discorreu levemente...

- Não temi a presença de vocês porque o mal e o bem deixam por

onde passam as marcas indeléveis de sua presença. A aura de um de vocês é especialmente

alva e garante a prevalência do bem sobre o mal e o cão, cuja descrição lhes causou espanto, é

o que seria normal em um mundo original onde não houvesse a autodestruição; um cão assim

é raro mas ele permanece como foi criado, porque a natureza é perene, quando se não lhe

corrompe seus princípios elementares.

Considerei que o momento seria propício para revelar à linda Paula, o

verdadeiro propósito de nossa viagem.

- Paula – eu disse – espero que você nos compreenda mas viemos até

aqui por um motivo que pode ser apenas uma abstração. É possível que tenhamos vindo atrás

de uma mera história de ficção, no entanto, nossa preocupação com questões existencialistas

nos moveu fortemente para cá.

Citei então à Paula a conversa que meu amigo e eu tivemos antes de

sair de nossas casas e ao final, mostrei também minha surpresa com o quadro que estava na

parede com as três personagens de nossa fábula, inventada por nós.

Paula, novamente sorriu sem dizer nada, dando a nítida impressão de

que ela já sabia dessas coisas, e eu continuei dizendo:

- Nos soubemos por meio de informações de um viajante e por outras

pesquisas que levamos a cabo, em textos místicos, que um certo homem vive em uma grande

caverna, aqui para os seus lados, e que trata-se de pessoa altamente diferenciada. Buscamos

revelações para alguns mistérios da criação e da mecânica universal, que nos perturbam o

espírito; na verdade estamos interessados na possibilidade ou não de longas viagens estelares.

Paula nos olhou firmemente e disse sem nenhum titubeio:

- Eu sei o que vieram buscar e a parada neste local não foi acidental.

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A Revelação Carlos da Terra Roberto e eu nos olhamos e simultaneamente trocamos uma

mensagem nos olhares sugerindo que a afirmativa de Paula seria apenas sua idiossincrasia;

procurando compreender isso e também mantendo a polidez, calamo-nos.

Ante o nosso silêncio a voz de Paula ecoou lacônica, em tom diferente

do que já estávamos acostumados.

- Por aqui começam suas descobertas e a continuidade delas vai

depender de vossos corações, mais do que do entendimento racional. Os olhos serão a porta

que levará a mensagem aos seus corações que, estando preparados, entenderão a mensagem.

Todos os passos, daqui por diante, terão uma significação em suas vidas, presente e futura.

Ser-lhes-á permitido ver o que poucos podem ver e poderão sentir o que jamais sentiram e

terão uma visão que jamais se repetirá nesta existência.

Ao que Paula terminou a frase nos assustamos muito com a chegada

de um enorme cão, de orelhas empinadas, pelo denso de cor amarelo avermelhada, de forte

musculatura, que se aproximou a passos felinos, lentos e compassados, como se fosse um

sonho ou um ou uma fita em câmera lenta. Os olhos amendoados do cão, não se

desprenderam de nós, por um segundo sequer.

Pensei em proteger Paula, mas ela imediatamente ergueu a mão direita

espalmada em nossa direção, dizendo...

- Não há o que temer! A natureza começa a vir ao encontro de vocês.

Por meio dela saberão o que procuram; se estiverem de coração aberto começarão a ver a luz

à partir desse cão.

Mansamente o cão se aproximou e Paula colocou em um recipiente

prateado e limpo, algumas batatas aparentemente cozidas.

O cão comeu com incrível voracidade. Deliciou-se à cada mordida e

em pouco tempo acabou sua refeição. Graciosamente Paula foi até sua fruteira e pegando

algumas das frutas silvestres, depositou-as caprichosamente na mesma vasilha e o cão

também comeu com notória satisfação.

Nada dissemos, apesar do espanto; mas pudemos entender um pouco

do que Paula queria dizer com “a natureza começa a vir ao encontro de vocês”.

Resolvi então falar mais abertamente e mais à vontade sobre nossa

viagem, uma vez que nossa loucura ficou parecendo bem menor do que a de nossa anfitriã.

- Paula... como eu lhe disse, saímos da civilização para este recôndito

lugar, por causa do homem sobre o qual lhe falei, mas tem mais uma coisa importante: ele é

uma espécie de monge, que vive isolado e, segundo se diz, sabe o grande segredo do final da

era. Reafirmo que não sabemos se, de fato, ele existe, mas caso você saiba alguma coisa,

rogo-lhe que nos conte. Você sabe alguma coisa sobre tal pessoa?

Surpreendentemente Paula abriu um longo sorriso e logo em seguida

concentrou-se e, novamente o seu tom de voz tornou-se lacônico e metálico, como se viesse

de um alto falando abafado:

- Tal homem existe e está aqui para receber aqueles que tiverem os

corações voltados à nova era, mas ele não é um eremita ou um solitário, como pensam; ele

vive sempre muito acompanhado porque a presença ou ausência do amor e das pessoas, não

12

A Revelação Carlos da Terra está na presença física, mas no espírito solidário ou não. Eu os levarei a ele, mas apenas

chegarão se tiverem o coração puro e aberto à verdade, caso contrário, perecerão suas últimas

esperanças de encontrar a seiva divina a que o destino lhes enviou. Devem decidir agora se

continuam ou não.

O desconhecido sempre nos assusta e titubeamos, mas quase que

instintivamente eu disse, firme e decidido:

- Nós iremos!

- Então descansem e sairemos a pé, amanhã cedo, pela mata adentro!-

disse Paula.

O cão, que ficamos sabendo ser uma fêmea e que seu nome era

Sedna, deitou-se de frente para nós e ali permaneceu até o dia seguinte.

Durante a noite, eu fechava os olhos e tentava decifrar o enigma do

nome do cão. Estava intrigado e passei bom tempo da madrugada imaginando como Paula

poderia saber sobre Sedna, que é uma estrela recém descoberta, e assim dar nome a seu cão.

Teria esse conhecimento chegado a Paula, que vivia tão isolada, ou o nome do cão fora

puramente acidental. Concluí que deveria ser uma estranha coincidência.

Saímos os quatro, contando-se Sedna, e adentramos a mata, bem ao

alvorecer. Paramos sob uma amoreira e nos deliciamos com frutas muito doces e o coelho

voltou a aparecer perto de Paula e da cachorra Sedna. Ao ver o nosso espanto pela cena

inusitada de paz, Paula nos explicou:

- A equidade está presente porque sua natureza não foi violada; o

coelho é nosso irmão e não nos teme.

Rebusquei minhas reminiscências para entender o exato significado

dessa surpreendente palavra “equidade” naquele contexto e, confesso, não consegui.

Paula recolhia algumas amoras e dava para Sedna, que as comia com

visível prazer.

- O que vamos encontrar no final deste caminho? Perguntou Roberto!

- Encontrarão um cristal com várias faces da verdade e poderão

acrescentar paz à suas vidas e aos seus descendentes se compreenderem a face que ilustrará a

equidade, no cristal mágico.

Ficamos muito curiosos para encontrar o referido cristal, embora

pensássemos ser uma espécie de alucinação de Paula, que nos conduzia alegremente.

E por onde Paula passava, estranhamente, os animais se achegavam à

margem do caminho e os peixes das lagoas, subiam para a margem...

Estranho e fascinante!

Paula então rompeu aquele colóquio da natureza e dizendo

suavemente...

- A verdade está lhes sendo mostrada a cada passo da vida, mas

somente a verão se olharem com o coração. Isso que vocês vêem agora, poderão entender

quando encontrarem o cristal da caverna de Dino.

Mais um nome estranho a que eu não pude resistir e perguntei

imediatamente:

13

A Revelação Carlos da Terra

- Paula, quem é o Dino?

Paula respondeu com um sorriso e completou...

- Dino é o nome de uma pessoa que é também uma parte do cristal!

Andávamos bastante, mas estranhamente, não ficávamos fatigados.

Quanto mais eu admirava Paula, a cachorra Sedna e as frutas, tantas

que encontrávamos, mais ainda eu ficava intrigado, até que não resisti e falei disfarçando uma

pergunta...

- Paula, não seria você, uma linda mulher, jovem demais para falar e

conhecer coisas com tanta profundidade?

- Eu não sou tão jovem – respondeu-

Após um lapso de tempo ela prosseguiu...

- Você conta os anos que se passam e por isso se confunde. O tempo

está dentro de cada um e a matéria se manifesta diferentemente nos vários pontos do universo.

Não há a passagem do tempo, senão pelo afastamento da natureza e pelo ofuscamento da

verdade do cristal. Aqueles que vivem na natureza e compreendem o cristal supremo, na

plenitude da equidade, jamais envelhecem – sentenciou-.

Calei-me, tentando entender, e prosseguimos na cerrada mata,

percorrendo uma picada em meio à um denso nevoeiro e ouvindo cantos variados e bonitos

de pássaros.

Após uma pequena curva vislumbrou-se uma clareira e ao fundo

desta, uma entrada gigantesca de caverna. Tudo escuro, mas as laterais da caverna ainda

brilhavam com o tosco sol que batia sobre as pedras úmidas da oscilante neblina da floresta.

Pareceu-me ver, na entrada majestosa da gigantesca caverna, pilastras

das grandes catedrais francesas.

Paramos meio assustados, ao que Paula nos disse...

- Não temam; lá dentro o cristal os espera!

Sedna saiu na frente e sua figura foi esvanecendo conforme ela

penetrava na sombria caverna, até que não a vimos mais, completamente..

Quando Sedna sumiu, eu me senti um pouco desprotegido, confesso!

A entrada plúmbea da caverna nos fez querer recuar, mas já estávamos

tão próximos do nosso objetivo que nos parecia um caminho sem volta; impossível de recuar,

pelos impulsos naturais que sentíamos percorrer nossas veias.

Repentinamente Sedna reapareceu na grande porta da caverna latindo

duas vezes, compassadamente. Logo após o segundo latido Paula, começou a entrar na

caverna e nós a seguíamos incontinentes, movidos por uma força interior incompreensível,

para nós.

Dentro da caverna, andamos por lugares misteriosamente iluminados.

Candeias apensas à pedra, onde não se via qualquer parafuso ou pinça para prender,

funcionavam sem exalar qualquer cheiro de petróleo ou fazer qualquer ruído. À meia luz,

mas com agradável sensação, passamos por vários lagos formados de rios cuja nascente era ali

mesmo, no interior da caverna.

14

A Revelação Carlos da Terra Ao contornarmos uma grande rocha, vislumbramos um brilho muito

intenso, como se fora uma luz incandescente e Paula nos olhou serenamente e apontou para

essa rocha dizendo firmemente:

- Vamos...

Seguimo-la como os escoteiros seguem seu chefe, ansiosos e um tanto

apreensivos...

Ao penetrarmos em um grande salão que nos parecia todo em pedras

de ardósia, ou talvez esmeralda, deparamo-nos com uma estrutura de vidro ou semelhante

matéria, profusamente brilhante, com lados sextavados e que pulsava como no compasso do

bater do coração soltando inúmeros raios coloridos de vários tons e intensidade, por todas as

direções do magnífico salão.

Aproximamo-nos cuidadosamente, reverentemente, e os raios cederam

à nossa aproximação, interrompendo-se paulatinamente.

Paula apontou para a grande estrutura e...

- Amigos... eu lhes apresento o cristal: a verdade que vieram buscar!

Nossos rostos ficaram tão petrificados quanto a caverna e nós não

conseguíamos falar absolutamente nada e não tiramos o olho do misterioso cristal.

Eu fui para um lado e o Roberto para o outro, quase que de modo

instintivo, ou talvez, guiados por alguma força que não conseguíamos controlar.

Então, nos gomos sextavados do Cristal - que ficavam mais ou menos

à altura de nossas cabeças -, começaram a surgir imagens, que pareciam de televisão ou

cinema. Em cada um dos gomos, as imagens tinham um tema ou aparentavam determinadas

épocas do nosso mundo.

Do meu lado algumas imagens gravadas de homens rudes e com

vestimentas antigas construindo casas e do lado do Roberto, pássaros de diversas raças

construíam ninhos que variavam de muito pequenos até admiravelmente grandes.

Demos mais um passo e, nos vimos defronte a outro gomo do Cristal

sextavado e a partir daí as faces nos mostravam imagens idênticas tanto para mim, quanto

para o Roberto; As faces mostravam muitas tragédias, com rios e praias invadindo casas e os

seres viventes em conflito, destruindo-se entre si.

Outra tela do Cristal nos mostrava a impressionante construção das

pirâmides e uma discussão entre faraós e sábios da época sobre onde seriam guardados os

documentos da época que serviriam à nova civilização, que nasceria mais de quinhentos anos

depois da eminente catástrofe.

Um faraó, sentado à frente de uma grande mesa dizia o seguinte:

- A grande catástrofe se aproxima! Devemos deixar documentos aos

nossos sucessores que surgirão após vários séculos, para, quem sabe, possam eles não

cometerem os mesmo erros que nós e assim evitarem nova catástrofe.

Outro grande faraó, perguntou:

- Mas, se haverá a destruição total, de toda a carne no planeta, de onde

surgirá o novo homem e que feições ele terá?

15

A Revelação Carlos da Terra

- Nem mesmo a imprudência do homem conseguirá a aniquilação total

da humanidade. Homens que hoje vivem em total isolamento, em meio à florestas e em

grandes cavernas, não serão atingidos pela radioatividade. Essas pessoas são muito

rudimentares em seu conhecimento e terão seus filhos que nada saberão da catástrofe, mas

outros que estejam em estações espaciais também sobreviverão, porém, estes, estarão

completamente cientes da tragédia, bem como de suas causas.

- Mas, continuou o faraó, esses que estão nas estações espaciais

poderão retornar; Poderão ser eles mesmos porque enquanto se passam muitos anos na Terra,

no espaço se passam poucos anos, mas, mesmo que não sejam eles mesmos, seus filhos serão

adiantados porque no espaço serão obrigados a estudar e se desenvolver para um dia voltarem.

E a fantástica explanação do faraó continuou na tela do Cristal:

- E então, quando esses seres do espaço – adiantados como supomos –

chegarem à Terra, encontrar-se-ão com os filhos daqueles outros seres que viviam em

cavernas e estes, por sua vez, serão muito atrasados em relação aos espaciais, uma vez que

não precisaram de nenhum esforço para tocarem suas vidas; desta forma, os espaciais poderão

ser os novos filósofos do novo mundo, e não poderão jamais usar uma terminologia científica

ou revelar de onde vieram sob pena de serem queimados vivos.

Nesse momento eu, me voltei ligeiramente para o Roberto e

murmurei..

- Roberto... a fábula! A fábula da viagem!

E na tela do fabuloso cristal outro membro da quase sagrada

conferência, bateu sobre a mesa e levantou-se dizendo em tom grave:

- Me parece haver sabedoria nas palavras do grande líder, mas será

difícil encontrarmos um lugar para deixar nossos documentos que deverão ser de ouro e

pedras preciosas que não se deterioram com a passagem do tempo ou com o contato

radioativo. Eu sugeriria que esses objetos ficassem bem à vista, em qualquer lugar muito fácil

de encontrar, assim o acharão sem equívocos.

Imediatamente outro conferente levantou-se dizendo:

- Não! Os documentos não podem ser facilmente encontrados, porque

se o forem antes de dois mil anos de civilização, eles poderão ser destruídos pela

incompreensão dos viventes que estarão em uma fase primitiva, sem qualquer condição de

interpretá-los. Devemos garantir que sejam preservados, inclusive os corpos de algumas

pessoas, pelo menos por dois mil anos que é quanto tempo nossa própria época durou, até

agora.

Um murmúrio se fez no grande salão e Christino e Roberto, pasmadas,

não tiravam seus olhos e ouvidos da tela do Cristal mágico, quando – na tela -outro sábio

levantou-se dizendo:

- Eu concordo! Sugiro que os corpos das pessoas, que precisam ser

preservados porque os vindouros poderão ter outra aparência, sejam depositados em geleiras

naturais ou grandes congeladores artificiais, em locais de difícil acesso. Devemos escolher

atletas e pessoas importantes, como os faraós e sábios, para ficarem ali como modelos desta

época.

16

A Revelação Carlos da Terra

- Não podem ficar em geleiras naturais – retorquiu outro membro – e

nem em congeladores artificiais, porque um leve desvio no eixo terrestre poderá fazer a

geleira derreter-se e tudo se perderá e os congeladores artificiais precisarão de energia

produzida para funcionarem, o que não será possível, no caso desta mesma alteração. Eu acho

que o recurso será deixarmos esse precioso material no espaço. Assim o novo ser terá que

evoluir para chegar a ele e isso poderá ser mais ou menos no mesmo tempo que nossa

civilização durou.

O acalorado debate pareceu ficar em um beco sem saída quando essa

nova estratégia também foi rebatida assim:

- Eu discordo! A nova era poderá não chegar a dois mil anos ou o seu

desenvolvimento tecnológico e científico poderá guiar-se em outra direção e, sem chegar ao

espaço, o novo ser não alcançaria os documentos e nosso esforço e ideal estariam perdidos;

Temos que encontrar uma solução melhor.

E assim, após continuado debate, por vários dias e longas horas de

cada dia, surgiu a solução definitiva, apresentada pelo faraó, que abriu a primeira sessão.

- Caros membros desta fraternidade em vias de extinção... peço-lhes

silêncio e total atenção ao resultado final de nossos estudos.

O saguão assumiu um aspecto funéreo, na tela do cristal; um longo

silêncio precedeu a continuidade do relato que se seguiu assim:

- Chegamos, portanto, à solução que nos pareceu mais viável.

Deixaremos o tesouro maior que poderá ser a salvação do novo mundo, evitando que os seres

cheguem ao mesmo destino trágico iminente para nós. Vamos construir um monumento

gigantesco, bem no centro do planeta, uma espécie de catedral.

- O centro da terra, na superfície – continuou – será, justamente, a

parte menos sujeita a abalos sísmicos e o monumento deverá ter uma forma de triângulo para

não sucumbir. A forma piramidal é a mais estável. Faremos também túneis e passagem

secretas para proteger os documentos dos ladrões;caso a pirâmide seja descoberta antes do

tempo por ladrões, as passagens falsas os confundirão . Ela deverá estar coberta por areia em

curto período, devido às tempestades do deserto; somente quando máquinas e tecnologias

estiverem disponíveis é que os novos estudiosos suspeitarão de suas existências.

E assim, simplesmente, com massa de cimento e ferros e usando de

máquinas potentes, as pirâmides foram construídas e que depois, o tempo foi responsável pela

destruição das máquinas que lá ficaram enquanto as estruturas de concreto transformaram-se

em pedras com rachaduras produzidas pelas intempéries e altas temperaturas, após milênios.

Houve ainda quem dissesse na mesa de debates, que o mais difícil

seria transmitir os conhecimentos, de vez que a linguagem e a escrita, certamente seria outra.

- Construiremos para isso – disse o líder – uma pedra com uma

palavra chave. Apenas restarão ouro e pedra deste nosso mundo e então a escrita terá que ficar

num desses elementos. A pedra é o mais adequado pelo seu provável baixo valor de troca.

Deixaremos uma palavra simbolizada para a decifração de nossa escrita pelos nossos

sucessores daqui á milênios. - Teremos – disse concluindo – que criar uma técnica que

17

A Revelação Carlos da Terra conserve os corpos, utilizando-nos de produtos naturais que saibamos ou que imaginemos,

não se deteriorem.

E por esse motivo e dessa forma surgiu então a mumificação.

Nas telas do Cristal pudemos compreender a finalidade das múmias,

que tinham cabeças em formato bem distinto das nossas e fisionomias tão diferentes; era fácil

perceber que daqueles seres para nós, houve profunda modificação genética.

E o grau de adiantamento dessa civilização não pode ser representado

em sua totalidade, mas mesmo assim era espantoso porque já haviam produzido animais

clonados ou produzidos de forma híbrida, possuindo então, pessoas com cabeças de águia e

leões com corpo de outros animais, e cavalos alados, além de bois muito grandes.

Todos esses elementos, realmente existentes, seriam forçosamente –

pela impossibilidade de compreensão da nova era – considerados como elementos religiosos,

mas pelo que víamos no Cristal agora, de fato existiram!

E fomos andando e vislumbrando imagens fabulosas até que uma das

faces do cristal se abriu como se fosse uma porta automática e um homem, aparentando idade

média, com roupas de linho branco veio em nossa direção; mas parecia que ele não andava e

sim que flutuava na neblina esparsa que cobria todo o chão do cristal. Erguendo sua mão

direita espalmada (do mesmo modo como Paula ergueu para nós lá no casebre) , nos saudou,

proferindo palavras suaves e compassadas:

-Aqueles que chegam até aqui, estão de frente para um espelho de

suas almas e podem ver a si mesmos e dentro de si, e encontrarem a verdade que buscam, que

é sobretudo a equidade.

Ante o silêncio que reinou após as palavras de Dino, eu resolvi

perguntar sobre a palavra que eu já tinha ouvido tantas vezes de Paula e agora dele e

perguntei:

- O que é equidade?

Dino concentrou-se e falou com voz macia e penetrante:

- É o amor genuíno que se espalha por toda a espécie animal; que

supõe um final igual à todos os membros da espécie e a capacidade de desfrutar igualmente da

natureza que lhes foi dada de presente. É - se assim quiserem -, o sumo da justiça a que a

todos os seres foi designado viver e espalhar.

- Aqui – continuou o monge - poderão aprender ou notar que a

doença e a velhice são consequência da ruptura da equidade. A violação deste preceito

sagrado conduz inexoravelmente à infelicidade.

Novamente o monge fez uma pausa prolongada e juntando as mãos,

finalizou como se fosse uma profecia:

- Como outras eras que já ocorreram neste planeta, como vocês

puderam ver nas faces do grande Cristal, eu lhes afirmo que uma nova era se iniciará em

breve.

- Há evidências dessas eras? Perguntei atento

- As grandes evidências são as pirâmides, que os homens não

conseguiram saber-lhes o segredo, apesar de sua enorme evidência; Pensam serem obras de

18

A Revelação Carlos da Terra pessoas de outros planetas, mas na verdade são obras de pessoas daqui mesmo, porém,

pessoas de outras eras, outras civilizações. Se compreendessem seu significado não haveria

outra destruição, e esse é o significado maior de “decifra-me ou devoro-te”; ou conhecem o

que aconteceu e evitam a reincidência, ou o passado que a pirâmide mostra os devorará no seu

futuro.

- Como foi essa destruição? Perguntou Roberto.

- A destruição começou com os animais se devorando mutuamente,

desnecessariamente. O homem, infelizmente, criado para propagar a equidade foi um dos

grandes destruidores dessas outras épocas passadas. Podendo alimentar-se de ervas e frutos

naturais e saudáveis, subverteu essa ordem natural e dizimou animais, comendo-os

ferozmente. Não foi só o homem quem fez isso; outros animais também comeram outros

animais e também não deveriam porque todos estão sob as mesmas leis, no entanto, ao

homem cabia a condução da equidade.

- As pirâmides- continuou o monge - foram construídas como um

grande museu e uma grande escola. Civilizações de diversas épocas, que cometeram as

mesmas agressões à equidade, chegaram a um mesmo ponto e tentaram deixar uma

mensagem advertindo as novas civilizações, como bem lhes mostrou o cristal.

Enquanto ouvíamos, Paula sentou-se em uma pedra polida e tão bem

esculpida que se podia jurar ser uma poltrona, como uma espécie de trono.

Dino nos olhou serenamente de dentro do cristal e mandou que

fôssemos andando em volta, no sentido horário e atentássemos para cada um dos gomos do

cristal.

Andem em volta do cristal, juntos Christino, Roberto e Sedna e verão

as razões da equidade.

E no primeiro gomo do sextavado, abriu-se em meio à uma densa

névoa, uma espécie de tela de cinema onde podíamos ver o que Dino nos contava...

Vimos então pessoas, só que agora eram pessoas de nossa própria era.

O Cristal estava nos mostrando agora um futuro muito próximo que se parecia demais com o

que havíamos visto sobre o passado. Os cientistas, de avental branco em uma grande estrutura

de metal, discutindo; diziam uns aos outros em colocar todas as evidências em uma geleira

natural, uma vez que não se poderia garantir uma câmara fria, funcionando, ainda que,, com

energia solar, de vez que alterações climáticas poderiam e já estavam acontecendo.

E novamente, num murmúrio algumas vozes se elevavam dizendo da

urgência do projeto e que, fatalmente um movimento no eixo terrestre, poderia comprometer

definitivamente o funcionalmente de tal câmara.

Assim, vimos essa idéia ser rejeitada e Dino nos sugeriu mais dois

passos, para ficarmos de frente ao segundo gomo do cristal, que, imediatamente à nossa

presença, encheu-se também de nuvens e as imagens começaram a discorrer.

Vimos os animais sendo mortos e as pessoas comendo seus corpos,

enquanto tentavam, em vão, encontrar uma solução para o enigma da história humana que

queriam contar aos descendentes; Alguns cientistas sugeriram que o ideal seria soltar todos os

19

A Revelação Carlos da Terra documentos e corpos de pessoas e de animais em naves espaciais, as quais poderiam ser

resgatadas pela nova civilização, possivelmente dois mil anos depois, aproximadamente o que

durou a nossa.

Compreendemos claramente que tudo estava se repetindo..

Mais um gomo e vimos animais conduzindo homens para o encontro

de textos sagrados, em cavernas pequenas, onde estavam as normas ditadas da equidade, que

impediria a catástrofe. Mas também vimos, pessoas interessadas no lucro imediato da

destruição, escondendo e alterando esses textos. Agora estávamos vendo não o nosso passado,

mas o futuro iminente.

No outro gomo do cristal vimos a construção magnífica das estátuas

que representavam o avanço tecnológico e científico dos dias que precederam a destruição.

Viam-se, vivos e passeando pelo local, homem com cabeça de gavião,

cabeças de leão com corpos delicados de leopardos e muitas outras figuras, andando vivas,

pelo grande saguão da estrutura de metal.

Um desses homens com cabeça de gavião chegou com uma pedra na

mão, dizendo que seria um código para decifração da escrita, que poderia não ser a mesma na

outra era.

No gomo seguinte do cristal, vimos a grande destruição; Tudo

desmoronando e pessoas e animais aflitos tentando se salvar em meio à água abundante, raios

incessantes e violentos, vendaval, e as coisas materiais, de metal trabalhado, sendo

arremessadas pelo forte vento, batendo e matando inúmeras pessoas.

Diante de nosso espanto e da calma e passividade de Paula, Dino nos

convidou a entrar no cristal...

- Agora vocês podem entrar no cristal e conhecerão um mundo onde a

equidade é a lei divina, como também aqui foi designada, porém nesse lugar ela foi respeitada

e por isso essas coisas terríveis não poderão acontecer.

Paula levantou-se e Sedna a seguiu para dentro do cristal... Entramos

em seguida.

O Cristal nos parecia pequeno por fora, mas, do lado de dentro parecia

gigantesco e no interior, muitas luzes cintilavam, oscilando entre o verde e o vermelho.

Assim que entramos, o lado que nos serviu de porta se fechou

silenciosamente e ouvimos como um forte trovão, seguido de raios que vinham da parte de

baixo, como se fosse uma descarga elétrica do próprio cristal, e olhamos para cima, quando

vimos a enorme cúpula da caverna, abrir-se em quatro partes.

Nesse momento vislumbramos o céu, já com estrelas e a lua clareando

as laterais das paredes, abertas como uma laranja cortada em partes.

Ao tremor estonteante, me pareceu que o cristal se movia, embora não

nos mexêssemos e nem sentíssemos qualquer vertigem ou mal estar, pareceu-me que

estávamos subindo...

De fato, olhando para os lados eu pude confirmar... Estávamos

mesmo, subindo, porque o cume das paredes laterais ficava rapidamente mais curto e em

poucos segundos, como se fosse uma mágica que Dino fazia sem tocar em nada, vimos passar

20

A Revelação Carlos da Terra ao nosso lado meteoros e víamos estrelas à nossa volta, quando então senti vontade de olhar

para o chão do cristal.

O chão ficou transparente e eu pude ver a enorme bola azul que ficava

para trás e ainda se vislumbrava grandes oceanos e elevações.

Um certo terror nos assolava, mas o sorriso de Paula e a tranqüilidade

de Sedna, nos deixavam serenos.

Em um tempo muito curto, quase inimaginável para tantas passagens,

o cristal parou de oscilar e a intermitência das luzes se fez menor, enquanto a porta se abria.

Vimos ao redor, muitas pessoas, aparentemente nuas ou com alguma

roupa tão aderida à pele, que não se podia distinguir nem o sexo das pessoas e, ao lado delas

muitos animais, de várias espécies, que tinham em seus semblantes, a mesma expressão de

paz e ternura daquelas pessoas.

Dino elevou o dedo indicador suavemente em direção ao grupo que

nos recebia e disse:

- Por aqui, começam a conhecer a equidade. Suas visões serão mais

eficientes do que milhares de palavras.

Vimos então pelos caminhos que começamos percorrer, flores

belíssimas como se fosse uma eterna primavera, e não fazia frio e nem calor, com uma

temperatura agradabilíssima. Muitas árvores repletas de frutos e crianças e animais, juntos, os

comiam.

Não pude conter meu entusiasmo e curiosidade e imediatamente

perguntei ao Dino.

- A quem pertencem essas árvores e frutas?

- Ao Criador que está em nós todos e em toda a obra de criação e ao

sorvermos a fruta, estabelecemos o colóquio com ele.

- E a que horas e onde vocês almoçam?

- Não existe, aqui, a hora como na Terra. Aqui não contamos o tempo

e não almoçamos também. Comemos algumas frutas a hora que desejamos e em companhia

da fraternidade, que é composta por todos os animais, de todas as espécies.

- Vocês comem apenas isso? Só frutas?

- Sim.. apenas frutas e alguns poucos legumes, como foi nos instruído

desde o princípio, e como também lhes foi dito e ocultado dos livros sagrados. Não sentimos

o que vocês chamam de fome, porque nosso organismo, o estômago, não foi dilatado para

criar essa dependência nociva. Comemos fruta por prazer e para comemorar a vida.

Quase que instintivamente estiquei o braço e peguei uma fruta

deliciosa e desconhecida para mim; logo me contaram que se tratava de uma fruta chamada

grumixama e que ela também existia no nosso planeta, mas que permanecia um pouco

encoberta pela pessoas procurarem outras coisas, que não são para comer. Pude ver, que esse

momento era mesmo solene e que parecia, como Dino havia dito, uma comemoração.

E ao ver que o tempo não passava para aquelas pessoas, e que todas

tinham um aspecto saudável e bonito, não pude me conter e perguntei...

21

A Revelação Carlos da Terra

- Tenho que fazer uma pergunta, um tanto desagradável, porém

cabível, caro Dino. É tudo muito bonito e cheiroso e as pessoas aparentam uma limpeza

maravilhosa, divinal, no entanto, como você sabe, na Terra, temos um problema crucial e esse

problema é sem dúvida responsável por grande deterioração dos mananciais e da fauna

também; estou me referindo ao sistema de esgotos, que não é nada poético, mas que é uma

realidade e já requereu profundos estudos no nosso planeta.. Esse sistema polui rios, mares e

causa, por progressão geométrica, a deterioração de toda a vida existente.

Observando a face tranquila do Dino, eu amealhei coragem para

continuar...

- Assim, como eu já disse, embora seja um aspecto desagradável eu

tenho que perguntar. Onde é que são depositados os dejetos de sua civilização?

- Não temos, Christino, dejetos que requeiram sistema de esgotos; não

desse sistema, de maneira nenhuma. Como nossa alimentação é exclusivamente frugal,

expelimos em grande maioria, apenas líquidos incolores e inodoros que são facilmente

absorvidos pela terra que os transforma em seiva fertilizante. Os poucos dejetos com pequena

solidez, tanto de humanos, como de qualquer outro animal, constituem-se de matéria orgânica

também inodora e rapidamente volátil. O curto tempo de permanência desse dejeto no solo,

transforma-o, quase de imediato, como folhas de arbustos que se misturam suavemente à

outra natureza. Todos os animais alimentam-se exclusivamente de frutos e uns poucos

vegetais.

A maravilha daquela civilização impressionante causou maior impacto

quando Dino explicou que, qualquer veículo lá existente, não poluía e nem fazia ruído, porque

era mantido pela mesma força vital que mantinha os animais se movimentando, mas que

apenas ao que iam para lá em definitivo, compreenderiam o evento. Por enquanto, segundo

Dino, nos bastaria observar que a massa corpórea de uma grande ave, por exemplo, tem um

peso equivalente a de algumas pedras e seu vôo é também um mistério, embora sua

ocorrência seja trivial.

Nesse momento, passou à nossa frente, uma mulher lindíssima,

angelical, de cabelos esvoaçantes e soltos, com a aparência de cinquenta anos e olhando para

ela eu perguntei:

-Esta mulher nasceu aqui?

- Nenhum de nós nasceu aqui e estamos mais ou menos com a mesma

aparência exterior do dia em que chegamos, no entanto os bem velhos e os bem novos, têm a

mesma disposição e podem fazer as mesmas coisas por causa de sua alimentação e respeito à

equidade.

- O que é, Dino, a equidade, afinal?

- É tudo o que você viu aqui, e que lhe dará elementos para sua

reflexão, daqui por diante. Jamais sua vida intelectual será como antes de sua visita;

considere-se um escolhido.

Dino nos chamou de volta ao cristal e entramos como se fosse para

olhar alguma coisa, mas a porta se fechou. Não notei a entrada de Paula e de Sedna.

22

A Revelação Carlos da Terra Senti-me adormecer levemente e, meio estonteante, percebi

novamente –como quando estávamos na caverna - aquele som e o torvelinho...

Sem compreender sequer meus sentimentos, vi-me repentinamente

sentado no mesmo toco de árvore com Roberto e olhei assustado à minha volta... nada eu

vi.Esfreguei os olhos tentando acordar de um sono pesado. Ouvi passos, lentos e oscilantes,

semelhantes àqueles que precederam Paula, antes de tudo. Por vezes parava e outras vezes seu

ruído se acentuava.

Surgiu, armado de fuzil, um velho caçador, barbudo e rude, que nos

interpelou com voz áspera e grave...

- Estão perdidos por aqui? Esta é uma região perigosa.

Sem compreender o que estava acontecendo eu falei..

- Nós estamos esperando por Paula, que mora nesta casa.

- Essa casa é abandonada há muito tempo e a mulher que aí morava já

morreu. Ela tinha um cachorro que foi embora e nunca mais voltou. Jamais se encontrou

sequer o corpo da moradora; ela deve ter morrido na floresta e o cão deve ter saído à sua

procura.

- Mas a casa está toda arrumada e tem chaleira no fogo! Disse eu

admirado.

- O caçador abriu a porta e lá dentro apenas teias de aranha e velhos

caixotes que outrora poderiam ter servido de móveis, todos apodrecidos.

Sem compreender, atônito, eu perguntei ao homem e fui informado ser

uma terça feira.

- Puxa! Dormimos por um dia inteiro.

Perguntamos ao caçador sobre o monge que habitaria a caverna por ali

e ele nos disse.

- Essa é uma velha lenda, usada por nossos antepassados para distrair

as crianças. Jamais existiu esse monge por aqui.

Resolvemos então, retornar à nossas casas.

Confusos, saímos em retirada para o carro que estava coberto de

poeira e pelo caminho, quase engasgados e afônicos, olhávamo-nos espantados e aos poucos

fomos descobrindo que misteriosamente – talvez por efeito de nossas conversas – havíamos

tido um sonho muito parecido, enquanto dormíamos na porta do casebre!

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