A tragédia do euro por Philipp Bagus - Versão HTML

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A TRAGÉDIA DO EURO

Índice

Agradecimentos.............................................................................................................................

Prefácio..........................................................................................................................................

Prefácio à edição brasileira............................................................................................................

1. Introdução..............................................................................................................................

2. Duas visões para a Europa ....................................................................................................

3. A dinâmica do papel-moeda fiduciário de curso forçado .....................................................

4. A estrada para o euro .............................................................................................................

5. Por que os países de alta inflação queriam o euro .................................................................

6. Por que a Alemanha abriu mão do marco alemão .................................................................

7. O monopólio monetário do BCE ...........................................................................................

8. Diferenças entre o Fed e o BCE na criação de dinheiro ........................................................

9. Por que a União Monetária Europeia é um sistema autodestrutivo ......................................

10. Por que a União Monetária Europeia é um sistema gerador de conflitos..............................

11. O caminho para o colapso .....................................................................................................

12. A espiral intervencionista se acelera.......................................................................................

13. O futuro do euro ....................................................................................................................

14. Conclusão .............................................................................................................................

REFERÊNCIAS ...........................................................................................................................

Gráficos:

Gráfico 1: Taxas de juros nominais para os títulos de três meses da Alemanha, da

Grécia, da Espanha, da Irlanda, da Itália e de Portugal (1987-1998) ...........................................

Gráfico 2: Indicadores de competitividade baseados em custos da unidade de trabalho

(salários dividido pela produção total) para países do Mediterrâneo e a Irlanda, 1995-

2010 (1º trimestre de 1999 = 100) ................................................................................................

Gráfico 3: Indicadores de competitividade baseados em custos da unidade de trabalho

(salários dividido pela produção total) para Bélgica, Holanda, Áustria e Alemanha,

1995-2010 (1º trimestre de 1999 = 100) .......................................................................................

Gráfico 4: Balança comercial de 2009 (em milhões de euros) .....................................................

Gráfico 5: Balança comercial 1994-2009 (em milhões de euros) ................................................

Gráfico 6: Vendas no varejo na Alemanha, nos EUA, na França e no Reino Unido (1996

= 100) ............................................................................................................................................

Gráfico 7: Vendas nos varejo da Espanha (2000 = 100) ..............................................................

Gráfico 8: Aumento percentual do M3 (sem considerar a quantidade de dinheiro físico

em circulação) na Espanha, na Itália, na Grécia, na Alemanha e em Portugal (1999-

2010) .............................................................................................................................................

Gráfico 9: Déficits em porcentagem do PIB na zona do euro em 2007, 2008 e 2009 .................

Gráfico 10: Taxa de juros sobre os títulos de 10 anos da Grécia (Agosto de 2009—Julho

de 2010) ........................................................................................................................................

Gráfico 11: Dívida em porcentagem do PIB na zona do euro, 2007, 2008 e 2009 ......................

Gráfico 12: Déficits em porcentagem do PIB na zona do euro em 2009 .....................................

Gráfico 13: Taxa de câmbio Euro/Dólar ......................................................................................

Tabelas:

Tabela 1: Porcentagem do pacote de socorro por país .................................................................

Tabela 2: Exposição dos bancos franceses e alemães à dívida governamental (em 31 de

dezembro de 2009) .......................................................................................................................

Para Eva

Agradecimentos:

Gostaria de agradecer a Daniel Ajamian, Brecht Arnaert, Philip Booth, Brian Canny,

Nikolay Gertchev, Robert Grözinger, Guido Hülsmann e Robin Michaels por seus

prestimosos comentários e sugestões em relação a meu esboço inicial, a Arlene Oost-

Zinner pela sua meticulosa edição, e a Jesús Huerta de Soto por ter escrito o prefácio.

Todos os erros remanescentes são culpa exclusivamente minha.

Prefácio

Por Jesús Huerta de Soto

É para mim um grande prazer apresentar este livro escrito pelo meu colega Philipp

Bagus, um de meus mais brilhantes e promissores alunos. O livro surge em um

momento extremamente oportuno e mostra como o arranjo intervencionista criado pelo

sistema monetário europeu levou à atual situação calamitosa.

A atual crise da dívida soberana europeia, com vários países ameaçando dar o calote em

suas dívidas, é resultado direto da expansão da moeda e do crédito feita pelo sistema

bancário europeu. No início dos anos 2000, o crédito foi expandido principalmente nos

países periféricos da União Monetária Europeia, como Irlanda, Grécia, Portugal e

Espanha. As taxas de juros desses países foram substancialmente reduzidas em

decorrência tanto da expansão creditícia feita pelo seu sistema bancário quanto da queda

das expectativas inflacionárias e dos prêmios de risco (taxa embutida nos juros de um

empréstimo quando existe a chance de que tal empréstimo não seja pago).

A acentuada queda nas expectativas inflacionárias foi causada pelo prestígio do então

recém-criado Banco Central Europeu, o qual foi concebido como uma cópia do

Bundesbank, o Banco Central alemão. Os prêmios de risco dos países periféricos foram

artificialmente reduzidos em decorrência do apoio dado ao arranjo pelas nações mais

fortes. O resultado foi uma expansão econômica artificial. Houve o surgimento de

várias bolhas nos preços de ativos, como uma bolha imobiliária na Espanha e na

Irlanda. O dinheiro recém-criado foi inicialmente injetado nos países da periferia, onde

ele foi utilizado para financiar o consumismo e os investimentos errôneos e

insustentáveis, principalmente nos setores automotivo e da construção civil, ambos

exageradamente sobredimensionados. Ao mesmo tempo, a expansão do crédito ajudou

também a financiar e expandir estados assistencialistas insustentáveis.

Em 2007, começaram a surgir aqueles efeitos microeconômicos que revertem qualquer

expansão econômica artificial que foi financiada pela mera expansão do crédito e não

pela genuína poupança (a abstenção do consumo que permite a formação de capital para

ser investido). Os preços dos meios de produção, tais como commodities e salários,

começaram a subir. As taxas de juros também aumentaram devido às pressões

inflacionárias, as quais fizeram com que os bancos centrais tivessem de desacelerar suas

políticas monetárias expansionistas. Finalmente, os preços dos bens de consumo

começaram a subir em relação aos preços oferecidos aos fatores de produção. Foi se

tornando cada vez mais óbvio que muitos desses investimentos não eram sustentáveis

devido à falta de poupança real. A maioria desses investimentos ocorreu no setor da

construção civil.

O setor financeiro ficou sob pressão à medida que as hipotecas foram sendo

securitizadas, indo parar direta ou indiretamente nos balancetes das instituições

financeiras. As pressões culminaram no colapso do banco de investimentos Lehman

Brothers, evento esse que levou pânico completo aos mercados financeiros.

Em vez de deixar que as forças de mercado seguissem seu curso, liquidando e

expurgando todos os investimentos ruins, os governos infelizmente optaram por intervir

no necessário processo de ajustamento dos mercados (a recessão). Foi essa lamentável

intervenção que não apenas impediu uma recuperação mais rápida e mais completa, mas

que também produziu, como efeito colateral, a crise da dívida soberana, que explodiu no

primeiro semestre de 2010. Os governos tentaram estimular os setores

sobredimensionados, aumentando os gastos públicos. Eles forneceram amplos

subsídios para a compra de carros novos com o intuito de estimular a indústria

automotiva. Além disto, os governos também incorreram em vários programas de obras

públicas para estimular a agora combalida construção civil, bem como o setor que havia

concedido empréstimos a essas indústrias: o setor bancário.

Ademais, os governos deram sustento direto ao setor financeiro ao dar garantias aos

seus passivos e ao estatizar bancos, comprando seus ativos ou uma fatia de suas ações.

Ao mesmo tempo, o desemprego disparou em decorrência da rigidez e da alta

regulamentação do mercado de trabalho. As receitas dos governos oriundas do imposto

de renda e das contribuições previdenciárias despencaram. Gastos com seguro-

desemprego dispararam. As receitas dos impostos sobre empresas, receitas essas que

estavam artificialmente infladas em setores como o sistema bancário, a construção civil

e a indústria automotiva durante o período do crescimento artificial, foram quase que

completamente aniquiladas. Com receitas em queda e gastos em alta, os déficits e as

dívidas dos governos foram às alturas, como consequência direta das respostas

governamentais a uma crise causada por uma expansão econômica que não tinha base

na poupança real.

O caso da Espanha é paradigmático. O governo espanhol subsidiou a indústria

automotiva, a construção civil e o setor bancário, os quais foram acentuadamente

expandidos durante o boom da expansão do crédito. Ao mesmo tempo, o mercado de

trabalho altamente inflexível fez com que as taxas de desemprego pulassem para 20%.

O resultante déficit público começou a apavorar os mercados e os outros países

membros da União Europeia, os quais finalmente pressionaram o governo a anunciar

algumas tímidas medidas de austeridade, com o intuito de fazer com que ele — o

governo espanhol — pudesse continuar adquirindo empréstimos.

Sob esse aspecto, o fato de o euro ser uma moeda única mostrou uma de suas

"vantagens". Sem o euro, o governo espanhol certamente teria recorrido ao artifício de

desvalorizar sua moeda, como fez em 1993, imprimindo dinheiro para reduzir seu

déficit. Isso teria gerado uma revolução na estrutura de preços da economia espanhola e

um imediato empobrecimento da população, uma vez que os preços dos produtos

importados iriam disparar. Ademais, ao desvalorizar a moeda, o governo poderia

continuar gastando sem ter de fazer quaisquer reformas estruturais. Com o euro, o

governo espanhol (ou qualquer outro governo em apuros) não pode desvalorizar sua

moeda, imprimindo dinheiro diretamente para pagar sua dívida. Consequentemente,

tais governos tiveram de incorrer em medidas de austeridade e em algumas reformas

estruturais após sofrerem pressão da Comissão Europeia e de estados-membros, como a

Alemanha.

Com isso, é bem provável que o segundo cenário delineado por Philipp Bagus neste seu

livro venha a ocorrer. O Pacto de Estabilidade e Crescimento pode vir a ser reformado

e colocado em vigor. Como consequência, os governos da União Monetária Europeia

teriam de continuar e intensificar suas medidas de austeridade e reformas estruturais

com o intuito de obedecer ao Pacto de Estabilidade e Crescimento. Pressionados por

países mais conservadores, como a Alemanha, todos os membros da União Monetária

Europeia seguiriam o caminho das tradicionais medidas anticrise, com corte de gastos.

Em contraste à União Monetária Europeia, os Estados Unidos estão seguindo à risca a

receita keynesiana contra recessões. Na visão keynesiana, durante uma crise o governo

tem de contrabalançar uma queda na "demanda agregada" aumentando os gastos. Com

isso, o governo dos EUA optou por incorrer em gastos deficitários e em políticas

monetárias extremamente expansionistas, tudo com o intuito de "revitalizar" a

economia. Talvez um dos efeitos benéficos do euro tenha sido o de empurrar toda a

UME rumo ao caminho da austeridade. Com efeito, certa vez argumentei que uma

moeda única seria um passo na direção correta, dado que ela iguala as taxas de câmbio

entre todos os países da Europa, acabando assim com o nacionalismo monetário e com o

caos das taxas de câmbio flutuantes manipuladas pelos governos — principalmente em

épocas de crise.

Meu caro colega Philipp Bagus, entretanto, desafiou-me em relação a essa minha visão

positiva sobre o euro. E isso desde a época em que ele era meu aluno. Ele corretamente

apontou as vantagens da competição entre moedas. Seu livro A Tragédia do Euro pode

ser lido como uma elaborada exposição de seus argumentos contra o euro. Ao passo

que, do ponto de vista teórico, uma moeda única extingue o nacionalismo monetário na

Europa, a questão permanece: quão estável é na realidade a moeda única?

Bagus lida com essa questão por dois ângulos, fornecendo ao mesmo tempo as duas

principais façanhas e contribuições do livro: uma análise histórica das origens do euro e

uma análise teórica do funcionamento e dos mecanismos do sistema do euro. Ambas as

análises apontam para a mesma direção. Na análise histórica, Bagus lida com as origens

do euro e do Banco Central Europeu, mostrando como os interesses dos governos

nacionais, dos políticos e dos banqueiros foram fundamentais no processo de

implementação da moeda única.

Considerando os interesses políticos, a dinâmica e as circunstâncias que levaram à

introdução do euro, torna-se claro que o euro pode de fato ser um passo na direção

errada; um passo em direção a uma moeda pan-europeia, de curso forçado e

inflacionária, com o objetivo de abolir os limites que a concorrência e a política

monetária conservadora do Bundesbank haviam imposto antes. A análise teórica de

Bagus deixa o propósito inflacionário do eurossistema ainda mais claro. No livro, o

eurossistema (formado pelo Banco Central europeu e pelos bancos centrais dos diversos

países membros da zona do euro) é exposto como um arranjo autodestrutivo que gera

uma maciça redistribuição de riqueza por toda a UME, com incentivos para que os

vários governos nacionais recorram ao BCE como forma de financiar seus déficits. Ele

mostra como o conceito de Tragédia dos Comuns, que eu já apliquei para o caso do

sistema bancário de reservas fracionárias, é também aplicável para o eurossistema, uma

vez que diferentes governos europeus podem explorar o valor da moeda única.

É uma grande notícia saber que este livro está sendo disponibilizado ao público pelo

Mises Institute. O futuro da Europa e do mundo depende de uma ampla compreensão

sobre teoria monetária e sobre o funcionamento das instituições monetárias. Este livro

provê poderosas ferramentas que ajudam no entendimento da história do euro e de seu

perverso arranjo institucional. Torçamos para que ele possa também mudar a

mentalidade das pessoas, mostrando a importância de um sistema monetário sólido

tanto na Europa quanto em todo o mundo.

Prefácio à edição brasileira

Quando escrevi A Tragédia do Euro, jamais poderia imaginar que, no futuro, viria a

escrever um prefácio para uma edição brasileira do livro. Eu sabia que o euro estava

destinado ao fracasso, mas realmente subestimei o sucesso que o livro viria a ter. Hoje,

o livro já está disponível em inglês americano, inglês britânico, eslovaco, polonês,

italiano, alemão, espanhol, finlandês, português europeu, búlgaro, romeno, holandês e

grego. Enquanto escrevo estas linhas, o livro está sendo traduzido para o francês e para

o russo.

Quando você lê o livro, você entende o porquê de seu sucesso. As pessoas querem

compreender o que realmente está acontecendo na Europa e querem entender, com

detalhes, como uma crise sem conserto e com consequências mundiais pôde ocorrer na

zona do euro. Elas temem o futuro de sua riqueza e de toda a sua poupança acumulada.

Esta crise, com efeito, é muito mais grave hoje do que era quando a primeira edição

deste livro foi lançada em dezembro de 2010. O fundamental problema da zona do euro

não foi de modo algum resolvido. Se alguma coisa ocorreu neste ínterim foi a piora do

problema, uma vez que um enorme volume de dívida pública continuou sendo

impavidamente acumulado.

Fora isso, ainda não houve nenhuma decisão sobre como lidar com o problema

fundamental que atormenta a zona do euro. Quem irá pagar pelos investimentos

insustentáveis que ocorreram no passado e que hoje, após seguidas rodadas de estímulo

governamental, são representados por pilhas e pilhas de dívida pública?

Na Grécia atual, a batalha continua para ver quem irá, no final, pagar a conta destes

investimentos. Durante o início dos anos 2000, uma política monetária expansionista

reduziu artificialmente as taxas de juros. Empreendedores deram início ao

financiamento de projetos que pareciam lucrativos somente por causa dos juros

artificialmente reduzidos; a realidade, no entanto, é que não havia e nem nunca houve

poupança real para sustentá-los. A consequência desta expansão monetária e do crédito

foi o surgimento de bolhas imobiliárias e uma explosão sem precedentes do consumo

nos países da periferia europeia.

Em 2007, as bolhas começaram a estourar. Os preços dos imóveis começaram a

estagnar e até mesmo a cair. Construtoras endividadas e residentes com hipotecas

começaram a dar o calote em seus empréstimos. Isso afetou diretamente os bancos.

Como vários deles haviam financiado estes empreendimentos, eles sofreram prejuízos.

Após o colapso do banco de investimento Lehman Brothers, o mercado de empréstimos

interbancário congelou e entrou em colapso. Os governos intervieram. Eles socorreram

os bancos e assumiram seus prejuízos -- prejuízos estes resultantes de financiamentos

concedidos a investimentos insustentáveis.

Dado que os prejuízos destes investimentos insustentáveis foram socializados, a dívida

pública na zona do euro disparou. Ademais, as receitas de impostos despencaram em

decorrência da crise. Ao mesmo tempo, os governos começaram a conceder subsídios

ao setor industrial e aos desempregados.

Não bastasse tudo isso, mesmo antes da crise, os governos já haviam acumulado

enormes dívidas em decorrência de seus excessivos gastos assistencialistas. Dois

fenômenos incentivaram o aumento dos gastos e a acumulação de dívida nos países

periféricos. O primeiro foi a redução das taxas de juros. As taxas de juros foram

acentuadamente reduzidas em decorrência tanto de uma política monetária

expansionista feita pelo Banco Central Europeu (BCE) quanto pela própria introdução

da moeda única. O euro surgiu tendo como suporte uma implícita garantia de socorro.

Os participantes de mercado sabiam que os governos mais fortes iriam socorrer os

governos mais fracos com o intuito de salvar o projeto político do euro caso o pior

ocorresse. Sendo assim, por causa desta garantia, as taxas de juros que os governos da

Itália, da Espanha, de Portugal e da Grécia tinham de pagar sobre suas dívidas caíram

drasticamente quando estes países foram admitidos ao euro. As baixas taxas de juros

deram a estes países um espaço adicional para incorrerem em mais gastos e, por

conseguinte, em mais déficits.

O segundo fenômeno é que o euro é um exemplo típico da tragédia dos comuns.

Na zona do euro, cada governo nacional pode utilizar o Banco Central para financiar

seus déficits. Os custos destes déficits podem ser parcialmente externalizados e jogados

sobre os outros países, onde eles se transmutam em aumentos de preços.

Atualmente, as dívidas governamentais em vários países da zona do euro são tão altas

que eles jamais serão capazes de pagá-las em termos reais. Governo nenhum é capaz ou

sequer está disposto a fazer isto. Se eles aumentarem impostos, suas economias entram

em colapso e os déficits podem até aumentar como consequência. Se eles reduzirem os

gastos, poderá haver inquietação social. Em ambos os casos, eles perderiam influência

e, principalmente, votos. Como estas dívidas jamais serão quitadas, elas também

representam investimentos insustentáveis.

Investimentos insustentáveis significam que recursos escassos da sociedade foram

desperdiçados e não podem ser recuperados. Riqueza real foi dissipada em gastos

assistencialistas e em pacotes de socorro concedidos a indústrias que só prosperaram

enquanto durou a bolha criada pelo crédito fácil. Mas ainda não está claro quem irá

pagar as perdas geradas por estados assistencialistas insustentáveis e pelo socorro às

indústrias.

Até o início da crise da dívida soberana, a conta estava sendo paga por meio da

redistribuição monetária interna criada pelo arranjo institucional do sistema do euro. Os

principais contribuintes líquidos eram os cidadãos dos países mais fiscalmente sólidos,

como a Alemanha, que estavam implicitamente sendo os fiadores da gastança que vinha

ocorrendo na periferia europeia. Os pacotes de socorro à Grécia, à Irlanda e a Portugal

apenas tornaram este processo de transferência de riqueza mais explícito. Os incentivos

que sempre existiram para se socorrer governos irresponsáveis estão hoje óbvios para

todos. Mas os alemães não mais querem continuar pagando as contas da periferia. As

tensões se avolumam diariamente, com bandeiras alemãs e bonecas de Angela Merkel

com bigodes de Hitler sendo queimadas nas ruas de Atenas.

A pergunta sobre quem irá pagar a conta dos investimentos insustentáveis surge

repetidamente desde o início oficial da crise da dívida soberana em 2010. Mas uma

resposta conclusiva a esta pergunta nunca foi oferecida. E é esta resposta que decidirá o

futuro do euro, o futuro da União Europeia, o futuro das relações de paz na Europa e

talvez até mesmo o futuro monetário do mundo. Não é exagero algum dizer que o

futuro do euro irá mudar as relações de comércio do mundo. Existem várias

possibilidades, em teoria, para este futuro, as quais são analisadas por inteiro na última

seção deste livro, na qual foi incluído um novo capítulo cobrindo todos os

acontecimentos até os dias de hoje.

É de se esperar que esta edição brasileira, expandida em relação à original, contribua

para uma melhor e mais ampla compreensão das questões em jogo na Europa e, quem

sabe, evitar que os mesmos erros sejam cometidos na América do Sul. Embora seja

uma tragédia, desejo a você leitor uma leitura prazerosa e, para nós todos, um final feliz.

Philipp Bagus

Majadahonda, Espanha, 6 de março de 2012

1. Introdução

A recente crise do euro abalou tanto os mercados financeiros quanto os governos. O

euro se desvalorizou acentuadamente em relação a outras moedas em um ritmo

inquietante para as elites políticas e financeiras. Eles temem perder o controle. O

boletim mensal do Banco Central Europeu (BCE), publicado em junho de 2010,

reconhece que o sistema bancário europeu estava à beira do colapso já no início de maio

daquele ano. Vários governos europeus, inclusive o da França, estavam no limiar de um

calote. Com efeito, os riscos de calote de alguns bancos europeus, mensurados pela

cotação de seus credit default swaps,1 elevaram-se repentinamente para níveis mais

altos do que aqueles atingidos durante o pânico que se seguiu ao colapso do Lehman

Brothers em setembro de 2008.

Como resposta à crise, a classe política tentou desesperadamente salvar seu projeto

socialista de um papel-moeda único e de curso forçado para toda a Europa. Até o

presente momento, eles têm tido algum êxito. Após intensas negociações, um “pára-

quedas de socorro”, com o inaudito valor de €750 bilhões, foi criado para dar suporte

aos ultraendividados governos europeus e ao combalido sistema bancário. Ao mesmo

tempo, no entanto, o BCE deu início àquilo que muitos até então imaginavam ser

impensável: ele começou a comprar títulos diretamente dos governos, uma medida que

solapa sua credibilidade e independência.2 Em decorrência disto, a percepção do

público e dos mercados quanto ao arranjo monetário da União Monetária Europeia

(UME) jamais será a mesma.

Uma resistência a essas medidas sem precedentes já é sentida principalmente naqueles

países de políticas orçamentárias e monetárias tradicionalmente conservadoras. Uma

recente pesquisa na Alemanha mostrou que 56% dos alemães eram contra a criação de

um fundo de socorro aos países europeus.3

Não é surpresa alguma que a maioria dos alemães queira o retorno ao marco alemão.4

Eles parecem intuitivamente compreender que são eles que estão do lado perdedor de

um sistema complexo. Eles perceberam que estão tendo de se sacrificar e apertar os

cintos ao mesmo tempo em que os governos de outros países se entregam gostosamente

a uma descontrolada gastança. Uma perfeita ilustração disto é programa “Turismo Para

1 O "Credit Default Swap" (CDS), algumas vezes traduzido como Swap de Crédito, corresponde a uma espécie de seguro contra um eventual calote da instituição referida. Ao emitir um CDS — por meio de terceiros —, essa instituição poderá colocar em circulação um título que permita ao seu titular receber uma compensação caso ocorra alguma moratória.[N. do T.]

2 Aproximadamente um ano antes de começar a comprar títulos diretamente dos governos, o BCE já havia começado a comprar covered bonds [ títulos garantidos por financiamentos imobiliários ou comerciais (com garantia real dos imóveis) e por empréstimos ao setor público] emitidos pelos bancos alemães. As compras foram progressivas e chegaram a €60 bilhões.

3 Cash-online, "Forsa: Deutsche überwiegend gegen den Euro-Rettungsschirm." Notícia de 7 de junho de 2010, http://www.cash-online.de.

4 Shortnews.de, "Umfrage: Mehr als die Hälfte der Deutschen wollen die DM zurück haben." Notícia de 29 de junho de 2010, http://shortnews.de.

Todos” da Grécia: os pobres gregos recebem dinheiro do governo para viajar de férias.

Mesmo em meio à crise, o governo grego manteve o programa, embora reduzindo o

número de noites de férias subsidiadas para apenas duas.5 O governo grego também

mantém um sistema previdenciário mais generoso que o da Alemanha. Os

trabalhadores gregos recebem uma aposentadoria que pode chegar a 80% da média de

seus salários. Para os trabalhadores alemães, esse valor é de apenas 46%, e irá cair para

42% no futuro. Ao passo que os gregos recebem quatorze aposentadorias por ano, os

alemães recebem doze.6

Os alemães veem os pacotes de socorro à Grécia como uma espoliação. Tais pacotes

tornam ainda mais explícito o fato de que a UME nada mais é do que um arranjo de

transferências involuntárias. Porém, a maioria das pessoas ainda assim não entende

exatamente como e por que elas estão sendo espoliadas para pagar por tudo isso. Elas

apenas suspeitam que o euro tenha algo a ver com toda a bagunça.

O projeto do euro foi criado e implantado por socialistas europeus com o intuito de

expandir e aprimorar seu sonho de um estado europeu centralizador. Mas esse projeto

está prestes a fracassar. O colapso está longe de ser uma mera coincidência. Ele já

estava implícito na estrutura institucional da UME, cuja evolução iremos remontar e

delinear neste livro. A história envolve intrigas e interesses políticos e econômicos.

Trata-se de uma fascinante história, na qual políticos brigam por poder, influência e pela

primazia de seus próprios egos.

5 GRReporter, "The Social Tourism of Bankrupt Greece," July 12, 2010, http://www.grreporter.info. No verão de 2010, vários empreendedores gregos não quiseram atender clientes que estavam participando

deste programa, pois o governo grego costumava pagar as contas destas pessoas com um atraso de seis

meses — quando pagava.

6 D. Hoeren and O. Santen, "Griechenland-Pleite: Warum zahlen wir ihre Luxus-Renten mit Milliarden-Hilfe?" bild-online.de, April 27, 2010, http://bild.de.

2. Duas visões para a Europa

Duas visões da Europa

Desde o início da União Europeia, tem havido um conflito entre os defensores de dois

ideais diferentes. Qual postura o continente europeu deve adotar: a visão liberal-

clássica ou visão socialista? A introdução do euro teve um papel decisivo sobre as

estratégias dessas duas visões.7 Para se entender melhor os problemas causados pela

adoção de uma moeda única, bem como a história por trás de sua adoção, é importante

estar familiarizado com essas duas visões divergentes e essenciais, assim como com as

subsequentes tensões que vieram à tona em decorrência de uma moeda única.

A visão liberal-clássica

Os pais fundadores da União Europeia, Maurice Schuman (França [nascido em

Luxemburgo]), Konrad Adenauer (Alemanha) e Alcide de Gasperi (Itália), todos

católicos que falavam alemão, eram adeptos da visão liberal-clássica para a

Europa.8 Eles também eram democratas-cristãos. A visão liberal-clássica considera a

liberdade individual como sendo o mais importante valor cultural dos europeus e do

cristianismo. De acordo com essa visão, a função dos estados soberanos europeus é

proteger os direitos de propriedade e a economia de livre mercado em uma Europa de

fronteiras abertas, permitindo desta forma o livre comércio de bens, serviços e ideias.

O Tratado de Roma, assinado em 1957, foi a principal realização para a criação de uma

Europa baseada no liberalismo clássico. O tratado estabeleceu quatro liberdades

básicas: livre circulação de bens, livre oferta de serviços, livre movimentação de capital

financeiro e livre migração. O tratado também restaurou direitos que haviam sido

essenciais para a Europa durante a vigência do período liberal-clássico no século XIX,

mas que haviam sido abandonados durante a era do nacionalismo e do socialismo. O

tratado representou a rejeição da era do socialismo, período esse que havia gerado

conflitos entre as nações européias, culminando em duas guerras mundiais.

7 Ver Jesús Huerta de Soto, "Por una Europa libre," in Nuevos Estudios de Economía Política (2005), pp.

214-216. Ver Hans Albin Larsson, "National Policy in Disguise: A Historical Interpretation of the EMU,"

in The Price of the Euro, ed. Jonas Ljundberg (New York: Palgrace MacMillan, 2004), pp. 143-70, sobre as duas alternativas para a Europa.

8 Outro importante defensor desta visão foi o político alemão Ludwig Erhard, pai do Wirtschaftswunder (o milagre econômico alemão). Erhard criticou as intenções de se introduzir um “planejamento” para a Europa. Ver Ludwig Erhard "Planification – kein Modell für Europa," in: Karl Hohmann (ed.), Ludwig Erhard. Gedanken aus fünf Jahrzehnten, Düsseldorf: ECON, pp. 770-780. Erhard criticou até mesmo o Tratado de Roma por causa de seus componentes intervencionistas. Ele e outros alemães consideravam o projeto europeu como sendo neomercantilista. Ver Michael Wohlgemuth, "Europäische Ordnungspolitik, Anmerkungen aus ordnungs- und konstitutionenökonomischer Sicht, " in ORDO: Jahrbuch für Ordnung von Wirtschaft und Gesellschaft, (2008), pp. 381-40. Uma base teórica para esse visão é explicitada em Hans Sennholz, How can Europe Survive (New York: D. Van Nostrand Company, 1955). Sennholz

critica os planos para uma cooperação governamental criados por diferentes políticos, e mostra que

apenas a liberdade pode eliminar a causa dos conflitos na Europa. Sobre a importância de líderes

políticos católicos para a formação do Mercado Comum durante os primórdios da integração europeia ver

“Catholicism Growing Strong in Europe,” Irish Independent, October 28th, 1959.

A visão liberal-clássica visa à restauração das liberdades do século XIX. A livre

concorrência, sem barreiras à entrada nos mercados, deveria prevalecer em um mercado

comum europeu. De acordo com essa visão, ninguém poderia proibir um cabeleireiro

alemão de cortar cabelos na Espanha, e ninguém poderia tributar um inglês que quisesse

transferir dinheiro de um banco alemão para um banco francês, ou que quisesse investir

no mercado de ações da Itália. Ninguém poderia impedir, por meio de regulamentações,

que uma cervejeira francesa vendesse suas cervejas na Alemanha. Nenhum governo

poderia dar subsídios, algo que distorce e corrompe o sistema de livre concorrência.

Ninguém poderia impedir que um dinamarquês fugisse de seu estado assistencialista e

de sua alta carga tributária e migrasse para um estado com uma carga tributária mais

baixa, como a Irlanda.

Para atingir esse ideal de cooperação pacífica e prosperidade comercial, o único pré-

requisito necessário seria a liberdade. De acordo com essa visão, não haveria nenhuma

necessidade de se criar um superestado europeu. Com efeito, a visão liberal-clássica é

completamente cética no que diz respeito a um estado central europeu; tal criação é

considerada prejudicial e perniciosa para as liberdades individuais. Filosoficamente

falando, muitos defensores dessa visão são inspirados pelo catolicismo, e as fronteiras

da comunidade europeia são definidas pelo cristianismo.

De acordo com a doutrina social católica, o princípio da subsidiariedade deveria

prevalecer: os problemas deveriam ser resolvidos no nível mais baixo e menos

concentrado possível dos arranjos. A única instituição centralizada europeia aceitável

seria uma Corte de Justiça Europeia, com suas atividades sendo restritas à resolução de

conflitos entre os estados-membros e à garantia das quatro liberdades básicas.

Do ponto de vista liberal-clássico, deveria haver vários sistemas políticos concorrentes,

como ocorreu na Europa durante séculos. Desde a Idade Média até o século XIX,

existiram sistemas políticos muito diferentes, tais como as cidades independentes de

Flandres (região no noroeste da Europa, que inclui partes da Bélgica, França e

Holanda), da Alemanha e do norte da Itália. Havia reinados, como os da Bavária e da

Saxônia, e havia repúblicas, como a de Veneza. A diversidade política era demonstrada

de modo mais explícito na fortemente descentralizada Alemanha. Sob essa cultura de

diversidade e pluralismo, a ciência e a indústria se desenvolveram e prosperaram.9

A concorrência em todos os níveis é essencial para a visão liberal-clássica. Ela gera

uma congruência, uma vez que a qualidade dos produtos, os preços dos fatores de

produção e, principalmente, os salários tendem a convergir. O capital vai para os locais

onde os salários são menores, o que provoca sua elevação; os trabalhadores, por outro

lado, vão para onde os salários são mais altos, o que faz com que essa maior oferta de

mão-de-obra os reduza. Os mercados oferecem soluções descentralizadas para os

problemas ambientais, baseando-se na propriedade privada. A concorrência política

assegura o mais importante valor europeu: a liberdade.

9 Roland Vaubel, "The Role of Competition in the Rise of Baroque and Renaissance Music," Journal of Cultural Economics 25 (2005): pp. 277-97, argumenta que o surgimento da música barroca e

renascentista na Alemanha e na Itália resultou da descentralização desses países e da subsequente

concorrência entre eles.

A concorrência tributária promove alíquotas de impostos mais baixas, bem como a

responsabilidade fiscal. As pessoas "votam com seus pés", saindo dos países com carga

tributária abusiva, como fazem as empresas. Nações soberanas concorrendo entre si

com diferentes cargas tributárias são vistas como a melhor proteção contra a tirania. A

concorrência também se dá na questão das moedas. Diferentes autoridades monetárias

competem para oferecer a moeda de maior qualidade. As autoridades que oferecem

moedas mais estáveis exercem pressão sobre as autoridades mais displicentes, e estas

são obrigadas a se adequar e seguir o exemplo daquelas.

A visão socialista

Em direta oposição à visão liberal-clássica tem-se a visão socialista ou imperial da

Europa, defendida por políticos como Jacques Delors e François Mitterrand. Uma

coalizão de interesses estatistas entre grupos nacionalistas, socialistas e conservadores

faz o que pode para promover e avançar sua agenda. Tal coalizão quer ver a União

Europeia como um império ou uma fortaleza: protecionista para quem está de fora e

intervencionista para quem está dentro. Esses estatistas sonham com um estado

centralizado e controlado por tecnocratas eficientes — atributo este que todos os

tecnocratas estatistas imaginam ter.

Dentro deste ideal, o centro do Império deveria governar toda a periferia. Haveria uma

legislação comum e centralizada. Os defensores da visão socialista para a Europa

querem erigir um megaestado europeu, reproduzindo as nações-estado em um nível

continental. Eles querem um estado assistencialista europeu que garanta a

redistribuição de riqueza, a regulamentação econômica e a harmonização das

legislações dentro da Europa. A harmonização dos impostos e as regulamentações

sociais seriam executadas pelo mais alto escalão da burocracia. Se o imposto sobre

valor agregado estiver variando entre 15 e 25% dentro União Europeia, os socialistas

iriam harmonizá-lo em 25% para todos os países. Tal harmonização das

regulamentações sociais é do interesse dos mais protegidos, mais ricos e mais

produtivos trabalhadores, que podem "arcar" com os custos dessas regulamentações —

ao passo que seus concorrentes não podem. Por exemplo, se as regulamentações sociais

alemãs fossem aplicadas aos poloneses, estes teriam grandes problemas para concorrer

com aqueles.

A intenção desse ideal socialista é conceder cada vez mais poderes para o estado central

— isto é, para Bruxelas. A visão socialista para a Europa é a ideal para a classe política,

para os burocratas, para os grupos de interesse, para os privilegiados e para os setores

subsidiados que querem criar um poderoso estado central visando ao seu próprio

enriquecimento. Partidários dessa visão apresentam um megaestado europeu como uma

necessidade, e consideram sua total implementação apenas uma questão de tempo.

Ao longo desse caminho socialista, o estado central europeu iria se tornar um dia tão

poderoso, que os estados soberanos passariam a lhe prestar total subserviência. (Já

podemos ver os primeiros indicadores de tal subserviência no caso da Grécia. A Grécia

se comporta hoje como um protetorado de Bruxelas, que diz ao governo grego como ele

deve lidar com seu déficit orçamentário.)

A visão socialista não fornece nenhuma limitação geográfica explícita para o estado

europeu — ao contrário da visão liberal-clássica inspirada no catolicismo. A

concorrência política é vista como um obstáculo para o estado central, o qual, no ideário

socialista, deve sair completamente de qualquer controle por parte do público. Nesse

sentido, o estado central na visão socialista se torna cada vez menos democrático à

medida que o poder vai sendo deslocado para burocratas e tecnocratas. (Um bom

exemplo disso é a Comissão Europeia, o corpo executivo da União Europeia. Os

membros da comissão não são eleitos, mas sim designados pelos governos dos estados-

membros.)

Historicamente, os precedentes para esse velho plano socialista de criar um estado

central controlador na Europa foram estabelecidos por Carlos Magno, Napoleão, Stalin

e Hitler. A diferença, entretanto, é que dessa vez nenhum meio militar seria necessário.

Seria a mera coerção do poder estatal a mola propulsora para a criação de um poderoso

estado central europeu.

De um ponto de vista tático, situações específicas de crise seriam utilizadas pelos

partidários da visão socialista para criar novas instituições (tais como o Banco Central

Europeu (BCE), ou, possivelmente no futuro, um Ministério Europeu das Finanças),

bem como para ampliar os poderes das atuais instituições, como a Comissão Europeia

ou o próprio BCE.1011

A visão liberal-clássica e a visão socialista para a Europa são irreconciliáveis. Com

efeito, o aumento no poder de um estado central — como proposto pela visão socialista

— implica uma redução das quatro liberdade básicas, e certamente liberdades civis cada

vez menores.

A história de uma batalha entre duas visões

Essas duas visões têm travado batalhas entre si desde os anos 1950. No início, o projeto

das Comunidades Europeias era mais fiel à visão liberal-clássica12. A Comunidade

10 Sobre a tendência de os estados expandirem seus poderes em situações de emergência ver Robert

Higgs, Crisis and Leviathan: Critical Episodes in the Growth of American Government (Oxford: Oxford University Press, 1987).

11 Em consonância com essa teoria, o presidente Frances Nicolas Sarkozy tentou introduzir um fundo de resgate europeu durante a crise de 2008 (ver Patrick Hosking, "France Seeks €300 bn. Rescue Fund for Europe." Timesonline. Dois de outubro, 2008, http://business.timesonline.co.uk). A chanceler alemã Angela Merkel, entretanto, resistiu à ideia, e passou a ser conhecida como a "Madame Não". A recente crise também foi utilizada para estabelecer o Fundo Europeu de Estabilização Financeira ( European Financial Stability Facility), com o qual o BCE ampliou suas operações e, consequentemente, a base monetária. Outras instituições, como o European Systemic Risk Board (Conselho de Risco Sistêmico Europeu), também foram criadas durante a crise.

12 As Comunidades Europeias eram formadas pela Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que criava

um mercado comum para carvão e aço; pela Comunidade Econômica Europeia (CEE), que promovia a

integração econômica; e pela Comunidade Europeia da Energia Atômica, que criava um mercado especial

para energia nuclear, fazendo sua distribuição pela Comunidade. No entanto, já nos primórdios da

integração europeia é possível perceber as “intenções socialistas” de Jean Monnet, o pai intelectual francês da Comunidade Europeia. Monnet planejou a Comunidade Europeia para ser uma organização

supranacional em vez de uma organização intergovernamental (Christopher Booker and Richard North,

The Great Deception: Can the European Union Survive? (London: Continuum, 2005). Sobre as

Europeia era composta por estados soberanos e assegurava as quatro liberdades básicas.

Do ponto de vista do liberalismo clássico, um dos principais defeitos de nascença do

projeto eram os subsídios e as intervenções da política agrícola. Da mesma forma,

desde seu nascimento, o único poder legislativo pertencia à Comissão Europeia. Assim,

uma vez que a Comissão fizesse uma proposta legislativa, o Conselho da União

Europeia poderia sozinho, ou em conjunto com o Parlamento Europeu, aprovar a

proposta.13

Esse arranjo já continha em si as sementes da centralização. Consequentemente, o

arranjo institucional, desde seu início, havia sido projetado para acomodar a

centralização e o controle sobre as opiniões minoritárias, uma vez que a unanimidade

não era necessária para todas as decisões, e as áreas em que a regra da unanimidade se

fazia necessária foram sendo reduzidas ao longo dos anos.14

O modelo liberal-clássico é defendido tradicionalmente pelos democratas-cristãos e por

países como Holanda, Alemanha e também Reino Unido.15 Porém, os social-

democratas e socialistas, normalmente liderados pelo governo francês, defendem a

versão imperialista da Europa. Com efeito, em decorrência de sua rápida queda em

1940, dos anos da ocupação nazista, de seus fracassos na Indochina, e da perda de suas

colônias africanas, a classe dominante francesa utilizou a Comunidade Europeia para

readquirir sua influência e seu orgulho, e para se recuperar da perda de seu império.16

inclinações de Monnet para o planejamento centralizado ver também Tony Judt, Postwar – A history of Europe since 1945 (London: Vintage, 2010, p. 70). O governo francês temia uma revitalização da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. A CEE garantiu aos franceses acesso privilegiado aos

recursos alemães (Judt, Postwar, p. 117). A integração da Alemanha à Europa foi feita com a intenção de impedir uma revolta alemã contra as condições que lhe foram impostas após a guerra. Como escreveu

Judt em Postwar, p. 156: “[O alto escalão da CEE] assumiria o controle do Vale do Ruhr e de outros vitais recursos alemães, retirando-os diretamente do controle alemão. Esta era a solução europeia para um – o –problema francês.” Não obstante estas intenções políticas por trás da criação da CEE, os elementos da tradição liberal-clássica ainda se mantinham fortes no início deste arranjo.

13 O Conselho da União Europeia, frequentemente chamado de "O Conselho" ou "Conselho dos Ministros", é formado por um ministro de cada estado-membro e não deve ser confundido com o

Conselho Europeu. O Conselho Europeu é formado pelo presidente do "Conselho dos Ministros", pelo presidente da Comissão, e por um representante de cada estado-membro. O Conselho Europeu orienta a

União Europeia ao definir sua agenda política.

14 Esses importantes defeitos de nascença reduzem o crédito dado aos pais fundadores, como Schuman,

Adenauer e outros.

15 Em 1959, por exemplo, o governo britânico sugeriu uma zona de livre comércio para todos os países não comunistas da Europa. A proposta foi rejeitada por Charles de Gaulle.

16 Larsson, Hans Albin. 2004. "National Policy in Disguise: A Historical Interpretation of the EMU.", p.

162. Como escreve Larsson: "A arena na qual a França buscou ressuscitar sua honra e influência internacional foi a Europa Ocidental. Como principal país da Comunidade Econômica Europeia, a França recuperou influência e, com isso, recompensou a perda de seu império — e tudo isso dentro de uma área onde a França, tradicionalmente e de diversas maneiras, sempre procurou ter domínio e influência".

Como escreveu Judt em Postwar, p. 153: “Descontente e frustrada por ter sido reduzida à menor das grandes potências, a França embarcou em uma nova vocação: ser a criadora de uma nova Europa.” “Para

Com o passar dos anos, houve uma lenta porém contínua tendência rumo ao ideal

socialista — com orçamentos cada vez maiores para a União Europeia e uma nova

política regional que efetivamente redistribui riquezas por toda a Europa.17 Inúmeras

regulamentações e harmonizações também estão empurrando o arranjo para essa

direção.

A visão liberal-clássica sobre estados soberanos e independentes de fato parecia ter

readquirido um novo vigor após o colapso da União Soviética e a reunificação da

Alemanha. Primeiro porque a Alemanha, tendo tradicionalmente sempre defendido essa

visão, se tornou mais forte após a reunificação. Segundo porque os novos países

emergindo das cinzas do comunismo, tais como a Tchecoslováquia (sob a liderança do

misesiano Václav Klaus), a Polônia, a Hungria etc., também apoiavam a visão liberal-

clássica para a Europa. Esses novos países queriam usufruir sua nova e recém-

conquistada liberdade. Eles já estavam fartos de socialismo, impérios e centralizações.

A influência do governo francês estava agora reduzida.18 O campo socialista viu sua

derrota se aproximando. Uma rápida ampliação da União Europeia, com a incorporação

dos novos estados do Leste Europeu e a consequente ampliação do mercado comum,

tinha de ser impedida. Um passo rumo à criação de um estado centralizador tinha de ser

rapidamente feito. A moeda única seria o veiculo que permitiria a realização desse

objetivo.19

Charles de Gaulle, a lição do século XX era que a França só poderia recuperar suas glórias perdidas caso investisse no projeto europeu e o moldasse à serviço dos objetivos franceses.” (p. 292) Já em 1950, o premiê francês René Pleven propôs criar um Exército Europeu como parte da Comunidade de Defesa

Europeia (sob a liderança da França). Ainda que o plano tenha fracassado, ele fornece evidências de que, desde o início, os políticos franceses pressionaram pela centralização e pela visão imperial da Europa.

Uma exceção foi o presidente Charles de Gaulle, que se opunha a um estado europeu supranacional.

Durante a "crise da cadeira vazia", em junho de 1965, a França abandonou seu assento no Conselho dos Ministros por seis meses em protesto contra um ataque à sua soberania. A Comissão havia pressionado por uma centralização do poder. Entretanto, de Gaulle também estava tentando melhorar a posição e a liderança da França nas negociações acerca da Política Comum Agrícola. A Comissão havia proposto a

criação de uma decisão por maioria de votos nesse quesito. Os agricultores franceses eram os principais beneficiários dos subsídios, ao passo que a Alemanha era a principal contribuinte. A decisão por maioria de votos poderia ter privado os agricultores franceses de seus privilégios. Somente quando as exigências de financiamento agrícola de Gaulle foram aceitas é que a política da cadeira vazia acabou. Vários

alemães, inclusive Ludwig Erhard, se opuseram aos subsídios agrícolas e defendiam uma zona de livre

comércio. (Ver Judt, Postwar, p. 304). Adenauer, no entanto, jamais romperia com a França. Em troca de subsídios para os agricultores franceses, produtos alemães adquiriram entrada livre na França. Toda a política se resumia a subsídios agrícolas em troca de livre comércio.

17 Roland Vaubel, "The Political Economy of Centralization and the European Community," Public Choice 81 (1—2 1994): pp. 151—190, explica a tendência rumo à centralização na Europa utilizando argumentos oriundos da Teoria da Escolha Pública.

18 Larsson, “National Policy in Disguise,“ p. 163

19 Como escreveu Arjen Klamer a respeito da estratégia de se utilizar a moeda única como veículo para a centralização: "A suposição era a de que, tão logo a unidade monetária fosse uma realidade, seria necessário algum tipo de construção federal — ou ao menos uma união política mais forte — para que a De acordo com os jornais alemães, o governo francês temia que a Alemanha, após sua

reunificação, criasse "uma área de livre comércio dominada pelo marco alemão,

estendendo-se de Brest [ litoral noroeste da França] até Brest-Litowsk [ no sul da

Bielorrúsia]".20 Os socialistas europeus (franceses) precisavam urgentemente de

adquirir poder sobre a unidade monetária.

Como argumentou Charles Gave21 a respeito dos eventos ocorridos após a queda do

Muro de Berlim:

Para os proponentes do "Império Romano" [a visão socialista], o Estado

Europeu tinha de ser organizado imediatamente, não importasse os riscos, e

se tornar algo inevitável. Caso contrário, os proponentes de uma "Europa

Cristã" [a visão liberal-clássica] venceriam a batalha por ausência de

rivalidade, e a história provavelmente jamais reverteria seu curso. O colapso

da União Soviética foi a crise que deu a oportunidade, bem como a força-

motriz, para que o Império Romano levasse a cabo um programa

ostensivamente ambicioso. Com a balança pendendo para o lado da Europa

Cristã, o Império Romano precisava urgentemente desequilibrá-la para o seu

lado; e a criação do euro, mais do que qualquer outra coisa, veio para

simbolizar a investida do campo Romano rumo a uma superestrutura

centralizada.

O argumento oficial utilizado pelos defensores de uma moeda única e de curso forçado

era o de que o euro iria reduzir os custos de transação — facilitando o comércio, o

turismo e o crescimento econômico na Europa. Mais implicitamente, entretanto, a

moeda única era vista como o primeiro e essencial passo rumo à criação de um estado

união monetária pudesse funcionar. Assim, a carroça foi colocada na frente dos bois. Foi tudo um

experimento. Nenhum político ousaria lidar com as consequências do fracasso — ou do que poderia

acontecer — caso uma forte união política não fosse realizada. Tudo já estava arrumado e o show tinha de continuar." (Arjen Klamer, "Borders Matter: Why the Euro is a Mistake and Why it will Fail," in The Price of the Euro, ed. Jonas Ljundberg, (New York: Palgrave MacMillan, 2004), p. 33).

Similarmente, Roland Vaubel escreve sobre os efeitos do euro: "A União Monetária Europeia é o ponto de partida para a centralização de várias outras políticas econômicas e, em última instância, para a criação de um estado europeu". (Roland Vaubel, "A Critical Analysis of EMU and of Sweden Joining It," in The Price of the Euro, ed. Jonas Ljundberg, (New York: Palgrave MacMillan 2004), p. 94) Ver também James Foreman-Peck, "The UK and the Euro: Politics versus Economics in a Long-Run Perspective,"

in The Price of the Euro, ed. Jonas Ljundberg, (New York: Palgrave MacMillan 2004), p. 104.

20 Frankfurter Allgemeine Zeitung, June 1, 1996. O ministro das relações exteriores alemão Hans-Dietrich Genscher havia proposto que os países do Leste Europeu fossem absorvidos pela União Europeia o mais rapidamente possível. Margaret Thatcher também defendia uma rápida ampliação, na esperança

de que uma alargada UE iria ser tornar uma zona de livre comércio. Temendo uma área de livre comércio e uma reduzida influência, o governo francês se opôs a esse acesso prematuro dos países do Leste

Europeu à UE. Ver Judt, Postwar, p. 716,719.

21 Charles Gave, "Was the Demise of the USSR a Negative Event?" in Investors-Insight.com, ed. John Mauldin, (5 de maio, 2010), http://investorsinsight.com/.

europeu. Foi presumido que o euro iria criar a pressão necessária para a introdução

desse estado.

O real motivo de o governo alemão, tradicionalmente oposto à visão socialista, ter

finalmente aceitado o euro tinha a ver com a reunificação alemã. O acordo era o

seguinte: a França construía seu império europeu e, em troca, dava o apoio que faltava

para a reunificação das duas Alemanhas.22 Afirmava-se que, de outra forma, a

Alemanha iria se tornar excessivamente poderosa. Consequentemente, sua arma mais

pujante, o marco alemão, tinha de ser abolido — em outras palavras, um

desarmamento.23

A etapa seguinte nos planos do campo socialista foi redigir o esboço de uma

constituição europeia (feito pelo ex-presidente francês Valery Giscard d'Estaing

Ginard), estabelecendo um estado central. Porém, esse projeto constitucional fracassou

completamente; ele foi rejeitado nas urnas pelos eleitores da França e da Holanda em

2005. Como sempre, a Alemanha sequer foi consultada. Os alemães também não

foram perguntados se queriam fazer parte do euro. Porém, os políticos geralmente não

desistem até que todas as suas ideias sejam aceitas. No caso da constituição europeia,

eles simplesmente renomearam a constituição; e não mais foi necessário submetê-la à

votação popular em muitos países.

Como consequência, o Tratado de Lisboa foi aprovado em dezembro de 2007. O

Tratado está cheio de palavras como pluralismo, não

discriminação, tolerância e solidariedade, todas elas podendo ser interpretadas como clamores para se violar os direitos de propriedade de terceiros, bem como toda e

qualquer liberdade de contrato. No Artigo Três, a União Europeia promete lutar contra

a exclusão social e a discriminação, desta forma abrindo as portas para

intervencionismos de todos os tipos. Deus não é mencionado uma única vez no Tratado

de Lisboa.

Na realidade, o Tratado de Lisboa acabou sendo uma derrota para o ideal socialista.

Não se trata de uma genuína constituição, mas apenas de um tratado. Isso deixou os

proponentes de um Império Europeu em um beco sem saída, e eles foram obrigados a se

22 Até hoje, o governo francês obteve êxito em criar uma influência desproporcional sobre a União

Europeia. A maioria das instituições da UE está localizada na França e na Bélgica. O francês é um dos idiomas oficiais da UE, ao lado do inglês, mas não o alemão, ainda que a União Europeia tenha muito

mais cidadãos que falem alemão do que francês. Quando se pondera a influência dos estados-membros

baseando-se em sua população, a França está sobrerrepresentada e a Alemanha, subrepresentada. Com

efeito, a influência proporcional da Alemanha não aumentou absolutamente nada após sua reunificação.

Como escreveu Larsson: "Em suma, a União Europeia e seus arranjos predecessores são basicamente projetos franceses, os quais, não obstante algumas declarações oficiais, em muitos aspectos serviram ao propósito de utilizar todos os meios possíveis para ampliar — ou, no mínimo, manter — a influência

política mundial da França, particularmente na Europa." ("National Policy in Disguise," p. 165). O

próprio Charles de Gaulle já havia declarado: “A CEE é formada por um cavalo e por uma carruagem: a

Alemanha é o cavalo e a França, o cocheiro.” (Citado in Bernard Connolly, The Rotten Heart of Europe, p. 7). Nada parece ter mudado de lá pra cá.

23 Mais detalhes sobre a história do euro serão abordados no capítulo 9.

reagrupar e centrar seus esforços na única ferramenta que restou — o euro. Mas como,

exatamente, o euro provoca a centralização de Europa?

O euro gera os tipos de problemas que podem ser encarados como um pretexto para que

haja uma centralização de poder coordenada por políticos. Com efeito, a construção e a

implantação do euro provocaram uma corrente de crises severas: os estados-membros

podem utilizar as impressoras do Banco Central Europeu para financiar seus déficits;

essa característica da União Monetária Europeia invariavelmente gera crises da dívida

soberana para os países-membros que se endividam em excesso. Essa crise, por sua

vez, pode ser utilizada para centralizar o poder e as políticas fiscais. A centralização

das políticas fiscais pode então ser utilizada para unificar a tributação e com isso abolir

a guerra tributária entre os países.

Com a atual crise da dívida soberana, o euro, único meio que restou aos socialistas para

fortalecer seu plano de implementar um estado central, está em risco. Portanto, é algo

totalmente irrealista dizer que o fim do euro significaria o fim da Europa ou do ideal

europeu; o fim do euro seria apenas o fim da versão socialista da Europa.

Naturalmente, é perfeitamente possível ter uma Europa economicamente integrada, com

suas quatro liberdades básicas, sem que haja uma moeda única de curso forçado. O

Reino Unido, a Suécia, a Dinamarca e a República Tcheca não utilizam o euro, mas

pertencem ao mercado comum e usufruem as quatro liberdades. Se a Grécia abandonar

o euro e se juntar a esses países, a visão liberal-clássica permaneceria intacta. Com

efeito, uma livre escolha entre várias moedas é algo mais relacionado ao valor europeu

de liberdade do que a obrigação de utilizar uma moeda continental de curso forçado

criada por um banco central que possui o monopólio de sua produção.

3. A dinâmica do papel-moeda fiduciário de curso forçado

Para entendermos a dinâmica do euro, é necessário antes uma investigação mais

profunda sobre a história, o surgimento e o funcionamento do dinheiro. O dinheiro —

isto é, o meio comum de troca amplamente aceito por todos os participantes do mercado

— surgiu como uma maneira de se resolver o problema da dupla coincidência de

desejos. O problema da dupla coincidência de desejos consiste no problema de se

encontrar alguém que possua aquilo que queremos e, ao mesmo tempo, que queira

aquilo que estamos ofertando. Em algum momento da história, alguns indivíduos

descobriram que podiam satisfazer esses seus objetivos de uma maneira mais eficaz: em

vez de demandarem diretamente os bens de que necessitavam, eles simplesmente

demandariam bens que fossem mais facilmente comercializáveis. Ato contínuo,

utilizariam esses bens facilmente comercializáveis para então adquirir os produtos e

serviços que realmente desejassem. Em outras palavras, as pessoas passaram a utilizar

os bens e serviços que produziam como maneira de adquirir um bem universalmente

aceito que, por sua vez, seria utilizado como meio de troca — ou seja, sua produção era

utilizada para comprar, de maneira indireta, aquilo que realmente queriam.

Um caçador, por exemplo, não troca diretamente a carne que coletou por roupas de que

precisa, pois é muito difícil encontrar um produtor de roupas que necessite de carne

naquele exato momento e que esteja disposto a oferecer suas roupas em troca daquela

exata quantia de carne. Em vez disso, o caçador vende sua produção em troca de trigo,

que é mais comercializável. Ato contínuo, ele utiliza o trigo para comprar as roupas.

Desta maneira, o trigo adquire uma demanda adicional. Ele não apenas é demandado

como um bem de consumo para servir de alimento ou como um fator de produção para

ser utilizado na agricultura, mas também como um meio de troca para ser utilizado no

comércio. Se o caçador for bem sucedido nessa sua estratégia, ele pode querer repeti-

la. Outros irão copiá-lo. Sendo assim, a demanda por trigo como um meio de troca

aumenta e se torna mais difundida. À medida que o uso do trigo como meio de troca

vai se tornando mais ampla, o trigo se torna cada vez mais comercializável e seu uso

como tal se torna mais atraente.

Simultaneamente, pode haver outros meios de troca concorrentes. Em um processo

competitivo, um ou alguns meios de troca podem se tornar amplamente aceitos. Eles se

tornam dinheiro. Nesse processo competitivo, algumas mercadorias se comprovaram

mais úteis para cumprir a função de ser um bom meio de troca e uma boa reserva de

valor. Metais preciosos como ouro e prata se tornaram dinheiro. Em retrospecto, não é

difícil entender por quê: ouro e prata são homogêneos, resistentes, possuem grande

valor e são altamente demandados, além de serem fáceis de armazenar e transportar.