Abutres humanos por L P Baçan - Versão HTML

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Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

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O fim da Guerra de Secessão transformara o Sul dos Estados Unidos numa terra de injustiças, onde vigorava apenas uma lei, a lei dos vencedores.

Os homens e famílias que haviam defendido o Exército Confederado, quando voltaram, encontraram suas terras invadidas e saqueadas, as colheitas perdidas, as casas queimadas.

Quando tentaram se reerguer, voltando a cultivar suas lavouras produtivas, a União aplicou-lhes o golpe final, que foi a cobrança de impostos atrasados.

Ninguém tinha dinheiro nem como pagar. Os compradores de terra, mancomunados com cobradores de impostos e banqueiros, começaram a comprar por míseros níqueis terras que valiam uma fortuna.

Sem suas terras, os confederados tornaram-se exilados dentro de seu próprio país. Muitos foram para o Oeste, tentar esquecer os horrores da guerra e reiniciar suas vidas. Outros, porém, preferiram ficar e tentar, de alguma forma, combater aquela injustiça, enfrentando os abutres humanos.

Na cidade de Atlanta, apesar da apressada reconstrução iniciada pelos homens do Norte, que vinham comprando sistematicamente as propriedades, notava-se muito bem essa injustiça.

A linha férrea que cortava a cidade dividia-a como se fossem dois países diferentes. De um lado o Norte, progressista, em pleno desenvolvimento, onde o dinheiro corria com facilidade.

Do outro lado, a marginalização de famílias inteiras, morando em casas semi-destruídas, vivendo dos restos que os vencedores atiravam aos cães.

Famílias que haviam sido parte da nobre aristocracia do sul do país eram agora mendigos e derrotados. A cidade viviam como uma bomba, prestes a explodir a qualquer momento. Para manter a ordem e sob equilíbrio a tênue divisão entre os dois mundos completamente diferentes, apesar de separados apenas pela linha férrea, a União mandara para lá dois delegados federais.

Cabia a eles zelar para que aquela revolta latente que pairava sobre a cidade não explodisse a qualquer momento.

Tudo parecia tranqüilo naquela noite calma de verão, mas os dois homens da lei sabiam que tudo aquilo poderia explodir como uma panela de pipoca. A ronda noturna era o momento de maior tensão para os homens que patrulhavam a rua que separava os dois territórios. De um lado os confederados vencidos e, do outro, os ianques vencedores e arrogantes.

Poucos delegados federais haviam se sujeitado àquele trabalho. Mesmo os detetives da Pinkerton evitavam toda e qualquer ação na derrotada e amargurada Atlanta.

Poucos, como Oates e Riley se sujeitariam àquele trabalho. Eles o faziam por uma curiosa coincidência. Um deles servira no Exército Confederado; o outro, no Ianque. Viviam naquela tensão como haviam vivido a guerra, lutando contra seus medos interiores, atirando nas chamas dos rifles escondidos na escuridão, torcendo para que a bala desgarrada acertasse o artilheiro do canhão que poderia mandá-los para o inferno.

E torciam para que o medo, de repente, não invadisse suas veias, quando o próprio demônio dissesse a senha do dia, convidando-os para a eternidade.

Oates parou o cavalo numa esquina. Segurou firme a rédea, contendo o ímpeto do fogoso animal, depois apenas tocou a espora em seu flanco, fazendo-o retomar o caminho.

— Já conseguiu domá-lo? — quis saber Riley.

— Não, e jamais o farei. Um animal como este tem que ter instinto e reações próprias. Não pode depender só do meu comando, ele tem que se antecipar — respondeu Oates, de olho na carruagem que passava ao lado deles.

As janelas eram de madeira e estavam fechadas, apesar do calor. Apenas uma delas tinha uma pequena abertura, por onde escapava fumaça de um gostoso charuto do Alabama.

— Quem acha que está ali? — indagou Riley, percebendo a preocupação do amigo, enquanto se detinham e observavam.

— Acho que temos um coletor de impostos, voltando para a cidade com a bolsa cheia —

respondeu Oates, retirando o rifle Winchester que estava ao lado da sela e pondo-o no seu colo.

Atrás daquela carruagem, havia uma outra. Uma terceira passou e ficou à direita da primeira e, por fim, uma quarta passou pela esquerda. Estavam fechando a primeira carruagem entre as três outras.

Aquilo chamou a atenção dos homens da lei. Riley olhou atentamente para o curioso séquito que seguia pela rua, depois para seu amigo.

A Overland de dois canos e grosso calibre estava em seu colo, carregada com cartuchos municiados com esferas de chumbo e com os gatilhos mais sensíveis de todo o Condado.

— É o que estou pensando? — perguntou Riley.

Oates concordou com um aceno de cabeça. O cobrador de impostos seria assaltado, sem perceber o que estava acontecendo. Tinham de agir logo. Sair em perseguição às três carruagens depois era o mesmo que suicidar-se. Com certeza iriam para a zona confederada da cidade e, ali, seria loucura perseguí-los.

— Vamos começar a brincadeira fazendo tiro ao alvo? — indago, engatilhando o seu rifle.

— Não vejo outra saída — falou Riley, fazendo o mesmo com sua espingarda.

— Não sabemos quantos estão dentro daquelas carroças — respondeu Oates.

— Só há um jeito de descobrir — disse Riley, esporeando seu cavalo e emparelhando-se com a carruagem que ia atrás das outras, no meio da rua.

Uma janela se abriu e ele viu surgir o cano de um fuzil confederado. Freou seu cavalo e disparou o rifle contra a porta da carruagem. O poderoso projétil varou a porta de madeira e atravessou o homem que segurava a arma. O cocheiro havia sacado um Colt e o apontava contra Riley.

Oates disparou sua espingarda de baixo para cima, pegando o cocheiro mas costas e jogando-o para o alto. O homem gemeu e foi cair na poeira da rua, estrebuchando.

Outro pistoleiro surgiu na janela, apontando uma espingarda. Riley fez um rombo na porta da carruagem e o pistoleiro foi jogado para o outro lado.

A carroça que ia à frente disparou pela rua, seguida pelas duas outras, uma de cada lado.

Oates esporeou seu cavalo e avançou, até poder atirar num dos cavalos. O animal tropeçou, ferido mortalmente, e caiu, fazendo a carruagem capotar numa nuvem de poeira. O cocheiro caiu longe, com o pescoço quebrado.

Imediatamente dois homens com fuzis saíram da carruagem semi-destruída. Riley passou por eles, em disparada, atirando com sua espingarda. Simplesmente fez sumir a cabeça de um deles com um disparo, enquanto Riley atingia o outro em pleno peito, jogando-o alguns metros para trás.

— Malditos! — gritou o cocheiro da terceira carruagem, com um Colt na mão.

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Começou a disparar, arrancando o chapéu da cabeça de Riley.

— Proteja-se Riley — gritou Oates, apontando na direção do atirador, enquanto nas janelas da carruagem surgiam mais duas armas apontadas para eles.

Riley agiu instintivamente. Após tanto tempo trabalhando com Oates, sabia como o parceiro agia. Abaixou-se na sela e, sob o pescoço do cavalo, disparou um tiro em cada um dos homens na carruagem. Oates tinha seu rifle apontado na direção da carruagem. No momento em que Riley se abaixou, apertou o gatilho, com incrível pontaria.

O cocheiro jamais soube o que o atingiu. Seu peito tingiu-se na hora de vermelho e ele voou para o meio da rua. O cavalo andou um pouco mais, depois, sem condutor, parou docilmente no meio da rua.

As poucas pessoas que ainda estavam na rua sumiram. Todos sabiam que ali era a terra de ninguém, separando a União dos Confederados, vencedores dos vencidos.

O cheiro de pólvora foi levado rapidamente pela brisa que soprava. Ainda em alerta, Oates desceu do cavalo, seguido pelo parceiro.

Escondidos atrás das janelas dos prédios, sulistas e nortistas observavam o fim do tiroteio, uns com alívio, outros com rancor.

A grande mansão abandonada, na margem leste do Rio Chattahoochee parecia preparado para uma guerra. Eles haviam começado a chegar ao local antes do anoitecer. Equipes de homens fortemente armados circulavam pelos aposentos, enquanto grupos caminhavam ao redor mantendo severa vigilância.

O telhado havia sido ocupado. Duas canoas patrulhavam os fundos, ancoradas no rio.

Carroças haviam sido espalhadas ao longo da estrada, todas com homens armados com fuzis, espingardas ou Colts.

Robert Woodfarm, o filho do patriarca da família, o Coronel Swam Woodfarm, comandava pessoalmente a operação, toda ela montada pelo seu pai.

Às oito da noite, tudo estava preparado para o aguardado encontro. De um lado, representando os fazendeiros sulistas despojados de suas terras, estava Luther "The Dog"

Masden; do outro, falando pelos comerciantes de tabaco e ex-proprietários de barcos principalmente, estava Titus Warspite.

Luther chegou pontualmente. A carroça parou no local indicado pelos homens da segurança.

— Olá, Robert! — cumprimentou, ao ver o rapaz parado na porta da mansão.

— Luther, é bom ver você! — disse Robert, apontando o interior da sala, onde uma mesa havia sido preparada para a reunião.

Caminharam até lá. Luther olhava atentamente ao redor, observado todo o esquema de segurança montado.

— Quando me disseram que vocês estavam por trás disso, não hesitei — comentou Luther.

— A nossa situação e a de nossos compatriotas torna-se mais desesperadora a cada dia.

— Para nós era uma questão de honra fazer alguma coisa contra esse estado de coisas, Luther.

— Agradeço a iniciativa de vocês — falou Luther, com reconhecimento.

O líder dos fazendeiros tomou seu lugar na mesa, sobre a qual havia um grande mapa, representando a região de Atlanta. Os dois conversaram sobre as injustiças que vinham se sucedendo, enquanto aguardavam a chegada do terceiro participante da reunião, que chegou logo depois. Ninguém faltaria a um encontro tão importante, principalmente se convidado pelo Coronel Woodfarm.

Angus Warspite desceu do cavalo com seu sobretudo cinza, usando todas as insígnias e medalhas que recebera por sua participação na guerra fratricida. No pescoço tinha o lenço vermelho, símbolo dos guerrilheiros de Quantrill. Robert foi recebê-lo e acompanhá-lo até à mesa, onde Luther esperava-os.

Quando o outro aproximou-se, Luther levantou-se. Olharam-se com um ódio que já durava muito tempo, tempo demais até. Um ódio que não tinha mais sentido agora.

Brigar e matar-se já não mais fazia parte das vidas daqueles homens. O Coronel julgava que isso poderia ser transformado num acordo entre os dois líderes. Para eles, a paz entre os confederados representaria um grande passo para o ousado plano que vinham acalentando: expulsar do Sul aqueles abutres que vinham sugando a vitalidade daquela gente derrotada e desmoralizada.

A idéia era resgatar o orgulho sulista e mandar os ianques de volta para o lugar de onde vieram.

- Bem, cavalheiros, o fato de estarem os dois aqui significa que entenderam nossos argumentos, mostrando-se dispostos a negociar não? — falou Robert.

— Você nos prometeu grandes realizações. — disse Luther.

— Estamos esperando, pode falar — acrescentou Angus.

— A idéia de meu pai é simples. Vamos parar de brigar entre nós mesmos e começar a brigar contra os nortistas. Titus tem experiência e treinará os homens em táticas de guerrilha.

Luther organizará uma rede de esconderijos e fornecimento de comida, camas e munição entre os fazendeiros. Vamos agir principalmente contra os Bancos sulistas, os cobradores de impostos e os leiloeiros, que vendem nossas terras em praça pública. Vamos começar a recolher nosso tesouro, amigos. Com ele nas mãos, pagaremos os impostos e compraremos de volta nossas terras. Veremos se esses sulistas sanguessugas vão querer continuar por aqui, quando começarmos a devolver-lhes o fogo, o ferro e o sangue com que nos têm tratado até agora. Estão entendendo?

Os dois líderes olharam-se por instantes. O que Robert dizia tinha alguma lógica, mas já fora tentado antes. Não havia como combater aquela horda de invasores arrogantes e prepotentes, com suas carteiras cheias de dinheiro e a conivência dos cobradores de impostos e juizes.

Angus comentou isso. Luther concordou com ele. Robert sorriu matreiramente, lembrando-se que seu pai pensara naquilo também.

— Podemos maximizar nossas ações e vitórias, fazendo os ianques brigarem entre si.

— Como assim? — insistiu Angus.

— Vamos arrumar para eles um motivo para se matarem. Se começarem a se preocupar com eles mesmos, vão nos deixar em paz por algum tempo, o suficiente para nos organizarmos.

Luther e Angus trocaram um olhar de visível entendimento. A idéia de Robert tinha sentido.

A questão agora era descobrir como fazer isso.

Os dois olharam ao mesmo tempo na direção de Robert.

— Como faríamos isso? — indagou Titus.

— Nós temos um inimigo comum — mencionou Luther. — Alguém que nos incomoda e aborrece tanto quanto aborrece e incomoda os sulistas... Os Delegados Federais...

— Exato! — confirmou Robert.

— Sim, aqueles dois malditos! — lembrou Luther.

— Principalmente aquele bastardo do Delegado Oates Fordd.

— Esse é o pior de todos.

— Gostaria de pôr minhas mãos nele.

— E eu de arrancar-lhe o coração com as próprias mãos...

Diante deles, Robert olhava-os com satisfação. Havia conseguido uní-los em torno de um objetivo, conforme seu pai havia previsto. Os dois importantes representantes já mostravam que havia ainda orgulho e vontade de lutar dentro deles.

— Perceberam, senhores, como isso pode ser feito? — observou ele.

Os dois se voltaram para ele. Pensaram por instantes, depois começaram a rir.

— Sim, percebemos — comentou Angus.

— Você e seu pai têm toda razão, Robert — acrescentou Luther. — Só que Oates e Riley são dois apenas e logo serão mortos...

— Mas a idéia é não deixar que isso aconteça. E fazê-los provocar a ira dos nortistas contra eles, infernizar-lhes as vidas ao máximo, mas não matá-los. Eles serão mais úteis vivos.

Perceberam?

Desta vez os dois não demonstraram estar muito certos do que Robert pretendia.

— Eles serão importantes para fomentarmos o ódio contra os delegados federais.

— Acho que estou entendendo — falou Titus.

— Canalizando a preocupação e o ódio para os federais, iniciaremos ações que darão a entender que são eles agindo contra os nortistas. Eles canalizarão toda a raiva e a agressividade dos nossos invasores, perceberam?

— É... Tem lógica — comentou Angus.

— Só que, mesmo assim, cedo ou tarde, alguém vai pegá-lo — mencionou Angus.

— E então, quantos outros virão para substituí-los? Dizem que os delegados federais são como praga daninha. Se você mata um, meia dúzia aparece ao redor. Compreenderam?

Os dois olharam-se por instantes, depois começaram a balançar suas cabeças num sinal de aprovação.

— Muito esperto — comentou Angus.

— Pode funcionar — concordou Luther.

— Perfeito, senhores. Acho que pegaram bem o espírito de nosso plano — elogiou Robert.

— E quando começaríamos esse plano? — questionou Luther.

— Antes de mais nada, precisamos estabelecer toda a nossa estratégia. Estão conosco nisso?

— Cem por cento — afirmou Luther. — Garanto como todos nossos irmãos fazendeiros vão adorar a simples idéia de poderem resgatar suas terras ou não perder o pedaço que ainda têm.

— E os comerciantes investirão até suas últimas obturações de ouro para retomarem o controle do comércio e da navegação fluvial na região.

— Temos um acordo então, cavalheiros? — indagou Robert, pondo sua mão aberta acima da mesa, com a palma para baixo.

Angus e Luther mediram-se por instantes. A velha desavença entre eles tinha mais sentido.

Depois, com decisão, Titus pôs sua mão sobre a de Robert e Luther, a dele sobre a de Angus.

— Bebamos a isso, meus amigos — falou a voz forte e inconfundível de Swam Woodfarm, surgindo no algo da escadaria, com seu uniforme confederado de gala, coberto de medalhas e

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insígnias.

Titus Warspite pôs-se em pé e, em sinal e respeito e honra, prestou continência ao velho e experiente militar, que começou a descer os degraus, fazendo um sinal para um de seus homens.

Uma porta se abriu. Um grupo de homens apareceu, com copos e garrafas, levando-os para a mesa. Os homens ao redor sorriam satisfeitos.

— Hoje é um dia que ficará para sempre gravado na história deste país, meus irmãos. Hoje foi o dia que declaramos nossa guerra contra a União dos Estados Unidos e decretamos a criação do Estado Livre da Geórgia.

Os homens aplaudiram entusiasticamente. Rolhas saltaram. Copos foram enchidos e erguidos, num brinde emocionado.

— Ao Estado Livre da Geórgia! — gritou o coronel e todos responderam com a mesma saudação.

Aquela prometia ser mais uma daquelas longas e malditas noites de ronda naquele território selvagem, o mais perigoso, o mais temido e o mais assustador da cidade, uma terra de ninguém separando perdedores de vencedores.

Os dois delegados tinham, ainda, uma razão especial para detestar aquele trabalho, naquela região. O Xerife Jefferson não via com bons olhos aquilo que ele julgava como uma intromissão da União nos negócios da cidade.

A presente dos dois federais criava um problema de jurisdição, principalmente considerando que os dois estavam onde a encrenca acontecia, enquanto, para sua felicidade ou infelicidade, o xerife estava sempre no canto oposto.

Assim, com caras de poucos amigos o xerife e seus auxiliares tiveram de ouvir o cobrador de impostos derramar elogios sobre a atuação dos delegados federais, os únicos com competência para tornar as ruas de Atlanta seguras para um cidadão honesto.

— Veremos se vai se sentir dessa forma, quando a situação mudar — murmurou o xerife, entredentes.

O Delegado Oates Fordd ficou pensativo, demonstrando a preocupação nas rugas que vincavam sua testa.

O xerife não gostava deles, isso era um fato incontestável e os dois sabiam disso. Estava sempre preparando algo para tornar mais difíceis a vida e o trabalho deles. Algo lhe dizia que o xerife sabia de algo que eles ainda não sabiam.

— Ele o deixou preocupado, Oates. O que foi? — perguntou Riley.

— Esse sacana está sabendo de algo que não sabemos.

— E você acha que pode ser o quê?

— Não sei ainda, mas vou descobrir.

— Como?

— Pensarei em algo. Vou ao restaurante tomar um café. Vamos comigo?

— Particularmente eu preferiria um uísque, depois dessa agitação toda. A cada dia isto aqui se torna mais perigoso. Essa gente está desesperada, meu amigo.

Caminhavam pela rua, puxando seus cavalos, deixando para trás o xerife e seus homens para limpar toda a sujeira. Um negro com os cabelos cortados bem curtos, roupas sujas e esfarrapadas, apontou a cabeça num beco, chamando por Oates.

Os dois foram até ele.

— Ei, Oates, está acontecendo alguma coisa lá para os lados do rio — disse ele.

— E o que é, Pete "Noite Escura"?

— Não sei dizer, mas havia muitos homens... Gente com armas e uniformes...

— Alguma briga?

— Não, mais parecido com festa...

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— Alguém conhecido?

— Pete é muito esperto para ter ido ver de perto... Bastante gente... Carroças e cavalos...

Grande festa, com certeza.

— Se era uma festa, por que não foi até lá, Pete?

— Pensa que sou louco? — retrucou o outro, rindo e estendendo a mão.

— Onde foi isso, Pete?

— Na Mansão O'Brien, sabe onde é?

— Sim, acho que sim, Pete. Obrigado pela informação — disse, enquanto punha uma moeda na mão estendida.

Pete sumiu para dentro do beco.

— O que acha que pode ser? - indagou Riley.

— Não sei, mas adoraria dar uma olhada.

— Pena que já acabou, não?

— Talvez encontremos alguma coisa ainda... O que me diz? — indagou, olhando para o parceiro

Era aquilo que tornava Oates um delegado eficiente. Nada o intimidava. Aquela sua maldita curiosidade o levava a qualquer lugar, não importavam os riscos e Riley já perdera a conta das encrencas em que os dois já haviam se metido por causa disso, desde que estavam ali. .

Oates fizera pergunta apenas por fazer. Riley já o conhecia bem. Ele fazia pergunta e já tratava de pô-la em prática, montando seu cavalo. Riley tratou de fazer o mesmo. Seu amigo já galopava a sua frente.

Todo o andar de cima da casa estava destruído. A parte de baixo havia sido precariamente adaptada para oferecer um mínimo de conforto.

Nas paredes, pedaços retalhados de telas e pinturas indicavam o bom gosto dos moradores daquela mansão. Os lampiões acesos não lembravam em nada o brilho antigo, quando os candelabros de cristal iluminavam soberbamente as paredes luxuosamente decoradas, os tapetes e cortinas vindos direto de Paris, além dos móveis maciços e finamente entalhados por mãos hábeis.

A mesa posta com um resto de luxo era ocupado por apenas um velho, servido por uma equipe de dois fiéis e antigos criados, velhos demais para entenderem o significado da libertação. Swam Woodfarm chegava aos sessenta anos com grande vitalidade e uma lucidez impressionante para sua idade.

Havia lutado várias batalhas e conseguido muitas vitórias, mas caíra na batalha final de Kennesaw, quando os confederados ofereceram a última e decisiva resistência, antes da queda de Atlanta.

A derrota fora um golpe violento em seu orgulho. Já não tinha mais a vitalidade de antes e não conseguia se adaptar àquela vida de privações. Para um homem como ele, habituado ao luxo e ao comando, ver-se naquela condição quase de um mendigo era doloroso demais.

Por isso vinha preparando seu filho, Robert Woodfarm, para levar adiante aquele plano.

Havia relutado em prepará-lo, mas os dias de miséria tornavam-se cada vez mais dolorosos para ele. Aquela poderia ser sua última chance de sair daquela situação de penúria e recuperar a honra e a riqueza perdidas.

— Bom trabalho, filho — disse-lhe o velho, assim que Robert chegou.

— Pelo menos neste início, tudo aconteceu conforme havia previsto, meu pai.

— Eu tinha certeza que seria assim — afirmou o velho.

— Continuo curioso, no entanto, para saber o que tem em mente com tudo isso.

— Agora posso lhe contar, meu filho. Essas ações contra os ianques, bem planejadas, vão tornar esse tesouro que pretendo amealhar muito grande, o bastante para darmos o fora daqui, meu filho. Há terras boas e baratas na Califórnia e no Oregom. É para lá que iremos, recuperar a tradição do nome Woodfarm.

Os olhos do rapaz brilharam de cobiça.

— Pensou nisso mesmo, pai?

— Sim, vamos tirar dos ianques o que eles tiraram de nós...

— Mas os outros...

— Os outros são soldados e soldados dão a vida, sem esperar recompensa, Robert. Serem roubados pelos ianques ou por nós, não fará nenhuma diferença para eles.

— Entendo! Parece-me um bom plano, pai.

— E seu trabalho vai ser importante para o sucesso de tudo isso, filho.

— Farei minha parte, pai. Pode ter certeza — garantiu o rapaz, apanhando de novo seu chapéu.

— Vai sair?

— Sim, vou tomar um trago com os rapazes.

— Cuide-se, filho. Não aceite provocações dos ianques, mas não volte para casa trazendo uma ofensa.

— Entendido, pai — afirmou ele, saindo.

Lá fora o esperavam três de seus melhores amigos.

— E então, Robert? — indagou um deles.

— Eu estava certo o tempo todo. O velho e seu grande plano vão nos render um verdadeiro tesouro. E o melhor é que não vamos ter que repartir o tesouro — comentou ele enquanto montava.

— E nós, onde entramos nisso, Robert? — quis saber um outro.

— Apenas fiquem do meu lado, rapazes, e não se arrependerão — prometeu ele.

— Onde vamos? Algum lugar em especial, Robert? — indagaram.

— Vamos dar uma volta, enquanto conversamos. Depois vamos ao Saloon da Rose, ainda

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é cedo para ir para lá.

Um deles tirou uma garrafa de uísque do alforje, estendendo-a para Robert, que tomou um gole, saboreando a bebida, enquanto pensava. A perspectiva de retornar àquela vida de luxo e de conforto de antigamente agradava-o muito.

Principalmente sabendo que iria fazê-lo às custas dos malditos ianques.

Um grupo de nortistas, acompanhados de duas garotas, retornava da igreja a pé, quando foi abordado por um bando de sulistas a cavalo. Os confederados, após a derrota, haviam dolorosamente aprendido a suportar as zombarias e a humilhação.

Tudo estava sob controle, até que um dos cavaleiros inclinou-se e enfiou a mão pelo decote de uma das garotas. Ela reagiu furiosamente, cuspindo no rosto dele. Imediatamente os cavaleiros atiraram seus animais para cima do grupo. Não satisfeitos, desmontaram e começaram a chutar e esmurrar os homens caídos na poeira. As garotas ficaram possessas, começando a gritar no meio da rua.

Ninguém apareceu em socorro delas, embora, atrás das portas e janelas, muita gente assistia à cena.

Os sulistas tentaram correr, apesar de espancados. Os nortistas apanharam seus cavalos e foram no encalço deles, empurrando-os contra um beco sem saída. Ali desmontaram e recomeçaram a bater nos seus inimigos.

Todas as armas dos sulistas haviam sido confiscadas. Se um deles fosse apanhado usando uma arma, mesmo que fosse um canivete, era preso e severamente punido.

Por isso um deles havia relutado, mas ser chutado como um cão e sentir suas costelas sendo partidas foi demais para ele. De sob seu sobretudo ele retirou uma espingarda de dois canos. Os canos e a coronha haviam sido cortados, tornando-a fácil de portar e esconder, mas com um poder de fogo violento a curta distância.

Ele engatilhou a arma e apontou-a na direção de seus agressores. Apertou os dois gatilhos ao mesmo tempo

A poderosa descarga atingiu em cheio o rosto de um dos atacantes, fazendo sua cabeça sumir em meio a uma nuvem de sangue, miolos e cabelos.

Os outros tentaram fugir. Um deles, porém, sacou seu Colt e começou a disparar.

O primeiro disparo arrebentou uma vidraça em algum ponto lá atrás. Outros dois homens sacaram espingardas semelhantes, disparando-as na direção do bando que tentava abrigar-se atrás de uma carroça.

— Vão me pagar caro por esta surra — dizia o rapaz, enquanto remuniciava sua espingarda.

O homem com o Colt na mão disparou o segundo tiro, atingindo-o no peito e jogando-o para trás.

Uma das garotas ergueu sua saia e retirou dali um pequeno Derringer, de dois tiros.

Disparou contra o ianque, no momento em que um de seus amigos também disparava sua espingarda de caso serrado.

O ianque foi jogado para o alto e para trás, caindo com os braços abertos e um rombo enorme no peito.

— Malditos! Pegaram meu amigo — gritou um ianque, saindo detrás da carroça e correndo para o beco, disparando um rifle.

Um dos sulistas levantou sua Overland de canos serrados e disparou, atingindo-o em cheio.

Ele jogou os braços e a Winchester para o alto, enquanto era empurrado para trás.

As garotas começaram a disparar também contra os homens atrás da carroça. Elas usavam Derringers, que seguravam com ambas as mãos, enquanto disparavam sem muita pontaria àquela distância, mas arrancando lascas da carroça ou arrebentando vidraças atrás deles.

Nas casas ao redor, as pessoas deitavam-se no chão, buscando proteção contra aquele inferno de chumbo.

Um dos nortistas havia conseguido apanhar seu rifle na sela do cavalo e começou a responder ao fogo, sem atingir ninguém.

— Bastardos! — falou uma das garotas, apanhando uma das tochas que iluminavam a rua.

Arremessou na direção da carroça. A garrafa caiu sobre a madeira, jogando fagulhas para todo lado, mas continuando a arder e espalhando rapidamente o fogo.

— Malditos rebeldes! — berrou um deles, tentando apagar as chamas, batendo com seu colete, mas incendiando-o e jogando o fogo sobre seus amigos.

Eles trataram de fugir dali, tentando correr para longe da carroça.

Um dos sulistas cortou-lhes o caminho com sua espingarda engatilhada e apontou-a para eles, disparando os dois canos sem piedade.

A carga especialmente reforçada abriu-se num leque mortal, atingindo todo eles e derrubando-os. Alguns ainda ficaram se contorcendo na poeira, com as roupas em chamas. As garotas aproximaram-se e foram imobilizando-os com certeiros disparos de Derringer na cabeça.

Os corpos ficaram imóveis, ardendo macabramente no meio da rua. Um dos sulistas soltou o grito de guerra rebelde, no momento em que Oates e Riley, atraídos pelo tiroteio, dobravam a esquina a galope.

— Que diabos é isso? — indagou Riley, surpreso, olhando aquelas estranhas fogueiras ardendo no meio da rua.

A resposta veio em seguida com uma série de disparos na direção deles.

— Oates, acho que não nos convidaram para esta festa — gritou Riley, saltando do cavalo e indo ocultar-se do outro lado da rua.

— Diabos, esta noite promete — comentou Oates, erguendo a sua Winchester e disparando de volta.

Sua pontaria foi certeira. Três tiros acertaram em seqüência o corpo de um dos atiradores, jogando-o contra uma parede. Quando escorregou para o chão, deixou uma trilha de sangue na madeira.

— Filho de uma cadela!... Maldito! — gritou uma das garotas, mirando sua pequena arma na direção de Oates.

— É uma garota, Oates! — alertou Riley.

O delegado hesitou por instantes. Era mesmo uma garota confederada, com os cabelos soltos, correndo na direção dele com uma Derringer em cada mão.

Riley percebeu a indecisão do amigo e disparou sua Overland contra a garota, jogando-a para trás, sobre o corpo em chamas de um nortista.

A outra garota começou a correr na direção de Riley, que tratou de remuniciar sua arma.

— Pegue-a, Oates! Pegue-a ou ela vai me acertar — pediu Riley, atrapalhando-se para recarregar a espingarda.

— Diabos! — praguejou Oates, apontando o rifle na direção da garota que corria pela rua.

Jamais vira uma imagem tão impressionante. A garota parecia fora de si, disparando e remuniciando com rapidez as armas que tinha mas mãos.

— Atire, demônios! — insistiu Riley, no momento em que Oates apertava o gatilho.

Riley viu, na sua frente, a garota ser puxada para trás por uma força invisível. Seu corpo arrastou-se na poeira, ficando imóvel, numa posição grotesca e retorcida.

O disparo secionara sua espinha e abrira um rombo em sua barriga, jogando para fora tudo que estava lá dentro.

Riley respirou aliviado, enquanto remuniciava sua espingarda, engatilhando-a em seguida.

Avançou na direção dos corpos que se espalhavam pela rua. Oates seguiu-o, após recarregar sua arma também.

— Pensei que não fosse atirar - comentou Riley.

— Era uma mulher...

— Pois então não pense nela como uma mulher. Pense nela como uma assassina, que é o que ela era, na verdade. Você já tinha visto coisa assim antes?

O tropel de cavalos aproximando-se indicava que o xerife e seus auxiliares, com certeza, se aproximavam.

Como sempre, apareciam só quando o tiroteio cessava.

— O que temos aqui? — indagou o homem da lei.

— Uma besta a cavalo! — respondeu Oates.

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— Muito engraçado, delegado! Não acha que já teve encrenca demais para uma só noite?

— insistiu o policial, desmontando.

Os curiosos chegaram em seguida. Oates e Riley foram examinar a cena da tragédia e tentar entender o que havia acontecido, seguidos pelo xerife.

— Muito bem, pessoal: que diabos aconteceu aqui? — indagou o xerife às pessoas que saíam das casas, ainda com olhar assustado.

Mais tochas foram acesas, iluminando macabramente o cenário de morte.

— Os nortistas provocaram os nossos, xerife. Começaram a surrá-los. Um dos rapazes sacou uma espingarda e começou um tiroteio. Estavam se saindo bem, até que chegaram os dois federais — explicou uma das pessoas.

Riley, percebendo que Oates afastara-se para não demonstrar sua irritação para com o xerife.

— Foi isso mesmo, Oates?

— Sim — antecipou-se Riley. — Ouvimos o tiroteio e viemos ver o que estava acontecendo, quando alguém atirou em nós e revidamos, atirando de volta — explicou.

Espero que esteja falando a verdade, Riley. Seria uma pena ter de puní-los por excesso de força...

Um grupo de cowboys que acabava de chegar à cidade entrou no saloon com ar cansado e poeira cobrindo seus rostos. Quando chegaram no balcão, O bartender já servira a bebida preferida de todos eles, uísque puro.

— Burt, se minha mulher soubesse meus gostos como você sabe, eu seria um homem feliz

— comentou um deles.

— Como foi o dia, rapazes? — indagou Burt, que havia sido cowboy antes da guerra e agora era sócio do Saloon da Rose, o mais freqüentado da zona sulista da cidade.

— O mesmo trabalho de sempre, Burt — falou Doyle, tirando o chapéu e esfregando uma das mãos nos ralos cabelos. — O dia inteiro olhando traseiros de vacas. Pelo menos estamos livres do chumbo que anda correndo solto pelas ruas de Atlanta, não? Houve briga feia ainda há pouco. Passamos por lá e vimos os cadáveres espalhados.

— Algum dos nossos?

— Dos dois lados.

— Sem contar que tentaram assaltar um coletor de impostos nas barbas sabe de quem?

— Oates Fordd?

— Ele mesmo. O bastardo é mais esperto que uma serpente. Ele e Riley despacharam uma porção deles para o inferno.

— Eram dos nossos?

— Acho que não, só pode ser gente de fora. Quem seria maluco de tentar isso na frente daqueles dois?

— É... Não devia mesmo conhecer Oates, aquele demônio — comentou o bartender, mas ninguém mais o ouvia, ocupados com suas bebidas.

O bartender foi até o fim do balcão, onde um velho grisalho, num surrado uniforme confederado, bebia sozinho seu uísque.

— Como eu estava lhe dizendo, Burt, parece que alguma coisa grande vai começar a acontecer por aqui, depois daquela reunião hoje na Mansão O'Brien. Os rapazes todos estavam lá — comentou ele.

— Tem alguma idéia do que seja?

— Nenhuma, mas o Coronel está no meio.

— E o resto dos rapazes?

— Não falei com nenhum deles. Esperei encontrá-los aqui.

— Ficarei atento. Alguém deverá saber o que está acontecendo.

O bartender retornou ao balcão, onde os cowboys terminavam suas bebidas. Repetiu-lhes a dose.

Chamou-os para mais junto de si. Os homens debruçaram-se sobre o balcão.

— Sabem alguma sobre o que houve lá para os lados do rio esta noite, pessoal? —

indagou ele.

— Nada que saibamos com detalhes, Burt. Parece que houve uma reunião do nosso pessoal. Um amigo passou por lá, mas muito depois e já não havia mais ninguém para informar o que havia sido resolvido. Sei apenas que há uma notícia correndo por aí...

— Que notícia?

— Manda limparmos e remendarmos nossos uniformes e dobrarmos o lenço vermelho —

informou o cowboy.

— Ninguém tem ao menos uma idéia do que esteja acontecendo?

— Não sabemos ao certo, Burt, mas estávamos justamente comentando isso. Exceto por esses dois tiroteios, percebeu como a noite está calma?

O bartender olhou ao seu redor. Percebeu que a maioria de seus habituais fregueses ainda não havia chegado. Sempre apareciam com uma história a mais de humilhação e sofrimento para contar. Naquela noite, porém, pareciam não ter motivos para beber e chorar as mágoas.

ã medida que a noite avançava, ao invés de aumentarem as confusões, como sempre acontecia, elas foram diminuindo. Dava para sentir nos ossos que alguma coisa estava acontecendo.

— Estranho? — comentava o bartender, a todo momento, com ar pensativo.

Todos os fregueses que entravam tinham a mesma sensação. Alguma coisa estava acontecendo e eles desconheciam.

Era como se as pessoas tivessem alguma coisa muito importante para fazer naquela noite.

Essa idéia não lhe saía da cabeça.

Passava um pouco das onze da noite, quando o xerife e seus assistentes passaram por ali para beber um trago.

— Que diabos estão fazendo aqui tão cedo? — indagou ele.— Estão desertando do serviço?

— Burt, tudo está em paz lá fora — afirmou o xerife, num tom misterioso.

— Isso tem alguma coisa a ver com a reunião na Mansão O'Brien?

— É possível...

A maneira como o xerife falava e sorria misteriosamente dava a entender que sabia o que estava acontecendo. E não podia ser de outra maneira.

O Xerife Jefferson era um sulista que, graças a sua tremenda habilidade e o apoio do Coronel Woodfarm, conseguira ser nomeado xerife da cidade dividida, tendo livre trânsito nos dois territórios.

— O que está acontecendo? — insistiu o bartender.— Os rapazes todos estão curiosos, Rose está curiosa. Se é algo contra os ianques, queremos todos saber e participar.

— Vocês terão sua chance, só posso lhe dizer isso por enquanto — assegurou o homem da lei.

— Espero que seja para breve, xerife. Estamos todos com esses ianques atravessados na garganta — comentou o bartender, mas interrompeu quando viu um velho soldado, apoiado numa muleta, entrar no bar e ir até uma parede, onde havia uma bandeira confederada pregada.

Espetou um pedaço de pano vermelho com um alfinete nela, deu o grito de guerra rebelde, depois retirou-se diante de todos os outros, que haviam feito silêncio.

O bartender deixou seu posto e foi até lá, olhar o pano que ele deixara. Era um pedaço de uma antiga bandeira confederada, com um nome escrito nela: Quantrill, o guerrilheiro que por muito tempo infernizara os ianques com seus ataques às cidades nortistas.

Seu bando havia sido, finalmente, destruído, sobrando apenas alguns nomes que agora enfeitavam cartazes de procura-se, espalhados nas árvores de todo o país.

O pano vermelho significava que Quantrill ou sua idéia estava de volta.

Quando retornou ao balcão, o xerife o olhava com interesse. Burt podia sentir em seus ossos que ele sabia algo sobre aquela historia toda, mas não a contaria.

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— É um recado para limparmos as armas e os uniformes, xerife. Vamos voltar a agir contra os ianques?

— Vamos deixar esse assunto de lado, Burt. Apenas espere e vá limpando as armas... —

recomendou o xerife. — Onde está Rose?

— Lá encima.

— Vou falar com ela.

— Vai contar o que está havendo?

— Talvez.

— E ela dirá a nós?

— Pergunte a ela — finalizou o xerife, deixando-o sem resposta.

Os dois delegados haviam voltado para o escritório, onde ficava a Delegacia Federal. Após aqueles tiroteios, uma incrível calma havia se abatido no lado sulista da cidade.

— O que acha que pode estar havendo? — questionou Oates.

— Diabos como há muito tempo não vejo esta cidade tão parada. Alguma coisa está acontecendo?

— Será que tem alguma coisa a ver com o que houve lá na beira do rio?

— Refere-se à movimentação na velha Mansão O'Brien?

— Sim... Mas nada havia quando fomos lá. Será que o negro não se enganou?

— Quem pode saber. O pobre Pete "Noite Escura" não fica sóbrio desde que começou a guerra, pelo que sei.

— Talvez possamos obter algumas respostas — comentou Oates.

— Como?

— Indo ao Saloon da Rose.

— Onde?

— No Saloon da Rose — repetiu Oates.

Riley olhou-o com atenção, tentando descobrir se realmente o amigo falava sério.

— Não, Oates, de jeito nenhum — comentou, quando percebeu que sim.

— E por que não? Já estivemos lá antes...

— Ainda tenho a cicatriz nas costas da garrafada que levei, quando você cismou de não prestar continência àquela bandeira esfarrapada na parede.

— Ora, Riley, eu não podia. Jurei minha lealdade à União.

De repente, na janela que dava para um beco ao lado da delegacia, alguém bateu levemente.

Os dois delegados se olharam e sacaram seus Colts ao mesmo tempo.

— Oates! — chamou alguém lá fora.

O delegado se aproximou da janela e, quando ia abrí-la, uma voz feminina sussurrou lá de fora.

— Não, não abra, delegado!

Oates sentiu suas velhas cicatrizes doerem, alertando-o para um perigo muito próximo e muito mais perigoso que um tiro de Winchester.

Conhecia aquela voz, por mais que ela tentasse disfarçá-la.

— O que deseja? — indagou ele.

— Oates — disse a voz feminina. — Se for passar pela via férrea esta noite, olhe no telhado da loja de ferragens.

— É você?

Um riso surpreso e ao mesmo tempo envaidecido se ouviu do outro lado.

— Por favor, não abra a janela nem me siga, delegado. Pode pôr a minha vida em perigo —

murmurou ela.

Oates ficou ali, colado à janela, tendo a certeza de que aspirava o perfume dela, mas nada podia fazer. A mulher tinha razão. Toda e qualquer ação da parte dele poria a vida dela em perigo.

— O que houve, Oates? — indagou Riley.

— Acho que já demoramos demais para fazermos nossa última ronda, Riley.

— Era ela?

— Com certeza.

— Quem pode querer sua cabeça tanto assim, a ponto de querer matar um delegado federal?

— Tem que ser mais do que pessoal, Riley. Vamos ver se descobrimos o que é...

Riley apanhou sua espingarda, uma bandoleira cheia de cartuchos, e seguiu-o.

— Desconfio, Riley, que há muita gente que não gosta de nós nesta cidade, não acha?

— É... Acho que você tem razão — concordou Riley, seguindo-o. — Esta noite estava calma demais para o meu gosto mesmo. Detesto o sossego, a paz, a tranqüilidade e a felicidade...

Uma tensão já conhecida instalou-se nos dois delegados federais.

Alguma coisa estava acontecendo na cidade. Uma coisa estranha que estava tirando das ruas os rebeldes brigões e deixando apenas os ianques provocadores à procura de encrenca, sem encontrar. Teria sido isso que os levara a armar aquela emboscada?

Seria uma forma daqueles malditos se divertirem?

Oates sabia muito bem que havia muitos ianques veteranos de guerra que não conseguia ir para a cama sem quebrar algumas cabeças confederadas.

Desde o término da guerra e com a chegada dos vencedores, Atlanta jamais fora daquele jeito. Podia-se sentir no ar que alguma coisa estava para acontecer. Era a mesma sensação que precedia as batalhas, na guerra de que haviam participado.

— Já percebeu, Riley? Já fizemos esta ronda dezenas de vezes, mas nunca é a mesma coisa. Nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente, não?

— Se não fosse pelos avisos que ela nos manda, já teríamos morrido há muito tempo, não?

— Com certeza!—

— E o que acha que está havendo na cidade? O que significa essa trégua?

— Significa muita encrenca a caminho, pode ter certeza — falou Oates, verificando a barrigueira de seu cavalo, apertando-a bem firme, depois montando.

Riley fez o mesmo.

— Como vamos enfrentar essa? — indagou Riley, acomodando a espingarda no coldre da sela.

— Vamos ver o cenário da batalha primeiro — falou Oates, pondo seu cavalo para andar.

Não rumaram direto para a rua paralela à via férrea, onde era a divisa entre os dois territórios da cidade.

Foram para a rua que ficava atrás da loja de ferragens. Oates parou seu cavalo e desceu, levando sua Winchester.

— O que vai fazer? — indagou Riley.

— Vamos ver como estão as coisas.

Riley desceu e seguiu-o. Aproximaram-se e entraram num beco de onde podiam observar o telhado da loja de ferragens.

— Vê alguma coisa? — indagou Riley.

— Se está lá, está imóvel e muito bem escondido. Vamos ter de fazê-lo sair de lá, Riley.

— Como quer fazer?

— Vou ficar aqui e você retorna até o começo da rua. Avança devagar. Quando o bastardo lá encima pôr o nariz para fora, eu o acerto...

— E se houver mais de um lá?

— Eu tenho uma Winchester, acerto os dois, não se preocupe.

— Ok, Oates! Vou voltar a fazer o que me pede.

Enquanto Riley retornava até os cavalos, Oates procurou a melhor posição para apoiar sua Winchester, no beco. Dali, no escuro, podia observar todo o telhado da loja sem ser visto.

Não via sinal de ninguém lá. Subitamente, porém, viu a chama de um cigarro ardendo no alto do telhado.

Aquela brasa indicava a presença de alguém lá. Engatilhou a Winchester e esperou, atento a qualquer movimento. Riley já devia estar no começo da rua. A qualquer momento alguém teria de surgir lá em cima.

— Bastardo filho da mãe! — murmurou ele, quando uma cabeça surgiu lá encima, com um fuzil na mão.

Um homem alto, usando chapéu, apontou no alto do prédio, olhando a rua. Depois abaixou-se para, em seguida, tomar posição de tiro com seu fuzil.

Pelos movimentos de mão que fez, Oates percebeu logo que se tratava de uma arma especial. Sabia de que tipo era. Os soldados sulistas haviam usado muito aquelas armas no fim da guerra. Eram armas de longo alcance, com luneta rudimentar e projéteis especiais.

Riley estava em perigo, porque poderia ser atingido de longe. Tratou de agir rápido. Mirou cuidadosamente e disparou. Viu o chapéu voar para cima, levando junto parte da cabeça do atirador.

Riley esporeou seu cavalo e avançou em disparada, ao ouvir o tiro.

— Você o pegou? — indagou, saltado do cavalo com sua espingarda engatilhada e pronta para disparar.

Oates havia corrido esconder-se atrás de um bebedouro, olhando o telhado atentamente.

— Sim, arranquei a cabeça do bastardo.

— Algum sinal de mais alguém?

— Não, havia apenas um. Vou subir lá para verificar. Fique aqui e me dê cobertura.

Oates atravessou a rua e entrou no beco atrás do prédio. Havia uma escada ali. Enroscou a correia da Winchester no ombro e começou a subir.

Tudo estava em silêncio ao redor. Oates estava achando tudo aquilo muito estranho.

Viu o corpo caído no telhado. Não precisaria chegar perto para ver que faltava-lhe parte da cabeça. Mesmo assim foi até lá. Estava interessado em algo. Junto ao corpo havia um fuzil especial para atiradores de emboscada, com mira telescópica, semelhantes aos usados pelos nortistas, como ele deduzira.

Conhecia aquela arma muito bem. Apenas se ouvia seu som ao longe e um corpo caía em algum lugar ao redor deles.

Quem estivesse na mira dele no momento do disparo dificilmente escaparia.

A caixa de projéteis junto ao rifle mostrava o tipo de bala empregada e sua procedência: Exército dos Estados Unidos.

— Bastardos! — murmurou ele, sem entender, inclinando-se para examinar o rifle.

— Tudo bem, Oates? — indagou Riley, surgindo no telhado.

— Sim, só havia um. Conhece este tipo de arma? — indagou Oates.

— Sim, usei uma na guerra. É infalível.

De lá de cima Oates ficou olhando as pessoas que saíam à rua, nos dois lados da cidade, observando e tentando adivinhar o que havia acontecido.

Oates ficou pensando como alguém conseguiria aquela arma e a munição, exclusivas do

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Exército da União. E por que se daria ao trabalho de preparar uma emboscada como aquelas.

Quem estava por trás de tudo aquilo?

Quem o desejava morto?

E por quê?

Tudo isso apenas confirmava para ele que alguma coisa estranha, muito estranha, acontecia em Atlanta.

E só havia uma forma de começar a encontrar as respostas.

Era quase meia-noite quando Robert Woodfarm chegou ao Saloon da Rose, sendo saudado em pé, com palmas, pelos presentes. O filho do Coronel Swam Woodfarm era olhado com respeito. Mãos se estenderam em sua direção e ele as foi apertando, à medida que caminhava até o balcão.

Burt já o esperava com uma garrafa de brandy envelhecido, a bebida exclusiva do coronel e, agora, de seu filho. Era a mais cara do estabelecimento, mas nem o coronel nem seu filho pagavam alguma coisa ali.

— Veja lá na parede - apontou Burt, na direção da bandeira confederada, onde o velho havia pregado o pedaço de pano vermelho.

Robert e seus amigos sorriram. A notícia corria rapidamente. Seria fácil mobilizar um exército contra os ianques, mas os planos deles não previam nenhum ato meritório ou ação heróica.

— ã Confederação! — brindou ele e todos se puseram em pé para brindar também.

Um semicírculo se formou, deixando-o no centro, apoiado ao balcão e olhando aqueles rostos cheios de expectativa.

— Robert, é verdade o que andam dizendo por aí? - indagaram.

— E o que andam dizendo por aí? — devolveu ele.

— Aquilo! — insistiu o homem, apontando na direção da bandeira na parede.

— Nada posso dizer, rapazes. Eu estaria cometendo um crime de alta traição contra a União. Nada sei de heróis que pretendem resgatar a honra e o orgulho do povo sulista —

afirmou ele e, nas entrelinhas, todos entenderam o que ele queria dizer.

— E poderíamos ajudar esses heróis, se eles por acaso aparecessem? - quis saber outro.

— Acredito que eles aceitariam toda a ajuda possível, amigos. Esperem. Quando for o momento, eles pedirão ajuda, se acaso existirem mesmo.

— E seu pai, como está?

— Meu pai só fia satisfeito no lombo de um cavalo e na expectativa de uma batalha. Posso lhes afirmar que ele nunca esteve melhor, rapazes.

— Um hurra para o coronel e seu filho! — propôs alguém e o saloon estremeceu com a saudação.

No momento seguinte ele se calou. No alto da escada surgia Rose, com seu vestido vermelho lembrando a bandeira confederada. Todos os olhos se voltaram para ela. A admiração e o desejo estampava-se em todos os rostos.

Era a mulher mais desejadas de Atlanta, mas ninguém podia afirmar que tinha dormido com ela, nem o próprio coronel nem seu filho. Rose era bela e inatingível.

O pianista tocou os primeiros acordes de Dixieland. Rose começou a cantar com sua voz levemente rouca, mas cheia de emoção e vibração. Os homens contaram com ela.

Quando terminou, os aplausos explodiram no saloon.

— Uma rodada por conta da casa, Burt — declarou ela.

Os aplausos foram mais entusiasmados ainda. Todos correram para o balcão. Burt foi servindo os copos um a um. Rose foi até a bandeira confederada na parede. Robert foi ter com ela.

— Está sabendo das novidades? — indagou ele.

— Sim, o xerife esteve aqui e me contou.

— Ótimo! Já começamos nosso trabalho. Estamos nos organizando para entrar em ação.

Soube dos delegados federais?

— Sim, o xerife disse que eles estão sendo ameaçados. Quem está por trás disso, afinal?

— Ainda não sabemos, mas a morte deles pode ser interessante para nós.

— Como assim?

— Seria ótimo para nós que apenas o xerife ficasse no controle da lei em Atlanta.

Poderemos agir livremente, assaltando o banco, os coletores de impostos e os leiloeiros e compradores de terra.

— Se eles forem mortos, outros virão no lugar deles...

— O xerife pode insistir junto aos seus amigos ianques para que não façam isso. Não sei como ficaria.

— A vida daqueles dois não será nada fácil daqui para frente — comentou Rose.

— Hoje à noite escaparam de uma emboscada, mas sabemos que puseram quatro pistoleiros atrás deles. Cedo ou tarde eles serão apanhados. É só uma questão de tempo.

Rose ficou pensativa, traindo sua preocupação. Robert sorriu misteriosamente. Ele e alguns outros sabiam do caso entre ela e Oates, desde quando ele era major no Exército Confederado.

Naquela noite, quando o xerife a procurara, foi para que ela avisasse Oates da emboscada e ele pudesse se antecipar, apanhando o atirador com a arma e a munição nortista.

Aquilo daria o que pensar para o delegado e fazia parte do plano de jogá-los contra os ianques e vice-versa. Enquanto eles se digladiavam, os sulistas agiriam, roubando e saqueando.

Sem saber, Rose estava sendo usada pelos líderes daquele plano, assim como todo o resto dos inocentes colaboradores e soldados que os ajudariam a enriquecer.

Apenas o Coronel, Robert, seus amigos e o xerife sabiam do plano real: roubar em proveito próprio.

— Vamos ter de contar com a sua ajuda, Rose, para esconder eventualmente algum dos nossos, tratar de feridos e até esconder o produto dos roubos.

— Claro que sim, Robert. Ainda temos toda a adega preparada para esse tipo de coisa.

— Ótimo. É possível que tenhamos que usá-la logo para esconder o produto do nosso primeiro roubo... Aqui estará a salvo e livre de encrencas. E falando nisso, olhe só quem está chegando — disse ele, com surpresa.

Oates estava entrando, acompanhado de Riley. Enquanto os dois entravam, um silêncio mortal pairou no saloon. Oates parou, olhando para a parede onde estavam Rose e Robert, junto à bandeira. Caminhou até lá.

— Não, de novo não, Oates — falou ele, seguindo-o, com a espingarda na mão, pronta para fazer fogo.

— Por que isto? — indagou ele, retirando o pano vermelho.

Alguns homens fizeram menção de reagir, mas calaram-se quando Robert fez um gesto pedindo calma.

— Pensei que ainda se lembrasse — ironizou Robert. — Seu juramento à União afetou sua memória?

— Lembro que este era o símbolo de um cachorro louco chamado Quantrill, um maldito bandido que matava mulheres e crianças.

— Ele matava nortistas! — gritou alguém.

— Americanos! — corrigiu Oates, rasgando o pano e jogando-o no chão.

Um velho, sem o braço direito levantou-se, aproximou-se, apanhou o pano e o guardou com respeito.

— Maldição, Oates! Não precisava se indispor com esses veteranos.

O delegado não o ouvia. Olhava para Robert e para Rose alternadamente.

— O ar está ficando irrespirável — disse a garota, deixando-os.

Oates acompanhou-a com os olhos, enquanto ela ia para trás do balcão, ajudar a servir os homens que, furiosos, bebiam procurando ignorar a presença ofensiva dos dois homens da lei, principalmente Oates, a quem consideravam um traidor.

— Você pode ter seus defeitos, Oates, mas devo reconhecer que é um sujeito valente. Ou valente ou louco. Difícil descobrir o que você é exatamente.

Oates ficou olhando para ele. Conhecia Robert havia muito tempo. Era um covarde, que passara a guerra toda num campo de prisioneiros, após ter sido apanhado em sua primeira batalha. Voltara para casa sem um arranhão.

— Pensei que estivesse na festa — disse-lhe Oates.

— Que festa?

— A festa que houve lá na Mansão O'Brien.

O rosto de Robert não se alterou.

— Não pude ir — respondeu, simplesmente, esboçando um sorriso irônico e misterioso.

Oates não teve dúvida. Ele, assim como o xerife, sabiam de alguma coisa.

Alguma coisa que tinha a ver com aquele fuzil nortista encontrado com o emboscador, naquela noite. Oates e Riley haviam procurado em seus arquivos alguma informação sobre o roubo de armas daquele tipo, mas nada haviam encontrado. Teriam de escrever uma carta e mandar para o Exército para descobrir isso.

— Ficou preso a algum compromisso — devolveu Oates, num tom de zombaria que Robert entendeu imediatamente, pois o delegado federal não perdia uma oportunidade para alfinetá-lo por sua medíocre participação na guerra.

Robert empalideceu e todo o seu corpo enrijeceu. Mesmo assim, ele não perdeu o controle.

Num momento como aqueles valia a pena manter a calma. Começar uma briga com o delegado ali dentro poderia pôr a perder todo o plano.

Oates deu-lhe lentamente as costas e rumou para o balcão. Ele e Riley foram ocupar uma das pontas, de onde podiam observar todo o saloon, sem ninguém atrás deles.

Os homens que bebiam por perto se afastaram. Ele fez um sinal, pedindo que Burt o atendesse. O bartender hesitou, demonstrando sua aversão pelo delegado.

— Eu cuido disso — antecipou-se Rose, apanhando uma garrafa de seu pior uísque.

— Quero do outro — exigiu Oates, quando ela se aproximou.

Ela demonstrou sua contrariedade pela careta em seu rosto e recuou, apanhando outra garrafa.

Serviu os dois.

— Fico contente em ver que está bem... — disse ela com sua voz de mulher apaixonada, fazendo-o arrepiar-se dos pés à cabeça.

— Você se arriscou muito... Como soube da emboscada?

— O xerife me contou. Alguma coisa vai começar a acontecer.

— Precisamos conversar a sós, de alguma forma... — pediu ele.

— Não posso... Pode ser muito perigoso... Você deve tomar muito cuidado de agora em diante. Eles vão tentar matá-los.

— Quem?

— Ninguém sabe... Quando você sair, fique atento a quatro cavaleiros. Estão no seu encalço...

Os dois conversavam como se Oates estivesse dizendo gracejos a ela, que demonstrava contrariedade no rosto. Só Riley, ao lado, podia perceber o verdadeiro conteúdo da conversa.

Seu olhar estava vigiando o saloon. Via todos aqueles homens ansiosos para ter um pretexto e partir para cima deles. A única coisa que parecia mantê-los em calma era Robert, ainda em pé junto à bandeira, conversando com seus amigos e a espingarda que ele, Riley, segurava ostensivamente.

— É melhor eu me afastar ou você começará a ter problemas com meus fãs.

— Preciso saber mais sobre o que está acontecendo.

— Eu o aviso quando tiver mais informações — arrematou ela, saindo de perto deles.

— O que acha, Oates?

— Ainda não sei. Vamos investigar isso mais a fundo. O problema agora é que há alguém lá fora a nossa espera — disse. — E o diabo é que estou apenas com o meu Colt...

— Estou com minha espingarda aqui, não se preocupe. Quando sairmos eu lhe dou cobertura, até que pegue a Winchester.

— Vamos terminar nossa bebida e sair logo daqui. O clima está ficando cada vez mais pesado — observou Oates.

— Fiquei curioso com uma coisa, Oates — disse Riley. — Se não são os rebeldes que nos caçam, quem poderá ser?

— Se descobrirmos de onde veio aquele fuzil ianque teríamos uma resposta.

— Pensei nisso também. Se os rebeldes não são os responsáveis, acho bom começarmos a considerar que nossos inimigos estão no meio dos ianques.

— É isso que me preocupa. Se somos hostilizados pelos sulistas e caçados pelos nortistas, estamos no inferno, meu amigo. No inferno e não sabemos o momento em que seremos apresentados ao demônio em pessoa — comentou Oates, examinando disfarçadamente a carga de seu Colt.

— Vamos sair?

— Sim. Eu saio na frente. Você fica na porta, de olho. Quando eu chegar ao meu cavalo e empunhar a Winchester, você sai e vai ao meu encontro. Ok?

— Ok! — confirmou Riley, verificando a carga da espingarda e retirando dois cartuchos da bandoleira e deixando-os de reserva na mão.

Oates deixou uma moeda sobre a mesa. Caminharam na direção da porta. Robert olhou o rosto de Rose, que demonstrava toda a sua expectativa, confirmando que havia contado a Oates sobre a emboscada.

Pela maneira como os dois federais rumavam para a porta, percebia-se a cautela e a tensão em seus rostos.

Oates adiantou-se, saindo rapidamente e caminhando na direção onde estava seu cavalo.

Riley parou na porta, com a espingarda pronta para atirar.

Olhou para os lados. Diante do saloon havia um beco. Riley teve certeza que viu algo brilhar ali, mas hesitou. Não podia disparar sem um motivo justo. Poderia matar um inocente.

Seu amigo chegou no cavalo e começou a sacar a Winchester.

Riley adiantou-se, olhando nas duas direções, enquanto caminhava ao encontro de Oates.

Naquele momento, línguas de fogo brotaram do beco e os projéteis passaram assobiando ao redor dele, indo encravar-se na parede do saloon.

— No beco! — gritou Riley, atirando-se ao chão, protegendo-se atrás dos cavalos amarrados no travessão.

Oates fez o mesmo. Uma dezena de disparos foram feitos numa seqüência atordoante, depois o silêncio dominou a rua. Momentos depois, o tropel de cavalos indicava que os atacantes haviam se afastado.

Os dois se levantaram, espanando a poeira das roupas. Rose foi a primeira a deixar o saloon. Ao vê-los com vida, respirou aliviado, levando as mãos ao peito.

— Está tudo bem, pessoal! Eles não tinham muita pontaria — comentou Oates, guardando a Winchester na sela.

Montou seu cavalo, imitado por Riley. Robert Woodfarm estava parado na porta, olhando-os e sua expressão não era de desapontamento. Parecia satisfeito e isso Oates não entendeu.

— Vamos tentar seguí-los? — indagou Riley.

— Aqui, no setor sulista da cidade? Jamais os encontraríamos e eles teriam facilidade para nos preparar nova emboscada.

— Não estou gostando nada disso, Oates. Esse negócio de servir de alvo não me agrada nem um pouco.

— Paciência, meu amigo! Vamos descobrir quem está por trás disso tudo — afirmou Oates, esporeando seu cavalo.

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Os dois delegados já haviam se afastado, quando chegou o xerife. Ao ver Robert, foi ter com ele na mesa onde bebia com seus amigos.

— Puxe uma cadeira, xerife! — convidou-o.

O xerife se sentou, cheio de curiosidade.

— E então? — indagou.

— Tudo perfeito, xerife.

— Eles não desconfiaram?

— Nem um pouco.

— E Rose?

— Perfeita em seu papel.

— Ela vai ser muito útil para nós, despistando os federais, enquanto agimos. Estive com alguns compradores de terras no hotel hoje à noite. Amanhã vai haver o leilão da Fazenda Graceland. Algumas das carteiras mais abarrotadas do Estado estarão lá.

— Excelente, xerife! Poderemos dar nosso primeiro golpe amanhã, então.

— Sim, a operação já está toda montada. Eu e meus rapazes estaremos montando guarda, mas não haverá reação. Os homens chegarão no início do leilão, roubarão todos que estiverem lá, depois fugirão para o outro lado do rio. Um emissário será mandado para cá, para trazer o produto do roubo.

— Ótimo! Vamos escondê-lo na adega do saloon. Rose já concordou.

— Acha que poderemos confiar nela quanto a isso? Se ela contar ao delegado federal, perderemos todo o nosso tesouro.

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— Não se preocupe quanto a isso. Rose é fiel à Confederação. Seu único mal foi apaixonar-se por Oates. Enquanto não fizermos mal a ele, ela se manterá do nosso lado, ajudando-nos como fez durante toda a guerra.

— Espero que tenha razão quanto a isso.

— Tenho, não se preocupe. É uma pena que meu pai não possa estar presente. Ele iria adorar ver a cara desses ianques, enquanto entregam suas carteiras.

— Pois eu vou ter essa felicidade. Depois eu conto a ele — falou o xerife e todos riram.

No outro lado do salão, Rose servia alguns cowboys que acabavam de chegar, mas mantinha-se atenta ao que se passava lá na mesa, agora que o xerife chegara.

Não estava se sentindo muito segura a respeito deles. Pareciam não estar lhe contando toda a verdade. Havia alguma coisa no ar que ela não conseguia entender.

A começar por aqueles atentados contra os dois delegados federais. Como o xerife e Robert haviam tomado conhecimento disso? Sua intuição feminina lhe dizia que não estavam lhe contando toda a verdade a respeito daquele plano de resistência contra a dominação dos ianques.

Roubar dos malditos ianques para ajudar os compatriotas rebeldes era uma ação meritória, segundo ela. Só que, agora, não se sentia tão segura a respeito disso.

Oates e Riley voltaram para o escritório. Oates estava intrigado com tudo aquilo que estava acontecendo. Duas emboscadas numa noite davam o que pensar. Foi apanhar o fuzil militar que haviam tentado usar contra eles algumas horas antes.

— O que o preocupa, Oates? — indagou Riley.

— Não sei, companheiro, mas há alguma coisa errada nisso tudo.

— Sim, muito errada. Estão nos usando como alvo.

— Não é isso. Na primeira emboscada, alguém deixou escapar o plano para Rose. Na segunda, também, só que eles tiveram chance de atirar. Você erraria daquela distância?

— Mesmo considerando a escuridão, eu acho que não. Atirando no escuro eu acho que acertei um deles...

— Também tive essa impressão. Mas por que homens treinados ou hábeis para atirar teriam errado o alvo tão vergonhosamente?

— Acha que erraram deliberadamente?

— É uma hipótese.

— Por quê?

— Por que talvez querem que pensemos que alguém quer nos matar.

— Não vejo lógica nisso.

— Nem eu, mas é o que me vem à cabeça.

Enquanto os dois pensavam, lá fora, num beco, os quatro homens que haviam participado da emboscada diante do saloon conversavam.

Um deles havia sido atingido e estava inconformado.

— As ordens foram claras, Pete. Só tínhamos que assustá-los.

— E isto é susto? — retrucou o rapaz, mostrando a mão suja de sangue.

Um dos tiros de Riley havia acertado seu braço esquerdo, deixando ali alguns caroços de chumbo grosso.

— Foi aquele maldito com a espingarda e eu vou acertar contas com ele — disse o rapaz, sacando seu Colt.

— Vai ter que explicar isso ao Coronel depois.

— Dane-se o Coronel — respondeu ele, atravessando a rua com a arma engatilhada.

— Então vai fazer isso sozinho — disseram os outros, indo apanhar seus cavalos.

Aproximou-se de uma janela aberta, espreitando sorrateiramente. Viu Riley em pé, de costas e não hesitou. Levantou a arma e atirou.

Riley foi jogado para cima da mesa de Oates, que sacou rapidamente a arma, enquanto amparava o amigo.

— Riley! — gritou, ao sentir sangue em sua mão.

Acomodou-o no assoalho e correu para a porta. Viu o homem que corria na direção de um beco e fez fogo. O matador rodopiou e caiu na poeira.

— Oates! — chamou-o Riley.

Ele retornou para junto do amigo.

— Estou mal... Estou mal, Oates! — murmurou Riley.

— Vou chamar o médico, Riley. Agüente firme! — disse o delegado, levantando-se e indo até a porta.

Não viu o homem em quem atirava. Havia um médico logo ali perto e, com alívio, Oates viu que já havia luz naquela casa. Quando abriu a porta para ir até lá, o médico já vinha saindo com sua maleta. Foi ao encontro dele.

— Lá dentro, foi meu amigo, acertaram-no nas costas — avisou, retornando.

O médico fez um rápido exame.

— Teve sorte, a bala não atingiu nenhum órgão vital. Vou tentar tirá-la a parar a hemorragia.

— Precisa de ajuda?

— Não, só traga aquela luz para mais perto.

Oates fez o que ele pedira, depois apanhou seu rifle e foi no encalço do homem que havia disparado contra Riley. Aquilo mudava todas as suas conclusões.

Estavam querendo matá-los de verdade.

— Demônios! — murmurou ele. — Foi para o lado rebelde da cidade — concluiu, seguindo a trilha de sangue que havia entrado pelo beco e saído na outra rua.

Dali rumava na direção da linha férrea. Aquele homem tinha poucos minutos de dianteira.

Estava rumando para um lugar definido. Se descobrisse para onde iam, tudo se tornaria mais fácil, pois poderia antecipar suas ações.

Naquele caso, tinha uma motivação especial. Apanhar aquele homem vivo era uma questão de honra. Poderia fazê-lo falar e descobrir o que estava acontecendo na cidade realmente.

Atravessou a linha férrea. A trilha de sangue continuava na poeira na direção de um saloon que havia ali perto. Era para lá que o ferido se dirigia.

Deixou seu rifle engatilhado e caminhou lentamente na direção do saloon.

Não havia movimento nas ruas. Diante daquele saloon, havia apenas dois cavalos amarrados.

Aproximou-se cuidadosamente da porta. Antes de entrar, sondou o interior.

Apenas dois homens bebiam, conversando com o bartender. Nenhum deles estava ferido.

A trilha de sangue era nítida, no entanto, entrando, passando pelo salão e subindo as escadas na direção do pavimento superior.

Entrou e dirigiu-se calmamente ao balcão.

— O que vai ser, delegado? — indagou-lhe o bartender.

— Uísque.

O homem serviu-o rapidamente.

— Parece assustado, delegado. O que houve?

— Procuro um homem — respondeu Oates, os olhos atentos aos dois homens ao seu lado e ao alto da escada.

— Acho que veio ao lugar errado, delegado. Se quiser uma garota... — ironizou o bartender.

Os dois homens ao lado riram. O homem atrás do balcão também segurou-se para não rir.

Oates fuzilou-o com seu olhar mais glacial.

— Procuro um homem ferido. Deve ter entrado aqui há poucos minutos — disse ele.

— Não me lembro de ter visto ninguém entrar... Viram alguma coisa assim, rapazes? —

indagou aos dois homens que bebiam ao lado.

— Depende de quem quer saber — respondeu um deles e os dois se viraram para encarar Oates .

— Eu quero saber — falou o delegado federal.— E quem é você?

— Meus amigos me chamam de Oates ... Meus inimigos costumavam me chamar de Fordd

— afirmou ele, desabotoando a capa e abrindo-a para revelar o Colt.

— Fordd? Oates Fordd? — repetiu o homem, engolindo seco.

— Sim, você ouviu bem, rapaz. Viu um homem ferido entrar ainda há pouco?

— Não estava de costas... Sinto muito, Sr. Fordd .

Uma garota estava tirando garrafas de uma caixa e arrumando-as na prateleira, atrás do balcão. Parou e voltou-se para encarar Oates.

— Eu vi aquele rapaz ferido, o amiguinho de Norma. Os dois estão juntos lá encima — falou ela.

— Há mais alguém com eles?

— Apenas os dois.

— Não sei.

— Em que quarto estão?

— Quarto cinco, no meio do corredor, à direita.

Oates entornou o uísque, depois retirou o Colt do coldre, verificando sua carga. Guardou-o em seguida. Apanhou o rifle que deixara sobre o balcão, já engatilhado. Caminhou na direção da escada.

— Espere um pouco, homem! O que pretende fazer?

— Vou pegar aquele filho da mãe! — respondeu Oates, sem se deter.

— Bob, vá chamar o xerife ou um de seus auxiliares. Deve encontrar alguém no Saloon da Rose! — pediu o bartender a um dos homens que bebiam ali.

— Vai haver encrenca da grossa — falou Bob, apressando-se em fazer o que o outro lhe pedira.

Enquanto ele saía, Oates subia a escada.

Avançou lentamente pelo corredor, até parar diante da porta. A trilha de sangue era bem nítida. Respirou fundo. Não sabia o que encontraria pela frente, mas sabia como enfrentar uma situação como aquelas. Não era diferente de muitas que enfrentara antes.

Segurou firme o rifle. Em seguida, meteu o pé na porta. Com um barulho de madeira sendo lascada lascando, a porta se abriu até o fim.

Na cama, Pete assustou-se ao ver aquele homem entrar com a arma apontada para ele. A garota que lhe fazia um curativo pulou para um canto.,

— O que está havendo aqui? — indagou ela, assustada.

Pete olhava para o coldre de seu cinturão, que pendia ao lado de sua cabeça, preso na cabeceira da cama.

— Quem é você? O que pensa que está fazendo aqui? — indagou o pistoleiro, assustado.

Oates aproximou-se, apanhou o cinturão dele e jogou-o para longe. Olhou o ferimento no braço, feito por uma espingarda, e o outro na coxa, feito por um Colt.

— Onde conseguiu esses ferimentos? — indagou.

— Numa briga...

— Onde?

— Por que quer saber? — retrucou o rapaz.

Oates inclinou-se sobre ele como se fosse dizer-lhe alguma coisa. Ao invés disso, o cano de sua arma atingiu a coxa ferida, que urrou de dor.

O sangue começou a escorrer novamente, enquanto o rapaz encolhia-se todo na cama.