Ação do vinho tinto sobre o sistema nervoso simpático e função endotelial em pacientes hipertensos.. por Ana Cristina Magalhães Andrade - Versão HTML

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ANA CRISTINA MAGALHÃES ANDRADE

Ação do vinho tinto sobre o sistema nervoso

simpático e função endotelial em pacientes

hipertensos e hipercolesterolêmicos

Tese apresentada à Faculdade de Medicina

de São Paulo para obtenção do título de

Doutora em Ciências

Área de Concentração: Cardiologia

Orientador: Prof. Dr. Protásio Lemos da Luz

São Paulo

2006

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Preparada pela Biblioteca da

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

reprodução autorizada pelo autor

Andrade, Ana Cristina Magalhães

Ação do vinho tinto sobre o sistema nervoso simpático e a função endotelial em pacientes hipertensos e hipercolesterolêmicos / Ana Cristina Magalhães Andrade. --

São Paulo, 2006.

Tese(doutorado)--Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Departamento de Cardio-Pneumologia.

Área de concentração: Cardiologia.

Orientador: Protásio Lemos da Luz.

Descritores: 1.Vinho 2.Sistema nervoso simpático 3.Endotélio/ultrasonografia 4.Hipertensão 5.Hipercolesterolemia

USP/FM/SBD-299/06

Dedicatória

iii

Aos meus pais, cujo apoio foi essencial a todos os meus projetos e cujo carinho e exemplo sempre estiveram presentes na minha vida; iv

À minha irmã Adriana, que torce por mim em todos os meus empenhos; Ao meu afilhado João Henrique, que, mesmo pequenininho e sem entender direito, já é uma dádiva de Deus para todos nós.

v

Agradecimentos

vi

Ao Prof. Dr. Protásio Lemos da Luz, cuja disciplina, cuja busca incansável pela perfeição, cuja dedicação constante à Medicina e cujo rigor científico foram e serão exemplos durante toda minha vida acadêmica e profissional; vii

Ao Instituto do Coração, por todos estes anos de formação profissional e acadêmica, sob a coordenação do Prof. Dr. José Antônio Franchini Ramires;

Ao Prof. Dr. Eduardo Moacir Krieger, pela oportunidade, pelo exemplo constante de amor à ciência e pelo respeito pelo ser humano – foi uma honra ter feito este projeto sob sua orientação;

À Dra. Fernanda Consolim-Colombo, pela disponibilidade do Laboratório de Hipertensão, ajudando com boas idéias;

À Dra. Silmara Coimbra, pelo ensino da técnica de ultrassonografia e pela disponibilidade do Laboratório de Endotélio da Unidade de Aterosclerose; Aos Profs. Drs. Fábio Jatene e Whady Hueb, e ao Dr. Alexandre Hueb, pelo apoio e pela disponibilidade em todos os momentos; Aos Drs. Fernando Cesena, Desiderio Favarato e Neuza Lopes, pela ajuda na elaboração desta tese e pela amizade;

Ao Dr. Maurício Sendeski, pelo ensino da técnica de microneurografia e pela amizade;

Às enfermeiras Marisa Góes e Grazia Guerra, que estiveram presentes durante os experimentos, que leram meus dados e que me ajudaram nas análises;

À Vanda Yoshida, ao Dr. Célio Santos e à Maria Aparecida Bertolini, que realizaram as análises bioquímicas no laboratório de Biologia Vascular; À Fabiana Lima, à Sílvia Mendoza Furtado, à Neusa Dini, à Juliana Lattari Sobrinho e à Eva de Oliveira, sempre atentas e cuidadas para ajudar nos momentos decisivos;

Ao Sr. Sérgio Spezzia, pela sua contribuição com o trabalho audiovisual; Ao Sr. Cláudio Reis Canuto, pela paciência e pela ajuda com os experimentos de microneurografia,

À Mônica Cavalcante, minha prima querida, que tão prontamente me ajudou na revisão de português; obrigada

A todo os voluntários que foram tão pacientes e atenciosos comigo; A todos os amigos que deram seu apoio neste momento tão singular em minha vida;

A todos os que, de forma direta ou indireta, colaboraram para a realização deste projeto;

viii

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio financeiro através do auxílio-pesquisa (processo 03/09084-0) E - não poderia esquecer – a Deus e a Nossa Senhora Aparecida, pois, sem eles, nada disto seria possível.

ix

Sumário

x

Lista de abreviaturas......................................................................................xii Resumo..........................................................................................................xv Summary......................................................................................................xvi 1. Introdução.................................................................................................1

1.1. Álcool, vinho tinto e doença cardiovascular............................................. 2

1.1.1. Estudos epidemiológicos.......................................................................2

1.1.2. Estudos experimentais.......................................................................... 5

1.1.3. Mecanismos de proteção...................................................................... 7

1.2. Função endotelial e sistema nervoso simpático....................................... 9

1.3. Vinho tinto, endotélio, atividade simpática em indivíduos hipercolesterolêmicos....................................................................................12

1.4. Vinho tinto, endotélio e atividade simpática em indivíduos hipertensos....................................................................................................14

2. Objetivos..................................................................................................17

3.Métodos.....................................................................................................19

3.1. Casuística...............................................................................................20

3.2. Avaliação da atividade simpática........................................................... 22

3.2.1. Registro de sinais................................................................................22

3.2.2. Seqüência experimental......................................................................26

3.3. Avaliação da função endotelial...............................................................27

3.4. Dosagens laboratoriais...........................................................................32

3.5. Seqüência experimental.........................................................................33

3.6. Análise estatística...................................................................................35

4.Resultados................................................................................................36

4.1. Pacientes estudados.............................................................................. 37

4.2. Atividade Simpática................................................................................39

4.3. Função Endotelial...................................................................................43

4.4. Dados hemodinâmicos...........................................................................45

4.5. Atividade inflamatória............................................................................. 47

5. Discussão.................................................................................................48

6. Relevância................................................................................................60

7. Conclusões..............................................................................................62

8. Referências..............................................................................................64

9. Anexos..................................................................................................... 79

xi

Lista de abreviaturas

xii

ADP

adenosina

di-fosfato

ASNM

atividade simpática do nervo muscular

ATP

adenosina tri-fosfato

CL

controles

CMV

contração muscular voluntária

DC

débito

cardíaco

DIL

dilatação

DNDE

dilatação não dependente do endotélio

eNOS

sintase endotelial do óxido nítrico

ET-1

endotelina

FC

freqüência

cardíaca

HAS

hipertensão arterial sistêmica

HCOL

hipercolesterolêmicos

HDL

high density lipoprotein

ICAM-1

molécula de adesão intercelular-1

LDL

low density lipoprotein

LPS

lipopolisacarídeo

Min

minuto

NF-κ B

fator nuclear-κ B

NO

óxido

nítrico

OMS

Organização Mundial da Saúde

PAD

pressão arterial diastólica

PAS

pressão arterial sistólica

PCR

proteína C reativa

xiii

RR

risco

relativo

RVS

resistência vascular sistêmica

SNA

sistema nervoso autônomo

SNP

sistema nervoso parassimpático

SNS

sistema nervoso simpático

VCAM-1

molécula de adesão vascular-1

VT

vinho

tinto

WO

wash out

xiv

Resumo

xv

Andrade ACM. Ação do vinho tinto sobre o sistema nervoso simpático e função endotelial em pacientes hipertensos e hipercolesterolêmicos [tese].

São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2006. 96p.

INTRODUÇÃO: O consumo moderado de vinho tinto está inversamente associado ao desenvolvimento de doença cardiovascular. Efeitos do vinho tinto no sistema nervoso simpático e na reatividade vascular não estão totalmente esclarecidos. MÉTODOS: Foi avaliada a atividade simpática do nervo muscular e a dilatação mediada pelo fluxo na artéria braquial por ultrassom em 10 indivíduos hipercolesterolêmicos, 9 hipertensos e 7

controles antes e após o consumo de vinho tinto durante 15 dias. Medidas hemodinâmicas foram realizadas com Finometer: pressão arterial sistólica, diastólica, freqüência cardíaca, débito cardíaco e resistência vascular sistêmica foram calculados continuamente durante a microneurografia. Para avaliação da atividade simpática, utilizou-se punção de nervo fibular - esta foi medida como bursts/min durante período basal, teste do gelo e exercício estático com 30% da contração voluntária máxima. RESULTADOS: Após 15

dias de vinho tinto, a atividade simpática aumentou de forma significante em hipertensos e hipercolesterolêmicos (p<0,05); porém, a dilatação mediada pelo fluxo aumentou somente em hipercolesterolêmicos (p<0,05). As pressões arteriais sistólica e diastólica não apresentaram mudança significante. Não houve mudança na freqüência cardíaca. Houve aumento do débito cardíaco em controles, diminuição da resistência arterial sistêmica durante o gelo em controles no período basal. CONCLUSÃO: O consumo de vinho tinto aumentou a atividade simpática em hipertensos e hipercolesterolêmicos; porém, somente estes experimentaram melhoria da função endotelial, o que sugere diferentes mecanismos na regulação da função endotelial.

Descritores: 1. Vinho 2. Sistema Nervoso simpático 3. Endotélio/

ultrasonografia 4. Hipertensão 5. Hipercolesterolemia

xvi

Summary

xvii

Andrade ACM. Red wine ingestion action upon sympathetic nervous system and endothelial function in hypertensive and hypercholesterolemic subjects.

[thesis]. São Paulo: “Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo”; 2006. 96 p.

Introduction: Moderate red wine intake is inversely associated with development of cardiovascular disease. Red wine effects in sympathetic activity and vascular reactivity are not fully understood. Methods: Muscle sympathetic nerve activity and flow mediated dilatation of brachial artery by ultrasound were evaluated in 10 hypercholesterolemic, 9 hypertensive, and 7

controls subjects before and after red wine intake during 15 days.

Hemodynamic measures were done with Finometer: arterial blood pressure, heart rate, cardiac output, and systemic vascular resistance were assessed during mycroneurography. The sympathetic activity was evaluated during baseline, cold test and isometric exercise. Results: After 15 days of red wine intake, sympathetic activity increased significantly in hypertensives and hypercholesterolemics (p<0.05). On the other hand, flow mediated dilation increased after red wine only in hypercholesterolemics (p<0.05). Systolic and diastolic blood pressure as well as heart rate did not change significantly.

Cardiac output increased in controls and systemic vascular resistance decreased during cold test in controls. Conclusion: There were similar increases in sympathetic activity in hypertensive and hypercholesterolemic subjects; however, endothelial function was restored only in the latter group, which suggests different mechanisms regulating endothelial function.

Descriptors: wine, sympathetic nervous system, endothelium/

ultrasonography, hypertension, hypercholesterolemia

xviii

1. Introdução

Introdução

2

1.1. Álcool, vinho tinto e doença cardiovascular

As doenças cardiovasculares, dentre elas doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral são a causa principal de mortalidade em países de baixa, média e alta renda segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS). Elas são responsáveis por 29% do total de mortes, e curiosamente - 80% - do total de óbitos ocorre em países em desenvolvimento. (1)

Para prevenir esta condição, várias estratégias são sugeridas, como modificar o estilo de vida, e nisso se inclui o consumo de vinho, especialmente o tinto. De fato, várias evidências sugerem relação inversa entre o consumo de vinho tinto e a doença arterial coronariana, como se verá a seguir (2).

1.1.1. Estudos epidemiológicos

Vários estudos epidemiológicos sugerem a proteção cardiovascular por bebidas alcóolicas (2). Na maioria dos países europeus, o consumo elevado de gordura saturada foi relacionado de forma positiva com a alta mortalidade por doença arterial coronariana (3). Contudo, foi observado que, na França, mesmo com alto consumo de gordura saturada, havia baixa mortalidade para doença arterial coronariana; este paradoxo francês foi atribuído em parte ao grande consumo de vinho (3). Em 17 países de Introdução

3

populações que consumiam vinho, este foi o único adicional dietético, em uma dieta rica em gordura, que se correlacionou negativamente com a mortalidade cardiovascular (3).

Há suspeita de que o vinho tinto possa não ser a razão única do paradoxo francês, havendo outros fatores que levariam a um estilo de vida saudável, e desta forma, à prevenção da doença arterial coronariana. Alguns destes fatores são o consumo de azeite de oliva, de alimentos ricos em ω-3

como peixes, de dieta rica em verduras e vegetais, elevação dos níveis de fibrinogênio e a realização de exercício físico (4, 5).

O projeto MONICA (“MONItoring system for CArdiovascular disease”) da Organização Mundial da Saúde (OMS), que teve participação de 37

países durante os anos de 1985 a 1993, estudou as características populacionais, regionais e temporais dessas nações. Demonstrou-se menor incidência de doença arterial coronariana na França, assim como na Bélgica e na Espanha, em comparação a outras regiões (6). Em um subgrupo do estudo MONICA na Alemanha, na Escócia e na França observou-se que o consumo moderado de bebida alcoólica, tanto de vinho como de cerveja, associou-se a níveis menores de marcadores inflamatórios plasmáticos, o que sugere o potencial anti-inflamatório das bebidas alcóolicas (7).

Um estudo de coorte nos Estados Unidos, coordenado por Klatsky et al (8), evidenciou uma relação benéfica entre álcool e doença arterial coronariana. Foram seguidos 128.934 californianos durante 20 anos e observou-se uma curva em forma de J que relacionava álcool e mortalidade e que permanecia estável durante todo este período, independente do tipo Introdução

4

de bebida alcoólica consumida. Quando ocorreu maior consumo de álcool, a mortalidade aumentou. Após oito anos, houve redução da mortalidade em 30% por causas múltiplas em consumidores moderados. O consumo moderado foi definido como a ingestão de 14,1 a 42,5 gramas de álcool por dia, tendo sido notada uma maior redução no risco de mortalidade em indivíduos idosos e em mulheres. Com 13 anos de seguimento, houve outra relação: uma curva em U. Os abstêmios e os que consumiram acima de 42,5

gramas de álcool por dia tiveram mortalidade aumentada, maiores níveis pressóricos e estes últimos, elevação das enzimas hepáticas.

Um estudo caso-controle mais recente, realizado entre 1999 e 2003, o INTERHEART, em 52 países, incluindo o Brasil, analisou os fatores de risco responsáveis pelo infarto agudo do miocárdio. Entre os muitos fatores avaliados, estes foram os responsáveis por 90% dos infartos agudos do miocárdio: relação Apolipoproteína B/Apolipoproteína A1, tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade abdominal e fatores psicossociais. O

consumo de frutas e vegetais, atividade física e consumo de álcool > 3

vezes por semana foram fatores que se mostraram protetores (9).

Alguns estudos epidemiológicos avaliaram as diferentes bebidas alcoólicas na prevenção da doença cardiovascular. Uma metanálise de 26

estudos comparou a relação entre o consumo de vinho ou cerveja e o risco vascular. Em 13 estudos, envolvendo 209.418 indivíduos, o risco relativo associado ao consumo de vinho foi 0,68 quando comparado com os abstêmios; enquanto que em 15 estudos, envolvendo 208.036 indivíduos, o risco relativo associado ao consumo de cerveja foi de 0,78 comparado com Introdução

5

os abstêmios. Foi encontrada uma associação benéfica significativa com o consumo diário de 150 ml de vinho. Estes dados corroboram a associação inversa entre o consumo, de leve a moderado, de vinho com o risco vascular. Uma associação semelhante, porém menor foi sugerida com o consumo de cerveja (10).

Em suma, estudos epidemiológicos demonstraram a possível importância de bebidas alcóolicas na prevenção da doença cardiovascular.

O vinho tinto demonstrou ter um benefício maior entre as bebidas alcoólicas nesta prevenção. Porém, devido a fatores outros que poderiam interferir nos resultados, tais estudos não podem ser considerados definitivos.

1.1.2. Estudos experimentais

Os estudos experimentais em diferentes modelos demonstraram o benefício do álcool e do vinho tinto na prevenção da aterosclerose.

In vitro, o etanol aumenta a expressão da enzima responsável pela síntese de óxido nítrico, a NO sintase endotelial, e a produção de óxido nítrico nas células endoteliais aórticas (11). Os polifenóis do vinho tinto, em especial o resveratrol, aumentam a expressão da NO sintase endotelial e a liberação e a atividade de óxido nítrico das células endoteliais (12,13). Por outro lado, o vinho tinto inibe a síntese da endotelina-1, um potente vasoconstritor, que é conhecido como um fator importante para o desenvolvimento da doença vascular aterosclerótica (14, 15).

Os polifenóis do vinho tinto, e não o álcool, têm propriedades antioxidantes que inibem a formação de LDL oxidada in vitro (16), assim Introdução

6

como a oxidação de LDL mediada por macrófagos (17). Citamos dois estudos que comprovaram uma redução da placa aterosclerótica. No primeiro, da Luz et al (18) demonstraram que o vinho tinto diminuiu placas ateroscleróticas macroscopicamente em coelhos alimentados durante 3

meses com dieta hipercolesterolêmica, além de haver uma diminuição da relação íntima:média com este tratamento quando comparados somente com a dieta, ou com a dieta mais produtos não alcoólicos do vinho. No segundo, Hayek et al (19) utilizaram camundongos deficientes em apolipoproteína E que foram alimentados com dieta rica em colesterol, que os predispunha a lesões ateroscleróticas em aorta ascendente. Quando estes animais receberam vinho tinto, catequina ou quercetina, apresentaram diminuição das lesões na aorta ascendente.

Na aterosclerose, a ativação inflamatória endotelial ocorre devido ao aumento da expressão de moléculas de adesão como a molécula de adesão vascular-1 (VCAM-1), secundária à atividade de transcrição do fator nuclear-

κ B (NF-κ B). O vinho tinto inibe a ativação do NF-κ B nas células mononucleares do sangue periférico (20) e em células endoteliais humanas (21), o que gera uma menor concentração de VCAM-1 (22). Os polifenóis do vinho tinto também inibem a migração e a proliferação das células musculares lisas vasculares (23) que formam a placa aterosclerótica. O

consumo de bebida alcoólica atenua a aterosclerose através do seu mecanismo de redução dos níveis de proteína C reativa plasmática (PCR) (24).

Introdução

7

O resveratrol e outros polifenóis diminuíram a agregação plaquetária, através da interferência da síntese das prostaglandinas e da agregação mediada pelo ADP (25, 26, 27). Além disso, o álcool inibiu in vitro a secreção e a agregação plaquetária, através da inibição da secreção e da atividade da fosfolipase A2 (28, 29)

Assim, pode-se concluir que estudos experimentais em diferentes modelos demonstraram o benefício do álcool e do vinho tinto na prevenção da aterosclerose, tanto no seu início como na sua progressão. Há uma melhora da função endotelial com a diminuição da LDL oxidada e diminuição da placa aterosclerótica macroscopicamente, assim como há redução de fatores trombogênicos e de outros fatores que impedem a formação e a progressão desta placa.

1.1.3. Mecanismos de proteção

Uma série de estudos sugeriu que os polifenóis presentes no vinho tinto associados com o álcool eram os responsáveis na limitação do início do processo aterosclerótico. Os polifenóis presentes no vinho tinto são subdivididos em duas categorias: os não-flavonóides, que incluem o resveratrol; e os flavonóides, tais como a quercetina e a catequina os quais são derivados geralmente das sementes e da casca da uva (30).

Por outro lado, sabe-se que o álcool aumenta os níveis de HDL-colesterol pois age no fígado e eleva a síntese de apolipoiproteína A-I (31) e aumenta a atividade da lipase lipoprotéica (32), que aumenta a formação dos níveis de HDL-colesterol.

Introdução

8

O consumo de vinho tinto (33) aumenta a atividade antioxidante plasmática de forma significativa, o que reduz a susceptibilidade do LDL-colesterol à oxidação in vivo (34), promovendo um limite à formação do ateroma.

Os consumidores de vinho tinto em quantidade de leve a moderada têm menor nível plasmático de fibrinogênio, fator de von Willebrand, fator VII e inibidores do antígeno-1 do ativador do plasminogênio (35, 36), o que sugere uma redução na capacidade trombogênica do sangue. O consumo alcoólico também aumenta a atividade da antitrombina III (37), e está associada à maior concentração plasmática de ativador de plasminogênio tissular (38). In vivo, a agregação plaquetária foi inibida após o consumo de suco de uva por voluntários sadios, sugerindo que os flavonóides derivados da uva, e não somente o álcool, contribui para o aparente efeito antitrombótico do vinho tinto (39). Foi calculada uma redução de risco na doença arterial coronariana de cerca de 24,7% associada ao consumo de 30g de álcool/dia, devido às alterações destes marcadores (40). Além disso, o vinho tinto inibe a ativação do NF-κ B nas células mononucleares do sangue periférico (20).

O resveratrol inibe a ativação de NF-κ B em células endoteliais humanas (21) gerando uma menor concentração de VCAM-1 (22). Este polifenol e outros como a quercetina também inibem a expressão do fator tecidual em monócitos estimulados com lipopolisacarídeo (LPS), estimulam a atividade e a expressão da óxido nítrico sintase endotelial (eNOS) em células endoteliais de veia umbilical humana incubadas durante o período de Introdução

9

24 a 72 horas, e bloqueiam a produção de endotelina (ET-1) (41, 42, 43).

Vários dos polifenóis do vinho tinto inibem a migração e a proliferação das células musculares lisas vasculares (23) que formam a placa aterosclerótica.

Coimbra et al (47) mostraram que a função endotelial avaliada através da dilatação mediada pelo fluxo melhorou em indivíduos hipercolesterolêmicos com vinho tinto e suco de uva, ou seja, o mecanismo mais plausível responsável por esta melhora foi a ação devida aos flavonóides.

Os mecanismos de proteção cardiovascular do vinho tinto são associados ao álcool e à presença de polifenóis. O álcool aumenta os níveis de HDL-colesterol, facilita a trombólise e reduz a trombogenicidade; enquanto os polifenóis aumentam a liberação de óxido nítrico, diminuem a produção de endotelina, a agregação plaquetária e o estresse oxidativo.

1.2. Função endotelial e sistema nervoso simpático

O endotélio é uma camada unicelular estrategicamente localizada na porção interna dos vasos e, portanto, em contato direto com o sangue circulante. Assim, funciona como um sensor que responde a forças hemodinâmicas e a partículas presentes no sangue através da liberação de substâncias autócrinas e parácrinas. Sob condições normais, o endotélio mantém o tônus vascular e a viscosidade sangüínea. Quando os fatores de risco para doença arterial coronariana iniciam seu processo inflamatório crônico, este é acompanhado por uma perda de fatores vasodilatadores e anti-trombóticos e pelo aumento nos produtos vasoconstritores e pró-

Introdução

10

trombóticos. As células endoteliais adotam um fenótipo pró-trombótico, evidenciando risco elevado de eventos cardiovasculares. Além disto, ao ser exposto a certos estímulos pró-inflamatórios patogênicos, o endotélio expressa fatores quimiotáticos para leucócitos, moléculas de adesão e citocinas inflamatórias. O termo disfunção endotelial expressa estas alterações no endotélio que contribuem para o desenvolvimento da aterosclerose, sendo a disfunção endotelial a alteração mais precoce do processo da formação da lesão; dai a utilidade do conceito da disfunção endotelial ser um marcador precoce de aterosclerose. (43, 44) A disfunção endotelial está associada ao aumento de risco de eventos em pacientes com doença arterial coronariana aguda e crônica; e mais, a disfunção endotelial aponta para eventos cardiovasculares mesmo em pacientes com artérias coronárias angiograficamente normais. (43) Uma conseqüência da hipótese de que a disfunção endotelial contribua para a patogenia da doença arterial coronariana é que a reversão desta disfunção reduz o risco de novos eventos cardiovasculares. Apesar de esta teoria não ter sido totalmente testada, são conhecidas várias intervenções que melhoram a função endotelial e algumas já provaram ter efeito sobre os eventos cardiovasculares futuros. Alguns exemplos bem estabelecidos são usar terapia para controle de colesterol, parar de fumar, praticar atividade física, usar inibidores da enzima conversora de angiotensina e controlar rigorosamente a glicemia do diabetes mellitus. (43) Em condições fisiológicas normais, o sistema nervoso autônomo e o endotélio mantêm o equilíbrio do tônus vascular pela liberação de fatores Introdução

11

vasodilatadores endoteliais e vasoconstritores dos terminais nervosos simpáticos. A camada de células musculares lisas localiza-se entre os terminais nervosos do sistema nervoso autônomo e das células endoteliais da parede vascular. O sistema nervoso simpático mantém uma atividade tônica sobre os vasos, que se origina em núcleos localizados no tronco cerebral, especialmente na medula, na região caudal e ventrolateral. A atividade nervosa atinge os neurônios localizados na coluna intermédio-lateral e daí segue para os órgãos alvo, fazendo sinapses nos gânglios paravertebrais torácicos. O sistema nervoso simpático utiliza a acetilcolina como neurotransmissor, mas suas terminações nervosas ao nível dos órgãos-alvo (vasos, por exemplo) liberam a noradrenalina; disso participam também o neuropeptídeo Y e a adenosina tri-fosfato (ATP). Os efeitos da noradrenalina ao nível pós-juncional, ou seja, nas terminações nervosas das células musculares lisas dos vasos sangüíneos e mióciotos do miocárdio envolvem receptores β-adrenérgicos, α1- e α2-adrenérgicos. Os receptores β2-adrenérgicos são responsáveis pela vasodilatação e os β1-adrenérgicos pelo inotropismo cardíaco, enquanto os receptores α-adrenérgicos regulam a vasoconstrição vascular (45).

O efeito da estimulação do sistema nervoso simpático sobre o vaso parece ser complexo. O efeito primário sobre os receptores α1 induz à vasoconstrição. Entretanto, o endotélio também possui receptores adrenérgicos e pode sofrer influência da ativação simpática. Este possui receptores tanto α2-adrenérgicos como β-adrenérgicos. Nos vasos de grande calibre e nas coronárias, quando são estimulados, liberam óxido Introdução

12

nítrico e levam à vasodilatação predominam os receptores este final em azul compromete a frase; refaça ou pontue. Este efeito vasodilatador endotélio-dependente do receptor α2-adrenérgico é oposto ao efeito vasoconstritor α1-adrenérgico do estímulo do músculo liso vascular. A função do receptor β-

adrenérgico no endotélio ainda não está totalmente elucidada, apesar de especular-se ser a de vasodilatação. O sistema nervoso simpático pode estimular a vasoconstrição por outro mecanismo além dos receptores adrenérgicos, isto é, pela liberação da endotelina pelo endotélio. A liberação basal de óxido nítrico atenua a vasoconstrição simpática. O endotélio também pode inibir a atividade do sistema nervoso simpático através da metabolização da norepinefrina; uma barreira física impede a difusão do neurotransmissor na corrente sangüínea (46).

O sistema nervoso autônomo relaciona-se com o endotélio devido à presença de receptores nas células musculares lisas vasculares e no próprio endotélio.

1.3. Vinho tinto, endotélio, atividade simpática em indivíduos hipercolesterolêmicos

O vinho tinto melhora a função endotelial em pacientes com hipercolesterolemia. Coimbra et al (47) demonstraram uma vasodilatação endotélio-dependente significativa, através de comparação de medidas de ultrassom de artéria braquial em indivíduos hipercolesterolêmicos, após o consumo de 250 ml de vinho tinto ou de 500 ml de suco de uva por 14 dias.

Este estudo demonstrou também que a vasodilatação não-dependente do Introdução

13

endotélio aumentou significativamente após o consumo de vinho tinto, mas não após o suco de uva. Não somente a função endotelial, mas também a reatividade das células musculares lisas é alterada com o uso do vinho tinto como demonstrado através da dilatação não-dependente do endotélio estimulada pelo uso de nitrato. Uma possível explicação para este fato seria a ativação do sistema nervoso parassimpático e a inibição relativa do sistema nervoso simpático que ocorre após o consumo de álcool (48).

Aumento da atividade simpática e supressão da atividade parassimpática em excesso e sem modulação predispõem ao desenvolvimento de doença cardiovascular. O endotélio mantém um antagonismo funcional com os nervos simpáticos eferentes responsáveis pelo tônus vascular (46). Se houvesse um controle do sistema nervoso simpático através de sua inibição pelo uso de vinho tinto com ativação do sistema nervoso parassimpático, poderíamos ter um equilíbrio do sistema cardiovascular com repercussão clínica.

Há uma hipótese de que o sistema nervoso parassimpático seja ativado e de que o sistema nervoso simpático seja inibido. O álcool aumenta a atividade simpática; porém os polifenóis do vinho tinto poderiam contrabalançar esta ativação por mecanismos não totalmente esclarecidos.

Com isto, haveria um controle no surgimento da doença cardiovascular.

Introdução

14

1.4. Vinho tinto, endotélio e atividade simpática em indivíduos hipertensos

A disfunção endotelial é uma característica dos pacientes com hipertensão arterial sistêmica (49). Esta disfunção consta da diminuição da biodisponibilidade do óxido nítrico causada possivelmente por estresse oxidativo. Espécies reativas de oxigênio, principalmente ânions superóxidos, combinam-se ao óxido nítrico produzindo os peroxinitritos, que afetam de modo negativo a função vascular e sua estrutura (50). Pode ser considerada também a interação do sistema do óxido nítrico com a endotelina na patogênese da disfunção endotelial, apesar dos níveis desta não apresentarem elevação no plasma em pacientes com hipertensão arterial sistêmica (51).

A hiperatividade de sistemas neuro-hormonais tais como o sistema renina-angiotensina e o sistema nervoso simpático estão relacionados com os fatores que contribuem para o surgimento da hipertensão. No caso da hiperatividade simpática, foi demonstrado que nas fases precoces do processo hipertensivo, o estímulo simpático está aumentado (52). Em pacientes com hipertensão arterial sistêmica leve, observou-se aumento nos receptores β- adrenérgicos cardíacos e α- adrenérgicos vasculares através do bloqueio seletivo destes; também se observou ocorreu aumento discreto nos níveis de noradrenalina plasmática, dados confirmados por medidas do extravasamento (“spillover”) de noradrenalina (45).

Introdução

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Existem efeitos adversos da ativação do sistema nervoso simpático na hipertensão arterial sistêmica, além do aumento da pressão arterial per se. Um deles é a replicação das células musculares lisas vasculares, pois o sistema nervoso adrenérgico favorece o processo aterogênico. A replicação das células musculares precede sua migração para a íntima e sua transformação em macrófagos, que representa um elemento chave para a cascata de eventos que irá gerar a placa aterosclerótica. Outro efeito adverso do aumento do estímulo simpático é a parte metabólica, pois favorece o desenvolvimento da resistência à insulina, freqüentemente associada à hipertensão e à hipertrigliceridemia (53)

Não há na literatura relato de que o vinho tinto melhore a função endotelial em pacientes hipertensos como ocorreu em pacientes hipercolesterolêmicos. Mesmo em estudos com consumo de polifenóis presentes em concentrados de uva por pacientes com insuficiência coronariana angiograficamente documentada, os pacientes estudados não apresentavam hipertensão arterial sistêmica comprovada (54).

Portanto, não sabemos se o vinho tinto melhora a função endotelial em indivíduos hipertensos à semelhança do que ocorre em pacientes hipercolesterolêmicos. Há estudos somente com o álcool. Este aumentou a atividade autonômica simpática segundo medida da atividade simpática do nervo muscular em nervo fibular em indivíduos jovens normotensos após sua infusão venosa aguda (55) e após ingestão aguda oral (56, 57). Não houve avaliação específica da função endotelial associada a alterações na atividade simpática nestes estudos.

Introdução

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O álcool provoca aumento na atividade simpática agudamente. Os polifenóis poderiam contrabalançar este aumento provocado pelo álcool, quando o indivíduo consumisse vinho tinto? Qual o efeito do uso crônico do álcool em populações diferentes? O vinho tinto associou-se à melhora da função endotelial após consumo durante 15 dias (47) em indivíduos hipercolesterolêmicos, como demonstrado previamente através de vasodilatação dependente do endotélio, o que fez levantar-se a hipótese de que houvesse a ativação do sistema nervoso parassimpático e a inibição relativa do sistema nervoso simpático.

A implicação clínica da inibição do SNS seria que isso ajudaria no tratamento de fatores de risco cardiovascular, principalmente a hipertensão arterial sistêmica, geralmente associada à descarga adrenérgica aumentada.

Os polifenóis, causando diminuição do estresse oxidativo com menor quebra do óxido nítrico, poderiam influenciar também o sistema nervoso autônomo através de sua modulação e, portanto estabelecer um equilíbrio deste em pacientes com fatores de risco.

Diante disso, procuramos avaliar os efeitos da ingestão de vinho tinto a médio prazo sobre a atividade simpática e a função endotelial em indivíduos hipertensos e hipercolesterolêmicos.

2. Objetivos

Objetivos

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Os objetivos do presente trabalho foram:

- primários: comparar os efeitos do vinho tinto sobre a função endotelial e a atividade simpática em indivíduos hipercolesterolêmicos e hipertensos.

-secundários: comparar os efeitos hemodinâmicos, perfil lipídico, glicemia, função hepática, atividade inflamatória e endotelina-1 nos mesmos indivíduos.

3. Métodos

Métodos

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3.1. Casuística

Oitenta e oito indivíduos assinaram o termo de consentimento esclarecido aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto do Coração (InCor) e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Completaram o estudo vinte e seis indivíduos que foram divididos em três grupos: controle; hipertensos; e hipercolesterolêmicos.

Os indivíduos hipertensos, em número de nove, foram diagnosticados por medidas repetidas prévias de pressão arterial, utilizando método auscultatório. Consideraram-se hipertensos indivíduos com pressão arterial sistólica e diastólica maior ou igual a 140 e 90 mmHg, respectivamente (58).

Os indivíduos do grupo hipercolesterolêmicos, em número de dez, foram identificados quando o LDL-colesterol >160 mg/dl, de acordo com o critério da Sociedade Brasileira de Cardiologia (59), independente das outras frações de colesterol. Os indivíduos controles foram os que não possuíam os fatores de exclusão, não eram hipertensos e nem hipercolesterolêmicos.

Estes foram em número de sete.

Foram excluídos indivíduos com idade maior que sessenta anos, obesidade (índice de massa corpórea >30 kg/m2), diabetes mellitus (glicemia de jejum > 125 mg/dl), tireoidopatia, insuficiência renal, insuficiência cardíaca, insuficiência hepática, gravidez, menstruação irregular, mulheres em idade fértil que fizessem uso de contraceptivo, adictos a bebidas Métodos

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alcóolicas, tabagistas (incluindo ex-fumantes <1 ano), uso de mais de três drogas anti-hipertensivas, uso de estatina, lombociatalgia em território radicular dos nervos fibulares e alergia ao cobre ou ao tungstênio.

A medicação dos indivíduos hipertensos foi retirada de acordo com o tempo de ação de cada droga, geralmente duas meias-vidas das medicações utilizadas, para evitar interferência na coleta de dados. A retirada de medicações foi feita de forma escalonada e gradual para evitar rebote pressórico.

Solicitou-se a todos que se abstivessem de bebidas alcoólicas (outras que não o vinho tinto dado durante a pesquisa), de qualquer substância ou bebida que possuísse como ingredientes: cafeína, polifenóis (por exemplo –

frutas com casca escura como maçã, uva, ameixa; chás, como chá verde ou mate), cebola, alho e chocolate, por no mínimo 72 horas antes dos exames, estando tais alimentos liberados durante os outros momentos do protocolo.

Os indivíduos foram orientados a manter a mesma rotina em relação à dieta e à atividade física nos dois momentos do protocolo, tanto antes como após o consumo de vinho tinto.

O vinho tinto utilizado foi o Varietal, produzido pela Vinícola Aurora, com uvas Cabernet Sauvignon. Os pacientes foram orientados a ingerir 250

ml de vinho tinto à noite e desprezar o restante do conteúdo da garrafa utilizada. O armazenamento foi realizado pelos próprios voluntários, sendo dado a cada um o total de 15 garrafas de vinho tinto de 375 ml. Os indivíduos eram questionados acerca da ingestão correta do vinho tinto, de Métodos

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acordo com o desenho do protocolo, após 15 dias, através de entrevista.

Não foram mensurados níveis alcoólicos ou de flavonóides no sangue.

A seqüência do protocolo está representada graficamente na figura 1

Pós VT

Pré VT

Microneurografia

250 ml VT à noite/ 15 dias

Microneurografia

Função Endotelial

Função Endotelial

Laboratório

Laboratório

Laboratório HAS

Lab. Endotélio Vascular

15 dias sem VT

Laboratório Análises Clínicas do InCor

Wash Out

Função Endotelial

Em alguns pacientes

Figura 1- Esquema do protocolo de estudo

3.2. Avaliação da atividade simpática

As avaliações de atividade simpática foram realizadas no Laboratório da Unidade de Hipertensão do InCor, após retirada da medicação antihipertensiva, no período vespertino, duas horas após o almoço.

3.2.1. Registro de sinais

O protocolo de avaliação da atividade simpática constou da monitorização da pressão arterial, da freqüência cardíaca, de incursões Métodos

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respiratórias, e da atividade simpática do nervo muscular, por microneurografia, tanto em níveis basais como em resposta ao estímulo hipotérmico (teste do gelo) e ao exercício isométrico (30% da Carga Máxima Voluntária).

A pressão arterial foi monitorizada de forma não invasiva pelo método oscilométrico (Finometer, Finapres Medical Systems BV, Arnhem, The Netherlands), e concomitantemente foi feita monitorização da freqüência cardíaca utilizando eletrocardiograma em derivação DII. Os dados foram registrados em microcomputador acoplado a um conversor de sinais (Stemtech, Inc.). Após o registro das curvas de pressão, foram realizadas, para cálculos das variáveis hemodinâmicas pelo Finometer, as análises de sinais (valores de pressão arterial, freqüência, débito cardíaco, resistência sistêmica) foram feitos através do software BeatScope 1.1 (Windows program, Finapres Medical Systems BV, Arnhem, The Netherlands).

O Finometer é um aparelho portátil que monitora a pressão arterial de forma não invasiva e batimento-a-batimento. Este sistema é baseado na pletismografia com compressor externo para ajuste de valor zero de pressão, e volume da onda de pulso após clampeamento da artéria do quirodáctilo obtido pela utilização de micro-cuff pneumático posicionado ao redor do dedo indicador da mão não dominante. São definidos sexo, idade, altura e peso e digitados no aparelho. Através de equações de Langewouters, são estabelecidas as relações pressão-volume, pressão complacência e pressão-impedância e calculados valores de pressão arterial, volume sistólico, freqüência cardíaca, índice cardíaco e resistência Métodos

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vascular sistêmica. Tais componentes não são constantes. A resistência vascular periférica depende de muitos outros fatores como enchimento vascular, metabolismo, tônus simpático e drogas vasoativas. O resultado da simulação do modelo é uma curva, cuja integral (por cada batimento) representa o volume sistólico (60).

A partir do registro das curvas de pressão arterial batimento a batimento foram analisadas as médias e os desvios padrões, para cada período estudado, das pressões arteriais sistólica e diastólica e da freqüência cardíaca, intervalo de tempo entre os batimentos. Além disso, também foram analisados débito cardíaco, e resistência vascular sistêmica.

Os dados referentes foram gerados e analisados em planilha do programa Excel (Microsoft).

A atividade nervosa simpática muscular foi avaliada pela técnica de registro direto de multiunidade da via pós-gangliônica eferente, no fascículo nervoso muscular do nervo fibular, imediatamente inferior à cabeça da fíbula (técnica validada e empregada regularmente no Laboratório da Unidade de Hipertensão) (61, 62, 63). Os registros foram obtidos pela implantação de um micro eletrodo no nervo fibular e de um eletrodo referência a aproximadamente 1 cm de distância do primeiro. Os eletrodos foram conectados a um pré-amplificador e o sinal do nervo foi alimentado utilizando um filtro passa-banda, e em seguida foi dirigido a um discriminador de amplitude para armazenagem em osciloscópio e em caixa de som. Para fins de registro e análise, o neurograma filtrado foi alimentado através de um integrador de capacitância-resistência para a obtenção da voltagem média

index-43_1.jpg

Métodos

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da atividade neural. Na Figuras 2, ilustramos a punção do nervo fibular e o posicionamento encontrado na maioria dos nossos voluntários, juntamente com o eletrodo referência.

Figura 2- Implantação guiada por estímulo elétrico do eletrodo como descrito no texto. No detalhe, a comparação entre o eletrodo de tungstênio com uma agulha comum de injeção. O eletrodo apresenta 0,2 mm de diâmetro e 30 a 40 mm de comprimento.

Métodos

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O sinal elétrico obtido foi registrado em papel milimetrado, e foi feita contagem de espículas representativas de atividade simpática durante os períodos delimitados para análise, seguindo técnica descrita na literatura e utilizada regularmente no Laboratório da Unidade de Hipertensão do InCor (60). O avaliador era cego em relação aos grupos e ao tempo do protocolo (antes ou após o consumo de vinho tinto). Os resultados foram expressos em espículas por minuto (esp/min).

3.2.2.Seqüência experimental

O paciente era posicionado em decúbito dorsal na maca e monitorizado com o Finometer e com eletrodos para obtenção de eletrocardiograma, sendo conferida a equivalência das medidas de pressão arterial obtidas pelo Finometer e pelo método auscultatório. Seguiu-se então a punção do nervo fibular, e após um período de repouso de 15 minutos para retorno às condições basais de pressão arterial e freqüência cardíaca, foram iniciados os registros basais conjuntos de pressão arterial, freqüência cardíaca e atividade elétrica neural por um período de 10 minutos.

Após o registro basal, foram feitos os seguintes estímulos: a) Estímulo térmico frio (teste do gelo): logo após o fim do período basal. Os indivíduos fizeram imersão completa da mão até o punho em água gelada (aproximadamente 4° Celsius), durante 120 segundos, ou o máximo de tempo tolerado quando inferior a 120 segundos. Houve repouso de 10 minutos para retorno às condições basais.

Métodos

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b) Exercício isométrico, utilizando dinamômetro de pressão manual: logo após o repouso de 10 minutos subseqüente ao teste do gelo.

Os indivíduos fizeram exercício isométrico dos dedos da mão direita apertando o dinamômetro e mantendo 30% da carga voluntária máxima durante 2 minutos.

Ao final de 15 dias de consumo de vinho tinto o protocolo de avaliação de atividade simpática foi repetido.

3.3. Avaliação da função endotelial

As avaliações de função endotelial foram realizadas no Laboratório de Endotélio da Unidade de Aterosclerose do InCor, na mesma semana que a avaliação da atividade simpática. Colheu-se sangue em membro superior direito após 12 horas de jejum.

A dilatação mediada pelo fluxo dependente do endotélio foi determinada com um aparelho de ultrassom de alta resolução (ATL modelo APOGEE 800 plus, transdutor linear 7,5 MHz, software para imagem bidimensional e doppler, e monitorização eletrocardiográfica) adaptado segundo os direcionamentos previamente publicados. (64, 65).

O protocolo de avaliação da função endotelial constou da monitorização da pressão arterial, da freqüência cardíaca e do diâmetro da artéria braquial. A pressão arterial foi monitorizada de forma não invasiva pelo método auscultatório (Automatic Blood pressure monitor, OMRON, HEM-750 CP, USA), nos seguintes momentos: imediatamente após 15

Métodos

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minutos na posição supina; dois minutos antes da desinsuflação do cuff e ao final da dilatação mediada pelo endotélio. Depois de 20 minutos de repouso, a pressão era novamente monitorizada no basal; e após 5 minutos do uso do nitrato sublingual. Fez-se a monitorização da freqüência cardíaca utilizando-se eletrocardiograma em derivação DII nestes cinco momentos supracitados.

Os dados referentes foram gerados e analisados em planilha do programa Excel (Microsoft).

As imagens geradas foram gravadas em fitas VHS, e posteriormente decodificadas em programa de computação previamente aprovado (66).

Este avaliador também era cego em relação ao grupo (hipertensos, hipercolesterolêmicos e controles) e ao tempo do protocolo (antes ou após o consumo de vinho tinto).

O diâmetro da artéria braquial foi determinado como a média de 6

medidas, ou seja, 6 ciclos cardíacos durante o fim da diástole, nos momentos seguintes: repouso prévio à dilatação mediada pelo fluxo, entre 45 e 60 segundos após liberação da oclusão do cuff do braço e repouso prévio ao uso de nitrato e 300 a 350 segundos após uso de nitrato sublingual. A dilatação mediada pelo fluxo foi calculada como mudança percentual no diâmetro da artéria braquial após a liberação do cuff comparada ao diâmetro da artéria em repouso. A dilatação endotélio independente também foi avaliada do mesmo modo antes e após nitrato 5

mg sublingual.

A velocidade de fluxo sangüíneo da artéria braquial (cm/s) foi determinada com um Doppler 1,2 mm de volume no lúmen vascular com Métodos

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correção do software para ângulo de incidência de 60° no repouso e para os primeiros 15 segundos após a liberação do cuff. Foi observada a velocidade de fluxo sangüínea média durante 5 ciclos cardíacos.

A Figura 3 mostra exemplo de imagens da artéria braquial antes e após a oclusão, que encontramos durante o exame de ultrassom; a Figura 4

mostra a diferença de velocidade de fluxo sangüínea após esta oclusão, e a Figura 5 mostra exemplo das 6 medidas antes e após o vinho tinto realizadas em software especializado.

index-48_1.jpg

Métodos

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Pré-

oclusão Pós-oclusão

Figura 3 – Aqui está representado como é visualizada a artéria braquial antes e após a oclusão de cinco minutos que induz a hiperemia reativa.

Em alguns casos, observamos a dilatação da artéria a olho nu.

index-49_1.png

Métodos

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Figura 4 – Fluxo braquial antes e após a oclusão.

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Métodos

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Figura 5 – Em software especializado, realizamos as medidas das imagens obtidas após os exames, segundo descrito no texto.

3.4. Dosagens laboratoriais

O plasma dos indivíduos foi colhido em tubo seco após jejum de 12

horas por venopunção no mesmo dia que o estudo da artéria braquial.

Colesterol total, LDL-colesterol, triglicerídeos, glicemia e transaminases foram determinados com a utilização de método enzimático (Roche Métodos

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Laboratories, Basel, Switzerland). HDL-colesterol foi determinado pelo mesmo método que o utilizado para determinar o colesterol total, e após precipitação química da apolipoproteína B100 com MgC1 e ácido fosfotungstênico. Todas as determinações dos lípides foram realizadas automaticamente com a utilização do analisador COBAS-MIRA (Roche).

O soro foi separado do sangue total após centrifugação por 15

minutos a 750 rotações/min e estocado a -80ºC até sua análise. Os níveis séricos da molécula de adesão intercelular 1 (h-sICAM-1 ELISA, anti-sICAM-1: anticorpo monoclonal de cavalo, parâmetro R&D Systems, Mineápolis, MN, USA) e molécula de adesão celular vascular (h-sVCAM-1 ELISA, antisVCAM-1 biotina, anticorpo monoclonal de camundongo, clone M-DDV-1

fragmentos fab) foram determinados por ELISA.

3.5. Seqüência experimental

As seqüências experimentais foram iniciadas com a instalação do monitor para pressão arterial OMRON em membro superior direito, do eletrocardiógrafo, e do cuff de um esfigmomanômetro de coluna de mercúrio em membro superior esquerdo em todos os indivíduos em supina. Seguiu-se, então, a escolha do melhor segmento da artéria braquial esquerda, através do uso do ultrassom acima da fossa antecubital. Foram iniciados os registros basais em forma de gravação em VHS por um período de 2

minutos. Também foram anotadas a freqüência cardíaca e a pressão arterial neste momento.

Métodos

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Após o registro basal, foram feitos estímulos, que constaram de: a) Dilatação mediada pelo fluxo: o esfigmomanômetro é insuflado no membro superior esquerdo a 250 mmHg por 5 minutos e desinsuflado, sendo o fluxo gravado por 15 segundos; e depois o diâmetro arterial por um total de 60 segundos. Houve repouso de 20 minutos para retorno às condições basais, sendo o paciente mantido em posição supina.

b) Dilatação não dependente do endotélio (ou endotélio-independente): logo após o repouso de 20 minutos subseqüentes à dilatação mediada pelo fluxo, os indivíduos fizeram novamente imagens gravadas durante 1 minuto das artérias. Então foi administrado um comprimido de 5

mg de nitrato sublingual para que este fosse dissolvido espontaneamente pelo indivíduo. Após a total dissolução do comprimido, foram marcados 5

minutos e novamente gravadas as imagens por um período de 1 minuto.

O protocolo da dilatação mediada pelo fluxo era repetido no dia seguinte com as mesmas condições preparatórias. A dilatação mediada pelo fluxo utilizada foi a média dos dois dias de protocolo. Ao final de 15 dias de consumo de vinho tinto o protocolo de avaliação endotelial completo foi repetido. Em 14 casos, foi possível a repetição dessa seqüência experimental após 15 dias sem o uso de vinho tinto ( wash out).

Métodos

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3.6. Análise estatística

Os dados foram expressos como média + desvio padrão. As variáveis foram comparadas, entre os grupos estudados, utilizando o teste de análise de variância (ANOVA) para medidas repetidas, onde as seguintes hipóteses nulas serão testadas:

H01 Os perfis são paralelos, ou seja, os grupos têm o mesmo comportamento ao longo das condições da avaliação pré- e pós-vinho tinto (basal, gelo e contração muscular voluntária);

H02 Os perfis de médias são coincidentes, ou seja, não existe diferença entre os grupos (controle, hipertensos e hipercolesterolêmicos) em todas as condições;

H03 Não existe o efeito de condição de avaliação (basal, gelo e contração muscular voluntária).

A amostra foi considerada com distribuição normal. Para efeito de gráficos, os dados foram expressos como média + erro padrão. O valor de p<0,05 foi considerado estatisticamente significativo. Erro padrão é definido como a razão entre o desvio padrão e a raiz quadrada do N.

4. Resultados

Resultados

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4.1. Pacientes estudados

As

características

demográficas

foram similares entre os grupos

quanto a idade, sexo e peso (Tabela 1). Os hipertensos apresentaram maiores níveis pressóricos, tanto de pressão arterial sistólica como de pressão diastólica, como maior freqüência cardíaca no basal.

Tabela1- Características demográficas e clínicas pré- e pós-vinho tinto, de acordo com grupo dos indivíduos

HIPERCOLESTEROLÊMICOS

HIPERTENSOS

CONTROLES

pré-VT

pós-VT

pré-VT

pós-VT

pré-VT

pós-VT

Sexo

7/3 7/2

5/2

(M/F)

Idade (anos)

43,2 ± 6,9

45,1 ± 7,4

37,3 ± 7,2

IMC

25,6+2,9 25,7+3,0 27,9+1,9 28,0+1,9 24,5+2,9 24,4+2,7

(kg/m2)

Freqüência

cardíaca

67,8+9,4 67,9+10,7 76,0+13,6 75,2+10,3 69,3+12,8 71,3+5,6

(bpm)

PA sistólica

140,8+15,0 134,9+11,9 153,3+8,2 149,2+7,9 134,2+6,3 129,2+7,8

(mmHg)

PA diastólica

79,6+11,1 75,4+7,0 89,5+5,4 85,2+5,6 83,1+6,9 72,7+6,7

(mmHg)

VT=vinho tinto