Agosto por Rubem Fonseca - Versão HTML

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Copy right © 1990 Rubem Fonseca

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.1998

Coordenação da edição

Sérgio Augusto

Revisão

Joana Milli

Capa

Retina 78

Não foram m edidos esforços para localização dos titulares dos direitos usados

nesta

obra. Eventuais direitos não obtidos encontram -se devidam ente reservados.

Texto estabelecido segundo o Acordo Ortográfico da Língua

Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009.

CIP-BRASIL.CATALOGAÇÃO NA FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

F747a

4.ed.

Fonseca, Rubem , 1925-

Agosto/Rubem Fonseca. - 4.ed. - Rio de Janeiro : Agir, 2010.

ISBN 978-85-220-1068-4

1. Brasil – História – Crise de 1954 – Ficção. 2. Rom ance brasileiro. I.

Título.

09-6379

CDD 869.93

CDU

821.134.3(81)-

3

Todos os direitos reservados à

AGIR EDITORA LTDA.– um a em presa Ediouro Publicações

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tel.: (21)3882-8200 fax: 3882-8212/8313

Finora abbiam o parlato di un paradigm a indiziario (e

suoi sinonim i) in senso lato. E venuto il m om ento di

disarticolarlo. Un conto è analizzare orm e, astri, feci

(ferine o um ane), catarri, cornee, pulsazioni, cam pi di

neve o ceneri di sigaretta; un altro è analizzare scrittu

re o dipinti o discorsi. La distinzione tra natura (inani

m ata o vivente) e cultura è fondam entale — certo piú

di quella, infinitam ente piú superficiale e m utevole, tra

le singole discipline.

[CARLO GINZBURG,

Miti em blem i spie: m orfologia e storia]

History , Stephen said, is a nightm are

from which I am try ing to awake.

[JAMES JOYCE, Uly sses]

1

O porteiro da noite do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos

descendo as escadas. Era um a hora da m adrugada e o prédio estava em silêncio.

“Então, Raim undo?”

“Vam os esperar um pouco”, respondeu o porteiro.

“Não vai chegar m ais ninguém . Já está todo m undo dorm indo.”

“Mais um a hora.”

“Am anhã tenho que acordar cedo.”

O porteiro foi até a porta de vidro e olhou a rua vazia e silenciosa.

“Está bem . Mas não posso dem orar m uito.”

No oitavo andar.

A m orte se consum ou num a descarga de gozo e de alívio, expelindo resíduos

excrem entícios e glandulares — esperm a, saliva, urina, fezes. Afastou-se, com

asco, do corpo sem vida sobre a cam a ao sentir seu próprio corpo poluído pelas

im undícies expulsas da carne agônica do outro.

Foi ao banheiro e lavou-se com cuidado sob o chuveiro do box. Um a dentada

no seu peito sangrava um pouco. No arm ário da parede havia iodo e algodão, que

serviram para um curativo rápido.

Apanhou sua roupa sobre a cadeira e vestiu-se, sem olhar para o m orto, ainda

que tivesse a aguda consciência da presença do m esm o sobre a cam a.

Não havia ninguém na portaria quando saiu.

O hom em conhecido pelos seus inim igos com o Anj o Negro entrou no

pequeno elevador, que ocupou por inteiro com seu corpo volum oso, e saltou no

terceiro pavim ento do Palácio do Catete. Andou cerca de dez passos no corredor

em penum bra e parou em frente a um a porta. Dentro, no m odesto quarto, vestido

com um pij am a de listas, sentado na cam a com os om bros curvados, os pés a

alguns centím etros do assoalho, estava o hom em que ele protegia, um velho

insone, pensativo, alquebrado, de nom e Getúlio Vargas.

O Anj o Negro, depois de tentar ouvir se algum ruído vinha de dentro do

quarto, recuou, apoiando as costas num a das colunas coríntias sim etricam ente

dispostas na balaustrada tetragonal de ferro que cercava o vão central do hall do

palácio, àquela hora silencioso e escuro. Deve estar dorm indo, pensou.

Depois de certificar-se que não havia anorm alidades no andar residencial do

palácio, Gregório Fortunato, o Anj o Negro, chefe da guarda pessoal do

presidente Getúlio Vargas, desceu as escadas em direção ao gabinete da

assessoria m ilitar, no térreo, verificando, no cam inho, se os guardas m antinham -

se nos seus postos, se o Palácio das Águias estava em paz.

O m aj or Dornelles conversava com outro assessor, o m aj or Fitipaldi, quando

Gregório entrou no gabinete.

O chefe da guarda pessoal, depois de exam inar com os dois assessores

m ilitares o plano que a segurança adotaria na ida do presidente ao Jockey Club no

dom ingo, dia do Grande Prêm io Brasil, foi para seu quarto.

Tirou o revólver e o punhal que sem pre carregava, colocou-os sobre a

m esinha e sentou-se na cam a, onde havia vários j ornais espalhados.

Leu as m anchetes, apreensivo. Aquele ano com eçara m al. Logo em

fevereiro, oitenta e dois coronéis, apoiados pelo então m inistro da Guerra,

general Ciro do Espírito Santo Cardoso, haviam divulgado um m anifesto golpista

e reacionário criticando as greves dos trabalhadores e falando ardilosam ente no

custo de vida. O presidente dem itira o m inistro traidor, sem ter outro general de

confiança para colocar no seu lugar. Gregório sabia que o presidente não

acreditava na lealdade de m ais ninguém das Forças Arm adas desde que o

general Cordeiro de Farias, que sem pre com era pela m ão dele com o um

cachorrinho, o apunhalara pelas costas em 1945. Mas acabara tendo de colocar

no Ministério da Guerra um hom em em quem tam bém não confiava, o general

Zenóbio da Costa, aceito sem restrições pelos m ilitares por ter sido um dos

com andantes da Força Expedicionária Brasileira que lutara ao lado dos

am ericanos na guerra. Para apaziguar os m ilicos fora obrigado a exonerar do

Ministério do Trabalho seu am igo Jango Goulart. Isso tudo acontecera antes que

fevereiro acabasse. Sim , fora um m au com eço de ano, pensou Gregório. Em

m aio os golpistas haviam tentado o im peachm ent do presidente e o traidor João

Neves aj udara a difundir falsidades sobre um acordo secreto entre Perón e

Getúlio. Gregório não se esquecia do que João Neves lhe dissera, ainda m inistro

das Relações Exteriores: “Não m eta o nariz aonde não é cham ado, seu negro

suj o”, tudo porque ele, Gregório, tentara estabelecer um contato direto entre o

presidente e o em issário do presidente Perón da Argentina. Ainda em m aio, o

enterro de um j ornalista, m orto a socos por um policial conhecido com o Coice de

Mula, fora usado com o pretexto para um a passeata contra o governo pelos

seguidores fanáticos do Corvo, os lanterneiros, um bando de golpistas que se

reuniam no cham ado Clube da Lanterna, apoiados pelas m al-am adas, um a

associação de donas de casa histéricas. Em j ulho, a canalha udenista, sem pre

com propósitos golpistas, inventara um a conspiração com unista. Por trás de tudo

avultava a figura sinistra do Corvo.

Sobre a cam a estava um exem plar de Ultima Hora, o único j ornal im portante

que defendia o presidente. Na prim eira página, um a caricatura de Carlos

Lacerda. O artista, acentuando os óculos de aros escuros e o nariz aquilino do

j ornalista, desenhara um corvo sinistro trepado num poleiro. O Anj o Negro

levantou o braço e cravou com força o punhal no desenho. A lâm ina varou o

j ornal e os lençóis, perfurou o colchão, em itindo um som arrepiante ao raspar

em um a das m olas de aço.

Gregório colocou o revólver de volta no coldre da cintura e o punhal na

bainha de couro. Vestiu o paletó e saiu do seu quarto.

Ao am anhecer daquele dia 1o de agosto de 1954, o com issário de polícia

Alberto Mattos, cansado e com dor de estôm ago, colocou dois com prim idos de

antiácido na boca. Enquanto m astigava os com prim idos, folheou o livro de direito

civil que estava sobre a m esa. Sem pre fora péssim o aluno de direito civil na

faculdade. Tinha que estudar m uito aquela m atéria se quisesse passar no

concurso para j uiz em novem bro. Ligou o radinho que sem pre tinha ao seu lado.

Girou o seletor e parou ao ouvir um a voz dizendo: “A televisão foi-m e negada

pelo senhor Assis Chateaubriand, a quem hoj e o governo se alia com a m esm a

desenvoltura e cinism o com que ontem m andava insultá-lo com o traidor da

pátria”.

Bateram na porta.

“Entra”, disse o com issário.

O investigador Rosalvo, que trabalhava nos plantões com Mattos, entrou no

gabinete. O com issário acreditava que Rosalvo não recebia suborno dos bicheiros

nem dos espanhóis que exploravam o lenocínio. Na verdade, porém , Rosalvo era

um com e-quieto, na gíria policial um tira que se corrom pia de m aneira

dissim ulada, sem os colegas saberem .

“Ouvindo o Lacerda, doutor? O m ar de lam a cada vez aum enta m ais. Viu a

palavra que o hom em inventou? Kakistocracia — governo pelos piores elem entos

da sociedade. Os kakistocratas vão perder as eleições. Sarazate vai se eleger no

Ceará, Meneghetti no Rio Grande do Sul, Pereira Pinto no Rio, Cordeiro de Farias

em Pernam buco. O povo não confia m ais em Getúlio. O senhor viu o esquem a

que o Etelvino arm ou para as eleições presidenciais? Um a chapa Juarez-

Juscelino, um a barbada.”

“O que você quer?”

“Chegou o café dos presos”, disse Rosalvo, “o senhor pediu para avisar.”

No xadrez, em duas celas com capacidade prevista para oito presos, havia

trinta hom ens. As celas de todas as delegacias da cidade estavam com excesso

de presos aguardando vagas nos presídios, uns à disposição da Justiça esperando

j ulgam ento, outros j á condenados.

Mattos considerava aquela situação ilegal e im oral e tentara fazer um

m ovim ento grevista no Departam ento Federal de Segurança Pública: os policiais

parariam de trabalhar até que todos esses presos fossem transferidos para

penitenciárias. O com issário não conseguira apoio dos colegas. As penitenciárias

tam bém estavam lotadas, e a greve proposta por Mattos não teria nenhum a

conseqüência prática, causaria apenas um a repercussão negativa. Mattos

afirm ava que era esse o obj etivo prelim inar da greve, cham ar a atenção da

opinião pública e forçar as autoridades a procurar um a solução para o problem a.

“Um a utopia desvairada”, dissera o com issário Pádua, “você errou de

profissão.”

Os assessores j urídicos do DFSP haviam recebido ordens para encontrar um a

m aneira legal de exonerar Mattos, m as o m áxim o que conseguiram foi

suspendê-lo por trinta dias. O delegado Ram os, titular do distrito onde Mattos

trabalhava, evitara, através de suas am izades na Chefatura, que ele fosse

transferido para o distrito de Brás de Pina, com o os corruptos do gabinete

queriam , com o obj etivo de puni-lo. Esse distrito, além de distante, tinha

instalações precárias e apresentava o m aior índice de ocorrências policiais, logo

abaixo do 2o Distrito, de Copacabana.

Mas Ram os não queria proteger o com issário; o delegado usava o nom e de

Mattos para am eaçar os banqueiros. Certa ocasião Rosalvo, o investigador,

surpreendera Ram os dizendo intim idativam ente a um banqueiro do bicho: “Eu

m ando o com issário Alberto Mattos fechar todos os seus pontos, ouviu?!”.

Rosalvo quando o banqueiro se retirou dissera para o delegado: “O doutor Alberto

Mattos m ata o senhor se descobrir que está usando o nom e dele”. Ram os ficou

pálido. “Com o é que ele pode saber? Os bicheiros não são m alucos de contar. Só

se for você.” Rosalvo respondera: “Eu? Doutor, m acaco inteligente não m ete a

m ão em cum buca”.

Toda delegacia tinha um tira que recebia dinheiro dos bicheiros da j urisdição

para distribuir com os colegas. Esse policial era conhecido com o “apanhador”. O

dinheiro dos bicheiros — o levado — variava de acordo com o m ovim ento dos

pontos e a ganância do delegado. Rosalvo, com o um bom com e-quieto, não

entrava no rateio do levado pois recebia por fora diretam ente dos bicheiros; estes

queriam ter as boas graças do assistente do com issário Mattos; a honestidade do

com issário era considerada pelos contraventores com o um a am eaçadora

m anifestação de orgulho e dem ência.

Policiais lotados no gabinete do chefe de polícia tam bém participavam desse

conchavo venal. Periodicam ente, algum centro de apuração do j ogo, conhecido

com o “fortaleza”, era invadido pela polícia, provocando sem pre a m esm a

m anchete: POLÍCIA ESTOURA FORTALEZA DO BICHO . Era um a form a de

satisfazer os escrúpulos de alguns raros segm entos da opinião pública; a m aioria

da população praticava ostensivam ente essa m odalidade de contravenção.

Jornalistas, j uizes, funcionários graduados do Ministério da Justiça, de cuj a

estrutura o Departam ento Federal de Segurança Pública fazia parte, tam bém

eram subornados pelos banqueiros. A Delegacia Especializada de Costum es, que

tinha com o um a de suas principais finalidades a repressão ao j ogo proibido, era a

que m ais suborno recebia.

Na m adrugada desse 1o de agosto, Zaratini, o m ordom o do palácio, que

costum ava acordar cedo, ao abrir um a das j anelas que dava para o j ardim viu

Gregório sentado num banco, perto do pequeno chafariz de m árm ore. O chefe

da guarda, ao ouvir o barulho da j anela sendo aberta, olhou para cim a e viu o

m ordom o. Sem responder ao cum prim ento que Zaratini lhe fez com a cabeça,

Gregório levantouse e cam inhou em direção ao prédio do aloj am ento da guarda

pessoal, anexo ao palácio. Eram cinco da m anhã.

Gregório bateu na porta do quarto onde dorm ia o cozinheiro Manuel. Com

cara de sono Manuel abriu a porta.

“Me prepara um chim arrão bem quente.”

Gregório sentou-se a um a m esa no refeitório vazio. Manuel trouxe o

chim arrão. Nesse instante chegou Clim ério Euribes de Alm eida, integrante da

guarda pessoal do presidente e com padre de Gregório. Saíra de sua casa, num

subúrbio distante, ainda de m adrugada para poder chegar na hora.

“Algum a ordem , chefe?”

“Venha para m inha sala”, disse Gregório, ao perceber a proxim idade de

Manuel, que arrum ava um a m esa ao lado. Não queria conversar aquele assunto

na presença de outros, o lacerdism o era com o um a doença contagiosa, pior do

que sífilis ou gonorreia, ele não se surpreenderia se houvesse alguém infectado

na guarda.

A sós na sala de Gregório, com a porta trancada:

“Que diabo? Onde está o tal hom em de confiança? Devíam os fazer o serviço

em j ulho e j á estam os em agosto.”

Gregório estava cansado de esperar que algum a vítim a das calúnias do Corvo

fizesse algum a coisa. Diziam -se todos am igos do presidente, m as além de xingar

o Corvo num falatório estéril, o m áxim o que faziam era um a bobagem com o a

do filho do Oswaldo Aranha, que com um a arm a na m ão dera apenas um soco

na cara do difam ador; podendo m atar o Corvo contentara-se em quebrar-lhe os

óculos. Nenhum deles queria sacrificar a vidinha confortável que levavam à

custa do presidente, bebendo uísque nas boates e andando com as putas. Daqueles

chaleiras covardes não se podia m esm o esperar grande coisa. Todos haviam

enriquecido no governo, m as poucos eram gratos ao presidente.

Clim ério, nervoso: “Deixa com igo, chefe”.

Na verdade, Clim ério não tinha hom em nenhum de confiança para fazer o

trabalho. O chefe não queria que fosse alguém ligado ao palácio e m uito m enos

da guarda pessoal, e a única pessoa que encontrara, um suj eito cham ado Alcino,

um carpinteiro desem pregado, am igo do alcaguete Soares, não era, certam ente,

um a pessoa qualificada. Alguns dias atrás, Clim ério fora com Soares e Alcino a

um com ício do Corvo em Barra Mansa. O carro de Soares onde viaj avam

quebrara e eles chegaram atrasados ao com ício. “O hom em é esse aí”, dissera

Clim ério, m ostrando Lacerda que discursava. Alcino hesitara ao ver que Lacerda

não era um pilantra igual a Naval, um suj eito que Soares lhe pedira para m atar

por desconfiar que era am ante de sua m ulher Nelly. Naval estava parado na

estação da Pavuna; Alcino atirou e m atou um desconhecido que estava próxim o

de Naval, que não foi atingido. Clim ério estava convicto de que Alcino não servia

para aquela em preitada, m as, para não perder a confiança do chefe, ao voltar

para o Rio não lhe relatou o fiasco de Barra Mansa. Conquistara a confiança de

Gregório quando lhe dissera os nom es dos capangas de Lacerda, todos, ou quase

todos, m aj ores da Aeronáutica: Fontenelle, Borges, Del Tedesco, Vaz. Havia

tam bém um tal de Carrera, que Clim ério acreditava ser do Exército, e um

Balthazar, da Marinha. Eram lacerdistas doentes e portavam arm as de grosso

calibre. Então o Anj o Negro dissera que se os capangas do Corvo usavam 45 o

hom em escolhido por ele, Clim ério, teria que fazer o m esm o. “Chefe, não se

preocupe. Deixa com igo”, respondera Clim ério.

Agora, passando os dedos nas m arcas de varíola do rosto, o que sem pre fazia

quando estava nervoso, repetiu a m esm a coisa: “Chefe, deixa com igo”.

“Mas anda depressa”, disse Gregório.

“Vou ver o hom em im ediatam ente.” Talvez Alcino bem instruído fizesse o

serviço direito.

No xadrez, o com issário Mattos viu os presos tom arem café e ouviu suas

queixas. Naquele dia com em orava-se o Dia do Encarcerado. Por iniciativa da

Associação Brasileira de Prisões fora instituído um santo padroeiro para os

presos. A escolha do padroeiro, por sugestão do cardeal dom Jaim e de Barros

Câm ara, recaíra sobre a figura do apóstolo são Pedro que, conform e as palavras

do prelado, sofrerá em vida os horrores do cárcere. O com issário pensou em

brincar com os presos, “vocês vivem se queixando de barriga cheia, até um santo

padroeiro vocês j á ganharam e ainda estão querendo m ais”, m as o desgosto que

sentira ao entrar nas celas m udara a sua disposição. Se não fosse um com odista,

um conform ista covarde, ele aproveitaria o Dia do Encarcerado para soltar todos

aqueles fodidos presos. Mas apenas anotou as queixas e voltou à sua sala.

Às onze horas olhou para o relógio, ansioso para que passassem logo os

sessenta m inutos que faltavam para encerrar-se o plantão. Mas nesse instante

chegou um a RP. A Central recebera a com unicaçào de um hom icídio. Alberto

Mattos cham ou Rosalvo para acom panhá-lo ao local.

“Já passa das onze, por que o senhor não deixa o 121 para o doutor Maia?”

“Ainda não é m eio-dia.”

Pegaram a velha cam inhonete do distrito, suj a do café dos presos, que

transportara de m anhã cedo. Ao passarem por um botequim , Alberto Mattos

m andou parar, saltou e tom ou um copo de leite. A acidez não parava de roer seu

estôm ago.

A RP esperava por eles na porta do edifício Deauville.

Os dois policiais foram ao oitavo andar. Um guarda estava no hall, com o

investigador que chefiava a RP. A porta do apartam ento estava aberta. Mattos e

Rosalvo entraram em um a saleta onde havia dois hom ens elegantem ente vestidos

com roupas caras. Num espelho na parede, o com issário viu seu rosto com a

barba de um dia inteiro por fazer, a cam isa am assada, a gravata torta, o terno

ordinário que usava. Ainda pelo espelho reconheceu um dos hom ens, o m ais

baixo e troncudo: Galvão, o fam oso crim inalista. Ao se form ar em direito,

quando ainda não entrara para a polícia, Mattos fora trabalhar com o assistente do

defensor público e representara um pobre-diabo envolvido com um a quadrilha

de falsários. Galvão era o advogado do chefe da quadrilha. O único absolvido

fora o cliente de Mattos.

Galvão e o outro se dirigiram para Rosalvo, que estava m ais bem vestido do

que o com issário.

“Sou o investigador Rosalvo”, disse o investigador ao perceber o equívoco.

“Este é o com issário, o doutor Alberto Mattos.”

“Galvão”, disse o advogado estendendo a m ão. Não dem onstrava ter

reconhecido Mattos. Um a voz grossa, gentil, m as cheia de autoridade. “Estou

aqui com o am igo da fam ília. Este é o doutor Cláudio Aguiar, prim o da vítim a.”

“Quem avisou vocês?”

A rudeza de Mattos não pareceu incom odar Galvão. Sem perder sua

com postura de grande causídico respondeu que fora a em pregada. Ela ligara

para a polícia e em seguida para Cláudio Aguiar.

“Pensei que a polícia chegaria antes de nós.”

“Com o é o nom e do m orto?”

“Paulo Machado Gom es Aguiar.”

“Profissão?”

“Industrial…”

“Solteiro? Casado?”

“Casado.”

“Onde está a m ulher dele?”

“Na casa de cam po, em Petrópolis. Ela ainda não foi avisada…”

“Não foi avisada?”

“Quisem os poupá-la do horror de ver o m arido assassinado, da brutalidade da

investigação crim inal… Ela é um a pessoa m uito delicada… Eles eram m uito

unidos…” respondeu Galvão.

“Onde está o corpo? Espero que não tenham m exido em nada.”

“Nem sequer entram os no quarto.”

“Creio que o senhor não tem m ais nada a fazer aqui, doutor Galvão. Nem o

senhor…”

“Aguiar”, disse o prim o do m orto que ficara calado até então.

O advogado e o prim o, todavia, continuaram parados no m eio do hall. Mattos

afrouxou o colarinho ainda m ais. Engoliu saliva. Bufou.

Galvão enfiou a m ão no bolso do paletó. De um a carteira de couro sacou um

cartão de visitas.

“Se o senhor precisar de algum a coisa…”

O com issário guardou o cartão no bolso. “Diga à m ulher da vítim a que quero

vê-la na segunda-feira. No distrito.”

“Não seria m elhor —”, com eçou Galvão.

“Segunda-feira”, repetiu Mattos.

“Segunda-feira é am anhã.”

“Isso m esm o.”

Galvão tocou de leve no cotovelo de Aguiar, que afastou o braço. “Vam os”,

disse o advogado com sua voz de fundo de barril.

“Outra coisa”, disse Mattos, “antes de sair avise a em pregada que encontrou

o m orto para vir falar com igo.”

Um a m ulher de quarenta anos, de uniform e preto com avental branco e um a

espécie de touca, na cabeça, apareceu no hall.

“Com o é o seu nom e?”

“Nilda.”

“Onde é que o corpo está?”

Mattos e Rosalvo seguiram a em pregada.

“Você espera aqui fora, Nilda.”

O m orto, um hom em de cerca de trinta anos, grande, m usculoso, m agro,

estava estendido na cam a inteiram ente nu. No rosto, vários hem atom as. Marcas

no pescoço. Os lençóis estavam m anchados de sangue, m atéria fecal e urina. Os

dois policiais m ovim entaram -se cuidadosam ente pelo quarto, para não

destruírem os possíveis indícios. Mattos em purrou com o cotovelo a porta

entreaberta do banheiro, não queria m isturar suas im pressões digitais a outras que

pudessem existir. Um espelho grande ocupava toda a parede, acim a de um a

bancada de m árm ore sobre a qual estavam arrum ados vidros de perfum e,

escovas, sabonetes e outros obj etos. O com issário com o cotovelo abriu a cortina

do box do chuveiro. Quando exam inava, sem tocar nele, um sabonete com

alguns fios curtos de cabelo, um brilho cham ou sua atenção. Aj oelhou-se. Era

um anel largo de ouro. Colocou-o no bolso do paletó, sem que Rosalvo visse. O

anel fez um leve tinido ao bater no dente de ouro que Mattos sem pre carregava

consigo. Ao perceber que o anel tinha tocado no dente um a sensação de noj o

apossou-se dele; im pulsivam ente o com issário trocou o dente de ouro de um

bolso para outro, quase deixando-o cair no chão.

“Telefona para o Gabinete de Exam es Periciais, pede a perícia”, disse

Mattos, tentando esconder sua m om entânea confusão.

“IML tam bém ?” perguntou Rosalvo.

“Tam bém , tam bém .”

Rosalvo aproxim ou-se da m esinha de cabeceira, onde havia um telefone.

“Esse não. Pode ter im pressões digitais.”

Nilda esperava na porta do quarto.

“Há outros em pregados na casa?”

“A cozinheira e o copeiro. Estão na copa.”

O com issário, acom panhado de Nilda, foi até a copa. Um a m ulher gorda

com um avental e um hom em vestido de calça listada e colete preto, sentados à

m esa, levantaram -se assustados.

“Esperem lá fora. Vou conversar com a Nilda. Depois cham o vocês”, disse o

com issário fechando a porta entre a copa e a cozinha.

“Foi você que cham ou a polícia?”

“Sim .” A voz trêm ula. Essa era outra coisa desagradável de ser polícia: as

pessoas quando não sentiam ódio sentiam m edo dele.

“Com o foi que você descobriu o corpo do seu patrão? Não se apresse.”

“Eu fui levar o café deles e bati no quarto e ninguém atendia…”

“Deles quem ?”

“O doutor Paulo e dona Luciana.”

“A m ulher dele não estava viaj ando?”

“Eu não sabia. Ela tinha viaj ado de tarde e eu não sabia.”

“Quem lhe disse isso?”

“O prim o do patrão, o doutor Cláudio.”

“E depois?”

“O doutor Paulo acorda cedo e eu pensei que ele j á havia saído e que dona

Luciana estava no banho. Então eu abri a porta e… vi aquilo… saí correndo…”

“E depois?”

“Liguei para a polícia… e depois para o doutor Cláudio…”

“Que horas eram ?”

Silêncio. Rosalvo entrou na copa.

“Eram onze horas?”

“Onze horas? Não… Não m e lem bro…”

“Você está m entindo, Nilda…”

A em pregada com eçou a chorar.

“Não há razão para você chorar. Calm a. Não vou fazer nada com você. E só

parar de m entir. Se você parar de m entir eu não vou brigar com você. Você

disse que seu patrão acorda cedo. Digam os que você chegou com o café às oito

horas. Viu o seu patrão m orto. Não sabia o que fazer e lem brou-se do prim o do

patrão e ligou para ele que disse para esperar, que não fizesse nada, que j á estava

vindo para cá. Então o prim o do patrão chegou com o advogado, aquele baixinho

de voz grossa e o baixinho disse para você esperar um pouco m ais antes de

cham ar a polícia e você fez o que ele m andou. Não foi assim ?”

“Foi.”

“Pode parar de chorar. Não estou brigando com você.”

“O doutor é gente fina, não é nenhum kakistocrata” disse Rosalvo.

“Entre você descobrir o seu patrão m orto e ligar para a polícia se passaram

um as três horas.”

“Aí é que está o busílis”, disse Rosalvo.

“Quero que você m e diga o que o prim o do seu patrão e o advogado fizeram

nesse tem po.”

Afinal Mattos conseguiu colocar em ordem os pensam entos de Nilda e saber

o que havia acontecido. Galvão e Aguiar haviam dem orado a chegar. Nilda,

enquanto isso, contou para a cozinheira e o copeiro o que descobrira, m as os dois

não tiveram coragem de ir ver o patrão m orto. Quando os visitantes chegaram

foram im ediatam ente ao quarto, m as ficaram pouco tem po lá dentro. Nilda não

entrou com eles. Aguiar saiu do quarto m uito nervoso e Galvão lhe disse várias

vezes para ficar calm o e pediu a Nilda para fazer um café bem forte. Quando

ela trouxe o café, Aguiar estava sentado no sofá da sala com a cabeça entre as

m ãos, com o se estivesse chorando. Galvão dera vários telefonem as,

m encionando algum as vezes o nom e de dona Luciana.

“Não vou ser presa?” perguntou Nilda ao notar que o com issário anotava num

bloco o seu nom e.

“Não, não vai. Talvez eu nem precise m ais de você. Fica tranqüila. Manda a

cozinheira vir aqui.”

Nem a cozinheira nem o copeiro sabiam algo de útil.

“Me arranj a um copo de leite, por favor”, disse Alberto Mattos para a

cozinheira.

“O senhor quer unsbiscoitinhos?”

“Não, obrigado. Apenas o leite.”

Mattos acabara de falar com o copeiro quando chegaram os hom ens do GEP.

O perito era Antônio Carlos, um técnico que Mattos respeitava pelos seus

conhecim entos. O com issário disse a Antônio Carlos que Galvão e um prim o da

vítim a haviam entrado no quarto e pediu-lhe que verificasse se algum indício

poderia ter sido destruído.

“Não acredito que Galvão fizesse um a coisa dessas” disse o perito.

“Nem para proteger um cliente?”

“Pensando bem , não sei… Advogado é advogado…”

Os hom ens do GEP tiraram fotografias, levantaram im pressões digitais e

papiloscópicas da estatueta, das portas, do telefone, da m esa de cabeceira. Juntos

com o com issário abriram gavetas e arm ários, arrolaram o m aterial que ia ser

levado, os lençóis, a roupa do m orto que estava sobre um a cadeira, um pequeno

caderno de endereços de couro brilhante e o sabonete com fios de cabelo.

“Isso fica com igo, por enquanto”, disse Mattos, guardando o caderninho no

bolso.

Os hom ens do rabecão carregaram o m orto num a caixa de m etal am assada

e suj a. Os peritos saíram com eles.

“Posso ir em bora?” perguntou Rosalvo. “Hoj e é o aniversário da patroa.”

“Vai.”

O copeiro no fundo da sala pigarreou.

“Nós podem os ir em bora?”

“Acho m elhor vocês esperarem a dona da casa chegar de Petrópolis.”

Ao sair, Mattos falou com o porteiro que ficava no prédio durante o dia. Às

seis horas ele deixara o serviço, sendo substituído por Raim undo Noronha. Mas

Raim undo havia saído.

“Diga a ele para ir ao distrito logo que puder, para conversar com igo.”

Chegando ao distrito Mattos fez o registro da ocorrência e passou o serviço

para o com issário Maia, que ia substituí-lo. Nesse m om ento, o delegado Ram os,

que raram ente ia ao distrito aos dom ingos, entrou na sala.

“Tudo bem no plantão, doutor Mattos? Algum a coisa especial?” perguntou

Ram os.

“Está tudo no livro de ocorrências” respondeu Mattos secam ente.

Ram os pegou o livro. “Um hom icídio… Ah, um hom em im portante… Um

figurão… A im prensa j á sabe?”

Galvão deve ter ligado para ele, pensou Mattos.

“Autor ou autores desconhecidos…” continuou Ram os. Colocou o livro sobre

a m esa. Com o sem pre fazia, quando estava indeciso e nervoso, rodou no dedo o

anel de form atura — ouro, com um rubi no centro, figuras em alto relevo dos

dois lados, um a balança e um a tábua da lei.

“Você tem algum a pista?”

“Vou para casa. Quando descobrir algum a coisa eu lhe digo.”

Apanhou o revólver que sem pre deixava na gaveta quando estava de plantão,

colocou-o no coldre do cinto e saiu.

Gregório foi cham ado ao telefone várias vezes, m as atendeu apenas a três

telefonem as, após o alm oço.

O prim eiro telefonem a: “E sobre a licença da Cexim . Preciso falar com você

ainda hoj e”.

“Hoj e eu não posso”, respondeu Gregório.

“E m uito im portante, tenente. E m elhor nos encontrarm os. Não é só o m eu

interesse que está em j ogo. E o seu tam bém .”

“Não força, Magalhães. Não estou de bom hum or hoj e.”

“Não estou forçando nada, não m e interprete m al, é que aconteceu um a

coisa grave, o presidente da Cem tex…”

“Hoj e é dom ingo, não posso fazer nada. Daqui a pouco vou com o presidente

ao Jockey Club. Telefona am anhã”, disse Gregório secam ente, desligando o

telefone.

O segundo telefonem a: “Quando é que o serviço vai ser feito?”

“Por estes dias”, respondeu Gregório. “Vam os com calm a, não quero correr

riscos inúteis.”

“Se acontecer algum a coisa com você — o que não acredito, pois sei que

você agirá com a prudência necessária para evitar qualquer contratem po — eu

depositarei os dólares em seu nom e no exterior. Você será um hom em rico.

Muito rico. Confie em m im , com o estou confiando em você.”

O terceiro telefonem a: “Quando é que você vai bom bardear o hom em ?”

“Por estes dias, doutor Lodi.”

Euvaldo Lodi era deputado federal e im portante líder da Federação das

Indústrias.

Às três da tarde o chefe do Gabinete Militar da Presidência, general Caiado

de Castro, chegou ao Palácio do Catete. Pouco depois chegou o m inistro da

Fazenda, Oswaldo Aranha. Am bos foram introduzidos no gabinete do presidente.

Pouco antes das quatro, a com itiva presidencial, integrada, entre outras pessoas,

pelo general e pelo m inistro, entrou nos carros que estavam nos j ardins do

palácio. O m aj or Dornelles sentou-se ao lado do m otorista no carro onde

estavam o presidente e sua esposa, dona Darcy .

Gregório deu instruções aos batedores da Polícia Especial, fez um gesto para

Dornelles de que a com itiva podia partir. Seu carro, ocupado por três outros

m em bros da guarda pessoal, estava logo atrás do carro do presidente. Precedida

pelas m otocicletas dos batedores de boné verm elho, a com itiva saiu pelos portões

da rua do Cate te, em direção ao Hipódrom o da Gávea.

Com o Gregório tem ia, o presidente foi vaiado quando o locutor do Jockey

Club anunciou, pelos alto-falantes, sua chegada. O presidente fingiu não tom ar

conhecim ento dos apupos que vinham das tribunas especiais. Das tribunas

populares não veio nenhum aplauso, nenhum apoio. Então é assim que o povo

trata o doutor Getúlio?, pensou Gregório. Depois de todos os sacrifícios que fizera

e fazia pelos pobres e hum ildes?

Durante o porto de honra, servido pela diretoria do Jockey após a corrida, o

Anj o Negro, com a fisionom ia torva, postou-se atrás do presidente, acariciando

por dentro do paletó o punhal que carregava na cintura.

Mattos m orava no oitavo andar de um edifício na rua Marquês de Abrantes,

no Flam engo. Um apartam ento pequeno de sala e quarto, banheiro e cozinha, de

fundos. O banheiro era a m elhor peça da casa, espaçoso, com um a enorm e

banheira antiga, com pés de m etal reproduzindo as patas de um anim al. Na sala

cabia apenas um a m esa com duas cadeiras, um a estante cheia de livros e um

console que continha um a vitrola e escaninhos para discos. Sobre o console um

álbum de discos de 78 rotações, com La Traviata, outro com a La Bohème em

long-play, e os libretos dessas óperas em italiano. O quarto tam bém era pequeno;

nele havia um sofá-cam a Drago e um a m esinha com um a lâm pada de leitura.

O apartam ento estava quente e abafado, naquele dia, apesar de ser agosto. A

j anela do quarto dava para um pequeno pátio interno. O vizinho em frente

discutia com a m ulher. Mattos podia ver e ouvir os dois gesticulando e gritando.

Fechou a j anela, acendeu a luz, ligou o rádio, tirou o paletó e a gravata, colocou o

revólver sobre a m esa, abriu o sofá-cam a e deitou-se de calças e sapatos. Estava

se acostum ando a dorm ir vestido.

Acordou com o telefone tocando. O locutor do rádio dizia: “O presidente da

República, o doutor Getúlio Vargas, acaba de chegar ao Hipódrom o da Gávea”.

Atendeu o telefone.

“Você quer m e ver hoj e?”

Era Salete. Sentiu um curto desej o, que logo passou. Aquele não era um bom

dia. Além de tudo estava com azia.

“Estou cansado.”

“Você não está pensando em m im ?”

“Não estou pensando em nada.”

“Vocês da polícia estão sem pre pensando em algum a coisa. Não sej a bruto.”

“Estou m uito cansado.”

“Daqui a pouco eu passo aí e você fica bonzinho…”

O policial voltou a ouvir rádio. El Aragonês, m ontado por L. Rigoni, ganhou o

Grande Prêm io Brasil. Ele teria j ogado em Joiosa, pelo m istério do nom e: j oio,

j óia, j oy euse? ou a espada de Cid El Cam -peador e outros cavaleiros ilustres?

Mas a égua chegou em segundo lugar. Tinha que descobrir o autor de um

assassinato e estava ouvindo corrida de cavalos… Pegou o livro de direito civil.

Ele botava os suj eitos na cadeia com o polícia; com o j uiz ia fazê-los apodrecer

num xadrez im undo de delegacia. Grandes perspectivas. Teve vontade de j ogar o

livro na parede. Se com eçasse a j ogar livros nas paredes estava realm ente ruim

da cabeça. Voltar a advogar? Seu últim o cliente lhe dera um a galinha com o

pagam ento de honorários. Quer dizer, a m ãe do cliente, que estava preso. Um a

m ulher infeliz com o a m ãe de todos os crim inosos que eram apanhados. A pobre

m ulher havia decidido que precisava pagá-lo de algum a form a. Lem brava-se da

cara satisfeita da m ulher quando lhe dera a galinha, viva, em brulhada em papel

de j ornal, com as pernas presas por um barbante.

Contara o episódio para Alice. Sua ex-nam orada ficara perturbada. O m undo

dela era outro, não havia nele galinhas de pernas am arradas em brulhadas em

papel de j ornal. Alice.

Alice.

Tirou a cam isa e voltou a dorm ir.

Acordou com a cam painha da porta.

“Gosto de você assim sem cam isa”, disse Salete, abraçando-o.

Mattos desvencilhou-se do abraço, foi ao quarto, seguido por Salete, e vestiu a

cam isa suj a do plantão.

“Se você prefere podem os ir ao cinem a São Luiz.”

“Não quero botar paletó e gravata.”

“Então vam os ao Poly team a. Naquele poeira não precisa usar paletó e

gravata.”

“Não gosto de cinem a.”

“Antes você gostava.” Salete pegou o coldre com o revólver sobre a m esa de

cabeceira. “O film e é O diabo ri por último. Você anda com ele no corpo.” Um

sorriso indeciso.

“Larga essa arm a, por favor.”

“Você sabe que adoro segurar seu revólver.”

“Quer fazer o favor?”

Salete colocou o revólver sobre a m esinha.

“Hoj e eu não serei um a boa com panhia”, disse Mattos.

“Sem pre que sai do plantão você fica assim . Vam os para a cam a que eu faço

você ficar bom .”

“Preciso tom ar um banho.”

“Você tem água?”

“Hoj e entrou. Agora é dia sim dia não.”

“Deixa que eu preparo o banho para você.”

Enquanto Salete enchia a banheira, Mattos ficou lendo o livro de direito civil.

“Pronto, pode vir”, gritou Salete.

“Por que você está toda vestida de preto?”

“Você não sabe o que está na m oda? Nunca ouviu falar em Juliette Greco, a

m usa do existencialism o?”

“Vou tom ar banho sozinho.” Mattos pegou Salete pelo braço e delicadam ente