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Alguém para amar por L P Baçan - Versão HTML

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Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

Capítulo 1

Silas Pereira chegou extenuado em seu apartamento. Havia sido um dia puxado em uma firma especializada em projetos de engenharia. Silas era desenhista e por suas mãos passavam a maioria das plantas de novas casas e edifícios construídos em Londrina, no Paraná. Naquele dia, em particular, havia completado todos os detalhes de um novo prédio de apartamentos a ser construído. Por isso sentia-se terrivelmente cansado.

Suas costas doíam após o dia todo debruçado sobre a prancheta de desenhos e seus olhos ardiam pelo esforço excessivo. Assim que chegou, atirou seu paletó sobre o sofá e foi até a cozinha apanhar uma lata de cerveja na geladeira. Endireitou o corpo e caminhou até a janela. A noite estava quente e abafada. Silas abriu a janela e respirou fundo. Seus olhos passearam pelo prédio do outro lado da rua. Havia luzes nas janelas, e algumas, abertas, deixavam ver cenas familiares. Sem qualquer interesse, Silas continuou bebericando sua cerveja e olhando as janelas. Súbito, numa delas, destacou-se uma figura de mulher. Silas aguçou o olhar, pois teve a nítida impressão de que ela estava nua.

Foi apenas um momento. A figura cruzou rápido por uma das janelas e desapareceu.

Silas continuou olhando por algum tempo, mas não a viu mais.

Voltou para a cozinha e apanhou outra lata de cerveja. Colocou comida congelada no microondas e programou-o. Enquanto aguardava a comida esquentar, voltou à janela. Seu olhar vagou pelo prédio em frente, sem que ele se lembrasse da janela onde havia visto a mulher. Sua cerveja terminava. Tomou o último gole e, quando ia voltar à cozinha, novamente viu a mulher.

Desta vez ela parou em frente à janela. Silas olhou com interesse. A mulher estava nua e parecia ter saído do banho, pois esfregava uma toalha em seus cabelos. Silas sorriu, divertido e excitado. O corpo nu do outro lado da rua era jovem, pouco mais de vinte anos, cabelos compridos e lisos, talvez porque molhados.

O que mais atraiu a atenção do rapaz, porém, foram aqueles seios firmes que oscilavam levemente enquanto a jovem esfregava os cabelos. Eram pequenos, Silas calculou que deveriam caber em suas mãos. Além disso, tinham uma beleza agressiva, levemente empinados. A garota nua, por algum motivo, pareceu notar a janela aberta. Calmamente ela a fechou, deixando Silas frustrado.

Ele voltou para a cozinha, quando ouviu a campainha do forno ao ser desligado. Serviu a lasanha a quatro queijos num prato, apanhou mais uma lata de cerveja e foi para a sala, sentar-se diante de sua prancheta de desenho. Enquanto comia, calmamente, procurando lembrar-se de cada detalhe, o rapaz traçou aquele perfil em diversos desenhos, deixando o rosto incompleto. Depois, sonhadoramente, desenhou, em cada um dos perfis, um rosto diferente, incapaz de se lembrar de todos os detalhes do rosto que vira, já que sua atenção estivera toda voltada para os seios da garota.

Não soube quanto tempo esteve ali, debruçado sobre a prancheta. Quando deu por si, sentiu-se mais cansado que antes. Levantou-se e caminhou para o quarto, deixando os desenhos na prancha. Após vestir-se para dormir, apanhou um livro e deitou-se. Não conseguiu, no entanto, ler nem adormecer. Seus pensamentos voltaram-se para aquela misteriosa mulher que vira. Quem seria ela? Como seria seu rosto? Viveria só? Era solteira?

Casada? O que fazia ali?

As perguntas foram se multiplicando em sua mente, afastando o sono cada vez mais. Por fim, Silas desistiu de dormir, apesar de se sentir cansado. Voltou para a sala e postou-se em frente à janela. Com certa alegria, notou que a janela do prédio do outro lado estava novamente aberta. A figura feminina movimentava-se de um lado para outro. Silas acompanhava-a com os olhos, procurando perceber seu rosto, mas não o conseguia.

Após algum tempo ali, Silas deduziu que a garota morava sozinha. Ele não vira movimentação de ninguém mais, além dela. Isso lhe deu uma inexplicável satisfação, embora não pudesse explicar-se por que motivo. Seus pensamentos tornaram-se mais ousados.

Passou a imaginar-se lá, no apartamento do outro lado da rua, junto daquela mulher sensual.

Seria interessante vê-la movimentar-se de um lado para outro como ela fazia, acompanhar os movimentos suaves de seus seios, o oscilar de seus quadris, o deslocar de suas pernas esbeltas e bem torneadas.

Uma grande excitação dominou o rapaz. Fantasias dominavam sua mente. Não conseguia pensar em outra coisa. Aquela mulher o estava enfeitiçando, embora não soubesse nada sobre ela. Conhecê-la passou a se tornar um desejo febril, insistente. Vê-la de perto, tocá-

la, acariciá-la, se possível tudo isso passava pelos pensamentos de Silas. O vulto feminino, após muito movimentar-se, parou novamente em frente à janela. Silas ficou em suspense, contendo a respiração. Com movimentos preguiçosos, a jovem desabotoou a blusa e atirou-se para um lado. Depois soltou o fecho da sala e deixou-a escorregar para baixo.

A seguir, sempre se movendo com lentidão, espreguiçou-se languidamente e pareceu caminhar para a janela. Silas desejou desesperadamente que ela não a fechasse novamente.

A garota, no entanto, após olhar a rua, soltou a persiana, tapando toda a visão do rapaz. Silas ficou ali parado durante algum tempo, até que a luz que via pelas frestas da persiana foi apagada.

Depois, inquieto, voltou para a cama. Seus pensamentos eram confusos, em turbilhão.

Sabia apenas que precisava fazer algo a respeito, embora não soubesse precisamente o quê.

Lembrou-se, então, daquilo que seu amigos no escritório faziam. Sempre que tinham uma oportunidade de observar um corpo feminino através de uma janela, muniam-se de bom binóculo.

* * *

— E então, o que apuraram? — indagou o homem sentado atrás de uma pilha de fichas, numa das mesas de um carteado clandestino, instalado nos fundos de um obscuro hotel da cidade.

Era Jorge Fonseca, o proprietário da casa de jogo e um dos homens mais importantes no submundo do crime da cidade e da região, Comandava o jogo, a prostituição, a distribuição de drogas e mais alguns negócios escusos. Os homens a quem se dirigira eram Lelo Calo e Daniel Graça, seus eficientes cobradores. Homens fortes, peritos no manejo de armas e especialistas na difícil arte de cobrar bons perdedores e maus pagadores.

— Nossos homens na penitenciária estadual têm pressionado João Sansão, mas ele continua firme e recusa-se a falar sobre o roubo — informou Lelo Calo, o mais forte e violento dos dois.

— Que diabos! — esbravejou Jorge, esmurrando a mesa.

As fichas escorregaram para o chão. Lelo abaixou-se para apanhá-las, empilhando-as de volta na mesa.

— João Sansão me deve vinte e cinco mil reais e terá que pagar, nem que eu tenha que tirá-lo daquela penitenciária.

— João Sansão foi esperto e deve ter tramado algum bom golpe. Os cem mil daquele assalto que ele e seu parceiro fizeram naquela cidadezinha ainda não foram encontrados. João vai cumprir uma pena leve, apenas seis anos. Cm bom comportamento, pode sair mais cedo.

Quando isso acontecer, tenho certeza de que irá apanhar o dinheiro, esteja onde estiver —

opinou Daniel.

— O que nos deixa amarrados é que seu parceiro naquele assalto morreu. João é o único a saber da localização de todo aquele dinheiro, o bastante para pagar-nos e ainda viver tranqüilamente com sua mulher. Falando nisso, o que apuraram sobre ela?

— Está morando num apartamento da Rua Pará, no centro da cidade. Mora sozinha e não recebe visitas nem telefonemas.

— Vive de quê? O que a mulher de um detento faz para ganhar a vida? — quis saber o chefe dos dois.

— Ela trabalha e parece que tem um bom salário até — informou Lelo Calo, brincando com a pilha de fichas que tinha feito.

— Se você fosse o João Sansão, contaria a sua mulher onde está escondido o dinheiro?

— indagou-lhe Jorge.

— De jeito nenhum. Nem ele faria isso, patrão — apressou-se em dizer Lelo. — Seria um risco fazer isso.

— Mesmo assim, concentrem-se na mulher. Vejam se conseguem descobrir alguma coisa com ela.

— Certo, faremos isso hoje mesmo. Conheço o porteiro do prédio. Tem uma dividazinha com a gente e vai facilitar as coisas.

— Sim, boa idéia! Ser acordada no meio da noite deixa qualquer pessoa assustada. Mas sejam discretos nesta primeira visita. O bastante para deixá-la preocupada apenas, entenderam bem?

— Nem precisava dizer isso, patrão — respondeu Lelo, acenando com a cabeça para Daniel.

Despediram-se de Jorge e saíram.

— Vai se divertido desta vez. Estava cansado de lidar só com barbados — disse Daniel, assim que entraram no carro.

— Calma, não vamos assustá-la demais. Você ouviu o patrão — respondeu Lelo, pondo o carro em movimento.

— E daí? Ela está sozinha agora, vai ficar assim por um bom tempo. Quem sabe não esteja precisando de algum consolo e de um pouco de carinho? Eu também ando tão carente...

— Faça como eu disse. Você conhece nosso patrão. Vamos devagar, como sempre, e tenho certeza de que descobriremos alguma coisa importante. Vai ser bom para nós, porque o patrão anda azucrinado por causa dessa dívida.

O carro estacionou, algum tempo depois, em frente a um prédio na Rua Pará, no centro da cidade. Lelo e Daniel desceram e entraram. Falaram rapidamente com o porteiro, depois foram para o elevador. A mulher morava no sexto andar. Instantes depois, os dois estavam em frente à porta do apartamento dela. Daniel e Lelo vestiram suas luvas de couro. Não o faziam por precaução, mas simplesmente porque, um dia, assistiram a um filme de gângster americano e viram um pistoleiro fazer aquilo. Tornara-se para eles uma espécie de ritual, que dava um certo charme ao trabalho sujo que faziam.

Daniel Graça pôs o dedo sobre o botão da campainha e o deixou ali até que a porta se abrisse e o rosto sonolento e assustado de Edna Sansão surgisse.

— O que desejam? — indagou ela, surpresa.

— Queremos falar com você, queridinha! — respondeu Daniel.

Edna examinou os dois homens do outro lado da porta. Conhecia gente como eles, bandidos da pior espécie. Tinha certeza de que aquela seria uma desagradável visita, por isso empurrou a porta com força. O fato de terem passado pelo porteiro, sem que ela fosse avisado, dava uma boa idéia da força deles. Daniel antecipou-se a ela, colocando o pé entre a porta e o batente.

— Não adianta, moça. É melhor abrir — disse ele, olhando para a corrente de segurança que ainda retinha a porta.

— Saiam daqui ou chamarei a policia!

— Com licença! — disse Lelo a Daniel, esticando o braço com força e atingindo o queixo de Edna.

A garota foi jogada para trás, enquanto Daniel jogava o corpo contra a porta, arrancando o conjunto que prendia a corrente com todos os seus parafusos. Antes que Edna pudesse esboçar qualquer reação, Lelo caiu sobre ela, tapando-lhe a boca e torcendo-lhe o braço para trás.

— Ouça bem o que lhe digo, moça! Não grite, não reaja e tudo acabará bem. Estamos aqui apenas para conversar, não se preocupe. Seja boazinha e nada lhe acontecerá. Entendeu o que eu disse?

Edna olhava-o com espanto, enquanto a mão forte dele pressionava-lhe os lábios.

— Vai ficar quieta? — indagou Daniel, com o rosto bem próximo do rosto dela, quase roçando seus narizes.

Edna fez que sim com a cabeça.

— Muito bem, boa menina — disse Lelo, soltando-a.

Assim que se viu livre, a garota recuou, até encostar-se à parede do outro lado da sala.

Daniel e Lelo aproximaram-se, ameaçadores, abrindo e fechando as mãos enluvadas.

— O que desejam? — indagou ela, num fio de voz.

— Vamos ser claros, menina — falou Lelo. — Trabalhamos para Jorge Fonseca e aconteceu de seu marido perder vinte e cinco mil no jogo. Queremos receber, só isso.

— João está preso. Não tenho esse dinheiro...

— Sabemos disso. Acontece que João também roubou aquele carro-forte lá no interior.

Cem mil reais sumiram e até agora não foram encontrados. Presumo que apenas seu marido saiba onde ele está, já que foi o único a ser apanhado vivo, após o assalto.

— Não sei de nada sobre isso. Juro!

— Talvez devêssemos clarear sua memória, querida! — disse Daniel, calçando um soco-inglês em sua mão direita e levando-a até perto do rosto de Edna, exibindo-o ameaçadoramente.

— Desculpe-me meu amigo. Ele é muito impaciente — falou Lelo. — No entanto, serei forçado a deixar que ele cuide da situação, caso você não colabore conosco.

— Já disse, não sei de nada. Não vi João desde que foi preso, nada sei sobre aquele dinheiro.

— Foi o que pensamos. Vamos, por enquanto, acreditar que você fala a verdade. Terá tempo para refletir sobre o assunto. Vamos lhe dar quarenta e oito horas de prazo, o bastante para que você pense melhor no assunto. Se precisar, fale com João, ele entenderá.

— Eu jurei não voltar a ver o João — disse ela, apavorada.

— Não seja sentimental demais. Ele é seu marido e você tem obrigações para com ele.

Além disso, descubra onde está aquele dinheiro ou voltaremos aqui, após as quarenta e oito horas, e você se arrependerá disso para o resto da vida. Tem um rostinho muito bonito para ser estragado por isto aqui — falou Daniel, ameaçadoramente.

— Vão embora, por favor! — suplicou ela, trêmula e confusa.

— Já estamos de saída, meu bem — disse Lelo. — Pense direitinho no que lhe dissemos hoje. Quarenta e oito horas, é o tempo que você dispõe para descobrir aquele dinheiro. Basta apenas uma indicação, nada mais, e você estará livre de nós. Entendeu? — arrematou ele, agarrando-a pelo queixo.

Edna gemeu de dor e soluçou alto, quando Daniel girou-a com extrema facilidade, atirando-a de encontro a uma das poltronas. Sem mais uma palavra os dois homens saíram, deixando-a assustada e trêmula.

* * *

— O que você faria se descobrisse uma janela por onde se pode ver o mais belo corpo da cidade, Miguel? — indagou Silas a seu amigo, no dia seguinte, no escritório.

— Primeiro, eu não daria o endereço para ninguém.

— É o que vou fazer. E em seguida?

— Já tem um binóculo?

— Não, ainda não.

— Compre um, o melhor que tiver com potência total para trazer a imagem ao alcance de suas mãos. É tudo de que precisa par começar uma das aventuras mais emocionantes de toda a sua vida.

— Certo, e daí?

— Daí observe, tente descobrir o número do telefone dela, ligue para ela num momento de intimidade, compre uma câmara fotográfica com teleobjetiva, ou uma filmadora com zoom...

Enquanto Miguel falava, Silas estava pensativo, olhando pela janela do escritório. Aquela mulher o atormentara durante toda a noite, roubando-lhe o sono, povoando sua mente com as mais fantásticas e excitantes fantasias.

— Silas, você me ouviu? — indagou Miguel.

— Ah, desculpe-me! Estava pensando em algo.

— Isso eu pude notar. Pensava nela?

— Sim, quero dizer, não...

— Espere aí, rapaz! Ela é tão fantástica assim?

Silas olhou sério para o amigo por algum tempo, depois balançou a cabeça num gesto de aprovação.

— Puxa, gostaria de conhecê-la!

— Nada disso, ela é minha. Eu a descobri primeiro

— Sua? Ainda nem chegou perto, amigo. Que pressa!

— Chegarei, pode deixar comigo.

— Então me dê uma dica. Como é ela, Silas?

— Se eu lhe contasse com palavras, você não acreditaria — disse Silas, abrindo sua pasta e mostrando os desenhos que fizera.

Miguel olhou-os, soltando um prolongado assobio.

— Sensacional, mas você disse apenas uma mulher...

— Na verdade é apenas uma. No momento eu não prestei atenção ao rosto, estava ocupado com as outras partes...

— Posso perfeitamente entender isso, homem. Que mulher deliciosa! Se o corpo dela for metade do que você desenhou aí, deve ser inesquecível mesmo. Uma modelo fotográfica, com certeza.

— Não se empolgue demais. Ela é minha, já disse.

— Está bem, está bem. Mas até que você podia me convidar para dar uma espiadinha, não?

— Ora, não seja obsceno — descartou Silas, sentindo-se estranho, como se o pedido de Miguel provocasse-lhe ciúme.

Naquela tarde, após o almoço e antes de voltar à firma, Silas passou por uma loja especializada em ótica e comprou um binóculo. Sentia-se sujo e depravado, mas não podia resistir ao impulso de observar aquele corpo mais de perto, notar os detalhes daquele rosto, familiarizar-se com cada polegada daquela pele que o fascinara.

Naquela tarde, pouco produziu no trabalho. Consultava o relógio a cada minuto, ansioso para que o tempo passasse depressa e ele pudesse voltar à janela e observar, desta vez mais preparado, aquele corpo feminino. Preocupado e ansioso, nada do que fazia parecia dar certo.

Teve que repassar diversas vezes um simples desenho, mesmo assim, interrompendo o trabalho a cada minuto para olhar o relógio.

Capítulo 2

Edna aguardava na fila, juntamente com outras pessoas que desejam visitar os familiares, detidos na penitenciária estadual. Uma indescritível sensação de peso oprimia seu peito, observando os semblantes tristes e envergonhados das pessoas que ali estavam. Ela detestava ter de fazer aquilo, mas estava assustada demais para não fazê-lo. João poderia ter a resposta que aqueles homens desejavam. Ela suplicaria, se fosse preciso, pois queria preservar, a todo custo, sua vida. Sabia que lidava com gente perigosa.

Ver João, após sua prisão, era tremendamente difícil para ela. Não que o amasse. O

amor deixara de existir havia algum tempo, tão logo ela tomou conhecimento do tipo de homem que era seu marido. Nos primeiros tempos, João era carinhoso, tinha um bom e sólido emprego e não esbanjava dinheiro. Depois, sem que ela entendesse o motivo, João passou a reclamar cada vez mais da falta de condições para tudo. As brigas começaram, então. Ora brigavam porque ele achava que ela havia exagerado nas compras da casa, ora implicava porque ela comprara um vestido ou um sapato.

João não se justificava, apenas reclamava e brigava, cada vez mais, até que Edna, um dia descobriu sobre o vicio do marido: cocaína. Tentaram juntos vencer aquilo, mas João fraquejara. Terminou perdendo seu emprego. Depois disso, pulou de firma em firma, decaindo cada vez mais, até que um dia Edna o vira em companhia de alguns homens suspeitos.

Dali até o assalto que o levou à prisão, foi uma questão de tempo. A jovem ainda sentia dentro de si a amargura de ser apontada na rua como a esposa de um assaltante. O desespero quase tomou conta dela. Edna era, porém, valente e orgulhosa. Resolveu reconstruir sua vida, sozinha. Mudou-se do antigo bairro, arrumou um emprego e, de João, não queria mais nada, a não ser distância. Desde então, nunca mais o vira. Ter que fazê-lo agora, era para ela, doloroso e constrangedor.

— Por favor, senhorita! Está atrapalhando a fila — disse-lhe o guarda, gentilmente.

Edna desculpou-se e caminhou pelo longo corredor, até uma sala ampla, como janelas gradeadas. Separados por uma malha de metal, estavam os prisioneiros, aguardando a visita.

A jovem caminhou até a divisão numerada indicada pelo guarda, tão logo ela se identificou.

Edna sentiu-se incapaz de olhar João nos olhos. Sentou-se. Um silêncio pesado pairou entre os dois.

— Senti sua falta, Edna — disse ele, olhando-a com insistência.

— Sim, eu sei — respondeu ela, ainda cabisbaixa.

— Fico contente em ver que você se decidiu afinal...

— João — ela o interrompeu.

— Sim? Quer me dizer alguma coisa?

Edna ficou em silêncio, medindo as palavras. Não queria dar a João uma falsa impressão sobre os motivos de sua visita. Tinha de desencorajá-lo, mas era difícil fazer aquilo.

— Não estou aqui pelo que você está pensando — disse ela, pausadamente. — Não é por você...

A jovem ouviu um longo suspiro e um estalar de língua. Arriscou levantar os olhos. João era um homem acabado. Havia emagrecido e deixara crescer a barba. Edna sentiu pena, apesar de tudo.

— Por que veio, então? Precisa de dinheiro?

— João, estou assustada... Muito assustada mesmo!

— Assustada? E o que a deixou tão assustada assim?

— Recebi uma visita inesperada. Dois homens à procura de um dinheiro que você deve a eles...

— Sei quem os mandou — comentou ele, com desinteresse. — Eles logo a deixarão em paz, não se preocupe.

— Não penso assim. Acham que sei onde você... Onde você escondeu o dinheiro do roubo.

— E pensam que eu direi a você? São loucos!

— Por favor, João, é o único modo.

— Não, Edna, não farei isso. Minha pena é curta, felizmente. Dentro de pouco mais de cinco anos estarei fora daqui, com cem mil reais só para mim. É meu seguro de vida, meu futuro e tudo que tenho, já que nem você eu tenho mais — falo ele, com mágoa.

— João, não entende. Eles ameaçaram me matar.

— Bobagens. Não matarão você. Nada ganham com isso!

— Como pode ser tão frio assim?

— Eles não farão nada contra você, quando se convencerem de que nada sabe sobre o dinheiro.

— E o que será preciso fazer para que eles se convençam?

— Nada, simplesmente deixe o tempo passar e ignore.

— Pensei que você tivesse mudado após o que aconteceu.

— Por que deveria mudar? Estamos bem agora, Edna. Você se libertou, estou disposto a lhe conceder o divórcio quando quiser.

— Penso que deveríamos ter feito isso há mais tempo, não?

— Sim, acho que sim.

— Está bem, esqueça — disse ela, levantando-se e saindo.

Não esperava, realmente, convencer João. Ele continua o mesmo dos últimos tempos: um irresponsável. A garota havia feito aquilo porque desejava se ver livre daquela ameaça que pairava contra ela. Não queria viver com aquela ameaça sobressaltando-a a todo momento.

Era uma sensação horrível, como a que sentia, quando João saía para se drogar.

Após sair da prisão, não soube que destino tomar. Aqueles homens haviam prometido quarenta e oito horas de espera, antes de voltarem. Ela poderia deixar a cidade, desaparecer de Londrina sem que ninguém soubesse de seu paradeiro. Mas, quem poderia garantir que, naquele exato momento, um daqueles homens não a estivesse vigiando, acompanhando seus passos, pronto a agarrá-la se tentasse fugir. Começou a vagar sem rumo definido, tentando encontrar uma saída, afugentar aquelas preocupações que vinham abalar sua vida, quando pensava já ter conseguido uma certa tranqüilidade.

* * *

Silas chegou em casa e imediatamente correu para a janela e olhou para o prédio em frente. Com decepção, notou as janelas fechadas e tudo às escuras. A jovem ainda não havia retornado e ele não soube o que fazer com o binóculo que trouxera. Aguardou impaciente por alguns momentos. Como ela não aparecesse, foi preparar alguma coisa para comer. Assim que o fez, arrastou uma poltrona para a janela e sentou-se, com os olhos presos no outro lado da rua.

Focalizou o binóculo, percorrendo todas as janelas. Flagrou algumas cenas familiares, mas nada excitante como a visão que tivera na noite anterior. Colocou o binóculo de lado e abriu uma lata de cerveja. Bebeu lentamente, sempre olhando a janela do prédio em frente.

Pensou nela, imaginou nomes, tentou compor a fisionomia da mulher desconhecida, enquanto o tempo passava.

Repentinamente, porém, uma lâmpada acendeu-se, jogando luz pelas frestas das persianas. Silas pôs-se em pé com o coração aos saltos. Uma das janelas foi aberta. Ele focalizou o binóculo, mas a garota estava de costas, caminhando para um outro cômodo do apartamento. Silas calculou que ela iria para o quarto, por isso dirigiu sua atenção para uma outra janela. Percebeu a luz, mas desta vez a garota não levantou a persiana.

— Vamos, meu bem! Abra essa janela — murmurou ele, numa súplica ansiosa.

A persiana continuou baixada. Silas olhou, então, para a janela aberta, esperando vê-la passar. Sua respiração aumentou quando ele a percebeu, de relance. A garota parecia vestir um roupão. Silas imaginou que ela fosse para o banho. Inconscientemente passou a compor os detalhes de cena. Viu-a aproximar-se do chuveiro, ligá-lo, pôr a mão na água para testar a temperatura.

Depois, ela soltou o roupão e seu corpo ficou nu. Silas suspirou apaixonado, imaginando as curvas, a pele, a feminilidade exposta. O rapaz sentou-se, fechando os olhos e continuando a imaginar. Em sua mente podia vê-la levantar primeiro uma perna, ensaboá-la, depois a outra.

Quase podia sentir o perfume da espuma que cobria o corpo dela e que era carregada pela água morna que vinha do chuveiro.

Ele a viu úmida e fresca, perfumada e tentadora, com seus cabelos escorridos sobre o rosto que ele desconhecia. A seguir, ela se enrolou em uma toalha. Silas abriu os olhos e levantou o binóculo, ansioso para vê-la passar. E de fato ela passou, não envolta na toalha, mas vestindo o mesmo roupão. Seus cabelos não estavam molhados e escorridos, mas soltos.

Detalhes insignificantes para ele. O importante era vê-la passar.

E a jovem passou para o outro cômodo e, quando retornou pouco depois, usava um vestido claro que realçava sua beleza. Ela ficou parada durante algum tempo no centro da janela. Silas, com satisfação, pode apanhar seu rosto. Os olhos eram ligeiramente amendoados, mas grandes e expressivos. Seu nariz era fino e delicado, sua boca pequena, de lábios espessos e vermelhos, tentadores e excitantes. O que chamou a atenção do rapaz, porém, era que a jovem parecia triste e assustada, talvez indecisa com alguma coisa. Tentou penetrar naquele rosto e descobrir os motivos, mas nada lhe ocorria, já que ela era uma total desconhecida para ele.

Silas continuou olhando, enquanto a garota movia-se pela sala. Depois, ela sumiu de sua vista demorou para aparecer novamente. Mentalmente refez-se todos os detalhes daquele rosto, passando-o para o papel. Achou que faltava alguma coisa no primeiro desenho, por isso fez outro, mais outro, uma porção deles, até se sentir satisfeito com o último deles.

Sim, era ela, perfeita em todos os detalhes. Com calma, ele desenhou o corpo da mulher, formando a sua figura exata.

— Olá! Sou Silas Pereira — disse ele, assim que terminou. — E você? Como se chama?

Não, não diga. Deixe-me imaginar. Você deve se chamar Maria... Não, é muito vulgar. Talvez Suzana, um nome agradável e...

Interrompeu-se, julgando-se um grande tolo. Desligou a luz e voltou a olhar para a janela.

A garota talvez estivesse jantando, por isso demorava a aparecer novamente. Subitamente, ela estava ali de novo, caminhando pela sala até a porta. Ela pareceu hesitar algum tempo antes de abri-la. O coração de Silas saltou repetidas vezes. Dois homens entravam no apartamento dela.

Com raiva e ciúme, Silas levantou-se e ficou olhando com atenção.

* * *

— Olá, meu bem, estamos de volta — disse Lelo, acariciando ameaçadora e dolorosamente o queixo de Edna, que virou o rosto para o lado, fazendo uma expressão de repulsa.

— O que querem? Vocês prometeram quarenta e oito horas — disse ela, trêmula e aterrorizada.

— Sim, sabemos disso — falou Daniel, passando por ela e percorrendo o apartamento, abrindo portas e examinando tudo.

Deteve-se à porta do quarto, olhando significativamente para a cama arrumada. Voltou o rosto para Edna. A garota percebeu aquele brilho de desejo e obscenidade, desviando o rosto.

— Sabe, viemos apenas avisá-la de que seu prazo está se esgotando — falou Lelo, sentando-se comodamente. — Sabemos que esteve com seu marido. Tem alguma novidade para nós?

— Não, João não quis me contar nada.

— Ora, não espera que acreditemos nisso, não é verdade?

— Eu juro, não há nada entre João e eu agora, ele simplesmente não se importa comigo.

Eu juro!

— Mas é uma pena, esse cara deve ser cego — disse Daniel, aproximando-se de Edna e estendendo a mão para tocá-la nos seios.

— Por favor, vão embora daqui! Não posso fazer nada. Por que não resolvem o assunto diretamente com João e me deixam em paz?

— Estamos tentando, mas seu marido é um cabeça-dura, dona. Talvez tenhamos que matá-lo até, sabia?

— Não me importo com isso — disse ela, fazendo um esforço.

João não merecia sua consideração, já que a havia abandonado nas mãos daqueles homens perigosos.

— Realmente? — retrucou Daniel, aproximando-se e agarrando-a pelo pulso. — Que casal estranho vocês foram.

— Vivo a minha vida, vamos nos divorciar...

— Ótimo, mas antes descubra onde está aquele dinheiro. Talvez até facilitemos as coisas para você, ao invés de uma divorciada você poderá ser uma viúva, uma bela viúva — frisou ele, segurando-a pelo queixo e imobilizando-a.

— Deixe a garota em paz, Daniel — pediu Lelo.

— Ora, Lelo, não é uma pena realmente... Tão sozinha, tão abandonada... Talvez ela esteja carente eu possa dar uma ajuda...

— Solte-me, por favor! — suplicou ela.

— Ouça bem, moça! Daniel é um sujeito impulsivo, quando se refere a mulheres. Na verdade, ele é meio animal, se é que me entende. Às vezes eu não posso controlá-lo, principalmente em momentos como este, com uma mulher bonita e gostosa como você. Agora, seja camarada e poupe-nos aborrecimentos. Por que não nos conta sobre o que conversou com seu marido?

— Eu já disse. Falei a ele sobre vocês, sobre o dinheiro. Ele se recusou a me contar.

Disse que o dinheiro é o futuro dele...

— Está mentindo — disse Daniel, apertando o queixo da garota.

— Não, juro — soluçou ela. — Por que eu iria mentir? Por que eu iria me importar com aquele desgraçado que me deixou na mão?

— Está bem, Daniel. Solte-a. Acho que ela fala a verdade.

— Ora, Lelo, deixe eu me divertir um pouco. Ela já está até gostando um pouco de mim?

Olha como ela me adora! — zombou.

— Por favor, solte-me! — suplicou ela.

— Está bem, temos muito tempo para nós dois, querida — concordou Daniel, empurrando-a para trás.

Edna massageou o queixo dolorido, lutando para conter as lágrimas. Estava desesperada, desejando sumir dali e estar em outra parte, onde tudo aquilo seria visto como um pesadelo terrível. No entanto, as presenças ameaçadoras de Lelo e Daniel eram reais demais para não serem levadas em conta.

— Você vai voltar lá amanhã, meu bem — falou Lelo.

— Não posso fazer isso, seria inútil...

— Você vai voltar lá — repetiu Lelo. — Vai pedir a ele que revele o esconderijo ou então algo desagradável vai acontecer.

— Sim, muito desagradável — emendou Daniel, sorrindo.

— Ele não vai me contar. Tenho certeza — afirmou ela.

— Estamos impacientes. Seu marido deve uma importância grande e pode pagar, se quiser. Se não o fizer, seremos obrigados a agir de outro modo, pode entender? Vamos matá-lo e pode ter certeza de que nós temos condições de fazê-lo.

— Pois façam isso, mas me deixem fora disso!

— Não podemos. Sabe demais. Se não tivermos o dinheiro ou pelo menos a indicação do local onde encontrá-lo, vocês dois morrerão. Ou você acha que vamos deixar você viva para contar a história?

— Não podem fazer isso — disse ela, ingenuamente.

— Ora, querida, não seja boba — falou Daniel.

— Por favor, não tenho nada com isso... Eu juro!

— Pelo contrário, tem muito a ver com isso. Acho que por hoje basta, Daniel. Vamos embora. Ela precisa pensar bastante, encontrar um modo de convencer João a nos entregar aquele dinheiro.

— Acha que ela fará isso?

— A vida dela depende disso — finalizou Lelo, saindo na frente.

As lágrimas desceram pelo rosto de Edna. Seu corpo abalou-se em soluços. Ela ficou encostada à porta, presa em seu desespero, sem saber que, do outro lado da rua, Silas Pereira a via chorar, sem entender o que estava se passando.

Capítulo 3

No dia seguinte, à tarde, Edna voltou à penitenciária e suplicou a João, mas este permaneceu inflexível. Estava determinado a não contar o esconderijo do dinheiro e nada o faria mudar de idéia.

— João, eles vão me matar e possivelmente matem você também. Eles têm gente deles aqui dentro! — disse ela.

— Eu temia isso no princípio, mas agora estou preparado. Recebi pressões e ameaças de homens ligados a Jorge Fonseca, o homem a quem devo dinheiro. Fiquei assustado no começo, mas depois descobri que podia formar uma quadrilha aqui dentro. Tenho meia dúzia de homens sob minhas ordens. É claro que tive de lhes fazer algumas promessas, acenar-lhes com uma parte do meu tesouro escondido. Assim, estou protegido. Só tenho que esperar.

— E quanto a mim, João? O que posso fazer?

— Procure a polícia, eles lhe darão proteção. É dever dela.

— Você sabe que isso é impossível. A polícia não vi ficar me protegendo o resto de minha vida. Onde estará a minha tranqüilidade? Minha segurança? Minha privacidade?

— Vamos deixar claro uma coisa, querida. Quando você esteve aqui ontem, eu tive alguma esperança de que sua visita fosse por algum outro motivo. Você me desencorajou logo no principio, por isso estamos quites. Você cuida de sua vida, eu cuido da minha.

— João, por favor, eu preciso que você entenda que...

O homem não a esperou terminar. Levantou-se, virou-lhe as costas e afastou-se. Edna sentiu um grande desânimo invadi-la. Não havia salvação. Estava perdida. Aqueles homens voltariam para cumprir a ameaça e ela não podia fazer nada, absolutamente nada. Ou podia?

Uma idéia lhe ocorreu. Os homens queriam dinheiro, Edna tinha algum, não era muito, mas talvez eles aceitassem. Sim, Edna poderia economizar um pouco a cada mês e ir pagando a dívida. Por que não pensara nisso antes?

Levantou-se e deixou a penitenciária com uma espécie de alívio dentro de si. Não tinha a obrigação de fazer aquilo, mas era a solução para ela. Pagaria pela sua tranqüilidade. Os homens teriam que aceitar. O dinheiro todo, mesmo que em parcelas, era melhor que dois cadáveres. Consultou o relógio. Ainda podia voltar à firma onde trabalhava para o final do expediente. Sentia-se livre, quase alegre.

* * *

— Edna, desculpe-me, mas esta é a segunda vez que você sai esta semana —

repreendeu-a a patroa.

— Sinto muito, Dona Berenice, mas foi preciso. Não voltará a acontecer, eu garanto. O

problema que eu tinha já foi resolvido.

— Assim espero, Edna. Você é uma de nossas melhores funcionárias, sempre a considerei muito, mas se todas as outras também fizerem isso, haveria o caos aqui dentro, não?

— Sim, sei disso, Dona Berenice. Pode ficar tranqüila.

— Ótimo que pense assim, Edna. Eu tenho planos para você.

— Bem, há algum tempo a senhora me ofereceu a gerência da seção de roupas femininas. Na oportunidade eu recusei, pois esperava adquirir um pouco mais de prática. Acho que posso fazê-lo agora.

— Bem, o cargo já foi ocupado, mas é bom que eu saiba dessa sua disposição. Tão logo surja outra oportunidade eu a avisarei. Mas por que mudou de idéia, logo agora?

— Bem, é que preciso ganhar um pouco mais...

— Precisa? Está com problemas financeiros?

— Sim, mas não se preocupe. Nada que eu não possa resolver.

— Espero que sim, querida. Fique preparada, talvez surja uma vaga mais depressa do que pode imaginar. Será sua, garanto!

— Estarei torcendo para que isso aconteça logo — disse Edna, disfarçando seu desapontamento.

Teria que apertar no orçamento, para fazer sobrar uma quantia razoável todo o mês. Se recebesse aquela promoção, as coisas seriam mais fáceis. Poderia saldar a dívida de João sem preocupações maiores.

* * *

Jorge Fonseca tinha um vício: jogar. Tinha também um hábito: ganhar sempre. E sempre que ganhava, tinha uma exigência: receber. Mesmo assim, permitia a entrada em seu carteado de todos que, como ele, tinham o mesmo vício, mas eram habituais perdedores. Jorge incentivava-os, dava-lhes crédito até um limite que ele estipulava. A partir daí, então, exigia o recebimento.

Quando tentavam enganá-lo, Daniel e Lelo eram postos em ação. Eram ambos eficientes e atendiam ao pé da letra as ordens recebidas. Jorge detestava ser enganado, por isso exigia o pagamento por todos os meios e, quando não o conseguia, não permitia que o devedor permanecesse vivo para se vangloriar do fato. Isso acontecia tanto nas dívidas de jogo quanto nas dívidas de drogas. As prostitutas sob seu controle também eram tratadas da mesma forma.

Recebiam roupa e comida, mas tinham de produzir.

Nos últimos dias, João Sansão era o espinho em sua carne, a pedra em seu sapato, um caso especial que merecia um tratamento especial para que ele, Jorge, não saísse desmoralizado. João tinha tudo nas mãos para escapar à cobrança, mas não poderia ficar impune. Se isso ocorresse, incentivaria outros perdedores como ele.

— E então, rapazes? — indagou ele aos dois homens de confiança, quando entraram em seu escritório.

— Está tudo sob controle, patrão — respondeu Daniel. — A moça voltou à penitenciária hoje. João, se for um sujeito esperto, deve ter facilitado as coisas e contado a ela o que desejamos saber.

— Já tomaram as providências se acontecer de João ter se recusado a ajudar a mulher?

Preciso fazer dele um exemplo!

— Sim, estivemos na penitenciaria hoje e transmitimos uma ordem a nossos homens lá dentro. Receberão um aviso amanhã, no caso de João ter se negado a pagar. Ele será punido, com certeza.

— Ótimo, ninguém deve ficar vivo para dizer que passou Jorge Fonseca para trás. E

quanto à garota?

— Bem, ela pode sofrer um acidente, cair da janela, por exemplo. Apesar de que ela nada teve a ver com o caso, mas se João for apagado, ela saberá que fomos nós — falou Lelo.

— Façamos um bom trabalho — disse Jorge, com satisfação.

Estava em seu carteado e passava ali quase todo o dia. A todo momento havia um jogador crente que poderia derrotá-lo. Mal sabia o pobre infeliz que estava apenas contribuindo para aumentar a lista dos que se tornavam praticamente escravos de Jorge. Uma loura escultural entrou na sala onde estava Jorge, caminhando com desenvoltura. Beijo-o nos lábios e se sentou sobre a escrivaninha, acendendo um cigarro, olhando-o com provocação.

— Está linda hoje, Lena, mas onde vai? — indagou Jorge.

— Já se esqueceu de sua promessa, meu querido Jorge?

— Caramba, mulher! Do que você está falando?

— A casa, Jorge! você me prometeu uma casa. Estou cansada de morar naquele horrível hotel, num quarto barulhento, no centro.

— Mas aquele hotel é o melhor da cidade. O que quer mais?

— Quero uma casa. Você me prometeu uma casa, lembra-se.

— Está bem, eu prometi e você terá a sua casa, se isto a faz feliz — disse ele, colocando a mão no joelho da garota e acariciando-o levemente, com uma expressão de desejo no rosto.

Daniel e Lelo entreolharam-se e saíram silenciosamente. Lena inclinou-se e beijou a testa de Jorge, que a enlaçou pela cintura, fazendo-a sentar-se em seu colo. Um beijo incendiário uniu seus lábios. As mãos dele subiram pela coxa da garota apertando e sentindo aquelas carnes quentes e macias.

— Você ficou todo sujo de batom, querido — disse ela, separando-se dele para procurar um lencinho na bolsa.

— Gosto de me sujar com seu batom — disse ele, evitando o lencinho e voltando a beijá-

la com desejo e luxúria.

Lena entregou-se àquele beijo, ao mesmo tempo em que roçava os seios no peito de Jorge e oscilava os quadris de um lado para outro, provocando uma grande excitação no homem que a tinha nos braços. Jorge sorriu, deliciado, contornando a curva dos ombros da garota com seus lábios.

— Por favor, Jorge. Levei uma hora para me arrumar.

— Não é uma pena — disse ele, beijando-a no pescoço.

Lena jogou a cabeça para trás e encolheu os ombros, arrepiada de prazer, fazendo seu jogo de sedução para excitá-lo.

— Mais tarde, querido. Agora tenho que ir mesmo.

— Onde vai? — indagou ele, sem soltá-la, beijando-lhe os seios e o pescoço com provocação e desejo.

— Quero sair e resolver logo esse negócio da casa.

— A casa, quase me esqueci dela — falou ele, conservando-a em seus braços. — Tenho uma porção de terrenos e...

— O que está pensando em fazer? — indagou ela, levantando-se e recompondo a roupa.

Jorge a olhou com frustração. Lena beijou-o de leve e esquivou-se, quando ele levantou os braços para agarrá-la de novo. Ambos riram, divertidos com o jogo de caça e caçador que costumavam fazer.

— E daí, o que está pensando em fazer com esses terrenos? — insistiu ela, decidida a resolver aquele assunto definitivamente.

— Deixe-me ver. Creio que tenho um amigo numa dessas firmas especializadas em projetos e construção. O endereço dele deve estar aqui — falou ele, folheando uma agenda de anotações. — Sim, isso mesmo. Vá este endereço, fale com esta pessoa. Ele a ajudará a resolver de uma vez por todas esse negócio da casa. Peça que façam uma planta e exija tudo que quiser nessa casa. Está bem assim?

— Posso fechar o negócio para a construção de uma casa?

— Deixe tudo que envolver dinheiro comigo. Vá lá, veja as opções, combine todos os detalhes, dê sugestões, enfim, peça que façam o projeto da casa dos seus sonhos. Está bem assim?

— Está perfeito, querido. Não sabe como isso me deixa feliz.

— Sim, claro, querida. Vivo para fazê-la feliz, você sabe disso.

— Sim, sim, meu rei, meu príncipe. Há algum limite de gasto?

— Não conheço limites, minha cara. Quero que você fique satisfeita, que tenha do bom e do melhor para ficar muito agradecida a mim e demonstrar toda a sua gratidão do jeito que sabe e que eu gosto. Estamos combinados?

— Obrigada, amor! — disse ela, beijando-o com ardor e esquecendo-se que estava arrumada e pronta para sair.

Precisava dar a Jorge uma amostra do que o esperava, após aquele presente tão esperado por ela. Afastou-se por instantes, olhando-o nos olhos. Jorge conhecia aquele olhar e um brilho de desejo percorreu seus olhos, observando o corpo escultural da loura.

— Você é tão bom para mim! — exclamou ele, esfregando seus lábios nos lábios mornos, carnudos e macios da garota.

— Então me agradeça, querida. Por favor! — suplicou ele.

Ela suspirou, agradecida e ansiosa, deixando-o apossar-se dela. Ganhar presentes como aquele faziam seu estômago retorcer de tesão. Todo o seu corpo ficava sensibilizado. Seus mamilos arrepiavam-se, esperando carícias. O hálito dele em suas orelhas arrepiava sua pele.

O coxa roçando suas partes íntimas davam-lhe um prazer enorme, aumentando aquele desejo que pedia alívio.

— Quero vê-la gozar! — disse ele, abrindo-lhe a blusa e abaixando-lhe o sutiã, olhando os seios dela, belos e agressivos, empinados e firmes, coroados por mamilos enrugados de paixão e desejo.

Lena sentia suas pernas bambas, enquanto ele mordiscava e beijava seus seios, ofegando de tanto prazer. Ela tirou-lhe o paletó, depois repuxou a camisa dele, tirando-a. Ele continuou beijando seus seios e devassando seu corpo sofregamente. Lentamente ela foi se acomodando entre as pernas dele. Os dedos de Jorge enroscaram-se no elástico da calcinha dela. Ele puxou lentamente para baixo, já de joelhos, desnudando-a. O perfume mais íntimo daquele corpo feminino enlouqueceu-o de tão delicioso.

— Como você é gostosa, Lena — rouquejou ele.

— Oh, Jorge! — ofegou ela, à beira de uma vertigem de prazer.

Ele iniciou uma carícia devastadora. A ponta de sua língua penetrou por entre as coxas mornas, indo à procura de seu ponto mais sensível, tocando-o como uma corrente elétrica.

Lena quase desmaiou de gozo, apertando-o contra seu corpo.

— Oh, Jorge! Que delícia! — gemeu ela, estremecendo.

— Oh, como adoro vê-la gemer assim! Aumenta meu prazer.

A língua dele continuou alucinando-a, em movimentos sutis que fizeram-na explodir de gozo ali mesmo, de pé, com ele ajoelhado a seus pés e brindando-a com aquela provocação extrema.

— Oh, Jorge, vamos amar! — pediu ela, quase sem fôlego.

— Sim, é o que mais quero — respondeu ele.

Lena esperou por ele. As mãos de Jorge subiram pelo seu corpo. Apertaram seus seios, beliscaram seus mamilos durinhos e sensíveis. Ela gemia de prazer, torcendo-se toda, gozando aquela delícia de tê-lo ali, apenas sentindo sua fome de amor.

— Não pare! Não pare! Não pare! — suplicou ela, estremecendo e gozando, com os olhos revirados e a boca seca.

— Não vou parar. Não vou parar, minha querida! — prometeu.

Lena perdeu a conta de quantas vezes vibrou ali, até que ele se levantou e ficou em pé, entre as suas pernas. Soltou o cinto. Abaixou o zíper da calça. Empurrou-a para baixo, junto com a sunga. Retirou os sapatos e as meias. Livrou-se de todas as roupas. Estava nu e cheio de paixão diante dela.

— Vem, meu rei! Você me deixou louca de paixão, sabia?

— E você me deixou louco, muito louco de desejo, querida — respondeu ele, excitado, empurrando-a para cima da escrivaninha.

Jorge deitou-se sobre ela, beijando-a alucinadamente, fazendo-a sentir sua virilidade. Ele moveu os quadris lentamente.

— Quero sentí-lo, Jorge! Quero prazer! — suplicou ela.

— Minha querida! — murmurou ele, descendo os lábios para o seu pescoço e dali para os seus seios.

Lambeu-os, apertando os biquinhos com os dedos. Uma das mãos desceu e foi tocá-la intimamente, amolecendo-a totalmente. Ela vibrou seguidamente. Jorge dedilhavam sua intimidade e a levava ao sétimo céu, fazendo Lena contorcer-se, gemendo de prazer.

— Quero brincar com você agora! — pediu ela, já fora de si, de tanto prazer, ansiosa para demonstrar sua gratidão.

— Sim, querida! Sim! — disse ele, à espera dela.

Jorge deitou-se na escrivaninha, oferecendo seu corpo para ela. Lena iniciou suas carícias, deixando-o à beira do orgasmo.

— Mais! — ele pedia, descontrolado, vibrando continuamente.

— Oh, Jorge, que loucura! Quero você agora! — pediu ela, quando aquele calor e aquelas sensações tornaram-se insuportáveis em seu corpo e ela se sentiu flutuando.

Acomodaram-se. Ela ficou por baixo. Ele começou a beijá-la a partir dos pés e foi subindo lentamente. Uma das mãos brincava em sua feminilidade, massageando-a intimamente.

Tremores contínuos abalavam seu corpo. Os beijos chegaram a seus seios e ao seu pescoço, concentrando-se, finalmente, em sua boca. Ela arfava e suspirava, quase sem ar, arrepiada e presa de uma sensibilidade enorme em toda a sua pele.

— Oh, Jorge, como você é gostoso! — murmurou, as mãos percorrendo o corpo másculo e viril que cobria o seu.

Ela o queria sentir logo.

— Venha, Jorge! Não suporto mais! Quero-o dentro de mim, amor! Venha! Agora!

Depressa! — suplicou.

— Sim, tesão! — disse ele, segurando-a pelo ombro e pelo quadril, fazendo-a girar o corpo.

Ela ficou de costas para ele. As mãos dele tocaram sua pele e desceram como um arrepio pela sua espinha, até suas nádegas arrebitadas. Dali cada uma delas tomou uma direção. Uma subiu até a sua nuca. A outra desceu por entre suas coxas. Ela se encolheu e estremeceu com o hálito dele em suas nádegas. Os dentes em sua pele fizeram-na estremecer de gozo. Sua língua provocou espasmos de prazer. Ela arrebitou ainda mais as nádegas.

Convulsões agitaram seu corpo novamente. Ele beijou paciente e provocantemente suas costas, até sua nuca. Ela estava entregue e trêmula. Espasmos subiam e desciam pela sua espinha, brotando de seu ventre em convulsão. Ela gemia e suspirava, quase sem forças.

Finalmente ele a virou, encaixando-se entre as suas pernas. Debruçou-se mais uma vez e beijou-a. Ela estremecia em espasmos contínuos de prazer.

— Você é demais! — rouquejou ele, acomodando-se.

Lena quase desmaiou de prazer e agarrou-o desesperadamente, puxando-se sobre ela, enquanto movia ritmadamente os quadris, buscando a penetração. Ele a beijou alucinadamente, enquanto ela guiava seu membro. Ele encontrou o caminho, depois foi se apossando do que ela lhe oferecia, vibrante e em delírio. Ele ficou dentro dela, sentindo as contrações rítmicas de sua intimidade. Lena sentia-o pulsar de paixão, fundido ao seu corpo, despertando a sensação de que um vulcão ameaçava explodir. Ela havia atingido um alto nível de excitação. Jorge a levara ao paraíso, pondo-a à beira do desmaio.

— Amor! — murmurou ele, trêmulo e entrecortado.

— Quero tudo de você! — suplicou ela, num fio de voz.

Ele a atendeu, começando a mover os quadris ritmadamente.

* * *

Naquela tarde, Silas voltou para casa um pouco mais tarde. Havia se demorado na firma, atendendo uma cliente. Era alguém importante, com gostos exóticos e caros. Até que chegassem ao esboço final, muita coisa teve de ser tirada ou acrescentada da idéia original.

Enquanto estava lá, no escritório ainda, Silas não podia tirar de seus pensamentos a mulher do prédio em frente.

Na noite anterior, vira dois homens com ela. Depois que eles se foram, ela havia chorado durante muito tempo, encostada à porta. O rapaz torturou-se durante toda a noite, tentando compreender o que houvera lá. Por isso, assim que chegou, correu à janela. Ela estava lá. As janelas do apartamento estavam todas abertas e ela parecia cantar, enquanto se movia de um lado para outro.

Possivelmente já se banhara, o que em parte deixou-o frustrado. No entanto, vê-la causava nele uma alegria indefinível, como se estivesse preso a ela por laços ainda desconhecidos. Havia feito planos, muitos planos naquele dia. Pretendia tirar um dia de folga no escritório apenas para segui-la e descobrir onde ela trabalhava, onde almoçava e com quem falava. Sabendo coisas sobre ela, seria fácil para ele se aproximar, apresentar-se, conhecê-la de perto, tocá-la.

Sorriu, baixando o binóculo. Como se apresentaria a ela?

— Olá, sou Silas Pereira. Eu a vejo sempre de minha janela, através do binóculo — disse ele, em voz alta.

Refletiu por alguns instantes, depois começou a rir. Estava claro que não poderia se apresentar daquela maneira. Seria uma idiotice. Levantou o binóculo no exato momento em que a mulher abria a porta e deixava entrar os dois homens da noite anterior. Quem seriam eles? O que desejariam?

* * *

— Desejamos uma resposta, querida. É bom que ela seja agradável para nós, ou vai se dar mal, muito mal — disse Daniel, entrando primeiro e seguido por Lelo, que a olhou ameaçadoramente.

— Por favor, sentem-se! — disse ela, tentando aparentar calma, com uma leve ansiedade no tom de voz.

Daniel e Lelo entreolharam-se, satisfeitos. Aquele tratamento inesperadamente gentil só podia indicar uma coisa: a garota descobrira o esconderijo do dinheiro e tudo estava resolvido.

— Sentem-se, por favor! — insistiu ela.

— Pelo que vejo, você tem novidades para nós, não? João se convenceu, afinal, que... —

ia dizendo Lelo.

— Não, João não me revelou o esconderijo do dinheiro, mas penso que tenho uma forma de resolvermos a questão.

— Verdade? Mas se não tem o dinheiro, como...

— Eu pagarei a dívida do João.

— Bom, se é assim, está tudo bem, dona — sorriu Daniel, já que ele e Daniel recebiam uma parte do dinheiro das cobranças e vinte e cinco mil reais recebidos significavam uma boa gorjeta.

— É claro que não poderei pagar tudo de uma vez...

— Nós compreendemos isso — apressou-se em dizer Lelo, com educação. — Deixava de ser um cobrador para ser um negociador.

— Estou certa de que aceitarão o pagamento em parcelas...

— De quanto? — quis ele saber, na defensiva.

— Digamos de uns duzentos reais no início. Mais tarde, poderei aumentar isso para até uns quinhentos por mês.

Daniel e Lelo entreolharam-se e depois começara a rir. Um riso debochado que deixou Edna confusa.

— O que há de engraçado nisso? Vocês terão todo o dinheiro, até o último centavo...

— Você é ingênua, garota! Quinhentos reais não pagam nem os juros semanais de vinte e cinco mil.

— Mesmo assim, é vantagem para vocês. É melhor que nada...

— Não conhece Jorge Fonseca. Ele acharia isso a maior piada do mundo. O que diriam as outras pessoas se soubessem que ele aceitou um pagamento desta maneira? Ficaria desmoralizado! — explicou Lelo, parando de rir e tornando-se sério e ameaçador.

— Então preciso de outra chance. Quem sabe se em dessem mais tempo, eu poderia conseguir mais dinheiro. Tenho algumas jóias, não são caras, mas renderão algum dinheiro.

— Você não entende mesmo, garota — disse Daniel, levantando-se e caminhando para ela.

— Mas o que há para entender?

— Seu marido nos deve dinheiro, muito dinheiro. Ele se vangloriaria o resto de sua vida se sua dívida fosse paga dessa maneira. Entenda, é um mau devedor que pode dar um mau exemplo aos outros devedores. Temos que evitar isso, é nossa função, pode entender agora?

É péssimo para os negócios — explicou Lelo.

— Sim, creio que sim, mas eu estou fazendo o que posso.

— Não é o bastante. Creio que isso encerra nosso negocio, garota. Meu amigo vai sair e nos deixar a sós. Seja boazinha comigo e eu verei o que posso fazer por você — disse Daniel, tentando abraçá-la, mas Edna desviou o corpo e correu para a porta.

Daniel alcançou-a e puxou-a pelos cabelos, jogando-a sobre Lelo, que a segurou pelos pulsos, dizendo:

— Não adianta, meu bem. Temos que agir assim.

Edna debateu-se, tentando libertar-se. Daniel segurou-a, enquanto Lelo levantava-se e caminhava para a porta.

— Divirta-se, Daniel! — disse ele, saindo tranqüilamente.

Daniel soltou-a e foi trancar a porta. Quando se voltou, havia desejo em seu olhar. Um desejo violento que a assustou ainda mais.

— Por favor, deixe-me em paz. Não faça isso, eu dou um jeito...

Daniel, surdo aos apelos da garota, aproximou-se dela. Edna correu à janela e tentou gritar, mas o homem o subjugou, tapando-lhe a boca com violência.

— Não grite, vai piorar as coisas. Apenas seja boazinha.

Edna, desesperada, mordeu-lhe a mão e correu trancar-se em seu quarto. Daniel caminhou até a porta sem nenhuma pressa. Tinha a noite toda pela frente e aquele jogo apenas excitava-o ainda mais.

— Abra a porta, moça! Não adianta resistir, eu a mataria antes que conseguisse pedir ajuda.

— Por favor, vá embora! Deixe-me em paz!

— Minha paciência está no fim. Não vou esperar a noite toda.

— Por favor — suplicou ela, soluçando em desespero.

Um pontapé violento de Daniel abriu a porta. Edna encolheu-se atemorizada de encontro à parede. O homem caminhou até ela. Sua mão, grande e pesada, pousou sobre o ombro da jovem, numa carícia dolorosa. Edna tentou passar por ele. Daniel a reteve, segurando-a pela blusa e puxando. O tecido ficou em sua mão, enquanto Edna tropeçava e caía, totalmente à mercê de seu agressor.

Uma parte de sua blusa e do sutiã haviam sido rasgados. Seus seios pequenos e duros ficaram expostos, aumentando a excitação da Daniel. Ele se abaixou sobre ela, pondo a mão no joelho da garota e acariciando. Edna desferiu um pontapé que Daniel aparou, segurando-lhe o tornozelo. A saia da garota deslizou para baixo, deixando à mostra sua finíssima calcinha. Os sentidos de Daniel excitaram-se ao extremo com a visão daquela delicada feminilidade.

Ele a agarrou pelo pulso e a levantou, abraçando-a com impaciência e beijando-lhe o pescoço e os ombros. Edna debateu-se. Daniel apertou-lhe os seios e beijou-lhe o rosto. A garota, em desespero, começou a gritar. Daniel esbofeteou-a com violência, atirando-a sobre a cama, inconsciente. Só então o homem reparou na persiana aberta. Com a mesma tranqüilidade de antes, foi fechá-la, com um último cuidado. Depois se voltou e olhou longamente o corpo inerte sobre a cama, detendo-se em cada detalhe excitante.

Aquele era um serviço sujo e difícil, mas tinha as suas compensações. Ele se sentou na cama, ao lado do corpo da jovem. Estendeu a mão e alisou as coxas sedosas, cobertas por uma penugem suave, que refletia delicadamente a luz do aposento. Depois avançou a mão enorme e pesada, que cobriu totalmente um dos seios empinados de Edna. Ele apertou o biquinho delicado entre seus dedos grossos. Ela gemeu de dor, encolhendo-se na cama. Daniel sorriu. Aquela seria uma noite inesquecível, não tinha dúvidas quanto a isso.

Capítulo 4

Silas parou em frente à porta, indeciso. Ao assistir a cena de seu apartamento, resolvera intervir. A mulher estava sendo agredida. Um misto de ciúme e ódio guiou suas ações. Antes de deixar seu apartamento, contara os andares e as janelas para que pudesse encontrar o apartamento certo. Parado agora em frente à porta, não sabia se estava no local certo, nem o que deveria fazer. Seu impulso natural foi apertar a campainha, insistentemente.

Havia silêncio dentro do apartamento. Silas insistiu, pressionando o botão da campainha e batendo na porta ao mesmo tempo. Ouviu o ruído da fechadura e ficou preparado. Um rosto de mulher, marcado pelo sofrimento, surgiu à porta.

— O que deseja? — indagou ela, contendo o medo.

— Bem... Eu... é que... — gaguejou ele, extasiado diante da beleza frágil que havia naquele rosto, apesar de assustado.

Não havia dúvida de que estava diante da mulher que via através do binóculo.

— Eu... Eu... Por favor, ajude-me! — disse ela, repentinamente, mais desabando do que atirando-se nos braços dele.

Silas acolheu-a, sentindo-a trêmula contra seu em corpo. Uma sensação de indescritível prazer tomou conta do rapaz. Ele afagou os cabelos dela, apertando-a contra o corpo. Daniel surgiu na porta, apontando-lhe uma arma, com ares de poucos amigos.

— Ei, rapaz! Dê o fora! — disse ele, entredentes, colocando a mão sobre o ombro de Edna e puxando-a para dentro.

O roupão que Daniel a obrigara a pôr sobre o corpo deslizou um pouco. Silas viu, horrorizado, marcas nos ombros da moça. Edna, ao sentir-se puxada, agarrou-se ao rapaz com todas as suas forças,

— Por favor, ajude-me! — suplicou, em desespero.

— Dê o fora! — ordenou novamente Daniel, puxando Edna com violência, ao mesmo tempo em que levantava a arma à altura dos olhos de Silas.

O rapaz estremeceu, assustado. Edna, porém, ao ver a arma apontada para ele, saltou sobre o braço de Daniel, puxando-o para baixo. Impulsivamente, Silas reagiu. Atracou-se com Daniel e ambos rolaram para dentro do apartamento. O marginal era mais forte e logo se pôs em pé, começando a chutar o corpo do rapaz e, depois, a socar selvagemente o rosto de Silas.

Este tentou se defender, mas era quase impossível. Daniel batia impiedosamente. Edna, vendo a cena, apanhou o telefone e golpeou com toda suas forças a cabeça de Daniel, que cambaleou, surpreso e atordoado. Silas investiu contra ele, jogando sua cabeça contra o estômago do grandalhão.

Daniel gemeu e bateu contra a parede, escorregando lentamente para baixo, desacordado. Silas agarrou o pulso de Edna e puxou-a atrás de si, enquanto disparava pelo corredor do prédio, na direção do elevador. Quando este se abriu, Lelo surgiu, olhando surpreso para Edna.

— Onde pensa que vai, garota — disse ele, erguendo a mão para agarrá-la.

Silas atirou seu punho com todas as forças no rosto de Lelo, jogando-o dentro do elevador. O rapaz apertou o botão do último andar e saiu rapidamente, puxando Edna consigo.

Enquanto o elevador subia levando Lelo, Silas e Edna desceram correndo pelas escadas.

— Para onde está me levando? — indagou ela, sem fôlego.

Silas não respondeu. Apenas a fez correr até o outro lado da rua, felizmente deserta àquela hora. O rapaz apenas parou, quando estavam ambos em seu apartamento, esbaforidos.

Ficaram olhando um para o outro, respirando com dificuldade, igualmente assustados.

Sem dizer nada, o rapaz foi até a cozinha e voltou com duas latas de cerveja. Ofereceu uma à garota e ajudou-a sentar-se numa das poltronas.

— Obrigada! — disse ela, após um gole da bebida gelada.

— Não fiz muito, mas acho que ajudei, não? — disse ele, só então percebendo o quanto tremia, depois da loucura cometida.

— E como! Chegou na hora exata. Está bem? Seu rosto está inchado... Ele chutou você...

Tem certeza que ele não o machucou?

— Sim, eu estou bem. Nunca pensei que fosse capaz de fazer uma coisa dessas, mas eu fiz. Caramba! E foi gostoso!

Edna olhou-o surpresa, depois olhou a janela da sala. Levantou-se e foi até lá. Pôde ver as luzes acesas em seu apartamento, bem como o binóculo de Silas sobre a poltrona.

— Como soube que eu precisava de ajuda?

Silas apontou para o binóculo.

— Ah, percebo! Você é uma espécie de tarado, daqueles que ficam sondando as mulheres nos apartamentos?

— Não, de jeito nenhum. Eu estava olhando você. Desde o dia em que a vi na janela. E

aqueles homens, o que eles queriam?

— É uma longa historia. Nem vale a pena contar para você.

— Gostaria de ouvi-la, já que arrisquei minha pele por você.

— Não, por favor, não me obrigue a contá-la. Você não sabe em que encrenca pode ter se metido, ao me ajudar hoje.

— Está bem, não precisa falar se não quiser. Quanto à encrenca, não sei a que você se refere, mas isso não me assusta.

Edna olhou-o por algum tempo, depois passou as mãos pelos cabelos num gesto de desespero e perturbação.

— Oh, meu Deus! O que vou fazer agora? — disse ela.

Silas levantou-se e aproximou-se dela, sem saber o que fazer.

— É tão grave assim? — indagou ele, lembrando-se, com um arrepio de emoção, os momentos em que a tivera junto ao corpo.

— Pior do que imagina — disse ela, indo sentar-se, perturbada com a proximidade dele e com a forma com que ele a olhava.

Silas a viu caminhar pela sala e sentar-se. Depois fixou seus olhos naquele rosto delicado e lindo, sentindo um imenso prazer em saber que ela estava ali, apesar de todos os riscos e problemas que isso poderia representar em sua vida.

— Posso explicar-lhe sobre o binóculo — falou ele.

— Não é preciso. Seja o que for, você me salvou. Sei que estou lhe causando um enorme aborrecimento, mas assim que me recuperar eu vou embora. Não posso ficar aqui. Se eles me encontrarem...

— Para onde vai? Tem para onde ir?

Edna levantou os olhos para ele. Havia uma interrogação patética naqueles olhos amendoados e grandes. Isso causou pena em Silas, que sentiu um desejo enorme de protegê-

la, abraçando-a e apertando-a contra si, transmitindo-lhe força e calor.

— Que situação! — exclamou ela, olhando para si mesma e recompondo o roupão sobre o corpo.

— Olhe, não precisa se incomodar... Pode ficar aqui, se não tem para onde ir. Moro sozinho e o apartamento é grande

A garota o olhou com surpresa, depois com certo temor. Acabava de sair de uma armadilha e possivelmente poderia estar caindo em outra. Foi o que pensou, mas não via outra alternativa. Silas, pelo menos, parecia mais amigável e confiável do que os outros.

— Não, obrigada! Não tenho esse direito.

— Vai voltar para lá? — indagou ele, apontando para o outro lado da rua, na direção do prédio onde ela morava.

— Tudo que tenho está lá. Não posso deixar isso para trás.

— E aqueles homens também podem estar lá.

O rosto da garota cobriu-se de sombras. Ela ficou preocupada e pensativa, com os olhos fitos no prédio, através da janela.

— Por favor, aceite minha ajuda — pediu ele.

— Não, não devo... Tenho medo de comprometê-lo ainda mais.

— Por favor! Não quero que nada lhe aconteça. Vou me sentir culpado se deixar que eles lhe façam mal. Aqui estará protegida. Eu preciso muito que você fique aqui! — pediu ele, quase numa súplica.

— Como disse? — indagou ela, olhando-o com surpresa.

— Bem... Eles podem estar lá, à sua espera. Creio que são homens da pior espécie, podem lhe fazer mal, podem até matá-la como você disse que eles iam fazer. Tem que ficar aqui.

— E você se preocupa comigo? Nem sabe quem sou?

— Sim, eu me preocupo com você — respondeu ele, enfático.

— Por quê? Eu não entendo!

Silas olhou-a com a resposta na ponta da língua, mas interrompeu-se no último instante.

Como poderia dizer àquela mulher que estava fascinado por ela? Que a espionava à distância com seu binóculo? Que a desejava? Que a vira nua e que ficara encantado com seus seios, ansioso para senti-los em suas mãos? Que deseja protegê-la porque ela pedia isso no seu olhar carente e assustado?

— Como foi se envolver com tipos como aqueles? — indagou ele deixando a pergunta da garota sem resposta.

Edna entornou a lata de cerveja, fazendo uma careta. Depois passou as mãos pelos cabelos, indecisa. Olhou-o com aflição.

— Preciso de ajuda... — disse ela, num fio de voz. — Preciso mesmo de ajuda... Você nem imagina como eu preciso de ajuda.

— Isso já deu para perceber. Meu nome é Silas...

— O meu é Edna...

— Edna, ora, quem diria? Eu nunca poderia imaginar...

— Como disse? — indagou ela, sem entender.

— Não ligue, apenas pensei em voz alta. E então, Edna, vai falar sobre eles? Ou talvez deseje comer alguma coisa antes...

Edna estava indecisa. Silas puxou-a pelo braço.

— Venha. Tenho alguma coisa na geladeira. Vamos nos servir — convidou ele, levando-a para a cozinha.

Enquanto ele aplicava gelo nos hematomas do rosto, ela preparou sanduíches. Entre eles brotou espontaneamente uma afinidade agradável, natural, como se um tivesse esperado pelo outro toda a sua vida. Silas sentia-se bem ao lado dela. Era como um sonho, para ele. Edna estava segura e tranqüila, como se todos os seus problemas tivessem ficado no outro lado da rua, em seu apartamento.

Sentaram-se à mesa. Edna contou-lhe a história toda, não se esquecendo de nenhum detalhe. Ao final, Silas olhava-a surpreso e, em parte, decepcionado. A mulher de seus sonhos, aquela que tanto o obcecara, era casada. E o pior de tudo, com um presidiário. Isso pareceu tirar todo o encanto daquela mulher que ele, praticamente, divinizara, desde o primeiro momento em que vira naquela janela.

— Parece preocupado com alguma coisa — observou Edna.

— Não, não estou. Acho que é o cansaço, trabalhei bastante hoje. Depois me meti naquela briga. Estou um pouco dolorido.

— Oh, desculpe-me. É verdade. E eu aqui aborrecendo-o...

— Por favor, não diga isso. Fico contente em poder ajudá-la. Você também deve estar cansada. Tenho um quarto sobrando. Por que não se deita e descansa? Amanhã conversaremos melhor.

Edna olhou-o com gratidão. Quase nada sabia daquele homem que ajudara, mas devia muito a ele e tencionava pagar de algum modo. Não sabia como, mas estava certa de que o faria.

* * *

Jorge Fonseca adorava, particularmente, aquele sorriso de gratidão no rosto de Lena.

Principalmente em momentos como aquele, quando ela se esmerava em agradá-lo.

— Estou contente que tenha chegado ao projeto do seu agrado, querida — disse ele, debruçando sobre a mesa, contemplando-a servir duas taças de vinho branco.

— Oh, querido! Deu tanto trabalho, mas valeu a pena. O seu amigo disse que telefonaria para você...

— Já o fez, está tudo acertado. Ele vai visitar os meus terrenos e ver qual é o melhor para o projeto. Depois é só iniciar a construção.

Lena fechou os olhos, sonhadora, e caminhou para ele. Sorveu um gole de vinho e depois uniu seus lábios aos de Jorge, deixando a bebida deslizar para os lábios dele. Jorge sorveu-a com visível satisfação. Suas mãos procuraram as coxas da mulher, subindo até pararem sobre suas nádegas. Lena separou-se dele por um instante.

— Querido, não pode sair agora? Tenho tanto a agradecer...

— Claro, querida — concordou ele, segurando-a pelo braço.

Deixaram o cassino clandestino. No carro, a garota falou:

— Temos que ir para aquele horrível hotel?

— Tenho exatamente o que você quer — disse ele, pousando a mão no joelho da garota, enquanto dirigia.

Jorge dirigiu o carro pela cidade, até a periferia da cidade, parando em frente de um grande portão. Um vigia aproximou-se com uma lanterna na mão e, ao perceber quem era, correu abrir o portão.

— Onde estamos? — indagou Lena, surpresa.

— Estou comprando isso aqui.

— Mas é o velho Clube de Campo!

— Sim, vou transformá-lo num clube privado, coisa de luxo, apenas para pessoas importantes. Espero ganhar muito dinheiro com isso. Vai ser uma espécie de spa rural, mas, na verdade, um cassino só para gente de posse.

O carro manobrou por alamedas até parar em frente a uma grande construção aparentando sinais de abandono. Jorge desceu e foi abrir a porta para que a garota descesse.

— Vamos entrar aí? — indagou ela, receosa.

— Sim, por que não? — retrucou ele, enlaçando-a pela cintura.

Lena tinha outros planos para aquela noite, por isso levantou a cabeça e fez seus lábios roçarem de leve os de Jorge. O homem a atraiu para si, beijando-a com sofreguidão. Havia uma promessa velada naquele beijo, algo como uma surpresa que fez com que Lena caminhasse, a seguir, submissa ao lado dele.

Jorge retirou uma chave de seu bolso e abriu a porta principal. Penetraram por um amplo salão, com móveis cobertos com grandes panos brancos. Ele a conduziu por uma escada até o andar superior. Passaram por um corredor, até chegarem a uma sala ampla, com móveis igualmente cobertos. Jorge acendeu a luz.

— O que é aqui? — surpreendeu-se ela.

— Uma espécie de sala de repouso para quem sai da sauna — disse ele, descobrindo um dos móveis.

Era um pequeno divã, em estilo romano, muito confortável e convidativo. Jorge sentou-se e estendeu o braço para ela. Lena caminhou devagar, compreendendo as intenções dele.

Estavam a sós, deliciosamente a sós.

— Deixo a luz acesa? — indagou ela.

— Gosto de amá-la assim, você sabe — disse ele, puxando-a para perto de si.

Seus lábios se esmagaram com impaciência. O corpo de Jorge pesou sobre a dela, enquanto sua boca a beijava pelo rosto, ombros, buscando os seios. Lena o apertou contra si, sentindo-se tomada de uma forte excitação. Seus gestos se tornaram impacientes, ansiosos até que seus braços ansiosamente buscaram entrar em contato com a pele dele. Jorge acariciou os seios dela, por sobre o tecido, com gestos apaixonados. Lena suspirou, cravando suas unhas nas costas dele. Ele a abraçou e seus dedos impacientes buscaram o fecho do vestido. Lena encolheu os ombros para que ele a despisse. Depois, com gestos experientes, desnudou-o. Seus corpos se encontraram, finalmente, pele contra pele, abrasando-se no mesmo calor.

Uma braço significativo os uniu, quando suas peles se tocaram, eletrizadas. Seus corpos estremeceram de desejo, enquanto seus lábios se buscavam apaixonados. Jorge esfregou seu corpo ao dela, sentindo vontade de mordê-la, apertá-la, sugá-la, para desabafar toda aquela excitação que se acumulava dentro dele, a cada carícia que dedicava àquele corpo escultural.

Nada, porém, parecia satisfazê-lo. Ele acariciou os seios da garota, sugou-os, mordeu-os, deixou sua língua passear pelo corpo dela, detendo-se em cada curva, em cada ponto sensível, insaciável. Lena, excitada, retribuiu da melhor maneira cada carícia. Seus corpos suavam, excitados ao extremo. Jorge suspirou de prazer ao sentir-se manipulado por ela. Suas mãos, em retribuição, correram impacientes pelo corpo da garota, ora subindo pelos seios, ora percorrendo o ventre palpitante, ora deslizando pelas coxas sedutoras.

Seus corpos atingiram o ponto irreversível do amor. Lena acomodou o corpo, flexionando os joelhos para cima e para o lado. Jorge acomodou seu corpo sobre o dela, uma estocada rápida e depois um abraço prolongado e cheio de paixão. Os quadris dele se moveram rapidamente, criando uma agitação no ventre da garota que a levou ao paroxismo do prazer.

Seu corpo se abalou em demoradas convulsões, enquanto ela movia os quadris igualmente e o acariciava incessantemente. Uma confusão de sensações atingiu seus corpos. Suas respirações eram irregulares, gemidos e suspiros escapavam de suas gargantas, enquanto tudo dentro deles parecia se romper numa sensação final e prolongada de êxtase.

— Feliz? — indagou ele, algum tempo depois.

— Foi uma deliciosa surpresa — respondeu ela.

— Vamos. Eu a deixo no hotel. Preciso voltar ao cassino. Há muito trabalho lá esta noite.

— Vai se demorar novamente?

— Procurarei chegar mais cedo.

— Ainda não o agradeci totalmente — disse ela, sugestiva. — você me deu a casa dos meus sonhos. Quero ser a mulher dos seus sonhos, para retribuir tudo que tem feito por mim.

— Haverá tempo para isso, querida — sorriu ele, beijando-a.

Vestiram-se sem pressa. Depois, enroscados um no outro, deixaram o local. Jorge estava satisfeito. Seus negócios escusos prosperavam. Centralizava a distribuição de droga e controlava as prostitutas que circulavam pelas avenidas ou faziam ponto nas casas de show.

Além disso, tinha seu carteado, uma espécie de tiro-ao-alvo particular, onde caçava patos perdedores. Além disso, tinha uma mulher espetacular para satisfazer seus desejos e caprichos. Não uma mulher qualquer, mas uma mulher que despertava atenção e era admirada por onde passava. Havia pequenos riscos em tudo isso, mas estava perfeitamente sob controle. Sabia como se conduzir naquele fio de navalha que era o submundo.

Capítulo 5

Jorge Fonseca entrou no recinto onde funcionavas o carteado com a satisfação estampada no rosto. Estacou surpreso, porém, ao perceber, parados à porta que conduzia ao escritório, Daniel e Lelo, com as caras mais amarradas do mundo. O chefão passou por eles, fazendo um gesto com a cabeça e ordenando-lhes que o seguissem.

— O que houve? — ele quis saber, assim que se acomodou em sua poltrona, respirando fundo para ouvir as más notícias.

— Bem, houve um contratempo, patrão — começou Lelo.

— Que tipo de contratempo? — insistiu Jorge, secamente.

— Fomos ao apartamento da garota. Ela nos veio com uma proposta estúpida. Queria pagar o dinheiro em prestações, coisa de quem não entende nada dos nossos negócios.

— E daí? Fala logo o que aconteceu!

— Recusamos a proposta. Daniel ficou para cuidar dela. Um sujeito apareceu e... Bem, a garota escapou de nossas mãos.

— O quê? — indagou Jorge, surpreso.

Aquela era primeira vez que os dois homens voltavam de uma missão com aquele tipo de resposta. Jorge fulminou-os com os olhos. Não admitia falhas de espécie alguma.

— Sabem o que isso pode significar? Se aquela garota for à policia, estarei seriamente comprometido e vou gastar muito com advogados de novo. E eu detesto gastar dinheiro com advogados.

— Ela não irá — garantiu Daniel.

— Como pode ter certeza? Me diz? Como?

— Se essa fosse a intenção dela, teria ido logo após a nossa primeira visita. Não o fez.

Acho que está assustada e com medo das conseqüências. E está com medo mesmo, pois veio com essa proposta besta para livrar o pescoço, pobrezinha.

— Temos que achá-la imediatamente e acabar com ela. Penso que, na época da prisão de João, foram publicadas fotografias de sua esposa nos jornais. Vejam isso, consigam fotos dela e esparramem pela cidade. Só estarei tranqüilo quando a pegarem.

— Sim, patrão, nós conseguiremos isso, não se preocupe — apressou-se em dizer Lelo.

— Ela está no papo!

— Como se isso fosse verdade — reclamou Jorge, acendendo um cigarro nervosamente e sentindo que haviam estragado sua noite.

— E quanto a João Sansão? — quis saber Daniel.

— Falem com o nosso pessoal. João Sansão tem que morrer imediatamente. Não quero bancar o idiota.

— Certo, patrão — responderam os dois homens saindo.

* * *

A cela de João Sansão ficava no lado direito do corredor. Ele a dividia com mais um prisioneiro, seu amigo e protetor, um lutador de luta-livre forte e abrutalhado. Nas celas ao lado da sua, havia homens de sua confiança, homens que haviam prometido protegê-lo contra as ameaças recebidas, desde que ele, após resgatar o dinheiro do assalto, pagasse-os por isso.

Essa era uma dívida sagrada. Por esse motivo, sentia-se protegido, livre das ameaças de Jorge Fonseca. Devia-lhe dinheiro, mas sairia impune. Havia planejado tudo.

Tão logo fosse libertado, o que poderia acontecer antes do tempo, caso tivesse um bom comportamento, iria buscar o dinheiro. Sua intenção era a de, com o dinheiro do assalto, sair do país e viver como um rei em algum país vizinho. Não lhe causava nenhuma espécie de remorso ter entregue Edna à sanha dos homens de Jorge. A mulher havia muito deixara de representar algo para ele, embora uma ligação com o exterior fizesse-lhe falta.

Naquela madrugada, João Sansão dormia placidamente. Quando o guarda que fazia a ronda de hora em hora passou e deteve-se na cela ao lado da sua, João Sansão nem poderia imaginar o que ele falava com um dos prisioneiros. Uma ligeira movimentação aconteceu na cela ao lado da sua. Um dos prisioneiros, após falar com o guarda, foi até a parede que dividia as celas e bateu compassadamente com o punho fechado.

— O que está havendo, José? — indagou João, despertando.

— Não é nada, estão apenas brincando do outro lado — respondeu o capanga, levantando-se e caminhando pela cela.

João acomodou-se novamente para dormir. O brutamontes que havia se levantado foi até a pia e lavou cuidadosamente as mãos. Depois, voltou para seu canto e apanhou o travesseiro.

Podia divisar o vulto de João, já quase adormecido. Caminhou para ele e, dominando-o, apertou o travesseiro contra o rosto de João, segurando com força, asfixiando-o.

* * *

O dia seguinte foi de uma expectativa total para Silas Pereira. Quando saíra de seu apartamento, naquela manhã, deixara Edna adormecida. Antes de sair, havia ido até a porta do quarto. Ela não a havia trancado, por isso Silas abriu-a e ficou durante algum tempo observando seu corpo adormecido. Havia feito calor naquela noite. Edna usara apenas suas peças íntimas, já que não pudera trazer nenhuma outra roupa. Silas pôde admirar sem pressa toda a perfeição daquele corpo que ele já conhecia.

Vê-la ali, adormecida e desprotegida, fez brotar em seu coração toda aquela admiração que pensou perdida na noite anterior. Não lhe importava mais se Edna era ou não casada, se pedira ou não a separação. Importava-lhe apenas que ela estava ali, que ele poderia conservá-

la ali por muito tempo, tendo-a ao seu alcance e podendo conquistá-la com o tempo.

Havia deixado um bilhete a Edna rogando-lhe que não deixasse o apartamento até que ele voltasse e, ao mesmo tempo, indicando onde estava tudo que ela poderia precisar durante o dia. À tarde, assim que deixou o escritório, passou por uma loja de roupas e comprou algumas peças para a jovem. Teve alguma dificuldade quanto aos números, mas valeu-se de sua memória e da ajuda da vendedora para resolver isso. O corpo de Edna estava vivo em sua mente. Era só calcular as medidas.

Como sempre fazia, passou também por uma banca de jornais e comprou a edição da tarde. Deixou-a sobre o assento do carro e apenas reparou na manchete quando estacionou o carro na garagem de seu edifício. Apanhou o jornal e, quando ia descer do carro, viu a foto e o nome de João Sansão. Segundo a informação publicada, o presidiário morrera de uma parada cardíaca.

Silas ficou assustado. Era muita coincidência, já que Edna lhe contara sobre a ameaça feita por aqueles dois homens que a atacaram na noite anterior. Apanhou o jornal e as roupas que comprara para a garota e foi para os eu apartamento. Desejou que ela não tivesse ido embora, quando introduziu a chave na fechadura.

— Olá! — disse Edna, parada no centro da sala.

— Olá! — respondeu ele, sorrindo para ela.

Edna estava encantadora, apesar de vestir roupas do rapaz.

— Espero que não se importe — disse ela. — Não tinha outra coisa para vestir.

— Pensei nisso, por isso lhe trouxe isso — disse ele, entregando o pacote para ela.

— Para mim? Que surpresa agradável!

— Sim, sabia que precisaria.

— Não precisava ter se incomodado — disse ela, abrindo os pacotes e examinando as roupas. — Como acertou meu número?

— Um palpite — sorriu em resposta o rapaz.

— Vou vesti-las agora mesmo — disse ela, indo para o quarto.

Silas tirou o paletó e atirou-o sobre o sofá. Foi para a cozinha. A mesa estava servida. Ela garota preparara o jantar. Silas provou um dos pratos, apreciando a comida. Apanhou uma lata de cerveja e voltou para a sala. Quando a porta do quarto se abriu e Edna surgiu dentro de um conjunto azul que realçava toda a sua beleza, Silas ficou extasiado. Levantou-se lentamente, olhando-a. Teve de conter o impulso de correr para ela, abraçá-la e beijá-la.

— Que tal estou? Ficou bom em mim? — indagou ela.

— Simplesmente linda! — confessou ele, extasiado.

— Obrigada! Eu o pagarei, assim que normalizar minha vida.

— Oh, não! Não se preocupe, por favor. É um presente.