Algumas lendas e alguns monumentos do arquipélago da Madeira por Visconde do Porto da Cruz - Versão HTML

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ALGUMAS LENDAS E ALGUNS

MONUMENTOS DO ARQUIPÉLAGO

DA MADEIRA

Desde a descoberta do Arquipélago da Madeira, na madrugada do século XV, até ao século XVI afluíram aquelas formosas ilhas povoadores de nacionalidades e origens diversas que transportavam consigo as ideias e costumes medievais dos seus Países.

Também os Mouros, aprisionados na Costa de Marrocos, se tornaram um importante elemento na população que, perdendo lentamente o seu aspecto heterogéneo dominada e nacionalizada pela influência dos elementos portugueses, entre os quais se destaca a Companhia de Jesus, aparece ao fim com um cunho próprio, um carácter a um tempo portugueses e extremamente original.

Findas as horas incertas e aventurosas da guerra nascem os dias felizes da Paz.

A rudeza dos costumes e aos impulsos brutais que vincadamente marcam a meia-idade, sucedem-se as etiquetas, os galanteios e os requebros fidalgos.

Assim também na literatura - que e sempre o reflexo da alma de uma época -

da poesia narrativa, adstrita aos tempos bélicos, se passa à poesia discursiva, cheia de argúcias, de criticas, ou repassada de erotismos. . .

A vida palaciana e o fulcro de onde emana esta verdadeira transformação o social e intelectual. As camadas inferiores da população, sempre afeitas ao tradicionalismo, não vêem com bons olhos estas evoluções que lhes levam o seu viver de séculos, alterando-lhes os hábitos e pretendendo ate arrancar-lhes as vibrações da sua alma que em versos e canções se expande... Desta arte, suplantada na vida palaciana a poesia narrativa pela poesia discursiva, ela vai refugiar-se no meio popular onde, até agora, mais ou menos alterada ou inovada, tem vivido com seus foros de poesia tradicional.

Ora esta alma, arreigada às glórias, às tradições e aos costumes da Raça Lusitana, é a que, na mor parte, passa ao Arquipélago da Madeira e que, fundindo-se com as correntes estrangeiras, nos dá esse sabor típico, característico dos Insulanos...

A poesia de reminiscências medievais dos Povoadores, juntam-se o figurado e a melopeia dos contos e lenga-lengas - lingui-lingui - árabes.

Quando a Espanha estende o seu domínio a Portugal, por morte do Cardeal-Rei D. Henrique, começam a afluir à Madeira novas ondas de Povoadores Castelhanos que levam, com seus hábitos, as velhas romansas.

Mais tarde, ainda, novas fornadas de colonizadores vêem de países longínquos, chamados pelo desenvolvimento comercial e industrial = indústria sacarina e venda de preciosas madeiras de construção = e com eles fixam-se no lindo rincão novas correntes que, tal como se dera com as anteriores, a pouco e pouco vão sendo assimiladas. Todos estes elementos que constituíram o núcleo de população e da vida da Madeira foram também a fonte da riqueza e variedade de l endas e contos, como da poesia narrativa, tradicionais no Arquipélago.

Com os costumes medievais que tão entranhadamente se infiltraram nas lindas ilhas e que, a despeito das inovações, e das tentativas insistentes e criminosas de desnacionalização, ainda perduram, de um modo particular se afincaram os processos de - agricultura, as danças = ballhos e meia-volta, com reminiscências árabes - os contos fantasiosos e lendas interessantes que procuraremos reviver...

Afeitos ao lidar das terras e ao comércio com outros povos, os Madeirenses tomaram um cunho positivista e a um tempo empreendedor. As suas preocupações não os deixaram inclinar-se para a Arte nem pare os feitos aguerridos. A paz do Lar e a posse de grandes haveres têm sido, desde o começo, o seu pensamento dominante.

Assim se concebe facilmente a sobriedade de seus solares, a falta de ostentosos monumentos e de grandes Palácios.

Passadas as fainas do dia, olhando a imensidade do oceano que os cerca e que, no horizonte distante, se confunde numa só linha com o azul do firmamento, os Madeirenses sentiram a necessidade de uma paz espiritual e dai vem a religiosidade e a calma que os caracteriza. E a fé cristã que lhes vem desde sempre, revigorada pelo espírito das descobertas e das conquistas, tem-se mantido firme naquelas paragens.

Originais no seu viver e nos seus costumes, originais são os seus cantares, as suas lendas e tradições...

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A LENDA DE COLOMBO

A Praia do Porto Santo é de todas quantas até hoje eu tenho visto, por esse mundo além, a mais bela e a mais convidativa, para os meses de estio.

Nem Biarritz, nem Ostende, nem Brighton conseguem suplanta-la, nos seus predicados naturais.

Durante muitos anos, durante séculos, a praia do Porto Santo, com seus fulvos areais, contrastando com o negro das areias da Madeira, permaneceu ignorada, ou votada ao desprezo, já pela dificuldade de comunicação, já porque sendo uma prenda nacional não despertava interesse. Quando se desencadeou a fúria tremenda da guerra europeia e os submersíveis audaciosos da Alemanha impossibilitaram ou dificultaram perigosa e implacavelmente a navegação aliada, os Madeirenses, que habitualmente veraneavam no Continente ou no estrangeiro, viram-se reduzidos à Praia do Porto Santo. E tantos atractivos lhe encontraram que desde então não mais a desampararam na época estival. Essa praia lindíssima, que numa extensão de mais de uma légua corre num suave declive, foi aquela onde, por certo, aproaram as naus de Zarco e, onde primeiro tremulou a bandeira branca com a rubra Cruz de Cristo, que acompanhou aos portugueses nas suas empresas audaciosas de além-mar.

No espírito um tanto supersticioso dos Insulanos, sempre apto para aceitar ou, para dar vida a estranhas lendas, afincou-se desde h á muito a convicção de que Cristóvão Colombo, nas noites luarentas, vem passear sua saudade anceada, vagueando sobre essas areias de ouro, parando de quando em vez e, sombreando com a mão o olhar, fica-se a interrogar o horizonte que se alonga e se confunde na imensidade do céu... E deslizando sobre as ondas remansosas que num

Murmúrio dolente se espreguiçam, curvando-se aqui e acolá, como que para colher uma semente ou um pedaço de madeira arrastados na corrente desde Continentes longínquos, a sombra do descobridor do Novo Mundo vai-se afastando, levada pela brisa, sempre inquirindo, sempre analisando os despojos que o mar lhe trás... E quando o dia desperta, a sombra do Navegador dilui-se nos primeiros alvores

Depois da descoberta do Arquipélago da Madeira, é positivo que Cristóvão Colombo passou aquelas Ilhas e, tendo casado com a filha do 1.º Donatário 3

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do Porto Santo, encantado com as

belezas naturais daquelas paragens, por

lá se deixou ficar por largo tempo.

Quando aportavam ao Funchal os

grandes navegadores, logo Colombo os

procurava e, bebendo suas narrativas das

rotas feitas, cuidadosamente anotava no

seu mapa as novas descobertas ou os

segredos desvendados para os lados sul

do Atlântico.

Foi, por ventura, nessa vida remansosa

que o grande Navegador concebeu a

ideia que o nosso Planeta possuísse uma

forma esférica e sonhou a descoberta da

Índia pelos Mares Ocidentais...

A Casa onde viveu Cristóvão Colombo no Funchal

No Funchal, próximo da Sé, entre as velhas ruas do Sabão e do

Esmeraldo, levantava-se outrora uma vivenda apalaçada com belo estilo arquitectónico, onde o gótico e a renascença marcavam

vincadamente.

Era a célebre casa de Jean de Esmenault, fidalgo que Picardia viera com os Povoadores para a Madeira e de quem descende a família dos Esmeraldos que à minha anda ligada à muito por estreitos laços de sangue e de amizade. Foi nesse solar que parece ter vivido o Descobridor da América durante a sua permanência na Ilha da Madeira.

As ruínas desse histórico padrão, em vez de serem conservadas como documento precioso, já pelo valor da tradição, já para a gloria que representavam, e ainda pelo interesse comercial que, sob o ponto de vista do turismo, pudessem e deviam ter, em 1878 eram arrasadas porque o espírito renovador da época não admitia aqueles muros estro peados nem via neles a preciosidade que os olhos do Artista e do Historiador vêem, estimam e enaltecern...

De todo esse edifício, que deveria ter sido conservado com um verdadeiro culto, como uma relíquia inestimável, apenas uma janela gótica existe, em poder, creio, do senhor Conselheiro Ayres de Ornelas.

Tudo o mais se perdeu... Tudo devastaram e arrasaram, para remoçar e embelezar a cidade! No Porto Santo a habitação de Colombo teve igual sorte...

Aos governantes do século passado cabe esta afronta a Historia, a Arte, a gloria dos nossos Maiores... E assim, de Cristóvão Colombo que viveu, que pensou e 4

idealizou naquelas Ilhas lindas, a ignorância ou a inconsequência dos homens só até hoje procurou apagar

todos os seus tragos... Com quanto orgulho, com quanto carinho não guardariam outros povos, relíquias de menor valor, para as mostrarem aos viandantes ou às gerações vindouras!? O que não fariam para exploração comercial, para reclame regional? E nós tudo reduzimos a pó... Apenas a lenda vive, de geração em geração, na Alma simples mas Patriota do Povo, que na sua ignorância e no desprezo a que em regra é votado, sabe guardar com mais amor, e mais zelo o que aos espíritos cultos, aos Grandes, aos que têm o dever da compreensão das responsabilidades das situações, cumpria zelar...

A CIDADE ENCANTADA

De entre as narrativas que uma Criada dos tempos do Bisavô me repetia em criança e que eu mais tarde ouvi, com detalhes e pormenores interessantes, da boca do Povo, a lenda da Cidade Encantada foi aquela que mais me impressionou e seduziu...

Quando a boa Velhinha, satisfazendo a minha curiosidade infantil, descrevia as ruas amplas e bem lançadas, ladeadas por palácios magníficos, com seus Templos majestosos, com a sua vida agitada de grande fulcro de civilização, lá nos abismos do oceano, eu ficava, cismando, com o coração confrangido e, quanta vez, na minha

ingenuidade, pedia sinceramente a Deus para que permitisse que numa dessas noites de S João, quando dizem que a cidade submergida sobe à flor da água e os sinos dos seus Templos clamam na voz forte dos bronzes, e em todos esses seus Palácios esplendorosos lampejam fogos de mil cores e sobem aos ares preces e louvores, não mais volvesse para as profundezas do Atlântico a cidade um dia, nos séculos que se perderam no rolar dos tempos, desaparecida com esse Continente que, dizem, dos mares da Madeira se estendia a terras distantes...

E ficava a cismar na vida da Cidade Encantada no fundo do mar, há séculos e séculos e no lendário Continente que ora as aguas cobrem...

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A LENDA DE ARGUIM

É voz corrente, entre a gente do Povo, no Arquipélago da Madeira, que dos lados do Porto Santo, em certas tardes, quando o sol desce para o ocaso, aparece no horizonte uma Ilha envolta em brumas, onde o Rei Desejado dorme desde a jornada lutuosa de Alcácer - Quibir o seu sono de encantamento, até que uma Alma-Forte consiga abordar aquelas paragens...

E a credulidade popular é tão sincera e espontânea que todos os anos, na noite de São João, quando o Povo desce do arraial, vai ao mar «ver a sua sombra» ou ouvir os clamores distantes da Cidade Encantada , perdidos entre o marulhar das ondas, é vulgar soarem as trovas regionais invocando o Rei Dom Sebastião e pedindo-lhe que deixe o seu

encantamento de Arguim para vir à terra que lhe serviu de berço e para o Povo que tanto o amou... Arguim era um castelo na costa Africana onde já tremulou a bandeira dos Reis de Portugal. Quando em 1550 a Diocese da Madeira foi apeada da imponência do seu pedestal de Sé Metropolitana, os Prelados ficaram usando apenas o título de Bispos da Madeira, Porto Santo, Desertas e Arguim.

Como o velho Castelo Africano deu o seu nome a essa Ilha Misteriosa que vive na lenda e que de geração em geração vai correndo entre o Povo Madeirense, não sei bem precisar... O Sebastianismo , durante os primeiros anos que se seguiram ao desastre de Alcácer-Quibir, foi bem uma fé uma crença no regresso do Heróico Rei que pelo engrandecimento de Portugal deu o seu sangue a beber aos areais Africanos. Porém, desde que o tempo tornou materialmente impossível a hipótese do cativeiro do Monarca e do seu regresso à Pátria, o Sebastianismo passou a sintetizar uma vontade e uma esperança imorredoras, acalentadas e avolumadas dia a dia na Alma Popular que vivia sonhando o ressurgimento nacional e a emancipação de Castela. Foi abraçando este critério que o celebre Jesuíta e insigne orador que foi o Padre António Vieira e Dom João de Castro evidenciaram o seu sebastianismo . Na preparação de atmosfera para o 1.º de Dezembro de 1640, o Encoberto, o espírito sebastianista que os Patriotas agitavam, não tinha outro fito que levar o Povo para os dias da liberdade e a Nação para um porvir honroso e cheio de gloria... Hoje mesmo, pelos nossos campos, ainda há quem espere o milagre do desencantamento do Rei Desejado... E esta esperança que a Alma simples do Povo concretiza, revestindo-a com lendas e fantasiosas descritivas, é o motivo dessa lenda de Arguim que no Arquipélago Madeirense ainda hoje tem voga... Resumidamente, essa e outras lendas, nascidas em volta do Sebastianismo, não significam mais, que o grande amor de todo um Povo a uma Pátria que todos nós desejamos ver grande e redimida...

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A ESPADA DE D. SEBASTIÃO

Dobrando, para o norte, a Ponta de S. Lourenço, que é um dos extremos da Ilha da Madeira na sua maior extensão, a costa abre-se em grandes enseadas onde o mar repousa um pouco da sua luta incessante contra os rochedos impassíveis... Ao fundo da mais ampla das enseadas, ao abrigo de um rochedo imenso, que de súbito se levanta do mar e se interna pela terra, fica o pequeno povoado do Porto da Cruz. Apertada pelos rochedos de negra lava petrificada pouca expansão tem conseguido ter a vila. Mas os campos que a cercam são talvez os mais ricos e mais belos de toda a Ilha. As serras que coroam os cimos dos montes altíssimos estão revestidas de frondosas árvores centenárias e pelos abismos despenham-se espumantes caudais de água límpida que, depois, descendo pelos vales verdejantes vão precipitar-se no mar...

Foi nesse delicioso encanto que os meus antepassados, da minha família materna, se vincularam à terra, onde formaram grande e poderoso Morgadio. No Porto da Cruz, nesse lindo e velho Solar do Lombo dos Leais, passei os melhores anos da minha infância, dos quais me não posso recordar sem uma saudade toa"o funda que mal a sei exprimir...

Fronteiro ao «Lombo dos Leais» avoluma-se o dorso gigantesco de um Titan de pedra e lava a quem chamam a Penha de Águia. Olhando dos lados do Faial, a Penha de águia apresenta uma encosta acessível, muito verde e mesmo fértil... Mas sobre o Porto da Cruz é árida, a prumo, rasgando-se em grandes cavernas onde nunca entrou um ente humano e que ao romper do dia ou ao anoitecer lembram grandes olhos negros e sombrios dos monstros das lendas que detiveram durante tantos tempos a audácia dos navegadores e a expansão da Europa... Sobre o mar, onde a rocha corta verticalmente, numa só linha, como se engenhos de homens assim a talhassem, destaca-se uma elevação, que serviu de motivo à fantasia popular para criar a lenda de que a espada de El-Rei Dom Sebastião ali está enterrada... E o bom Povo lastima-se de não poder subir ao cabeço magico e, tomando pelos copos a Espada encantada, arranca-la da rocha, e trazer com o Rei Desejado o bem e engrandecimento desta Pátria...

E a Penha de Águia , a quem muitos chamam Pena de Águia, na sua corpulência de Titan, guarda a graça mimosa de uma lenda patriótica que traduz bem a esperança e a fé imorredoras que vincadamente marcam a Raça Luza...

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«AS ALMAS» DO LOMBO DOS LEAIS...

Cerca de uma légua distante da vila do Porto da Cruz, em plena serra, entre arvoredos centenários e grandes moles de negras cantarias, alvejam as paredes do velho Solar dos Leais. É uma espaçosa casa antiga, correndo em dois andares, com as janelas pequenas e estreitas abrindo para o nascente.

Do lado da Estrada Real, para quem sobe da vila ou desce da serra, o Solar oferece a monotonia das suas muralhas, que se rasgam apenas para o grande portão da entrada.

Dizem que os meus antepassados propositadamente assim fizeram construir aquele ninho adorável, para melhor garantirem a defesa, no caso de assalto dos corsários ingleses, franceses ou mouros que frequentemente levavam a cabo suas proezas, as mais das vezes castigadas severamente, na linda Ilha...

A Quinta do Lombo dos Leais é das mais antigas da Ilha da Madeira, e, sem dúvida, das mais aprazíveis, já pela sua situação privilegiada, em plena serrania, numa altitude considerável, já pela riqueza das terras que a cercam, já pelo remansoso isolamento em que se encontra.

Os olhos perdem-se extasiados por muitos léguas de serras lindíssimas incrustadas de vilarejos, ou na distância imensa do horizonte onde o anil do mar se confunde com o azul do céu.

Afirmam uns que a fundação daquele Solar do Lombo dos Leais vem dos tempos dos Reis da segunda dinastia, D. Afonso V ou mesmo D. Duarte, e outros que, apenas, do Reinado do Cardeal Dom Henrique. Em documentos que consultei tive ensejo de verificar que a sua fundação se deu por 1613, o que já dá um certo ar venerável aqueles possantes muralhas, amassadas com argila e areia.

Quando o Povo do Porto da Cruz iniciou os trabalhos de edificação da Igreja Paroquial, os Senhores do Lombo dos Leais tomaram à sua conta a construção da Capela do Santíssimo, que forma o braço direito da Cruz Latina que o Templo apresenta.

Nessa capela do Santíssimo Sacramento dormem em Deus antepassados, da minha Raça, que foram bons cristãos e leais servidores da sua Pátria e dos seus Reis...

Segundo rezam as tradições, num rigoroso Inverno aconteceu findar-se no Solar um dos seus Senhores. E como a água do céu não parava, como apostada em impedir de todo que levassem para o mausoléu da Família o velho Fidalgo, em vista da decomposição adiantada do cadáver, foi mister 8

sepulta-lo na Capela de são João Nepomuceno, mesmo junta a outra casa dos Leais, a poucos minutos da Quinta do Lombo e mais conhecida pela

«Casa da Capela».

Na rocha sobre que assentam os alicerces desta velha habitação e deste minúsculo Santuário, fazem as corujas seus ninhos e em grandes bandos passam seu viver de noctívagas.

E poisando, nos arvoredos ou nos telhados, soltam seus gritos sinistros que por vezes se assemelham a uma suplica plangente... O Povo, porém, apegado as superstições, afirma que é a Alma do Fidalgo que dorme o sono eterno na Capela solarenga, que se ergue a passear por seus domínios a matar saudades ou a chorar, censurando aquele isolamento a que na morte o votaram, arredando-o das Cinzas dos que na morte o antecederam, e, lá em baixo, dormem na Igreja Paroquial, com esse mar de Safira a salmodiar-lhes orações... E da case da Capela, meio derrocada pelos séculos, nem vivalma se abeira desde que o sol se some no poente... Um receio supersticioso empolga aquelas Almas simples de Camponeses que se benzem orando quando os gritos das aves nocturnas enchem aquelas vales...

A SÉ

A Catedral Manuelina, que marca o coração da Cidade, e dos raros monumentos que o Funchal possui.

A sua história é simples, se bem que a vida lnsulana por essas naves se tem feito repercutir, quer nos hinos de glorificação, quer nas preces angustiosas...

Lançados os alicerces no ano de N. S. Jesus Cristo de 1493 e levando a construção demasiado tempo, por não serem suficientes os rendimentos provindos dos impostos de vinhos e do fisco, ai por volta de 1503, mandou o Senhor Rei Dom Manuel, o Venturoso, uma caravela, propositadamente com 40 Reais em prata, para o seu acabamento. Treze anos mais tarde o Bispo Dom Duarte sagrava o Templo.

Nos primeiros tempos foi o Bispado do Funchal dos mais poderosos, pois que estendia a sua jurisdição a todos os nossos domínios de além-mar... Em 1539 foi a diocese elevada a Sé metropolitana, com superintendência nos Bispados de Angola, Cabo Verde, São Tome e Goa...

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Em 155o voltou a modéstia de simples Bispado do Arquipélago da Madeira, como ainda hoje se mantém. Tem o Templo três naves, em cruz latina, e dez arcos de cantaria, altíssimos e donairosos, sustentam a grandiosidade preciosa do tecto de cedro dos tempos da descoberta, onde os relevos e os mil encantos de motivos árabes, prendem as vistas dos que sabem ver e apreciar as verdadeiras obras de Arte.

Outrora a Sé do Funchal possuiu grandes riquezas e preciosas alfaias. Levou-as, na mor parte, a pilhagem dos Corsários ingleses, franceses e mouros, que por épocas diversas assaltaram a Madeira... Salvaram-se os quadros magníficos que, em especial os estrangeiros, vão admirar à sacristia...

É bem para lastimar que a ignorância ou o indiferentismo e o mau gosto tivessem praticado o crime de lesa Arte de cobrirem as soberbas colunas, de negras cantarias cuidadosamente buriladas, com uma pintura a óleo imitando os laivos raiados do mármore...

E a velha Catedral, toda caiada, como que trazendo afivelada uma mascara, mantêm ainda o vigor dos tempos idos, abrindo o peito para receber as expango6es santificadas das Almas crentes...

A torre, altíssima, soberba na sua elegância incomparável, revestida de antigos e valiosos azulejos, encimada por um caprichoso «cata-vento», de ferro trabalhado, que assenta sobre uma esfera armilar, não chegou até agora a mão devastadora dos sacrílegos...

E com os seus relógios de mármore e a voz de bronze, forte e harmoniosa, ela vai contando as gentes as horas que vão vivendo.

O CONVENTO DAS MERCÊS

Quando, após uns anos vividos no Estrangeiro, eu voltei à Ilha da Madeira, impressionou-me fortemente não ter já encontrado o secular Convento de Nossa Senhora das Mercês, mais conhecido pelo Convento das Capuchinhas.

Desde a minha infância eu habituei-me a ouvir a voz alegre do sino da torre das Capuchinhas, ao romper do dia ou ao entardecer, chamando as Monjas para os ofícios divinos.

E das janelas daquele grande casarão de meus avós abertas sobre o jardim tão cheio de rosas, tão profusamente florido e aprazível, quanta vez eu distraía o tédio que me traziam as lições, que tinha de decorar, contemplando com a ternura com que se olha uma velha amiga, aquela 10

Torre donairosa, revestida de azulejos em xadrez, azuis e brancos, dominando aquelas muralhas denegridas, onde se rasgavam pequenas janelas, defendidas por fortes gradeamentos de ferro, onde jamais alguém viu assomar uma das voluntárias enclausuradas! Menino ainda, lembra-me vagamente que me levavam ao Mosteiro e me faziam sentar na roda do palratório, que girava no seu eixo pesado e que, do outro lado, me recebiam com amizade e com mimos umas senhoras, muito alegres, muito risonhas, vestidas com amplas túnicas escuras, um toucado na cabeça, os pés muito brancos, descalços, dentro das sandálias! E eu, naquele Claustro tão florido, tão fresco, tão cheio de uma doce paz, andava de braço em braço, apropriando-se as Freiras em me amimarem. Davam-me bolos deliciosos e depois metiam-me de novo na roda e eu voltava para junto da Família.

Recordações saudosas de tempos felizes que, infelizmente, já não voltam, nunca mais! Fundado em volta de 1668 por D. Isabel de Franga, o Convento de Nossa Senhora das Mercês mereceu sempre uma particular estima e protecção dos meus Avoengos. Ao transporem os umbrais do Convento, as Monjas despediam-se de todas as pompas, de todas as vaidades e riquezas do mundo e faziam voto de pobreza. De esmolas viviam, orando pelos pecadores, humilhando-se aos olhos dos homens e prostrando-se aos pés do Cristo pediam a paz, o bem-estar e a harmonia para a mísera humanidade.

Chegada a época das colheitas era certo ver se no Porto da Cruz uma velha criada do meu Bisavô e que era tida como pessoa de Família, azafamada na medição dos moios de trigo que ofereciam para as Capuchinhas... Outras casas ricas ofertavam outros géneros e assim, em pobreza, da Caridade, viviam as Monjas.

Era à missa das Capuchinhas, às 7 da manhã, que eu ia aos Domingos e dias Santificados, e na modéstia daquela Capelinha, tanta vez os olhos presos naquele quadro, da Virgem esmagando a Serpente, que enchia o tecto do Tempo, eu orava com uma devoção tão forte, tão sincera e pedia a Deus os tempos de ventura e de tranquilidade que nesses dias de infância não apreciava e até hoje não tornei a ter! Ao Ofertório as Freiras entoavam umas lastimosas preces com acornpanhamento de um rabecão com que meu Bisavô presenteara o Convento. Contaram-me sempre que esse velhíssimo instrumento viera de Inglaterra, e que tinha uns adornos em prata, que tiveram de arrancar porque o rigor da Regra não permitia que metais preciosos andassem ao serviço da Comunidade... Na Cerca do Mosteiro as Religiosas sepultavam as que iam falecendo. Entre essas sepulturas floridas tinha celebridade a campa de Madre Brites que diziam «ter morrido com cheiro de Santidade». Sobre o coval da veneranda Monja deixavam vasos ou bilhas com água a que atribuíam poder milagroso para certos males.

Quando em 1910 foram definitivamente extintas e expulsas as Ordens Religiosas, o Convento das Capuchinhas ficou deserto e aquele si ninho alegre, que desde menino me orientava o dia, emudeceu... Tempo depois começaram os trabalhos de demolição do Mosteiro, para ai erigirem o edifício em cimento 11

armado, creio, com florões de mau gosto e sem a menor sombra de estética, que eu vim encontrar ao regressar do Estrangeiro... Durante alguns meses a elegante e velha torre do Convento ficou isolada e respeitada como um padrão, como uma relíquia. Mas cedo a fúria devastadora reviveu e as picaretas dos bárbaros investiram contra a desditosa... O comodismo moderno arrasara aquela reminiscência que nos falava do passado...

Arrasaram os muros da cerca para alargarem a rua, arrasaram as sepulturas das monjas para darem expansão ao novo edifício... As ossadas de Madre Brites, lá foram para o túmulo da Família Ornelas e Vasconcelos de onde a Freira provinha... Foi-se aquele tecto de madeira pintada, com o quadro a óleo da Virgem fulminando

Satanás que a tentava. Perderam-se tantas preciosidades que confrange o coração lembrar! A Imagem, em ponto natural, da Virgem Dolorosa escapou ao ciclone devastador e é junto da Mãe de Deus que ainda hoje ao orar recordamos o templo e o Mosteiro das Mercês...

A CAPELA DAS ALMAS

Contam que, nos tempos da colonização, dois amigos, cansados da falta de bulício, gastavam as noites pelos solares e casas ricas entretendo as horas no jogo de azar. Sucedeu que um desses amigos ganhou ao outro todos os seus haveres. O desprotegido da sorte, não se conformando com a miséria que o jogo lhe cavará, resolveu assassinar o companheiro para o roubar. Para isso passou a espera-lo num sítio, então ermo, onde a rocha se abria numa furna.

Mas Sucedeu que, ao ouvir aproximarem-se os passos da vítima e ao preparar-se para levar o crime a efeito, via o outro rodeado de gente que em ar de guarda o acompanhava. Ao fim de se repetir este caso por muitas noites, reparou o criminoso que todas aquelas pessoas caminhavam sem tocarem o solo. Então entrou o remorso no seu coração e se foi ao outro e lhe confessou o seu mau intento.

-- Foram as Santas Almas que me salvaram a vida e vos salvaram a alma...

Todas as noites, antes de adormecer, rezo a Deus pelos que morreram e não te em quem por eles pesa.

Então combinaram naquela anfractuosidade do rochedo, construírem uma Capelinha às Santas Almas onde ardesse dia e noite a lâmpada de azeite...

Rolaram os anos e a Capelinha das Almas ainda subsiste naquele ângulo da Travessa das Capuchinhas, em frente dos muros que outrora se ergueram a rodear a cerca das Mercês...

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De geração em geração o voto tem sido cumprido. E hoje o culto mantém-se no minúsculo santuário, que é uma modesta mas preciosa relíquia que o meu parente e nosso consocio Dr. Carlos de Meireles da Silva Carvalho, guarda com infinito carinho, herdado de seus maiores...

O BRONZE DA NECROPOLE

Foi logo ao amanhecer do dia 3 de Dezembro de 1918 que um submarino alemão, num rasgo de audácia inconcebível, torpedeou três embarcações aliadas que, despreocupadamente ancoradas na baia do Funchal, se julgavam bem a seguro de qualquer surpresa. Após os primeiros instantes de assombro e de pavor, tendo voado pelos ares, em estilhaços, a canhoneira francesa «Surprise» atingida pelo torpedo no paiol da pólvora, e quando os dois barcos ingleses sossobraram feridos de morte, a artilharia de terra abriu fogo sobre o audacioso submersível, que de pronto se fazia ao largo e vomitava metralha sobre a cidade durante mais de duas horas.

Desde então, no terceiro dia do mês de Dezembro, têm comemorado o aniversário duma data lutuosa para a história da Madeira. No alto da Colina das Angustias, ao entrar a cidade dos Mortos, vai o Povo em romagem até à beira de um monumento que se fica lembrando aos vindouros essas horas amarguradas, que Francisco Franco - o grande Escultor que orgulha a Madeira de lhe ter sido berço, - soube cinzelar, deixando-lhe bem impressa a vibração da Sua Alma, que recolheu a grandiosidade do martírio dos que sossegavam e da dor dos que regaram com prantos a sua perda...

Num pedestal de mármore, submergindo-se nas vagas encapeladas, um vulto possante de homem, numa ansiedade suprema, ergue ao céu, como que a implorar a derradeira protecção, os braços fortes e musculosos... E no crispado das mãos e na angústia imensa que se lê nas faces rugosas, o Artista descreveu no bronze imortal, toda a alma daquele momento trágico.

No desespero do Pescador, que se afunda, há o desespero de uma Raça, vai o protesto de uma Alma que vibra, que brame, e o espírito forte que faz falar os mármores e os bronzes com voz roquinha, que se há-de prolongar no eco dos séculos...

Numa das faces do quadrilato que forma o pedestal, em letras de bronze, os versos de Jaime Câmara rezam, no «Suave Responso» a eloquência do gesto amplamente angustioso do busto do Pescador... No Poeta, como no Escultor, ergue-se altiva e dominante essa Alma Portuguesa que não conhece perigos, 13

nem dores, nem temores... Três de Dezembro! O tempo vai rolando sobre essa data lutuosa... Dizem que o Tempo corre para apagar as recordações...

Mas enquanto esse Bronze majestoso e esses versos sal morosos não vergarem sob a destruição dos séculos, a lembrança dessas horas de lágrimas e de sangue, de luto e de desespero, prevalecerá através das gerações que saibam guardar as virtudes, o sabor, o sentir e o heróico estoicismo da Raça Lusitana.

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