Álibi perfeito por L P Baçan - Versão HTML

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Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

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ÁLIBI PERFEITO

Meu nome é Uther Walker e não costumo ser simpático. Pouca gente gosta de mim. E entre elas não incluo minha secretária. Pearl me odeia e, se pudesse, me mataria. Só não o faz porque, até hoje, nos cinco anos em que ela trabalha para mim, nunca atrasei um dia o seu pagamento.

Não faço questão de ser agradável com as pessoas. Aliás, sou o que as pessoas chamam de misantropo que é nada mais nada menos que o sujeito que tem aversão à convivência com outras pessoas.

Em resumo é isso. Pessoas são sanguessugas. Ninguém se aproxima de você e lhe diz:

— Puxa, hoje eu estou feliz, muito feliz. Tão feliz que sinto vontade de contar. Você conhece aquela música " a snow cloud in the sky"? Vamos cantá-la juntos?

Isso ninguém faz. Quando é para dividir felicidade ou alegria, as pessoas são egoístas.

Quer vê-las se tornarem amáveis e sequiosas de partilhar suas coisas com os outros? É

quando estão infelizes ou com problemas.

— Puxa, você bem que podia me ajudar a isso...

Ou por causa daquilo... É sempre a mesma história. Só são solidários na infelicidade ou no sofrimento.

Por isso sou do jeito que sou e quem me quiser assim, tudo bem. Quem não gostar, que se dane. Não estou nesta terra para tornar a vida dos outros mais amena.

No fundo, reconheço que sou um sujeito desagradável. Bebo além da conta, fumo demais, de vez em quando jogo pôquer, sou exigente com as mulheres que saem comigo, tão exigente que há uns seis meses venho saindo com uma só.

Seu nome é Venice Lytton e tem uma grande virtude. Ouve mais do que fala. Assim, quando exagero na bebida, ela fica me olhando com atenção, ouvindo tudo que eu falo, sempre concordando com tudo. É uma mulher fantástica e um verdadeiro achado.

Na realidade, é a mulher com quem fiquei mais tempo nesses quase quarenta anos de vida que já levo no lombo. No máximo que elas me aturam é um ou dois encontros. Um se eu beber muito; dois se eu deixar para beber no segundo.

Esse é um caso a parte. Quando bebo, viro o diabo. Meu médico me disse que eu tenho uma rara e estranha susceptibilidade ao álcool. Ele falou um monte de palavras bonitas e complicadas para resumir depois que:

— Uther, resumindo, quando você bebe você fica louco.

— Mas isso eu sei, doutor.

— Se sabe, por que bebe?

— Porque gosto... Queria apenas um remédio ou alguma coisa que não me deixasse agir assim, depois de beber...

— Não existe!

— Diabos! Depois dizem que a medicina está muito avançada — falei eu e nunca mais voltei ao tocar no assunto com ele.

Mas Venice Lytton é uma mulher especial. Acho que, desta vez, eu acerto. Não que eu pense em me casar e essas coisas. Acho difícil. A vida do lar não me atrai de forma alguma.

Sou um detetive profissional, essa classe marginalizada na realidade e endeusada no cinema, como se nosso trabalho fosse cheio de charme e vivêssemos cercados de mulheres bonitas.

Na realidade as balas não são de festim e os bandidos não acertam só no ombro. Tive um amigo, também detetive, que estava metido numa investigação para uma companhia de seguros, num caso de desvio de cargas, no aeroporto.

Tentou dar um flagrante sozinho, sem comunicar a Polícia. Os bandidos o balearam no estômago, duas ou três vezes. Ele ficou caído num canto de um armazém, tentando segurar as tripas que ameaçavam vazar pelo rombo em sua barriga.

Morreu ali, sozinho, gritando ou não por socorro. Quem pode saber? Imagino-o lá, caído, olhando a vida se esvair rapidamente e ele sem nada para fazer, tomando consciência de que iria morrer.

Eu não desejo uma morte assim para ninguém, nem para um inimigo meu.

Como eu dizia, é um trabalho ingrato. Ganha-se bem? Sim, não se pode reclamar. Quando se atinge um determinado conceito nesse meio, o dinheiro entra fácil e constantemente. O

mercado acaba fazendo uma seleção natural, deixando para trás os picaretas da profissão e valorizando os realmente bons.

Com meu último caso ganhei cinqüenta mil dólares. O que muito trabalhador americano vai demorar um ano inteiro para receber, eu recebi com menos de um mês de trabalho. Corri riscos, fui persistente, segui as pistas com seriedade, armei algumas armadilhas, fiz um pouco de trapaça, mas, finalmente, acabei solucionando o caso.

Onde um amigo meu não vira qualquer indício de assassinato, eu fui convencido de que havia algo.

E para provar a minha teoria, eu tive de investigar. Eu cataloguei este caso como "Álibi Perfeito", como faço com todos os meus casos, resolvidos ou não. Sim, porque é bom que se diga que, às vezes, falhamos. Não conseguimos chegar a uma solução aceitável.

Quando isso acontece, eu bebo e fico realmente louco. Aliás, eu bebia e ficava realmente louco. Depois que conheci Venice, tenho preferido ir dançar com ela.

Entramos numa danceteria e ficamos lá a noite toda. Eu danço sem parar, até não ter mais forças para mover um dedo. Então vamos para casa e fazemos amor como dois loucos. Venice disse que isso é melhor do que beber para acalmar alguém. Penso que ela tem muita razão a respeito.

Mas esse caso foi muito interessante e merece ser contado. Tudo começou numa segunda-feira muito tranqüila. Eu havia passado o final de semana com Venice, na casa dela, fazendo churrasco e tomando cerveja e refresco. É uma receita que ela descobriu para não deixar que eu saia dos limites.

Para cada cerveja que tomo, tenho que tomar a mesma quantidade de refresco. Ela prepara o refresco. Tenho a impressão que é uma receita índia, pois vai me deixando com sono e sem vontade de tomar mais.

Só que não durmo e aquilo me dá uma vontade louca de transar. Vamos para a cama e ficamos lá até cairmos de cansados. Venice é uma garota esperta.

Naquela segunda-feira, em particular, eu estava agradavelmente cansado, com aquele cansaço físico que vem de fazer apenas coisas que dão prazer.

Pearl, como sempre, desejando matar-me, simplesmente porque eu estava feliz e ela tivera um péssimo fim de semana.

Eu estava repassando as manchetes dos jornais, quando ela chegou e jogou um papel sobre a minha mesa, com um telefone anotado.

Levantei os olhos, olhando-a sem me aborrecer. Pearl já não conseguia mais me aborrecer, depois que eu conhecera Venice. Acho que, no fundo, ela tem ciúmes de Venice. Até hoje.

Nada me tira isso da cabeça.

— O que é isso, Pearl? — perguntei.

— Um telefone...

— Sim, isto eu sei. O que faço com ele?

Ela fez uma expressão que dizia o que eu devia fazer com aquele papel, onde estava anotado um telefone.

Ao invés de dizê-lo, no entanto, ela preferiu explicar.

— Na sexta-feira, depois que você saiu, essa mulher ligou e fez uma porção de perguntas sobre você. Acho que andou tomando muitas referências a seu respeito. Perguntou se eu confirmava que você bebia muito e eu respondi que não sabia nada de sua vida particular...

— Fez bem. Se não tenho um caso, você não tem um salário...

Ela respirou fundo, mascando algumas vezes aquele seu maldito chiclete.

— Quem é ela e o que quer?

— Isso você vai ter que descobrir. O detetive aqui é você. Eu sou apenas a secretária.

— Pois é, por isso admiro cada vez mais a obra do Criador. Ele soube separar bem as espécies.

Ela me olhou sem entender, mas não perguntou. Meu tom de ironia era o bastante para irritá-la.

Virou as costas e ia saindo, quando eu a chamei de volta.

— Ligue para ela — disse, mostrando o papel.

Ela me olhou furiosa, depois tomou o papel de minha mão e foi fazer o seu trabalho.

Pouco depois eu falava diretamente com a Sra. Ethel Rotherham, cujo sobrenome não me era de todo desconhecido. Já o ouvira repetidamente havia algum tempo atrás, embora, no momento, não conseguisse me lembrar.

Era uma mulher fria e de certa idade, conforme concluí, assim que ela falou comigo.

— Detetive Walker, tenho um trabalho para você. Se estiver disposto a aceitar o caso, apreciaria muito sua gentileza em me visitar hoje, às cinco da tarde, em minha casa. Se puder, eu lhe dou o endereço — disse ela, como se tivesse decorado aquele discurso curto e objetivo.

— Acho que poderemos conversar, Sra. Rotherham. Pode me dar o endereço, por favor?

Enquanto ela falava, eu anotava.

— Precisa de mais alguma coisa? — finalizou ela.

— Só uma coisa: há algo que eu deva saber previamente, antes de falar com a senhora?

— Seria interessante que estivesse inteirado do caso da queda do vôo 118, da Summer Airlines, há cinco semanas. Minha filha foi dada como morta naquele acidente. Poderá ter mais detalhes com o Sr. Rufus Desmond, um detetive da Seguradora...

— Não se preocupe, eu conheço Rufus pessoalmente. Falarei com ele.

— Espero-o às cinco e, por favor, Sr. Walker, seja pontual.

— Pontualidade é o meu lema, senhora — arrematei, desligado.

Não posso deixar de mencionar que o tom de voz dela, apesar de um tanto frio e impessoal, parecia guardar certa admiração,

Com certeza ela havia tomado referências sobre mim e ouvira sólidas informações sobre a minha reputação. Eu sempre ia um passo além, onde os outros desistiam.

Chamei Pearl.

— Localize Rufus Desmond para mim. Diga-lhe para se encontrar comigo no Sunset, em Santa Mônica, para almoçarmos juntos e que eu vou pagar a conta. Só assim ele irá. Preciso de uma informação dele. Depois localize tudo que puder sobre o acidente do vôo 118, da Summer Airlines, há cinco semanas atrás.

— Mais alguma coisa?

— Um café bem quente, querida — disse-lhe, com doçura na voz, do jeito que ela não gostava.

— Quer com arsênico ou com estricnina.

— Qualquer um deles, só não mexa com o dedo, sim?

Ela saiu batendo o pé, como sempre fazia nas segundas-feiras, quando passava um péssimo final de semana.

Só que trabalhava rápido. Localizou Rufus, marcando o almoço, depois falou com um amigo dela no jornal Los Angeles Mirror. Quinze minutos depois ele passava por fax recortes de notícias sobre o acidente.

Ela foi levar e deixar sobre a minha mesa, juntamente com a minha caneca de louça, que imita a cabeça de um ratinho famoso e que eu trouxe da Disneylândia.

Debrucei-me sobre as notícias. O vôo 118 saíra de Los Angeles às oito horas da manhã, com destino ao Aeroporto Kennedy, em Nova Iorque.

Chovia e ventava muito. O avião saiu do Aeroporto Internacional de Los Angeles usando a pista na direção do Oceano Pacífico, fez o contorno sobre ele, ainda ganhando altura, para pegar seu rumo para atravessar o país na direção de Nova Iorque.

Passou por sobre a cidade de Los Angeles e, foi se chocar com o Monte Wilson, na Floresta Nacional, uma montanha com pouco menos de seis mil metros de altura.

Não houve sobreviventes. Corpos foram encontrados espalhados por toda parte. Alguns tão carbonizados que ficaram irreconhecíveis.

Procurei alguma coisa sobre a filha de Ethel Rotherham e encontrei uma nota. Falava das buscas ao corpo de Adeline Rotherham, que não fora encontrado, admitindo-se a hipótese de que, com a violência do acidente, seu corpo tivesse sido retalhado e carbonizado posteriormente.

O que restou de sua mala foi encontrado entre os destroços, o que comprovava que havia embarcado. O marido confirmava que a havia acompanhado até o embarque.

Tudo levava a crer que ela estava mesmo morta, já que os técnicos afirmavam que não havia possibilidade alguma de alguém escapar com vida daquele tipo de acidente, o que parecia bem lógico pelas fotografias dos destroços.

Fiquei curioso, confesso, uma vez que não podia imaginar o que interessaria à Ethel Rotherham descobrir de tudo aquilo, principalmente porque, numa das notícias mais recentes, quatro semanas após o acidente, os peritos informassem que um raio fora o responsável pelo acidente, danificando os controles e impedindo que o avião ganhasse altura ou pudesse desviar-se do monte.

Tecnicamente, Adeline estava morta, se era isso que Ethel desejava confirmar.

Legalmente, já era um outro problema que não cabia a ele responder nem haveria como provar isso com evidências. Os peritos haviam sido bem incisivos quanto à possibilidade de alguém sobreviver. Resolvi deixar de conjeturar a respeito do assunto.

Eu só poderia começar a fazer alguma coisa depois que soubesse o que ela queria de mim.

Pearl veio me trazer as notas e avisos dos informantes que eu tinha, espalhados por toda a cidade. Na realidade, essa gente constituía uma rede informal de pessoas que estavam sempre bisbilhotando a vida dos outros, ansiosas para flagrar alguma coisa que pudessem vender depois como informação.

Era o homem da banca de jornais, era o vigia do lixão, era o engraxate, era a prostituta que fazia ponto na beira da praia, gente de toda espécie, enfim, que por força de seu trabalho, por hábito, curiosidade, vício ou degeneração fazia aquilo.

Quando achavam que tinham alguma coisa interessante, ligavam para os detetives que conheciam, oferecendo sua mercadoria. Às vezes surgiam boas informações e em mais de uma oportunidade eu acabei chegando a uma solução favorável a partir de uma dessas informações.

A questão toda resumia-se em garimpá-las, pois refletiam apenas o que eles tinham visto.

Analisar e encontrar alguma consistência ou pertinência naquilo era o trabalho mais difícil.

Entre as notas, por exemplo tinha a de um carro negro que todas as noites passava por uma certa rua e para por alguns minutos diante de uma casa. Outra falava de um homem com uma arma na mão, correndo pela Via Expressa Santa Mônica. Tinha até a de um pescador falando de alguém, numa lancha suspeita, jogando um tambor cheio de cimento endurecido em algum ponto da Baía de Long Beach.

Deixei tudo de lado naquele dia. No momento eu não trabalhava em nenhum caso que precisasse daquele tipo de informações. Mesmo assim, devolveria as notas para Pearl, que as catalogaria e deixaria no computador.

Nesta profissão nunca se sabe quando se vai precisar de alguma coisa.

Analisei os casos em andamento. Todos eles dependiam de alguma coisa externa, além de minhas providências, por isso teriam de esperar de qualquer maneira. Fora isso, havia apenas um caso envolvendo uma garota desaparecida em South Gate e a família acreditava que seu namorado, um traficante de drogas, havia dado sumiço nela por algum motivo.

Eu esperava que o Departamento de Polícias liberasse logo o resultado de suas investigações, já que o namorado fora interrogado. A garota possuía, também, um seguro de vida e havia alterado recentemente o beneficiário, indicando o namorado, ao invés da mãe, como constava na apólice anterior.

Entre as notas, havia um recado do Tenente Sam Rudge, pedindo-me para ir vê-lo. Como eu tinha a manhã toda livre, até o almoço com Rufus, achei que poderia adiantar alguma coisa nas investigações do desaparecimento da garota.

Avisei Pearl e fui até o Distrito Policial de South Gate, um bairro da pesada mesmo, cujo território era disputado pelas gangues dos Reds, de origem latina, e dos Shades, agrupando negros marginais.

O namorado da garota e ela faziam parte da gangue dos Reds, que traficavam drogas e armas pesadas. A chance de encontrá-la com vida era muito pequena, já que a violência naquele meio era simplesmente incontrolável.

De qualquer modo, aquela modificação no beneficiário do seguro, feita às vésperas da morte da garota, era a única pista e despertava suspeitas realmente.

Sam Rudge era um descendente de irlandês, com a cara redonda e queixo quadrado, sempre com um sorriso enorme na boca.

Parecia um pacato professor ou um inofensivo comerciante mas era, na verdade, um dos homens mais temidos pelo submundo do crime de Los Angeles.

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Sam tinha um lema: entre mim e ele, prefiro que seja ele. Sua ficha funcional já estava marcada com inúmeras observações de uso excessivo de força no combate aos marginais.

A par disso, havia recebido diversas citações por bravura e mérito, o que contrabalançava.

Se de um lado a imprensa o malhava por ser tão duro, nos gabinetes do prefeito e nas salas do Distrito seu nome era sempre citado como exemplo.

— Escreva uma coisa que vou lhe dizer, Uther — disse ele, quando fui verificar as providências que a Polícia estava tomando no caso da garota. — Essa nunca mais veremos com vida. E tem mais: o namorado dela nada sabia sobre a apólice de seguro, tenho certeza disso.

— Por quê? — eu quis saber.

— A apólice dela é de um seguro de dez mil dólares. Esse rapaz ganha isso em uma semana vendendo drogas e armas. Por que precisaria matá-la?

Sam era esperto e tinha toda razão quanto a isso. A mesma coisa já me havia ocorrido.

Meu amigo, o Tenente Sam Rudge estava com o mesmo bom humor de sempre, cumprimentando-me com o seu famoso abraço de urso, que poderia partir a espinha de um ser humano mais frágil. Depois de me pôr no chão, após quase me tirar o fôlego, aquele irlandês maluco me empurrou na direção da máquina de café.

Enquanto ele tomava um café descafeinado, eu tomava o meu café normal, como deve tomar todo detetive que se preze, muito embora houvesse muito tempo que eu não tomava um pileque que merecesse aquele tipo de café.

— E então, alguma notícia da garota? — indaguei.

— O namorado dela foi preso ontem.

— Algo a ver com o sumiço dela?

— Não, nada a ver. Ele se meteu numa briga de gangues e deu cinco tiros a queima-roupa num membro de outra quadrilha. Foi preso em flagrante, porque, na briga, o outro acertou-lhe a cabeça, antes de morrer.

— Gente amável, não?

— Muito carinhosos — riu ele. — Quer vê-lo?

— O que ele tem a dizer sobre ela?

— Continua mantendo a mesma versão: não sabe onde ela está.

— E o que o deixa preocupado, Sam?

— Ele está muito tranqüilo. Diz que tem gente que virá tirá-lo logo. Só que... Só que um dos companheiros de cela dele nos procurou. Disse que ele comentou que a garota viu o que não devia, por isso agora está vendo o que não quer, no fundo da baía.

Era aquilo o que eu temia desde o princípio. As gangues eram e continuam sendo um flagelo, uma espécie de praga que contamina os jovens e Los Angeles e na maioria das grandes cidades americanas.

Envolvem-se com tudo que é ilegal e que possa render-lhes algum dinheiro, começando com o tráfico de drogas e armas até o assassinato sob encomenda.

Há alguns meses, um comerciante foi morto por uma gangue enlouquecida. Todos julgaram que tivesse sido uma fatalidade, mas havia uma série de detalhes estranhos naquele caso.

Resumindo, alguém pagara àquela gangue para que ela simulasse um tumulto, onde o comerciante perdeu a vida.

— O que acha que ela viu?

— Quem pode saber? Tráfico de drogas, armas, roubo de cartões de crédito... Eles fazem de tudo.

— Só que deve ter sido algo realmente importante para ele ter matado a namorada, não acha?

— Talvez você tenha razão quanto a isso...Mas como vamos descobrir se ele não quiser falar? Só se o levássemos para a praia e lhe déssemos um banho de quilha.... — riu ele.

Banho de quilha era uma velha brincadeira dos piratas e consistia em passar a vítima, presa a cordas, de um lado a outro da quilha do navio, por debaixo da água, é claro.

Sam se referia a isso porque, certa vez, ele fora acusado de ter feito isso com um suspeito.

Ele nega, é claro.

— O que podemos fazer com ele? — indaguei.

— Fica a seu critério. Quer conversar com a fera?

— Se não me custar nada...

Fui levado por ele até a carceragem do Distrito. Numa sala especial, com uma separação feita de grades de aço e biombos, sentei-me diante de uma curiosa mistura de mexicano com chinês, algo até comum em Los Angeles.

Ele me olhou com aquele olhar de superioridade que apenas os membros de gangue possuem. Olham-nos de cima, como se apenas eles soubessem das coisas e nós fôssemos apenas babacas a serviço deles.

— Olá, Tino — cumprimentei-o.

— Tem um cigarro aí?

— Não, eu não fumo.

— Devia — riu ele.

Tino Gonzalez tinha no máximo vinte e dois anos, mas uma carreira de crimes de fazer inveja. Já havia roubado, estuprado e matado mais do que qualquer um de nós poderia imaginar. Muitos de seus crimes jamais seriam descobertos. Com aquele olhar frio e indiferente, era capaz de enterrar uma faca de briga no coração de um homem sem sentir o menor remorso.

Fiquei imaginando quanto tempo ele permaneceria ali. Com certeza em menos tempo do que eu imaginava ele já estaria na rua.

— E o cabeça? — indaguei.

— Não quebrou... — respondeu ele, olhando para todos os lados, remexendo-se na sua cadeira, sem me encarar.

Era um tipo abusado e só estava ali, na minha frente, porque estava preso e vigiado por dois guardas um pouco afastado. Se não fosse isso, jamais ele falaria comigo.

— E Mariza Colares? — indaguei.

Ele não demonstrou o menor sentimento ou preocupação. Apenas deu de ombros.

— O que ela viu que teve que ser morta por isso? — insisti e, desta vez, ele reagiu.

Seus olhos se arregalaram, sua expressão endureceu-se e todo o seu corpo ficou tenso.

Ele me encarou e, naquele breve instante em que vi o brilho assassino de seu olhar, ele e eu nos declaramos inimigos de morte.

Depois ele começou a rir e foi relaxando o corpo. Havia um cinismo irritante em seu riso.

— Mariza deve estar dando por aí, homem. É o que ela mais gosta de fazer... Na certa arrumou algum marinheiro... Ou um turista... Quando acabar ela volta...

— E você vai recebê-la de volta? — indaguei, só para ver a reação dele.

Ele apenas me olhou, como se ele soubesse das coisas e eu fosse o maior ignorante do mundo. Em resumo, seu olhar era absolutamente inexpressivo.

— Acha que ela já pode estar morta? A família dela tem o direito de saber...

Em resposta ao meu apelo ele apenas cuspiu de lado, com nojo e desprezo. Confesso que, naquele momento, eu desejei que não houvesse uma grade me separando dele.

Aquele total e absoluto desprezo pela vida humana e pelos sentimentos dos outros aborrecia-me... Não, irritava-me. Deixava-me puto da vida.

Eu não conseguiria nada dele, a não ser a confirmação indireta de que Mariza Colares estava morta. Sua reação, no momento em que indaguei o que ela vira, fora muito significativa.

Deixei-o e fui ao encontro do meu amigo, Tenente Sam Rudge.

— E então? — indagou ele.

— Nada feito. O miserável parece um bloco de gelo... A idéia da quilha me pareceu muito apropriada.

Ele riu.

— Há um advogado conversando com o meu chefe agora. Trás um mandado de um juiz, ordenando a libertação de Tino Gonzalez. Pelo que ouvi, meia dúzia de testemunhas afirmam que ele disparou em legítima defesa... Inclusive membros da outra gangue...

— Eles gostam de resolver os problemas entre eles mesmos — observei.

— Sim, não querem a interferência da Polícia em seus negócios. Só que, a partir de agora, Tino é letra morta. A outra gangue ajuda a soltá-lo para que possa se vingar.

— E o outro prisioneiro, o que disse que Tino falou sobre a garota...

— Está em cela separada agora. É um pilantra. Pode estar falando a verdade ou não. Não há como saber isso, há?

O humor do meu amigo já havia mudado, desde que eu chegara lá. Assim como eu, ele detestava criminosos e suas artimanhas legais para ficaram nas ruas, cometendo crimes impunemente.

Agradeci-o e fui embora. Já tinha elementos para dar um diagnóstico definitivo à família de Mariza. Eu não iria enganá-los e insistir em dar-lhes esperanças. Pela minha experiência em casos semelhantes, só poderia ser honesto com eles. Era meu modo de ser.

Quando cheguei ao escritório de volta, pedi a Pearl que ligasse para a irmã de Mariza.

Contei-lhe o que tinha ouvido no Distrito. Dei-lhe a minha opinião.

Ela não soluçou ou demonstrou qualquer surpresa.

— Eu agradeço sua honestidade, detetive — disse ela.

— Desde o princípio em fui claro quanto a isso, Rita...

— Sim, eu sei, mas meu pai e minha mãe ainda tinham alguma esperança... Deixei que tentassem... O que mais eles poderiam fazer?

Quando eu desliguei, estava aborrecido. Coisas como aquela me deixavam mesmo aborrecido. Eu não conseguia entender o que uma moça jovem e bonita, estudiosa e talentosa como Mariza Colares, com chances de ir para uma Universidade, via num traficante bandido e assassino como Tino Gonzalez.

Tipos como ele parecem exercer um fascínio indecifrável para nós, mortais comuns. Com isso, jogavam uma vida toda fora e acabavam como ela, no fundo do mar, com certeza.

Dei por encerrado aquele caso e mandei Pearl passar aquela pasta para o arquivo. Pensei em meu encontro com Ethel Rotherham e em meu almoço com Rufus.

O velho sexto sentido me alertava sobre aquele caso. Eu sentia uma comichão nas velhas cicatrizes, uma impaciência que tinha de ser domada e um sentimento de alerta, de perigo, que sempre me incomodava.

É mais ou menos como você ter a sensação de que alguém, num lugar onde você jamais o verá, aponta uma arma na sua direção e apenas espera o momento certo de apertar o gatilho.

Apanhei, na mesa, as cópias das reportagens que Pearl tinha conseguido no dia anterior.

Eu sabia sobre Adeline Rotherham, mas nada sobre seu marido.

Chamei Pearl.

— Estou vendo aqui o nome do marido de Adeline Rotherham. Ele se chama Archibald Flushing. Descubra-me alguma coisa sobre ele — pedi-lhe.

Ela ficou me olhando com cara de sonsa, mascando o chiclete.

— Entendeu o que eu disse? — perguntei, já que ela ficou em pé, olhando para mim como se tivesse me apanhado em flagrante adultério.

— Quem é Adeline Rotherham?

— A mulher que morreu neste acidente aqui — falei, mostrando-lhe a notícia.

Ela apanhou o papel de minhas mãos e começou a ler.

— Interessante... Sim... Ah, agora sim... Vou ver o que consigo — finalizou ela, devolvendo-me o papel e saindo.

Era seu modo sutil de reforçar o que ela sempre dizia, que o detetive ali era eu e que ela era apenas a secretária, que não tinha obrigação de adivinhar as coisas.

Eu já a teria demitido há muito tempo, se ela não fosse tão eficiente. Pearl também sabia disso, por isso me perturbava tanto.

Eu havia começado a reler as notícias sobre o acidente, principalmente a conclusão dos peritos, quando ela retornou, trazendo-me um fax com uma cópia de cinco páginas da revista

"Os Cem Mais", do último mês, com uma reportagem de capa sobre Archibald Flushing, o descendente de um fabricante inglês de guarda-chuvas que havia tornado a Rotherham Química na maior empresa do setor de fertilizantes e defensivos agrícolas do Oeste do país.

Havia uma foto dele, um típico inglês, com bigodes finos, cabelo rigorosamente penteado, terno impecavelmente cortado, numa pose bem britânica, com a mão apoiada numa cadeira, tendo um painel enorme ao fundo, mostrando o prédio principal das instalações da indústria.

Fala sobre uma história de Cinderela às avessas, de um jovem inglês que chegara aqui com um curso de doutorado em química e que conheceu uma jovem dona de uma indústria de médio porte.

Em seis meses estavam casados e ele assumia a direção da empresa, tornando-a uma das maiores do país. Narrava também, num tom dolorido e lacrimoso, a terrível tragédia que se abatera sobre ele, ao perder a esposa num trágico acidente.

Tudo parecia muito certo, muito perfeito na vida daquele homem, inclusive a tragédia. Ela parecia dar-lhe uma nova dimensão de grandeza, engrossando sua biografia de sucessos.

Tive a impressão de estar olhando para a foto de um homem cuja vida, em breve, Hollywood estaria filmando, para mostrar às próximas gerações, um exemplo de vida, de luta, de sofrimento e de amor.

Era o tipo de coisa que não me agradava. Em meu cinismo interior imagens como aquela não caíam bem. Elas me provocavam sempre uma certa aversão. Para mim, ninguém poderia ser tão perfeito assim.

Foi antipatia à primeira vista. Eu não o conhecia e já não gostava dele. Aquela história de sofrimento e de luta não me passava pela garganta. Olhando o rosto e o olhar daquele homem da foto, eu via alguém inteligente, muito inteligente mesmo, mas um escroque, um pilantra de marca maior, alguém que tivera a chance de sua vida e a aproveitara.

Um caso típico de golpe do baú, em minha opinião, por mais que a reportagem da revista insistisse em ressaltar qualidades como visão, liderança, administração, e outras mais.

O rosto daquele homem não refletia nada disso. É algo interessante que eu não sabia explicar. A reportagem parecia falar de uma outra pessoa, não daquela que aparecia na foto.

Eu nada sabia do caso e já estava emocionalmente envolvido. Isso me acontece freqüentemente.

No almoço fui me encontrar com Rufus Desmond.

O Restaurante Sunset é especialista em frutos do mar e eu sabia que Rufus adorava esse tipo de comida, que não fazia absolutamente o meu tipo.

O máximo que eu podia aceitar era um peixe sem espinhas assado por mim, na minha churrasqueira ou na da casa de Venice, com molho apimentado e cheirando a fumaça.

O resto me era totalmente indigesto. Olhar polvos, lulas, camarões, ostras e mariscos, por mais apetitoso que aqueles pratos pudessem parecer dava-me engulhos.

Gosto mesmo é de uma bela bisteca, com uns dois dedos de altura, no mínimo, temperada como os mexicanos a fazem, com sal e pimenta, posta numa chapa quente para grelhar bem dos dois lados.

Por fora ela fica sequinha e bem passada. Por dentro fica tenra e vermelha, com um pouquinho de sangue... Um mínimo de sangue, na verdade.

Uma bisteca dessa com uma salada de folhas e cebola, pão de alho e uma cerveja e quanto me basta para uma refeição. Por isso prefiro o Restaurante do Ned, em Bernardino, um bairro nos arredores da cidade.

Você sente o cheiro da bisteca a um quilômetro de distância. E Venice também gosta. Acho que é mais uma das coisas que nos unem e me repetem diariamente que encontrei uma grande mulher.

Mas Rufus ficava absolutamente perdido diante do bufê de comida do mar a sua frente. Ia pondo um pouco de cada coisa em seu prato. Eu tive sorte de encontrar um peixe assado, absolutamente sem sabor, que cobri de pimenta e suco de limão, para desespero do garçom que nos servia.

Acompanhei Rufus numa cerveja.

— Uther, meu velho, você deve estar desesperado com alguma coisa para me convidar para almoçar — disse ele, acomodando-se.

Rufus pesa uns cento e cinqüenta quilos, mas come com uma elegância de fazer inveja a uma dama. Seu maior sonho era ser gastrônomo a serviço do Los Angeles Mirror, o jornal de maior circulação da cidade.

Segundo ele, esse pessoal comia de graça em todos os restaurantes da cidade. E sempre a melhor comida e a melhor bebida, para que falassem bem do restaurante, da comida e do atendimento em suas colunas.

Achei mesmo que Rufus daria um excelente gastrônomo. Tinha presença para isso.

— Vou entrar em um caso. Ainda não sei de que se trata. Só estou me antecipando e colhendo o máximo de informações possíveis para não ser pego de surpresa...

— Quando for discutir seus honorários? Pensa que eu não sei, seu safado? — riu ele, com aquele olhar matreiro de investigador de companhia de seguro.

— Mais ou menos — concordei com ele.

Ele continuou comendo tranqüilamente, com aquele sorriso beato no rosto, adorando cada garfada. De repente, ficou sério. Continuou mastigando, mas levantou a cabeça e ficou me olhando. Apanhou o guardanapo e limpou a boca. Tomou um pouco de cerveja.

— Espere um pouco, Uther... — murmurou ele, como se, de repente, tivesse perdido todo o apetite.

— O que foi Rufus?

— Você não vai fazer isso comigo, vai?

— Fazer o quê, Rufus?

— Pegar um caso meu e reabrí-lo.

— Eu não sei. Ainda nem tenho um caso. Vou conversar com a pessoa hoje à tarde, às cinco horas.

— De quem estamos falando?

— Ela me pediu que o procurasse, Rufus...

— Quem, Uther?

— Ethel Rotherham.

Ele pensou por instantes, sempre olhando para mim. Depois balançou a cabeça de um lado para outro, sorriu e voltou a comer. Havia superado o problema e recuperado a tranqüilidade.

Isso significava que o caso em que me envolveria era, na opinião dele, tempo perdido.

E Rufus me conhecia. Sabia que eu sempre dava um passo além. Pela expressão dele, no caso em questão eu não teria que dar apenas um passo além, mas uma jornada inteira.

— E então, o que me diz? — indaguei.

— Uther, tudo que você precisar, eu lhe fornecerei, inclusive um laudo médico avaliando as faculdades mentais da Sra. Rotherham.

Quase caí da cadeira. Isso nunca tinha me acontecido antes e era só o que me faltava.

— O genro dela vai pedir a interdição da pobre velha, com o que eu concordo cem por cento.

O peixe sem gosto estava mais sem gosto ainda. Uma das coisas mais complicadas e desagradáveis da profissão era encontrar um louco com mania de perseguição, pedindo que você investigasse alguma coisa para ele.

Pela expressão de Rufus, era isso o que eu tinha pela frente.

— Qual é o problema dela? — indaguei.

— Sessenta e oito anos de idade — disse ele, como se aquilo explicasse tudo.

— Zenobhia Wyoming tem oitenta e cinco e continua atuando nos palcos com uma lucidez impressionante — lembrei-lhe eu, já que ambos éramos fãs desta atriz de tanto sucesso.

Para se ter uma idéia disso, de tanto eu falar em Zenobhia, Venice quis conhecê-la e assistir ao seu show. Só encontramos ingresso para dois meses depois, ainda porque, num golpe de sorte, compramos duas desistências de um casal que estaria embarcando para a Europa naquela data.

— Zenobhia é Zenobhia — respondeu ele. — Ela é única, incomparável, inimitável...

— Não precisa me falar dela, lembra-se? Eu conheço Zenobhia. Eu amo Zenobhia. Agora, qual é o verdadeiro problema de Ethel Rotherham? O fato do genro dela ser inteligente demais?

Ele começou a rir, mas continuou mastigando. Só depois que engoliu, limpou a boca no guardanapo e depois tomou mais um pouco de cerveja, foi que me encarou.

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— O sujeito é esperto, não vou lhe negar, Uther. Mas isso ainda não foi declarado crime em nosso país. O que não se pode permitir é que alguém fique jogando dinheiro pela janela para tentar descobrir o que é óbvio.

— Certo, Rufus. Acho que agora você chegou no ponto que eu queria. Por que não começa a me contar essa história toda como se eu estivesse chegando agora e fosse um completo estúpido.

— O que não vamos negar — gozou ele, rindo e me fazendo um sinal, avisando que iria repetir a dose no bufê.

Quando se quer uma informação de Rufus e se adota a estratégia que eu adotei, é preciso ter muita paciência para esperar até que ele estivesse satisfeito, o que só aconteceu após sua terceira ida ao bufê e a terceira cerveja.

Estava como um crocodilo ao sol, com um charuto aceso entre os dedos e aquela pose de colunista gastronômico de jornal, apoiado ao meu carro, no estacionamento do hotel.

Uma brisa agradável soprava, anunciando um dia fresco, sem muito calor e com um sol gostoso. Dali podíamos avistar o mar, com navios passando preguiçosamente ao largo.

Rufus estava pronto para me falar sobre Ethel Rotherham.

— Você vai conhecê-la. É uma pessoa agradável, mas está muito solitária agora. Foi um golpe muito forte para ela. O marido morreu logo após o casamento da filha, num acidente.

Agora perdeu a filha, também num acidente...

— E quanto ao genro, os dois se são bem?

— Sim, maravilhosamente bem. Ethel só tem a ele, agora. Fora disso, está sozinha completamente. Quer porque quer a todo custo manter viva a memória da filha. Archibald teme que ela se envolva com charlatães e acabe jogando dinheiro fora...

— Ela já fez isso?

— Sim, um casal de pseudo espíritas tinham se instalado na casa dela, fazendo sessões seguidamente, mas preparando-a para um golpe milionário. Archibald descobriu tudo, pondo-os para correr. Ela ficou furiosa com isso, mas ele está certo.

— E ele, fale-me um pouco sobre ele...

— Um sujeito ambicioso, teve sorte em encontrar Adeline e ela também teve sorte de encontrá-lo. A empresa deles estava indo de mal a pior, quando ele assumiu. Hoje é uma potência, realmente. É um sujeito extremamente inteligente, esperto, com muita visão e trabalhador.

— Parece-me um ótimo sujeito... — comentei.

— E é, verá isso quando conhecê-lo.

— Por que sua companhia está envolvida neste caso? — eu quis saber.

— Adeline Rotherham tinha um seguro de vida de dez milhões de dólares. Só que não tínhamos um cadáver para provar que ela havia morrido. Nem o dela nem o de pelo menos mais vinte pessoas naquele avião, cujos corpos foram despedaçados no choque, depois carbonizados...

— Nem arcada dentária nem alguma outra coisa do tipo?

— O fogo foi tão intenso que, na maioria dos passageiros que se encontravam na primeira classe, como era o caso dela, até próteses metálicas se derreteram. Não precisa dizer mais nada, precisa?

— E a Companhia aceitou a morte dela com base em quê?

— Adeline despachou sua bagagem. Está nos registros. Passou pelo corredor de acesso ao embarque do aeroporto, ao qual só têm acesso as pessoas portadoras de um bilhete.

Destacou esse bilhete no portão de acesso ao avião.

Até o momento de entrar no avião, o marido estava com ela...

— E como ele entrou no corredor, rumo ao portão de embarque, se não tinha um bilhete?

— Com um passe especial, conseguido com um amigo da administração, já que a firma de Archibald é uma das maiores exportadoras de produtos agrícolas desta parte do país. Foi um caso de cortesia.

— E esse amigo chegou a ver Adeline com Archibald?

— Não, enquanto Adeline despachava a bagagem, ele foi buscar o passe.

— E vocês se deram por satisfeitos?

— Sim, claro, e por que não? Todo o tempo, nossa preocupação estava centrada no fato que de acontecera um acidente, alguém morrera e ele tinha a ingrata tarefa de nos convencer que ela estava morta. Não havia falhas na história dele. Ninguém derruba um avião com cento e vinte pessoas dentro só para receber um seguro. E não havia como ele saber que o avião cairia, havia? Ele teria que estar muito afinado com São Pedro para conseguir isso. Portando, meu caro Uther, Adeline Rotherham morreu no acidente. Tinha uma apólice de seguro, beneficiando o marido. Com a declaração dos peritos que vistoriaram os destroços do avião e a caixa preta, Archibald vai receber o seguro e acabou-se.

O que Uther estava me dizendo não me apontava a existência de nenhuma falha naquela história. Se Ethel Rotherham fosse me pedir alguma investigação a esse respeito, eu nada poderia fazer, que diabos!

Só que isso, longe de me fazer desistir, mais aumentou a minha curiosidade, principalmente porque eu já havia decidido que não gostava mesmo de Archibald Flushing.

Mas o que Ethel queria de mim?

Esta pergunta só seria respondida mais tarde, quando eu falasse com ela. Tudo que eu podia fazer naquele momento era conjeturar, sem ir a lugar algum.

— Quer saber mais alguma coisa? — indagou meu obeso amigo.

— Porque a interdição?

— Como? — devolveu ele, distraído.

— Você não disse que Archibald ia pedir a interdição da sogra?

— Oh, sim... Isso. Para evitar que outros espertalhões apareçam com seus truques para impressioná-la e roubá-la...

— Não, eu não quis dizer isso — interrompi-o. — Interditá-la por quê? Ela tem um patrimônio muito grande, dinheiro ou alguma coisa assim?

Ele sorriu espertamente, batendo as cinzas de seu charuto e mudando de posição, como se desejasse bronzear o outro lado do rosto.

— Percebeu que Adeline chamava-se Adeline Rotherham, apesar de estar casada com Archibald Flushing?

— É, para ser sincero, pensei que o nome dela fosse Adeline Rotherham Flushing...

— Não, é o contrário — continuou ele, como se soubesse da maior verdade do mundo e eu fosse o maior de todos os ignorantes na face da terra.

— Fale logo, Rufus. Deixe de suspense — insisti.

— O nome dele, até uma semana após o acidente, era Archibald Flushing Rotherham —

informou meu amigo.

— E por que ele fez isso?

— Não sei... Acho que de desgosto pela morte da esposa... sei lá... Só sei que ela não quis deixar o nome da família dela. Portanto, tudo que existe está em nome da velha agora.

— Exceto o seguro — lembrei eu.

— Sim, exceto o seguro, mas o que isso quer dizer?

— Que ele não tem nada, exceto o seguro.

— Está me confundindo, Uther, e procurando chifre em cabeça de cavalo. Acha que ele matou a mulher? Com a cumplicidade de São Pedro, que mandou aquela chuva naquele dia e aquele raio naquela hora, para atingir a cauda do avião, danificar os controles de direção e altitude, fazendo-o ir se chocar com o Monte Wilson? — ponderou ele, com muita propriedade, diga-se de passagem, deixando-me com cara de idiota.

— É, olhando sob esse prisma, acho que tem razão. O problema com a velha deve ser outro. Eu nem sei como acabamos nos enveredando para esta hipótese.

— Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo — falou ele, com ar de superioridade, deixando o charuto cair do chão e esmagando-o com o pé. — Eu investiguei o caso. Isto quer dizer que este fã de Zenobhia Wyoming aqui jamais deixaria passar nada, mas nada menos, que levasse à mais ínfima suspeita de que ele pudesse ter alguma coisa a ver com a morte da esposa.

Impossível! Qualquer outra hipótese é delírio, pode escrever isso.

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Tive que dar a mão à palmatória. Rufus sabia o que estava falando e tinha todos os elementos necessários para concluir que aquela idéia era, como ele mesmo disse, um delírio.

Então por que aquilo não me convencia? Por que eu sentia que ali, em alguma parte, estava um furo, um pequeno furo por onde aquele dique que cobria uma trapaça e possivelmente uma morte acabaria vazando.

E tudo isso eu estava deduzindo, antes de ter falado com Ethel, o que era um erro, mas eu tinha de acreditar no meu velho sexto sentido.

Até aquele dia ele nunca havia me deixado na mão. Possivelmente isso não aconteceria daquela vez.

Às cinco horas da tarde, precisamente, fui introduzido numa ampla sala, num apartamento de cobertura que era maior que quatro ou cinco casas como a de Venice juntas.

Ali morava Ethel Rotherham, sozinha, com um batalhão de uns dez empregados.

As paredes daquela sala eram decoradas com cabeças empalhadas de animais e armas de caça expostas em estojos de madeira, com tampa de vidro.

Vi ali algumas armas famosas, enquanto os olhos de vidro dos animais me acompanhavam. Uma ampla janela dava vista para o mar. Diante da janela havia uma escrivaninha em mogno, muito grande, com uma poltrona de espaldar alto. Diante da escrivaninha, duas poltronas de couro muito distintas.

A porta se abriu atrás de mim e uma senhora magra, de cabelos elegantemente penteados, com pose de rainha e passos firmes avançou para mim.

— Detetive Walker, eu suponho.

— Sim, Sra. Rotherham.

Ela me estendeu a mão, que eu apertei, sentindo firmeza em seus dedos.

Ethel tinha olhos claros e brilhantes. Não usava óculos e parecia não precisar deles, pois assim que se sentou na poltrona de espaldar alto, apanhou um papel sobre a escrivaninha, leu-o rapidamente, depois o pôs de lado para me encarar.

— Sente-se, por favor — convidou ela.

Tinha um tom de voz firme e sereno ao mesmo tempo, demonstrando ser uma pessoa ponderada, longe daquela maluca que Rufus pintara para mim, na hora do almoço.

Sentei-se, cruzei as mãos sobre as pernas e fiquei olhando para ela, com absoluta seriedade e tranqüilidade. Ela ficou olhando para mim, sondando-me.

Acho que, naquele breve momento, ela me analisava para saber, em definitivo, de que têmpera eu era feito. Se me incomodasse, ela teria um conceito a meu respeito. Se falasse primeiro, um outro. Eu era o convidado e estava ali para ouvir. Em minha profissão, era isso que eu aprendera que devíamos fazer.

Não estava ali para elogiar sua beleza, nem para dizer que, para uma mulher de sua idade ela estava muito jovial e saudável ainda, ou que os olhos dela eram bonitos. Se ia ser uma bela noite ou se teríamos uma tempestade, pouco importava para mim.

— Antes de mais nada, Sr. Walker, vou lhe deixar claro uma coisa. Acredito sinceramente, apesar da dor que isso me provoca, que minha filha Adeline está morta... — falou ela, acho que esperando alguma reação de minha parte, o que não aconteceu.

Uther já havia me convencido disso naquele almoço.

— Só que não naquele acidente de avião... Minha filha nunca entrou naquele avião, Sr.

Walker. Nunca! — afirmou ela, com tamanha decisão que me perturbou.

Não era uma louca falando comigo. Era uma mulher lúcida e ciente do que afirmava.

Por outro lado, o que ela me dizia trazia um ponto de vista muito interessante sobre a questão.

— E por que ela não estaria naquele avião, Sra. Rotherham? — indaguei, sentindo que todas as minhas premonições sobre aquele caso tinham algum sentido.

— Porque ela já estava morta.

— E o que espera de mim?

— Primeiro que se convença de que estou certa em minha suspeita.

— Como chegou a essa conclusão?

— Alguém ligou para mim há uma semana... Uma mulher... Disse-me que tinha visto minha filha ser morta... Descreveu-me a roupa que ela vestia no dia da morte... Minha filha tinha uma roupa conforme ela descrevera...

— E como sabe? Porque na noite anterior à viagem ela esteve aqui, me visitando. Usava exatamente a roupa que me foi descrita. Roupa que não foi encontrada na casa dela. Eu estive lá. Examinei a casa... Examinei todo o guarda-roupa dela, a lavanderia, a roupa suja, tudo.

— Falou isso para alguém?

— Não, porque ninguém acreditaria nisso. Era apenas uma suspeita, que me fora passado num telefonema anônimo, quatro semanas depois do acidente.

— E a pessoa que ligou, o que queria?

— Queria dinheiro, para me dar mais informações.

— E então?

— Não ligou mais depois daquela noite.

— Não acha que possa ter sido um trote?

— Pensei nessa hipótese, mas havia algumas coisas que foram se encaixando...

— Como o quê, por exemplo?

— Sobre aquelas pessoas que Archibald mandou para cá...

— Que pessoas?

— Uns loucos que queriam fazer sessões espíritas para trazer o espírito de Adeline de volta...

— Só um minuto, Sra. Rotherham — pedi-lhe, para tomar fôlego e entender melhor a questão. — Essas pessoas não foram trazidas para cá por você?

— Eu? Acha que eu sou maluca, Sr. Walker?

Positivamente, acho que aquilo ela não era mesmo, o que me deixava surpreso, intrigado e com todas as minhas cicatrizes coçando e formigando.

Quando isso acontecia, eu pressentia que estava diante de um caso. E um caso complicado.

— Por que Archibald faria isso?

— Porque ele queria provar, de alguma forma, que eu não tinha mais condições de administrar o patrimônio da família.

— Ainda assim, com que interesse ele faria isso?

— Ficar com tudo, oras. Não sei se já o conhece, Sr. Walker. É um rato, esperto e ardiloso, que soube usar seu potencial para tornar nossa empresa química numa indústria de respeito.

Não nego isso. Só que ele apenas administrava e recebia um salário. Um grande salário, é verdade, só que isso era pouco para ele. Todo o patrimônio é meu. Adeline tinha uma pequena parte, que retornou para mim, com a morte dela.

— Suponho que esteja deduzindo tudo isso que está me falando, Ethel... — observei eu.

Alguém falar por achar que uma coisa é de uma determinada não significa que aquilo é uma verdade. Em meu caso, podemos trabalhar com suposições, só que as conclusões têm que ter consistência e provas.

— A maior parte do que estou lhe dizendo foram palavras de Adeline, na véspera de sua viagem. Na época encarei tudo como uma briga de casal, nada mais. No dia seguinte veio o acidente e eu não voltei a pensar no assunto, a não ser após aquela chamada.

— Então na noite de sua morte, Adeline estava criticando severamente o marido.

— Não, Sr. Walker, ela não o estava criticando, ela o estava acusando mesmo.

— E estavam juntos os dois?

— Sim, estavam.

— E ele?

— Apenas riu ironicamente, dizendo que Adeline não sabia o que estava dizendo. Ele é um tipo frio, britânico mesmo. Nada o tira do sério.

— A viagem de sua filha já estava marcada?

— Sim, ela ia a Nova Iorque cuidar da instalação de nosso escritório lá. Seria um marco extremamente importante para a indústria. Estávamos caminhando para ocupar espaço no país e começar uma escalada rumo ao mercado externo.

— E isso foi interrompido?

— Não, naquela mesma semana alguém foi para lá e cuidou de tudo. A empresa não parou.

— Sua filha era a presidente da firma e seu genro, o vice-presidente executivo, pelo que li.

O que cada um deles fazia exatamente.

— Adeline cuidava de relações com a mídia, governo, políticos, montagem de escritórios e representações, enquanto ele era, na verdade, o todo-poderoso da empresa. As decisões eram dele, não resta a menor dúvida disso.

Olhando tudo pela ótica da Sra. Rotherham, havia uma porção de indícios apontando na direção de Archibald, assegurando que ele tinha algum interesse na morte de sua esposa.

Mas eram apenas indícios e isso nada provava nem seria aceito em nenhum tribunal.

A nossa lei ainda prega que todos são inocentes, até prova em contrário. Archibald podia ser o maior criminoso, mas só poderia ser tratado assim, quando fosse provada a sua culpa.

— Sra. Rotherham, corrija-me se eu estiver errado, por favor! — disse eu, pretendendo fazer um resumo da situação.

Queria ver se havia entendido tudo corretamente.

— Sua filha não morreu no acidente de avião. Estava morta antes disso e alguém, uma mulher, testemunhou isso, mas não voltou a fazer novo contato.

— Sim, perfeito. Até aí está entendendo corretamente.

— Seu genro, que mandava na empresa, matou-a para receber o seguro...

— Quem falou em seguro? O seguro é de apenas dez milhões de dólares. Nossa fortuna chega a meio bilhão. Acho que isso justifica a ambição dele. Ambição que eu senti desde o primeiro momento, quando me opus ao casamento, sem sucesso.

— Mas se a fortuna não é dele, de que lhe adiantaria matar Adeline?

— Porque eu sou a próxima da lista dele. Aquela encenação com os charlatães que estiveram aqui é o primeiro passo para ele requerer a minha interdição. Feito isso, vai me atirar em um asilo qualquer, de onde jamais sairei ou onde morrerei acidentalmente.

— Por meio bilhão de dólares?

— No lugar dele, quanto estaria disposto a investir dessa bolada para se apossar dela, Sr.

Walker? Cinco milhões? Dez? Cem? Ainda assim sobraria dinheiro demais para se gastar em uma vida apenas.

— Colocado nesses termos, Archibald é suspeito de ter ele mesmo lançado o raio contra o avião - disse eu.

O que Rufus me havia dito naquele almoço continuava martelando a minha cabeça. E os controles do aeroporto? Adeline havia passado por lá.

— Sra. Rotherham — tornei. — A companhia de seguros vai pagar dez milhões de dólares a Archibald pela morte de Adeline. Investigou no aeroporto. Sua filha despachou a bagagem, entrou na área de embarque, passou pelo portão de acesso ao avião e...

Enquanto eu falava, ela abria uma gaveta da escrivaninha, retirava um envelope e o punha sobre a mesa.

Diante do meu silêncio, ela empurrou o envelope na minha direção.

— Abra — disse ela.

Pelo envelope, eu sabia do que se tratava. Era a passagem de avião para Nova Iorque, em nome de Rotherham, A.

Fiquei sem entender, olhando a mulher a minha frente interrogativamente.

— E o que isto prova? — indaguei.

— Quando estive na casa de minha filha, há alguns dias atrás, depois do telefonema daquela mulher, descobri isso. É a passagem de avião de Adeline. Por que estava na casa e não com ela?

— Talvez no momento do embarque, Archibald tenha ficado com ela.

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Ela riu inteligentemente, com os olhos brilhantes e uma expressão marota no rosto.

— Essa é uma passagem de ida e volta, Sr. Walker. Minha filha precisaria do bilhete para voltar. Por que isso não estava com ela, como seria de se esperar?

— Há uma porção de respostas que imagino que Archibald nos daria, se fizéssemos a pergunta a ele.

— Mas estaria ele nos dizendo a verdade? Minha filha não entrou naquele avião, tenho certeza disso agora. É isso que gostaria que investigasse para mim, Sr. Walker.

— Suspeita de seu genro...

— Sim, é o único que vai tirar proveito da morte dela. Era o único que tinha um motivo, portanto. Sem nos esquecermos do fato de que ela o havia acusado na noite anterior ao acidente.

— Está bem, Sra. Rotherham. Alguma coisa aqui dentro me diz que tem razão em suas suspeitas. Não me pergunte com base em que eu concluo isso. Só sei que acho que está certa.

— Vai investigar o caso?

— Sim, se é isso que quer...

— Sim, é o que eu quero. Tomei a liberdade de conversar com sua secretária, Sr. Walker.

Sei como trabalha e quais são seus honorários. Sei que tem casos em andamento e que talvez tenha que deixar algum deles de lado ou repassá-lo a algum amigo, para se dedicar com exclusividade ao meu caso. Assim, vi encontrar neste envelope dez mil dólares e eu lhe pagarei mais quinze, quando me trouxer uma conclusão. Estamos de acordo?

— Era o tipo de gente com quem eu gostava de negociar. Para mim eu tinha um caso. Um caso realmente enrolado, mas interessante e irrecusável.

Saí da casa de Ethel Rotherham pouco depois das seis horas. Entrei em meu carro, apanhei meu gravador e fui ditando tudo que julgava importante no que ela dissera.

Eu tinha ali uma porção de pistas e, ao mesmo tempo, nada. Fui para o escritório. Pearl já havia ido embora. Entrei e tranquei a porta. Venice ainda estava no trabalho. Saía às dez.

Trabalhava como supervisora numa loja de conveniência, aberta vinte e quatro horas.

Assim, eu tinha tempo de analisar aquele caso cuidadosamente e depois ir apanhá-la para jantarmos. Afinal de contas, eu tinha dez mil dólares e a chance de ganhar mais quinze. Estava sem dívidas e com dinheiro aplicado. Não precisava de carro novo nem de barco novo. Tinha tudo isso já. Talvez mudar para um apartamento maior e convidar Venice para ir morar comigo.

Era uma idéia que vinha passando por minha cabeça. A maior parte do meu tempo livre, eu passava com ela. Exceto uma vez ou outra, quando precisava ficar sozinho, então ia para o meu apartamento e ficava lá, escondido de tudo e de todos.

Apenas por esse detalhe eu retardava aquela decisão. Um lugar para me esconder era quase que uma necessidade para mim.

Apanhei um bloco de notas e ia começar meu trabalho, quando o telefone tocou. Pensei que fosse Venice e atendi prontamente.

— Uther, sou eu, Sam — falou meu amigo policial, com sua voz inconfundível.

— Olá, Sam! Está saindo tomar uma cerveja? — indaguei, porque às vezes ele me convidava para irmos até um bar de tiras, em Santa Mônica.

Era o único lugar onde um tira podia beber sossegado, sem correr o risco de receber uma bala pelas costas de algum membro de gangue.

— Estou com vontade, Uther. Isso aqui está cada vez mais difícil. Sabe o rapaz que está envolvido no desaparecimento daquela garota?

— Tino Gonzalez?

— Sim, esse mesmo... Acabou de ser solto.

— Diversas testemunhas e aquela história toda?

— Isso mesmo. E o advogado é um figurão da cidade. Sujeito importante. Só trabalha para gente que paga caro.

— Puxa, essas gangues estão ficando organizadas mesmo, não?

— E como. Só que não dou muito tempo de vida para esse sujeito. Logo alguém da gangue dos Shades vai pegá-lo. A cabeça dele vai estar a prêmio e a diversão da semana vai ser acertá-lo.

— Esta cidade está ficando muito violenta, Sam... Por que ainda estamos aqui, hem?

— Porque adoramos esta porcaria, Uther. Essa é a verdade. Vamos tomar a tal cerveja?

— Não, sinto muito. Tenho um compromisso com Venice esta noite. Vamos jantar juntos.

— Mas hoje é segunda-feira ainda, Uther. Você está mesmo caído por essa garota, não?

— Estou começando a acreditar que sim — concordei, desligando.

Mal havia posto o telefone no gancho, ele voltou a tocar. Pensei que, desta vez, fosse mesmo Venice.

— Uther Walker, por favor — pediu uma voz feminina que identifiquei logo como a de uma secretária.

— Ele mesmo! — respondi.

— Um momento, por favor, o Sr. Flushing vai falar.

Enquanto ela transferia a ligação, fiquei pensando no que estava havendo agora. Eu mal havia saído do apartamento de Ethel e seu genro já me ligava. As coisas estavam começando a acontecer.

Fiquei curioso para saber o que ele tinha para mim.

— Walker, sou Archibald Flushing. Poderíamos falar de negócios? — indagou ele e seu tom de voz era muito convincente. — Sabe quem eu sou e eu sei quem você é. Tenho uma proposta que pode ser interessante para nós dois — foi dizendo ele, sem meios termos.

— E o que representa essa proposta? — eu quis saber.

— Gostaria de discuti-la pessoalmente. Estou no escritório de exportação de minha empresa, fica em...

— Eu sei onde fica, Flushing. Li uma interessante reportagem sobre você hoje.

— Acha que pode vir aqui? Estarei a sua espera.

Concordei.

Estava intrigado por ele ter agido tão depressa. Na certa tinha alguém no apartamento de Ethel, que lhe dava as informações sobre tudo que acontecia e que falou de minha visita.

Depois, ele agira rápido. Em pouco tempo parecia ter levantado a minha ficha e ficado preocupado com as referências.

Com certeza temeu ter-me como seu adversário. Outra coisa curiosa era a maneira como ele se referiu à indústria. Ele disse que estava no escritório da empresa dele. Não era de Ethel Rotherham, mas dele, Archibald Flushing.

Ficou imaginando que espécie de negócio aquele homem poderia lhe propor.

Considerando que Archibald poderia estar perseguindo um alvo de meio bilhão de dólares, qualquer negócio com ele poderia atingir facilmente uma soma de sete dígitos.

Conferi o endereço do escritório na reportagem. Ficava em Seal Beach, em linha reta ao prolongamento do quebra-mar da baía, num elegante prédio, cuja construção fora duramente criticada pelos ecologistas, que não entenderam que uma indústria química próxima de uma baía poderia não representar um perigo, desde que os mais modernos sistemas de segurança fossem usados. Pelo menos era o que dizia a reportagem.

O prédio tinha em seu subsolo imensos depósitos de material altamente poluidor.

Mas isso não era problema meu. Interessava-me saber o que ele queria comigo.

Eu estava tranqüilo quanto ao horário. Só veria Venice às dez e ainda nem era oito horas.

Apanhei meu carro e fui para Seal Beach. Quando cheguei na portaria do prédio, havia sido feita a substituição do pessoal e ninguém encontrava a autorização para eu subir.

A secretária e o pessoal do escritório já haviam saído e o porteiro não conseguia encontrar Archibald.

— É só mais um momento — pediu o porteiro, anotando meu nome em uma ficha.

Pouco depois, um homem ainda vestindo seu sobretudo desceu do elevador e atravessou o saguão na direção da porta.

O porteiro registrou sua saída.

— Posso saber o que é essa ficha aí?

— Controle de entrada e saída do pessoal.

— É feito dia e noite?

— Dia e noite.

— E o chefão, aí não consta se ele já saiu?

— Não, não consta, porque ele entra pela garagem do prédio. Ele e alguns empregados privilegiados.

— Os peixinhos do tubarão — brinquei e ele riu.

— É, os cupinchas do homem.

— Mas não pode ser perigoso isso?

— Não, porque poucos tem o controle de acesso. Além disso, há um circuito interno de tevê que é ligado todas as vezes que um carro entra ou sai da garagem.

— Interessante!

Naquele momento tocou o telefone interno. O porteiro atendeu. Era alguém autorizando que perguntava por mim, depois me autorizava subir.

— Último andar — disse-me o porteiro. — Alguém estará esperando por você no corredor.

Agradeci e fui tomar o elevador. A imponência do prédio era realmente de estarrecer. Se tudo aquilo havia sido construído com a inteligência de Archibald, eu tinha que dar a mão à palmatória. O sujeito era mesmo inteligente, observei eu, enquanto esperava o elevador.

Quando ele chegou e eu fui entrar, deparei-me com nada mais nada menos que Tino Gonzalez, o marginalzinho que eu vira na cadeia naquela manhã.

Ele me olhou com desdém, medindo-me de baixo para cima, com cinismo e desdém.

Fez um movimento suspeito, como se fosse retirar alguma coisa do bolso traseiro. Eu já estava com a mão por dentro do paletó, segurando a coronha de uma pistola Colt 45.

Ele sorriu e trouxe um lenço vermelho, com o qual limpou acintosamente o nariz, voltando a guardá-lo.

— Você se move muito rápido — comentei.

— E você está em toda parte — devolveu ele, passando por mim roçando seu corpo ao meu provocadoramente.

— O que faz aqui? — indaguei.

— Trabalho aqui — falou ele, para minha surpresa.

— Isso eu pago para ver — disse eu, entrando no elevador e apertando o botão do último andar.

Ele ficou parado ali, olhando para mim com um sorriso de desdém nos lábios, como se fosse o sujeito mais esperto e inatingível do mundo.

Quando cheguei ao vigésimo quinto andar e a porta se abriu, deparei-me com o próprio Archibald me esperando. Não era nada diferente do que eu vira na foto. Vestia-se com elegância e usava sapatos que pareciam de vidro, de tão polidos que eram.

Cumprimentou-me estendendo a mão, depois bateu-me nas costas, apontando uma porta aberta no corredor.

Caminhamos até lá como dois bons amigos, mas não trocamos nenhuma palavra, mas liguei o gravador que trouxera comigo.

— Aquele é Saul Routledge, meu advogado e amigo pessoal — apresentou-me ele a um homem também muito bem vestido, de meia-idade, que se levantou e veio ao meu encontro, estendendo a mão.

Tudo parecia muito adulto, muito cordial e muito racional, como se fôssemos discutir negócios mesmo.

— Por favor, sente-se, Sr. Walker — convidou-me o advogado, apontando um lugar na mesa de reuniões.

Ele se sentou ao meu lado, enquanto que Archibald ia se sentar na ponta da mesa, como se não fosse participar da reunião. Reclinou em sua poltrona e ficou olhando para a nossa direção.

— Sr. Walker, sabemos que esteve na residência de Ethel Rotherham esta tarde e que ela o contratou para um trabalho. Deve ter ouvido a versão dela e julgado coerente, já que aceitou o caso. A princípio julgamos que fosse mais um aproveitador, mas tomamos o cuidado de tomar algumas informações e todas nos revelaram que é um profissional sério, competente e honesto... —discursou o advogado.

— Certo, mas onde isso nos leva?

— Tenho aqui uma cópia da petição que apresentamos ao juiz esta tarde, pedindo a interdição da Sra. Rotherham por senilidade. É um procedimento que visa protegê-la e proteger seus bens.

— Logicamente Archibald está sendo indicado o curador de todos os bens...

— É claro, afinal, ele é o único parente e já demonstrou ter capacidade para isso — disse o advogado, pondo uma porção de papéis diante de mim, inclusive uma cópia da reportagem que eu já vira. — Encontrará aqui também alguns laudos de médicos que examinaram a Sra.

Rotherham, declarando que ela representa um perigo para si própria, por isso a solicitação de interdição. Acreditamos que o juiz já tenha se pronunciado neste momento, considerando a gravidade da situação.

— Tudo muito conveniente, rápido e limpo — elogiei.

— É como tem que funcionar a lei, Sr. Walker, senão não é lei. Justiça tardia pode não ser justiça.

— Em resumo, tudo o que ouvi dela hoje à tarde não tem sentido. É fruto da imaginação dela...

— Exatamente! — afirmou o advogado, encerrando sua parte.

Archibald fez um sinal para Saul Routledge, que retirou um envelope de sua pasta, pondo-o na minha frente.

— Não sei quanto combinou que seriam seus honorários com minha sogra, Sr. Walker, mas nesse envelope há vinte e cinco mil dólares como indenização pelo seu trabalho.

Considere-se demitido.

Pensei por instantes. Aqueles homens estava muito seguros de si.

— Eu gostaria de ouvir isso da própria Sra. Rotherham — eu disse.

— A partir da decisão do juiz, eu represento os interesses dela. O que eu disser terá a mesma validade legalmente.

O advogado concordou com um movimento de cabeça.

— Eu recebo vinte cinco mil sem precisar fazer nada? — indaguei.

— Exatamente. Nada mau para um dia de trabalho, não acha?

— Não poderei voltar a falar com ela?

— De forma alguma. Ethel será levada a uma clínica especializada, onde receberá os melhores cuidados que o dinheiro pode pagar.

Fiquei olhando para aquele envelope. Existe uma coisa chamada princípio, mas existe outra chamada bom senso. Princípio seria eu recusar aquele dinheiro porque não o estava recebendo da cliente original.

Bom senso era perceber que eu teria como contestar o poder legal que ele tinha de me destituir. Num caso onde o cliente se arrependia antes que eu concluísse as investigações, eu sempre negociava uma indenização pelo envolvimento inicial e coisas assim.

Receber os vinte e cinco mil era lógico e decente.

— É o melhor a fazer — disse o advogado.

— Ok, acho que vocês têm razão — afirmei, apanhando o envelope e guardando-o no bolso de meu paletó.

Em um caso como aqueles, quando se estava envolvido com forças poderosas demais como eram aqueles dois homens juntos, a melhor estratégia seria sempre concordar e aceitar, jamais enfrentar.

Aceitando a oferta eu os deixava tranqüilos e eles não precisavam se preocupar comigo nem tentar qualquer ação para me afastar de seu caminho.

— É mesmo um homem inteligente, Sr. Walker. Tenha uma boa-noite — disse-me Archibald, enquanto o advogado juntava os papéis, guardava-os na sua pasta e afastava-se na direção do outro, deixando-me sozinho.

Concluída a negociação, eu voltava a ser nada e não merecia nem um gesto de despedida ou de cortesia. Os dois começaram a conversar outra coisa.

Levantei-me e caminhei na direção da porta. Eles falaram alguma coisa que eu tive certeza que era sobre mim, depois riram. Não consegui ouvir o que era, mas isso me aborreceu muito.

Fui tomar o elevador e descer para o saguão. Naquele dia eu recebera trinta e cinco mil dólares. Os dez mil de Ethel com mais vinte e cinco de Archibald.

Os dois envelopes pesavam em meu bolso, incomodando-me. Tino Gonzalez estava lá fora, conversando com alguns membros de sua gangue. Quando me viu, calou-se e me olhou fixamente.

Encarei-o por instantes, depois fui apanhar meu carro. Ele conversou com dois rapazes.

Eles se afastaram rapidamente e entraram num carro parado ali perto. Quando saí com o meu, eles me seguiram.

Bem, meu amigo Sam Rudge sempre me disse que a única maneira de enfrentar bandido era demonstrar poder de fogo maior que o deles.

Eu sempre achei esse um bom conselho. Eu tinha trinta e cinco mil dólares no bolso e um encontro com Venice. Não queria perder nenhum deles. Por isso apertei o botão lateral do banco do passageiro e ele se deitou para frente.

Estendendo ao braço para trás, apertei uma trava no meio do banco traseiro. Ela estalou e uma gaveta avançou. Havia ali um fuzil AR-15, com um pente superdimensionado de trinta e duas balas, presente de um técnico da Polícia, amigo meu e de Sam.

Tinha também uma escopeta, calibre doze, com seis cartuchos e carregamento automático.

Cada cartucho era municiado com seis esferas de aço. Se o carro deles não fosse a prova de balas, eles iriam se dar mal.

Não me desesperei nem acelerei demais. Estávamos numa rua razoavelmente movimentada e eu não queria iniciar um tiroteio com tanta gente por ali, apesar disso nada significar para meus perseguidores.

A todo momento metiam-se em brigas onde sempre sobrava para os inocentes espectadores.

Engatilhei a escopeta e tomei o rumo da Via Expressa San Diego, com seus elevados seguros para a população comum lá embaixo. Naquele horário havia pouco movimento. Eu torci para encontrar algum carro de Polícia por ali, mas não aparecia um.

Peguei o celular e liguei para o Distrito. Expliquei a situação para o meu amigo Sam.

— Uther, onde está você agora? — indagou-me ele.

— Na San Diego, indo na direção de Long Beach.

— Eles estão se aproximando?

— Por enquanto não, mas usam um desses carros esportes importados. No momento que desejar poderá me alcançar.

— Está com seu arsenal aí?

— Sim, já deixei a escopeta pronta.

— Acha que consigo chegar ao cruzamento com a Via Rápida Long Beach antes de você e preparar um comitê de recepção para seus amiguinhos.

— Seja rápido, então. Se eles se aproximarem, eu vou atirar neles.

— Atire e vai nos poupar muito trabalho.

— Tenho um encontro com Venice às dez...

— Esqueça, já estou saindo — disse ele, desligando.

Reduzi um pouco a velocidade para dar tempo para Sam chegar lá antes de mim. O carro atrás encostou-se um pouco mais. Vinha com luz alta, atrapalhando-me a visão, por isso mudei a posição dos espelhos retrovisores.

Senti que eles me bateram na traseira do carro.

— Maldição! — murmurei, com a escopeta no colo e a 45 pronta sob o braço.

Além disso, contava com os trinta e dois disparos do AR-15. Era muita munição.

Os bastardos estavam se divertindo atrás de mim, batendo em meu carro. Eu acelerei um pouco mais. Acho que eles suspeitavam que eu tinha uma arma das grandes.

Fomos nos aproximando do cruzamento. Eu torcia para ver o carro vermelho de Sam, um modelo especial, com um motor turbinado que faria inveja a qualquer garoto, surgir a minha frente.

Para meu desespero, no entanto, ele não apareceu e eu passei o cruzamento.

Meu celular tocou. Era Sam.

— Sam, que diabos! Onde está você?

— Vem atrás deles.

— Por que fez isso?

— Já caçou perus selvagens, Uther?

— Sim, mas qual é a graça.

— Eu vou ser o cachorro que vai espantá-los para que eles voem. Quando passarem por você, chumbo neles.

— Assim, se mais nem menos?

— O cara da esquerda tem um AR-15. Estão brincando com você. Quando quiserem vão fuzilá-lo. O que prefere?

— De repente me deu uma vontade louca de caçar perus selvagens — eu disse a ele.

— Então prepare-se — disse ele, desligando.

Regulei o retrovisor interno para ver o carro atrás de mim. Sam pôs o sinalizador sobre o capô de seu carro, ligando-o juntamente com a sirene.

O sinal vermelho ficou girando no meio da estrada. Os rapazes imediatamente saíram para a minha esquerda e o carro deles acelerou.

Apoiei a escopeta na janela. Quando eles vinham chegando, eu brequei. Vi a rajada de AR-15 passar na frente do meu carro. Mirei neles e fiz fogo, acelerando em seguida para manter meu carro quase emparelhado ao deles.

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Sam vinha atrás, com um companheiro do lado, disparando sua escopeta também.

Eu vi os rombos se abrindo na lataria do outro carro que, de repente, guinou para a esquerda e começou a capotar.

Eu e Sam freamos ao mesmo tempo, observando os faróis do carro esporte formarem um estranho carrossel no meio das pista, enquanto faíscas voavam da lataria.

Ele se chocou com um posto de iluminação. As luzes de toda a pista se apagaram, mas pareceu que o dia havia chegado, quando o tanque de gasolina explodiu e uma enorme bola de fogo subiu para o céu como um balão.

Paramos a uma distância segura, observando o fogo devorar rapidamente o outro carro.

Sam se aproximou com a escopeta na mão.

— Rapaz, que peru burro — disse ele, após pedir ao seu parceiro que controlasse o tráfego.

Curiosos ameaçavam parar e transformar aquilo num espetáculo. Consultei meu relógio.

— Tenho um encontro e um jantar marcado com Venice. Vai precisar de mim?

— Pode ir, mas depois quero saber por que eles estavam atrás de você. Pode me procurar amanhã?

— Grato, Sam — eu disse, fazendo menção de ir para o meu carro.

Lembrei-me de algo, então e me voltei para ele.

— Sam, como é o nome do advogado que libertou Tino Gonzalez hoje? — indaguei.

— Saul Routledge. Quando precisar de um sujeito esperto e poderoso, fale com ele.

Naquela noite, depois de toda aquela movimentação, eu sabia que não seria uma boa companhia para Venice e ela percebeu logo isso. O que eu precisava, na verdade, era isolar-me para pensar sobre aquele caso. Havia uma porção de respostas soltas no ar, necessitando apenas as perguntas certas para se tornarem elucidativas.

Fomos jantar. Todo o tempo eu pensava no que tinha reunido em meu gravador, naquele dinheiro em meu bolso e na perseguição daquela noite.

Tino teria mandado seus amigos atrás de mim por iniciativa sua, pessoal, por algum tipo e vingança por eu o ter incomodado na cadeia, ou aquilo fazia parte de um outro plano, possivelmente elaborado no alto daquele prédio, entre Archibald Flushing e seu esperto advogado?

Assim, pouco depois da meia-noite eu estava em minha escrivaninha, no meu apartamento, com uma garrafa térmica de café e o gravador.

Liguei-o e fui tomando notas. Eu havia gravado o que havia de importante na conversa com Ethel e toda a minha conversa no escritório de Flushing.