Alívio da Alma por Bruno Grossi - Versão HTML

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A dor das palavras

é o Alívio da Alma”

O Escuro

Na poesia há tristeza

Ela amarga

Ela fere

Uma febre

Vertiginosa

O consome

Teu corpo sai

Das entranhas das palavras

Uma poesia feita de dor

Imóvel, estática

Como o labirinto

Dos incompreendidos

Sem dizer o seu nome

Sem fugir dos seus pensamentos

O abismo o aguarda

Desumanizando a solidão

O escuro o trai

Como uma pedra

No deserto melancólico

De seus versos

O silêncio

Silêncio...

Eis que sinto a pulsação do corpo

Meu peito pulsa como um tiro de melancolia Meus olhos se fecham

Sinto meus pés se distanciando do chão

Meu corpo se esvai

Por entre as cores dos céus

E minha alma flutua

Perpassando a imensidão

O reino para além

Elegia à Florbela Espanca

Espero... espero

De flores belas

De saudades e dores

Em meio a um negro dominó

De lágrimas

A beleza do amor

Que triste a permeia

Num tormento ideal

Como um livro de mágoas

Sua alma trágica e doente

Como um soneto ao vento

Angustia, despedaça, duvida

Tropeça em sombras

E em mãos vazias

Numa crise existencial

Numa tênue luz

Consumindo o seu próprio espírito

Num insaciável amor

As horas de Voyeur

Vejo as luzes se apagando

Os olhos se tocando

Como uma música nos meus ouvidos

O toque delicado

O ato viril

De um casal em chamas

A janela como espelho

De um calor sorridente

Como flores na primavera

As cores se anunciam

7 toques, 7 vidas, 7 cores

Dois corpos e pelos nus

O encontro fálico de seus membros

Uma imagem que desperta o interesse

O fim imprevisível

As horas de voyeur

O limite

Eis que surge o limite

O limite da vida

A agonia da alma

O segundo ínfimo

Da dor do passado

O momento retrátil

Do último suspiro

O alcance fugaz

No caminhar enfraquecido

O corpo molhado

De esforço e ingratidão

Os olhos inválidos

O coração vital

O sangue vívido

De um ato vital

A menina

Elegia à Lygia Fagundes Telles

De mãos atadas

Uma mulher por seus direitos

A harmonia de palavras

Sobre o mundo, sobre a vida

Pontadas em um coração

Como um forte golpe de esgrima

Em um país duro, gasto

De enfermos corpos vazios

Sua alma descansa em seu lar

Sua memória, suas lembranças

Uma ciranda de vertentes

O sentido da maturidade

Exala a serena sabedoria

De esperar a límpida

Vocação de escrever

As solidárias palavras

São como ver o pôr-do-sol

Em um imagético muro

Ludibriado pela fantasia

De viver

Caminho das pedras

O sol brilha na manhã

Através de meus braços

Mostra-me os horizontes

E meus ancestrais

Há flores vivas na janela

E o tempo a flutuar

Lá fora o dia clarea

E um novo sonho acontece

A água corre pelos rios

Onde cobras são aves

Onde a estrada é real

E as trilhas de terra

O caminho das pedras

Enrijecendo o acreditar

Lavando a alma

Fortejando o coração

Liberdade

A euforia diurna

Tão logo desperto-me

E meus ofuscados olhos

Se acendem

A brisa leve

O empurrar das nuvens

O assobio do vento

Em meus ouvidos

Dispõe-me à verdade real

Em meio ao verde ácido

Da alarmante liberdade

O frio em minhas mãos

E uma caneta como incêndio

Flores vislumbradas da manhã

Num passo de baile

O sol regressa

Em meus fugidios olhares

Parece-me solitário

Mas é a pura liberdade

Absorto

Absorto

No suor dilacerante

Ao extremo pesar da poesia

Onde dói, onde divaga

Um desconserto mental

Que não cede

Nem nunca pára

Nem desfalecido de morfina

No corpo um fardo

Por alimentar em letras o sentido

Nem tintas em demasia

Nem lágrimas no leito

Afoga-se em palavras

Tão doces e pesadas

Como da verdadeira

E sincera poesia

O tempo

Não me canso de escrever

Nem de pensar

Como uma metralhadora

Inebriante de incertas

E desejosas fontes

A chama que mata

É a mesma que enaltece

O saborear da vida

Em repletos frenesis

Outrora guardiã

Outrora vilã

Duas faces, duas rotas

Em um pálpito inocente

Que já fostes tão amargo

E agora puro

Acalanta o sofrer

Em sabedoria

Espúrio

O galgar dos passos

E um toque suadouro

A setilha engasgada

Ao entardecer

O zombeteiro falso

Num cético sorriso

Peremptório

No solar da majestade

Os tambores findam os versos

Em finórias palmas

Extasiando os reinos

No espúrio da noite

Glosa

Em quantas palavras

Escrevo as páginas da vida

Mentes flutuantes

Ao pesar do amor

De viver a reentrância

Num altero saber

O amor primeo

O atemporal amor

De vidas sinceras

De vidas vazias

De tristezas e angústias

De versos reprimidos

O anódino futuro

Corações vivórios

Repartidos em alegria

No culto viver do presente

Em meio ao mistério madrugoso

De dia após dia

Num pomposo caminhar

Haiti

Prata... é como o vejo

O claro brilho inocente

De toda uma lágrima

Branco como neve

De encontro com o mais

Forte contraste com da pureza

O negro luto se encaixa

Por toda solidão

De um triste mundo

A esperança turva

De cores que nem sei o nome

Se desgasta

E o vermelho

Cobre o mar de pedras

Por sobre os corpos

O Sonho Torto

Eis que vejo um sonho torto

Covarde, voraz e calado

Um sonho triste

Permanecente do futuro

Estrelas que se perdem

Em pequenos olhos cegos

Na calma do pensamento

Que não teme a cura

O claro vazio nos permite

O ofegar das horas vagas

O extermínio dos corpos fechados

O abrir das mãos vazias

O caminhar na estrada escura

O medo e a penumbra

Os passos no triste impacto

Dos sonhos que descobrem os dias

Escriba

O que esperar

De tintas e pontas

De pena num papel

Que não se pauta

Como num pensar

De olhos mordazes

E pétalas de orvalho

Caídas em vinho

Cor de sangue

Nas pálpebras

De um brindar?

O levantar de um gole

A dor maleável

Que se torna tênue

A um diáfano olhar

A sombra

Elegia à Augusto dos Anjos

Eu

De alma insígnica

Um suor fônico

De encontro com a morte

Melancolia transmutada

Num ardênico olhar

Coração ilusório

E um ar de sofreguidão

Eu

De almas perdidas

De vidas caídas

E ávido pensar

Na noite me encontro

Na madrugada me alimento

Nos dias vou-me embora

E na sombra eu me deito

Angústia

Outrora

Na visibilidade da alma

Meu peito

A calma

No silêncio

Eu deito

E choro

Meia noite no inverno

O homem mata

O corpo treme

A mão navalha

A dor poente

O tempo cura

A calma é dura

No ludibriar

Da alma impura

.

.

A noite fria

As mãos fálicas

Cálidas, gélidas

E profanas

Um rosto dilacerado

No púlpito terror

Da eloqüência sacra

Os pés descalços

O rastro obstinado

A fúria mental

Os olhos sórdidos

Frases malsoantes

Alienação mútua

Ventos secos

Gestos ilícitos

Sombras mórbidas

Devassos toques

Passos largos

E um quixotesco amor

. ...

Há dias difíceis

Desenhados no percorrer

Das lágrimas

Que vão de encontro ao peito

Nos linfáticos olhos

Coração lacunar

Pensamentos fluidos

No esmaecer das horas

A lua permeia o olhar

A chuva umedece

A estrada vazia

E o caminho cheio de dor

. Adeus

A vejo sorrindo

Como se não o quisesse

Sua mão em sua testa

Franzida e suada

Como quem sua

Num estado fatídico febril

Eu me deparo com o seu olhar

O olhar insano de quem

Não precisa mais viver

Tuas pálpebras descem lentamente

Como se estivessem

Profundamente sonolentas

Uma lágrima escorre

Como uma única palavra...

... adeus ...

Um coração oprimido

Elegia à Augusto Boal

O dia que se vai

Ao derradeiro leito impermeável

Um corpo, um monólogo

Um coração oprimido

O peito aberto para o povo

Uma arena em chamas

Devaneios sociais, políticos, outrora

E a arena continua em chamas

Representação mútua

Lágrimas insanas

Sorrisos claustrofóbicos

Um insubstituível coração

.

Desilusão

Os ventos da era doce sagrada

Trazem lembranças do fastio

Os sinos tocam às seis da tarde

E eu me deito no jazigo

As cores do meu corpo

Os brilhos dos meus olhos

São cartas que se despedem

Do revoar da vida

Como um velho suicídio

Ou um corpo iluminado

Um sonho transfigurado

Com um cheiro podre

O Caminho

Os pés descalços

Impermeabilizados pelo sangue

Feridos e impotentes

Como as folhas de outono

Ou o brilho da primavera

A saudade o permeia

O contradiz, o emputrece

O caminho sem volta

A plenitude do olhar

Inóculo e obscuro

Das pedras do caminhar

O som do silêncio

Meus olhos estão tristes

O vermelho do sangue

Parece névoa a neblinar

Caminhos opostos

Horas desiguais

Não tem para onde seguir

Nem para onde olhar

A escuridão me devora

O chão se abre

E as tormentas soam

Ouço a canção mais bela

O som do escuro

O som do nada

O som da morte

O som do silêncio

O som do trovão

As luzes estão apagadas

Não vejo nada

Ouço o gotejar da chuva

Ecoar por entre a serra

O verde transforma em negro

O azul transmuta em cinza

E o simples clarear dos raios

Suspiram como trovão

Gritos, sussurros e espasmos

Ensurdecem o olhar

Revigoram o calejar das almas

Num perdido caminhar

Galhos vazios

Como um corpo pedindo frente

Abraçando os dias

Correndo como o vento

Do outro lado

Quero que se vá

Quero que me largue

O vazio escuro

Que invade meu peito

Corrói por entre as horas

A noite não passa

Não consigo dormir

A lembrança me dói

Sinto sua falta

O vejo todas as noites

Ao fechar dos meus olhos

As lágrimas me cegam

E me faz lembrar

A dor da perda

As 7 faces

Elegia à Carlos Drummond

de Andrade

Um corpo cai

Pela frígida alma

Que tropeça em teu ser

Uma pedra

Um coração

As mãos dadas

Pela angústia

As 7 faces

As 7 pedras

Um sentimento

Pelo escasso mundo

Um vestido

Um prego

À espera

De um amor

Eterno

O sonho

Os sons que me calam

O medo de prosseguir

O intelecto quebrado

O sonho cortado

Severos dias oblíquos

Momentos de dor

O calor nas horas de frio

As dores que vem do riso

Os dias infames que vejo

Os olhos que me apedrejam

O mais sábio segredo

Nos sonhos que nunca mais tenho

O gorjeio da alma

A noite cai

Meus olhos serrados ao alto

Vejo o que os olhos

Não poderiam ver

À luz do dia

O silêncio

Os passos na calçada

A luz que perpassa

Por entre a janela

A triste rua

O corpo vazio

O olhar cego

E a voz temporã

Eu olho para o lado

E vejo o futuro

A alma pura e secreta

A luz que gorjeia

Na mais bela flor

A falta de luz

Elegia à Rimbaud

A poesia é triste

Mas não mata

Os teus olhos

Surrados pelo mundo

Uma cicatriz

Que já não mata

Um corte profundo

A falta de luz

Incrédulo

Vejo a noite pela janela

Como quem vê o envelhecer da alma

Observo a calmaria

O choro dos infelizes

O brilhar da madrugada

O sopro no olhar

E não vejo ninguém

A TV não sintoniza

O rádio já não fala

O cérebro não mais pensa

A luz da vela me atrapalha

México, Israel

Palestina, Iraque

Já não tenho mais notícias

Já não me importo mais

Estou cego, estou surdo

Em que me transformaram?

O que eu me tornei?

Já não entendo mais

Fecho os meus olhos...

Adeus

A Palavra

A palavra que se fala

O olho que se vê

A boca que não sente o gosto

Cabeça que se entende

Entende o que se pensa

O pé que já não anda

A língua que se sente

O braço que abraça

A mão que já não escreve

O jeito que se vende

A venda que se paga

A grana que já não compra

O corpo que se fala

O toque que se sente

O dedo que já não toca

Evanescer

O tempo está curto

E a vida se prolonga

Tempos difíceis

Para um novo jogo

Terra em transe

Momentos de dor

Momentos de penumbra

E um só calor

Calor de viver

De amar

E ver que um dia

Tudo irá acabar

Íris

Elegia à Íris Murdoch

Tuas mão

Perplexam a noite

Peroxidam a alma

Os passos na estrada

A chuva cai

Sem dizer o seu nome

As poças se reúnem

Para um pequeno altar

As pequenezas se proliferam

Os olhos

Afastam-se ao amanhecer

O segredo cai

A máscara se entristece

E um corpo

Há de enlouquecer

Pétalas Negras

Oh pétalas negras

De rosas deslumbradas

Víis ao delirante crepúsculo

Que permeia o teu olhar

Fazei das palavras

Uma arma, como a poesia

Que distrai os fósseis olhares

Caídos e cobertos de sangue

Corroídas palavras

Nebulosas mentes

E tempestuosas mãos

Guardai os sentimentos do mundo

Fazei a súplica do amor

Tornai verossímil a nossa alma

.

O grão imastigável

Elegia à João Cabral de Melo Neto

Palavras que sustentam

Como um nobre seguidor

Em folhas de papel recém rasgadas

Frases regurgitadas

Pensamentos soltos

Metáforas sempre gastas

Catar a alma

Saborear o incomível

Absorver o feito

Catar feijão

Catar o indigesto

Catar Cabral de Melo Neto

Semear o dito

Colher o inefável

Degustar

O grão imastigável

Perecível

A casa está vazia

Sinto corpos invadindo os corredores

Prezo pela liberdade

Pela paz de espírito e coração

Sinto o fluxo do vento penetrando em meus ouvidos

Meu cérebro parece não mais pensar

Corrosiva reflexão

Olhos famintos de ódio e ingratidão

Consumir a peça que nos é dada

é como não sentir o sensitivo

é como não chorar o degradante

é comer o não faminto

é o amor latente sem doer

é a paz de estar morto

A irmandade das flores

No alto da serra

O vento uiva como lobo

Nas pedras, nas flores

O semear da vida

A aurora dos tempos

Um corpo caído

O ofegar dos olhos

Na vertigem dos dias

Um olhar fugidio

A esperança vazia

A fronteira distante

E um caminho perdido

O tilintar dos dedos

O estender das mãos

O medo, o sopro

No coração o surto

O mal arredio

O pensar extremo

O frio aquecido

A fuga do calar

As flores oferecidas

O abraço verossímil

A condição humana

A irmandade das flores

Eu tenho Medo

É o vazio que invade o peito

É a loucura que alimenta o medo

É o universo sem o desespero

Sono profundo que não tem sossego

Eu tenho medo do meu caminhar

Eu tenho medo do meu sussurrar

Eu tenho medo é do meu chorar

Eu tenho medo que é pra me cuidar

É o desespero que me rasga o peito

É essa chuva que provoca medo

É a vertigem que não tem mais jeito

É a verdade sem o exagero

Eu tenho medo só de me olhar

Eu tenho medo do meu levitar

Eu tenho medo de me encontrar

Eu tenho medo do meu despertar

Fala

O fluxo do ouvido está travado

Não ouço, mas escuto o que eu falo

Vejo o que não posso

O que se preza

Não mata, não dorme, desespera

O gosto do silêncio está fechado

O grito do sufoco está calado

Calmo, vivo, não enxerga

Já não come, não engole

Espera

O homem que não pensa está ferrado

Ferrado pelo corpo

Pelo ato

Não pensa, descansa

Não se cala

Como mero semelhante

Não entala

O olho do umbigo já não fecha

A boca do sussurro já não fala

Cactos

A sombra me persegue

Sob a névoa

Não consigo me mover

Sou incompreendido

Preso em um muro

Ou em meu próprio pensamento

Meus olhos já não fixam em algum lugar

Como a lua para pra te olhar

Estes vilipendiados olhos

Doem, choram e imploram

Para que fiquem sós

Não consigo me livrar

Do infortúnio calar

Sinto pessoas a me olhar

Como um animal devora

A sua insípida carniça

Creio que irão matar-me

Sinto-me desprotegido, frágil, inútil

Sinto-me sem amor, sem dor e sem desejo Já não sei o que fazer

Procuro a solidão

Para que a minha trágica energia

Não contagie as pessoas.

Para que o meu olhar

Não cruze com os demais

Assim terei meus próprios sentimentos

Meu próprio coração

Que a cada despertar

Encontra o silêncio

Estou surdo e cego

Estou inválido

Submeto-me ao inoportuno desespero

Ao incômodo calar

Viver agora dói

Não mais a quero

Mulher

A flor que um dia chorou

Perfuma uma nova mulher

O tempo em que silenciou

Não sobrou um vestígio sequer

Nos olhos, nos beijos e abraços

Uma forte mulher ficou

Em braços de ferro e aço

Nos mais belos dias gritou

Sou forte, sou estrela e lua

Por mais que pareça nua

Sou honrada em dizer-lhe não

Sou glória, sou vida e futuro

Por mais que eu esteja no escuro

Eu tropeço, mas não caio no chão

Últimos Minutos

Para meu pai

Eu vi você

Parado ali

E me deu sua mão

Eu o toquei

Não mais o vi

Na escuridão

Quando penso em te falar

Sobre meu coração eu volto atrás

Eu não pude te mostrar

E uma gota caiu do seu olhar

Eu não posso ver

Você aqui

Só uma solidão

Um sorriso para mim

Um brilho, um olhar

E um só coração

Mais um gesto, um olhar

Em uma chance fazer você amar

Sua vida, seu lugar

Em uma estrada eu vou te encontrar

Sonata do Males

Elegia à Beethoven

Doravante há o crepúsculo

Um solar vespertino

Na dádiva de um gênio

Com o olhar cântico

Uma serena dor

No alumiar das velas

Uma mão trêmula

A alma pútrida

De um notório ser

Causticante como o sol

O vento

Como o sopro dos Deuses

O silêncio há de envolver

Sua alma ao cantar

O ego

A mágoa diluída

A volúpia sonora

A sonata dos males

De que me importa ser um rato

De que me importa ser um rato

De cores limpas sem compaixão

Dócil, adestrado, mas de vísceras ao chão De que me importa ser um rato

Seja livre, de bigode ou não

Ágil, num jardim de patas ao chão

De que me importa ser um rato

De dentes afiados para um mundo de cão

Sem dor, fome ou sofreguidão

De que me importa ser um rato

Criado em casa, no frio ou no porão

Se penso, falo, dito, lamentação

De que me importa ser um rato

Se vivo para mim e não para a multidão

Se causo repulsa, fomento ou não

De que me importa ser um rato

Visto como tolo pelos cidadãos

De que me importa ser um rato

Sou apenas um artista na escuridão

Clarice

Elegia à Clarice Lispector

Da janela a vejo

Como uma simples estrela

Que espera sua hora de brilhar

O intervalo

É como uma oca alma

Aguardando sua própria morte

Pobre claridade

Pobre Clarice

De alma tão amarga

E mãos tão dóceis

Uma timidez ousada

Que afaga o pensar

Flores de outono

Flores de inverno

Flôr-de-Lis em seu peito

Esperando o amanhecer

Ventura

Sonhos! Delírios! Vomitam verdade

No esgotar das horas tristes

O esgazear que já existe

Nos olhos que permanecem com a idade

O corpo que esfria em demasiado desalento Esvai-se do espúrio da morte

Ofegando em teu peito um forte

Do mais enfermo pensamento

Eis que sinto um tormento

Por mais que eu tente um lamento

Nos teus olhos a solidão

A esperança me parece pura

Na sombra não acho a cura

Acolho-me em meio tufão

Vermilhões

Famigerados dias vazios

Incrédulos, incultos

Ocultos nas devassas

Um andar engatinhado

Engatilhado de podridão

Doentes, cansados

Ingratos, vedentes

Vertentes poluídas

De ódio e ambição

Corroídos e exagerados

Emaranhados vermilhões

Inaudíveis, inoculares

Letárgico coração

A madrugada

Elegia à Antonin Artaud

A madrugada fria e escura

O sussurro de uma noite

O histerismo de mais um dia

A negritude devassa cai sobre

O manto de um morto

Um morto sempre vivo

O calmo vazio inverno

Retrai o seu corpo

Em um terno olhar de desgosto

O resplandecer dos passos

A alma vangloriosa

Na mais melancólica

Madrugada

Croma

Os olhos se abrandam

Pelo semear da noite

Onde os lábios da dor

Decorrem sob os céus

A transcendente ternura

Das asas caídas

Impermeabilizam o chão

Que assim os pés caminham

Farpas e corpos

Surtos e ecos

Corrompem o caminho

Nos esquecidos lugares

Perdas sagradas se tornam

Os olhos do incompreendido

Os sintéticos dias cromáticos

Dos mais longos dias

Próprios Passos

Atrás da porta

Escutando o tédio comemorar

Mais uma vida que deixou pra trás

De olhos fechados

Tão extremos

Vejo um deserto procurar o céu

Que ele deixou

Anjos caídos

Procurando almas retorcidas

Que se despediam dos céus

Comemoram

Como cães sarnentos

Que se livram das suas mentiras,

Suas verdades

Com os próprios passos

Caminhando em círculos

Escuros como eu sempre quis

Pra fugir dessa tristeza

Que invade o peito

De quem não mais

Quer viver em paz

Fenicismo

Elegia à Nietzsche

Ah...

Onde se encontra

O trágico super-homem

Que avisto desembarcar

Na insustentável leveza do ser

No qual insiste em retornar

E retornar

E retornar

Nas mentes fálicas

Que sustentam a ingratidão

A música da vida

Nas mãos de um insultor

De almas vazias

Que toca o coração dos aflitos

Para além do bem e do mal

Corpo

O cheiro do gosto da calma

O olho que teme ao ser

O leito do corpo que mostra

O Choro da alma que vê

A ponta do passo que solta

As horas do corpo que cai

O jeito perdido que seja

Da fala que agarra e não sai

O gosto da alma vendida

O cheiro da insípida carne

Nos dias que passam e não veem

O mundo que vive e não vale

A tela do homem que mostra

O olho covarde de ser

E as horas que nunca se passam

Um corpo não pode fazer

Dias Estranhos

Os dias estão chegando

É hora de se entregar

Reformule seus conceitos

Reestruture suas ideias

Olhos Negros

Elegia à Virginia Woolf

Teus olhos procuram

Uma pequena saída

Procuram um mundo

Um próprio mundo

A desvendar

Entre almas e vidas

Entre a sanidade e o ilusório

Encontra a paz da loucura

Em seu leito, o corpo calado

De sua pobre alma

Exposta ao devaneio

No frio, na dor

O calmoso caminhar

Anelante ao encontro das águas

Descaem como undícola

Em sombrios e intermináveis sonhos

A Morte

A água que está dentro

O frasco que está fora

Não passa perto da fonte

A água que está benta

O cálice que está morto

Não mata nem abençoa

Nem tudo perdido está

Nem tudo calmo parece

Como um corpo já desfalecido

O sangue que espirra

O corte já estancado

A carne que não tão podre

A cabeça não entende

O corpo já não fala

A mente que não funciona

Malevolência

Na magnificência da tristeza

Um ardor latente em seu peito

O ressonar da madrugada

Amargura o teu ser

Saudosa malevolência

No arrepender dos olhos

Lacrimejados de rancor

O consome, o maltrata

Não perdoa sequer

Um momento infame

Do teu ardoroso coração

O Ecoar da Noite

O ecoar da noite

A destreza do olhar

As mãos cálidas sobre a mesa

e um ladino pensar

O vilipendiado amor

Um varão massacrado

Enveredando ao inconsciente

Pela vontade imprópria

A vela, o fogo

O mórbido calejar

das almas que

não param de chorar

Sylvia

Elegia à Sylvia Plath

As horas me desorientam

Eu mal consigo me mexer

Meus olhos doem, sangram

Uma penumbra invade minh’alma

Dormem e sorriem...

Meus pequenos corações

Quietos e incompreendidos

Não sabem o que há por vir

As lágrimas me consomem

Ao fim da noite

E o efeito gasoso

Corrói as minhas angústias

Inconstante

Espasmo olhar

Fixo, inconstante

No delinear da janela

O que a poderia deixar

Tão depressiva?

Tuas sobrancelhas se curvam

Teus lábios no batom

Maquiam uma falsa alegria

Perceptiva ao teu calmo piscar

Seria angústia?

Seria tristeza?

Ou seria o teu modo de sorrir?

Eu não sei...

O tudo nada

Tudo que parece ser

Nada que parece ouvir

Nada que parece ser

É tudo que se possa ouvir

Tudo que se passa rasteja, dorme

Tudo que se pega mastiga, engole

Tudo que se come vomita e cospe

O corpo já não quer esquecer

O tombo que te faça cair

O tombo já não pode esquecer

O corpo tão pesado cair

O olho que não fecha se seca,

não chora

O choro que não seca, se fecha,

não olha

A boca que não fala de certo

incomoda

.

.Casa de Reboco

Sentado em uma pedra

Ao lado se vê a árida angústia

Que medra em teu olhar

Teus pés enfraquecidos

E tuas ávidas mãos

Dóceis e calejadas

Um suor escaldante

Um silencioso olhar

Somado ao eterno calor

Que o segue por anos de vivência

Tuas terras não conseguem progredir

Só sentimentos de dor e esperança

De que um dia, o primogênito

Adquira o conhecimento

E a intelectualidade que

Privaram-lhe durante a vida

A vida que lhe consome

A vida que lhe angaria

A vida que lhe conforma

Nesta terra

Que é do tamanho do mundo

Ríspido

Elegia à Frida

Intolerável, ríspido e semântico

A aurora da vida

E o coração cediço

Embriagado de lágrimas

A blandície desumana

Ofega o pensar

Demasiado amor

Demasiado coração

Uma vontade

Bucólica de voltar

Ao desejo reprimido

Ao toque ardiloso

A arte de lutar

A ânsia de observar

A própria solitude

O próprio caminhar

.

. . .

. Guerra dos Mundos

Atenção homens

O mundo parece não mais parar

A terra roda... roda...

Roda ate perder as pontas

E seus soldados, intactos...

Intactos pelo ódio

Mas afogados pelo sangue

Jovens criaturas

Lutando por um olhar

Que não contenha lágrimas

Somente o fruto da esperança

Corroído pelo câncer

Aguardam pelo colo da mãe

Um abraço que não mais terão

Um amor incondicional

Um pudor pela alma

Uma paz degenerada

O caos

A dor

.

O Filho

Não sou filho da mãe

Não sou filho da puta

Mas se perguntares

De quem filho sou

Digo ser filho da pura

Pura alma obscura

Pura alma sem dor

Profanos e insanos dialetos

Dionisíacos dias de amor

Pode se queimar no inferno

Pode se queimar no amor

Pode perder a verdade

Ou pode se dar o valor

.

.

.

..Tristeza Embriagada

Elegia à Pollock

Demasiadas gotas

Dos fóleis pincéis

Bravamente colorem

O louco olhar

Da alma de um tolo

A efervescência do toque

Na célebre pétala

Que lhe dedica

Por toda vida

A incansável alma

Da tristeza embriagada

Ao quebradiço coração

Perpetuam lentamente

O labirinto do amor.

Da Consciência à Traumatização

Teus olhos despertaram

Ao nebuloso anoitecer

E por um instante

Seu corpo ali não estava

Pensou em Deus, pensou no Diabo

Até se deparar

Com o seu próprio pensamento, o seu próprio ser

Ficou assustado, atônito, desfacelado

Não sabia como poderia ser assim...

Tão indeciso, tão atormentado

Por quem?

Não há importância

Pois o tormento o persegue

Desde sempre

Desistiu então de pensar no quão difícil Era evitar suas visões e audições

Resolveu se contemplar

Com o que tinham lhe destinado

E então disse:

- Me suicidaram. Suicidaram-me para

um mundo diferente

no qual não se morre

apenas aperfeiçoa-se

a lunática mentalidade

Ao cair em sua própria razão

Percebe que é apenas um simples

Ser que pensa e reflete sobre os

Seus próprios insanos e lógicos

Pensamentos psicotraumáticos

De suma importância

Um ser natural que declara em

Sábias palavras o seu ardor:

“Às vezes eu choro

Choro por nada

Choro por tudo

Pareço sentir o sofrimento

O sofrimento do mundo

De uma criança sem estudo

De uma criança intelectual

Pareço sair do corpo

Um corpo ativo

Um corpo parado

A alma do vivo

Em um corpo deitado”

Pássaros

Os Pássaros agora voam.

Os Pássaros não mentem.

Os Pássaros são fiéis.

Os Pássaros não são gente.

.

Intrépido

Um intrépido saltimbanco

De um lado para o outro

Fantasia teu caminhar

Já se cansa, já se cala

Não sorri e não mais ama

Tua alma já vendida

O teu perdido olhar

Os teus dias tão vazios

Teu estrado vagabundo

Tuas roupas coloridas

Tão rasgadas de lutar

Pelo coração partido

Pelo amor e pela dor

De um dia se entregar

E assim tão muito triste

Perecerá

O Mundo Moderno

Dias de luta

Algo mais

Enquanto a terra roda

Bate as quinas

Nos cantos da constelação

.

À Livorno

Elegia à Modigliani

A paz angustiada

Um silencioso olhar

Fruições de uma vida

Na minúcia do amor

Um amor que não chora

Um amor que sorri

Para a tristeza

Para a morte

Que na epífane da alma

Pinta teus olhos de lágrimas

O Séquito Amor

O séquito amor

A insolência mordaz

Perpetuam a ingratidão

A fosforescência da dor

A inconstante razão

Diviniza a morte

A bravura incolor

O invisível sofrer

O rebuscar da alma

O martírio ininterrupto

O destoar da fúria

O gozo intolerável

Terror

A fornalha queima

Ao produzir tuas palavras

Em contos sonolentos

Negros e obscuros

Como tua alma

Obcecada pelo outro

Tua partilha de sentimentos

Hostis e satíricos

Como aquele sarcástico bicho

Transformado em gente

De patas e antenas

Aterrorizantes

O qual acabo de esmagar

Com a ponta de meus pés

Alquimia

Agora que explode todo mundo vê

As cores bem plantadas

Dentro do teu sangue

Os olhos coloriram

E as lágrimas cobriram os céus

As mãos que pareciam óbvias

Destruíram os sonhos

Que os homens já sonhavam ter

E com sede de tomar um porre

O vento que soprava forte

Trás das órbitas

As sobras da tua alma

E cobertos de sangue

Os dias calejados jogam fora

Tuas pernas amputadas

Decorrentes da sua vida

Brava e tão enferma

O Sonhador

No lago senta um sonhador

Ela leva junto a sua paz

Mostrando toda sua sabedoria

E tudo que vem do coração

Ele é perfeito

Cheio de ilusões

E como toda pessoa perfeita

Possui imperfeições

Conversa com os peixes

Discute com as árvores

Parece saber de tudo

Da vida e dos lugares

Lugares feitos de tédio

Lugares feitos de amor

Mas essa pessoa patética

É apenas um sonhador

Hoje

Avisto um escuro no céu

Um céu monocromático

As ruas fechadas despertam

O caminhar oportuno

De quem não chora

Vejo rostos felizes

Habitarem uma profunda dor

A alegria brilhando no olhar

De uma triste alma

Vejo alguns homens

Trabalhando na construção

Parece-me que não sabem

O que há por além daquelas ruas

Há crianças chutando

Pedaços de corpos

Sem ao menos saber

Do que se trata

Uma compreensão vasta

Do mundo de hoje

Ao lado vejo o sangue

Brotar por entre as torneiras

Eu me acalmo, tudo normal, tudo como antes Não se esqueça

O futuro está próximo

Quando encaramos o presente

Há dias que não sabemos

O que realmente é certo

Mas fazemos o que nos vem à cabeça

Palavras, escritos, ditados, falados

Nos mostram a cura

E nos dão um caminho

Siga, enfrente, dê uma razão

Para que tudo se torne mais fácil

É você que movimenta sua vida...

... não se esqueça

Tanto

A cabeça feita

De um sonhador

O pé andante foge

Foge...

O suor é forte

E tem cheiro grosso

De prazer da alma

Alma...

O vento é tão seco

Seco como fogo

Que se arde muito

Muito...

Com um sonho triste

Triste é humano

Que não sabe tanto

Tanto...

Pare de chorar

Agora você não está sozinha

Há alguém por trás de você

Não adianta cortar os teus braços

Isso não ajuda a viver

Por que está tão deprimida?

Será que um dia eu posso ajudar?

Me escute, não me abandone

E pare de chorar

Assim você não está perdida

É só sentir o amor por você

Não me diga que não tem mais saída

E agora pode então viver

Sua vida está tão depressiva

Já não vejo mais o seu olhar

Então me ouça, me segure

E pare de chorar

O Dom

Dizem que sou louco

Dizem que sou anormal

Chamam-me de estranho

E dizem que estou mal

Só por não dizer

Só por não falar

Só por não ter amigos

Ou deles não gostar

Assim fico sozinho

Alimentando a vista

Alguns chegam a dizer

Que sou um louco autista

Mas digo que sou bom

O que não sabem

É que tenho um dom

Anuviado

Pela janela vejo o sol multicor

Em meio à dança das árvores

Num nítido estágio de solidão

Um fugidio olhar

Um olhar vazio

De lágrimas passadas

A chance nas mãos

A dor incapaz de se guardar

Flórea em horas vagas

O soluço convulto na escuridão

Escuridão noturna do silêncio

A escuridão do abscesso

No diálogo das almas

No brilhar dos olhos tristes

Há esperança e gratidão

Autorretrato

Chove, chove muito

Eu sentado com as cortinas fechadas

Meus olhos caem num pensamento

Fraco e aquarelado

O som que ouço

Não me é entendido

O frio corrói os meus ossos

O corpo reclinado

Como se estivesse morto

Fraco, muito fraco

Nos olhos cansados o tempo

Nas paredes, telas em branco

Cores fugidias, traços magros

Atônito, fraco, muito fraco

Um autorretrato

De uma vida qualquer

Turíbulo

Cansado

Não permaneço mais

No escuro deserto de minhálma

Num lânguido passo emoldurado

Na blasfêmia da dor

Ó blasfêmia...

Que perdurastes por tantos anos

Num triste acreditar

De minha humilde inocências

Deslumbrado por infinitas

Dúvidas e saberes

Sábio aquele que enxerga

Por além da visão

Sábio aquele que salta

Antes de o trem partir

Num júbilo movimento

No turíbulo, cinzas

Que perfumam o novo ser

Como dança clássica

Num salto contemporâneo

O portal

Sinto o cheiro de poesia

Sinto o calor das palavras

Imaginai a dor de quem

As escreve tão chorosamente

Gracioso coração de festim

Armado da artilharia

De frases regurgitadas

De todos os que calam

E se escondem

Florescem de negros jardins

De ruas mudas e pálidas

Jogai ao infinito

A dúvida do pensar

A água que cairá

A angústia de viver

Para o portal que se abrirá

Um raro silêncio

No badalar das horas

Os sinos ecoam pelas ruas

Pássaros voam como aprendizes

De uma vida rasgada a ermo

Portas abertas

Passos na calçada

Volúpias do amor

Num templo sagrado

O elixir da vida

O mistério saber

A maturidade humana

Num simples olhar

Segredos de ouro

Honras e histórias

Em uma vida secreta

De um raro silêncio

Vermelho Negro

Descarrego como tiro

Em telas feito corpo

Em sátiras cores

E arabescos febris

Um sopro na janela

Em sombras furtivas

O vermelho negro

De quentes sonhos

Autobiográficos

Pintando, sofrendo

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