Alma e Sangue 01 - O Despertar de um Vampiro por Nazarethe Fonseca - Versão HTML

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 1 – O Despertar do Vampiro

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 1 – O Despertar do Vampiro

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SINOPSE:

Kara Ramos é uma jovem restauradora, determinada e espirituosa, cujo talento acaba

chamando a atenção do excêntrico milionário Gustave Rohan, dono de um antigo casarão com

fama de mal-assombrado. Audaciosa, Kara aceita o desafio de reformá-lo para realizar um antigo

sonho da família. Porem, o que ela jamais poderia imaginar era encontrar adormecida no sótão

uma criatura com mais de 300 anos, sedenta de sangue e vingança.

Mas esqueça o semblante sinistro dos velhos vampiros, a capa vermelha esvoaçante no alto

de um castelo. Jan Kmam prefere jeans negro e botas surradas. Os cabelos loiros, olhos azuis e

rosto perfeito teriam encantado Kara imediatamente, não fosse o susto e a incredulidade do

primeiro encontro.

Agora que despertou, Jan Kmam irá ate as ultimas conseqüências para se vingar de seus

inimigos. Para tanto, não hesitará em envolver Kara em seu mundo de sombras e sedução.

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INTRODUÇÃO

A máquina de escrever estava à sua frente. A folha presa no rolo continuava em branco. A

jovem fitava o teclado da máquina e tamborilava os dedos no tampo da mesa de madeira. Estava

indecisa. Sabia o que escreveria, mas não tinha a menor idéia de como começaria a contar sua

história e a dele. Já fazia tanto tempo... Refletiu melhor. Não era tanto tempo assim, não para

eles. Secou a testa com o lenço delicado e o guardou no bolso da calça jeans. São Luís estava

muito quente, provavelmente choveria durante a madrugada.

Ergueu os olhos para a lâmpada amarelada e desejou que fosse mais clara e forte. Abriu um

ruidoso saco de papel e conferiu seu conteúdo, perguntando a si mesma se havia comprado tudo

de que precisaria. Havia corretivo, fita para máquina, papel, caneta, bloco de anotações, lápis e

envelope. Estava tudo lá, menos como começar. Ergueu-se da cadeira e andou impaciente.

Parecia um animal enjaulado num quarto deveras pequeno, que por pouco não tinha espaço para

um velho guarda-roupa de portas arranhadas, uma cama com colchão de molas

e sua arca.

Desviou a atenção para a janela. Fitou a rua da Estrela e logo à frente o prédio da Secretaria

dos Transportes. Estava vazio devido ao adiantado da hora, e não mais se viam transeuntes na

rua. Aqui e ali um carro deslizava pelo calçamento desgastado pelo tempo. Voltou a encarar a

máquina como se fosse sua inimiga.

Faltava algo, mas o quê?, questionou-se, respirando o ar noturno. Assim como todos os

quartos do velho casarão, o seu também era alugado, humilde e silencioso. Ninguém se

incomodaria com sua ausência. Era perfeito, pensou, enfiando as mãos nos bolsos. Por uns

instantes, o som de passos no corredor chamou sua atenção. Virou a cabeça e esperou alerta,

mas nada aconteceu, decidiu voltar à janela. O brilho das luzes da cidade era encantador demais

para não ser observado. Uma lembrança a sacudiu: as luzes de Paris. A saudade apertou seu

peito. Fazia apenas uma semana que estavam longe um do outro.

- Deus, como te amo, como sinto tua falta - sussurrou em francês.

Fitou o céu escuro e viu as estrelas cintilantes amparadas pela lua crescente. Pareciam pedir

sua atenção.

- Claro, é isso! - falou, voltando à mesa muito feliz.

Fez a margem e deixou um grande espaço, escrevendo entre aspas: "O mundo é um lugar

maravilhosamente estranho e perturbador. Olhamos para cima e só vemos o céu, na eterna

repetição de dias e noites. Não percebemos a mágica que os separa. Garanto que são bem mais

do que horas, minutos e segundos. Para mim, estão separados por vidas, está aí o grande

mistério". Um sorriso de satisfação surgiu em seus lábios.

Kara finalmente havia conseguido. A noite estava apenas começando. O melhor a fazer era

continuar, pois ainda tinha muito para contar.

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UNIDADE I

KARA RAMOS

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1. A REFORMA

Destino. Essa palavra pode parecer drástica para algumas pessoas, mas nunca foi para mim.

Ele sempre nos leva a acreditar em coisas que estão fora do nosso alcance, que imperam

absolutas sobre nossa vida com a mesma força do vento soprando sobre o mar. Veja bem, se

você morresse hoje, na flor da juventude, diriam que morreu jovem e nada aproveitou da vida. Se

morresse de maneira violenta, todos diriam que foi uma fatalidade. Contudo, morrer numa cama

de hospital ou de modo mais sereno pareceria natural.

Obviamente nossos destinos estão fora do controle. É claro que há acasos maravilhosos, por

exemplo, ganhar na loteria e encontrar sua cara-metade ou um lugar vazio no ônibus. Sorte ou

merecimento? Difícil dizer, porque é assim que vemos a vida, e ela está totalmente fora do nosso

comando. Entretanto, há momentos em que temos a nítida impressão de que podemos escolher.

Isso é uma grande ilusão.

No meu caso, acredito que tive dois momentos: pude escolher e pouco depois aceitar o que

me foi imposto. Não tenho reclamações a fazer. Sinto-me muito bem diante de minhas decisões.

Há limites, é claro, mas assim são as coisas.

Bem, esse é o presente. Quero recuar no tempo cinco anos para começar minha história.

Parece que foi ontem que recebi um telefonema de Roberto, meu amigo e sócio. A princípio, ele

não quis revelar o motivo do chamado de urgência, apenas disse:

- Venha, você vai gostar da surpresa!

Larguei o que estava fazendo, peguei o velho jipe e fui direto falar com ele.

Achei aquilo esquisito. Roberto não costumava guardar segredo. Na faculdade era chamado de

Boca de Chafurdo. Sempre achei um apelido meio feio e jamais o chamei assim, pois apelidos só

servem para humilhar as pessoas. Contudo, nunca lhe revelaria algo.

São Luís estava num daqueles dias quentes e abafados. O céu estava tão azul que poderia

cegar, e o movimento das pessoas era intenso no centro da cidade.

Naquele momento, arrependi-me por não ter posto a capota. Antes mesmo de chegar ao sinal

vermelho, abri o porta -luvas e peguei meu boné. A pequena proteção esfriou minha testa úmida

de suor. Diante do prédio, desci apressada e cruzei o canteiro, seguindo pela passarela

arborizada. Na recepção, falei com Regina e, como de costume, subi para a sala de Roberto onde

era esperada. Anunciei minha entrada com uma leve batida na porta.

- Entre! - a voz de Roberto soou calma do outro lado. A mudança de temperatura foi tão

repentina que comecei a espirrar.

Murmurei um pedido de desculpas e notei que Roberto não estava sozinho. Minha

aproximação colocou ambos de pé.

- Sr. Lambert, esta é Kara Ramos, a mulher de quem falávamos – Roberto iniciou as

apresentações de maneira agradável.

- Muito prazer - disse, estendendo-lhe a mão de modo confiante.

- O prazer é meu - respondeu, revelando um indisfarçável sotaque francês.

Lambert aparentava uns 40 anos. Tinha a pele clara e olhos escuros que me avaliavam de

maneira quase desconfortável. Mantive a calma e o fitei do mesmo modo, fazendo-o desviar o

olhar. Naquele momento, percebi o que estava acontecendo. Tratava-se de um encontro de

negócios. Tive vontade de gritar com Roberto. Ele devia ter me avisado pelo telefone. Certamente

perderia a oportunidade. Quem em sã consciência entregaria um trabalho de restauração nas

mãos de alguém com a aparência de uma adolescente desleixada? Sim, pois era essa a minha

aparência naquele momento. Pensei em tirar o boné, mas desisti. Meu cabelo devia estar coberto

de poeira. Levei a mão discretamente à cabeça e ajeitei o rabo-de-cavalo, temendo chamar

atenção.

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 1 – O Despertar do Vampiro

Roberto nos convidou para sentar. Arrependi-me no mesmo instante, mas mantive a calma e

fiquei imóvel na poltrona de couro. A camiseta havia colado no encosto. Passei o dedo pela gola

e percebei o quanto estava manchada de tinta. A pobre malha mais parecia um quadro

impressionista. O estilo, lógico, era pontilhismo. A calça jeans também não estava lá essas

coisas, toda desbotada e surrada. Para piorar, havia um rasgo que deixava entrever metade de

minha coxa. É preferível nem falar do tênis, cheio de manchas. Contive meu aborrecimento e sorri

amavelmente.

- Bem... - Roberto começou, sorridente. - Sr. Lambert é advogado e está aqui representando os

interesses de seu cliente, o senhor Paul Rohan.

Roberto olhou-me como se devesse participar de sua alegria quase absurda. Fitei seu rosto

suplicante e devolvi um olhar que ele conhecia muito bem.

- Ah, o dono do casarão da rua do Sol! - falei rindo de modo diabólico. Roberto sempre soubera

minha opinião a respeito daquela família de assassinos culturais. – Como poderia esquecer? A

família finalmente resolveu recuperar a casa? - perguntei, sentindo-me muito mais à vontade na

presença daquele sujeito de ar petulante.

- Exatamente. Paul resolveu reformar a casa - informou Lambert, com um sorriso cínico. Ele

parecia muito íntimo de seu cliente, pois além de ter carta branca para resolver os problemas,

chamava-o pelo primeiro nome.

- Fico feliz em saber.

- Foi uma decisão acertada da parte dele - continuou Lambert, orgulhoso com a atitude de seu

patrão.

- Se esperasse mais alguns anos, a casa viria abaixo e o prejuízo seria bem maior.

O homem me fitou demoradamente e repetiu o sorriso que começava a me incomodar.

- Quer dizer que o senhor Rohan pretende se estabelecer em São Luís? - perguntou Roberto,

tentando recuperar o clima sociável da conversa.

- Entendiou-se na Europa e decidiu explorar um lugar paradisíaco. Vá entender. Estou aqui

para organizar sua chegada e alguns negócios pendentes.

- Depois de 125 anos, finalmente o velho casarão vai ser habitado.

- Parece bem informada a respeito do casarão, srta. Ramos.

- No meu ramo de trabalho, tenho que estar. Aquela casa é patrimônio histórico cultural de São

Luís. Seu estado incomoda muita gente. - Com esse comentário, ele mudou a expressão. Tornou-

se amável e respeitoso.

- Posso garantir que essa preocupação dominou os pensamentos de Paul nos últimos meses,

desde que se tornou herdeiro. Mas os negócios a resolver eram muitos e só agora ele pôde dar

atenção ao casarão.

- Entendemos perfeitamente - interveio Roberto, bancando o conciliador inocente.

Assim como eu, Roberto sabia muito bem que a casa era apenas uma das muitas

propriedades que a família possuía. Ela estava em péssimo estado de conservação. Deixar um

casarão colonial caindo aos pedaços era um crime imperdoável. Desde que fora comprada pela

família em 1872, ninguém além do vigia a habitava. Havia sofrido várias reformas durante esses

anos, mas nada que fosse bem-feito. Já haviam se passado vinte anos desde a última obra.

- Vejo que vim ao lugar certo.

- Acredito que sim - falou Roberto, pronto para iniciar a autopropaganda.

- Nossa empresa conduziu com grande êxito a maior parte das reformas e restaurações da

cidade. Trabalhamos com todo tipo de restauração: móveis, obras de arte, livros, casas...

- Obrigado, sr. Roberto, mas já conhecemos o perfil da empresa. Tenho informações

detalhadas sobre os seus serviços. Paul faz questão de que a senhora Ramos cuide

pessoalmente da restauração. Ele viu um dos seus trabalhos e gostou muitíssimo.

Lambert lançou um olhar desejoso sobre mim. Achei seu comportamento impróprio, mas não

dei muita importância. Estava completamente fascinada com a idéia de ter chamado a atenção

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dos Rohan. Pelo menos eu havia conseguido, depois de o pobre casarão passar anos esquecido.

Decidida a conseguir mais informações, falei de maneira amável:

- Ele gostou do quê, especificamente?

- Paul pode nunca ter vindo a São Luís ou ao seu país, mas sempre se manteve informado do

estado da casa. Ele procurava a pessoa certa para o serviço, e você o impressionou bastante.

Paul adquiriu algumas peças restauradas por você.

Aquilo explicava somente uma parte. Fiquei ainda mais curiosa e quis saber do restante.

- Fala como se o sr. Rohan já me conhecesse.

- Ele viu sua participação no documentário sobre Alcântara que passou na televisão - parou um

instante. - É esse o nome certo?

- Sim, é Alcântara - Roberto falou satisfeito.

Fiquei muito nervosa no dia das gravações e quase desisti, mas fiz o sacrifício para divulgar a

história e as belezas da Festa do Divino. Além disso, Roberto achou que ajudaria a promover

nossos serviços. Pelo visto, funcionou. Durante algum tempo, a conversa girou em torno do

documentário. Lambert deixou escapar algumas observações feitas por seu cliente. Nada

significativo.

- A equipe de filmagem ajudou bastante.

- Além de bonita é humilde - comentou, fazendo Roberto erguer a sobrancelha, sério. Lambert

tinha novamente a expressão provocante no rosto. - Realmente, uma grande profissional. Quero

acertar todos os detalhes imediatamente, se possível.

Roberto sorriu e fez as primeiras perguntas. Os valores, nada baixos, começaram a ser

discutidos de forma vaga. O preço real só poderia ser estabelecido mediante uma avaliação

profunda em toda a casa. Lambert aceitou as exigências de Roberto e fez as de seu cliente.

Tinha trazido consigo fotos da casa, plantas e alguns desenhos muito antigos que datavam de

1869. Eles mostravam salas e quartos e se assemelhavam a um tipo de catálogo de vendas.

Percebi que aquela reforma havia sido planejada com bastante cuidado e me senti um pouco

injusta por fazer mau juízo de Paul Rohan. Lambert estava a par de quase todos os detalhes de

uma restauração daquele porte. Seu único problema era a pressa, que soava exagerada. Só

muito depois eu viria a descobrir o porquê.

Estávamos em volta da mesa coberta de papéis e fotos. Coloquei algumas fotos debaixo de

uma lente poderosa para fazer um exame mais detalhado e notei que eram de épocas diferentes,

mas idênticas. Minha cabeça começou a trabalhar. Por que motivo alguém as repetira? O

fotógrafo havia escolhido as mesmas posições ou eram simplesmente cópias das primeiras?

Estavam tão gastas pelo tempo. A última hipótese era a mais aceitável: talvez para manter o

mesmo estilo no decorrer das diversas restaurações sofridas pela casa.

- Deve levar pelo menos um mês para recrutar todo o pessoal, isso na melhor das hipóteses -

falei um pouco preocupada com sua pressa.

- E quanto ao orçamento final?

- Daremos uma resposta definitiva dentro de uma semana - informou Roberto, entrando em

concordância comigo.

- Perfeito. Em uma semana poderei avaliar a casa com cuidado e fazer um relatório completo.

Desse modo, evitaremos futuros desentendimentos - falei, fitando seu rosto um tanto desgostoso.

- Paul me deu um prazo meio apertado - comentou, quase em tom de confissão.

- Quanto tempo? - perguntou Roberto, oferecendo-lhe café, que ele aceitou de pronto.

- No máximo um ano.

- Com esse prazo teremos problemas. Esse tipo de serviço exige tempo e paciência.

- E dinheiro - disse Lambert, interrompendo o raciocínio de Roberto, que entendeu de imediato

a insinuação. - Preciso estabelecer uma data - prosseguiu.

- Possivelmente dois anos, se não houver atrasos - afirmou Roberto, tentando não enganá-lo e

tampouco o assustar demais. Lambert depositou a xícara sobre a mesa e declarou espantado:

- Impossível! Paul jamais aceitará um prazo tão longo.

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- Estaria enganando seu cliente se aceitasse isso - falei, tirando os óculos para vê-lo melhor. -

Sou uma profissional e costumo trabalhar com tempo. Não gosto de ser enganada nem de

enganar. Acredito que Paul Rohan se sentiria ofendido se eu entregasse um serviço mal-

acabado. Proponho primeiro a avaliação, daí poderei falar algo mais concreto. Lambert sopesou

minhas palavras, nos olhou durante alguns segundos e falou:

- Concordo, mas quero a avaliação dentro do prazo estabelecido. Nem um dia a mais - falou

tentando manter-se à frente das decisões. - Dinheiro não é problema.

Por certo Lambert achou que nos jogaríamos a seus pés e iríamos garantir o término da obra

para dois dias. No nosso ramo não havia disso, não muito. Reformas e restaurações são projetos

delicados e trabalhosos que exigem comprometimento. Roberto sabia disso e não se fez de tolo.

Pediu um pequeno adiantamento para as primeiras despesas.

- O vigia faleceu recentemente - falou no acerto dos últimos detalhes. - Portanto, terão de

contratar outro o mais breve possível. A casa não pode, em hipótese alguma, ficar desabitada.

Ela ainda guarda móveis antigos e outros objetos.

Acredito que o adiantamento é suficiente para cobrir esse tipo de despesas - comentou, com

um leve toque de cinismo dirigido a Roberto.

- Certamente - falou Roberto, retribuindo o sorriso enquanto recebia as chaves. Trocaram um

olhar de respeito mútuo, afinal eram duas raposas das mais espertas. Depois das despedidas

educadas, ele partiu, deixando o material e um telefone para contato.

- É inacreditável que este dia finalmente tenha chegado - falei, voltando para a mesa. Estava

feliz por poder examinar com mais liberdade o material.

- O que achou dele? - perguntou Roberto.

- Normal.

- Não me venha com essa! Notei o modo como o olhou por cima dos óculos. Sempre que faz

isso está analisando o caráter de alguém. Será que podemos confiar nele?

- Desconte o cheque e descobrirá.

- Nada de brincadeiras, quero a verdade. Confio em seu julgamento, porque ele nunca falha -

disse, indo se sentar.

- Pelo que pude notar, ele parece confiável. A paciência guarda apenas para o seu cliente. Não

me pareceu alguém que ceda com facilidade. Além de ser muito esperto e vivo, para ser franca.

Mas...

-Mas?

- Está escondendo algo - falei com certeza de meu julgamento.

- Como o quê?

- Não faço a menor idéia. Mas há algo de estranho nessa pressa absurda.

- Não gostei dos olhos cobiçosos sobre você.

- Por favor, Roberto. Para você todo homem me deseja. Lambert me pareceu preocupado, mas

são apenas suposições.

- Feliz? - perguntou, já de pé ao meu lado, colocando as mãos sobre meus ombros.

- Muito, mas...

- Eu sabia. Será que você nunca fica feliz? - perguntou, abraçando-me carinhosamente.

- Isso não é normal, Kara. Todas as mulheres que conheço ficariam mais do que satisfeitas

com um acontecimento assim. Ficar à frente de uma reforma desse porte é algo muito importante

- disse, beijando meu pescoço.

Como sempre, Roberto estava tentando tirar proveito da situação. Ao me abraçar, parecia não

ter controle de si. Ele nunca tinha passado de um grande amigo, mas em sua cabeça a idéia era

outra. Ele sonhava com mais, muito mais. Toquei suas mãos sobre minha cintura e me virei para

ele. Seus olhos brilhavam apaixonados, cheios de desejo. Naquele momento, lamentei por nós

dois. Não gostava de Roberto como ele gostava de mim. O que sentia nada mais era do que

amizade.

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- Vamos sair para comemorar, jantar num lugar elegante e beber champanhe - sugeriu,

apertando minhas mãos entre as suas.

Olhei para Roberto de modo carinhoso e sorri. Lembro-me de quase sempre comparar sua

figura à de Lucas. Ele era muito bonito, forte e tinha um metro e oitenta de altura. A mesma altura

e mesmo porte. Talvez a única diferença fosse a cor da pele. Lucas era moreno claro suave. Já

Roberto era mais mulato com traços marcantes. Tinha um sorriso largo, luminoso e sensual que

derretia o coração de qualquer mulher, menos o meu. Seus olhos castanhos-claros eram

acentuados pelas sobrancelhas grossas e pelo cabelo curto. Ele e Lucas tinham sido grandes

amigos.

- Você sabe a resposta.

- Às vezes me pergunto quem realmente morreu, se foi você ou o Lucas?

Já esperava sua represália, mas não pensei que fosse me magoar tanto.

- Odeio quando faz isso - comecei, soltando suas mãos e voltando a guardar os papéis sobre a

mesa rapidamente. Queria fugir, sair da sala o mais depressa possível para evitar o assunto,

como sempre fazia. As lembranças me perturbavam, traziam fantasmas que desejava

ardentemente esquecer.

Notando meu estado, Roberto tentou se desculpar, mas era um pouco tarde.

- Desculpe, Kara. Sou um desastrado, mas dói muito vê-la assim.

- Assim como? Sozinha? É isso que quer dizer? - perguntei, virando-me com raiva.

- Sim, sozinha. Você sempre foi tão alegre e comunicativa. Vivia fazendo os outros rirem,

dançava, ia a festas. Droga, Kara. Eu quero você de volta. Lembra-se de quando estávamos na

faculdade?

- Faz muito tempo - falei, apertando a pasta em minhas mãos, fitando o vazio. Recuei no tempo

e me vi ao lado de Lucas, andando pelos corredores com a mochila nas costas, despreocupada e

feliz.

-Você lembra?- perguntou, aborrecido com meu silêncio. - Claro que lembra, está só mentindo

para si mesma. Mude de casa, de bairro que seja, mas esqueça o Lucas, pois ele morreu! -

gritou, perdendo a compostura e a paciência.

- Quem você pensa que é? - perguntei, magoada com sua atitude. Ele era meu marido! Eu

assinei a documentação para que liberassem o corpo. Cada vez que olho você, Roberto, eu vejo

o Lucas.

Minha voz parecia estar presa dentro da garganta. Roberto olhava triste e envergonhado por

ter começado tudo aquilo. Dei-lhe as costas e recolhi minhas coisas, pronta para sair da sala. Só

parei diante da porta, a seu pedido.

- Espere um instante, Kara! Como pude ser tão estúpido? Magoei você num dia especial -

disse perturbado, aproveitando para segurar a porta e me impedir de fugir.

- Gostaria realmente de esquecer o Lucas, mas não posso. Acredito que ninguém possa me

ajudar a fazer tal coisa.

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2. O CASARÃO

Um dia depois, Alva e eu estávamos prontas para começar a avaliação da casa. Munidas com

mochilas e lanternas, parecíamos arqueólogas em busca de um achado histórico. Tínhamos um

bom motivo para isso: o sistema elétrico estava desligado. Uma medida de segurança para

proteger o imóvel contra um possível incêndio, já que a parte elétrica estava danificada. Com toda

certeza passaríamos o dia inteiro naquela avaliação. Estava eufórica com a idéia de desvendar

todos os cômodos. Desliguei o carro e retiramos o material de dentro do jipe. A expectativa de

entrar no casarão não me deixava respirar direito, mas mantive o controle diante de Alva.

Deslizei a mão pela superfície da porta e senti a madeira se dividir em duas folhas. A tinta

descorada e áspera se desfez sob meus dedos. A chave moveu-se ruidosa na fechadura, e a

porta cedeu a meu empurrão. Olhei à minha volta e deparei com uma situação profundamente

fascinante.

Deveriam ser aproximadamente nove horas da manhã. O sol atravessava os vitrais quebrados

sem pudor, desvendando delicadamente cada segredo e lançando fachos de luz no chão

empoeirado. As pequenas partículas flutuavam no ar serenas, em meio ao silêncio reinante em

toda a casa. Reflexos coloridos podiam ser vistos nas paredes e no chão.

A cada passada que dava, sentia-me uma invasora, assustada com o eco dos meus próprios

passos. A admiração de Alva era evidente diante do que via. Tudo à nossa volta cheirava a mofo.

Aqui e ali encontrávamos taliscas quebradas, vidros pelo chão e até mesmo restos de papel e

latas de refrigerantes, lixo deixado pelo antigo vigia. No hall de entrada havia cadeiras cobertas

com lençóis encardidos e empoeirados. As teias de aranha iam de um canto a outro das paredes,

ande pequenos cadáveres de insetos descansavam sem vida.

- Vamos começar? - perguntou Alva, tirando-me do estado hipnótico em que me encontrava

desde que entrara.

Alva e eu colocamos nossas mascaras para evitar a poeira e testamos as maquinas

fotográficas. Liguei o gravador e fiz uma pequena introdução sobre o assunto dizendo a data,

hora e o local. Trabalhamos em silêncio, envolvidas pela atmosfera do casarão. Seguimos

registrando os inúmeros problemas à nossa volta. A mobília tinha sido deixada no lugar, com

exceção de quadros, tapetes e outros objetos que descansavam em caixas empilhadas pelos

cômodos. Todo o resto estava em desordem, coberto com trapos, largado à mercê do tempo.

Nem todo dinheiro do mundo justificaria tal abandono. Maldito Rohan.

- Que acha? - perguntei a Alva, enquanto examinava as paredes descascadas.

- Fantástica. Penso em como puderam deixá-la sem cuidados durante tantos anos. Chega a

parecer proposital - falou, retirando o lençol dos móveis para melhor observar os danos.

- Sempre me fiz a mesma pergunta. Pelo menos, ela finalmente terá um morador. Quanto

tempo acha que levaremos para colocá-la em perfeitas condições? - Eu queria uma terceira

opinião.

Alva balançou a cabeça, e suas trancinhas e contas balançaram junto, num som familiar aos

meus ouvidos.

- Um ano, talvez mais. Vai depender muito do que vamos encontrar pela frente e do pessoal

contratado. Olhe a cor deste veludo. Ele é lindo. Pena estar tão gasto. Quero dizer, podre - disse

ao ver um pedaço da cadeira se desfazer em suas mãos.

- Adoro este tom de vermelho - comentei, tocando-o com certo carinho, enquanto meus olhos

deslizavam sobre aquele pequeno pedaço do passado. Coloquei-me de pé e dividi minhas

certezas com Alva. Retirei a agenda da mochila, coloquei os óculos e li minha pequena lista de

cômodos. - Três andares. No primeiro são dez cômodos, no segundo, doze e no último, catorze,

sem contar a dispensa, o átrio, o sótão e um pequeno quartinho transformado em adega pelo

antigo dono.

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 1 – O Despertar do Vampiro

- Quarenta cômodos fechados? - perguntou ela, enquanto fotografava o teto. Estava

interessada nos lambris soltos e nas manchas escuras que anunciavam um vazamento.

- Exato. Faltam cinco abertos contando com o hall de entrada de cada andar - completei,

pensando em quanto teríamos de trabalhar naquela casa.

- Tem alguma idéia do motivo do abandono?

- Não. E acredito que ninguém neste Estado saiba. Os Rohan sempre se mantiveram distantes,

nunca pisaram em solo brasileiro. Jamais a alugaram, venderam ou habitaram.

Aquele realmente era um assunto do qual queria manter-me afastada. O abandono daquele

casarão sempre me pareceu algo absurdo, mas não era da minha conta. É claro, nunca escondi

que gostaria de vê-lo habitado e restaurado, mas daí a falar deles, os Rohan, era bem diferente.

- É tão estranho o modo como a trataram.

- A casa teve a má sorte de cair nas mãos de pessoas que provavelmente a vêem apenas

como mais uma propriedade.

- Ela deve valer bastante, considerando o quanto vai custar a reforma - falou, parando diante

da primeira porta fechada. - Com certeza pensam em vendê-la para recuperar o investimento.

- Pelo contrário. Rohan está resolvido a morar na casa.

- Paul Rohan é casado? - perguntou Alva, com um sorriso brincalhão.

- Não faço a menor idéia. Vai se candidatar?

- Claro! E se quer saber, dizem que os franceses são malucos pelas mulheres negras. Imagine,

eu, Alva Maria Rohan?

- Vai me convidar para a cerimônia? - perguntei, dando corda para ouvir mais uma de suas

brincadeiras.

- Óbvio! Quem acha que vai carregar a cauda do meu vestido de noiva?

Acho que ainda não descrevi Alva. Falarei dela agora que já conhecem o seu bom humor. Ela

é o tipo de mulher que quando passa em uma calçada todos se voltam para vê-la desfilar,

exibindo sua beleza negra trigueira. É alta e benfeita de corpo, tem os olhos brilhantes e vivos, a

boca bem desenhada, o busto cheio e as pernas torneadas. Está quase sempre de cabelos

trançados. Ela os joga sobre os ombros para que deslizem pelas costas em finas trancinhas. Eu e

Lucas a conhecemos por intermédio de Roberto. Formávamos um quarteto bastante alegre. Não

era raro nos encontrarmos em festas, clubes e praias. Ser sua amiga não era tarefa difícil. Nada

nem ninguém parecia aborrecê-la e era uma ótima profissional. Após terminarmos a faculdade,

nos unimos à empresa de minha família para trabalharmos juntos. Pena que papai jamais tenha

podido nos ver ao lado de tio Júlio, trabalhando como ele sempre sonhara.

- A parte hidráulica está horrível, a água não sai e quando sai tem cor de ferrugem - enquanto

falava, bebericava um refrigerante quente.

- Se fosse apenas o encanamento! Há também cheiro de rato morto. - Disse, voltando-se em

minha direção. Perdemos o apetite. Claro que era comum em casas velhas e fechadas encontrar

animais mortos, mas estava fedendo muito para ser apenas isso. No corredor que levava até o

terceiro andar fedia com mais intensidade.

- Podem ser os banheiros, mas não descarto a hipótese de um animal maior ter ficado preso.

Os passarinhos costumam fazer ninhos em cantos como este, ainda mais com uma área aberta

no centro da casa, podem ter atraído gatos.

- Deve ser um Rohan. Ele pode ter morrido e está apodrecendo lentamente sobre o piso de

madeira, manchando tudo com seu sangue, embaixo de uma nuvem de moscas que o devoram

devagar. Foi assassinado com um tijolo de seis furos! Seus miolos estão espalhados, fervilhando

de vermes que devoram seus últimos pensamentos. - Alva falava com os olhos arregalados,

fazendo-me rir da tolice.

- Alva, faça o favor - disse, passando pela porta. No meio do corredor, fitei seus dois extremos

e recoloquei a mochila nas costas para esperar que recolhesse seu material.

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 1 – O Despertar do Vampiro

- É o cadáver de um dos Rohan. Deus, como não havia pensado nisso! O pobre homem