Alves & Cia por Eça de Queirós - Versão HTML

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Alves e Cia.

de Eça de Queirós

CAPÍTULO I

Nessa manhã, Godofredo da Conceição Alves, encalmado, soprando de Ter vindo do Terreiro do Paço quase a correr, abria o batente de baetão verde, do seu escritório num entressolo da rua dos Douradores, quando o relógio de parede pôr cima da carteira do guarda-livros batia duas horas, naquele tom, cavo, a que os tetos baixos do entressolo davam uma sonoridade dolente, e cava. Godofredo parou, verificou o seu próprio relógio preso pôr uma corrente de cabelo sobre o colete branco, e não conteve um gesto de irritação vendo a sua manhã assim perdida, pelas repartições do Ministério da Marinha: e era sempre assim quando o seu negócio de comissões para o Ultramar o levava lá: apesar de Ter um primo de sua mulher, diretor-geral, de escorregar de vez em quando uma placa na mão dos contínuos, de ter descontado a dois segundos oficiais letras de favor, eram sempre as mesmas dormentes esperas pelo ministro, um folhear eterno de papelada, hesitações, demoras, todo um trabalho irregular, rangente e desconjuntado de velha máquina meio desparafusada.

Sempre o mesmo encaranguejamento – exclamou ele, pousando o chapéu

sobre a carteira do guarda-livros. – Dá vontade de os espicaçar como aos bois: Eh Ruço para diante! Eh Malhado!

O guarda-livros, um moço de ar amarelado e doente, sorriu. Espalhou areia sobre a larga folha que acabava de escrever, e disse, sacudindo-a:

O sr. Machado deixou um bilhete lá dentro... diz que ia ao Lumiar.

Então Godofredo, que limpava a testa com o lenço de seda, sorriu também, de leve, passando logo pelo bigode o lenço, escondendo o sorriso... Depois examinou a correspondência, que o guarda-livros continuava a polvilhar de areia.

Um momento uma carroça, fora, atroou a rua estreita, com um ruído de ferragens sacudidas: depois tudo caiu num silêncio. Um caixeiro, agachado diante dum caixote enorme, escrevia um nome sobre a tampa. A pena de pato rangia, por cima o relógio batia um tic-tac forte. E naquele grande calor do dia, no abafamento dos tetos baixos, subia dos caixotes, de dois fardos, do pó da papelada, um cheiro vago de ranço, e de mercearia.

O sr. Machado estava ontem em D. Maria – disse então o guarda-livros, sem cessar de escrever.

Alves largou logo a carta que lia, interessado, com o olhar mais vivo:

— Que ia ontem?

— O Trapeiro de Paris...

— Que tal?

O guarda-livros ergueu os olhos da carta para responder:

— Eu gostei muito do Teodorico...

Alves ainda ficou esperando algum outro detalhe, uma apreciação. Mas o guarda-livros retomara a pena, e ele recontinuou a sua leitura. Depois o trabalho do 2

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caixeiro agachado interessou-o um instante. Seguia o pincel, gozava as curvas das letras.

— Ponha-lhe um til. Fabião tem um til...

E, como o caixeiro se embaraçou um momento, ele próprio se abaixou, tomou o pincel, deu o seu til a Fabião. Fez ainda uma recomendação ao guarda-livros sobre uma remessa de baetão vermelho para Luanda e, empurrando outro batente verde, descendo dois degraus - porque naquele entressolo os pavimentos eram de níveis diferentes, penetrou enfim no seu gabinete, pôde desabotoar o colete, estender-se enfim numa poltrona de reps verde.

Fora, um dia de julho abrasava, faiscava na pedra dos passeios: mas ali, naquele gabinete, onde nunca dava o sol, assombreado pelos altos prédios fronteiros, havia uma frescura; as persianas verdes estavam corridas fazendo uma penumbra; e o verniz das duas carteiras, a dele e a do seu sócio, a esteira que cobria o chão, o reps verde da cadeira bem escovado, uma moldura de ouro encaixilhando uma vista de Luanda, a alvura dum grande mapa, tinham um ar de arranjo, de ordem, que punha como um repouso, uma frescura maior. Havia, mesmo, um ramo de flores, que sua mulher, a boa Lulu, lhe tinha mandado havia dias – compadecida de o saber toda uma daquelas manhãs de calma, no

abafamento dum escritório, sem uma cor de flor para alegrar os olhos. Ele tinha posto o ramo sobre a carteira do Machado. Mas, sem água, as flores murchavam.

O batente verde abriu-se, o guarda-livros mostrou a face amarelada e doente:

— O sr. Machado deixou alguma recomendação a respeito do vinho de

Colares para o Cabo Verde?

Então Alves lembrou-se da carta do sócio, que estava sobre a sua

escrivaninha. Abriu-a; as duas primeiras linhas explicavam a ida ao Lumiar; depois, com efeito, começava, “a respeito do Colares...”. Alves deu a carta ao guarda-livros.

O batente fechou-se de novo, e Alves agora tinha outra vez o sorriso de há pouco, mas que não disfarçava. Desde o começo do mês, era a Quarta ou Quinta vez que o Machado desaparecia assim do escritório, ora para ir ao Lumiar ver a mãe, ora mesmo, sem razões, ou com esta palavra vaga: “um negociozito”. E Alves sorria ainda, percebia bem o “negociozito”. Machado tinha vinte e seis anos; e era bonito moço, com o seu bigodito louro, o cabelo anelado, e o ar elegante. As mulheres gostavam dele. Desde que eram sócios, Alves conhecera-lhe três ligações: uma linda espanhola, que, apaixonada pôr ele, deixara um brasileiro rico, um antigo presidente de província, que lhe pusera casa; depois uma atriz de D. Maria, que não tinha nada senão uns bonitos olhos; e agora aquele “negociozito”. Mas estes amores decerto eram mais delicados, tomando um lugar maior no coração, na vida de Machado.. Alves sentia-o bem, pôr certo ar inquieto e preocupado do sócio, o quer que fosse de contrafeito, de triste pôr vezes...Também o Machado nunca lhe dissera nada, não mostrara jamais a mais leve tendência para uma efusão, uma confidência.

Eram íntimos, Machado ia passar muitas noites à casa dele, tratava a Lulu quase como uma irmã, jantava lá todos os domingos mas -, ou porque tivesse entrado na firma comercial havia apenas três anos, ou porque era dez anos mais novo, ou porque Alves fora amigo de seu pai e um dos testamenteiros, ou porque era casado 3

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— Machado conservava para com ele uma certa reserva, um vago respeito, nunca entre eles se estabelecera uma verdadeira camaradagem de homens.

Também Alves não lhe dizia nada. O “negociozito” não pertencia aos interesses da firma. Ele não tinha nada com isso. Apesar daquelas ausências repetidas, Machado continuava a ser muito trabalhador, amarrado à carteira dez e doze horas em dias de paquete, ativo, fino, vivendo todo para a prosperidade da firma: e Alves não podia deixar de confessar que se na firma ele representava a boa conduta, a honestidade doméstica, a vida regular, a seriedade de costumes – Machado representava a finura comercial, a energia, a decisão, as largas idéias, o faro do negócio... Ele, Godofredo, fora sempre de natureza indolente, como seu pai, que, pôr gosto, se movia duma sala para outra, numa cadeira de rodas...

De resto, apesar dos seus princípios severos de rapaz educado a sério nos jesuítas, cheio de boas crenças, e que nunca antes de casado tivera uma ligação, ou um amor irregular, ele sentia pôr estas “tolices” do Machado uma vaga e simpática indulgência. Em primeiro lugar pôr amizade: conhecera o Machado pequeno, e bonito como um querubim; e nunca deixara de o impressionar vagamente a boa família do Machado, o seu tio conde de Vilar, as suas relações na sociedade, o caso que dele fazia dona Maria Forbes, que o convidava para as suas quintas-feiras –

apesar de negociante -, e, além disso, as bonitas maneiras, e certos requintes de elegância: uma coisa que o espantava era que, como o Machado, ele nunca pudera ter aquele bom ar. E depois havia ainda uma outra razão, uma razão de temperamento, para que ele não deixasse de simpatizar, vagamente e a seu pesar, com as coisas do coração do Machado. É que, no fundo, aquele homem de trinta e sete anos, já um pouco calvo, apesar do seu bigode preto, era um pouco romanesco. Herdara aquilo da sua mãe, uma senhora magra, que tocava harpa, passava a vida a ler versos. Fora ela que lhe dera aquele nome ridículo de Godofredo. Mais tarde todo esse sentimentalismo que durante longos anos se dera às coisas literárias, aos luares, aos amores de romance, se voltara para Deus: tinha tido os começos duma monomania religiosa; a leitora de Lamartine tornara-se uma devota maníaca do Senhor dos Passos; fora ela que então o fizera educar nos jesuítas – e os seus últimos dias foram um longo terror do inferno. E ele herdara alguma coisa dela: em rapaz tivera toda a sorte de entusiasmos que se não fixavam, e que flutuavam indo dos versos de Garrett ao Coração de Jesus; depois, calmara, em seguida a uma febre tifóide, e quando veio a ocasião de tomar a casa de comissões de seu tio era um homem prático, usando a vida só pelo seu lado material e sério; mas ficara-lhe na alma um vago romantismo que não queria morrer: gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca em lhes provar o mel ou fel: ele era um homem casto que amava a sua Lulu; mas gostava de as ver no teatro, nos livros. E

agora aquele romance que ele sentia ali ao seu lado, no seu escritório, interessava-o: era como se os fardos, a papelada, ficassem melhor com aquele vago perfume de romance que exalava de si o Machado...

De novo o batente verde abriu-se, a face amarelada do guarda-livros

apareceu. Vinha restituir a carta do sr. Machado; e, antes de se retirar, disse, pela meia abertura da porta:

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— Hoje é a reunião geral da Transtagana.

Alves então teve como uma surpresa:

— Então... Então hoje são nove?

— Hoje são nove.

De resto sabia bem que eram nove. Mas é que a idéia da reunião anual da Transtagana trazia-lhe bruscamente a lembrança de que aquele era o aniversário do seu casamento. Durante os dois primeiros anos aquele fora um dia de festa íntima, com um bonito jantar a que ia a família, à noite uma pequena quadrilha, ao som de simples piano; depois, no terceiro aniversário, viera nos primeiros dias de luto de sua sogra, a casa estava ainda triste, Lulu ainda chorava – e agora, este dia passava, estava quase passado, sem que nem um nem outro se tivessem lembrado. Lulu não se lembrara decerto. Quando ele tinha saído era manhã, ela estava-se a pentear, não lhe dissera nada. E era uma pena que aquele belo dia passasse sem beberem uma garrafa de Porto, sem terem um crème à sobremesa. E além disso deveriam Ter convidado seu sogro e sua cunhada – ainda que, ultimamente as relações com seu sogro tinham arrefecido, havia um afastamento, pôr causa duma criada nova, que era toda poderosa em casa do viúvo. Mas enfim, num dia daqueles, como num dia de anos, esqueciam-se essas coisas, o sentimento de família dominava. E então decidiu logo correr à rua de São Bento, lembrar a Lulu aquela grande data, mandarem um recado ao sogro – que morava a Santa Isabel. Eram quase três horas, a correspondência estava assinada, não havia nesse dia outros afazeres –

naquela espécie de repouso que se seguia à azáfama dos dias de paquete para a África. E tomando o chapéu regozijava-se daquele meio feriado que assim se dava, alegrava-o a idéia de ir surpreender no meio do dia com um bom abraço a sua querida Lulu – que, durante toda a semana, estava só até às quatro e meia, que era quando se fechava o escritório. E uma só coisa o contrariava: é que o Machado estivesse no Lumiar, não pudesse vir jantar com eles.

— Volta? – perguntou o guarda-livros, vendo-o de chapéu na cabeça.

Godofredo pensou um momento em convidar o guarda-livros: mas depois temeu que o Machado se ofendesse, sabendo o seu talher tão facilmente preenchido.

Não volto... Se o sr. Machado pôr acaso aparecesse... Não é natural, mas enfim se aparecesse, que lá o esperamos às seis, como estava combinado.

Ao descer as escadas sentia-se contente, como s4e estivesse casado na véspera. Era um desejo ardente de entrar em casa, pôr aquele calor, vestir o seu casaco de linho, pôr os pés nas chinelas, e ficar ali, esperando o jantar, gozando o seu interior, os movimentos, a presença da sua bonita Lulu. E, naquela onda de felicidade que o invadia, veio-lhe a boa idéia de levar um presente a Lulu. Pensou num leque. Mas depois decidiu-se logo pôr uma pulseira que vira havia dias, numa vidraça de ourives. Era uma serpente mordendo o rabo, com dois olhos de rubis. E

este presente tinha uma significação: a serpente simbolizava a eterna continuidade, a volta regular dos dias felizes, alguma coisa que vai sempre girando num círculo de ouro. Somente receava que a jóia fosse cara. Mas não: eram cinco libras, e, enquanto ele a examinava, o ourives disse-lhe que tinha vendido havia dias uma igual à sra. Marquesa de Lima. Imediatamente pagou-a – e ainda não tinha dado 5

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dois passos na rua, parou, à sombra, abriu a caixa, deu-lhe outro olhar, tão contente estava com a sua compra. E então vinha-lhe um enternecimento – como vem sempre aos que dão um presente. E como se uma pequena porta aberta, no egoísmo e na avareza natural do homem, fizesse romper através dela toda a onda expansiva das generosidades latentes. Naquele momento desejou ser rico para lhe dar um colar de brilhantes. Mas ela merecia-o. Eram casados há quatro anos, e nunca entre eles houvera uma nuvem. Desde que a vira naquela tarde em Pedrouços, adorara-a: mas, podia-o agora confessar, ao princípio tivera-lhe medo.

Julgara-a imperiosa, orgulhosa, exigente, seca. Tudo por causa daquela bela estatura dela, dos seus belos olhos negros, do porte ereto, do cabelo ondeado e crespo... Mas não, dentro daquele corpo de rainha bárbara, havia o coraçãozinho duma criança. Era boa, era esmoler, era alegre, e tinha um gênio que corria igual e suave, como a superfície transparente dum rio de verão. Só um momento, havia coisa de quatro meses, ela mostrara certas desigualdades, um pouco de melancolia, uma pontinha de nervos: até ele supusera que... Mas não era isso, infelizmente.

Eram nervos: e passaram – viera uma reação – e nunca como nos últimos tempos ela fora mais terna, mais alegre, inundando-o de felicidade...

E tudo isso lhe bailava alegremente em volta do coração, enquanto subia, na calma ardente sob o seu guarda-sol, a rua Nova do Carmo. Ao alto, no restaurante do Mata, parou a encomendar uma empada de peixe para as seis horas. E comprou ainda um fiambre, olhava em redor para ver o que poderia levar mais, com alegria e a sofreguidão de pássaro que provê o seu ninho.

Depois subiu o Chiado. Um momento parou a olhar, com respeito, um grande homem, um poeta, um historiador, um grande caráter, que nesse momento, com um velho casaco de lustrina e um chapéu de palha, conversava à porta do Bertrand, com o seu enorme lenço de ramagens preparado para se assoar. Godofredo admirava-lhe os romances, o estilo. Depois comprou charutos: ele não fumava; mas era para dar ao sogro depois do jantar. E desceu enfim a Calçada do Correio, que faiscava, sob o sol, poeirenta e seca. E apesar do calor caminhava depressa – de vez em quando apalpando a caixa da pulseira, que metera no bolso da sobrecasaca.

Estava à rua de São Bento, alguns passos antes de sua casa, quando, dentro da confeitaria, viu a sua criada, a Margarida, esperando ao balcão. E então compreendeu logo que Lulu não se esquecera do dia da data feliz. A Margarida viera comprar doces, a sobremesa. Ele, em dois passos, entrou no seu portal. Era uma casa de dois andares, pintada de azul, apertada entre dois grandes prédios; ele ocupava o primeiro andar: e, apesar de não gostar dos vizinhos de cima, uma gente barulhenta, e ordinária de não querer fazer-lhes participar dos luxos que ele dava à sua entrada, a pedido da Lulu tinha ultimamente feito tapetar a escada . E não se arrependia: era agora sempre um prazer, o encontrar sob os pés, ao entrar em casa, aquele tapete desenrolando-se pelos degraus, dando uma sensação de conforto sólido. Aquilo dava-lhe como um acréscimo de consideração para si mesmo. Em cima, a Margarida, que voltaria num instante, deixara a cancela aberta: e um grande silêncio reinava dentro da casa: tudo parecia adormecido, sob a grande calma do dia. Uma luz forte caía da clarabóia; o cordão da campainha, com a sua grande bola escarlate, pendia imóvel.

Então veio-lhe certa idéia absurda de noivo folgazão: entrar pé ante pé, ir ao quarto surpreender a Lulu, que ordinariamente àquela hora se vestia para o jantar. E

sorria-se já do gritinho que ela ia dar, em saia branca talvez, com os seus belos braços nus. A primeira sala era de jantar: e para ali comunicavam, pôr duas portas de reposteiros, o boudoir dela e a sala de visitas. Entrou. No chão esteirado os seus 6

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sapatos de verão, de sola fina, não faziam rumor. E tudo parecia desabitado, caído num silêncio, tão grande, que se sentia dentro da cozinha vir um som de frigir, e na varanda os movimentos do canário dentro da sua gaiola. O reposteiro do quarto dela estava corrido, e ele, sorrindo baixo, ia levantá-lo, assustá-la – quando da porta fronteira, que era a da sala de visitas, veio através do reposteiro meio corrido, um ligeiro rumor, vago, indistinto, como dum vago suspiro, um som de garganta. Ele voltou-se, percebeu que ela estava lá, espreitou. E o que viu, Santo Deus, deixou-o petrificado, sem respiração, todo o sangue na cabeça, e uma dor viva no coração, que quase o deitou por terra... No canapé de damasco amarelo, diante duma mesinha, com uma garrafa de vinho, Lulu, de robe de chambre banco, encostava-se, abandonada, sobre o ombro dum homem, que lhe passava o braço pela cintura, e sorria, contemplando-lhe o perfil, com um olhar afogado em languidez. Tinha o colete desabotoado. E o homem era o Machado.

CAPÍTULO II

Ao estremecer do reposteiro, Ludovina vira-o, deu um grito, saltou

instintivamente para longe do sofá. E Godofredo ouviu aquele grito: mas não se podia mexer, sem saber como, achara-se caído sobre uma cadeira ao pé da porta, e tremia, tremia, como numa sezão, e todo frio. E, através do rumor de febre que lhe enchia a cabeça, o deixava sem idéias, ele sentia toda a atrapalhação que ia dentro na sala. Passos fortes pisavam o tapete, houve algumas palavras, palavras trocadas num sopro, e com angústia: depois o ferrolho da porta que dava para a escada correu; e depois um silêncio. Então, subitamente, a idéia que eles tinham fugido ambos restituiu-lhe bruscamente a força, um furor apoderou-se dele, dum salto arremessou-se para dentro da sala. Mas tropeçou numa pele de raposa que ornava o limiar, foi-se estatelar ridiculamente sobre o tapete; quando se ergueu, furioso, com os punhos cerrados, o reposteiro da porta da escada balouçava-se, à margem, e a escada desenrolava-se, sob a luz da clarabóia, solitária, com o seu grande ar de decência. Então, alucinado, precipitou-se para a janela. Pela rua fora, a passadas de côvado, afastava-se o Machado, com o seu guarda-sol na mão. Onde estava ela então? Quando se voltou, no meio da sala, estava a Margarida, espantada, com o seu cartucho de bolos na mão.

— Onde está ela? – gritou o Godofredo.

Ao princípio a criatura não compreendeu; mas, subitamente, deixou cair o cartucho, levou o avental à cara, rompeu a chorar. Ele repeliu-a, quase a atirou para o chão; correu à cozinha. Com a porta fechada, cantando alto para o saguão, e escamando o seu peixe, a cozinheira não ouvira nada, não sabia nada. Então Godofredo arremessou-se contra a porta do quarto de Ludovina. Estava fechada.

— Abre, ou arrombo!

Não houve resposta: ele colou a orelha à madeira; vinha de dentro como um vago soluçar, um confuso sopro de angústia e de terror.

— Abre, ou arrombo – gritou ele, com uma punhada à porta, como se fosse já sobre o corpo dela que batesse, todo com idéias de sangue e de morte.

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Então uma voz aflita disse de dentro , num grito de súplica:

— Mas não me faças mal.

— Juro-te que te não faço mal... Abre, abre!

A chave rangeu. Ele precipitou-se enquanto Ludovina, no seu grande

penteador branco, se refugiava pôr trás da cama, apertando as mãos, com os olhos arregalados de pavor, e cheios de lágrimas.

E então, diante daquela mulher que chorava, ele ficou com a garganta estrangulada, sem obter uma palavra, dardejando-lhe um olhar de louco, e quase chorando também.

Então ela deu dois passos lentos para ele, com os braços abertos, tremendo-lhe a voz, tremendo ela toda, gritou por entre as lágrimas :

— Oh Godofredo, pela tua saúde, perdoa, eu não tinha feito mal nenhum, e era só a primeira vez...

E ele com a garganta estrangulada articulava apenas com os dentes

cerrados:

— A primeira vez, a primeira vez...

A sua cólera subia, fez explosão, num berro:

— E que fosse a primeira, que tem fosse a primeira? E então com quem, infame! E com quem! O que eu devia era matar-te. Vai, vai-te embora, sai daqui, deixa-me, criatura... Vai-te, vai-te.

Ela saiu, num choro desesperado. Então voltando-se, ele viu à porta do corredor a cozinheira, que olhava, curiosa, com o olho aceso, e mais na sombra do corredor, inquieta, e encolhida, mas espreitando também, a Margarida.

— Que faz vossemecê aqui – gritou ele. – Já para a cozinha! Se há aqui um pio vai tudo para a rua.

E atirou com a porta, ficou passeando furiosamente no quarto, onde o grande leito, com as duas travesseirinhas unidas, ostentava a sua brancura. E através do sangue que lhe fervia na cabeça, as suas idéias fixavam-se, decidia-se a bater-se com o Machado, num duelo de morte; e a ela, mandá-la para casa do pai. Pensou também num convento. Mas pareceu-lhe mais digno ir simplesmente restituí-la ao pai. E apenas mediu, pesou, fixou estas duas resoluções, a sua grande cólera calmou-se.

Agora era uma tristeza dura, negra, onde se misturava a necessidade imperativa, fria, aguda de se vingar... Agora a casa parecia de novo adormecida ao sol, conservando apenas como um surdo calor da cólera que ali passara.

Ele então procurou compor o rosto, mesmo diante do espelho arranjou a gravata; e empurrou a porta que dava para a sala de jantar. Ela estava lá sentada numa cadeira, encostada à parede, com o lenço na mão, chorando baixo, e assoando-se pôr entre lágrimas. Os seus cabelos que ainda estavam as lágrimas.

Os seus belos cabelos que ainda estavam metidos numa rede vermelha, e o 8

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chambre que se desapertara, deixava ver um bocadinho de renda de camisa, uma vaga brancura de seio. Ele desviou os olhos, nem a quis ver chorar. Foi voltado para a janela, seco e duro, que disse:

— Arranje as suas coisas, para ir para casa de seu pai.

Com os olhos voltados para a vidraça, sentiu que pôr trás o choro brando tinha parado: mas ela não respondeu. Ele esperou ainda, uma súplica, um grito de amizade , uma palavra de arrependimento. Ouvia-a apenas assoar-se. Então tornou-se cruel:

— Em minha casa – continuou, sempre voltado para a janela, com uma voz espectral da sua boca de mármore, e que o devia queimar – não quero prostitutas.

Pode levar tudo... Tudo o que é seu leve. Mas rua!

Voltou as costas, foi fechar-se no seu gabinete, uma espécie de alcova pequena, onde tinha apenas uma escrivaninha e uma estante. Sentou-se, preparou o papel, lançou ao alto a data, com a mão trêmula que tornava mexido o seu bolso cursivo comercial. Depois hesitou se diria meu caro Papá, ou só Exmº. Senhor: e decidiu-se pôr esta fórmula porque agora todo o parentesco acabava, não tinha mais família. E, diante do papel branco e vazio, ficou pensando, revolvendo esta idéia –

não tinha mais família. Um enternecimento invadiu-o, uma grande compaixão de si mesmo. Pôr que lhe sucedia isto a ele, tão trabalhador, tão bom, e que amava tanto? Uma lágrima veio-lhe aos olhos. Mas não se queria comover, queria escrever friamente, rigidamente, a sua carta. Mas ao tirar o lenço, para secar os olhos, encontrou uma caixa da pulseira. Abriu-a, esteve-a olhando um momento: no seu ninho de seda, a cobra de ouro, com olhos de rubis, enroscava-se trincando o rabo.

E ali estava o belo símbolo da continuidade eterna, dos dias felizes que voltam, um a um, para todo sempre. Então veio-lhe um desejo furioso de a acabrunhar, de lhe atirar em rosto todas as suas bondades para com ela, os seus sacrifícios, as toilettes que lhe dera, todas as vontades a que obedecera, e os camarotes em São Carlos, e as dedicações do seu amor. E não se conteve, voltou à sala de jantar, com os lábios cheios de exprobações. Ela ainda lá estava, de pé agora, e como ele há pouco, olhando estupidamente o prédio fronteiro, limpando os olhos. O seu belo perfil banhava-se na luz, a sua grande saia continuava, numa linha mole, a graça forte do seu corpo. E subitamente Godofredo sentiu que as palavras se lhe secavam na boca. Não achava uma transição para começar as suas invectivas: e à outra janela torcia furiosamente o bigode, com o coração num tormento, os lábios estéreis. Pôr fim uma idéia absurda surgiu do seu vago fundo romântico. Atirou a pulseira para cima da mesa; gritou:

— Mete isso também na mala, tinha-ta comprado hoje, é mais uma prenda!

Ela instintivamente deu um olhar à caixa da pulseira. Depois recomeçou a chorar.

Aquelas lágrimas mudas importunavam-no, enervavam-no.

— Para que estás tu a chorar? De quem é a culpa?... Minha não é, que nunca aqui te faltou nada...

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E então foi uma explosão. Passeando pela sala, numa voz baixa, rápida, lançou-lhe à face toda a sua ternura, toda a sua dedicação. Ela deixara-se cair sobre uma cadeira, chorando sempre. Parecia dever chorar eternamente. Ele gritou-lhe:

— Mas deixa-te de choros, fala! Dize, explica... Não tens nada a desculpar-te? Foste tu que quiseste, foste tu que o provocaste?

Ela, sentada ainda, levantou vivamente o rosto. Um clarão luziu-lhe nos olhos, através das lágrimas. E, sofregamente, como quem se agarra para não cair, acusou o Machado. Fora ele, ele só tivera a culpa. Aquilo começara havia quatro meses, quando ele tinha deixado a D. Maria . E então começara com ela: e falava-lhe, e tentava-lhe, e escrevia-lhe e aparecia lá quando Godofredo estava no escritório, e um dia, enfim, quase à força...

— Juro-te que foi assim... Eu não queria, pedi-lhe por tudo... Depois tive medo que a Margarida ouvisse o barulho...

E Godofredo ouvia estas coisas, lívido.

— Deixa ver as cartas dele – disse por fim, com uma voz que mal se ouvia.

— Não as tenho...

Ele deu um passo para o quarto, dizendo:

— Eu as acharei.

Ela erguera-se, com um grito, envolvendo-o nos braços:

Juro-te que as não tenho. Assim Deus me salve... Entreguei-lhas todas há dias...

Ele afastou-a, foi ao toucador. Justamente o molho de chaves estava sobre o mármore, entre os frascos. E então começou uma busca desesperada pôr entre os lenços, as rendas, as caixas de leques, todas essas coisas íntimas de mulher.

Ela, pôr vezes, tomava-lhe o braço, jurava-lhe que não tinha cartas. Ele tranqüilamente afastava-a, continuava, devastando as gavetas. Um leque de marfim quebrara-se ao cair: um rosário de contas com a sua cruz jazia no chão.

E já lhe parecia que ela falava verdade, quando viu o maço de cartas, apertado com uma fita de seda, e expondo-se estupidamente à sua vista, desde o princípio, entre duas escovas. Arrebatou-o, desapertou-o : não eram cartas dele, eram cartas dela. A primeira que abriu começava, meu anjo. Então tranqüilamente meteu-as no bolso. Voltou-se para ela, que ficara prostada à borda do Leito, disse:

— Arranje-se, para ir hoje mesmo.

Voltou ao gabinete. E aí uma por uma leu as cartas. Não havia nada mais imbecil: era a perpétua repetição de frases empoladas, e feitas: “ Meu anjo adorado, por que não fez Deus que nos encontrássemos há mais tempo?”... “Meu amor, pensas tu naquela que daria a vida por ti?” E mesmo isto: “Ai, quem me dera ter um filho teu...”

E a cada frase lhe caía no coração, como uma pancada surda, que o

devastava. Então, vivamente, e quase rasgando o papel com a pena, escreveu a 10

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carta ao sogro, quatro palavras simples, “que encontrara sua mulher com um homem, e desejava que ele a viesse buscar, e a recolhesse. Senão ele pô-la-ia de todo o modo fora de casa, como uma meretriz, indiferente ao destino que ela tomasse”. E num post-scriptum acrescentava que ia sair da cinco às sete – e lhe pedia que aproveitasse essa ausência dele para vir buscar sua filha.

Depois meteu a carta no bolso, abotoou a sobrecasaca, passou a manga pela seda do chapéu e saiu. Na escada encontrou um rapaz, de avental branco com um cesto na mão.

— É aqui que mora o sr. Alves?

Era o empadão, o fiambre, o queijo da Serra, todas as coisas boas que le comprara. Uma onda de tristeza afogou-lhe o coração. Teve de se segurar à rampa, para não desfalecer; o rapaz olhava-o espantado.

— É de casa do Mata?

Sim, senhor – respondeu o rapaz, ainda espantado daquele senhor que lhe parecia doente.

Godofredo murmurou:

— Sobe, bate em cima.

E ficou a escutar, ouviu o rapaz tocar, a porta abrir-se, depois a voz da Margarida dizer para dentro:

— É um rapaz que traz uma empada, minha senhora.

Ele desceu as escadas, quatro a quatro, mas embaixo, como dominado pela decência grave da escada, procurou calmar-se, abotoou a sobrecasaca, passou as mãos pela face, preparando-se para passar diante dos seus vizinhos, naquele ar que o fazia estimado e respeitado.

CAPÍTULO III

À porta da mercearia defronte, felizmente estava um galego que às vezes lhe fazia recados – muitas vezes para a casa do sogro. Entregou-lhe a carta, recomendando-lhe que a entregasse em mão própria, que não esperasse a resposta. E, como conhecia a probidade daquele galego, encanecido no serviço do bairro, acrescentou:

— Tem cuidado, em mão própria, vai dinheiro, uma nota.

O velho guardou a carta nas profundidades do seio, pôr baixo da camisa.

E então, de longe, Godofredo pôs-se a seguir aquela carta.

Viu o homem entrar no prédio do sogro, um prédio de quatro andares,

enxovalhado, com uma loja de trastes velhos pôr baixo. Neto morava lá no alto, onde havia um vaso na varanda. E durante uma eternidade esteve de longe vigiando a porta; o galego não descia. Então veio-lhe um terror que o sogro não estivesse em 11

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casa. Se só recolhesse à noite, se jantasse fora, não daria sinal de si senão, tarde, à noite! E ele, que havia de fazer? Errar, pelas ruas, à espera que sua mulher saísse?

E isto dava-lhe uma sensação terrível de abandono, de desordem, como se para sempre tivesse acabado a regularidade das coisas. De repente, viu o galego. Tinha entregado a carta ao senhor Neto. E descera logo, não esperara mais nada. Então, Godofredo, aliviado, continuou caminhando ao acaso, e pouco a pouco os seus passos, instintivamente, fizeram o caminho de todas as manhãs, o caminho do escritório. Desceu o Chiado. Na rua do Ouro parou um momento a olhar uma pistola, na vitrine do Lebreton. E a idéia da morte atravessou-o. Mas não queria pensar nisso, agora, nem no seu duelo .Logo às sete horas, quando se recolhesse, achasse a casa vazia, então pensaria no duelo, em ajustar contas com o outro. E foi andando ao acaso. Um momento pensou em ir ao Passeio Público; mas receou encontrar o Machado. E foi pelo Terreiro do Paço, pelo Aterro, quase até Alcântara. Ia como um sonâmbulo, sem reparar na gente que acotovelava, nem na beleza da tarde de verão, que morria num esplendor de ouro vivo. E não pensava em coisa alguma: era uma ondulação de idéias, em que passavam toda a sorte de coisas, as recordações do seu namoro com Ludovina, dias de passeio que tinha feito com ela, depois a maneira como ela estava recostada no braço do outro, e com o vinho do Porto defronte: e a cada momento voltavam-lhe fragmentos das cartas dela. “Meu anjo, por que não hei-de eu Ter um filho teu?” Era a mesma coisa que ela lhe dissera com os lábios unidos ao dele, de noite, no calor do leito... E regozijava-se agora de não ter um filho daquela infame.

Ia escurecendo, ele pensava em voltar: uma grande fadiga tomava-o, de todas aquelas emoções, aquela grande caminhada, no ar mole daquele dia de julho.

Entrou um momento num café, bebeu um grande copo de água: e ficou sentado, com a cabeça apoiada à parede, abandonando-se, no prazer daquele curto repouso.

O café estava numa penumbra. Um crepúsculo quente envolvia a cidade: todas as janelas abertas respiravam, depois da grande calma do dia: uma ou outra luz ia-se acendendo, e via-se passar gente encalmada, com o chapéu na mão. E ele sentia um prazer, naquela penumbra, e naquele repouso: parecia que a sua dor se dissipava, se dissolvia, naquela inação do corpo, entre as sombras do anoitecer. E

vinha-lhe um desejo de ficar ali para sempre, sem jamais se acenderem as luzes, sem que ele jamais tivesse de mover um passo na vida. E a idéia da morte invadiu-o, dum modo sereno e insinuante, como o sopro duma carícia. Desejou

verdadeiramente morrer. Naquele abatimento em que o seu corpo caíra, todas as amarguras que ainda tinha a passar, as coisas cruéis que tinha a penar, a volta à casa solitária, o encontro com o Machado, os passos a dar para procurar testemunhas – lhe pareciam outros tantos esforços, intoleráveis como penedos, que as suas pobres mãos jamais poderiam erguer: e seria delicioso encostar a cabeça ao muro, e ficar ali, naquele banco, morto, liberto, fora de toda a dor, tendo saído da vida, com a silenciosa tranqüilidade da luz que finda. Um momento pensou no suicídio. E não o aterrava, nem o fazia estremecer a idéia de se matar. Somente o procurar uma arma, o dar um passo, para se atirar ao rio, eram ainda esforços, que lhe repugnavam, naquele desfalecimento de toda a vontade. Quereria morrer ali, sem se mover. Se uma palavra bastasse, uma ordem dada baixo ao seu coração para que parasse e arrefecesse, diria essa palavra, tranqüilamente... E talvez ela chorasse, e lhe sentisse a falta. Mas o outro?

E a esta idéia, do outro a resolução voltara-lhe, uma energia, vaga, ainda bastante para que se erguesse, continuasse o seu caminho... Sim , o outro ficaria bem contente, se ele desaparecesse essa noite. Sentiria um completo alívio. Um ou 12

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dois dias mostrar-se-ía pesaroso, talvez se sentisse realmente perturbado. Mas depois continuaria a vida: a firma seria Machado & Cia; ele continuaria a ter amantes, a ir ao teatro, a pôr cera moustache no bigode. Isto não era justo. Fora o outro que causara a ruína duma bela felicidade, era ele que devia morrer. Era o Machado que devia desaparecer; era ele que devia matar. Isso seria mais justo. E as coisas seriam o contrário: a firma continuaria a ser Alves & Cia., e ele poderia mais tarde reconciliar-se com sua mulher, e a vida seguiria, resignada e calma. Era assim que devia ser. Deus, olhando para um, olhando para o outro, medindo os méritos e as culpas de cada um, devia fazer desaparecer o Machado, inspirar-lhe a ele a idéia do suicídio.

E então, destas duas absurdas imaginações que se balançavam no espírito perturbado – o seu suicídio, o suicídio do outro - , uma idéia surgiu, como faísca viva de entre duas nuvens pesadas, uma idéia nítida em todos os seus detalhes, que lhe pareceu justa, realizável, a mais conveniente, a única digna...

Mas nesse momento, alguma coisa de familiar, nas casas junto das quais caminhava, fez-lhe sentir que estava junto da sua porta. Parou, todo tomado pela idéia de Ludovina, olhou a casa. Com o seu bico de gás defronte, ela punha entre os dois altos prédios, a decência da sua fachada asseada, e pintada de azul, com persianas verdes. No seu andar não havia luz alguma: o porão estava cerrado.

Estaria ela ainda lá? Teria o pai vindo buscá-la? E uma angústia terrível fazia-lhe bater o coração. Um momento desejou que ela lá estivesse, pensou em perdoar, tanto aquela casa vazia o aterrava. Mas depois sentiu, que diante dela daí por diante, seria frio, constrangido; não, melhor que nunca mais se vissem. Então uma curiosidade levou-o à casa do sogro, ao fim da rua. Aí era um alto prédio, desleixado, sujo. No terceiro andar do sogro, as janelas abertas respiravam a frescura da noite, e também não havia luz. Nenhuma daquelas fachadas lhe respondia, o tirava de inquietação.

Então voltou à casa, empurrou o portão. A escada tapetada dormia na luz quente do bico de gás: e o som abafado dos seus passos parecia-lhe repercutir-se num lugar deserto e côncavo. Do segundo andar vinha, como vago e religioso, um som de piano, uma coisa do Fausto. A gente de cima era feliz, tocava piano.

A cozinheira veio abrir – e o quer que fosse no seu modo revelou logo ao Godofredo que Ludovina partira.

Na sala de jantar, sobre o oleado da mesa ardia uma vela. Ele tomou-a, entrou no quarto de dormir – viu logo duas malas fechadas e um baú.

Mas havia ainda objetos dela: junto da cama estavam as suas chinelinhas, sobre a chaise-longue o chambre branco que ela trazia essa manhã. E outras coisas tinham sido já guardadas – os frascos de cristal do toucador que eram dela, e uma Nossa Senhora de madeira, em que ela tinha devoção Ele pousou a vela sobre o toucador – e o seu rosto apareceu-lhe pálido, envelhecido, olhando para ele com um ar de ruína e de abandono.

Tomou a vela, foi à sala de visitas. Aí ficara um ar de catástrofe. A pele de raposa estava enrolada para um lado, sobre a mesa junto do sofá, ainda estava a garrafa de vinho do Porto, e à borda uma ponta apagada do charuto do outro. E

diante daquela ponta do charuto, uma raiva surda invadiu-o, pareceu-lhe sentir-se esbofeteado pôr uma mão de ferro, teve o estremecimento dum insulto maior, e jurou ser de bronze, nunca mais perdoar, mandar-lhe ele mesmo as malas embora, e ver o outro morto aos seus pés, ou morrer ele também.

Então imediatamente resolveu resistir àquele estado de perturbação e inquietação. Quis que no seu espírito reinasse a ordem; que tudo na casa retomasse 13

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o seu ar regular e calmo. Ela partira, as suas malas partiriam nessa noite. Daí pôr diante era um viúvo: mas o andamento da casa continuaria, com ordem e serenamente.

Gritou logo pôr Margarida.

— Então hoje não se janta nesta casa. São estas horas, e a mesa não está posta?

A criatura olhou para ele, como espantada de que ele quisesse jantar, ou de que se tornasse a jantar naquela casa. Ia decerto dizer alguma coisa: mas ele olhou-a dum modo tão firme, que ela saiu de esguelha – e daí a um momento punha a mesa, apressando-se, mostrando zelo, como se quisesse fazer-se perdoar a sua vaga cumplicidade. E pôs na mesa tudo o que continha o cesto – o empadão, o fiambre, a torta de fruta.

Godofredo no entanto fora para o seu gabinete. Agora aquela idéia que o atravessara bruscamente ao recolher do passeio, a solução que lhe parecia ser a única possível, voltava, estabelecendo-se-lhe no espírito, tornando-se agora o centro de toda a sua atividade interior. E era isto, tirarem à sorte, ele e o outro, qual deles se devia matar!

E isto não lhe parecia excessivo, nem trágico, nem despropositado: pelo contrário era a coisa racional, digna, e de mais, a única possível. E parecia-lhe que estava raciocinando muito friamente. Um duelo à espada, dois negociantes em mangas de camisa, atirando-se cutiladas gochas, vãs, até que um se feria no braço, parecia-lhe ridículo: e não era menos trocarem duas balas de pistola, falharem-se, e cada um entre os seus padrinhos voltar a meter-se na carruagem de aluguel. Não.

Para uma ofensa daquelas, só a morte: uma só pistola carregada, tirada ao acaso entre dois, disparada à distância dum lenço. Mas isto não era realizável. Onde encontrariam eles testemunhas que consentissem, quisessem partilhar a responsabilidade desta tragédia? Debalde se lhes explicaria a ofensa: o adultério é uma coisa grave, para o marido, os outros consideram-no um fracasso que não pede estes excessos de sangue. Além disso, se ele fosse o morto, bem, acabava-se: mas se visse cair o outro seus pés, qual seria depois a sua existência? Teria de fugir, abandonar o seus negócios, recomeçar a fortuna, numa terra estranha. Onde? E

depois a grande dificuldade permanecia: onde haveria padrinhos para isso? Seria então o escândalo, o falatório, a verdade que se saberia. Enquanto do outro modo, tudo era fácil, secreto, decente ,sem incomodar ninguém. Tiravam à sorte: aquele que pudesse, matava-se dentro dum ano. Se ele perdesse não hesitaria um momento, matar-se-ia logo. E não duvidava um momento que o Machado

aceitasse!... Como poderia recusar? Desonrara-o, devia pagar com o seu sangue. E

no mesmo tempo tinha um vago pressentimento que seria ele que perderia...

Acabou-se, tanto melhor. Que gozos lhe poderia trazer a vida, agora, naquela casa só, sempre só, e não tendo mesmo o gosto do trabalho, desde que não tinha prazer em gastar? E não hesitou um momento mais, escreveu logo um bilhete seco ao Machado, pedindo-lhe para comparecer, no dia seguinte, Domingo, às onze horas da manhã, no escritório... Fechava a carta quando a Margarida veio dizer que estava o jantar na mesa. Pôs rapidamente o chapéu, desceu à rua, deitou a carta na caixa da mercearia, entrou na sala de jantar – quando a cozinheira e a Margarida, diante da terrina de sopa que arrefecia, pasmavam daqueles modos do senhor. A presença da Margarida incomodava-o: sentia-a cúmplice, na confidência daquela infâmia. Um momento pensara em a despedir. Mas era como soltar, através doutras casas, e 14

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pelas casas das inculcadoras aquela língua de sopeira, contando e comentando a sua desgraça. Preferiu conservá-la, aturar-lhe a presença, manter-lhe o silêncio pelo receio de ser despedida...

Tinha desdobrado o guardanapo, levantando a terrina da sopa, quando a campainha retiniu com força.

Margarida foi à porta, e ele ficou com o coração aos pulos. A rapariga voltou correndo, dizendo com o tom com que anunciaria a aparição da Providência –

castigadora e reparadora:

— Meu Senhor, é o sr. Neto!

CAPÍTULO IV

Neto entrou . Ao ver a mesa posta, com o grande empadão, o fiambre e Godofredo de guardanapo entalado no colarinho, e com a garrafa ao lado, Neto ficou junto da porta, com um ar de surpresa, o chapéu numa das mãos, a bengala na outra. Terminou pôr murmurar, com uma ponta de amargura:

— Está bem, vejo que não falta o apetite.

Godofredo erguera-se logo, tomara uma vela de cima do aparador, dirigira-se à sala de visitas. Mas Neto não consentiu.

— Não senhor, temos tempo de falar, acabe você de jantar...

Mas Alves depois de levar à boca uma colher de sopa repelira o prato, tocou a campainha ao lado. Neto no entanto pousava, vagarosamente, o seu chapéu, a sua bengala, numa cadeira – enchendo o silêncio que se fizera, com lentidão dos seus movimentos. Era um homenzarrão, que fora nos seus tempos belo homem, e conservava ainda um bom perfil, a que a extrema palidez dava uma finura e distinção. Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente e singularmente arranjadas: o bigode grisalho parecia cortado rente, a direito, duma só tesourada: e os seus menores movimentos tinham tanto uma afetação de dignidade, e de seriedade, que mesmo, nesse momento, tirando devagar as luvas, parecia estar cumprindo um ato importante da vida oficial.

A criada no entanto trouxera o cozido: e, como ela se demorava em volta da mesa, retardando, arranjando, na esperança de ouvir uma palavra, Neto, com um ar de homem de sociedade, mostrou indiferença, um ar natural, dizendo que estava um calor de rachar.

— Muito calor – repetiu Godofredo, que, desde a entrada de Neto, recostado na cadeira, puxando a ponta do bigode, a outra mão no bolso, não levantara os olhos da borda da mesa. Pôr fim a criada saiu, com ordem de esperar pôr outro toque da campainha “para trazer o resto”. E logo Godofredo ergueu-se, a fechar a porta.

Então, Neto, vendo que podia falar livremente, sentou-se à borda duma cadeira, esteve um momento esfregando ambos os joelhos com ambas as mãos, e 15

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começou num tom lento, com palavras estudadas, de intenção eloqüente, para impressionar.

— Eu cumpri o meu dever de pai...

Esperou um momento, olhando o genro, uma interrupção, uma palavra.

Godofredo servia-se de arroz. Neto continuou:

— Cumpri o meu dever de pai, e estou-o cumprindo ainda nesse momento que é solene... Logo que recebi a carta, logo que vi que havia cá na casa desinteligência, vim buscar a minha filha, para dar o tempo, para que se pudessem trocar explicações, para que se desembrulhasse a meada... Quando duas pessoas não estão de acordo, melhor é que cada um se safe para seu lado. De longe, a sangue-frio, trata-se tudo melhor. Cara a cara, palavra puxa palavra, vai tudo pela água abaixo...

As palavras solenes iam-lhe escasseando. E acumulando as expressões

vulgares, excitado, falou em cancaborrada.

— Enfim – concluiu ele, o que eu quero saber é o que significa todo este escândalo?

Godofredo ouvira em silêncio, picando vagarosamente grãos de arroz. Estava decidido a não se alterar, a ser respeitoso e rígido. Desprezava o sogro, pôr histórias equívocas que sabia dele, sobretudo pelos seus sujos amores com a cozinheira.

Aquele ar solene não o impressionava: e com duas ou três palavras secas ia facilmente dominá-lo.

— O escândalo não é mais nem menos, do que eu lhe escrevi. Encontrei sua filha com um homem, e mandei-lhe para casa.

O Neto estremeceu. Aquele tom seco pareceu-lhe um insulto. Ergueu-se, com o olho aceso, a calva irritada.

— Ora essa! Ora essa! E se eu não a quisesse em casa? Essa não está má!

Então casa-se com uma filha-família, tem-na quatro anos, e, ao fim de quatro anos, agora, minha menina, volta para casa de teu pai? Essa não está má! E se eu a não quisesse em casa, meu caro senhor, e se eu a não quisesse em casa?

Bravejava, esquecidas todas as preocupações com uma voz que se devia ouvir na cozinha.

Muito friamente Godofredo disse:

— Nesse caso ficava na rua.

Isto acabou de enfurecer o Neto.

— Na rua?

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— Perfeitamente. Desonrou-me, desonrou a minha casa, aqui não a

consinto... Faça as suas malas, adeus! Se o pai, se ninguém a recebe, está claro que fica na rua.

Neto não podia acreditar nesta teima implacável. Tinha cruzado os braços, contemplava o genro, com um olhar que chamejava.

— Homem, deixe-me olhar para si. Deixe-me olhar para si que o senhor é um monstro. Então quer o senhor dizer que abandonava sua mulher, deixava na rua, sem um canto para se abrigar.

Tanta palavra torturava Godofredo. Era como o remexer numa ferida que ainda sangrava. Ergueu-se, querendo dizer ainda uma palavra, acabar a discussão.

Mas o Neto não o deixou abrir os lábios, gritou:

— E não se põe uma mulher fora de casa, pôr que se encontrou só a receber uma visita!

Godofredo ficou a olhar para ele, com os lábios trêmulos, sem poder soltar as palavras que lhe estrangulavam a garganta. Era como um horror, de dizer alto, ali, mesmo a um sogro, como a tinha encontrado, nos braços do outro. E, diante deste silêncio. Neto exaltava-se mais, triunfando:

— É necessário provar! A lei pede o flagrante... O senhor não viu nada, não apanhou uma carta...

Toda a cólera de Godofredo fez explosão:

— Cartas infames, senhor. Cartas obscenas, senhor! Sabe o que lhe dizia, que queria Ter um filho dele! Um filho, que eu havia de vestir, de sustentar, de estimar, de educar... Um Filho! E aqui está a educação que o senhor deu à sua filha....

Neto ficara cabisbaixo. A filha não lhe falara de cartas. Passou a mão pelas duas repas da calva com um ar atrapalhado, e murmurou depois dum grande silêncio:

— As mulheres, quando lhes chega a veneta, escrevem cousas sem tom nem som...

Godofredo não respondeu. Passeava pela sala, com as mãos nos bolsos; e sobre a mesa, o seu prato ainda com arroz, ficava esquecido e arrefecendo. Neto então bebeu um grande copo. E subitamente, como tomando uma grande resolução, dizendo a coisa suprema que ali trouxera, exclamou:

— Mas enfim, de que quer o senhor que ela viva? Eu não tenho para vestir, nem para a calçar?...

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Godofredo parou logo, no seu lúgubre passeio. Esperava aquilo, estava preparado, tinha a sua resposta, em que pôs um tom de dignidade, de homem superior às misérias do dinheiro:

— Enquanto sua filha estiver em casa de seu pai, e se portar bem, tem trinta mil réis pôr mês.

A calva do Neto iluminou-se: e pareceu subitamente satisfeito, toda a sua cólera desapareceu.

— É razoável, é razoável – disse ele num tom quase enternecido.

Depois os dois homens ficaram calados como se não tivessem mais nada a dizer......

Godofredo tocou a campainha: a criada correu, dardejando desde a entrada um olhar a um e a outro.

— O café – disse Alves.

— E uma chávena para mim, senhora Margarida – disse o Neto retomando na casa a sua familiaridade de sogro.

Godofredo continuava passeando na sala... Neto sentara-se à mesa, e

preparava cuidadosamente um cigarro, dando de vez em quando um olhar de lado de lado ao genro. E levou uma eternidade a preparar o cigarro: enrolou-o gordo e liso, depois metendo a onça na algibeira, para tirar a isca, exclamou, com um vago suspiro.

— O pior é o falatório!

Godofredo não disse nada, o outro petiscou lume, acendeu pausadamente o cigarro.

— E a você, na sua posição, na praça, não lhe faz senão mal...

Godofredo voltou-se impaciente.

— E de quem é a culpa?

Pois bem... Mas enfim, o melhor seria evitar o falatório. Pelo menos naqueles primeiros tempos...

Margarida entrou com o café. Godofredo sentara-se. E remexendo o açúcar, um diante do outro, o genro e o sogro, estiveram um momento calados. Neto provou o café, deitou-lhe ainda mais açúcar. Depois deu duas fumaças. E voltou à sua idéia:

— Nem para você, nem para mim, é bom que se ponham pôr aí a falar.

Então aquelas lentidões, aquelas pausas irritaram Godofredo.

— Mas que diabo! Que quer que eu lhe faça?

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Mas Neto conservava agora o seu ar calmo e refletido. E com uma voz

tranqüila falou dos seus sentimentos. Ele sempre se tivera pôr bom pai; e, se não fossem as circunstâncias em que estava, não teria aceitado mesada para sua filha...

Não teria exigido nada. Levava-a para casa, lá viveriam todos, e acabou-se... E tudo o que fosse necessário para fazer cessar o escândalo fá-lo-ia à sua conta.

Godofredo começava a perceber. O Neto tinha uma outra idéia para apanhar dinheiro : e ele quis logo as coisas claras.

— Vamos lá a saber, sem mais circunlóquios, o que o senhor pensa.

Mas o Neto continuou com circunlóquios. O melhor meio de evitar o

escândalo. O melhor meio de evitar o escândalo era sair de Lisboa. E a estação favorecia-os, era o tempo de ir para banhos, ninguém se admiraria que ele fosse pôr exemplo para a Ericeira levando sua filha casada. Todo o mundo suporia que Alves não podia acompanhá-la, nem deixar os seus negócios... Mas ninguém sabia se ele ia ou não ver sua mulher todas as semanas. A idéia era famosa, mas...

Godofredo interrompeu-o:

— Mas quer que eu lhe dê o dinheiro para isso...

— A não ser que eu o vá roubar – ajuntou o outro muito francamente.

Godofredo refletiu. Havia ali uma maneira hábil de ir passar o verão para a praia, à custa dele; mas ao mesmo tempo a idéia era prática, matava o falatório.

Aceitou. E num instante regularam os detalhes. Para o aluguel da casa na Ereceira, jornadas, transporte de alguma mobília, o Godofredo dava trinta libras; e nos meses de agosto, setembro e outubro, a mesada à filha, para despesas de praia, seria elevada a cinqüenta mil réis. E apenas dissera isto, ergue-se, querendo pôr todos os modos cessar aquela entrevista.

— E não falemos mais nisto, que tenho a cabeça em água.

Estava com efeito pálido como um morto, com um começo de enxaqueca, um desejo de se deitar, de adormecer pôr muito tempo.

Mas Neto, de pé, ainda queria dizer uma última palavra. De ora em diante, ele era o responsável pôr sua filha. Confiava em Deus, tinha a certeza que mais tarde, passado aquele primeiro desgosto, haveria mútua indulgência, e eles se viriam a juntar...

Godofredo negou, com um movimento de cabeça, um sorriso doloroso. Não, nunca de juntaria com ela.

— O futuro pertence a Deus – disse Neto. – Agora concordo que é melhor que estejam separados pôr algum tempo. E era a isto que eu queria chegar: enquanto ela estiver em minha casa, é como se estivesse num convento...

Respondo pôr ela.

Godofredo fez com os ombros um movimento vago. Tudo aquilo lhe parecia palavreado. O que queria agora era estar só. Tinha tocado a campainha, Margarida preparava-se para abrir a porta, alumiar ao sr. Neto. Ele tomou o seu chapéu, bebeu, já de pé, o último gole de café, e depois de apertar a mão do genro, saiu, recomendando baixo à criada que tivesse prontas as malas da senhora...

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— E manda dizer que não lhe esqueça aquele açucareiro de prata que lhe deu o padrinho nos anos dela... O açucareiro é dela.

E desceu as escadas, regozijando-se desta boa idéia. A filha não lhe dissera nada do açucareiro. Mas enfim era dela, uma bonita peça de prata, e era bom que lhe recolhesse à casa, também.

Fora, a noite estava abafada, e Neto dirigiu-se à casa devagar, levando o chapéu na mão, calculando as despesas da Ericiera, contente consigo. Os banhos iam-lhe fazer bem. Com cinqüenta mil réis pôr mês, da Ludovina, podia-se estar com conforto: e, como a Ludovina não devia aparecer, nem havia toilletes a fazer, ainda se metia dinheiro no bolso.

Quando depois de subir, aos poucos, os seus cento e cinqüenta degraus, bateu à campainha da porta, foi a Teresa, a filha solteira, que veio abrir, a correr, com os olhos brilhantes, toda excitada. Ninguém lhe disfarçara a verdade. Sabia já que a Ludovina tinha sido apanhada com um homem, que havia um grande desgosto, que o pai fora para Ter uma explicação com o Godofredo.

— Então – perguntou ela, sofregamente.

— Lá dentro, lá dentro falaremos.

Atravessaram a cozinha, que estava às escuras com uma claridade de brasa no fogão, onde fervia a chaleira, e entraram na sala de jantar, uma espécie de cubículo nas traseiras. Sentada à mesa redonda, coberta de oleado, a criada, a sra.

Joana, uma raparigota fresca, com dois brincos ricos de senhora, e vestido de merino azul, lia o Diário das Novidades à luz dum candeeiro de petróleo, com abat-jour ; e junto ao aparador na sombra, estendida numa cadeira de vime, calada, vestida, estava Ludovina.

Quando o pai apareceu, ela ergueu-se, com os olhos ainda vermelhos, toda vestida de preto.

Neto sentara-se, limpando com o lenço de seda o suor do pescoço. Os olhos das três mulheres devoraram-no. E como ele não se apressava, gozando a ansiedade da família, foi a sra. Joana que gritou:

— Vamos lá, então, fale!

Ele enrolou devagar o lenço e respondeu, no silêncio profundo da sala:

— O Godofredo dá trinta mil réis pôr mês.

Houve uma vaga respiração de alívio, correu um frêmito de satisfação. Teresa olhava a irmã, pasmada daqueles trinta mil réis que lhe vinham a assim para o bolso, pôr Ter sido apanhada com um homem. A sra. Joana confessou que era de cavalheiro. Mas a Ludovina não via nada de extraordinário: era o que faltava é que a pusesse fora da porta, sem cinco réis.

Então o pai voltou-se para ela com a testa enrugada.

— E no fim dizes que não tinhas escrito nada, e ele diz que te apanhou cartas indecentes.

— É mentira – disse ela simplesmente -, as cartas não diziam nada... Eram uma brincadeira.

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Houve um silêncio, o Neto, com os olhos na borda da mesa, acalmava

dignamente as repas da calva. E as três mulheres continuavam a olhá-lo esperando outros detalhes, toda a história da entrevista.

— E as malas da Lulu, ó papá – perguntou a Teresinha, que vivia desde essa tarde com o desejo de ver chegar as malas, de as ver desfazer, apanhar algum presente.

Mas o papá, todo noutra idéia, continuou, sem responder:

— E ficou combinado que para evitar falatório vamos passar o verão à Ericeira.

Então foi uma alegria. Teresinha bateu as palmas. Joana ria, de satisfação, ela que tanto precisava de banhos. Só Ludovina ficava indiferente com uma sombra de tristeza na face, pensando no belo plano de que Godofredo andava ultimamente falando, os dois meses de agosto e setembro passados em Sintra. E foi sentar-se de novo, enquanto Joana e Teresinha torturavam o papá de perguntas, já com planos, ambas com o entusiasmo daquela estação de banhos... E eram já mil planos. Teresa já palrava desabaladamente. Joana lembrava coisas que seria necessário levar, os colchões, a louça de mesa, e o piano, para dar mais alegria. O melhor seria irem todos à Ericeira, para alugar a casa... Então Ludovina saiu do seu silêncio.

— E é necessário uma casa em que se caiba... Que para dormir num cubículo como este de cá, não tem jeito.

Diante desta exigência, o pai franziu a testa. E não se conteve e disse logo:

— Hás-de dormir onde puderes... Se querias os cômodos da casa de teu marido, portasses-te bem, ficasses lá.

Houve um silêncio na sala. Ninguém jamais ousava replicar quando Neto erguia a voz. Então, naquele silêncio de respeito e de susto, que se fizera em torno da sua voz irritada, ele aproximou-se da mesa, tirou da algibeira um lápis, encavalou a luneta no nariz, e, sob o candeeiro, começou a fazer à margem do jornal os cálculos das despesas da Ericiera. Toda estendida pela mesa, Teresinha via alinhar os números – tanto para casa, tanto da carruagem que os levasse, como uma enfiada de prazeres que brilhavam uns entre os outros. Pôr trás, de pé, Joana dava as suas idéias. Dentro na cozinha a chaleira do chá fervia. Uma tranqüilidade honesta envolvia a casa; e na sombra Ludovina, calada, como esmagada diante da existência que agora a esperava, os incômodos, a má comida, o gênio do pai, a autoridade da criada na casa, tudo o que a esperava e tudo o que perdera, e amaldiçoava a sua infelicidade de ter caído assim nos braços dum sujeito que ela não amava, de quem não recebia prazer, levada àquilo sem saber pôr quê, pôr tolice, pôr não Ter que fazer, nem ela sabia pôr que.

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CAPÍTULO V

Na manhã seguinte um raio de sol, entrando pela janela, despertou

bruscamente Godofredo. Ergueu-se de repente sobre o cotovelo, e, batendo as pálpebras, ficou espantado de se ver num sofá, vestido, com botas. Então bruscamente a idéia toda da sua desgraça caiu-lhe sobre o coração pesadamente. E

um véu de crepe pareceu envolver tudo em torno dele. Na véspera, depois que o Neto partira, estendera-se ali, morto de fadiga, e adormecera logo, dum sono fundo e pesado. Então sentou-se no sofá. Havia um grave silêncio na casa e na rua: eram apenas seis horas. Em redor o quarto conservava a desordem da véspera, com a mala ao centro, o chambre de Ludovina atirado aos pés da cama. Olhou muito tempo aquele chambre, o grande leito intacto, onde ninguém se deitara, com as duas travesseirinhas ao lado uma da outra. Depois, como na véspera, percorreu a casa: na sala de jantar, a mesa ainda tinha a toalha da véspera e em cima uma vela esquecida derretera-se e extinguira-se dentro dum castiçal. Depois diante da porta da sala de visitas tomou-o uma covardia, não se atreveu a mover o reposteiro. E

voltou para o quarto, tornou a sentar-se no sofá, as mãos ao acaso, o olhar vago, sem saber o que havia de fazer àquela hora matutina, em que a cidade ainda dormia. Àquela hora Ludovina decerto dormia também. E recordava-se ds manhãs em que ele acordava cedo, se erguia de manso, abria uma fresta da janela, enquanto ela dormia, com os seus cabelos numa rede, uma renda do chambre em volta do pescoço, e as longas pestanas negras fazendo-lhe uma sombra na face...

Agora o leito, ainda feito, àquela luz clara da manhã, dava-lhe uma sensação de frialdade, de desconforto... Uma tristeza invadiu-o, imensa, sem fim, que o dissolvia, lhe dava vontade de deitar a cabeça para um canto do sofá, ficar ali a morrer... E a mesma idéia da véspera voltava, a idéia da morte, entrando-lhe no espírito como a lenta suavidade duma carícia.

Mas daí a horas tudo estaria decidido, talvez ele fosse como um homem morto. Era às onze horas que devia encontrar o outro. O coração batia-lhe à idéia que o ia ver, outra vez, diante de si; e parecia-lhe, agora, impossível de o imaginar numa outra atitude, que não fosse como o vira na véspera, com o braço em torno da cinta dela. Mas agora a sua idéia da véspera, o tirar à sorte o suicídio, que parecera tão natural, espantava-o um pouco. Parecia-lhe estranho que fosse ele, ele, Alves, que, ali, naquela rua de são Bento que o sol da manhã dourava, tivesse tido semelhante idéia, uma idéia trágica, e própria dum coração violento. E tomava-o uma inquietação. Que diria o outro a semelhante proposta? Se recusasse? E outras dificuldades de detalhe surgiram . Como tirariam à sorte? Com papéis brancos? E

subitamente veio-lhe o receio que, diante duma proposta tão exaltada, o outro se risse... Nesse caso esbofeteava-o. Mas não, não poderia recusar, era um homem de honra! Enfim daí a horas o saberia. E não queria pensar mais nisso. Aquela idéia ocupava-o, quase o impedia de sofrer; pôr outro lado, dava-lhe uma espécie de consideração pôr si mesmo, encobria o ridículo – e não queria pensar em nada que diminuísse a importância desse plano.

No entanto sentiu passos na cozinha, as criadas tinham-se erguido. Na rua, um rumor ia subindo, vozes de pregoada, as carroças, a sussurração da cidade que acorda. E então pouco a pouco ele foi entrando na rotina diária, pôs os botões na camisa lavada, afiou a sua navalha de barba. Mas aquela grande mala no quarto incomodava-o.. De repente, lembrou-se que devia fazer o seu testamento. E imóvel diante do espelho, com metade da cara ensaboada, ficou revolvendo esta idéia: e um vago espanto, uma estranheza tomava-o de estar ali pensando no testamento.

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Porque agora todas as idéias que na febre da véspera lhe tinham parecido naturais e fáceis tomavam agora, naquela luz clara da manhã, entre a rotina da sua toillete, uma frieza pouco natural, falsa, que repugnava ao lado positivo do seu caráter.

Às oito horas a campainha retiniu. Ele foi escutar. Depois a criada andou para dentro, para fora, ele perguntou quem era? A criada do sr. Neto. E não ousou perguntar mais nada, nem o que ela queria.

Depois foi o almoço. Ele devorou. Estranhou mesmo de não ver o fiambre na mesa – e a criada, depois de o trazer, disse que a senhora ia mandar buscar as malas à noite. Ele não disse nada, detestando cada vez mais a Margarida, que parecia continuar a zelar os interesses da senhora, receber os recados dela, ser ainda a sua confidente. E, como faltava o açucareiro, Godofredo foi áspero, exagerou aquela falta, ameaçou-a de a pôr na rua.

A criada destro no corredor resmungou. Ele gritou:

— Pouco barulho!

E a cada momento o coração dava-lhe pulos à idéia de se ir encontrar com o outro. Com um terror de atravessas a rua, onde talvez se pudesse já falar na sua desgraça, mandou buscar uma tipóia. A criada tardou. O relógio caminhava. E ele nervoso, quase com febre, ia da janela à cancela, calçando as luvas, e parecendo-lhe que o solho que pisava era mole, e que lhe cedia sob os pés. Enfim o coupé chegou. E ele desceu, com a garganta apertada numa angústia horrível. A voz sumia-se-lhe quase ao dar a adresse do seu escritório ao cocheiro. Pareceu-lhe que o trem voava; e naquela emoção ia-se-lhe embrulhando o estômago, o almoço subia-lhe à garganta. Enfim chegou. E era uma atarantação, mal podia achar na algibeira uma placa para pagar ao cocheiro.

O escritório dormia no grande silêncio do dia feriado. – e quando ele empurrou o batente de baetão verde o relógio dava onze horas, com o seu tom que soava cavo e triste, sob aqueles tetos baixos. Correu ao seu gabinete, e pareceu-lhe que não tinha entrado ali havia séculos, e que havia alguma coisa de diferente nos móveis e na ordem das coisas. No seu vaso o ramo acabava de secar.

E então, bruscamente, uma reação fez-se no seu ser, Diante daqueles

móveis, daquelas duas carteiras de sócios, postas uma junto da outra, lembrando-lhe uma intimidade, uma confiança de anos, veio-lhe uma cólera furiosa contra o Machado. As coisas mesmas o acompanhavam nesta cólera. Sim, o Machado era um infame que merecia a morte. E cada cadeira, as paredes mesmas, como embebidas da honra comercial que ali habitava, eram uma acusação muda contra a traição do Machado.

De repente um passo leve soou fora: era o Machado.

Godofredo, instintivamente, refugiara-se pôr trás da sua carteira, remexendo ao acaso papéis, com a mão trêmula, sem ousar erguer os olhos.

O batente abriu-se, era o Machado, pálido como um morto, com o chapéu e a bengala numa das mãos, a outra no bolso das calças, fazendo uma saliência.

Mas Godofredo não via isto, não ousava fixá-lo: os seus olhares erravam aqui e além, procurando uma palavra, uma coisa profunda e digna a dizer. Pôr fim, com um esforço, encarou-o: e aquela mão no bolso feriu-o logo, teve um gesto, receando uma arma, um ataque. O Machado compreendeu, lentamente retirou a mão do bolso, foi colocar o chapéu, a bengala, sobre a sua carteira. Então godofredo, trêmulo, com a pressa, a ansiedade de dizer alguma coisa, balbuciou isto: 23

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— Depois do que se passou ontem, não podemos continuar a ser amigos.

Machado, que tinha a face contraída, com uma expressão de ansiedade, cerrou os olhos, respirou livremente. Esperava uma violência, alguma coisa terrível, e aquela moderação, aquele gemido triste, duma amizade traída, espantou-o, quase o impressionou... Nesse momento desejava poder lançar-se nos braços do seu sócio. E respondeu, com uma emoção sincera, um soluço na garganta:

— Infelizmente, infelizmente...

Então Godofredo fez-lhe sinal que se sentasse. Machado, com a cabeça baixa, foi pousar-se à borda do sofá de reps. Godofredo deixou-se cair, como uma massa inerte, sobre o mocho, junto à carteira. E durante um momento um silêncio profundo reinou, tornado maior ainda pôr aquela rua de negócio adormecida ao Domingo, sob a calma. Godofredo passava a mão trêmula pela face, pelo rosto, procurando uma palavra.

O outro esperava, olhando a esteira.

— Um duelo entre nós é impossível – disse enfim Godofredo com esforço.

O outro balbuciou:

— Estou às suas ordens, disponha...

É impossível! — o Godofredo. – Riam-se de nós... Sobretudo esses duelos que para aí há... Era cair no ridículo... Não podemos, na nossa posição. Toda a praça se ria dum duelo entre dois sócios...

E um momento ficou trabalhando pôr esta idéia de serem sócios. Então todo aquele passado que os ligava pareceu erguer-se diante de Godofredo; e nunca sentira tanto a infâmia do Machado como vendo-o ali, naquele gabinete, onde três anos tinham trabalhado juntos. E disse-lho.

— A sua infâmia não tem nome...

Tinha-se erguido, a sua voz fortalecia-se, e o seu sentimento de amigo traído dava-lhe ao tom agora uma dignidade, uma solenidade que esmagava o outro.

Então falou baixo, atirando-lhe as palavras, como punhaladas. Conhecera-o de pequeno; fora ele que o protegera no seu começo da vida; tinha-o feito seu sócio, seu amigo, quase seu irmão. Abria-lhe as portas de sua casa, recebia-o lá, como um irmão.

— E pelas minhas costas, o senhor que faz, desonra-me!

O outro erguer-se, com a face angustiosa, querendo acabar aquela tortura.

— Sei tudo isso – balbuciou, estou pronto a dar-lhe todas as reparações, todas, quaisquer que sejam.

Então Godofredo, exaltado, atirou a sua idéia:

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— A reparação é só esta! Um de nós tem de morrer... Um duelo é absurdo....

Tiramos à sorte qual de nós se há-de-matar.

Aquelas palavras patéticas, apenas as soltara, tinham-lhe aparecido como sons estranhos e desconexos: os mesmos móveis as pareciam repelir... mas soltara-as, essas palavras; sentia um alívio, tendo enfim desembaraçado a alma daquilo que desde a véspera lha enchia de perturbação e de tormento.

Machado ficara a olhar para ele com os olhos esgazeados.

— Tirar à sorte! Como tirar à sorte?

Parecia não compreender. Aquele suicídio, tirado à sorte, parecia alguma coisa de grotesco e de doido.

Como Godofredo continuasse de pé, junto da carteira, sem dizer nada, mexendo no bigode, impacientou-se, exclamou:

— Isso é sério? Isso é dito a sério?

Foi então Godofredo que o olhou interdito. O que ele receara realizava-se.

Machado achava aquilo absurdo, recusava. Então a sua cólera cresceu, como se visse fugir-lhe a vingança.

— Já ontem o senhor fugiu, quando o apanhei, fugiu covardemente. Agora quer fugir disto também.

O outro gritou, lívido:

— Fugir a quê?

Uma cólera surda invadia-o, acendia-lhe o olho. Todas as acusações do outro o tinham exasperado. Depois vinha aquela proposta absurda dum suicídio à sorte.

Agora insultava-o . Não, isso não toleraria. Balbuciou, já excitado:

— Fugir de quê – repetiu, fugir de que? Eu não fujo de nada...

— Então – disse Godofredo, batendo com a mão na secretária, já aqui, tiramos à sorte quem de nós há-de desaparecer!

O outro encarou-o um momento, como se o fosse esganar. Depois agarrou vivamente o chapéu e a bengala. E numa voz mordente, decidida, que vibrava:

— Eu estou pronto a dar-lhe todas as reparações, e com todo o meu

sangue... Mas há-de ser dum modo sensato, regular, com quatro testemunhas, à espada ou à pistola, como quiser, a que distância quiser, um duelo de morte, tudo o que quiser. Estou às sua ordens. Hoje todo o dia, amanhã todo o dia, lá espero, em minha casa. Mas com idéias de doido não me entendo. E não temos mais que conversar...

Atirou o batente, os seus passos furiosos soaram um momento fora, e tudo recaiu num grande silêncio. Godofredo ficava só, com as lamentáveis ruínas daquela 25

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sua grande idéia, humilhado, confuso, encavacado, com as fontes a latejarem-lhe, sem saber o que havia de fazer.

CAPÍTULO VI

Por fim, tal qual como fizera o Machado, agarrou vivamente o chapéu e abalou do escritório. E tão estonteado is que foi já na rua do Ouro que se lembrou que não fechara a porta à chave; voltou atrás, e isto pareceu pôr alguma ordem nas suas idéias. Agora estava decidido a bater-se com ele, num duelo de morte, e nenhuma coisa no mundo parecia dever satisfazê-lo, senão vê-lo aos seus pés, com uma bala no coração. Pois que! Aquele homem desonra-o, rouba-lhe o amor da sua mulher, e agora, ainda pôr cima, trata-o como um insensato, chama-lhe de doido! E

isto enfurecia-o sobretudo, porque ele agora sentia vagamente que naquela idéia do suicídio à sorte havia alguma coisa de insensato! Talvez houvesse! Mas o outro não lho devia dizer, devia aceitar tudo, resignar-se à reparação que ele exigisse! Não quisera, reclamava uma reparação dum modo regular e sensato. Pois bem, assim seria, bater-se-iam à pistola, com uma só pistola carregada tirada ao acaso, apontada à distância dum lenço! Era ainda o acaso, era ainda a sorte, era deixar tudo à mão justa de Deus.

No entanto, dirigira-se rapidamente para o Rossio. O seu amigo íntimo, o Carvalho, aquele que fora diretor da Alfândega de Cabo Verde e que casara rico, morava lá; e era ele o primeiro a quem se dirigia, a contar-lhe tudo, a entregar-se à sua velha amizade; depois iria procurar o outro dos seus grandes amigos, o Teles Medeiros, homem de fortuna e de sociedade, que tinha panóplias de floretes na sala, e a experiência do ponto de honra.

Estava dando meio-dia, o sol de julho abrasava as ruas: e as lojas fechadas, a gente nos seus fatos de Domingo, as carruagens de praça abrigadas no lado à sombra, tudo dava uma sensação maior de calma e de inércia. Uma poeira sutil embaciava o azul; e o mesmo som dos sinos arrastava pesadamente, no ar mole.

Quando Godofredo trepava as escadas do Carvalho – topou justamente com ele, que descia, satisfeito e fresco, no seu fato novo de cheviot claro, calçando as luvas gris-perle. A figura esbaforida, o ar aflito de Godofredo, espantaram-no: e tornou a subir, abriu ele mesmo a cancela com o trinco, fê-lo entrar num pequeno gabinete, onde havia uma estante e uma longa cadeira de vime, em forma de leito de campanha. Ao lado na sala, tocava-se piano, um tom de valsa rápido, que fazia vibrar a casa.

E o Carvalho correu o reposteiro, fechou a janela aberta, antes de perguntar o que era?

Godofredo pusera o chapéu a um canto da mesa e imediatamente desabafou, dum jato.

Às primeiras palavras de sofá, de braço pela cinta, Carvalho, que tirava lentamente as luvas, ficou petrificado, no meio do gabinete: e foi correr ainda mais o reposteiro, como se receasse que a história daquela traição lançasse uma exalação indecente através do seu prédio. Mas, na atrapalhação com que o Godofredo contara a história, na sofreguidão com que a escutou, não percebera bem quem era o homem, apenas compreendendo que o Machado estava presente: e quando soube que era ele que estava no sofá, bateu as mãos uma contra a outra, teve uma exclamação de horror.

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— Que infâmia!

— Um homem que era como um irmão para mim – exclamava Godofredo,

baixando a voz, brandindo os punhos. – E paga-me assim... Não, é necessário haver morte de homem. Quero um duelo de morte!

Então todo o rosto barbudo do Carvalho exprimiu uma inquietação. Agora percebia. Godofredo não viera ali só desabafar, viera arranjar uma testemunha: e tomava-o logo um susto de burocrata, um medo da lei, o receio de se comprometer.

E o seu egoísmo revoltou-se diante das coisas violentas e perturbadoras que pressentia. Quis atenuar, logo procurou explicações. Enfim, se Godofredo não vira mais nada... Se era só estarem na sala... Podia ser uma brincadeira, uma tolice...

Godofredo, febrilmente, procurava nas algibeiras. O piano dentro caíra agora a sons vagos, como de dedos que tenteiam, procuram uma melodia esquecida. De repente um bocado do Rigoletto rompeu, com um arranque gemido e soluçante. E

Godofredo, que achara enfim a carta, pô-la diante dos olhos de Carvalho. O outro leu a meia voz:

—“Ai Riquinho da minha alma, que beijinhos tão bons...”

E, como se aquelas palavras, ouvidas na voz do outro, lhe parecessem mais infames que quando ele as lera, não se conteve, elevou a voz, gritou:

— Não, isso com sangue, é necessário um duelo de morte...

Carvalho, inquieto, fez-lhe sinal que se calasse. E como o piano parou, um momento ficou escutando, receando que o grito do outro tivesse sido ouvido:

— É a Mariana – disse ele indicando a sala... – Pôr ora é melhor que ela não saiba...

Depois voltou a ler a carta, lentamente: e palpou o papel, revirou-o, conservando-o nos dedos com uma curiosidade excitada, como se sentisse ali o calor dos beijinhos...

E Godofredo procurou ainda mais pelas algibeiras, descontente de Ter esquecido as outras cartas. Porque havia ainda outras piores! E citou frases, exibiu toda a tolice, todo o descaro de Ludovina, tomado agora apenas do desejo de vencer bem o Carvalho que sua mulher era uma prostituta.

— De resto ele não negou, disse a tudo que sim!

— O que, vocês falaram?

Então, depois duma hesitação, Godofredo acabou a confidência, a sua idéia de um suicídio à sorte, o encontro que tivera com o Machado. O Carvalho, que caíra para cima do sofá, como que brado, esmagado pôr todas aquelas revelações, abria uns grandes olhos na sua face queimada de África, espantado de que aquelas coisas violentas, terríveis, se estivessem realmente passado, e fossem ditas ali, no seu tranqüilo prédio do Rossio...

Quando Godofredo contou que o Machado achara aquilo insensato, Carvalho não se conteve.

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— De doido! De puro doido! – exclamou erguendo-se.