Amadis de Gaula por Anónimo - Versão HTML

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AMADIS DE GAULA

( Tradução de Graça Videira Lopes, a partir do original castelhano de

Garcí Rodríguez de Montalvo; no final deste ficheiro, o leitor encontrará

uma breve nota sobre o romance e os problemas – autoria, nacionalidade,

etc. – que coloca, bem como sobre os critérios seguidos nesta tradução) 1

PRÓLOGO

Considerando os sábios antigos, que os grandes feitos das armas deixaram em

escrito, quão breve foi aquilo que com efeito verdadeiramente nelas se passou, assim

como as batalhas do nosso tempo que [por] nós foram vistas nos deram clara

experiência e notícia, quiseram, sobre algum cimento de verdade, compor tais e tão

estranhas façanhas, com que não apenas pensaram em deixar perpétua memória aos que

a elas foram afeiçoados, mas também que fossem lidas com grande admiração, como

nas antigas histórias dos gregos e troianos e outros que batalharam aparece por escrito.

Assim o diz Salústio, que tanto os feitos dos de Atenas foram grandes quanto os seus

escritores os quiseram aumentar e exaltar. Pois se no tempo destes oradores, que mais

nas cousas da fama que do interesse ocupavam os seus juízos e fatigavam os seus

espíritos, acontecera aquela santa conquista que o nosso muito esforçado Rei fez do

reino de Granada, quantas flores, quantas rosas por eles seriam inventadas sobre ela,

assim no tocante ao esforço dos cavaleiros, nas revoltas, nas escaramuças e perigosos

combates e em todas as outras cousas de confrontos e trabalhos que para tal guerra se

aparelharam, como nos esforçados razoamentos do grande Rei aos seus altos homens

nas reais tendas ajuntados, e as obedientes respostas por eles dadas e, sobretudo, os

grandes elogios, os crescidos louvores que merece por haver empreendido e acabado

jornada tão católica! Por certo, creio eu que tanto o verdadeiro como o fingido que por

eles fosse contado na fama de tão grande príncipe, com justa causa, sobre tão largo e

verdadeiro cimento, pudera tocar nas nuvens; como se pode crer que, pelos seus sábios

cronistas, se lhes fora dado seguir a antiguidade daquele estilo em memória aos

1 Nota sobre a traduçâo: Os capítulos XI a XVIII e XX foram traduzidos pelos alunos do Mestrado em

Estudos Portugueses de 2006/07 (e posteriormente revistos e uniformizados por mim), alunos cujos nomes serão indicados em cada capítulo e a quem agradeço a colaboração e o (entusiástico) empenho.

1

vindouros, por escrito teriam deixado, pondo com justa causa em maior grau de fama e

alteza verdadeira os seus grandes feitos que os dos outros imperadores, que com mais

afeição que verdade que os nossos Rei e Rainha, foram louvados; pois que tanto mais o

merecem quanto é a diferença das leis que tiveram, que os primeiros serviram o

mundo, que lhes deu o galardão, e os nossos o Senhor dele, que com tão conhecido

amor e vontade ajudar os quis, por os achar tão dignos de porem em execução com

muito trabalho e gasto o que tanto do seu serviço é; e se porventura algo cá em

esquecimento ficar, não ficará perante a sua Real Majestade, onde lhes tem aparelhado

o galardão que por isso merecem.

Outra maneira de mais conveniente crédito teve na sua história aquele grande

historiador Titus Livius para exaltar a honra e a fama dos seus romanos: que afastando-

os das forças corporais os chegou ao ardimento e esforço do coração; porque, se quanto

ao primeiro ponto alguma dúvida se pode encontrar, no segundo não se encontraria;

que, se ele por mui estremado esforço deixou em memória a ousadia daquele que

queimou o próprio braço1, e daquele que por sua própria vontade se deitou no perigoso

lago2, já por nós foram vistas outras semelhantes cousas por parte daqueles que,

menosprezando as vidas, quiseram receber a morte, para a outros as tirarem, de guisa

que, pelo que vimos, podemos crer no que dele lemos, ainda que mui estranho nos

pareça. Mas, por certo, em toda a sua grande história não se encontrará nenhum

daqueles golpes espantosos, nem encontros milagrosos que nas outras histórias se

encontram, como daquele forte Heitor se conta, e do famoso Aquiles, do esforçado

Troilos e do valente Ajax Thalamon, e de outros muitos de que gram memória se faz,

segundo a afeição daqueles que por escrito os deixaram. Bem assim como outras mais

cerca de nós, daquele assinalado duque Godofré de Bulhom no golpe de espada que na

ponte de Antioquia deu e do turco armado que quase em dois pedaços fez, sendo já rei

de Jerusalém. Bem se pode e deve crer ter havido Tróia, e ser cercada e destruída pelos

gregos, e assim mesmo ter sido conquistada Jerusalém, com outros muitos lugares por

este Duque e seus companheiros, mas semelhantes golpes como estes atribuímo-los

mais aos escritores, como já disse, do que terem com efeito ocorrido verdadeiramente.

Outros houve de mais baixa sorte que escreveram, que não apenas escreveram sobre

algum cimento de verdade, mas nem sobre o rasto dela. Estes são os que compuseram

as histórias fingidas nas quais se encontram as cousas admiráveis fora da ordem da

1 A história de Múncio, contada por Tito Lívio , Décadas, (II, X, 12).

2 Segundo Blecua, tratar-se-á de uma referência à história de Curtius Décadas (VII, 6, 1-6).

2

natureza, que mais pelo nome de patranhas do que de crónicas com muita razão devem

ser tidas e chamadas.

Pois vejamos agora se os feitos de armas que acontecem [aí] são semelhantes

àqueles que quase todos os dias vemos e passamos, e ainda na maior parte desviadas da

virtude e boa consciência; e aqueles que mui estranhos e graves nos parecem saibamos

que são compostos e fingidos – que tomaremos de uns e de outros que algum fruto

proveitoso nos tragam? Por certo, a meu ver, outra cousa não, salvo os bons exemplos e

as doutrinas que mais à nossa salvação se alegarem, porque tendo sido permitido ser

imprimida nos nossos corações a graça do muito alto Senhor para a elas nos

chegarmos, tomemo-los por asas com que as nossas almas subam à alteza da glória

para a qual foram criadas.

E eu isto considerando, desejando que de mim alguma sombra de memória

ficasse, não me atrevendo a pôr o meu fraco engenho naquilo com que os mais sábios

se ocuparam, quis-me juntar com os derradeiros que as cousas mais levianas e de

menor substância escreveram, por serem a isso segundo a sua fraqueza mais

conformes, coligindo estes três livros de Amadis, que por falta dos maus escritores, ou

composedores, mui corruptos e viciosos se liam, e traduzindo e emendando o livro

quarto com as Sergas de Esplandião, seu filho, que até agora não está na memória de

ninguém ter visto, que por grande fortuna apareceu num túmulo de pedra que debaixo

da terra, numa ermida perto de Constantinopla foi encontrado e trazido por um húngaro

mercador a estas partes de Espanha, em letra e pergaminho tão antigo que com muito

trabalho puderam ler aqueles que a língua sabiam; nos quais cinco livros, como quer

que até aqui mais por patranhas que por crónicas eram tidos, são, com as tais emendas.

acompanhados de tais exemplos e doutrinas, que com justa causa se poderão comparar

aos levianos e fracos saleiros de cortiça que com tiras de ouro e prata são revestidos e

guarnecidos, para que assim tanto os cavaleiros mancebos como os mais velhos

encontrem neles aquilo que a cada um convém. E se porventura nesta mal ordenada

obra algum erro aparecer daqueles proibidos no humano ou no divino, disso peço

humildemente perdão, pois que mantendo e crendo eu firmemente tudo aquilo que a

Santa Igreja mantém e manda, mais a simples ignorância do que a obra foi disso causa.

*

3

Aqui se começa o primeiro livro do esforçado e virtuoso cavaleiro Amadis,

filho do rei Periom de Gaula e da rainha Elisena, o qual foi corrigido e emendado pelo

honrado e virtuoso cavaleiro Garcí-Rodríguez de Montalvo, regedor da nobre vila de

Medina del Campo, e corrigiu-o dos antigos originais que estavam corruptos e mal

compostos em antigo estilo, por falta dos diferentes e maus escritores, tirando muitas

palavras supérfluas e pondo outras de mais polido e elegante estilo tocantes à cavalaria

e aos seus actos.

COMEÇA A OBRA

Não muitos anos depois da paixão do nosso Redentor e Salvador Jesus Cristo,

houve um rei cristão na Pequena Bretanha, chamado Garinter, o qual, seguindo a lei da

verdade, de muita devoção e boas maneiras era acompanhado. Este Rei teve duas filhas

de uma nobre dona sua mulher, e a mais velha foi casada com Languines, Rei de

Escócia, e foi chamada a Dona da Grinalda, porque o Rei seu marido nunca lhe

consentiu cobrir os seus formosos cabelos senão com uma rica grinalda, tanto era

pagado de os ver. De quem foram engendrados Agrajes e Mabília, os quais, um como

cavaleiro e ela como donzela, nesta grande história muita menção se faz. A outra filha,

que Elisena foi chamada, muito mais formosa que a primeira foi. E como quer que de

mui grandes príncipes fosse demandada em casamento, nunca com nenhum deles casar

lhe prougue; antes o seu retraimento e santa vida deram causa a que todos “beata

perdida” a chamassem, considerando que a pessoa de tão grande linhagem, dotada de

tanta formosura, de tantos grandes demandada em casamento, não lhe era conveniente

tomar tal estilo de vida. Pois o dito rei Garinter, sendo em assaz crescida idade, por dar

descanso a seu ânimo, algumas vezes a monte e à caça ia. Entre as quais, saindo um dia

de uma vila sua que Alima se chamava, e andando desviado das armadas e dos

caçadores rezando as suas horas pela floresta, viu à sua esquerda uma brava batalha de

um só cavaleiro que com dois combatia; conheceu ele os dois cavaleiros que seus

vassalos eram, os quais, por serem mui soberbos e de más maneiras, e mui

aparentados1, muitos nojos2 deles havia recebido. Mas o que com eles combatia não pôde conhecer, e não se fiando que a valentia de um lhe pudesse tirar o medo dos dois,

1 Ou seja, muito bem aparentados (com muitos e poderosos parentes).

2 Ofensas.

4

afastando-se deles, olhava a batalha, no fim da qual, pela mão daquele, os dois foram

vencidos e mortos. Isto feito, o cavaleiro veio de encontro ao Rei, e como o visse

sozinho, disse-lhe:

– Bom homem, que terra é esta que assim são os cavaleiros andantes

assaltados?

O Rei disse-lhe:

– Não vos maravilheis disso, cavaleiro, que assim como nas outras terras há

bons cavaleiros e maus, assim os há nesta; e estes que dizeis não somente a muitos hão

feito grandes males e desaguisados, mas ainda mesmo ao rei seu senhor, sem que deles

justiça pudesse fazer: por serem muito aparentados fizeram grandes agravos e também

por se acolherem nesta tão espessa montanha.

O cavaleiro lhe disse:

– Pois a esse rei que dizeis venho eu buscar de longa terra e lhe trago novas de

um seu grande amigo; e se sabeis onde possa encontrá-lo, rogo-vos que mo digais.

O Rei lhe disse:

– Como quer que aconteça, não deixarei de vos dizer a verdade: sabei

certamente que eu sou o rei que procurais.

O cavaleiro, retirando o escudo e o elmo e dando-os ao seu escudeiro, foi-o

abraçar, dizendo ser o rei Periom de Gaula, que muito o tinha desejado conhecer.

Mui alegres foram estes dois Reis em se terem assim juntado e, falando em

muitas cousas, foram-se ao encontro dos caçadores que estavam para se acolher à vila;

mas antes lhes apareceu um cervo que, muito cansado, escapara das armadas, atrás do

qual ambos os Reis foram em grande correria dos seus cavalos, pensando matá-lo; mas

doutra maneira aconteceu, já que, de umas espessas matas, saiu um leão que o cervo

alcançou e matou; e tendo-o aberto com as suas fortes garras, bravo e mal contido

contra ao Reis se mostrava. E como tal o visse o rei Periom, disse:

– Pois não estareis tão sanhudo que parte da caça não nos deixeis!

E tomando as suas armas, desceu do cavalo, que, espantado do forte leão, não

queria seguir adiante, e pondo o seu escudo ante si, com a espada na mão foi-se ao

leão, de tal forma que nem as grandes vozes que o rei Garinter lhe dava o puderam

estorvar. O leão, então, deixando a presa, veio contra ele, e juntando-se ambos, tendo-o

o leão por baixo em ponto de o matar, mas não perdendo o Rei o seu esforço, feriu-o

5

com a espada no ventre e fê-lo cair morto ante si; e disto o rei Garinter, muito

espantado, dizia para si mesmo:

– Não sem razão tem este fama do melhor cavaleiro do mundo!

Isto feito, e recolhida toda a companha1, fez carregar o leão e o cervo em dois

palafréns e levá-los à vila com grande prazer. Onde, tendo sido a Rainha avisada de tal

hóspede, encontraram os paços preparados com grandes e ricos atavios e as mesas

postas; na mais alta se sentaram os Reis e noutra, junto com a Rainha, Elisena, sua

filha; e ali foram servidos como em casa de tão rico homem se devia. Estando assim

naquele solaz2, como aquela infanta tão formosa fosse e o rei Periom da mesma forma,

e a fama dos seus grandes feitos de armas por todas as partes do mundo divulgadas, em

tal ponto e hora se olharam que a grande honestidade e a santa vida dela não resistiu a

que de incurável e mui grande amor não fosse presa, e o Rei igualmente dela, que até

então o seu coração, sem ter subjugado a nenhuma outra, livre tinha; de guisa que tanto

um como outro estiveram todo o comer quase fora do seu sentido. Levantadas as

mesas, a Rainha quis recolher à sua câmara; e levantando-se Elisena, caiu-lhe um mui

formoso anel na fralda do vestido, o qual tinha tirado para lavar as mãos e, com a

grande turvação, não se tinha lembrado de tornar a pôr, e baixou-se para o apanhar;

mas o rei Periom, que perto dela estava, quis-lho dar, de forma que as suas mãos se

tocaram por momentos e o Rei tomou-lhe a mão e apertou-lha. Elisena ficou muito

corada e olhando o Rei com olhos amorosos disse-lhe devagarinho que lhe agradecia

aquele serviço.

– Ai senhora! – disse ele – Não será o derradeiro, mas todo o tempo da minha

vida será empregado em vos servir!

Ela foi-se atrás da sua mãe com tão grande alteração que a vista quase levava

perdida; e assim esta infanta, não podendo sofrer aquela nova dor que com tanta força

havia vencido o seu velho pensamento, descobriu o seu segredo a uma sua donzela, em

quem muito se fiava, que havia nome Darioleta, e com lágrimas dos seus olhos e mais

ainda do coração, pediu-lhe conselho em como poderia saber se o rei Periom amaria

outra mulher, e se aquele tão amoroso semblante que a ela havia mostrado lhe teria

vindo da maneira e com a força que no seu coração havia sentido. A donzela, espantada

com tão súbita mudança em pessoa tão desviada de semelhante atitude, havendo

piedade de tão piedosas lágrimas, disse-lhe:

1 Ou seja, os homens do rei.

2 Convívio, prazer

6

– Senhora, bem vejo que a excessiva paixão que o tirano amor pôs em vós não

deixou em vosso pensamento lugar onde albergar conselho e razão; e por isso,

seguindo eu não aquilo que devo ao vosso serviço mas antes a vontade e obediência,

farei o que me mandais pela via mais honesta, que a minha pouca discrição e o muito

desejo de vos servir puderem encontrar.

E partindo-se então ela, foi até à câmara onde o rei Periom albergava, e

encontrando o seu escudeiro à porta com os panos1 que lhe queria dar de vestir, disse-

lhe:

– Amigo, ide-vos fazer al, que eu ficarei com vosso senhor e lhe darei recado.

O escudeiro, pensando que aquilo por mais honra se fazia, deu-lhe os panos e

partiu-se dali. A donzela entrou na câmara do rei, que estava na cama, e que, assim que

a viu, a reconheceu como a donzela com quem tinha visto Elisena falar mais do que

com qualquer outra, como se em ela mais do que em outra se fiasse; e acreditando que

não sem remédio para os seus mortais desejos era vinda, estremeceu-lhe o coração e

disse-lhe:

– Boa donzela, o que quereis?

– Dar-vos de vestir – disse ela.

– Para o coração devia isso ser – disse ele – que de prazer e alegria muito

despojado e nu está.

– De que maneira? – disse ela.

– Porque vindo eu a esta terra – disse o Rei – com inteira liberdade, temendo

apenas as aventuras que das armas me podiam ocorrer, não sei de que forma, entrando

nesta casa destes vossos senhores, sou chagado de ferida mortal; e se vós, boa donzela,

alguma mezinha para ela me procurásseis, por mim seríeis mui bem galardoada.

– Certamente, senhor – disse ela –, por mui contente me teria em fazer serviço a

tão alto homem e tão bom cavaleiro como vós sois, se soubesse como.

– Se me prometeis – disse o Rei –, como leal donzela, não o descobrir, senão

onde for razão, eu vo-lo direi.

– Dizei-o sem receio – disse ela –, que inteiramente por mim guardado será.

– Pois amiga senhora – disse ele –, digo-vos que em forte hora eu vi a grande

formosura de Elisena, vossa senhora, que atormentado de coitas e fadigas estou a ponto

de morte, da qual, se nenhum remédio encontro, não me poderei livrar.

1 Roupas.

7

A donzela, que neste caso inteiramente conhecia o coração da sua senhora,

como já acima ouvistes, quando isto ouviu, ficou mui alegre e disse-lhe:

– Senhor, se vós me prometeis, como rei, guardar em tudo a verdade (que a

isso, mais do que nenhum outro, sois obrigado), e como cavaleiro (já que, segundo a

vossa fama, para a suster tantos afãs e perigos haveis passado), e tomá-la por mulher

quando disso for tempo, eu pô-la-ei em lugar onde não apenas o vosso coração seja

satisfeito, mas também o seu, que tanto ou porventura mais do que o vosso está em

coita e em dor, ferido por essa mesma chaga; e se não for assim, nem vós a cobrareis,

nem eu acreditarei serem as vossas palavras saídas de leal e honesto amor.

O Rei, que na sua vontade tinha já imprimida a permissão de Deus para que

disto se seguisse o que adiante ouvireis, tomou a espada que cabo de si tinha, e pondo a

mão direita na cruz, disse:

– Eu juro por esta cruz e espada com que recebi a ordem de cavalaria fazer o

que vós, donzela, me pedis, cada que me for pedido por vossa senhora Elisena.

– Pois agora folgai – disse ela –, que eu cumprirei o que disse.

E partindo-se dele, voltou à sua senhora; e contando-lhe o que com o Rei

concertara, grande alegria pôs no seu ânimo, de tal forma que, abraçando-a, lhe disse:

– Minha amiga verdadeira, quando verei a hora em que nos meus braços tenha

aquele que por senhor me haveis dado!

– Já vo-lo direi – disse ela. Sabeis, senhora, como aquela câmara onde está o rei

Periom tem uma porta que dá para a horta, por onde o vosso pai sai algumas vezes a

recrear-se, que agora está coberta pelas cortinas, mas de que eu tenho a chave; pois

quando o Rei sair dali, eu abri-la-ei, e sendo tão de noite que todos estejam sossegados

no palácio, por ela poderemos entrar, sem que sejamos sentidas por ninguém; e quando

for altura de sair, eu vos chamarei e conduzir-vos-ei à vossa cama.

Elisena, ouvindo isto, ficou tão atónita de prazer que não conseguia falar, até

que, voltando a si, lhe disse:

– Minha amiga, em vós deixo toda a minha fazenda. Mas como se fará o que

dizeis, se o meu pai está dentro da câmara com o rei Periom1, e se se apercebesse

seríamos todos em grande perigo?

– Isso – disse a donzela – deixai por minha conta, que o remediarei.

1 A referência deve ser entendida no contexto medieval, onde a dormida em comum era usual (e mesmo,

como aqui, sinal de deferência para com um hóspede ilustre).

8

Com estas palavras terminaram a conversa. Os reis, a rainha e a infanta Elisena

passaram aquele dia comendo e ceando como antes; mas quando chegou a noite,

Darioleta tomou à parte o escudeiro do rei Periom e disse-lhe:

– Ai amigo, dizei-me se sois homem fidalgo!

– Sim, sou – disse ele – e ainda filho de cavaleiro; mas porque o perguntais?

– Eu vo-lo direi – disse ela; porque queria saber de vós uma coisa, e rogo-vos

que, pela fé que a Deus e a el-Rei vosso senhor deveis, ma digais.

– Por Santa Maria – disse ele –, todas as cousas que eu souber vos direi, desde

que não seja com dano do meu senhor.

– Isso vos outorgo eu – disse a donzela –, que nem eu vos perguntarei nada em

seu dano nem vós teríeis razão em mo dizer; mas o que eu quero saber é que me digais

qual é a donzela que o vosso senhor ama com estremado amor.

– O meu senhor – disse ele – ama a todas em geral, mas por certo que não lhe

conheço nenhuma que ele ame da maneira que dizeis.

Nisto falando, chegou o rei Garinter onde estavam todos e, vendo Darioleta

com o escudeiro, chamou-a e disse-lhe:

– Que tens tu que falar com o escudeiro d' el-Rei?

– Por Deus, senhor, eu vo-lo direi: ele chamou-me e disse-me que o seu senhor

tem por costume dormir sozinho, e por certo sente muito embaraço com a vossa

companhia.

El-Rei partiu-se dela, foi ao encontro do rei Periom e disse-lhe:

– Senhor, tenho ainda muitas cousas da minha fazenda para tratar e levanto-me

à hora das matinas; por isso, e para não vos causar incómodo, tenho por bem que

fiqueis sozinho na câmara.

O rei Periom disse-lhe:

– Fazei, senhor, como melhor vos aprouver.

– Assim me apraz – disse ele.

Então percebeu ele que a donzela lhe dissera a verdade, e mandou logo os seus

reposteiros1 tirarem a sua cama da câmara do rei Periom. Quando Darioleta viu que

tudo, com efeito, vinha ao que desejava, foi-se a Elisena, sua senhora, e contou-lhe

tudo o que se passara.

1 Funcionários encarregados da “reposte”, ou seja, alojamento, guarda-roupa, etc.

9

– Amiga senhora – disse ela –, agora creio, pois que Deus assim o propicia, que

isto, que no presente engano parece, será adiante algum grande serviço seu; e dizei-me

o que faremos, que a grande alegria que tenho me tira grande parte do juízo.

– Senhora – disse a donzela –, façamos esta noite o que está combinado, que a

porta da câmara de que vos falei tenho-a aberta.

– Pois a vós deixo o cargo de me levar quando for tempo.

E assim estiveram até que todos foram dormir.

CAPÍTULO I

Como a infanta Elisena e a sua donzela Darioleta foram à câmara onde estava o rei

Periom.

Quando todos sossegaram, Darioleta levantou-se e, tomando Elisena da sua

cama, nua tal como estava, apenas com a camisa, cobriu-a com um manto e saíram

ambas para a horta. O luar estava muito claro. A donzela olhou então para a sua senhora

e, abrindo-lhe o manto, olhou o seu corpo e disse-lhe, rindo:

– Senhora, em boa hora nasceu o cavaleiro que esta noite vos terá; e bem diziam

que esta era a mais formosa donzela de rosto e de corpo que então se conhecia.

Elisena sorriu e disse:

– Assim o podeis dizer por mim, que nasci em boa ventura para ser chegada a tal

cavaleiro.

E assim chegaram à porta da câmara. E como quer que Elisena se dirigisse para

a coisa que mais amava no mundo, tremia-lhe todo o corpo e a palavra, que não

conseguia falar; e tocaram na porta para a abrir. O rei Periom que, com a grande fadiga

que tinha no seu coração, bem como com a esperança que a donzela lhe tinha dado, não

tinha podido dormir, naquela altura, já cansado e vencido pelo sono, adormecera; e

sonhava que alguém entrava naquela câmara por uma falsa porta, sem ele saber quem, e

lhe metia as mãos nos costados e, tirando-lhe o coração, o deitava a um rio. E ele dizia:

"Porque fizestes tal crueza?" "Isto não é nada, dizia esse alguém, que aí vos fica outro

coração que eu vos tomarei, ainda que não seja por minha vontade" O Rei, com a

grande coita que em si sentia, acordou espavorido e começou a benzer-se. Nesta altura

haviam já as donzelas aberto a porta e entravam por ela, e como ele o sentiu, temeu-se

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de traição por causa do que sonhara, e levantando a cabeça viu, por entre as cortinas, a

porta aberta, do que ele nada sabia, e com o luar que por ela entrava viu o vulto das

donzelas. Então, saltando da cama onde jazia, tomou a sua espada e o escudo e dirigiu-

se contra aquela parte onde as tinha visto. Darioleta, quando assim o viu, disse-lhe:

– Que é isso, senhor? Tirai as vossas armas, que contra nós pouca defesa vos

terão.

O Rei, que a conheceu, olhou e viu Elisena, sua muito amada, e deitando a

espada e o escudo por terra, cobriu-se com um manto que ante a cama tinha e com o

qual algumas vezes se levantava, e foi tomar a sua senhora nos braços; e ela o abraçou

como aquele que mais que a si amava. Darioleta disse-lhe:

– Ficai, senhora, com esse cavaleiro, que ainda que vós como donzela até agora de

muitos vos defendestes, e ele também de muitas outras se defendeu, não bastaram as

vossas forças para vos defenderdes um do outro.

E Darioleta, procurando a espada do Rei onde ele a tinha deixado e tomando-a como

sinal da jura e promessa que lhe tinha feito em razão do casamento de sua senhora, saiu

para a horta. O Rei ficou sozinho com a sua amiga e, ao lume das três tochas que

estavam na câmara, olhava-a, parecendo-lhe que toda a formosura do mundo se juntara

nela e tendo-se por mui bem aventurado de Deus lha ter trazido em tal estado; e assim

abraçados se foram deitar no leito.

Onde aquela que tanto tempo, com tanta formosura e juventude, pedida por tantos

príncipes e grandes homens, se tinha defendido, ficando com liberdade de donzela, em

pouco mais de um dia, quando o seu pensamento mais afastado e desviado estava disso,

o qual amor, rompendo aquelas fortes amarras da sua honesta e santa vida lhe fez

perder, tornando-se de ali em diante dona. Por onde se dá a entender que assim as

mulheres, apartando os seus pensamentos das cousas mundanais, menosprezando a

grande formusura com que a natureza as dotou, a fresca juventude que em muito grau a

acrescenta, os prazeres e deleites que com as grandes riquezas de seus pais esperavam

gozar, querem por salvação de suas almas ficar em pobres casas fechadas, oferecendo

com toda a obediência as suas livres vontades, a que sujeitas das alheias sejam, vendo

passar o seu tempo sem nenhuma fama nem glória do mundo, como sabem que as suas

irmãs e parentes o gozam, assim devem com muito cuidado tapar as orelhas, fechar os

olhos, escusando-se de ver parentes e vizinhos, recolhendo-se nas devotas

contemplações, nas orações santas, tomando-as por verdadeiros deleites tal como o são;

11

porque com as fábulas, com as vistas, danificam o seu santo propósito; para que não

seja assim como o foi com esta formosa infanta Elisena, a qual, passado tanto tempo

que se quis guardar, num só momento, vendo a grande formosura daquele rei Periom,

mudou o seu propósito de tal forma, que se não fosse pela descrição daquela sua

donzela, que quis reparar a sua honra com o matrimónio, na verdade ela estava desse

modo determinada a cair na parte mais baixa da sua desonra, assim como acontece a

muitas outras neste mundo de que se podia falar, que, por não se guardarem do que se

disse, o fizeram e continuarão a fazer, não se guardando.

Estando pois assim estes dois amantes em seu solaz, Elisena perguntou ao Rei

se a sua partida seria breve; e ele disse-lhe:

– E por que, minha senhora, o perguntais?

– Porque esta boa ventura – disse ela – que tanto gozo e descanso deu aos meus

mortais desejos, já me ameaça com a grande tristeza e angústia que a vossa ausência

me dará, que com ela serei mais perto da morte que da vida.

Ouvidas por ele estas razões, disse:

– Não tenhais temor disso, que ainda que este meu corpo parta da vossa

presença, o meu coração junto com o vosso ficará, que a ambos dará esforço, a vós para

sofrer e a mim para cedo regressar, que sendo sem ele não há outra força tão dura que

me possa deter.

Darioleta, que viu ser tempo de sair dali, entrou na câmara e disse:

– Senhora, sei que outra vez vos agradou mais a minha presença do que agora,

mas convém que vos levanteis e vamo-nos, que é tempo.

Elisena levantou-se e o Rei disse-lhe:

– Eu morarei aqui mais do que o possais crer, e isto será por vós; e rogo-vos

que não se vos olvide este lugar.

Elas foram-se às suas camas e ele ficou na sua, muito pagado da sua amiga, mas

espantado com o sonho que já ouvistes; e, por ele, havia mais vontade de se ir à sua

terra, onde havia ao tempo muitos sábios que semelhantes cousas sabiam soltar e

declarar1, ainda que ele mesmo soubesse algo que aprendera quando mais moço. Neste

júbilo e prazer morou ali o rei Periom dez dias, folgando todas as noites com aquela sua

muito amada amiga, ao cabo dos quais decidiu, forçando a sua vontade e as lágrimas de

1 Ou seja, explicar ( soltar os sonhos era a expressão típica medieval).

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sua senhora – que não foram poucas – partir. Assim, despedido do rei Garinter e da

Rainha, armado com todas as suas armas, quando quis a sua espada empunhar não a

encontrou; mas não ousou perguntar por ela, embora muito lhe doesse, porque era boa

e formosa; isto fazia para que os seus amores com Elisena não fossem descobertos e

para não dar desgosto ao rei Garinter. E mandou a um seu escudeiro que lhe arranjasse

outra espada; e assim, armado só nas mãos e na cabeça, em cima do seu cavalo, sem

outra companhia que a do seu escudeiro, pôs-se a caminho direito ao seu reino. Mas

antes falou com ele Darioleta, dizendo-lhe a gram coita e saudade em que deixava a sua

amiga; e ele disse-lhe:

– Ai, minha amiga! Eu vo-la encomendo como ao meu próprio coração.

E tirando do seu dedo um mui formoso anel, de dois que trazia, iguais um ao

outro, deu-lho para que lho levasse e ela o trouxesse pelo seu amor. Assim ficou

Elisena com muita saudade e grande dor do seu amigo, tanto que se não fora por aquela

donzela, que a esforçava muito, com grande dificuldade poderia suportar; mas falando

com ela algum descanso sentia.

E assim foram passando o tempo até que Elisena se sentiu grávida, perdendo o

comer, o dormir e a mui formosa cor. Aí foram as coitas e as dores maiores, e não sem

causa, porque naquele tempo era por lei estabelecido que qualquer mulher, por grande

que fosse o seu estado e senhoria, se fosse encontrada em adultério, não podia de

nenhuma guisa escusar a morte. Este tão cruel e péssimo costume durou até à vinda do

mui virtuoso rei Artur, que foi o melhor rei dos que ali reinaram, e a revogou no tempo

em que matou Froião às portas de Paris. Mas muitos reis reinaram entre ele e o rei

Lisuarte que esta lei sustiveram. E como quer que o rei Periom, por aquelas palavras

que com a sua espada prometera, como vos foi dito, perante Deus fosse sem culpa, não

o era perante o mundo, havendo sido tão ocultas; assim, pensar de o fazer saber a seu

amigo não podia ser, sendo ele tão mancebo e tão orgulhoso de coração que nunca

tomava folgança em nenhuma cousa senão em ganhar honra e fama, que nunca passava

o seu tempo senão em andar de uns lugares para os outros como cavaleiro andante.

Assim que nenhum remédio achava para a sua vida, não lhe pesando tanto perder a

vista do mundo com a morte como a daquele seu amado senhor e amigo verdadeiro;

mas aquele mui poderoso Senhor, por permissão do qual tudo isto se passava para o seu

santo serviço, deu tal esforço e discrição a Darioleta que a sua ajuda bastou para tudo

reparar, como agora ouvireis.

13

Havia naquele palácio do rei Garinter uma câmara afastada, de abóbada, sobre

um rio que ali passava, e que tinha uma porta de ferro pequena por onde algumas vezes

saíam as donzelas a folgar ao rio, e que estava vazia sem albergar ninguém; a qual, por

conselho de Darioleta, Elisena pediu a seu pai e mãe, para reparação da sua má

disposição e vida solitária, que sempre procurava ter, e para rezar as suas horas sem

que fosse estorvada por ninguém, salvo por Darioleta, que suas dores sabia, para que a

servisse e acompanhasse; o que ligeiramente por eles lhe foi outorgado, crendo ser sua

intenção apenas reparar o corpo com mais saúde e a alma com vida mais estreita; e

deram a chave da porta pequena à donzela, que a guardasse e a abrisse quando a sua

filha por ali se quisesse distrair. E assim, aposentada Elisena aí onde ouvistes, um

pouco mais descansada por se ver em tal lugar – que no seu parecer antes ali que noutro

lugar o seu perigo reparar podia – tomou conselho da donzela sobre o que se faria do

que parisse.

– O quê, senhora?! – disse ela – Que padeça, para que vós sejais livre!

– Ai, Santa Maria! – disse Elisena – E como consentirei eu em matar aquilo que

foi engendrado pela cousa do mundo que mais amo?

– Não cureis disso, – disse a donzela – que se vos matarem não o deixarão a ele.

– Ainda que eu como culpada morra, – disse ela – não hão-de querer que a

criatura inocente padeça.

– Deixemos agora de falar mais disso – disse a donzela –, que grande loucura

seria que, para salvar uma cousa sem proveito, vos condenásseis a vós e ao vosso

amado, que sem vós não poderia viver; e vivendo vós e ele, outros filhos tereis que o

desejo deste vos fará perder.

Como esta donzela fosse mui sisuda1 e guiada pela mercê de Deus, quis dar

remédio ao apuro. E foi desta guisa: arranjou quatro tábuas tão grandes que, como uma

arca, pudessem encerrar uma criatura com os seus panos, e tão comprida como uma

espada; e fez trazer certas cousas para fazer um betume com que as pudesse juntar, sem

que nela água alguma entrasse; e guardou tudo debaixo da sua cama sem que Elisena

desse conta, até que, com as suas próprias mãos, juntou as tábuas com aquele fraco

betume e fez uma arca tão perfeita e tão bem formada como se a tivesse feito um

mestre; então a mostrou a Elisena e disse:

– Para que vos parece que isto foi feito?

1 Sensata, sabedora.

14

– Não sei – respondeu ela.

– Sabê-lo-eis – disse a donzela – quando for mister.

Ela disse:

– Pouco daria por saber cousa que se faça ou diga, que perto estou de perder o

meu bem e alegria.

A donzela teve grande dó de a ver assim e, vindo-lhe as lágrimas aos olhos, saiu

da sua frente para que não a visse chorar. Pois não tardou muito que a Elisena chegasse

o tempo de parir e sentindo as dores como cousa tão nova, tão estranha para ela, em

grande amargura foi o seu coração posto, como aquela a quem convinha não se poder

queixar nem gemer, o que dobrava a sua angústia; mas ao fim de certo tempo quis o

Senhor poderoso que sem perigo seu parisse um filho; e tomando-lho a donzela nas

mãos viu que era formoso, se ventura tivesse; mas não tardou em pôr em execução o

que convinha, tal como antes o pensara, e envolveu-o em mui ricos panos e pô-lo perto

da sua mãe e trouxe ali a arca de que já ouvistes; e disse-lhe Elisena:

– Que quereis fazer?

– Pô-lo aqui e lançá-lo ao rio – disse ela –, e porventura guarecer1 poderá.

A mãe tinha-o nos seus braços, chorando feramente e dizendo:

– Meu filho pequeno, quão grave me é a vossa coita!

A donzela tomou tinta e pergaminho e fez uma carta que dizia: “Este é Amadis

sem Tempo, filho de rei”. E dizia ela sem tempo porque pensava que logo seria morto,

e este nome era ali muito prezado porque assim se chamava um santo a quem a donzela

o encomendou. Esta carta cobriu toda de cera e, posta numa corda, pô-la ao pescoço do

menino. Elisena tinha o anel que o rei Periom lhe dera quando dela se partiu, e meteu-o

na mesma corda de cera; e pondo o menino dentro da arca, puseram-lhe a espada do rei

Periom, a que ele tinha deixado no chão na primeira noite que ela com ele dormira,

como ouvistes, e que tinha sido guardada pela donzela, e pela qual o rei, mesmo não a

encontrando, não tinha ousado perguntar, para que o rei Garinter não ficasse anojado

com aqueles que entravam na câmara.

Isto assim feito, pôs a tábua de cima tão junta e bem calafetada que nem água

nem outra cousa ali poderia entrar; e tomando-a nos seus braços e abrindo a porta, pô-

la no rio e deixou-a ir; e como a água era grande e brava, pronto a passou ao mar, que

não distava dali mais de meia légua. Nesta sazão aparecia a alva e aconteceu uma

1 Salvar-se, sobreviver.

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formosa maravilha, daquelas que o Senhor mui alto, quando Lhe praz, costuma fazer:

que no mar ia uma barca em que um cavaleiro de Escócia ia com sua mulher, que da

Pequena Bretanha levava, parida de um filho que se chamava Gandalim; e o cavaleiro

tinha por nome Gandales; e indo a mais andar sua via contra Escócia, sendo já manhã

clara, viram a arca que ia nadando por cima da água; e chamando quatro marinheiros

mandou-lhes que pronto baixassem um batel e lhe trouxessem aquilo, o que

prontamente foi feito, como quer que a arca já mui longe da barca houvesse passado. O

cavaleiro tomou a arca, tirou a cobertura e viu o donzel, que em seus braços tomou; e

disse:

– Este de algum bom lugar é.

E dizia isto pelos ricos panos e o anel e a espada, que mui formosa lhe pareceu;

e começou a maldizer a mulher que por medo tão cruelmente havia desamparado tal

criatura; e guardando todas aquelas cousas, rogou a sua mulher que o fizesse criar, a

qual lhe fez dar a teta daquela ama que a Gadalim, seu filho, criava; e ele tomou-a com

gram vontade de mamar, coisa de que o cavaleiro e a dona muito se alegraram. E assim

seguiram pelo mar com bom tempo propício, até que aportaram a uma vila de Escócia,

que tinha nome Antália, e dali partindo, chegaram a um seu castelo, dos bons daquela

terra, onde fez criar o donzel como se fosse seu próprio filho, e assim o criam todos que

fosse, que dos marinheiros não se pôde saber sua fazenda, porque na barca, que era sua,

a outras partes navegaram.

CAPÍTULO II

Como o rei Periom ia pelo caminho com seu escudeiro, com o coração mais

acompanhado de tristeza do que de alegria.

Partido o rei Periom da Pequena Bretanha, como já vos foi contado, de muita

angústia era o seu ânimo muito atormentado, tanto pela grande saudade que sentia da

sua amiga, que muito de coração amava, como pelo sonho que já ouvistes, que em tal

sazão lhe tinha acontecido. E assim, chegado ao seu reino, enviou chamar todos os seus

ricos-homens e mandou aos bispos que consigo trouxessem os clérigos mais sabedores

que havia nas suas terras, isto para que o sonho explicassem.

Como os seus vassalos tivessem sabido da sua vinda, tanto os chamados como

muitos outros a ele vieram, com grande desejo de o ver, que de todos era mui amado, e

16

muitas vezes eram os seus corações atormentados ouvindo os grandes confrontos de

armas em que ele se metia, temendo de o perder, e por isso todos o desejavam ter

consigo; mas não o conseguiam, que o seu forte coração não era contente senão quando

o corpo punha em grandes perigos. O Rei falou com eles do estado do reino e nas

outras cousas que cumpriam a sua fazenda, mas sempre com triste semblante, o que a

eles fazia grande pesar; e despachados os negócios, mandou que volvessem a suas

terras, e fez ficar consigo três clérigos que soube que mais sabiam daquilo que ele

desejava; e tomando-os consigo, foi-se à sua capela, e ali, ante a hóstia consagrada, os

fez jurar que em tudo o que lhes perguntasse diriam a verdade, não temendo nenhuma

cousa, por grave que se lhes apresentasse. Isto feito, mandou sair fora o capelão e ficou

sozinho com eles. Então lhes contou o sonho já relatado e pediu-lhes que lhe

explicassem o que dele lhe poderia acontecer. Um destes, que Ungão, o Picardo, se

chamava, e que era o que mais sabia, disse:

– Senhor, os sonhos são cousas vãs, e por tal devem ser tidos; mas pois vos praz

que em algo este vosso seja tido, dai-nos um prazo para que o possamos ver.

– Assim seja – disse o Rei –, e tomai doze dias para isso.

E mandou-os separar, que não se falassem nem vissem naquele prazo. E eles

deitaram os seus juízos e firmezas, cada um como melhor soube, e chegado o tempo

vieram para o Rei, o qual tomou à parte Alberto de Campanha e disse-lhe:

– Já sabeis o que me jurastes; agora dizei.

– Pois venham os outros – disse o clérigo –, e diante deles o direi.

– Venham – disse o Rei.

E fê-los chamar. E sendo todos juntos, disse o primeiro:

– Senhor, eu te direi o que entendo. A mim parece-me da câmara estar bem

fechada e teres visto entrar pela porta mais pequena que significa estar este teu reino

fechado e guardado que por parte alguma dele te entrará alguém para te tomar algo; e

assim como a mão te metia pelos costados e sacava o coração e o deitava ao rio, assim

te tomará vila ou castelo e o porá em poder de quem não o poderás recuperar.

– E o outro coração – disse o Rei – que me dizia que me ficava e mo faria

perder sem seu grado?

– Isso – disse o mestre – parece que outro entrará em tua terra para te tomar

outro tanto, mais constrangido por força de alguém que lho mande que de sua vontade;

e neste caso não sei, senhor, que mais vos diga.

17

O Rei mandou ao outro, que Antales se chamava, que dissesse o que achava. E

ele outorgou em tudo o que o outro havia dito:

– Salvo que as minhas sortes me mostram que já foi feito, e por aquele que mais

te ama; e isto me faz maravilhar, porque agora mesmo nada foi perdido do teu reino, e

se o fora não seria por pessoa que muito te amasse.

Ouvindo isto, o Rei sorriu um pouco porque lhe pareceu que pouco tinha dito.

Mas Ungão, o Picardo, que muito mais que eles sabia, baixou a cabeça e riu-se mais de

coração, ainda que poucas vezes o fizesse, que era homem esquivo e triste de seu

natural. O Rei observou-o e disse-lhe:

– Agora, mestre, dizei o que souberes.

– Senhor – disse ele –, porventura eu vi cousas que não é mister de as

manifestar senão a ti.

– Pois saiam todos fora – disse ele. E fechando as portas ficaram só os dois. O

mestre disse:

– Sabe, Rei, que do que eu me ria foi daquelas palavras que em pouco tiveste,

dizendo que já era feito por aquele que mais te ama. Agora te quero dizer aquilo que

mui encoberto tens e pensas que ninguém sabe. Tu amas num lugar onde já a vontade

cumpriste, e a que amas é maravilhosamente formosa.

E disse-lhe todos os seus modos como se diante de si a tivera.

– E da câmara em que vos víeis fechado isto claramente o sabeis, e como ela,

querendo tirar do vosso coração e do seu aquelas coitas e angústias, quis, sem o teu

conhecimento, entrar pela porta de que não te precatavas; e as mãos que nos costados

metia é o ajuntamento de ambos, e o coração que sacava significa filho ou filha que

haverá de vós.

– Pois, mestre – disse o Rei –, que significa que o deitava num rio?

– Isso, senhor – disse ele –, não o queiras saber, que não te tem nenhuma prol.

– Dizei-mo todavia – disse ele –, e não temeis.

– Pois que assim te praz – disse Ungão –, quero de ti fiança que por cousa que

aqui diga não terás sanha daquela que tanto te ama, em nenhuma sazão.

– Eu o prometo – disse o Rei.

– Pois sabe – disse ele – que o que no rio vias lançar é que assim será lançado o

filho que de vós tiver.

– E o outro coração que me fica – disse o Rei –, o que será?

18

– Bem deves entender – disse o mestre – um pelo outro: que é que tereis outro

filho e de alguma maneira o perdereis, contra a vontade daquela que agora vos fará o

primeiro perder.

– Grandes cousas me haveis dito – disse o Rei – e praza a Deus, por sua mercê,

que isso dos filhos não saia tão verdadeiro como aquilo que disseste da dona que eu

amo.

– As cousas ordenadas e permitidas por Deus – disse o mestre – ninguém as

pode estorvar nem saber em que pararão; e por isso os homens não se devem entristecer

nem alegar com elas, porque muitas vezes tanto o mal como o bem que a seu parecer

delas podem ocorrer, pode suceder de forma diferente do que esperavam. E tu, nobre

Rei, perdendo da tua memória tudo isto que aqui com tanto empenho quiseste saber,

recolhe nela de sempre rogar a Deus que nisto e em todo o al faça o que seja em seu

santo serviço, porque isso sem dúvida é o melhor.

O rei Periom ficou mui satisfeito do que desejava saber, e muito mais deste

conselho de Ungão, o Picardo, e sempre perto de si o teve, fazendo-lhe muito bem e

mercês. E saindo do paço encontrou uma donzela mais guarnecida de atavios que

formosa que lhe disse:

– Sabei, rei Periom, que quando a tua perda cobrares, perderá o senhorio da

Irlanda a sua flor.

E foi-se, que a não pôde deter. Assim ficou o Rei pensando nisto e noutras

cousas.

O autor deixa de falar disto e torna ao donzel que Gandales criava, o qual

Donzel do Mar se chamava, que assim lhe puseram o nome; e criava-se com muito

cuidado daquele cavaleiro D. Gandales e de sua mulher, e fazia-se tão formoso que

todos os que o viam se maravilhavam.

E um dia Gandales cavalgou, todo armado, que em grande maneira era bom

cavaleiro e mui esforçado e sempre acompanhara el rei Languines da Escócia, no tempo

em que as armas seguiam; e ainda que el rei deixasse de as seguir, não o fez ele assim,

antes as usava muito. E indo assim armado como vos digo, encontrou uma donzela, que

lhe disse:

– Ai, Gandales, se soubessem muitos altos homens o que eu sei agora, cortar-te-

iam a cabeça!

– Porquê? – disse ele.

19

– Porque tu guardas a morte deles – respondeu ela.

E sabei que esta era a donzela que tinha dito ao rei Periom que quando fosse a

sua perda recobrada perderia o senhorio de Irlanda a sua flor. Gandales, que a não

entendia perguntou-lhe:

– Por Deus, donzela, rogo-vos que me digais que é isso.

– Não to direi – disse ela –, mas todavia assim acontecerá

E partindo dele, foi sua via. Gandales ficou cuidando no que lhe dissera e, ao

cabo de um momento, viu-a tornar mui asinha no seu palafrém, clamando em altas

vozes:

– Ai, Gandales! Socorre-me que morta sou!

E olhou e viu vir após ela um cavaleiro armado com a espada na mão; e

Gandales deu de esporas ao cavalo, meteu-se entre ambos e disse:

– Dom cavaleiro, a quem Deus dê má ventura, que quereis da donzela?

– Como! – disse ele – Quereis vós amparar a esta, que com engano me traz

perdido o corpo e a alma?

– Disso não sei nada – tornou Gandales – mas ampará-la-ei de vós eu, porque

mulheres não devem ser por esta via castigadas, ainda que o mereçam.

– Agora o vereis! – disse o cavaleiro.

E, metendo a espada na bainha, foi-se a um arvoredo, onde estava uma donzela

mui formosa que lhe deu um escudo e uma lança, e deitou-se a correr contra Gandales, e

Gandales a ele, e feriram-se com as lanças nos escudos, de tal modo que voaram em

pedaços; e juntaram-se então dos cavalos e dos corpos tão bravamente que caíram

ambos e os cavalos com eles; e cada um se levantou o mais prestes que pôde e

houveram sua batalha assim a pé; mas não durou muito, porque a donzela que fugia se

meteu entre eles, e disse:

– Cavaleiros, aquietai-vos!

O cavaleiro que viera após ela pôs-se logo fora do combate. E ela disse-lhe:

– Vinde à minha obediência!

– Irei de bom grado – disse ele –, como à cousa do mundo que mais amo.

E, tirando o escudo do colo e a espada da mão, fincou os joelhos ante ela; e

Gandales foi disso mui maravilhado. E ela disse ao cavaleiro que ante si tinha:

– Dizei àquela donzela que está sob a árvore que se vá embora e já; senão que

me talhareis a cabeça.

20

O cavaleiro tornou-se para ela e disse-lhe:

– Ai, malvada! Espantado estou de te não cortar a cabeça!

A donzela viu que o seu amigo estava encantado e montou no seu palafrém,

chorando, e foi-se logo dali. A outra donzela disse:

– Gandales, agradeço-vos o que fizestes. Ide-vos em boa hora, que, se este

cavaleiro errou contra mim, eu o perdoo.

– De vosso perdão não sei – disse Gandales –, mas não lhe quito a batalha se não

se outorga por vencido.

– Quitareis, sim – disse a donzela – porque, ainda que fôsseis o melhor cavaleiro

do mundo, eu faria que ele vos vencesse.

– Vós fareis o que puderdes – disse ele –, mas eu não o quitarei, se me não dizeis

porque dissestes que guardava a morte de muitos altos homens.

– Antes to direi – disse ela –, porque a este cavaleiro amo eu como a meu amigo

e a ti como meu ajudador.

Então o apartou e disse-lhe:

– Tu me farás preito, como leal cavaleiro, que outro por ti não o saberá, até que

to eu mande.

Ele assim o outorgou e ela disse-lhe:

– Digo-te daquele que achaste no mar que será a flor dos cavaleiros do seu

tempo; ele fará estremecer os fortes; ele começará todas as cousas e acabará com honra

todas as em que os outros fraquejaram; ele fará tais cousas que ninguém cuidaria que

pudessem ser começados e acabados por corpo de homem; ele fará que os soberbos

sejam mansos; ele terá crueza de coração contra aqueles que a merecerem; e ainda mais