Amante Cigano por Anne Gracie - Versão HTML

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RESUMO

Inglaterra, 1826

Para salvar a amiga, ela terá de entrar na toca do lobo...

Depois de três anos tentando arrumar namorado, Gracie não conheceu nenhum

cavalheiro que fizesse seu coração palpitar. Então começou a sonhar com uma vida de

aventuras, como ver o sol se pôr atrás das pirâmides do Egito e dançar em meio às ruínas na

Grécia. Antes, porém, ela precisa ajudar uma amiga a se safar de um noivo indesejável...

Mel y foi prometida em casamento a Dominic Wolfe, que receberá por herança uma

vasta propriedade no dia em que se tornar chefe de família. Quando ela pede ajuda a Gracie

para escapar do casamento, esta decide atuar como uma acompanhante enfadonha e

insossa, na visita da amiga ao noivo. Mas algumas surpresas aguardam as duas jovens...

Para começar, Dominic é o homem mais charmoso e atraente que Grace já viu na vida, e

parece estar mais interessado nela do que na noiva! E Grace começa a achar cada vez mais

difícil continuar representando seu papel...

Digitalização: Sílvia

Revisão: Mel

Querida leitora,

Grace Merridew perdeu as esperanças de encontrar um amor e decide viajar, mas

antes ela precisa ajudar uma amiga que está apavorada diante da idéia de se casar com seu

prometido, o infame Dominic Wolfe. Dominic vai herdar uma vasta propriedade quando se

casar, mas ele está interessado mesmo é na amiga de sua noiva. Grace não tem papas na

língua e não tem medo de Dominic. Nunca antes uma mulher o enfrentou daquele modo, e ele

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decide fazer valer sua fama, jurando a si mesmo que irá seduzir aquela mulher, custe o que

custar. Grace é uma jovem de personalidade forte e determinada, mas conseguirá resistir aos

encantos do sedutor Dominic...?

Vire a página e confira!

Leonice Pomponio Editora

TRADUÇÃO Nancy Alves

Copyright © 2007 by Anne Gracie Originalmente publicado em 2007 pela The Berkley

Publishing Group

PUBLICADO SOB ACORDO COM THE BERKLEY PUBLISHING GROUP

NY,NY-USA Todos os direitos reservados.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas

vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

TÍTULO ORIGINAL: The Perfect Kiss

EDITORA Leonice Pomponio

ASSISTENTE EDITORIAL Patrícia Chaves

EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Nancy Alves Revisão: Giacomo Leone

ARTE Mônica Maldonado

ILUSTRAÇÃO Hankins + Tegenborg, Ltd.

COMERCIAL/MARKETING Silvia Campos

PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi

PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda.

© 2007 Editora Nova Cultural Ltda.

Rua Paes Leme, 524 - 1Oº andar - CEP 05424-010 - São Paulo - SP

www.novacultural.com.br

Premedia, impressão e acabamento: RR Donnel ey

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Prólogo

Dereham Court, Norfolk, Inglaterra, 1814

Você é uma menina muito má! Os gritos do avô ecoavam pelo cômodo e enchia de

raiva o pequeno coração de Grace Merridew. Embora aflita, ela o ouvia com uma postura

altiva.

— Irá morrer na miséria e na sujeira, sozinha e sem amor. Nem mesmo os vermes

vão querer comer esse seu corpo corrupto!

— Eu serei amada! — Grace rebateu, sentindo lágrimas nos olhos. — Minha mãe

disse que sim!

— Ah, aquela à-toa!

— Ela não era uma à-toa! Mamãe se tornou um anjo, e está nos observando neste

exato momento. E antes de morrer prometeu a mim e a minhas irmãs que nós seríamos

amadas e felizes. E vamos ser! O senhor não poderá impedir, porque um anjo é mais forte do

que um homem velho que vive cuspindo, falando palavrões e cheira mal!

O homenzarrão avançou sobre ela, de punhos fechados. Grace tremia, apavorada. O

avô ia matá-la! Nunca antes desafiara a tanto. Preparou-se para o desfile de impropérios que

se seguiria e também para os prováveis golpes que os acompanhariam.

Por isso, o silêncio a surpreendeu. E quando ele tornou a falar foi ainda pior, porque

não estava gritando. Ao contrário, falava baixinho, quase como num carinho:

— A cretina da sua mãe pode ter prometido amor e felicidade para suas irmãs mais

velhas. Mas jamais prometeu isso a você.

— Prometeu, sim! — Grace rebateu, mesmo sem se lembrar da mãe, confiando

apenas no que as irmãs lhe tinham dito.

— Não. Ela não poderia. Não a você.

— Por que não?

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O avô levou a enorme mão até os cabelos da menina, numa falsa carícia.

— Porque você a matou, Grace. E uma mulher não faz uma promessa assim a uma

filha que a está matando.

Os olhos dela se arregalaram.

—Como assim? Não matei minha mãe—murmurou, quase chorando.

— Você era um bebê, por isso não lembra, mas matou, sim. Matou a imbecil e veio

morar com o vovô. Isso a torna minha, e não de sua mãe.

Grace se desvencilhou da mão dele.

— Não! Vou perguntar a minhas irmãs. Não matei minha mãe!

— E acha que elas lhe diriam uma verdade assim tão dura? Afinal, não pode mais

trazê-la de volta, não é? — Ele riu, com tremenda perversidade. — Claro que vão lhe dizer

que estou mentindo; mas não estou.

Grace achou que iria pôr para fora o conteúdo do estômago. E ele continuava, cheio

de ódio:

— Você matou sua mãe, menina. E é por isso que morrerá sozinha e sem amor!

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Capítulo I

Shropshire, Inglaterra, 1826

Dominic Wolfe cavalgava para dentro da aldeia levando o coração pesado pelo

desejo de vingança. A toda velocidade em seu garanhão branco, chamava a atenção das pes-

soas, mas mantinha-se indiferente ao interesse geral. Saltou do animal diante da taverna e

para lá se dirigiu. Uma cadela branca, de manchas pretas, o seguiu, exausta.

Três senhores idosos se sentavam no banco do lado de fora, à sombra de uma

árvore. Uma criança magra e em farrapos veio atendê-lo aos gritos:

— Posso ajudar, senhor? Pegar-lhe uma cerveja, talvez? Ou água para seu cavalo?

Para seu cachorro?

Ele se voltou, deixando ver sua alta estatura.

— Que estrada devo pegar para chegar ao Castelo de Wolfestone?

— O castelo, senhor? Mas o sr. Eades se foi há...

— Ei, Bil y Finn, não incomode o cavalheiro com boataria da aldeia! — exclamou um

homem corpulento que surgiu e afastou o garoto com um safanão. Abrindo um sorriso ao

recém-chegado, ofereceu:—Uma bebida, senhor? Tenho cerveja boa, fresca. Ou, se preferir,

a comida é ótima. Minha mulher faz uma torta de carne deliciosa!

O estranho o ignorou, falando com o menino:

— Qual estrada devo tomar?

O pequeno, que dava água à cadela, olhou para o dono da estalagem e apontou para

a bifurcação que se podia ver dali.

— Por ali. Do lado direito. Não há como errar. O dono do lugar olhou feio para o

menino.

— Não há ninguém...

Mas o estranho o interrompeu jogando uma moeda de prata ao garoto e se afastou,

tornando a montar.

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— O que ele pode querer no castelo? — O estalajadeiro cocou a cabeça, vendo-o

tomar a direção indicada pela criança.

O mais velho dos dois senhores do banco assentiu.

— Você nunca teve bons olhos para coisa alguma, Mort Fairclough. Não o

reconheceu?

— Pois se nunca o vi antes!

— Não notou seus olhos? Castanho-claros e frios. Com olhos assim e cabelos negros

como carvão, está claro que só pode ser um Wolfe de Wolfestone!

Algumas pessoas já tinham se aproximado, e um murmúrio de susto se fez ouvir.

Uma moça comentou, ainda vendo o cavalo ao longe, levantando atrás de si uma onda de

poeira:

— Ah, ele é, sem dúvida, muito bonito! Adoro homens , grandes, com esse ar de

seriedade, de maldade até. Adoraria saber se é assim tão mau de verdade...

— Pois estou mais interessado em que tipo de Wolfe ele é — continuou o ancião. —

Tem havido senhores naquele castelo por mais de seiscentos anos, e existem apenas duas

espécies deles: bons ou maus. E o destino de nossa aldeia depende disso.

Como naquele momento todos tinham se reunido em torno dele, o velhinho

continuou, sempre assentindo, muito devagar:

— Só temos tido maus Wolfe desde que a maioria de vocês nasceu, mas quando eu

era rapaz... Aquele senhor era bom! O melhor. Por isso fico imaginando como será esse aí.

— Acho que ele vai ser bom. — Bil y Finn sorriu, cheio de confiança, apertando com

força a moeda em sua palma.

O dono da taverna o olhou de soslaio ao opinar:

— Ser mão aberta não significa ser bom, rapazinho. O velho lorde era perdulário

quando lhe interessava, mas ruim como uma cobra. — E, com desprezo, cuspiu para o lado.

Uma idosa que saiu de entre a multidão também teve sua vez de se manifestar:

— Devemos esperar a Dama de Cinza.

Bil y Finn se apressou a separar um banco para ela.

— Quem é ela, vovó?

Vovó Wigmore acomodou no banco seu corpo desgastado e suspirou.

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— A guardiã destes vales. Será ela quem garantirá bons tempos para nós, o povo.

Quando a Dama de Cinza vier, o grande Wolfe será bom. Mas não tem aparecido

ultimamente.

Vovô Tasker acrescentou, cheio de sabedoria:

— Minha mãe viu a dama certa vez, quando era menina. Toda vestida de cinza e

montando um cavalo branco. Cavalgava de madrugada e era elegante e delicada como a

neblina.

— Quando a Dama de Cinza vier, o Wolfe será domado— repetiu, sorridente, a

velhinha.

O estalajadeiro tornou a fitar a bifurcação da estrada e meneou a cabeça.

— Não sei de nenhuma dama, de cinza ou de qualquer outra cor. E não acho que ela

possa domar aquele homem. Nunca vi olhar tão frio num ser humano antes. Fez com que eu

pensasse no demônio, Deus que me perdoe!

— Tolice. Ele é um Wolfe, afinal — corrigiu vovô Tasker.

— Hugh Lupus tinha olhos assim.

— E quem é esse? — interessou-se Bil y.

— Não sabe? Hugh Lupus foi o primeiro lorde d'Acre. Veio com Guilherme, o

Conquistador, é o que dizem. Um sujeito feroz, sem sentimentos. E com olhos gelados. —

Recostou-se na parede da taverna. — Uma tempestade se aproxima. Posso senti-la em meus

ossos.

A carruagem alugada seguia em velocidade de quebrar pescoços. A poeira subia da

estrada batida e entrava pelas janelas, atingindo os passageiros, mas o dia estava quente

demais para se pensar em fechá-las. Além do mais, a poeira era o menor dos problemas de

quem ali viajava.

As pessoas se seguravam nas tiras de couro que pendiam das paredes do veículo, e

eram sacolejadas sem parar, sem conseguir ficar um segundo inteiro paradas nos assentos.

— Mandarei demitir esse insolente assim que voltarmos a Londres! — vociferava sir

John Pettifer, referindo-se ao cocheiro, a quem já tinha recomendado que fosse mais devagar

quando pararam para a troca de cavalos. Mas o homem não demonstrava estar disposto a

atender ao pedido de um velhote empertigado que se mostrara mão fechada quanto a

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gorjetas.

Grace Merridew se agarrava a sua tira de couro, cerrando os dentes. Sabia muito

bem que a questão com o cocheiro ia além de insolência. Vira-o sorvendo grandes goles de

uma garrafinha que trazia presa por baixo do paletó, e, quanto mais bebia, mais rápido dirigia,

e mais perigoso se tornava o trajeto para todos ali.

No entanto, como devia manter-se praticamente invisível, Grace nada disse. Sua

amiga, Mel y Pettifer, implorara que viesse, e ela, num momento de insanidade, concordara.

No entanto, Grace jamais a vira tão desesperada. Ao reencontrá-la e receber a

notícia sobre seu futuro casamento, teve de amparar a amiga, pois Mel y logo irrompera em

lágrimas e soluços de fazer dó. Agora, via-a sentada a sua frente, segurando-se como podia.

Pobre Mel y! Estava verde. Passara mal por três vezes já.

E o que era para ser a viagem de casamento se tornava um verdadeiro inferno. Mel y

deveria estar casada dentro de algumas semanas com um homem que jamais vira, chamado

Dominic Wolfe, lorde d'Acre, do Castelo de Wolfestone. E o pior fora descobrir que estava

noiva dele desde os nove anos de idade! E só então resolveram lhe contar!

Ao que tudo indicava, Dominic Wolfe voltara à Inglaterra pela primeira vez em mais

de dez anos. Não retornara sequer para o funeral do pai, mas sir John ouvira dizer que ele

regressara e que se mostrava interessado em entrar em contato para acertarem o matrimônio.

Tudo certo perante a lei e os costumes. Mel y não tinha voz ativa. Sir John acertara

os pormenores com o antigo lorde d'Acre anos atrás. Tinham ambos assinado os documentos

necessários ao acordo, e uma grande quantia em dinheiro passara de uma mão à outra;

dinheiro esse que sir John gastara havia tempos; portanto, não poderia devolver. Aliás, os

problemas financeiros da família Pettifer eram de conhecimento geral. Na verdade, a maior

preocupação de sir John fora que o atual lorde Wolfe jamais retornasse à Inglaterra, ou

tivesse se casado no exterior. Mas, como voltara ainda solteiro, o casamento haveria de

acontecer.

Mel y se desesperou ao saber da novidade, mas acabou aceitando a idéia. Não tinha

pretendentes, visto que era pobre, simples e muito tímida. Bem, pelo menos, o novo lorde

Wolfe era jovem.

Grace, por sua vez, avaliava a surpresa que o nobre deveria ter tido ao retornar. Viera

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para reclamar sua propriedade e descobrira que, com ela, vinha também uma noiva. Afinal,

Dominic contava apenas dezesseis anos quando o contrato fora assinado entre seu pai e o de

Mel y.

E aquele era exatamente o problema: Dominic Wolfe não queria uma noiva. Tinha

outros interesses que Mel y não conhecia muito bem.

Sir John, todavia, não queria que a filha fosse privada de seus direitos. O contrato era

legal e deveria ser levado a cabo. E a única forma de lorde Wolfe herdar sua propriedade

seria se casando com Mel y. Isso ficara muito claro no testamento de seu pai. Dominic só

ficaria livre do compromisso se Mel y viesse a falecer ou estivesse incapaz de contrair

matrimônio. E mesmo assim ele teria de desposar uma noiva que fosse aprovada por sir John.

Os advogados de lorde d'Acre tinham averiguado os papéis, mas, ao que parecia,

tudo estava em ordem. Assim, Dominic teve de concordar com o enlace. No entanto, numa

carta recebida por Pettifer dois dias antes, dizia, com muita frieza, que aquele casamento

seria apenas pro forma. Ele a noiva se separariam logo após a cerimônia. Dominic possuía

uma frota de navios e não tinha planos de viver na Inglaterra.

Mel y estava atordoada. A situação a colocaria numa casa em Londres, com muito

dinheiro, mas sem a possibilidade de vir a ser mãe. Isso era o que mais a atormentava. E por

esse motivo implorara a Grace que a ajudasse. E, como eram amigas de infância, e Grace

sempre protegera Mel y de crianças e jovens que a atormentavam por sua timidez, vira-se

mais uma vez na situação de fazer o que pudesse pela querida amiga.

Assim, envolvera-se naquela terrível viagem, usando roupas cinzentas e simplórias,

com botas que lhe subiam até metade das canelas, disfarçada em dama de companhia de

Mel y. Podia, ao contrário, estar indo para o Egito com a sra. Cheever, uma viúva abastada,

prima do sr. Henry Salt, cônsul-geral da Grã-Bretanha no Cairo e perito em antigüidades

egípcias. Com conhecidos assim tão interessantes, Grace esperava passar momentos

maravilhosos. O Egito era sua maior paixão desde pequena.

Mas, pelo visto, teria de deixar as pirâmides para outra ocasião.

Mais sacolejos, barulhos e cocoricós, e muitas penas entrando pela janela. O infeliz

cocheiro dera de encontro com um bando de galinhas! Não refreara os cavalos, e assim

algumas das pobres aves devia ter sido morta no impacto.

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Aquela foi a gota d'água. Grace se enfiou janela afora e gesticulou para que ele

parasse o veículo, mas o homem apontou para o céu e gritou algo que ela não entendeu.

Olhando para cima, Grace avistou nuvens densas e escuras, e entendeu que o cocheiro

tentava chegar ao castelo antes de uma tempestade violenta. A estrada já era bastante ruim

em tempo seco. Assim que começasse a chover, seria, com certeza, transformada em algo

inimaginável.

Voltando para dentro, Grace descobriu que sir John desaprovava sua atitude.

— Greystoke, não devia interferir! Lady Augusta espera que a ensinemos a agir de

forma apropriada, e uma dama jamais colocaria a cabeça para fora, muito menos gritaria com

o cocheiro!

— Sim, sir John. Sinto muito. — Grace se esforçava por parecer humilde. Era difícil

lembrar que seu nome dali em diante seria Greystoke, pois se fazia passar por uma órfã aos

cuidados de sua tia Augusta em treinamento para se tornar acompanhante.

Sir John jamais deixaria que a srta. Grace Merridew, de Norfolk, bem conhecida e

amada na capital, viesse numa viagem daquelas. Mas quando a criada particular de Mel y se

demitira, depois de ter encontrado outro emprego no qual lhe pagariam com regularidade, as

meninas viram nisso uma oportunidade. Mel y necessitava de uma dama de companhia, e,

como Grace fingiria ser uma órfã em treinamento — portanto, não precisaria ser paga —, sir

John concordara de pronto em aceitá-la.

Grace olhou para sir John. Ele mantinha as pálpebras cerradas, apesar dos

sacolejos. Seu rosto muito redondo e vermelho chegava a brilhar. Não parecia satisfeito,

porém, o que era bom. Devia estar se sentindo muito mal pelo que vinha fazendo à filha.

Grace não entendia. Mel y sempre lhe dissera que John era um pai afetuoso,

compreensivo, mas agora se mantinha firme na decisão de casá-la daquela forma com um

estranho, E Grace acreditara que fossem os problemas financeiros da família o que impedia

Mel y de ser como todas as moças casadoiras da época. Afinal, ela nunca pudera freqüentar

festas onde decerto encontraria pretendentes. Não, tudo parecia começar a ficar claro.. .

De olhar fixo na paisagem que passava, veloz, Grace, ainda bem agarrada na tira de

couro, pensava. A vida era injusta. Tinha dinheiro e era bonita. Muitos rapazes a cortejaram,

mas jamais aceitara nenhum deles. Até tentara se apaixonar, mas sempre ficava faltando algo

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nos cavalheiros que conhecia.

E o maior problema era sua dificuldade para acreditar no amor, como suas irmãs

mais velhas faziam. Prudence, Charity, Hope e Faith tinham belas recordações do amor que

unira seus pais. Mesmo em criança, tinham-no sentido; nunca duvidaram de sua existência,

de sua força. E todas acreditavam na última promessa feita pela mãe: que cada uma delas

encontraria amor e felicidade na vida. Grace não o encontrara.

Não se recordava dos pais. Crescera numa mansão fria e sombria de Norfolk e,

diferente das irmãs, não tivera a promessa da mãe para guiá-la e confortá-la.

Vira todas as irmãs se apaixonarem. A ventura delas era real e duradoura. E todas

lhe diziam que aconteceria com ela, um dia. Um homem apareceria e a beijaria, e Grace

saberia que era ele.

Tentara muito encontrar o amor, mas ele não viera. Aceitava a corte dos rapazes,

mas não levava nada a sério, para que ninguém saísse ferido. E sempre que se aproximava

de algum deles, as palavras cruéis de seu avô voltavam a atormentá-la.

Não se importava mais, contudo. Dizia a si mesma que inúmeras pessoas aprendiam

a viver sem amor, e que a vida poderia ser ótima para ela sem esse sentimento. Na verdade,

pretendia viver muitíssimo bem. Estava com quase vinte e um anos e prestes a tomar conta

de sua fortuna. Assim que o fizesse, poderia fazer o que bem entendesse. Como, por

exemplo, envolver-se nas aventuras com que sonhava e viajar para o Egito, Veneza,

Constantinopla... Veria as maravilhas do mundo, andaria de camelo, cruzaria os Alpes e não

teria de pedir permissão a ninguém.

Se fosse casada, seu corpo seria de seu marido, bem como sua fortuna. Não. Os

beijos de um homem não poderiam valer tanto.

— Segure-se bem, menina! — aconselhou sir John quando os sacolejos ficaram

ainda piores.

— Sim, milorde.

Obediência e humildade: pré-requisitos de uma acompanhante. Sob as instruções de

tia Augusta, a criada cortara um pouco os cabelos de Grace e os tingira de um tom escuro. E,

num toque de gênio, pegara henna e pintara-lhe sardas no rosto, no pescoço e nas mãos.

Demoraria muito a saírem. Nesse meio tempo, sir John jamais desconfiaria de que a morena,

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sardenta e míope Greystoke, era, de fato, Grace Merridew, cuja cabeleira loira com mechas

avermelhadas e compleição impecável, tornara-a famosa pela beleza estonteante. Afinal, ele

só vira Grace uma ou duas vezes, quando as meninas ainda estudavam.

Grace lamentou pelo comprimento dos cabelos, mas faria de tudo para ajudar a

amiga. Pelos filhos que ela queria ter. Não que ela, pessoalmente, fosse fanática por crianças.

Gostava delas, mas quando já estavam um tanto grandinhas. Mel y, ao contrário, adorava

bebês. De todos os tipos. Seus sonhos eram simples. Não queria um nobre, nem uma casa

na capital, nem muito dinheiro. Desejava apenas um bom homem que a amasse e lhe desse

muitos bebês. Por isso Grace se determinara a fazer tudo por ela. Assim, cortar parte dos

cabelos não era nada. Eles tornariam a crescer. Os sonhos das pessoas, porém, nem sempre

tinham uma segunda chance de se tornar realidade.

Lorde d'Acre, Dominic Wolfe do Castelo de Wolfestone, podia ficar com sua fortuna e

com seu casamento de fachada. Grace resgataria a amiga. Tinha em si a força de um cava-

leiro lutando por um ideal! Uma amazona, na verdade.

Dominic Wolfe cavalgou as últimas milhas devagar, com a cabeça baixa em virtude

do vento forte que começara a soprar de repente.

Nuvens pesadas cobriam o Armamento. Naquela região, tempestades de verão

podiam ser uma mistura terrível de escuridão e fúria, e uma delas se preparava, sem dúvida

alguma. Mas Dominic achou que conseguiria chegar a Wolfestone antes que ela se abatesse

sobre a terra.

E, como sempre acontecia, pensar em Wolfestone o fez cerrar os dentes. Desejara

jamais pôr os olhos naquele lugar. No entanto, os infelizes Pettifer tinham tomado a decisão

repentina de vir! Devia ter deixado bem claro a sir John os termos de seu acordo.

Decerto a filha de sir John imaginava que viria para inspecionar seu futuro lar.

Dominic cerrou os dentes ainda mais.

Um relâmpago cortou o céu, e logo o ribombar de um trovão se fez ouvir. Dominic

fitou a cadela, que seguia ao lado das patas do cavalo. Sheba tinha horror a tempestades.

Num movimento rápido e quase acrobático, Dominic se inclinou na sela e a puxou para cima,

colocando-a em seu colo. Tanto o garanhão quanto Sheba estavam acostumados a seguir

viagem daquela forma.

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E fora um longo trajeto. Se tivesse sabido antes, Dominic teria vindo de carruagem.

Tentara impedir os Pettifer de sair de Londres, mas seu mensageiro voltara com a informação

de que já haviam partido. Assim, sua única opção foi vir cavalgando, pois queria chegar antes

deles.

Faltava pouco, agora. Podia avistar a ponta do torreão.

Arrepiou-se. Seria por medo ou raiva? Ansiedade, talvez. Ou uma mistura de

recordações de sua época de menino, dias inocentes nos quais sempre desejava muito ver

Wolfestone. Algo que parecia ter sobrevivido a sua maioridade; seu saber...

Desviou o olhar. Sua boca trazia um gosto amargo. Wolfestone, a propriedade pela

qual sua mãe fora vendida. E agora ele próprio.

Dez minutos depois, Dominic se viu em frente aos dois imensos portões de ferro, um

dos quais meio caído. Eram sustentados por muros de pedra imponentes, sobre cada um dos

quais havia a estátua de um lobo uivando. A esquerda, uma guarita feita de pedra, argamassa

e madeira. Parecia deserta. E os portões, abertos. Mas Dominic duvidava que estivessem lhe

dando as boas-vindas.

Mais uma vez o céu se iluminou com um relâmpago, e o trovão veio em seguida.

Dominic instigou o cavalo a seguir. Wolfestone era apenas um abrigo para os três, no

momento; nada mais.

No entanto, quando viu o castelo por inteiro, ficou sem fôlego. Magnífico em sua

opulência rústica e dominadora, voltava-se para o vale, frio, distante e proibido. Uma casa

usada outrora para preparar homens para o combate e a guerra. Era horrivelmente belo.

Todavia, não valia o sacrifício de ninguém.

Sua mãe quase não falara dele. Bastava que se comentasse de Wolfestone para

seus olhos se encherem daquele pavor; um pavor que Dominic tentara durante toda a infância

fazer desaparecer, mas que ainda o assombrava.

Você saberá, se um dia for até lá. Irá compreender por que não consigo falar daquele

castelo, ela lhe dissera certa vez. E agora que estava ali e via, Dominic compreendia muito

bem.

Eu o destruirei!

O caminho de pedras que levava à entrada principal se mostrava permeado de ervas

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daninhas. E, bem diante dos degraus que conduziam à porta, havia um quadrado enorme de

grama fazia muito sem poda.

De cenho fechado, Dominic analisou tudo. Um certo movimento junto a um grupo

distante de carvalhos chamou-lhe a atenção. Viu três éguas cinzentas, pálidas e etéreas à luz

difusa da borrasca que se avizinhava. Criaturas belas, com pescoços graciosamente

arqueados e olhos negros, curiosos.

Eram árabes. Valiosíssimas. O que estariam fazendo ali, soltas? Os portões tinham

sido deixados abertos, dando total liberdade aos animais. Uma das éguas se mantinha um

tanto afastada das demais e se movia de maneira estranha. Dominic soube logo por quê. Seu

ventre estava distendido, inchado. Nenhum animal devia ser deixado vagando assim, em

especial uma égua valiosa prenhe. Ainda mais diante do início de um temporal.

E não havia nenhuma outra criatura viva por perto. Era quase bizarro. O lugar deveria

estar repleto de criados.

Olhou mais uma vez para o Armamento escuro e instigou Hex, procurando pelos

estábulos. Algum tolo deixara as éguas soltas e merecia uma repreensão; e a égua prenhe

precisava estar agasalhada, não ali, exposta à iminente tempestade.

Foi até a porta principal e fez a aldrava bater contra a madeira. Nada. Ninguém

atendeu. De acordo com os livros contábeis, os empregados vinham sendo pagos com regula-

ridade, então onde estariam?

Não tinha tempo para averiguar, porém. Encontrou os estábulos, todos feitos de

pedra, nos fundos da propriedade. Também eles se achavam vazios. Os cascos de Hex

soavam sobre as pedras do chão. Pelo visto, nem homens, nem animais entravam naqueles

estábulos fazia meses.

Por sorte, as baias ainda podiam ser ocupadas e havia maços enormes de feno, que,

abertos, mostraram-se ainda aproveitáveis.

Com gestos ágeis, Dominic tirou os arreios de Hex e deu água para ele e Sheba.

Depois, preparou algumas baias, inclusive uma delas para receber a égua prenhe. Por fim,

trancou Sheba ali dentro. Ela latiu, chorou e arranhou a porta, mas Dominic a ignorou, indo

tentar recuperar a égua prenhe.

A carruagem em que Grace seguia alcançava Wolfestone. Os raios e trovões

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abundavam, agora.

O veículo inclinou para o lado e quase emborcou, sendo salvo por alguma coisa alta

que o fez voltar à posição normal.

Grace pôde avistar os portões altos ladeados por muros, sobre um dos quais viu de

relance a figura de um lobo. Por fim chegavam! E estavam vivos!

Quando a carruagem começou a seguir pelo caminho de pedras, num ritmo mais

lento, enfiou a cabeça para fora, tentando ter uma visão melhor do lugar. E ficou fascinada. A

visão era aterradora, mas hipnotizante e encantadora, por incrível que parecesse. Metade

casa, metade Castelo, Wolfestone era imponente, magnífico. E imenso.

Sir John dissera que os muitos nobres que viveram ali, todos da mesma família,

reformaram e acrescentaram alas à propriedade, que passara a ser uma mistura de estilos.

De todo modo, Grace a achava maravilhosa. Cheia de ângulos estranhos, torreões, telhados e

ameias, seteiras e uma série de janelas góticas em arco. Devia haver gárgulas, avaliou. Numa

construção daquelas, gárgulas eram inevitáveis.

Num dia ensolarado, a parte da frente devia ser bem iluminada. Afinal, muitas janelas

ficavam do lado sul. E, apesar das nuvens espessas, uma réstia de claridade apareceu,

iluminando os painéis de vidro colorido.

— Mas que lugar lindo! — Grace suspirou, mas sua voz foi abafada por um trovão, e

um raio caiu bem diante do veículo.

Os cavalos se assustaram, erguendo-se e relinchando, apavorados. Num átimo, o

veículo cedeu, inclinando-se e tombando de lado, levando seus passageiros a cair, em seu

interior, uns sobre os outros. Então, sobreveio um silêncio intenso, quebrado apenas pelo

barulho da borrasca.

Grace foi a primeira a se mover. Seu braço doía, estava assustada e com alguns

arranhões, mas bem.

— Mel y, você se feriu?

A amiga gemeu, mas logo abriu os olhos.

— Não. Apenas toda dolorida, mas creio que inteira. E papai?

Sir John estava consciente e respirando, mas longe de estar bem.

— Fique com ele enquanto busco ajuda — Grace sugeriu, antes de sair pela janela

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do veículo.

A chuva começava, forte. Os cavalos se moviam, inquietos, temendo os clarões dos

relâmpagos. Continuavam presos aos arreios e, se ficassem muito apavorados de novo

poderiam arrastar a carruagem, mesmo caída.

Protegendo o rosto com as mãos, Grace olhou ao redor. Alguém devia ter ouvido o

acidente e logo viriam em socorro dos feridos. A pouca distância, avistou o cocheiro caído de

bruços. Grace foi até ele para verificar se estava vivo. O homem gemeu, embriagado. Sentou-

se com dificuldade e indagou, com voz arrastada:

— O que aconteceu?

— Vamos, levante-se, seu inútil! Acabou por fazer com que a carruagem virasse, e os

cavalos estão presos a ela. Podem arrastá-la a qualquer momento. Venha, ajude-me a tirar sir

John e Mel y lá de dentro!

O homem arregalou os olhos, com dificuldade para atinar com a realidade. Contudo,

levantou-se e, para espanto de Grace, saiu correndo em direção à carruagem. No entanto, em

vez de parar, passou direto por ela. Grace ainda o chamou, mas sabia que ele não pararia.

Seria preso se ficasse, por sua negligência.

Os cavalos ficaram ainda mais ansiosos. Grace compreendia que só havia uma coisa

a fazer. Portanto, tirou a faquinha do cano da bota e foi até os animais, murmurando palavras

carinhosas. Mesmo inquietos, os cavalos apenas a olharam e permitiram que cortasse os

arreios e os libertasse.

Os belos animais saíram escoiceando e galopearam em direção às árvores. Agora

Grace precisava buscar ajuda.

Caminhou, decidida, para o castelo. A noite ainda não caíra, apesar da escuridão.

Chegou à entrada principal, agarrou a aldrava em forma de cabeça de lobo e bateu-a com

força contra o carvalho poderoso da porta. Ninguém atendeu. Esperou, repetiu o gesto, e

nada.

Parecia não haver ninguém ali, mas como podia ser? Afinal, era a visita de noivado

de Mel y.

De todo modo, não tinha tempo para analisar a situação. Com isso em mente, seguiu

o contorno da casa, constatando que havia várias portas na parte de trás. Bateu em todas

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elas em vão. O cocheiro bêbado os teria trazido ao local errado?

Olhou para a direita, vendo o jardim maltratado; à esquerda, uma construção larga

que só poderia ser para os estábulos. Correu até lá, encharcando-se mais e mais. Uma vez

do lado de dentro, parou até que sua visão se acostumasse à parca luminosidade.

A tempestade batia com força no telhado, provocando um ruído forte. Grace notou

maços de feno abertos logo adiante e uma sela que brilhava, bem cuidada. Algumas das

baias estavam com meia porta aberta. Numa delas, um cavalo branco colocou a cabeça para

fora, talvez sentindo-lhe a presença. Aliviada, Grace achou que poderia montá-lo para ir

buscar auxílio.

O vento soprava em fortes rajadas. Por instantes, Grace teve a impressão de ouvir

um relincho baixo e a voz de um homem, grossa, vinda dos fundos. Correu até lá e ouviu-o

falar de novo, mas num idioma estrangeiro.

— Socorro! — Grace gritou, animada. — Por favor, preciso de ajuda! Houve um

acidente!

Um homem apareceu pela metade aberta de uma das baias.

— De onde você surgiu? — indagou, num sotaque forte que ela não conseguiu

identificar.

Grace prendeu a respiração diante dele. Era muito alto; seu rosto estava sujo, com a

barba por fazer, e os cabelos muito negros, revoltos, mais compridos do que o comum. Seus

traços eram graves, severos, rústicos até. E os olhos, gélidos, estranhos, a encaravam com

uma expressão impaciente.

— Deve ter vindo por causa das éguas. — Ele continuava a olhá-la sem muito pudor,

em especial para as partes de seu corpo onde a roupa estava colada graças ao excesso de

água.

— Não sei nada sobre égua nenhuma! Preciso de ajuda! Houve um acidente! Nossa

carruagem tombou na entrada do castelo.

Dominic resmungou alguma coisa. Grace percebia que falava mais uma vez em outra

língua. Até que tornou a olhá-la para perguntar:

— Alguém se feriu?

— Não muito, mas estão presos dentro do veículo, e o cocheiro fugiu. Estava ébrio.

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Por favor, venha nos auxiliar!

— Ninguém sangra? Ninguém morreu?

— Não, mas a porta está voltada para o chão e eles não conseguem sair!

— Algum cavalo se feriu?

Grace ponderava. Ele devia ser um cigano. Não usava paletó, tinha as botas

enlameadas e calça respingada de sujeira. Os braços fortes apareciam sob as mangas

enroladas. Era forte, e isso era o que interessava a Grace no momento.

— Não. Eles estão bem. Por favor, apresse-se! Dominic escancarou a meia porta.

— Quem você disse ser?

— Meu nome é Greystoke, e quem sou não importa neste momento!

— Eu não diria isso. Tenha calma, Greystoke. Ninguém se machucou, e eu estou

indo.

— É que a srta. Pettifer, que está na carruagem, é a noiva de lorde d'Acre e logo será

sua lady. Portanto, tem de informar a seu patrão agora mesmo!

— Não tenho patrão. — A calma dele e sua autoconfiança eram insuportáveis. E seus

olhos tinham um ar de troça que deixava Grace cada vez mais irritada. — Mas não me im-

portaria em ter uma patroa. Vai ser minha lady também, em breve, Greystoke? Ou mais do

que isso, quem sabe? Já faz tanto tempo que não fico em companhia de uma mulher...

Grace ficou escandalizada. De onde aquele rapaz tirava aquelas idéias? E aquelas

palavras!

— Demonstra não ter modos, moço, e sua mente precisa de uma boa esfregada.

Como todo você, aliás!

Um breve sorriso apareceu nos lábios dele, que deu alguns passos na direção dela.

Mas sua presença começava a ser mais um perigo do que uma promessa de ajuda, no

entender de Grace.

Aqueles olhos castanho-claros eram magnéticos. Muito próximo, ele pareceu

examinar cada centímetro de seu rosto.

— Essas sardas são naturais? — quis saber. Grace afastou-se depressa.

— Pare com isso! Houve um acidente, eu já disse!

— Mas ninguém se feriu.

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De repente, ele a tomou pela cintura e a beijou. Seu gesto foi tão brusco quanto

surpreendente para ela. E, quando Dominic a soltou, Grace o encarou, pasma. Ao dar um

passo atrás, sentia as pernas fracas.

Mais um relâmpago cruzou o céu, trazendo-a de volta à realidade. Limpou a boca,

ainda a encará-lo, e, criando coragem, empurrou-o para a saída.

— Houve um acidente! — repetiu de novo.

— Você já disse. Não há feridos, e os passageiros estão abrigados da chuva. E eu

preciso verificar uma coisa.

Mais uma vez Dominic a enlaçou e beijou-a. E todo pensamento coerente

desapareceu da cabeça de Grace.

E, mais uma vez, quando foi solta, estava tonta e fora de seu normal. Notava, porém,

que ele sorria, e numa reação da mais genuína fúria, deu-lhe um chute na canela.

— Ai! — O sorriso aumentou. Grace desferiu outro pontapé.

— Teria maior efeito se eu não estivesse de bota, senhorita.

— Por quem me toma, seu cigano impossível? Houve um acidente e...

— Um acidente? — Ele arqueou as sobrancelhas. — Mas por que não disse logo?!

E antes que ela pudesse esboçar uma reação, Dominic a pegou pela mão e a puxou

para fora do estábulo.

Grace tinha quase de voar para acompanhar-lhe as passadas em meio ao mau

tempo.

— Então, depois que isso tudo acabar, vai me esfregar como prometeu? — ele quis

saber.

— Não prometi nada!

— Ah, prometeu, sim! Só quero saber quando será. Bem, vejo que as sardas são à

prova d'água, portanto, devem ser reais.

— Claro que são — ela mentiu.

— Fascinante. Nunca vi sardas assim antes, todas do mesmo tamanho e formato.

Espero poder verificar se estão por todo o seu corpo ou apenas em lugares selecionados.

Esse homem é ousado e ultrajante! Grace estava furiosa. E detestava a forma

insolente como ele a fitava.

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Quando Dominic avistou a carruagem, passou a andar mais devagar.

— Onde estão os cavalos?

— Cortei os arreios porque achei que poderiam arrastar o veículo.

— Boa idéia. O que usou?

— Uma faca, óbvio.

Mel y enfiou a cabeça para fora da janela.

— Graças a Deus! Papai não está nada bem.

Sir John, de fato, parecia muito pálido. Abriu os olhos e, vendo-os inclinados a olhá-

lo, murmurou:

— D'Acre...

— Sir John...

— D'Acre?! — Grace exclamou. — Lorde d'Acre?!

— E quem mais poderia ser? — Dominic deu-lhe uma piscadela marota. E depois

exagerou na careta de dor, quando ela o beliscou no braço. — Por que fez isso?!

— Sabe muito bem por quê.

Ele sorriu, mas depois, mais sério, pôs o rosto para dentro do veículo, falando com

sua noiva:

Srta Pettifer, vou entrar por aqui. Afaste-se. — Com agilidade, num único movimento

pulou para o interior da carruagem. Então, voltou a se dirigir a Grace: — Sir John não me

parece ferido, mas não estou gostando da cor de sua pele. Fique de lado, porque vou chutar

o painel, para ar

Grace obedeceu e, após alguns golpes com os pés, Dominic alcançou seu intento e

retirou Mel y.

— Ei, olhos brilhantes, preciso que me ajude para tirar sir John.

Olhos brilhantes. Grace gostou de ser chamada assim. Deu a Dominic todo o auxílio

necessário, vendo-o depois tomar sir John nos braços e carregá-lo até a entrada do castelo.

Grace agarrou a mão de Mel y e ambas correram para lá, também.

— Não há ninguém aí dentro! Como vamos entrar?

— A chave está em meu bolso, deste lado. — Dominic soprou um beijinho para

Grace, sem que Mel y visse.

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Zangada e constrangida, Grace enfiou a mão no bolso da calça dele, àquela altura

ensopada e colada em seu corpo. Jamais tocara um homem daquela forma.

Havia mais coisas na algibeira: moedas, notas soltas, um lenço. Grace, então,

encontrou a chave, grande e enfeitada, que enfiou na fechadura. Teve de lutar por fazê-la

girar até que a pesada porta cedesse.

Encharcados, todos entraram no castelo. Lá dentro, a atmosfera era fria, empoeirada,

quase sinistra. Mas, pelo menos, não estavam mais sob a chuva.

Pararam por um instante, e Grace pôde ver a gárgula que procurara antes. Lá estava

ela, bem no alto do hal , como se ficasse observando quem entrava e saía. Não era de pedra,

mas trabalhada em madeira, com uma cara forte e olhos tristes, mas sábios. Parecia olhar

direto para ela, mas a primeira impressão de Grace foi de que a pobre-coitada precisava de

uma boa limpeza.

— Onde colocaremos papai? — Mel y indagou.

— Não tenho idéia. — Lorde d'Acre meneou a cabeça. — Talvez num cômodo com

um sofá, ou algo parecido.

Grace se adiantou, entrando numa sala ao lado. Ali encontrou móveis cobertos com

tecidos. Um deles era uma chaise langue. Tirou o pano, e sir John foi posto ali.

Os clarões dos relâmpagos iluminavam o rosto pálido e contraído do pai de Mel y.

Dominic preocupou-se; se sir John morresse, teria de ficar com sua filha.

Mel y disse algo, mas suas palavras foram encobertas pelos trovões sucessivos. No

entanto, Grace a ouviu:

— Está bem, vou pegar. Mas onde está?

Mel y gritou-lhe algo, e Dominic a viu sair. Em seguida voltou a atenção para sir John,

que tinha a gravata afrouxada pela filha. Mesmo aflita, Mel y cuidava do pai com desvelo e

tranqüilidade.

— Vou buscar um médico.

Mel y assentiu, e Dominic se foi.

No estábulo, Dominic selou uma égua árabe. Só conseguira pegar duas delas; a

terceira desaparecera em meio à chuva. E Hex, seu garanhão, se cansara demais da longa

jornada. Dominic deu uma espiada na égua grávida e gostou de seu estado. Talvez ganhasse

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seu potro durante a noite.

Havia uma capa pendurada num canto da baia, e ele a passou sobre os ombros,

montando em seguida e lançando-se à tempestade. Na vila, perguntaria sobre um médico.

Já deixava a propriedade quando avistou Greystoke tentando arrastar um baú na

lama. Devia estar fazendo o que Mel y Pettifer lhe ordenara. Talvez fosse alguma espécie de

criada; era o que se depreendia pelas roupas que usava.

Dominic sentiu uma ponta de raiva, vendo seus braços frágeis tentando mover o baú.

Apeou apressado e, pegando-a pelos ombros, disse:

— Pelo amor de Deus, deixe a bagagem aí até o tempo melhorar! Um pouco de água

não vai estragá-la, e ninguém virá roubá-la com um tempo desses! — Tentou puxá-la para

baixo de sua capa e levá-la de volta à casa, mas, para sua surpresa, Greystoke resistiu.

— São os remédios de sir John, milorde. Estão num dos baús grandes, mas não sei

em qual, e são tão pesados...

— Certo. Segure as rédeas que eu carrego tudo para dentro.

— O senhor ia buscar o médico? E longe?

— Não sei. Tenho de ir até a vila para descobrir.

Ela tremia de frio. Dominic tirou a capa e a agasalhou, puxando o capuz sobre sua

cabeça.

— Não há outra opção. Mas sir John pode só estar precisando dos remédios. Quanto

a você, Greystoke, entre e tire esses trajes molhados. Não quero que adoeça.

Apressado, Dominic levou os baús para dentro. Ao retornar, não encontrou mais a

criada dos Pettifer, nem a égua. Ela teria ido buscar o médico sozinha? Não podia ser. Era

uma criada, e criadas não sabiam cavalgar. Devia ter deixado o animal fugir, isso sim, e

àquela altura estaria tentando recuperá-la. Meneou a cabeça. A jovem haveria de achar que

seria castigada por ter perdido a égua. Que, aliás, nem era dele!

Soltando uma imprecação, Dominic voltou aos estábulos, onde selou Hex, vestiu seu

sobretudo negro e tornou a sair para a tempestade. Primeiro, encontraria um médico, e depois

procuraria por Greystoke.

Demorou mais de uma hora para Dominic encontrar a casa do doutor e, quando o

conseguiu, estava furioso. A vila era um lugar repleto de tolos; cada um dos que abordara

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pedindo a direção do médico lhe dera uma orientação diferente. Acabara encontrando-o por

acaso ao bater em mais uma porta para pedir informações. E a casa ficava até bem próxima

de Wolfestone. Se tivesse sabido antes... Mas, para sua decepção, a mulher do médico disse

que ele saíra e que não sabia para onde, nem quando ia voltar.

— E ele não cuida de ciganos — arrematou, batendo a porta em seu nariz.

Dominic soltou mais uma imprecação. Aquela tarde, definitivamente, não estava lhe

trazendo sorte.

Irritado, tornou a bater, com mais força. Quando a mulher abriu uma fresta, enfiou a

bota no vão e avisou que lorde d'Acre exigia a presença de seu marido o quanto antes, e que

sir John Pettifer sofrera um acidente.

Os olhos dela se arregalaram.

— Lorde d'Acre? Oh, eu não sabia que ele tinha vindo a Wolfestone! E quanto a sir

John, que tristeza! Mandarei um menino buscar meu marido e enviá-lo ao castelo agora mes-

mo! E, por favor, diga a lorde d'Acre que...

— Eu sou lorde d'Acre. — Dominic retirou o pé da porta, — Do lado cigano da família.

E, antes que ela pudesse se recompor do susto, fez questão de fechar ele próprio a

porta em seu nariz.

— Estão dizendo que o demônio em pessoa anda cavalgando por aí, esta noite. —

Vovô Tasker se aquecia junto ao fogo.

A taverna da vila estava ficando mais e mais lotada, apesar do mau tempo.

— É, eu o vi, mas só pela janela. Mas minha esposa falou com ele. Tinha olhos como

se fossem janelas para o inferno, ela me disse. Mandou-o para o leste, para o campo.

Os demais se interessaram pela história do habitante local. E outro deles opinou:

— Ele era bem alto e estava todo de preto. E montava um cavalo branco. Quando

veio falar conosco, nós o mandamos para o sul, em direção à igreja.

— Também cheguei a vê-lo — acrescentou um velhinho que acabava de chegar. —

Perguntou pelo doutor, mas eu tive logo certeza de que se tratava do demônio. Por isso, o

enviei para o oeste, para que se perdesse no pântano.

Os três homens se orgulhavam da forma como enganaram o diabo. Vovô Tasker se

inclinou para a frente e indagou:

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— Sabem quem mais estava cavalgando por aí esta noite? Nossa Dama de Cinza!

Todos os queixos caíram, tamanho o espanto causado pela revelação. E ele

prosseguiu, seguro de si:

— Vovó Wigmore a avistou, no meio do temporal. Até falou com ela!

— Não diga!

— Digo, sim. Foi sua primeira aparição numa noite em setenta anos! E sabem quem

a dama procurava?

Todos se aproximaram mais.

— O doutor! — opinaram em uníssono.

— Pois então! — Vovô Tasker, continuou: — Ela veio buscá-lo para colocá-lo em

segurança!

— Também a vi! — interferiu Mort Fairclough. — Cavalgava ao vento, num cavalo

feito de névoa e coberta por uma capa tecida com fios de teias de aranha, que brilhava na

chuva. Bem, e agora, quem vai querer outra rodada?

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