Amante Consagrado por J. R. Ward - Versão HTML

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J. R. Ward

Amante Consagrado

Lover Enshrined

Série Adaga Negra - Vol. 6

Disponibilização: LibrosLibrosLibros

Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie

Revisão Inicial: Lu Avanço

Revisão Final: Etel

Formatação: Gisa

PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Nas sombras da noite de Caldwell, Nova Iorque, desenvolve-se uma furiosa guerra entre os vampiros e seus

assassinos. E existe um grupo secreto de irmãos como nenhum outro… Seis guerreiros vampiros, defensores

de sua raça. E agora, um obediente gêmeo deve escolher entre duas vidas…

Ferozmente leal à Irmandade da Adaga Negra, Phury se sacrificou pelo bem da raça, convertendo-se no

macho responsável por manter a linhagem da Irmandade. Como o Primale das Escolhidas, vai ser o pai dos

filhos e filhas que assegurarão que sobrevivam as tradições da raça, e, que haja guerreiros que lutem contra

aqueles que querem que todos os vampiros se extingam.

Como sua Primeira Companheira, a escolhida Cormia quer ganhar não só seu corpo, mas também seu

coração para si mesmo... Ela vê o macho emocionalmente deteriorado atrás de toda sua nobre

responsabilidade. Mas enquanto a guerra com a Sociedade Lessening se volta mais severa, e a tragédia mora

sobre a mansão da Irmandade, Phury deve decidir entre o dever e o amor.

GLOSSÁRIO

A Irmandade da Adaga Negra - Black Dagger Brotherhood

Guerreiros vampiros altamente treinados que protegem aos de sua espécie contra a Lessening Society. Como

conseqüência da seleção genética de sua raça, os Irmãos possuem uma imensa força física e mental, assim como

uma extraordinária capacidade regenerativa —podendo recuperar-se de suas feridas de uma maneira

assombrosamente rápida. Normalmente não estão unidos por vínculos de parentesco, e são introduzidos na

Irmandade mediante a proposta de outros Irmãos. Agressivos, auto-suficientes e reservados, vivem separados do

resto dos civis, mantendo apenas contato com os membros de outras classes, exceto quando precisam alimentar-se.

São objeto de lenda e reverência dentro do mundo dos vampiros.

Escravo de sangue - Blood Slave - Homem ou mulher vampiro que sujeita sua existência às necessidades

alimentícias de outro vampiro. O costume de possuir escravos de sangue foi suspensa há muito tempo, mas ainda

não foi abolida.

Escolhida – Attendhente - Mulher vampiro que foi criada para servir à Virgem Escriba. São consideradas

membros da aristocracia, embora seu enfoque seja mais espiritual que temporário. Sua interação com os homens é

virtualmente inexistente, mas podem emparelhar-se por ordem da Virgem Escriba para propagar sua espécie.

Possuem o dom da videncia.

Doggen. Constituem a servidão do mundo vampírico. São fiéis a estritas tradições a respeito de como servir a

seus superiores e obedecem a um conservador código de comportamento e vestuário. Podem caminhar sob a luz do

sol mas envelhecem relativamente rápido. Sua média de vida é de uns quinhentos anos.

O Fade. Reino atemporal onde os mortos se reunem com seus entes queridos para passar juntos o resto da

eternidade.

Hellren. Vampiro macho que se emparelhou com uma fêmea. Está permitido que os homens possam ter mais

de uma companheira.

Leelan. Adjetivo carinhoso que se traduz como o/a mais querido/a.

Lessening Society. Ordem ou organização de assassinos reunida pelo Omega com o propósito de erradicar as

espécies vampíricas.

Lesser. Humanos sem alma, membros da Lessening Society, que se dedicam a exterminar os vampiros.

Permanecem eternamente jovens e só pode lhes matar cravando uma adaga no peito. Não comem nem bebem e são

impotentes. À medida que passa o tempo, sua pele, cabelo e olhos, perdem pigmentação até que ficam

completamente albinos. Soltam um aroma muito parecido ao talco. Quando ingressam na Sociedade —introduzidos

pelo Omega— ele lhes extrai o coração e o conserva em um pote de cerâmica.

Período de zelo - Needing period - Período de fertilidade das mulheres vampiro. Dura em torno de dois dias

e é acompanhado de um forte desejo sexual. Produz-se, aproximadamente, cinco anos depois da transição feminina

e, posteriormente, uma vez a cada dez anos. Durante o período de zelo, todos os machos respondem, em maior ou

menor medida, à chamada da fêmea o que pode provocar conflitos e brigas entre os mesmos, especialmente quando

a fêmea não está emparelhada.

O Omega. Ente místico e malévolo que quer exterminar à raça vampírica pelo ressentimento que tem para

com a Virgem Escriba. Existe em um reino atemporal e possui enormes poderes, embora não o da criação.

Princeps. A casta mais alta da aristocracia vampírica, só superado pelos membros da Família Principal ou

pela do Eleito da Virgem Escriba. É uma casta que se tem por nascimento, sem que possa ser concedido com

posterioridade.

Pyrocant. Termo referido à debilidade vital que pode sofrer todo indivíduo. Esta debilidade pode ser interna,

como por exemplo um vício, ou externa, como um amante.

Rythe. Rito pelo que se tenta apaziguar aquele/aquela cuja honra foi ofendido. Se o rythe é aceito, o ofendido

escolhe arma e golpeará com ela ao ofensor, que acudirá desarmado.

A Virgem Escriba. Força mística conselheira do Rei, guardiã dos arquivos vampíricos e dispensadora de

privilégios. Existe em um reino atemporal e tem enormes poderes. Lhe concedeu o dom um único ato de criação que

foi o que utilizou para dar vida aos vampiros.

Shellan. Vampiro fêmea que se emparelhou com um macho. As mulheres vampiros não podem emparelhar-

se com mais de um companheiro devido à natureza dominante e territorial destes.

A Tumba. Cripta sagrada da Irmandade da Adaga Negra. Utilizada como convocação cerimoniosa e como

armazém para os potes dos lessers. As cerimônias ali realizadas incluem iniciações, funerais e ações disciplinadoras

contra os Irmãos. Ninguém pode entrar, exceto os membros da Irmandade, a Virgem Escriba, ou os candidatos à

iniciação.

Transição. Momento crítico na vida de um vampiro no qual ele ou ela se transforma em adulto. Depois da

transição, o novo vampiro deve beber sangue do sexo oposto para sobreviver e, a partir desse momento, não pode

suportar a luz do sol. Geralmente ocorre na idade de vinte e cinco anos. Alguns vampiros não sobrevivem a este

momento, especialmente os varões. Previamente à transição, os vampiros são fracos fisicamente, sexualmente

ignorantes e incapazes de desmaterializarse.

Vampiro. Membro de uma espécie diferente da humana. Para sobreviver devem beber sangue do sexo

oposto. O sangue humano os mantém com vida, embora a força que lhes outorga não dura muito tempo. Uma vez

que superam a transição, são incapazes de expor-se à luz do sol e devem alimentar-se obtendo o sangue diretamente

da veia. Os vampiros não podem transformar aos humanos com uma mordida ou através de uma transfusão, e em

raras ocasiões podem reproduzir-se com membros de outras espécies. Podem desmaterializar-se a vontade, mas

para isso devem estar calmos, concentrados e não vestir ou carregar nada pesado. São capazes de apagar as

lembranças dos humanos, sempre que essas lembranças não sejam distantes. Alguns vampiros podem ler a mente.

A esperança de vida é indeterminável.

Ahstrux nohtrum. Guarda particular com licença para matar que é renomado para esse posto pelo Rei. Pode

ser homem ou mulher.

Ahvenge. Ato de mortal retribuição tipicamente levado a cabo pela amada de um macho.

Chrih. Símbolo de uma morte honorável, na Antiga Língua.

The Chosen. A/as Eleita/s pr n. Mulher vampiro que foi criada para servir à Virgem Escriba. São

consideradas membros da aristocracia, embora enfoquem mais em assuntos espirituais do que temporários. Sua

interação com os homens é virtualmente inexistente, mas pode emparelhar-se com Irmãos por ordem da Virgem

Escriba para propagar sua espécie. Algumas possuem o dom da vidência. No passado, eram usadas para cobrir as

necessidades de sangue dos membros não emparelhados da Irmandade, e essa prática foi reinstaurada pelos

Irmãos.

Cohntehst. Conflito entre dois machos competindo pelo direito de ser o companheiro de uma fêmea.

Dhunhd. Inferno.

Ehros. Uma Escolhida treinada em matéria de artes sexuais.

Exhile dhoble. O gêmeo malvado ou maldito, é o que nasce em segundo lugar.

Ghardian. Guardião de um indivíduo. Há vários graus de ghardians, sendo o mais poderoso o de uma

fêmea sehcluded, também chamado whard.

Glymera. O núcleo social da aristocracia, equivalente aproximadamente ao do período da regência na

Inglaterra.

Leahdyre. Uma pessoa de poder e influência.

Lewlhen. Dou de presente.

Lheage. Um termo respeitoso que usam os que são submetidos sexualmente referindo-se ao que os domina.

Mahmen. Mãe. Usado de ambas as formas para identificá-las carinhosamente.

Mhis. O mascaramento de um ambiente físico dado; a criação de um campo de ilusão

Nalla (fêmea) ou Nullum (macho) adj. Amada/o

Newling. Uma virgem.

Pheursom ou Pherarsom adj. Termo que se refere à potência dos órgãos sexuais do macho. A tradução literal

seria algo como “digno de penetrar a uma mulher”

Rahlman. Salvador

Sehclusion. A pedido da família de uma fêmea o Rei pode lhe conferir este estado legal. Coloca à fêmea sob

a autoridade exclusiva de seu whard, que geralmente é o macho mais velho da família. Seu whard tem o direito de

determinar sua forma de vida, restringindo a vontade toda interação que ela tenha com o resto do mundo.

Symphath. Subespécie do mundo vampírico caracterizada, entre outras peculiaridades, por sua habilidade e

desejo de manipular as emoções de outros (com o propósito de um intercâmbio de energia). Historicamente, foram

discriminados e durante certas épocas, caçados pelos vampiros. Estão próximos à extinção.

Tahlly. Um termo carinhoso, também traduzido como “querida”.

Trahyner. Palavra usada entre machos que denota mútuo respeito e afeto. Traduzida livremente como

“querido amigo”

Wahlker. Um indivíduo que morreu e voltou para a vida do Fade. Outorga-lhes um grande respeito e são

reverenciados por suas tribulações.

Prólogo

Faz vinte e cinco anos, três meses, quatro dias, onze horas, oito minutos, e trinta e quatro

segundos…

O tempo não era, para falar a verdade, uma perda que se escorria para o infinito. Era

maleável e não imutável até o último segundo do mesmo presente. Argila e não concreto. E

isso era algo pelo qual o Omega se sentia agradecido. Se o tempo tivesse sido inalterável, não

teria nos braços a seu filho recém-nascido.

As crianças nunca tinham sido seu objetivo. E, entretanto, nesse momento, sentiu-se

renovado.

—A mãe está morta? —perguntou ao Fore-lesser que vinha descendo as escadas. Era

gracioso se tivessem perguntado ao assassino que ano pensava que era e este tivesse

respondido 1983. E de certa forma, tivesse estado correto.

O Fore-lesser assentiu.

—Não sobreviveu ao parto.

—As fêmeas vampiras raramente sobrevivem. É uma de suas poucas virtudes. —E neste

caso, oportuna. Matar a mãe depois que proporcionasse tão bom serviço, parecia uma

descortesia.

—Que deseja que faça com o corpo?

O Omega observou seu filho estirar a mão e agarrar seu polegar. Tinha força ao apertar.

—Que estranho.

—O que?

Era difícil expressar o que sentia. Ou talvez esse fosse o tema. Não esperava sentir nada.

Supunha-se que seu filho seria a reação defensiva contra a Profecia do Destruidor, uma

resposta calculada na guerra contra os vampiros, uma estratégia para assegurar a

sobrevivência do Omega. Seu filho acharia uma forma nova de lutar e mataria a essa raça de

selvagens antes que o Destruidor purgasse a essência do Omega até não deixar nada.

Até esse momento, o plano se executou de forma perfeita, começando com o rapto da

fêmea de vampiro que o Omega tinha inseminado e concluindo aqui, com este recém-

chegado ao mundo.

O menino levantou o olhar para ele, movendo a boquinha. Cheirava doce, mas não

porque fosse um lesser.

Imprevisivelmente, o Omega não desejava soltá-lo. Esse menino em seus braços era um

milagre, uma ambigüidade vivinha e abanando o rabo. Ao Omega não foi outorgado um ato

de criação, como a sua irmã, mas não lhe foi negado o dom da reprodução. Não era capaz de

criar toda uma nova raça completa. Mas podia recriar uma parte de si mesmo a partir do lago

genético.

E assim o fez.

—Amo? —disse o Fore-lesser.

Realmente não queria soltar ao bebê, mas para fazer este trabalho, seu filho devia viver

com o inimigo, ser criado como mais um deles. Seu filho devia aprender sua linguagem, sua

cultura e seus costumes.

Seu filho devia saber onde viviam para poder ir massacrá-los.

O Omega forçou a si mesmo a entregar a criatura ao Fore-lesser.

—Deixa-o no lugar de reunião que te proibi que saqueasse. Agasalha-o e deixa-o, e a sua

volta absorverei em mim.

Depois do que morrerá, já que esse é meu desejo, terminou o Omega mentalmente.

Não podia ter filtrações. Nem enganos.

Enquanto o Fore-lesser se dedicava a adulá-lo, o que em qualquer outro momento

tivesse despertado o interesse do Omega, o sol saiu sobre os campos de trigo de Caldwell,

Nova Iorque. Do piso superior, um suave e borbulhante som cresceu, até transformar-se em

um estalo e o aroma de queimado anunciou a incineração do corpo da fêmea, junto com todo

o sangue que havia naquela cama.

O que era simplesmente adorável. O esmero era importante, e esta era uma granja nova,

construída especialmente para o nascimento de seu filho.

—Vai — ordenou o Omega— Vai e cumpre com seu dever.

O Fore-lesser partiu levando o menino, e enquanto observava como se fechava a porta, o

Omega desejou ter a seu broto. Indubitavelmente estava sofrendo pela falta do menino.

Entretanto, tinha a solução para acalmar sua angústia ao alcance da mão. O Omega

desejou estar no ar e catapultou a forma corpórea que assumiu para o «presente», à mesma

sala de estar em que se encontrava.

O transcurso do tempo se fez evidente em um rápido envelhecimento da casa em que

estava. O papel de parede empalideceu e desprendeu da parede em farrapos. Os móveis

deterioraram e desgastaram em concordância com mais de duas décadas de uso. O teto

escureceu, passando de uma brilhante cor branca a um opaco amarelo, como se tivesse

havido fumantes exalando durante anos. No vestíbulo, as pranchas do chão curvaram nas

esquinas.

No fundo da casa, sentiu a dois humanos discutindo.

O Omega flutuou através da imunda, e envelhecida cozinha, que apenas alguns

segundos antes tinha visto brilhante como o dia que tinha sido construída.

Quando entrou na casa, o homem e a mulher deixaram de brigar, ficando congelados

pela comoção. E então se ocupou do tedioso assunto de desocupar a granja de olhos curiosos.

Seu filho retornava ao redil. E o Omega precisava vê-lo ainda mais do que precisava pô-

lo a trabalhar.

Quando o mal tocou o centro de seu peito, sentiu-se vazio e pensou em sua irmã. Ela deu

a luz uma nova raça, uma raça concebida pela combinação de sua vontade e a biologia que

encontrou disponível. Tinha estado muito orgulhosa de si mesmo.

Seu pai também o tinha estado.

O Omega começou a matar vampiros só para mortificar aos dois, mas logo aprendeu que

os atos malvados nutriam-no. Claro que seu pai não pôde detê-lo, já que como resultaram as

coisas, as ações do Omega — não, em realidade mesmo sua existência— era necessária para

equilibrar a bondade de sua irmã.

Devia-se conservar um equilíbrio. Era o princípio essencial de sua irmã, a justificação

que dava ao Omega, e o preceito que seu pai recebeu do dele. A mesma base do mundo.

E assim resultou ser que a Virgem Escriba sofresse e o Omega obtivesse satisfação. Com

cada morte acontecida a sua raça, ela sofria, e bem que ele sabia. O irmão sempre tinha sido

capaz de conhecer sua irmã.

Entretanto, agora, isso era ainda mais certo.

Quando o Omega imaginava seu filho, sozinho no mundo preocupava-se com o menino.

Esperava que estes vintes anos tivessem sido tranqüilos para ele. Mas isso era próprio de um

pai, verdade? Supunha-se que os pais se preocupavam com seus filhos, alimentavam-nos e os

protegiam. Sem importar como fosse sua alma, virtuosa ou pecadora, desejava o melhor para

aquele que havia trazido para o mundo.

Era incrível dar-se conta que depois de tudo, tinha algo em comum com sua irmã… era

impressionante saber que ambos desejavam que os filhos que engendraram sobrevivessem e

prosperassem.

O Omega olhou os corpos dos humanos que acabava de extinguir.

É obvio que isso era um assunto de mútua exclusividade, não é certo?

Capítulo 1

O feiticeiro tinha retornado.

Phury fechou os olhos e deixou que sua cabeça caísse para trás, até apoiá-la contra a

cabeceira. Ah, demônios, o que é que estava dizendo. O feiticeiro nunca se foi.

Companheiro, às vezes me enche o saco, disse lentamente a tenebrosa voz dentro de sua

cabeça. Na verdade o faz depois de tudo o que passamos juntos?

Tudo o que tinham passado juntos… isso era muito certo.

O feiticeiro era a causa da premente necessidade de fumaça vermelha que sofria, sempre

em sua cabeça, sempre amassando a respeito do que não fez, do que deveria ter feito, do que

poderia ter feito melhor.

Deveria. Seria. Poderia.

Bonita rima. Sua realidade era a mesma dos espectros do anel do Senhor dos Anéis;

levava-o para a fumaça vermelha com a mesma segurança que se o bastardo lhe atasse as

quatro patas como a um animal e o atirasse na parte traseira de um carro.

Em realidade, macho, seria bem melhor o pára-choque dianteiro.

Exatamente.

Em sua mente, o feiticeiro aparecia com a forma de um espectro do anel de pé em meio

de um vasto páramo (ecossistema neotropical localizado em altas elevações) cinza, cheio de

crânios e ossos. Com seu peculiar acento britânico, o bastardo assegurava que Phury nunca

esquecesse seus enganos, a contundente letanía o induzia a acender um após o outro, só para

evitar se meter no armário onde guardava as armas e tragar o chumbo de um calibre

quarenta.

Não o salvou. Não os salvou. A maldição caiu sobre eles por tua culpa. É sua culpa… é

sua culpa…

Phury tomou outro néscio e o acendeu com o acendedor de ouro.

Era o que no Antigo País chamavam o Exílio Duplo.

O segundo gêmeo. O gêmeo malvado.

Nascido três minutos depois de Zsadist, o nascimento com vida de Phury levou a

maldição da instabilidade a sua família. Dois filhos nobres, ambos respirando, em muita boa

fortuna, e certamente se restabeleceu o equilíbrio: aos poucos meses, seu gêmeo foi afastado

da família, vendido como escravo, e durante um século, abusaram dele de todas as formas

possíveis.

Graças à cadela viciosa que foi sua ama, Zsadist levava cicatrizes no rosto, nas costas,

nos braços e no pescoço. E cicatrizes ainda piores por dentro.

Phury abriu os olhos. Resgatar o corpo físico de seu irmão não foi suficiente; necessitou-

se do milagre que era Bela para ressuscitar a alma de Z, e agora ela estava em perigo. Se a

perdiam…

Então tudo voltaria para o lugar adequado e o balanço permaneceria intacto para a

seguinte geração, disse o feiticeiro. Honestamente, acredita que seu gêmeo acabaria com a

bênção que representa um menino nascido vivo? Você deve ter filhos além de qualquer

limite. Ele não deve ter nenhum. Essa é a forma em que funciona o equilíbrio.

OH, e também tomarei a seu shellan, já te mencionei isso?

Phury segurou o controle e pôs «Che Gelida Manina».

Não funcionou. O feiticeiro gostava de Puccini. O espectro do anel simplesmente

começou a dançar ao redor do campo de esqueletos, esmagando com suas botas o que

encontrava sob seus pés, seus pesados braços oscilavam com elegância, suas roupas negras e

rasgadas assemelhavam a crina arremessada para trás da régia cabeça de um garanhão.

Frente a um vasto horizonte de uma ruim cor cinza, o feiticeiro dançava e ria.

Tão. Malditamente. Fodido.

Sem olhar, Phury estirou o braço para a mesinha de noite para tomar a bolsinha de

fumaça vermelha e seus papéis de enrolar. Não necessitava medir a distância. Este coelho

sabia bem onde estavam suas cenouras.

Enquanto o feiticeiro vozeava A Bohème, Phury enrolou dois néscios gordinhos para

poder fumar sem interrupções, correntemente, e também fumava enquanto preparava os

reforços. Ao exalar, o que saía de seus lábios cheirava café e chocolate, mas com tal de ficar

insensível ao feiticeiro, igualmente teria seguido utilizando a coisa mesmo se houvesse

sentido como lixo ardente sob seu nariz.

Demônios. Estava chegando ao ponto em que acender um fodido lixeiro, tivesse lhe

parecido bem e inclusive maravilhoso, se com isso obtinha um pouco de paz.

Não posso acreditar que não valore mais nossa relação, disse o feiticeiro.

Phury se concentrou no desenho que tinha no colo, no que tinha estado trabalhando

durante a última meia hora. Depois de jogar uma rápida olhada para orientar-se, afundou a

ponta da caneta no frasco de prata pura que tinha apoiado contra o quadril para mantê-lo

equilibrado. O lago de tinta que havia dentro parecia o sangue de seus inimigos, emitia o

mesmo denso e oleoso brilho. Entretanto no papel, era de um vermelho profundo atirando a

marrom e, não de uma vil cor negra.

Nunca usaria a cor negra para retratar a alguém que amava. Trazia má sorte.

Além disso, essa tinta cor sangue era precisamente a cor dos reflexos que tinha Bela em

seus cabelos cor mogno. Assim fazia jogo com o tema.

Cuidadosamente, Phury sombreou a extensão de seu perfeito nariz, entrecruzando os

finos traçados da caneta até obter a densidade adequada.

O desenho a tinta era muito parecido à vida real: um engano e tudo ficava arruinado.

Maldita fosse. O olho de Bela não estava de tudo bem nivelado.

Torcendo o antebraço para não arrastar o braço por cima da tinta fresca que acabava de

pôr, tratou de corrigir o engano, dando forma à pálpebra inferior de forma que a curva do

mesmo estivesse mais no ângulo. Seus traços marcaram delicadamente a folha de papel

Crane. Mas o olho ainda não funcionava.

Sim, estava mau, e ele deveria saber, considerando quanto tempo tinha passado

desenhando-a uma e outra vez durante os últimos oito meses.

O feiticeiro fez uma pausa em meio de um mid-plié (passo de balé) e assinalou que essa

freqüente rotina da caneta-e-a-tinta era um assunto de merda. Desenhar a shellan grávida de

seu gêmeo. Honestamente.

Só um perfeito e fodido bastardo se obcecaria com uma fêmea que foi tomada por seu

gêmeo. E ainda assim, você o fez. Deve se sentir muito orgulhoso de si mesmo, companheiro.

Sim, o feiticeiro sempre tinha esse acento britânico por alguma razão.

Phury deu outra imersão e inclinou a cabeça para um lado para ver se uma mudança de

perspectiva ajudava. Não. Ainda não estava bem. E para falar a verdade, tampouco o estava o

cabelo. Por alguma razão desenhou a Bela com seu longo e escuro cabelo recolhido em um

coque, com mechas soltas fazendo cócegas em suas bochechas. Ela sempre o usava solto.

Dava igual. De toda forma, era mais que adorável, e o resto de seu rosto estava como

habitualmente o retratava: seu olhar amoroso dirigido para a direita, suas pestanas

delineadas, seu olhar delatando uma combinação de calidez e devoção.

Zsadist sentava a sua direita nas refeições. De forma que a mão que utilizava para brigar

estivesse livre.

Phury nunca a desenhava olhando a ele. O que fazia sentido. Tampouco na vida real,

atraía seu olhar. Estava apaixonada por seu gêmeo, e não teria trocado isso, nem por todo o

desejo que sentia por ela.

A área do desenho ia da parte alta do coque até os ombros. Nunca desenhava seu ventre

de grávida. Nunca desenhava às mulheres grávidas do esterno para baixo. Isso também era

má sorte. Igual a um aviso do que mais temia.

As mortes eram freqüentes nos partos.

Phury passou a ponta dos dedos pelo rosto, evitando o nariz, onde a tinta ainda estava

secando. Era formosa, inclusive com o olho que não estava bem, e o cabelo que se via

diferente, e os lábios que eram menos cheios.

Este estava terminado. Era o momento de começar outro.

Deslocando a mão para a parte inferior do desenho, começou a riscar a curva da hera na

curva de seu ombro. Primeiro uma folha, logo um caule florescente… depois mais folhas,

curvando-se e engrossando-se, cobrindo o pescoço, amontoando-se contra sua mandíbula,

pulverizando-se até sua boca, estendendo-se sobre seu rosto.

Ida e volta para o frasco de tinta. A hera apoderando-se dela. Hera cobrindo os traços de

sua caneta, ocultando seu coração e o pecado que vivia nele.

O mais difícil para ele era cobrir seu nariz. Isso sempre era quão último fazia e quando já

não podia prorrogar por mais tempo, sempre sentia que ardiam seus pulmões como se fosse

ele, que se visse privado da liberdade de respirar.

Quando a hera cobriu a imagem, Phury fez uma pelota com o papel e o atirou ao cesto

de papéis de bronze que havia do outro lado do quarto.

Em que mês estavam agora… agosto? Sim, agosto. O que significava… que ainda tinha

um ano de gravidez pela frente, assumindo que pudesse conservá-la. Como muitas fêmeas,

estava fazendo repouso na cama, já que o parto prematuro era motivo de grande inquietação.

Esmagando a bituca do néscio, estendeu a mão para agarrar um dos dois que acabava de

fazer e se deu conta que já os tinha fumado.

Estirando sua única perna inteira, deixou a um lado a tabela de desenho que tinha no

colo e voltou a agarrar seu kit de sobrevivência: uma bolsinha de plástico de fumaça

vermelha, um magro pacote de papel de fumar, e seu maciço acendedor de ouro. Em questão

de um minuto enrolou um novo, e enquanto inalava a primeira baforada, repensou sua

reserva.

Merda. Era escassa. Muito escassa.

As venezianas de ferro descobrindo as janelas o acalmaram. A noite, em toda sua escura

glória, tinha chegado e, sua chegada outorgava a liberdade de escapar da mansão da

Irmandade… e a possibilidade de ir ao local de seu distribuidor, Rehvenge.

Movendo a perna que não tinha pé nem panturrilha através da cama, estirou-se para

alcançar a prótese, ajustou-a debaixo do joelho direito, e ficou de pé. Estava o suficientemente

aturdido, para sentir que o ar que o rodeava era como algo que tivesse que atravessar, e para

que parecesse que a janela para a qual se dirigia estava a quilômetros de distância. Mas estava

tudo bem. Sentiu-se consolado pela habitual confusão, aliviado pela sensação de flutuar

enquanto caminhava nu pelo quarto.

O jardim que estava abaixo via-se resplandecente, iluminado pelo brilho que saía do

conjunto de portas janelas da biblioteca.

Assim era como devia ver uma vista traseira, pensou. Todas as flores viçosas, cheias de

vida, as árvores frutíferas carregadas com pêras e maçãs, os atalhos limpos, o arbusto de

boj(arbusto trad, buxo) podado.

Não parecia com o lugar em que cresceu. Em nada.

Justo debaixo de sua janela, as rosas de chá estavam em plena floração, suas gordas

corolas irisadas, sustentavam-se orgulhosamente sobre os caules espinhosos. As rosas

mudaram sua linha de pensamento para outra fêmea.

Enquanto Phury inalava outra vez, imaginou a essa fêmea, a que teria todo o direito de

estar desenhando… a qual, de acordo com a lei e os costumes, deveria estar fazendo muito

mais que desenhá-la.

A escolhida Cormia. Sua primeira companheira.

Desde quarenta.

Homem, como demônios terminou como Primale das Escolhidas?

Disse-lhe isso, respondeu o feiticeiro. Terá infinidade de filhos, todos os quais terão que

sofrer a alegria de ter como exemplo um pai cujo único mérito foi decepcionar a todos os que

o rodeiam.

OK, embora o bastardo fosse muito desagradável, esse era um ponto muito difícil de

discutir. Não emparelhou com a Cormia como exigia o ritual. Não retornou ao Outro Lado

para ver a Directrix. Não conheceu às trinta e nove fêmeas que como se supunha tinha que

deitar e fecundar.

Phury fumou com mais ímpeto, o peso dessas significativas minúcias aterrissou em sua

cabeça, brasas ardentes jogadas pelo feiticeiro.

O feiticeiro tinha uma excelente pontaria. Mas para falar a verdade, teve muita prática.

Bom, em definitivo, companheiro, é um alvo fácil. Isso é tudo o que tenho que dizer a

respeito.

Ao menos Cormia não estava se queixando pelo descumprimento de seus deveres. Não

desejou ser a primeira companheira, forçaram-na a aceitar esse papel: no dia do ritual

tiveram que atá-la à cama cerimonial, estendida para seu uso como um animal,

absolutamente aterrorizada.

No mesmo instante que a viu, voltou para o modo em que vinha programado com

defeito, o modo de salvador absoluto. Trouxe-a aqui, à mansão da Irmandade da Adaga

Negra e a pôs em um dormitório contíguo ao dele. Tradição ou não, não havia maneira no

inferno em que ele fosse forçar a uma fêmea, e supôs que se ela tomava um tempo para

conhecer as coisas, essas seriam muito mais fáceis.

Sim… não. Cormia havia ficado introvertida, enquanto ele estava ocupado com o

assunto diário de tratar de evitar implodir. Nos últimos cinco meses, não conseguiram estar

mais unidos, e não se aproximaram de uma cama. Cormia raramente falava e só aparecia para

as refeições. Se saía de seu quarto, era só para ir à biblioteca procurar livros.

Vestida com uma túnica branca larga, parecia-se mais a uma sombra com aroma de

jasmim que algo feito de carne e osso.

Embora a vergonhosa realidade fosse que estava contente com o estado atual das coisas.

Pensou que era bem consciente do compromisso sexual que assumia quando tomou o lugar

de Vishous como Primale, mas a realidade era muito mais intimidante do que tinha sido o

conceito. Quarenta fêmeas. Quarenta.

Quatro e zero.

Devia ter perdido o maldito julgamento quando tomou o lugar de V. Deus sabia que seu

único intento de perder a virgindade não tinha sido muito feliz… e isso foi com uma

profissional. Embora, talvez, tratar o assunto com uma prostituta podia ter sido parte do

problema.

Mas a quem demônios mais poderia ter procurado? Era um ignorante celibatário de

duzentos anos de idade. Supunha que se lançasse sobre a adorável e frágil Cormia,

bombeasse dentro dela até gozar, e logo saísse disparado para o Santuário das Escolhidas e

fizesse como Bill Paxton no seriado Big Love?

Em que demônio estava pensando?

Phury colocou o néscio entre os lábios e abriu a janela. Quando o denso perfume da

noite de verão deslizou dentro do quarto, voltou a pensar nas rosas. Viu Cormia com uma,

outro dia, uma que evidentemente tinha tirado do ramo que Fritz sempre punha na salinha

de estar do segundo piso. Estava de pé perto do floreiro, com a rosa de uma pálida cor

lavanda entre dois de seus largos dedos, tinha a cabeça inclinada para o casulo, o nariz em

cima do gordo pimpolho. Levava o cabelo loiro recolhido, como sempre, trancado sobre a

cabeça e, tinham escapado umas delicadas mechas que caíam para frente e se curvavam

formando um cacho natural. Justo igual às pétalas de uma rosa.

Ela se sobressaltou quando o descobriu olhando-a fixamente, devolveu a rosa a seu

lugar, e rapidamente foi para seu dormitório, fechando a porta sem fazer nem um som.

Sabia que não podia tê-la aqui para sempre, longe de tudo o que era familiar e de tudo o

que ela era. E tinham que completar a cerimônia sexual. Esse era o trato que ele fez, e esse era

seu papel como havia lhe dito, sem importar quão assustada tivesse estado em princípio,

estava pronta para desempenhar.

Olhou para sua mesa, ali havia um pesado medalhão de ouro que era do tamanho de

uma grande caneta fonte. Lavrado em uma arcaica versão da Antiga Língua, era o símbolo do

Primale: não só a chave para todos os edifícios do Outro Lado, mas também o cartão de

apresentação do macho que estava a cargo das Escolhidas.

A força da raça, como era conhecido o Primale.

O medalhão havia tornado a soar hoje, como o fez antes. Cada vez que a Directrix o

convocava, a coisa vibrava, e teoricamente supunha que devia arrastar seu traseiro para o que

deveria ter sido seu lar, o Santuário. Ignorou a convocatória. Como ignorou as outras duas.

Não desejava ouvir o que já sabia: cinco meses sem selar o pacto que fez na cerimônia do

Primale, era abusar da situação.

Pensou em Cormia, metida nesse quarto de hóspedes contíguo ao seu, mantendo-se

apartada. Sem ninguém com quem falar. Longe de suas irmãs. Tinha tratado de chegar a ela,

mas a punha nervosa como o inferno. E era compreensível.

Deus, não tinha idéia como passava as horas sem voltar-se louca. Necessitava uma

amiga. Todo mundo necessita amigos.

Entretanto, nem todo mundo os merece, assinalou o feiticeiro.

Phury voltou-se e encaminhou para a ducha. Ao passar junto ao cesto de papéis, deteve-

se. Seu desenho tinha começado a desembrulhar-se da bola que ele formou, e entre a

enrugada confusão, viu a coberta de hera que tinha acrescentado. Durante um segundo e

meio, recordou o que havia debaixo, recordou o cabelo recolhido e as mechas caindo sobre

uma suave bochecha. Mechas que seguiam a mesma curvatura que as pétalas de uma rosa.

Sacudindo a cabeça, continuou seu caminho. Cormia era adorável, mas…

Desejá-la seria o apropriado, terminou a oração o feiticeiro. Por isso nem em um milhão

de anos seguiria esse caminho. Poderia arruinar seu perfeito recorde de lucros.

OH, espera, quis dizer de cagadas, companheiro. Não é assim?

Phury pôs Puccini a todo volume e se meteu na ducha.

Capítulo 2

Ao anoitecer, quando levantaram as venezianas, Cormia estava muito ocupada.

Sentada sobre o tapete oriental de seu quarto, com as pernas cruzadas, estava pescando

em um recipiente cheio de água, procurando ervilhas. Quando Fritz trouxe os legumes,

estavam duros como pedras, mas depois de ficar de molho durante um momento estavam o

suficientemente brandas para poder usá-las.

Quando conseguiu capturar uma, estirou a mão para a esquerda e tomou um palito de

uma pequena caixinha branca que dizia, em letras vermelhas, palito de dentes simmons, 500

total.

Tomou a ervilha e a empurrou até o final do palito, logo tomou outra ervilha e outro

palito, e fez o mesmo e com eles formou um ângulo reto. Continuou fazendo-o, criando

primeiro um quadrado, e logo um cubo tridimensional. Satisfeita, inclinou-se para diante e o

acoplou a outra peça igual, rematando ao colocá-la, a última esquina de uma base de quatro

lados que formava uma estrutura de aproximadamente um metro e meio de diâmetro. Agora,

continuaria para cima, construindo andares com a estrutura.

Os palitos eram todos iguais, idênticas partes de madeira, e as ervilhas também eram

parecidas, redondas e verdes. Ambos recordavam o lugar de onde provinha. A igualdade era

importante no Santuário atemporal das Escolhidas. A igualdade era o mais importante.

Aqui, neste lado, muito poucas coisas eram similares.

A primeira vez que viu palitos foi no andar de baixo, depois das refeições, quando o

Irmão Rhage e o Irmão Butch os tiraram de uma fina caixa de prata ao sair da copa. Uma

noite, quando empreendia o caminho de volta a seu quarto, sem motivo algum, pegou um

punhado. Tratou de colocar um na boca, mas não gostou do seco sabor que a madeira tinha.

Sem estar muito segura de que mais podia fazer com eles, deixou os palitos na mesinha de

noite e os manipulava para formar figuras.

Quando Fritz, o mordomo, entrou para limpar, notou suas maquinações e um momento

mais tarde retornou com um recipiente de ervilhas inundadas em água morna. Ensinou-lhe

como fazê-lo para que o sistema funcionasse. Uma ervilha entre dois palitos. Logo

acrescentava outra seção e outra e outra mais, e antes que se desse conta tinha algo agradável

à vista.

Quando seus desenhos cresceram e se voltaram mais ambiciosos, começou a planejar

com antecipação todos os ângulos e intercessões, para assim reduzir os enganos. Também

começou a trabalhar no chão, onde tinha mais espaço.

Inclinando-se para frente, inspecionou o desenho que fez antes de começar, que usava

para guiar-se. O seguinte nível seria de menor tamanho, quão mesmo o que ia depois desse.

Logo acrescentaria uma torre.

Pensou que seria bom que tivesse um pouco de cor. Mas como introduzi-lo dentro da

estrutura?

Ah, a cor. A liberação da vista.

Estar deste lado tinha seus desafios, mas uma coisa que amava absolutamente era as

cores. No Santuário das Escolhidas, tudo era branco: a erva e as árvores, os templos, a

refeição e a bebida, os livros de orações.

Com sentimento de culpa, jogou uma olhada a seus textos sagrados. Era difícil

argumentar que tinha estado adorando à Virgem Escriba em sua pequena catedral de ervilhas

e palitos.

Alimentar o ego não era o objetivo das Escolhidas. Era um sacrilégio.

E a anterior visita da Directrix das Escolhidas deveria ter o recordado.

Queridíssima Virgem Escriba, não queria pensar nisso.

Levantando-se, aguardou que acontecesse o enjôo, e logo foi para a janela. Debaixo

estavam as rosas de chá, e observou cada um dos arbustos, examinando-os em busca de

novos pimpolhos, pétalas caídas e folhas novas.

Estava passando o tempo. Podia dar-se conta pela forma em que trocavam as flores, seu

ciclo de floração durava três ou quatro dias por cada flor.

Uma coisa mais a que acostumar-se. No Outro Lado, não existia o tempo. Havia

periodicidade nos rituais, refeições e os banhos, mas não existia a alternância do dia e a noite,

não se media em horas, não havia mudança de estações. O tempo e a existência eram

estáticos, quão mesmo o ar, a luz e a paisagem.

Neste lado, teve que aprender que existiam os minutos, as horas, os dias, as semanas, os

meses e os anos. Para marcar o passado do tempo utilizavam relógios e calendários, e

aprendeu a lê-los, assim como também conseguiu entender os ciclos deste mundo e às

pessoas que havia nele.

Fora, no terraço, divisou a um doggen. Tinha um par de tesouras de podar e um grande

cesto vermelho e percorria os arbustos, recortando-os para lhes dar forma.

Pensou nos ondulados prados brancos do Santuário. E as imóveis árvores brancas. E as

brancas flores que sempre estavam viçosas. No Outro Lado, tudo estava congelado no lugar

adequado, para que não se precisasse podar nem secar, nunca se produzia nenhuma

mudança.

Aqueles que respiravam esse quieto ar estavam igualmente congelados ainda quando se

moviam, vivendo e ainda assim sem vida.

Entretanto as Escolhidas certamente envelheciam. E também faleciam.

Olhou por cima do ombro para a mesa cujas gavetas estavam vazias. O pergaminho que

a Directrix veio entregar descansava sobre sua lustrosa superfície. A escolhida Amalya, no

desempenho de seu cargo de Directrix, foi a autora de tais cordiais saudações em honra ao

dia de seu nascimento e apareceu para cumprir com seu dever.

Se Cormia tivesse estado no Outro Lado, também teria tido uma cerimônia. Embora, é

obvio, que não para ela. O indivíduo cujo nascimento se celebrava não recebia direitos

especiais, já que no Outro Lado não existia o eu. Somente o conjunto.

Pensar por ti mesmo, pensar em sua pessoa, era considerado blasfêmia.

Ela sempre foi uma pecadora encoberta. Sempre teve idéias errantes, distrações e

impulsos. Os quais nunca prosperaram.

Cormia levantou a mão e a pôs sobre o vidro da janela. O vidro através do qual olhava

era mais magro que seu mindinho, tão claro quanto o ar, apenas podia considerar uma

barreira. Havia momentos que desejava descer ao lugar onde estavam as flores, mas estava

esperando… não sabia que estava esperando.

A primeira vez que veio a este lugar, havia-se sentido atormentada por uma sobrecarga

de sensações. Havia todo tipo de coisas que não reconhecia: como tochas encostadas às

paredes que acendia para obter luz, e máquinas que faziam coisas como lavar os pratos ou

manter a refeição fria ou criar imagens em uma pequena tela. Havia caixas que soavam a cada

hora, e veículos de metal que transportavam às pessoas de um lado a outro, e coisas que

zumbiam, percorriam o chão para frente e para trás e o deixavam limpo.

Havia mais tinta aqui que em todas as jóias que havia na tesouraria. Aromas também,

tão ricos quanto feios.

Tudo era muito distinto, e também o eram as pessoas. De onde ela vinha, não havia

machos, e suas irmãs eram intercambiáveis: Todas as Escolhidas usavam a mesma túnica

branca, recolhiam-se o cabelo trançando-o da mesma forma e levavam uma pérola com forma

de lágrima ao redor do pescoço. Todas caminhavam e falavam com idêntica tranqüilidade e

faziam as mesmas coisas ao mesmo tempo. Aqui? Era o caos. Os Irmãos e suas shellans

usavam diferentes roupas e conversavam e riam de formas completamente diferentes e

identificáveis. Gostavam de certas refeições, mas havia outras que não, alguns dormiam até

tarde e outros não dormiam absolutamente. Alguns eram graciosos, outros eram ferozes,

alguns eram… formosos.

Uma era definitivamente formosa.

Bela era formosa.

Especialmente aos olhos do Primale.

Quando o relógio começou a soar, Cormia flexionou os braços aproximando-os de seu

corpo. As refeições eram uma tortura, dando uma amostra do que seria quando ela e o

Primale retornassem ao Santuário.

E olhasse os rostos de suas irmãs com similar admiração e prazer.

Falando de mudanças. Ao princípio, tinha estado aterrorizada do Primale. Agora,

passados cinco meses, não desejava compartilhá-lo.

Com sua juba multicolorida, seus olhos amarelos, e a voz sedosa e grave, era um macho

espetacular, na plenitude da idade para aparear-se. Mas isso não era o que realmente a atraía.

Era o epítome de tudo o que considerava meritório: sempre estava pendente de outros, nunca

de si mesmo. Na mesa do jantar, era quem se preocupava em perguntar a cada uma das

pessoas como estava, seguindo de perto as feridas recebidas, os mal-estares estomacais e as

ansiedades tão grandes quanto pequenas. Nunca requeria que emprestassem atenção a ele.

Nunca atraía a conversa a assuntos que tratassem a respeito dele. Era imensamente

pormenorizado.

Se havia um trabalho difícil, oferecia-se voluntário. Se tivesse um recado para levar,

queria fazê-lo ele. Se Fritz cambaleava pelo excessivo peso de uma fonte, o Primale era o

primeiro a levantar-se de sua cadeira para ajudá-lo. Por isso ouviu na mesa, era um guerreiro

para sua raça, um professor para os recrutas e um muito, mas muito bom amigo para todo

mundo.

Certamente, era o exemplo adequado das desinteressadas virtudes das Escolhidas, o

perfeito Primale. E em algum momento dos segundos, horas, dias e meses de sua estadia ali,

ela passou de estar no caminho do dever para meter-se no enredado bosque da eleição. Agora

desejava estar com ele. Não existia nenhum tenho que, devo fazer, é preciso.

Mas o queria para ela sozinha.

O que a convertia em uma herege.

Na porta contígua à sua, a magnífica música que o Primale escutava sempre que estava

em seu quarto parou. O que significava que se dirigia para o andar de baixo para a Primeira

Refeição.

O som de um golpe em sua porta a fez saltar e girar-se. Enquanto a túnica assentava

contra suas pernas, captou o aroma da fumaça vermelha filtrando-se em seu quarto.

O Primale veio procurá-la?

Rapidamente comprovou o estado de seu coque, e meteu algumas mechas soltas atrás

das orelhas. Abriu a porta, apenas uma fresta, e furtivamente olhou seu rosto antes de fazer

uma reverência.

OH, querida Virgem Escriba… o Primale era tão esplêndido que podia ficar olhando-o

durante longo momento. Seus olhos eram amarelos como os citrinos, sua pele de um quente

tom dourado, seu longo cabelo tinha uma espetacular mescla de cores, do pálido loiro,

passando por uma profunda cor mogno até chegar a uma quente cor acobreada.

Ele se inclinou realizando um rápido e breve movimento com a cabeça a modo de

saudação, uma formalidade que ela sabia que desgostava. Embora, o fazia por ela, porque

sem importar quantas vezes houvesse dito que deixasse de ser formal, ela não podia evitar sê-

lo.

—Escuta, estive pensando — disse.

Na hesitação que seguiu, preocupou-lhe que a Directrix tivesse ido vê-lo. Todo mundo

no Santuário estava esperando que a cerimônia se completasse, e todos eram conscientes que

isso ainda não ocorreu. Estava começando a sentir uma urgência que nada tinha que ver com

a atração que sentia por ele. Com cada dia que passava, o peso da tradição se estava voltando

cada vez mais opressivo.

Ele esclareceu garganta.

—Estivemos aqui um tempo, e sei que a mudança foi dura para você. Estava pensando

que deve te sentir um pouco só e que talvez você gostasse de ter um pouco de companhia.

Cormia levou a mão ao pescoço. Isto era bom. Chegou o momento de que estivessem

juntos. A princípio, não tinha estado pronta para ele. Agora o estava.

—Na verdade penso que para você será bom — disse com sua formosa voz — ter um

pouco de companhia.

Fez uma profunda reverência.

—Obrigado Sua Graça. Estou de acordo.

—Maravilhoso. Tenho alguém em mente.

Cormia se endireitou lentamente. Alguém?

John Matthew sempre dormia nu.

Bom, ao menos depois de ter passado pela transição, dormia nu.

Economizava-lhe lavadas.

Com um gemido, colocou a mão entre suas pernas e tocou a ereção que estava dura

como uma pedra. Como sempre, a coisa o despertou, tão confiável como um relógio

despertador e tão erguida quanto o fodido Big Ben.

Também tinha um temporizador. Se si ocupava dela, podia descansar, mais ou menos,

outros vinte minutos antes que voltasse a carregar-se. Geralmente, a rotina era três vezes

antes de deixar a cama e outra mais na ducha.

E pensar que alguma vez tinha desejado isto.

Concentrar-se em idéias pouco atrativas não ajudava, e embora suspeitasse que gozar na

realidade piorava as coisas, ignorar seu pênis estava fora da questão: quando alguns meses

atrás, como experimento, deixou de sentir prazer, depois de transcorridas umas doze horas

tinha estado preparado para foder uma árvore, de tão quente que estava.

Não existia algo assim como um anti-Viagra? Cialis Reversalis? Flaccidillina?

Rodando para ficar de barriga para cima, tirou uma perna pelo flanco, afastou as mantas

de seu corpo, e começou a acariciar-se. Esta era sua posição preferida, embora se gozava

muito forte, em metade do orgasmo se dobrava sobre si mesmo e se apoiava sobre o lado

direito.

Como pretrans, sempre desejou ter uma ereção, porque supunha que ficar duro o

converteria em um homem. A realidade não tinha funcionado dessa maneira. Certo que, por

seu enorme corpo, suas inatas habilidades de guerreiro e a permanente ereção que tinha, fazia

que por fora estivesse ondeando a bandeira de Hei-man.

Por dentro, ainda se sentia tão pequeno quanto havia sentido sempre.

Arqueou as costas e bombeou dentro de sua mão impulsionando-se com os quadris.

Deus… de todas as formas se sentia bem. Isto sempre sentia bem… sempre e quando fosse

sua palma a que fizesse o trabalho. A primeira e única vez que uma fêmea o tocou, sua ereção

desinflou mais rápido que seu ego.

Assim, em realidade aí tinha seu anti-Viagra: na forma de outra pessoa.

Mas esse não era o momento de recordar os males de seu passado. Seu pênis estava

preparando para estalar; sabia pelo intumescimento. Justo antes de gozar a coisa ficava toda

boba, pelo espaço de alguns golpes, e isso era o que estava acontecendo nesse momento

enquanto movia a mão acima e abaixo sobre a úmida vara.

OH, sim… aqui vem… a tensão em seu testículo cresceu como se fosse um cabo

retorcido e seus quadris balançaram incontrolavelmente, abriu os lábios para poder ofegar

mais facilmente… e como se isso não fosse suficiente, sua mente se uniu à ação.

Não… foder… não, ela outra vez não, por favor, não…

Merda, muito tarde. No meio do redemoinho sexual, sua mente se aferrou à única coisa

que garantia que se multiplicasse o efeito: uma fêmea vestida de couro com um corte de

cabelo varonil e ombros tão compactos quanto os de um boxeador.

Xhex.

Com um inaudível fôlego, John voltou a tombar-se sobre um flanco e começou a

ejacular. O orgasmo seguiu e seguiu enquanto fantasiava a respeito deles dois tendo sexo em

um dos banhos do clube, onde ela era chefe de segurança. E enquanto as imagens

desdobravam em seu cérebro, seu corpo não deixava de ejacular. Podia seguir fazendo-o

durante dez minutos seguidos, literalmente, até que ficava coberto pela substância que saía

de seu pênis e os lençóis ficassem completamente encharcados.

Tentou cercar seus pensamentos, tratou de tomar o controle… mas falhou. Simplesmente

seguiu ejaculando, acariciando-se com a mão, o coração retumbando e o fôlego entupido na

garganta enquanto se imaginava junto a ela. Menos mal que nasceu sem laringe, do contrário,

toda a mansão da Irmandade teria sabido exatamente o que estava fazendo uma e outra e

outra vez.

Só depois de obrigar-se a retirar a mão de seu pênis, acalmou-se a coisa. Enquanto seu

corpo diminuía o ritmo, ficou estendido, tão fraco quanto se tivesse desmaiado, respirando

contra o travesseiro, com o suor e outras coisas secando-se sobre seu corpo.

Bonito despertador. Bonita sessão de exercício. Bonita forma de matar o tempo. Mas

essencialmente vazia.

Sem nenhuma razão em particular, seus olhos percorreram o lugar e fixaram na mesinha

de noite. Se abrisse a gaveta, coisa que nunca fazia, encontraria duas coisas: uma caixa cor

vermelha sangue do tamanho de um punho e um velho diário forrado em couro. Dentro da

caixa havia um pesado anel de selo de ouro que levava o emblema que representava sua

linhagem, como filho do guerreiro da Adaga Negra Darius, filho do Marklon. O antigo diário

continha os pensamentos de seu pai, narrando um período de dois anos de sua vida. Também

o tinham agradável.

John nunca usou o anel e nunca leu as notas.

Havia várias razões para manter-se afastado de ambos, mas a principal era que Darius

não era o macho a que considerava seu pai. Era outro irmão. Um irmão que agora fazia oito

meses que se considerava DEA (desaparecidos em ação).

Se fosse usar algum anel, seria um que luzisse o emblema de Tohrment, filho de Hharm.

Como forma de honrar ao macho que chegou a significar tanto para ele em tão curto tempo.

Mas isso não ia ocorrer. Era provável que Tohr estivesse morto, sem importar o que

dissesse Wrath, e em qualquer caso, nunca foi seu pai.

Não querendo cair em uma depressão, John se obrigou a levantar do colchão e

cambaleando-se, meteu-se no banheiro. A ducha ajudou-o a avivar-se e a vestir-se.

Essa noite não tinha aula de treinamento, assim ia passar algumas horas abaixo no

escritório e logo se encontraria com o Qhuinn e Blay. Tinha esperanças que houvesse muita

papelada de que ocupar-se. Essa noite não tinha muita vontade de ver seus amigos.

Os três foram até o outro lado da cidade ao… Deus, ao centro comercial.

Foi idéia de Qhuinn. Como a maioria das idéias. Na opinião do tipo, o guarda-roupa de

John necessitava uma injeção de elegância.

John baixou o olhar e contemplou seus Levi's e sua camiseta branca Hanes. O único

chamativo que usava eram as sapatilhas: um par de Nike Air Max negro. E nem sequer essas

eram tão chamativas.

Talvez Qhuinn tivesse razão ao dizer que John era vítima da moda, mas vamos... A

quem tinha que impressionar?

O nome que estalou em sua mente fez que amaldiçoasse e que tivesse que acomodar-se:

Xhex.

Alguém golpeou sua porta:

—John? Está aí?

John meteu a camiseta dentro da calça e se perguntou que motivo teria Phury para ir a

sua busca. Estava em dia nos estudos e ia bem no combate corpo a corpo. Talvez se tratasse

do trabalho que fez no escritório?

John abriu a porta.

Olá, disse na Linguagem de Gestos Americano.

—Oi. Como está? —John assentiu e logo franziu o cenho quando o Irmão mudou e

começou a falar no LSA.

Perguntava-me se poderia me fazer um favor.

O que queira.

Cormia está… bom, ao estar deste lado se viu submetida a muitas provocações. Acredito

que seria genial se tivesse alguém com quem passar um pouco de tempo, sabe… alguém

centrado e discreto. Sem complicações. Assim, acredito que poderia fazer as honras? Só fala

com ela, ou leva-a a dar uma volta pela casa ou… o que seja. Eu o faria, mas…

É complicado, pensou John para si mesmo.

É complicado, disse Phury por gestos.

Uma imagem da silenciosa e loira Escolhida apareceu na mente de John. Nos últimos

meses, observou Cormia e Phury evitar olhar-se sistematicamente, e se perguntou — como

sem dúvida o faziam todos outros — se teriam selado o trato.

John pensava que não. Ainda se viam muito, mas muito incômodos.

Você se importaria? Perguntou Phury por gestos. Imagino que deve ter perguntas ou…

não sei... Coisas das que falar.

Para falar a verdade, não parecia que a Escolhida tivesse vontades de sair em grupo.

Durante as refeições sempre mantinha a cabeça baixa, nunca pronunciava uma palavra e só

comia a refeições de cor branca. Mas se Phury o pedia, como podia negar-se John? O Irmão

sempre o ajudava com suas posturas de luta e respondia suas perguntas fora da sala de aula e

era o tipo de pessoa pela que queria fazer coisas boas, dado que ele era bondoso com todo

mundo.

Claro, respondeu John. Estarei encantado em fazê-lo.

Obrigado. Phury aplaudiu seu ombro satisfeito, como se tivesse solucionado tudo. Direi

que se reúna com você na biblioteca, depois da Primeira Refeição.

John baixou o olhar e olhou o que vestia. Não estava seguro que os jeans fossem o

suficientemente elegantes, mas seu armário estava cheio com mais do mesmo.

Talvez fosse bom que ele e os meninos fossem às compras. O único mau era que não o

tivessem feito antes.

Capítulo 3

Por tradição, uma vez que foi induzido na Sociedade Lessening, te conheciam somente

pela primeira letra de seu sobrenome.

O senhor D deveria ter sido conhecido como senhor R, R de Roberts. O tema era que no

momento em que foi recrutado, a identidade que esteve usando, tinha sido Delancy. Assim

que se converteu no senhor D, e nos últimos trinta anos ficou conhecido por esse nome.

Embora em realidade não fosse importante. Os nomes nunca importavam nada.

Ao entrar em uma curva da Rota 22, o senhor D baixou uma marcha, mas passar a

terceira não ajudou muito a passar a curva. O Ford Focus parecia ter noventa anos. Também

tinha aroma de naftalina e pele ressecada.

Caldwell, Nova Iorque, era uma extensão de uns oitenta quilômetros de campos de trigo

e pastaria para vacas, com granjas disposta de forma que assemelhavam um grande beco e

enquanto o atravessava, encontrou-se a si mesmo pensando em forquilhas. Matou a sua

primeira pessoa com uma. No Texas, quando tinha quatorze anos. A seu primo, Big Tommy.

O senhor D havia sentido orgulho de si mesmo ao não ter recebido nenhum castigo por

esse crime. Ser pequeno e aparentar estar necessitado foram seu ingresso de saída. O velho e

querido Big Tommy foi um rufião, com mãos grandes como presuntos e uma veia mesquinha,

assim quando o senhor D correu gritando para sua mamãe, com o rosto golpeado, todo

mundo acreditou que seu primo teve um ataque de ira e merecia o que tinha ocorrido. Sim. O

senhor D seguiu a Big Tommy ao celeiro e o irritou o suficiente para obter um lábio inchado e

o olho negro que necessitava para declarar que tinha sido em defesa própria. Logo agarrou a

forquilha que apoiou de antemão contra uma das quadras e pôs mãos à obra.

Só queria saber o que sentiria ao matar a um ser humano. Os gatos, os gambás e os