Amarga iluão por L P Baçan - Versão HTML

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Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

CAPÍTULO 1

Aquele sonho vinha se repetindo desde há muito. Reni passou a mão pelos olhos antes de espreguiçar-se languidamente. Pela cortina entreaberta da janela penetrava um principio de claridade da manhã.

Consultou o relógio. Ainda lhe restava pouco mais de uma hora de sono, antes de ter que se levantar. Espreguiçou-se mais uma vez, apanhou um cigarro sobre a mesinha ao lado da cama e acendeu-o.

As imagens do sonho voltaram a dançar ante seus olhos que fitavam a fumaça azulada que subia e desaparecia no ar. Como explicar aquele sonho? Algum prenuncio? Alguma frustração?

A idéia da frustração agigantou-se em seu cérebro. Analisou-a, mas tinha que afastá-la.

Afinal uma jovem de 23 anos, com um bom emprego, em que poderia se sentir frustrada? Mas a imagem era por demais nítida e se repetia com insistência, noite após noite.

A cinza do cigarro caiu sobre o cobertor fazendo-a levantar-se rapidamente para tirá-la dali.

Reclinou-se novamente, mas seus pensamentos voltaram para uma conversa que tivera há alguns dias com seus namorado. Ele a havia convidado para uma viagem à Bahia, sozinhos.

Reni não aceitara por causa do serviço.

— Talvez você consiga alguns dias de férias, não custa tentar — insistiu ele.

Roberto, seu namorado, era um jovem e dinâmico engenheiro recém-formado. Habituara-se a um concurso e conseguira aprovação. Ia fazer um estágio e aproveitar para um passeio.

Seus olhos negros a olharam insistentes e suplicantes.

— Mas é tão difícil — respondeu ela. — Não haverá ninguém para me substituir lá na faculdade. Meu trabalho de secretária ficaria todo acumulado. Além disso, há o problema dos expedientes diários, não há mesmo possibilidade, meu amor.

— Não me agrada nem um pouco deixá-la sozinha.

— E não me agrada também deixá-lo solto entre as baianas — disse ela, fazendo charminho.

— Ciúmes?

— E por que não? Você é simpático, atraente, sexy. As mulheres não lhe resistiriam.

— Diz isso por experiência própria?

— Sim, como todas as mulheres...

— Não, você não é como todas — falou ele, segurando-lhe o queixo. — Você é especial para mim.

— Eu o amo, Roberto.

— Querida...

Levantou o cigarro, sentindo em seus lábios o calor do beijo que ele lhe dera na noite anterior, quando se despediram no aeroporto.

Levantou-se a foi até a cozinha preparar o café. Enquanto a água não fervia, dirigiu-se ao quarto da amiga, com a qual morava.

— Sandra, já está quase na hora de se levantar.

A outra resmungou, virou-se na cama e continuou dormindo.

Reni foi até a janela e abriu a cortina. A claridade do dia já era mais definida. Olhou a rua embaixo: carros e pessoas a se movimentarem. A cidade estava acordada.

Olhou para a amiga, ainda deitada, mas agora com o travesseiro cobrindo os olhos.

— Vamos, vamos, não seja preguiçosa! — insistiu Reni, retirando o travesseiro e encarando a amiga.

— Não sei como você agüenta levantar cedo — disse a outra. — Para mim, está é a melhor hora para a gente dormir.

— Se você fosse uma genuína filhinha de papai e não precisasse trabalhar, eu não me importaria, cara amiga. Acontece que o trabalho nos espera. Vamos.

Enquanto a amiga se vestia, Reni terminou de preparar o café e arrumou a mesa. Estava comendo alguma coisa quando Sandra veio sentar-se ao seu lado.

— Não se esqueça que hoje é sábado. De amanhã em diante começa seu turno na cozinha, estamos combinadas? — disse Reni.

— Mas já? Nem parece que já se passou uma semana desde que fiz o último jantar.

— Mas já se passou. Algum programa especial para hoje?

— Ainda não sei. Augusto ficou de me apanhar à noite para irmos a algum lugar. E você, o que vai fazer?

— Ainda não sei. Roberto viajou a Bahia. Vai fazer aquele estágio de que lhe falei.

— Ele conseguiu o primeiro lugar?

— Sim, primeiro lugar.

— É um rapaz muito inteligente... Quer dizer que você está sozinha?

— Por duas semanas inteiras.

— E você o deixou ir sozinho?

— O que você queria que eu fizesse? Não posso deixar meu emprego assim sem mais nem menos. Você sabe muito bem como são esses trabalhos de secretária. Todos os dias aparece uma nova bomba para você resolver. E depois, foi tudo tão rápido. Não havia condições de conseguir uma substituta para o meu lugar.

— Uma viagem à Bahia não é coisa que se despreze.

— Também acho.

— O que vamos fazer à tarde?

— Que tal se a gente fizesse algumas mudanças nesse apartamento. Já estou cansada de vê-lo assim. Nós poderíamos fazer umas almofadas novas para os sofás, você poderia pintar alguma coisa para enfeitarmos a sala, o que acha?

— Boa idéia. Vamos começar já. Antes de mais nada, você vai lavar a louça do café.

Depois, antes que você saia para o trabalho e eu também, vamos fazer uma relação de coisas que poderemos comprar, certo?

— Certo. Você não poderia convidar o Augusto para nos ajudar com os moveis?

— Sim, vou fazer isso. Ao meio-dia, quando sair do escritório, passo pela faculdade para apanhá-lo, esta bem? Já que não temos expediente à tarde vamos tomar um lanche rápido e fazer compras. Mas primeiro a louça, mocinha. — finalizou Sandra, retirando-se sorridente e faceira para seu quarto.

***

Renato terminou de calçar o tênis surrado, acendeu um cigarro e saiu, fechando a porta silenciosamente. Desceu a escada e dirigiu-se à cozinha. Os outros inquilinos já estavam lá.

Todos pararam de comer para olhá-lo com curiosidade. Suas roupas espalhafatosas, sua bolsa toda cheia de penduricalhos e seus modos destoavam completamente dos modos das outras pessoas que estavam ali reunidas.

D. Rosa a proprietária daquela pequena pensão familiar, surgiu à porta com um bule de leite fumegante.

— Pode sentar-se ali, Renato — disse ela, apontando-lhe um lugar.

O jovem sentou-se um tanto constrangido. Morava ali há pouco tempo. Vinha de uma das muitas cidades que circulavam a grande Londrina. Era órfão e tivera na sua juventude, alguns problemas com a lei. Estava tentando conseguir um emprego que se coadunasse com seu temperamento e enquanto não o conseguia, vivia de pequenas peças de artesanatos.

Os jovens que o acompanhavam à mesa eram, na maioria, estudantes, bancários e funcionários de loja. Ao todo eram doze pessoas. Renato era a décima-terceira à mesa.

Silenciosamente o rapaz começou a comer. Um jovem a sua frente olhou ao seu redor, contando mentalmente.

— Ei, sabem o que descobri?

— Ai vem o Jorge com suas brincadeiras de novo — resmungou um outro.

— Desta vez é sério. Descobri que somos treze agora na mesa. Isso dá azar, sabiam?

— Que azar, que nada — disse um bancário.

— A história registra inúmeros casos que comprovam a veracidade desta superstição —

observou um estudante, sem levantar a cabeça.

— Será? Bobagem — afirmou outro.

— Bobagem coisa nenhuma — voltou a dizer Jorge. — Parece-me que o rapaz que chegou agora é que é o azarado.

— Tem um provérbio que diz: "quem acredita que uma ferradura dá sorte, tem a mentalidade suficiente para usá-la no pé" — disse ele, agressivamente.

Alguns riram nervosamente, outros gargalharam. Jorge corou até a raiz dos cabelos. Suas mãos tremeram ligeiramente quando levou a xícara aos lábios. O tom de voz de Renato, que ainda continuava de cabeça baixa, a precisão com que suas palavras atingiram o alvo fizeram com que Jorge esboçasse uma ligeira risada que não chegou a se concretizar.

— Parece que o Jorge levou o dele direitinho, não acham vocês? — falou um dos rapazes.

— Ei, Jorge. Você acredita em ferraduras? — perguntou outro, rindo.

— Está bem , está bem, foi tudo uma brincadeira, desculpem-me — finalizou Jorge, levantando-se.

Renato terminou seu café e já ia sair. Estava quase à porta quando lhe trocaram o ombro.

— Gostei do jeito como você derrubou o Jorge. A gente andava saturado das brincadeiras dele. Meu nome é José Luiz. Se você precisar de alguma coisa, pode contar comigo.

— Eu não fiz aquilo por mal, acontece que não gosto que me menosprezem — respondeu Renato.

— Você fez bem. Vai para algum lugar?

— Sim, acho que vou até o centro.

— Quer uma carona? Estou de carro — ofereceu o outro.

— Ótimo, vou aceitar.

***

Kátia, como era conhecida a garota, desceu do ônibus e ficou na calçada, sem saber para que lado ir. Fazia parte de um grupo de jovem que estava acampado às margens do Lago Igapó. Pretendiam seguir viagem para o sul, montar uma pequena comunidade de jovens.

Passou a mão pelos longos cabelos e interpelou um transeunte!

— Ei, moço. Pode me informar onde tem uma loja de tecidos por aqui?

— Loja de tecidos? Creio que seguindo em frente umas duas quadras, você vai encontrar diversas lojas.

— Obrigada! — respondeu ela, sorrindo agradavelmente.

Era jovem, pouco mais de dezoito anos, cabelos louros e longos até quase a cintura e olhos verdes e profundos. Seu sorriso deixava à mostra uma fileira de dentes alvos e perfeitos. Duas covinhas se formavam nas maças do rosto quando sorria.

— Não deseja mais nada, beleza? — perguntou o rapaz ainda parado a sua frente.

— Sim, recomendações à mamãezinha — disse ela, afastando-se.

Caminhou algumas quadras e parou em frente da loja. Os balconistas a fitaram curiosos.

Ela vestia uma calça de brim toda manchada e uma túnica branca cheia de desenhos.

Ela entrou resoluta e perguntou ao primeiro balconista que a atendeu:

— Posso ver as cores do brim e da mescla que você tem por aí?

— Brim e mescla? Acompanhe-me, por favor.

Pouco depois ela estava às voltas com uma verdadeira montanha de peças de tecidos, olhando um por um, indecisa.

— Posso saber para que você deseja o tecido?

— Para fazer bolsas. Nosso grupo resolveu transar agora de bolsas, sabe?

— Bolsas? E dá para fazer bolsas de tecidos assim?

— Moço, dá para fazer qualquer coisa com qualquer material. O negocio é ter a cuca livre para botar o que se fazer. Depois, é só botar a criatividade para fora e pronto.

O rapaz ficou sem resposta, mas apontou alguns dos tecidos, mostrando a ela a durabilidade, a espessura e tudo mais.

Ao final, a moça resolveu-se por alguns e mandou cortar alguns metros. Quando saiu da loja, percebeu um rapaz olhando simpaticamente para ela. Pelas roupas e pela aparência podia-se dizer que pertenciam ao mesmo grupo, mas ela não o reconheceu. Olhou-o também e notou nos olhos dele uma tristeza profunda. O rapaz sorriu levemente e se afastou. Kátia ficou sem saber o que fazer. Havia nele alguma coisa que se identificava com ela, embora não pudesse reconhecer no momento. Decidiu-se. Caminhou atrás dele até alcança-lo.

Renato assustou-se ao vê-lo ao seu lado, mas não disse nada. Ela tomou a iniciativa.

— Ei, não o conheço de algum lugar?

— De onde você é? — perguntou ele, continuando a andar.

— Sou do Rio, carioca...

— Então não nos conhecemos. Sempre morei por estas bandas daqui.

— O que faz?

— Eu? Eu tento sobreviver. Não é isso que todos fazem? — perguntou ele, após parar de andar e encará-la.

— Certo, certo. E agora, o que você vai fazer?

— Estou andando por aí, só isso. Preciso arrumar um trabalho...

— Está desempregado? Mas você não tem aparência de que... Bem, quero dizer, você não tem aquela aparência convencional de um funcionário qualquer.

— Por enquanto sou o que eles chamam de hippie.

— Ei, legal. Você não quer transar com a gente?

— Com a gente? Quem é essa gente?

— Somos um grupo de jovens, estamos acampados às margens daquele lago lá no outro lado da cidade, sabe onde é?

— Sim, eu sei. E vivem de quê?

— Somos livres, livres de horários, de compromissos, de regras.

— E vivem de quê?

— Artesanato. Nossa turma faz uma montanha de coisas. Você precisa ver. Não quer ir até lá?

— Eu também estou transando essa de artesanato, mas só por enquanto. Quando conseguir um bom emprego vou largar tudo isso.

— O que você sabe fazer?

— Tudo. Com um monte de ferro-velho eu construo o que você pedir.

— Escute, venha comigo. Vamos até aquele barzinho ali, conversar. A gente parece ter muita coisa em comum.

— E o que vamos conversar?

— A gente descobre, venha comigo — disse ela, tomando-o pela mão e arrastando-o até o barzinho.

CAPÍTULO 2

Reni saiu do prédio e acenou alegremente para os acupantes do carro parado ao portão.

Aproximou-se sorridente. Sandra e Augusto a aguardavam.

— Puxa, ainda bem que você conseguiu um precioso auxiliar para nós — disse ela, em tom de brincadeira à amiga.

— Não foi difícil convencê-lo, Reni. Sabe, tenho meus métodos pessoais — respondeu Sandra, beijando o namorado carinhosamente no rosto.

Reni entrou no carro, ocupando o banco traseiro. Sandra e Augusto viraram-se para trás para perguntar:

— Onde vamos primeiro?

— Primeiro à aquela loja de tecidos... Não, primeiro vamos comer alguma coisa. Que tal uma pizza lá no Shopping Center?

— Legal, Augusto. Vamos lá. Poderemos dar uma olhadinha naquelas lojas. Talvez a gente encontre alguma coisa interessante para o nosso apartamento.

— Isso é que eu chamo de verdadeira mudança — falou o rapaz rindo, enquanto punha o carro em movimento.

Pouco depois ocupavam uma das mesas de um restaurante junto ao famoso centro de compras. O garçom veio atendê-los. Pediram aperitivos, vinho e uma pizza.

— Acham que terminaremos tudo isso ainda hoje? — indagou Augusto, assim que o garçom se afastou.

— Depende de como trabalharmos. Primeiro vamos mudar todos os móveis de lugar.

Depois vamos cuidar dos enfeites. Temos que comprar uma porção de coisas.

— Que tal se a gente fizesse uma festinha para reinaugurar o apartamento — propôs Augusto.

— Festinha? Sabe que não é má idéia, querido — concordou sua namorada. O que você acha, Reni?

— Fazer uma festinha hoje?

— Não precisa ser hoje — disse o rapaz.

— Uma festinha... Não sei se daria pé...

— Não sei porque você está indecisa, Reni.

— Diga então, Sandra.

— Você não gostou da idéia porque Roberto está viajando...

— Isso não vai ser problema. Posso convidar uma porção de amigos que se encarregarão de substituir Roberto — propôs Augusto.

— Roberto é insubstituível para mim — respondeu ela, pomposa.

O casal de amigos riu divertido de seu tom de voz. O garçom trouxe o pedido. Conversaram mais algum tempo enquanto comiam e depois que terminaram, Augusto indagou:

— Muito bem. Já estamos bem alimentados e até um pouco zonzos pelo vinho. O que vamos fazer agora?

— Ali na frente tem uma loja de posters, querido. Vamos até lá. O que você acha da idéia, Reni. Alguns posters bem loucos para enfeitar a sala?

— Eu ainda prefiro que você pinte um daqueles quadros sem estilo, como só você sabe pintar.

— Em todo caso, vamos ver os posters e depois decidiremos. Não estou com disposição para pintar.

— Antes que eu me esqueça — interrompeu-as Augusto — Vocês tem algum programa para amanhã à tarde?

— Não, ainda não temos nada programado — respondeu a namorada.

— Tenho um amigo que tem uma lancha e me convidou para usá-la amanhã. Poderíamos até esquiar lá no lago. O que acham?

— Acho excitante, mas não sei esquiar — disse Reni.

— Nós a ensinaremos.

— E o apartamento? Será que terminaremos hoje?

— Se não terminarmos hoje, o faremos amanhã cedo.

— Está bem, eu topo.

— Ótimo — disse o rapaz — Agora vamos ver essa tal loja de posters e depois cuidar das outras coisas. E a idéia da festinha não fica de todo afastada. Podemos fazê-la amanhã à noite.

— Depois pensaremos nisso, querido — disse Sandra.

***

— É isso aí, rapaz — disse Kátia.

— Deixe eu lhe contar uma coisa. Eu já tive uns probleminhas com a justiça. Essa estória de comunidade de jovens não me cheira bem. Mais uma complicação e eu estarei liquidado.

— Mas que grilo é esse? Nosso negócio é sério e honesto. Não fazemos coisas erradas, não.

— E seus pais? O que eles pensam de tudo isso? E os pais dos outros? Fugir da sociedade como vocês estão fazendo não é uma coisa acertada.

— Será que me enganei com você? Suas roupas, seus cabelos, essa bolsa legal que você carrega, tudo isso me deu uma imagem falsa de você. Acho-o muito encucado. O que você pensa parece indicar que algo está errado com você.

— Nada está errado comigo. Não tenho culpa se você se enganou comigo. Uso isso e sou do jeito que sou porque gosto. Não vejo nada demais. Meu negócio é conseguir um emprego firme e viver uma vidinha burguesa, mas sossegada.

Kátia tomou mais um gole do refrigerante, olhando pensativa os círculos deixados pela garrafa na toalha da mesa. Apanhou seus pacotes e se levantou, decepcionada. Ia sair, quando ele a segurou pela mão.

— Olhe, não me leve a mal. Você é uma garota muito bonita e legal, mas eu estou numa outra.

— Em todo caso, fica o convite. Aparece lá no acampamento para conhecer o resto do nosso pessoal. Você vai ver que eles não são o que você está pensando.

— Mas eu não pensei nada de mal — disse ele, pagando a conta e saindo atrás dela.

A principio ela caminhou apressada, demonstrando irritação, sem dar atenção a ele que a seguia. Depois, as duas covinhas se formaram em seu rosto e ela sorriu, diminuindo o passo.

ele a alcançou. Olharam-se sem jeito.

— Olhe, vamos começar tudo de novo, está bem?

— Como você quiser — sorriu ela.

Ele achou engraçado as duas covinhas e sorriu também, colocando o indicador de uma das mãos numa delas.

— Essas covinhas são sensacionais, gosto delas.

— E de mim também, não é?

— Sim, apesar de pensarmos um pouco diferente ainda.

— Escute, o que você vai fazer agora?

— Estou procurando uns materiais que preciso comprar para terminar umas encomendas que tenho. Couro, arrebites, fivelas...

— Nós temos isso lá no acampamento. Por que não vem comigo?

— Fica para outra vez. Tenho que terminar essas coisas ainda hoje porque estou a zero, sem dinheiro nenhum.

— Se você quiser, posso lhe emprestar algum.

— Não, não é preciso.

— Então como vai comprar os materiais que precisa?

— Não, para isso eu tenho dinheiro.

— Gostaria de ajudá-lo...

— Seja minha amiga, só isso já basta.

Ela sorriu novamente, jogando a cabeça para tirar os cabelos dos olhos.

— Você gosta de rock? — perguntou ele.

— Sim, adoro.

— Ali na frente tem uma loja de discos. A gente pode ir lá, fingir que vai comprar alguma coisa e pedir para que eles toquem uma porção de discos. Que acha?

— Uma boa idéia. Você tem um cigarro.

— Sim, tenho — respondeu ele, acendendo um para ela.

Depois ele a segurou gentilmente pelo braço e caminharam ao longo da calçada, em direção à loja de discos.

***

O dia chegava ao fim. Os três jovens, jaziam prostrados sobre o tapete da sala, suados e cansados. Reni passou a mão pelos cabelos e pela testa.

— Estou morta de cansaço, louca de vontade de tomar um banho quente.

— Não vamos terminar de colocar os posters? — perguntou Augusto.

— Vamos descansar um pouco, querido — resmungou Sandra.

— E vocês mulheres ainda falam em movimento de emancipação. São tão frágeis —

observou o rapaz.

— Ei, o que você tem contra as mulheres — esbravejou Reni.

— Nada, nada, sou até a favor — desculpou-se.

— Deixe disso. O momento é de união. Vamos terminar de colocar esses benditos posters.

Depois vamos tomar um banho muito quente para relaxar. O que fazemos à noite, Augusto?

— Vai haver um show no restaurante Barracão. Reservei mesa para nós.

— Você vem com a gente, Reni? — perguntou Sandra à amiga.

— Não, prefiro não ir. Acho que estou muito cansada para fazer qualquer coisa. Talvez eu aproveite a noite para fazer aquelas almofadas que disse.

— Não me diga que vai ficar entocada só porque o namorado foi viajar?

— Nada disso, Sandra. É que estou mesmo muito cansada para fazer qualquer coisa. E

depois, o que a gente vai fazer num programa? Segurar vela para os amigos?

— De modo algum, Reni — interrompeu-a o rapaz — Vai ser um prazer para nós desfrutar de sua companhia.

— Deixe de agrados, Augusto. Eu sei que só atrapalharia. Não insistam por favor.

— Vai ficar na fossa? — indagou Sandra.

— Não, não vejo motivos para ficar na fossa. Acho que vou dormir mais cedo. Dormir e sonhar...

Um arrepio passou pelo corpo da moça. As imagens do sonho voltaram vivas a sua mente.

Sua testa se franziu numa ruga de preocupação. Seu rosto se tornou absorto e ela se indagou o porquê daquele sonho sempre igual. Que relação tinha ele com sua vida? O que tudo aquilo queria dizer?

— Acho que ela tem razão, Augusto.

— Está bem, querida. Mas amanhã ela vem com a gente esquiar, não vem?

— Sim, eu irei esquiar, não se preocupem. Hoje à noite não me sinto realmente disposta para nada.

— Precisamos programar também a nossa festinha de reinauguração do apartamento, não é Reni? — indagou Sandra.

— Sim, amanhã iremos ao supermercado e providenciaremos tudo. Pena que só tenhamos decidido isso hoje. Eu poderia ter convido alguns amigos lá da faculdade.

— Telefone para eles hoje a noite, já que não vai sair.

— É, talvez eu faça isso. Agora vamos terminar de colocar esses posters. Preciso de um banho urgentemente.

— Vocês duas acham que podem dar conta desse serviço? Preciso ir para casa tomar um banho também e me trocar.

— Está vendo? Essa é uma das vantagens do casamento — pilheriou Reni — As pessoas não precisam tomar banhos separadas.

— Não seja sem graça — repreendeu-a Sandra.

Reni retirou-se para seu quarto para apanhar os posters que seriam colocados, deixando na sala seus amigos. Ainda não havia examinado os desenhos, porque Sandra os havia escolhido enquanto ela adquiria cortinas novas numa loja vizinha. Os posters estavam acondicionados em plástico sobre a cama. Ela foi retirando um por um e examinando-os. Eram cinco e no último, ao desenrolá-lo, teve um sobressalto. A imagem reproduzida era a mesma que desde há algum tempo vinha povoando seus sonhos. Sobre a areia de uma praia deserta, uma garota solitária parecia contemplar o mar, com olhos perdidos. Aquela figura sentada na areia identificou-se imediatamente com aquela que vinha constantemente à mente nos últimos dias.

Recuou alguns passos boquiaberta. Sua testa franziu-se intrigada. Com o posters à mão foi até a sala e perguntou à Sandra.

— Este pôster, por que comprou esse pôster?

— Achei bonito, o que tem demais? — respondeu a amiga.

— Mas isso não é possível — exclamou Reni.

— Por que não é possível? — quis saber Augusto.

— O que há de errado com esse pôster, Reni? — indagou Sandra.

A moça passou a mão pelos cabelos, visivelmente desconcertada.

— Eu... Eu não sei... Acho que foi uma bobagem minha — balbuciou.

Sandra se aproximou e segurou-a pela mão.

— Você está fria, menina. Fria e pálida. O que houve de errado.

— Pode parecer incrível, não sei como explicar, mas essa paisagem no pôster, essa garota, a roupa que ela usa, eu já conhecia tudo isso...

— Conhecia? Conhecia como? — perguntou Augusto aproximando-se.

— Sei lá tenho sonhado com isso durante todas as noites.

— Sonhado?

— Sim, Augusto. Tenho sonhado com essa mesma cena, noite após noite.

— E como começou tudo isso? Não sabe quando? — perguntou Sandra.

— Não sei... Na verdade nem me dei ao trabalho de pensar nisso.

— Faça esforço deve haver alguma explicação lógica para isso, ou então você tem poderes mediúnicos e não sabe disso — insistiu Sandra.

— Não brinque. Deixe-me ver quando começou. Lembro-me que uma noite, após ter sonhado, acordei e fiquei um longo tempo olhando aquele porta-jóias que Roberto me deu.

Ganhei aquilo há mais ou menos um mês...

— Espere ai, acho que já sei — exclamou Sandra.

— Sabe? Então nos explique — pediu-lhe Augusto.

— Quando foi que o Roberto lhe disse que pretendia viajar para a Bahia?

— Quando? Há mais ou menos um mês.

— Você já sonhava com isso quando ele lhe falou em viajar?

— Não, ainda não.

— Está aí. No mínimo, ao tentar convencê-la a viajar com ele, mencionou as praias da Bahia.

— Não, ele só me convidou depois que soube que estava aprovado no concurso...

— Mas não mencionou de modo algum as praias?

— Sim, falou-me sobre isso.

— Pois então. O fato de você saber que ficaria sozinha se ele viajasse lhe provocou esse sonho de que falou.

— Mas, e a semelhança com o posters?

— Simples coincidência. Essas coisas acontecem...

— Muito bem explicado, Sandra — elogiou-a Augusto.

— Talvez você tenha razão, Sandra. Vamos pregar esses posters na parede e tomar aquele banho. Isso tudo me deixou mais cansada.

— Sim, vamos terminar isso logo. Se você quiser ir, Augusto, nós duas tomaremos conta de tudo.

— Sim, já vou. Logo passarei por aqui para sairmos. O show só vai começar às dez.

Poderemos ir ao cinema antes, está bem?

— Sim, está bem.

Enquanto os dois se despediam, Reni estendeu o pôster sobre o sofá e continuou olhando-o, intrigada. Havia qualquer coisa de inquietante naquela cena. Pôs as idéias de lado como que acordando e foi providenciar material para fixar os posters na parede.

CAPÍTULO 3

Renato entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, pensativo. Os últimos reflexos do sol poente iluminavam fracamente o aposento cheio de sombras. A um canto, uma pequena cama de solteiro, perto da janela, um guarda roupa velho; ao centro, bem debaixo da lâmpada que pendia do forro, uma velha mesa cheia de badulaques.

O velho casarão, perdido num dos bairros da cidade, fora transformado em pensão por sua dona. Diversos quartos ligados por um amplo corredor, distribuídos num andar superior.

Embaixo ficavam a cozinha, a copa, uma sala de estar e aposentos da proprietária. Renato havia conseguido um lugar ali, graças à compreensão da velha senhora, pois nem precisara pagar um aluguel adiantado, como de costume.

Olhando tudo aquilo que o cercava no quarto Renato lembrou-se de Kátia. Um sorriso esboçou-se em seus lábios, enquanto girava o interruptor e acendia a luz. Apanhou roupas limpas e foi até o banheiro. Estava se penteando quando o chamaram para jantar. Terminou de se pentear e desceu.

Sua presença à mesa parecia ser desagradável para os outros rapazes que o olhavam em silêncio. Quando D. Rosa se aproximou para servir-lhe a sopa, ele indagou:

— O que houve, D. Rosa? Todos parecem muito chateados com a minha presença.

— Não se preocupe, nem se aborreça por isso, Renato. É só uma bobagem...

— Quer dizer que há alguma coisa? De que se trata?

— Não ligue.

— Talvez ele devesse saber, D. Rosa — disse um dos rapazes.

— Sim, também acho — juntou um outro, sem olhar para o rapaz.

— Vamos digam o que houve — insistiu ele, encarando os outros a sua volta.

— Parece que o Jorge tinha razão quanto aquela superstição — disse o mesmo rapaz que lhe havia oferecido uma carona pela manhã.

— Aconteceu alguma coisa com ele? — perguntou Renato, apreensivo.

— Sim, foi atropelado hoje à tarde.

Todos os outros se voltaram para o rapaz que ficou sem reação, terrivelmente embaraçado com o comportamento dos outros.

— Ei, esperem aí. Vocês não crêem realmente que eu tenha alguma coisa a ver com isso...

— Como eu já disse, a História registra inúmeros casos em que esta superstição atuou de modo fulminante — disse o estudante de História.

— Vocês estão sendo infantis. Se ele foi atropelado, não há nada que possa se relacionar com tal coisa.

— Ele disse que você era o azarado — falou o bancário.

— Isso não prova nada. Talvez o azarado fosse ele.

— Acontece que isso só aconteceu agora que você veio morar aqui. E você é a décima-terceira pessoa que se sentou à mesa — continuou o estudante.

— Vocês todos estão de miolo mole — disse Renato, continuando a comer. Durante todo o jantar, no entanto olhares rancorosos e assustados o olharam de solaio, culpando-o de algo que ele não havia feito. Sentiu-se mal com tudo aquilo. Assim que terminou seu café ao final da refeição, saiu à varanda para fumar. Quando D. Rosa se aproximou dele.

O rapaz virou-se um pouco para olhá-la, percebendo que a velha senhora se sentia muito constrangida e parecia ter alguma coisa a dizer-lhe.

— Sabe, Renato. Eu não acredito em nada disso que os rapazes inventaram, mas preciso desse negócio para viver. Sou sozinha e sem meus inquilinos eu estaria na miséria, você sabe disso.

— Onde a senhora quer chegar, D. Rosa? Parece ter alguma coisa importante para me dizer.

— Não foi minha idéia. Eles insistiram e, talvez tenham razão, não sei. Sei que me pediram para... me pediram para...

— Para me mandar embora, não é?

— Sim, me pediram para mandá-lo embora.

— E a senhora vai me mandar embora.

— Como eu já disse, preciso de meus inquilinos para sobreviver. É difícil para mim, mas tenho que fazer isso. É você ou eles, espero que me entenda.

— Sim, eu a entendo, D. Rosa. Não se preocupe comigo. Amanhã mesmo irei embora.

— Espero que você não me leve a mal por ter que fazer isso.

— E eu espero que a senhora entenda minha situação. Estou aqui há dois dias ainda não consegui um trabalho, não sei quando poderei pagá-la. Tenho algum dinheiro, mas vou precisar realmente dele para continuar meu negócio.

— Quanto a isso, não se preocupe. Você não precisará me pagar por isso.

— Eu faço questão de pagar, D. Rosa.

— Mas eu insisto em não receber.

— Está bem, tenho que aceitar porque preciso disso. Assim que eu arrumar outro lugar para ficar, eu virei aqui lhe dar meu endereço, para o caso de alguém me procurar para comprar alguma coisa.

— Está bem. Espero que você não fique zangado comigo e me desculpe, mas sou obrigada a fazer isso.

— Está bem, D. Rosa. Não ligue para isso. Esqueça — disse ele, voltando a fumar.

A noite descera quente com o asfalto guardando muito calor do dia. O céu estava limpo e naquela noite haveria lua cheia. Renato fitou as flores do jardim logo ao pé da escada e depois desviou os olhos para a rua, cheio de pensamentos.

Precisava arrumar outro lugar para morar. Talvez não fosse difícil, mas teria que perder mais tempo procurando. E se encontrasse? O que faria na noite seguinte? Dormiria num banco de jardim? Teria de desistir de todos seus planos de conseguir um bom emprego e se firmar na vida, voltando para sua cidadezinha calma, sem oportunidades de empregos ou de sucesso?

De repente, lembrou-se de Kátia, da proposta que ela havia feito. Talvez aquilo fosse a solução para ele. Poderia procurá-la, conseguir um lugar em seu grupo. Pelo menos teria onde ficar algum tempo, até que acertasse um lugar para morar. Um pouco mais animado, levantou-se e subiu rapidamente para seu quarto, a fim de arrumar suas coisas.

***

— Denise, você avisa seus irmãos para virem também — disse Reni ao telefone, deitando-se no sofá e levantando as pernas até encostar os pés na parede.

— Mas vocês já terminaram toda a reforma? — indagou a outra.

— Não foi bem uma reforma. Não pintamos nada, apenas mudamos os móveis de lugar e enfeitamos um pouco o ambiente. A festinha foi idéia do Augusto e nós achamos uma boa maneira de fugir à rotina. E então, vocês virão?

— Claro que iremos. Vou levar meu namorado também. E então, vai ter música.

— Música? Puxa, tinha me esquecido disso. Nosso gravador está no concerto.

— Se você quiser eu levo minha vitrola...

— Sim, é uma ótima idéia. Eu tenho uma porção de discos aqui. Puxa vida, como pude me esquecer disso?

— Não se preocupe, eu providencio isso para você.

— E se encontrar mais alguém conhecido pode convidar também. Tchau. Tenho que telefonar para uma porção de gente ainda...

— Está bem. Tchau. Amanhã estaremos aí.

Reni desligou o aparelho e ficou algum tempo pensativa tentando se recordar de mais algum colega que pudesse convidar para a festa. Havia feito diversas ligações já. Como não se lembrasse de mais alguém, levantou-se e foi até seu quarto apanhar os materiais que estava utilizando para fazer as almofadas.

Ao fazer isso, deparou com a fotografia sorridente de Roberto sobre a cômoda de seu quarto. Dirigiu-se vagarosamente até ela e apanhou-a. Sentiu-se estranha, desligada, como se aquele rosto não tivesse significado nenhum para ela. Intrigada, sentou-se na cama e ficou olhando para a foto, tentando recordar os beijos que havia trocado, as palavras carinhosas que ele havia dito na despedida, a própria voz dele, mas irritou-se consigo mesma por não sentir emoção nenhuma naquilo tudo.

Cada vez mais intrigada, devolveu a fotografia ao seu lugar e foi para a sala, levando os materiais. Sentou-se e ao olhar a parede a sua frente, o pôster da garota que lhe vinha nos sonhos a fez pensar mais uma vez em Roberto. Analisando-se, descobriu que não sentia saudades, que havia alguma coisa, pulando dentro dela de modo desconhecido para ela. Isso a deixou ansiosa e preocupada.

Ligou o televisor e alegrou-se. Um velho filme de bang-bang com Grary Cooper estava sendo exibido. Ela gostava daquele gênero de filmes e se divertia muito quando assistia um.

Aquilo a ajudaria a esquecer-se das preocupações e sensações estranhas que lhe vinham ocorrendo.

Estava concentrada em seu trabalho, quando o telefone tocou. Era Denise, sua amiga.

— Reni, falei com meu irmão sobre a sua festa e ele me deu uma idéia fora de série para movimentá-la ainda mais.

— E qual é essa maravilhosa idéia?

— Ele me disse que hoje, quando passou pelo Igapó, viu um bando de hippies que está acampando lá. Parece que eles têm um pequeno conjunto, tudo na base do som primitivo, tambores, violão, flauta, essa coisa toda que eles costumam tocar. Meu irmão me disse que eles tocam muito bem. O que você acha de convidá-los para tocar em sua festa?

— Um bando de hippies? Será que eles não causaram problemas? Sabe como é essa gente...

— Não, não tem disso não. Com eles é tudo na base da paz e do amor. Meu irmão conversou com eles e disse que eles são muito batutas, gente séria.

— Mesmo assim tenho medo que eles possam causar qualquer problema.

— Eles não vão causar, não. Tenho certeza.

— Está bem. Vou falar hoje à noite com a Sandra, se ela não ver nenhum problema, poderemos convidá-los. Será que eles não cobrarão caro?

— Talvez toquem em troca de comida. Se cobrarem, vai ser pouca coisa, creio eu. Em todo caso, acho sensacional tentar. Já pensou no efeito que isso causaria? Seria surper diferente, não acha?

— É, você não deixa de ter razão. Vou falar com a Sandra. Decidiremos o que fazer.

Obrigada por me avisar.

— Está bem. E você como vai? Saudades do Roberto?

Reno pensou um pouco antes de responder.

— Sim... claro que sim — mentiu ela.

Kátia saltou do ônibus carregada de pacotes e desceu um pequeno declive.

Já era noite e a lua, surgindo do outro lado do mundo, prateava as águas imóveis do lago.

Um pouco mais à tarde, às margens do lago uma fogueira acesa traçava o contorno de diversas barracas. Era o acampamento dos jovens amigos da garota.

Assim que chegou, foi saldada por um rapaz alto e forte.

— Oi, Kátia. Demorou-se. O que houve, menina?

— Aconteceu um negócio legal, Zico — disse ela, passando os pacotes para o rapaz. —

Conheci um cara lá na cidade, passamos a tarde toda curtindo um som numa loja de discos.

Um negócio sensacional.

— E esse cara, quem era ele?

— Meio hippie como a gente, muito bonzinho, mas um pouco encucado. Transa artesanato como nós, mas está na pior. Convidei-o para vir visitar a gente aqui, mas ele recusou — disse ela, caminhando para o centro das barracas, onde os jovens estavam reunidos.

— Ei, Kátia, trouxe o que pedi? — perguntou um deles.

— Aqui está — respondeu ela, atirando-lhe o pacote

Enquanto cumprimentava todos eles, ia distribuindo os pacotes com as coisas que os outros haviam pedido que ela comprasse. Quando terminou de fazer isso, apanhou um prato numa pilha perto da fogueira e serviu-se em algumas panelas colocadas sobre o fogo.

Enquanto comia, ia contando as coisas que fizera na cidade. A todo instante falava de Renato e de como sua companhia havia sido agradável para ela.

— Ei, Zico, você precisa tomar cuidado com sua irmã — brincou um dos rapazes. — Da próxima vez ela volta casada para cá.

Zico se aproximou da irmã e abraçou-a, dizendo:

— Essa garota é muito ajuizada, não se preocupem. — E em voz baixa, disse a irmã: —

Recebi carta de casa, não quer saber das últimas?

— Carta de casa? — indagou ela, surpresa parando de comer. — Quem trouxe?

— O Miguel veio do Rio hoje para se juntar com a gente e a trouxe. Quer ler?

— Prefiro não ler. O que ela diz, resuma para mim.

— E aquela velha estória de sempre. Primeiro papai nos diz uma porção de bobagens e depois pede todo cheio de dengo, que voltemos, que precisamos continuar a faculdade, essa coisa toda.

— Papai não tem jeito. O que você vai responder a ele?

— O que sempre temos respondido, que precisamos fazer isso, que não podemos continuar aceitando tudo aquilo que eles nos impõem, que tudo é para nós uma questão de auto-afirmação. No dia em que nos encontrarmos realmente, voltaremos e seremos como ele quer.

— E acrescente dizendo que ele pare de nos mandar dinheiro, que nós não precisamos realmente. Quanto ele mandou desta vez?

— Um cheque de cinco mil cruzeiros. Mando de volta com a carta?

— Não — disse ela, após pensar um pouco. — Guardo junto com os outros.

— Como você quiser. Algum recado para mamãe?

— Não, o que temos nós para dizer a ela?

— Você tem razão, nada.

— O que vamos fazer hoje à noite?

— A turma está pensando em ensaiar umas músicas novas. Eu compus um rock novo hoje, está fabuloso.

— Agora à tarde?

— Sim, enquanto você estava fora.

— Quero ouvi-lo — disse ela, colocando o prato de lado, apanhando um pequeno tambor das mãos de um rapaz próximo deles. — Ei, turma. Vamos ensaiar o novo rock do maninho aqui.

— Legal — responderam todos eles em coro.

Num instante instrumentos musicais surgiram nas mãos dos jovens. Zico deu uma noção de como seria o acompanhamento e começou a cantar. Sua voz rouca ganhou a noite, acompanhada por todos, num ritmo alegre e despreocupado.

CAPÍTULO 4

Renato ajeitou a correia da mochila no ombro e limpou o suor que lhe escorria pela testa.

Apesar de ainda ser manhã, o esforço de carregar suas coisas o estava cansando. Parou à beira do lago e estendeu-se sobre o gramado, fitando o céu por entre as folhas de uma árvore perto dele.

Estava procurando o acampamento de Kátia mas não sabia ao certo onde ele ficava. Já havia caminhado bastante, examinando as margens do grande lago que se estendia por alguns quilômetros. Deixou suas coisas sob a árvore e desceu até as águas, onde molhou o rosto e os cabelos. Alguns banhistas já nadavam e uma lancha percorria o lago em grande velocidade.

Voltou, apanhou suas coisas e seguiu em frente. Pouco depois logo adiante de onde estava, pode vislumbrar uma série de barracas. havia ali um ajuntamento de jovens e algumas crianças em trajes de banho. Os jovens estavam tocando e o som era agradável. Aproximou-se vagarosamente, procurando encontrar Kátia. Esta, ao sair de uma barraca, o viu e gritou, correndo onde ele estava.

— Ei, Renato estou aqui.

Ele a viu se aproximar, os longos cabelos esvoaçando, um sorriso quase infantil nos lábios finos e delicados. Para surpresa dele, ela o abraçou e o beijou cheia de alegria.

— Por que isso? — indagou ele, espantado.

— O que foi, não gostou? Estou saudando sua chegada. O que há de mal nisso?

— Bem, desculpe-me. É que não estou acostumado a isso.

— Se ficar com a gente, vai se acostumar. E então, veio a passeio?

O rapaz pensou um pouco antes de responder.

— Vocês têm lugar para mim?

— Verdade? Veio para ficar? — perguntou ela, segurando-o pelo braço e obrigando-o a olhá-la.

— Verdade, fui mandado embora de onde estava.

— Mandaram você embora? Por quê? Não pagou o aluguel?

— Se eu contar você não vai acreditar.

— Então me conte — pediu ela.

Ele a pôs a par dos acontecimentos que terminaram com sua expulsão da casa de D. Rosa.

Quando terminou, Kátia caiu na gargalhada.

— Verdade que isso aconteceu com você? Não brinque, rapaz.

— Não estou brincando. Você já pensou bem quanta gente tem a cabeça fora do lugar?

com isso, para não estragar a freguesia, D. Rosa pediu que eu saísse. Eu não sabia para onde ir até me lembrar de seu convite.

— Fez muito bem. Venha, vou apresentá-lo ao resto do pessoal.

Segurando-o pela cintura, Kátia o levou até os outros, apresentando-o. Os rapazes e garotas pararam de tocar, saudando-o com cordialidade. Zico se aproximou do par, carregando algumas achas de lenha.

— Esse cara forte e bonito aí é meu irmão — disse ela.

Zico o cumprimentou com certa reserva, indagando:

— Quem é ele, mana?

— É o Renato, aquele de quem lhe falei ontem.

— Ah, sei! — disse ele, abrindo-se num sorriso e abraçando Renato.

— Ele quer ficar com a gente — falou Kátia, dirigindo-se a todos.

— Tem barraca? — perguntou um rapaz.

— Não, não tenho — respondeu Renato.

— Então como é que faz?

— Ele fica com a gente, não é Zico? — propôs Kátia.

— Em nossa barraca? Sim, talvez dê, se ele não se incomodar em dormir um pouco apertado.

— Esperem aí, se vou causar algum problema...

— Não, nada disso, rapaz. Você vai ficar com a gente sim — finalizou Kátia. — Venha conhecer nossa barraca.

Cativado por tanta atenção, o rapaz se deixou levar pela garota até uma das barracas. Lá dentro, duas esteiras, uma em cada canto do pequeno abrigo, uma mesinha e duas mochilas.

Renato examinou tudo com curiosidade, antes de indagar:

— Vai me dizer que vamos dormir os três juntos aqui dentro?

— E o que tem de errado nisso? Não se preocupe, eu não durmo nua — disse ela, sorridente.

— Mesmo assim, o que os outros vão dizer da gente aqui dentro...

— A gente vê bem que você está por fora de tudo isso. O principio básico que mantém esse nosso grupo unido é a confiança. Todos têm confiança em todos. A segunda regra é que cada um é dono de si mesmo, portanto, responsável por seus atos. Aqui a gente não tem também que seguir regras tolas e inúteis. Além disso, você não está pensando nada a meu respeito, está? — perguntou ela, franzindo os lábios e olhando-o marotamente.

Ele sorriu divertido e colocou seu dedo indicador numa das covinhas que se formavam naquelas faces coradas e lindas.

— Você é sensacional. Kátia. Quantos anos tem?

— Eu? Você quer a verdade ou posso mentir?

— Não quero a idade que você diz ao porteiro do cinema quando assiste um filme impróprio.

— Tenho dezenove anos.

— Há muito tempo que está com esse grupo?

— Eu e Zico o formamos há quase um ano.

— Esse tal Zico é seu irmão mesmo?

— Sim, é meu irmão e protetor mesmo. Somos muitos ligados.

— Onde posso deixar minhas coisas, então?

— Deixe aí em qualquer canto. Vou aproveitar o dia e tecer uma esteira para você dormir.

Já dormiu em esteira alguma vez?

— Não, ainda não.

— A gente se acostuma — disse ela, abraçando-o e saindo juntos da barraca, Zico os esperava lá fora.

— Ei, Renato — chamou ele.

— Não se preocupe — sussurrou Kátia aos ouvidos do rapaz — Ele só vai falar de nossas regras.

Aproximaram-se ambos do outro rapaz:

— Kátia talvez lhe tenha falado alguma coisa de como somos aqui, mas há uma coisa que você precisa ficar sabendo. A primeira coisa, nada de álcool ou drogas aqui. Se você transa com essas coisas, é bom nem ficar...

— Não se preocupe, isso não é meu negócio — tranqüilizou-o Renato.

— Muito bem — continuou o outro. — Vivemos daquilo que fazemos. Os materiais são comprados em conjunto, você faz o que souber fazer, vende e o dinheiro recebido é divido entre todos. Com isso compramos roupas, sapatos, comida e mais material para continuarmos. Quando vijamos só andamos de carona ou a pé. Não toleramos brigas nem disputas de qualquer espécie. Se você souber tocar algum instrumento é só se servir. De vez em quando costumamos tocar em bailes ou festas de aniversário, mas isso é muito difícil. Em resumo, paz, amor e todos por todos, está bem para você?

— Sim, para mim está ótimo, mas quero avisar que não pretendo ficar para sempre com vocês. Estou aqui porque não tinha para onde ir. Até eu conseguir um emprego...

— Quanto a isso não se preocupe. Fique o tempo que quiser, mas tudo tem que ser como eu disse.

— É muito justo e honesto. E... será que vocês têm um violão sobrando por aí?

— Violão? Você toca violão?

— Sim, eu sei tocar isso. E de vez em quando componho algumas coisas.

— Não diga, rapaz. Eu também sou compositor. Depois você me mostra o que tem feito que eu mostro algumas de minhas músicas, está bem?

— Está ótimo. Há alguma coisa que eu possa fazer agora?

— Kátia o levará até onde estão os materiais. Apanhe o que quiser e faça o que souber.

Depois de apertar a mão de Zico lhe estendera, Renato se afastou com Kátia. A garota caminhou em silêncio, cabisbaixa e pensativa. O rapaz notou isso.

— Para onde foi aquela sua alegria radiante, Kátia? Você parece triste com alguma coisa, não quer me contar?

— Nada, foi uma coisa que você disse.

— Que eu disse? O que foi?

— Que não pretende ficar com a gente.

— É verdade, eu não iria mentir para vocês. Você já sabe como eu penso, discutimos isso ontem.

— Gostaria que você ficasse conosco.

— Talvez eu fique, talvez vá embora, não sei ainda. Se encontrar um emprego...

— Está bem, não falemos mais nisso, promete?

— Prometo — disse ele, abraçando-a carinhosamente enquanto caminhavam.

***

— O café está delicioso, Sandra — brincou Reni, fazendo uma careta.

— Não venha com gozações. Você sabe que não sei fazer café direito.

Reni segurou a xícara com as duas mãos e ficou balançando-a fazendo seu conteúdo oscilar até as bordas.

— Alguma coisa errada?

— Não, nada. Uma bobagem minha.

— Se não quiser falar sobre isso...

— Desculpe-me, talvez eu devesse falar sobre isso. Ando tão confusa...

— Sonhou de novo com a garota do pôster?

— Sim, sonhei, só que nesta noite o sonho foi um pouco mais além que normalmente.

— Acho que você deveria procurar um psiquiatra ou então escrever para um daqueles programas de rádio. Eles explicarão seus sonhos exatamente. — afirmou Sandra, rindo.

— Não brinque comigo. Acordei com uma sensação estranha... A moça do sonho sentou-se na areia como no pôster, mas pouco depois começou a chorar. E tudo se confundia, era eu que chorava, não a moça. De repente uma sombra de homem se aproximou, mas não pude ver o rosto porque estava contra o sol. Já pensou que coisa maluca?

— É realmente uma coisa bastante estranha, mas me parece que isso não é tudo não é?

— Ontem à noite me aconteceu uma coisa. Ao entrar no quarto e reparar na fotografia de Roberto, não senti emoção nenhuma, saudade nenhuma. Como isso pode acontecer se gosto dele? Por que não sinto a falta dele?

— Menina, você está realmente muito confusa. Isso às vezes acontece, é só o começo.

Nos primeiros dias a gente se sente assim. Quando Augusto viajou para São Paulo, para visitar os pais, eu me senti do mesmo modo. Nos primeiros dias eu me sentia ausente. À

medida que o tempo passava, porém, uma saudade veio me assaltando e quase me matou de tanta tristeza.

— Será que vai acontecer a mesma coisa comigo?

— Aposto que vai. Você ainda vai sentir saudades de Roberto. Mas ande logo, termine seu café que precisamos fazer algumas compras para a festinha de hoje à noite.

— Puxa, é verdade! Eu ia me esquecendo disso. E por falar na festinha, ontem à noite eu falei dom a Denise e ela me deu uma idéia genial. Ela disse que há um grupo de hippies acampados às margens do Igapó, que eles têm um conjunto. Que tal se a gente os convidasse para tocar na festa?

— Quanto eles vão cobrar? Se não for caro, é uma boa idéia.

— Hoje à tarde, quando formos esquiar, poderemos falar com eles, concorda?

— Sim, concordo. Agora vamos fazer aquelas compras.

Após as compras e o almoço, Augusto passou pelo apartamento para levá-las para o Igapó.

Em vão Augusto e Sandra tentaram ensinar Reni a esquiar, mas a todo momento tão logo a lancha se punha em movimento, a garota deslizava alguns metros e depois caia espalhafatosamente.

— Não adianta, tenho que desisti — disse — Acho que não dou para isso.

— Tente controlar os joelhos como eu disse — insistiu Augusto. — Eles são a base de toda brincadeira.

— Tente mais uma vez, Reni. Está tão divertido — pediu Sandra.

— Mas quem está quase se afogando de tanta água que bebeu sou eu. Além disso, meu corpo está todo ardendo de bater contra a água.

— E então, vai tentar mais uma vez? — quis saber Augusto.

— Está bem, mas só mais uma vez. Se não der certo, vou desistir por completo.

— Então não se esqueça de controlar os joelhos — lembrou Augusto.

Desta vez Reni conseguiu se sair bem. havia deslizado algumas centenas de metros, saboreando o vento contra o rosto e a rapidez com que a paisagem às margens do Lago deslizava ante seus olhos, nas vezes em que arriscava a olhar. Num dado momento, vislumbrou algumas barracas nas margens e lembrou-se da proposta de Denise. na certa aqueles eram os hippies de quem a amiga havia falado. Ao voltar o rosto para olhar mais uma vez, desequilibrou-se e foi ao fundo, após chocar seu corpo com a superfície da água.

A pancada a fez ficar atordoada e fraca para se manter à tona. Em vão lutava esperando que Augusto fizesse meia volta com a lancha e voltasse depressa. Este, no entanto, só deu pela sua falta bem à frente, de modo que, quando fizesse a volta, já seria tarde para Reni.

Pensamentos macabros vieram à mente da garota e ela sentiu-se desfalecer. As imagens do sonho desfilaram ante seus olhos e quando ia afundar, sentiu que mãos fortes a agarravam pelos cabelos e a carregavam para a margem. O céu acima rodopiou e ela desfaleceu.

Renato e Kátia estavam às margens do Lago observando os esquiadores, quando viram a queda de Reni. O rapaz ficou de sobreaviso e quando viu que esta não teria condições para se salvar, havia pulado na água e nadando rapidamente até ela. Após tê-la trazido para a margem percebeu que a situação poderia ser perigosa.

— Ela está viva! — perguntou Kátia.

— Ainda respira, mas muito fraco — respondeu o rapaz, olhando ao redor para o grupo de amigos que o cercavam.

— Tenta a respiração artificial — sugeriu Zico.

— Isso mesmo, tente, Renato. Você pode salvá-la.

O rapaz pensou rapidamente e a colocou em posição. Depois colou seus lábios nos dela e ritmicamente executou a operação de soprar. O suor escorria por sua testa e continuou numa aflição muito grande porque seus esforços não pareciam obter resultado. Reni continuava imóvel e só respirava graças a ele.

Sandra e Augusto chegaram correndo, após haverem deixado a lancha amarrada à margem.

— Ela está bem? — perguntou Sandra, desesperada.

— Meu amigo está tentando reanimá-la, não se preocupe — disse-lhe Zico, tentando tranquilizá-la.

— Precisamos levá-la a um hospital. Vou ver se consigo um carro — disse Augusto.

Enquanto isso, Renato, nos intervalos da respiração, enxugava o suor da testa com a manga da camisa e murmurava aflito:

— Não morra, por favor, não morra!

E continuou, até que a garota moveu lentamente a mão; depois suas pálpebras tremeram ligeiramente e sua respiração foi normalizando. Quando Augusto chegou com um motorista de táxi, ela já havia se sentado e parecia bem.

— Puxa vida, Reni. Que susto você nos pregou — disse Sandra.

— É, não foi desta vez — murmurou Reni, um fio de voz.

— Graças a este rapaz — falou Kátia, abraçando-se a Renato.

Reni olhou para ele, agradecida e ao fitar aquele rosto sorridente e banhado de suor, as imagens do sonho vieram-lhe violentamente à lembrança. Ela sorriu antes de estender-se na areia e adormecer placidamente.

CAPÍTULO 5

Um pouco mais tarde, já reanimada, Reni recebia das mãos de Kátia uma xícara de café fumegante. Ela havia sido envolvida por um cobertor e embora tremesse um pouco, sentia-se bem.

— Gostaria muito de agradecer-lhe pelo que fez — disse Reni, olhando Renato agradecida.

— Nem pense nisso. Eu o teria feito se fosse outra pessoa — respondeu o rapaz.

— Realmente, não podemos deixar por isso — insistiu Augusto.

— Talvez exista algo que vocês possam fazer por ele — falou Kátia.

— Sim? O que é? Basta dizer, se estiver ao nosso alcance... — quis saber Augusto.

— Ele está procurando um emprego.

— Um emprego? E o que ele sabe fazer? Não é hippie como vocês.

— Não, ele não é hippie. Está conosco desde esta manhã, mas já morava aqui em Londrina. Pretendia ficar conosco até conseguir um emprego. que tal conseguirem isso para ele. — sugeriu a garota.

Na verdade, fazer aquilo para a garota era tremendamente doloroso. Simpatizara-se com Renato mas doía-lhe saber que ele nunca poderia, realmente fazer parte de seu grupo. Renato tinha outras idéias. Vinha de um outro ambiente, apesar de se vestir a agir como hippie, era, no fundo, um burguês tentando acertar na vida.

— Já morava aqui? Verdade? — perguntou Reni, olhando insistentemente o rapaz.

Renato sentou-se perto dela e, antes de responder, ofereceu-lhe outra xícara de café. Seus modos eram gentis e cuidadosos.

— Sim, é verdade. Venho de uma cidade aqui perto. Estou há algum tempo na cidade tentando arrumar um trabalho, mas está tão difícil.

— Talvez a gente possa dar um jeito nisso, não é, augusto.

— Sim, talvez se a gente falar com alguns conhecidos.

— Hoje à noite, durante a festinha, a gente poderá falar com alguns deles, Reni — lembrou Sandra.

— É verdade. E por falar nisso tem aquele assunto da música.

— isso mesmo. Quem é o chefe de vocês? — perguntou Augusto.

— Sou eu — disse Zico, aproximando-se.

— Soube que vocês Têm um conjunto, é verdade?

— Sim, é verdade.

— Não gostaria de tocar para nós esta noite?

— Vai ser uma festinha?

— Sim, uma pequena festa entre amigos. Ficamos sabendo de vocês e íamos procurá-los para perguntar se aceitavam tocar para nós, isto se não cobrarem muito caro.

— Não, não cobramos caro. Quanto vocês podem pagar?

— Não sei, não tenho a menor idéia de quanto se paga a um conjunto musical.

— Nosso negócio é tocar por diversão, não estipulamos preço. Além da comida e da bebida, aceitamos o que as pessoas nos oferecem. Geralmente são pequenas gorjetas. Na verdade, não temos um preço fixo.

— Poderemos decidir isso durante a festinha, o que acham vocês duas — indagou Augusto.

— Para nós está bem. Poderemos fazer uma "vaquinha" entre a turma que for à festa e daremos a vocês, se concordarem.

— Sim, está bem — concordou Zico — Mas tem um negócio. Nosso som é mais da pesada, rock, blues e músicas nacionais de vanguada.

— É o ideal — aceitou Reni — Vamos deixar nosso endereço. Vocês poderão aparecer aí pelas sete da noite, está bem assim?

— Sim, está ótimo.

— Você irá? — perguntou a garota a Renato.

— Sim, eu irei.

— Não perguntei seu nome ainda.

— Meu nome é Renato e o seu?

— Reni.

— Coincidência, não? Nosso nomes começam pela mesma letra.

— É, realmente — notou ela, apertando com carinho a mão que o rapaz lhe estendia.

Os olhares trocados pelos dois, o aperto de mão. Alguma coisa pairava no ar, tudo isso foi observado por Kátia, cheia de ciúmes. Querendo mostrar sua posse sobre ele, aproximou-se do rapaz e sentou-se ao seu lado, abraçando-o. Reni percebeu a manobra e julgou ser ela a namorada de Renato. Mesmo assim, continuou sorrindo ternamente para ele, sem se importar com a cara fechada de Kátia, que a fitava desafiadora.

— Bem, podemos ir embora agora. Parece que está tudo acertado — disse Augusto.

— Sim, temos que ir. Precisamos preparar tudo para a festinha — concordou Reni.

— Não vamos esquiar? — perguntou Sandra, em tom de brincadeira, mas calando-se imediatamente ao ver o olhar de reprovação que Reni lhe lançou.

— Teremos que atravessar o Lago para pegar o carro? — perguntou a garota.

— Sim, não há outro jeito — respondeu Augusto.

— Vou subir nessa lancha, mas pelo amor de Deus, vá devagar. Já bebi muito água por hoje.

— Está bem — concordou Augusto, rindo.

Pouco depois a lancha se afastava em direção à outra margem. Reni acenava para Kátia, Renato e Zico.

— Parece-me que Renato conseguiu mais do que isso — ironizou Kátia, ainda enciumada.

— Não sei por que você diz isso — falou Renato.

— Vou preparar o pessoal e os instrumentos — disse Zico, afastando-se e deixando-os a sós.

Renato sentou-se e começou a atirar pedrinhas na água, Kátia ficou em pé, ao lado dele, observando-o.

— Você está pensando nela — falou a garota, cheia de ciúmes.

— Não sei de quem você está falando.

— Da Reni, naturalmente. De quem poderia...

— E o que tem de mal pensar nela.

— Você não pode pensar nela — gritou Kátia.

— Não posso? E por que não posso pensar nela.

— Você tem que pensar em mim, entendeu bem? Em mim.

— Kátia, não seja criança.

— Eu não sou criança. Você é meu, entendeu? É meu.

— Ei, espere aí. Quem lhe deu essa idéia?

— Olhe a sua volta, olhe para os rapazes e garotas do grupo. Todos eles têm um companheiro, só eu que não tenho. Agora que você apareceu...

— Agora que eu apareci, você se apossou de mim, não é isso? Acontece que você se esqueceu de dois pequenos detalhes, Kátia. primeiro: não vim para ficar; segundo e último: você não pediu minha opinião nem quis saber se eu concordava em ser seu companheiro ou coisa que o valha.

— Você é meu, muito meu, Renato — soluçou ela, começando a chorar.

O rapaz ficou sem reação, vendo as lágrimas rolarem pelo rosto da jovem. Havia uma frágil infantilidade naquele rosto feminino e delicado. Ele abriu os braços e disse:

— Kátia, por favor, perdoe-me.

Ainda chorando, ela se atirou nos braços dele e beijou-o com violência.

— Acalme-se, Kátia. Por favor, acalme-se — insistiu ele.

— Desculpe-me, Renato — disse ela, afastando-se e enxugando os olhos.