Amazônia: Pescadores contam histórias por Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio - Versão HTML

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Amazônia: Pescadores

contam histórias

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Ministério do Meio Ambiente – MMA

Marina Silva

Secretaria de Coordenação da Amazônia

Muriel Saragoussi

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis Marcus Luiz Barroso Barros

Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil Alberto Carlos Lourenço Pereira

Diretoria de Fauna e Recursos Pesqueiros

Rômulo José Fernandes Barreto Mello

Coordenação Geral de Gestão de Recursos Pesqueiros

José Dias Neto

Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea – ProVárzea/Ibama Coordenador: Mauro Luis Ruffino

Gerente Executivo: Benedito A. Pessoa Reis

Perito: Darren Andrew Evans (DFID)

Perito: Fery Shodjai (GTZ)

Assessoria de Comunicação: Aparecida Heiras, Manuel da Silva Lima, Marinês da Fonseca Ferreira Equipe ProVárzea/Ibama

Adriana Melo, Albermaya Xabregas, Aparecida Heiras, Anselmo de Oliveira, Alzenilson Aquino, Antônia Barroso, César Teixeira, Cleucilene Nery, Emerson Soares, Evandro Câmara, Flávio Bocarde, Joelcia Figueiredo, Kate Anne de Souza, Luiz Alexandre Voss, Manuel Lima, Marcelo Derzi, Marcelo Parise, Marcelo Raseira, Márcia Escóssio, Márcio Aguiar, Maria Clara Silva-Forsberg, Marinês Ferreira, Mário Thomé, Natália Lima, Núbia Gonzaga, Raimunda Queiroz, Ricardo Lima, Rosilene Bezerra, Simone Fonseca, Tatianna Silva, Tatiane dos Santos, Urbano Lopes, Willer Hermeto Almeida

Financiadores

Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

Amazônia: Pescadores

contam histórias

Santarém - PA

2004

Copyright © 2004 – ProVárzea/Ibama

Coordenação editorial

Mauro Ruffino

Edição de texto

Thais Helena Medeiros

Revisão

Regina Glória Pinheiro Cerdeira

Hélcio Amaral de Sousa

Paulo Roberto Spósito de Oliveira - Magnólio

Vinícius Xavier Zammataro

Ilustrações

Eduardo Clemente - Santarém-PA

Fotos

Thais Helena Medeiros

Foto da capa

Arquivo PróVárzea/Ibama/L.C. Marigo

Projeto gráfico e Editoração eletrônica

Fábio Martins

Revisão de texto

Peta Teixeira

Marinês Ferreira

Foto da capa: Pirarucu (Arapaima gigas).

Catalogação na Fonte

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis G146a Galúcio, Dorenilce Maria Rodrigues.

Amazônia: Pescadores contam histórias / Dorenilce Maria Rdorigues Galúcio. – Manaus: Ibama/Provárzea, 2004.

132p. : il.; 29 cm. – (Coleção Retrato Regional)

ISBN 85-7300-178-X

1. Literatura. 2. Pesca. 3. Conservação da natureza. I. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. II.

Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea – Provárzea. III. Título.

IV. Coleção.

CDU (2.ed.) 502

É proibida a reprodução total ou parcial deste livro. Todos os direitos reservado à autora.

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

M

Agradecimentos

Meus agradecimentos a todos, por que não dizer, co-autores deste livro. Sim, porque sem a colaboração muito especial desses pescadores e pescadoras maravilhosos e suas histórias sem limites, esta obra não existiria! Pescadores(as), pilotos(as), 5

parceiros(as)...

Região Cidade, Santarém: Esaltino dos Santos Costa (Quebra-Gelo), Manuel Jorge Pereira dos Santos, Jonas Ferreira, Benedito Monteiro Galúcio, Moacir O. Ferreira

– comunidade do Juá, rio Tapajós: Raimundo Nonato de Sousa, Maria Ornelinda Caetano, Raimunda dos Santos Ferreira, José Maria Gomes (Pelé) – comunidade do Cucurunã, rio Tapajós: : Lorivaldo Rebelo Miranda, Wilson Sousa dos Santos – Comércio de Peixe Tablado: Sebastião de Sousa, Raimundo Ferreira Pereira

– comunidade do Maracanã, rio Tapajós: Maria Luiza Pinto Sousa, Reginaldo Costa Correia, Acyr Correia Amaral, Carlos Augusto dos Santos Moraes, Domingos Adalberto Ribeiro dos Reis.

Região do Maicá, várzea do rio Amazonas: – comunidade de Urumanduba/

Mararu: Renato dos Santos Ribeiro, Eurides dos Santos Pereira – comunidade de Bom Jardim: Dileudo Guimarães dos Santos.

Região do Lago Grande do Curuai , várzea do rio Amazonas, Vila Curuai: Enéias da Silva Nogueira, Emerson Feleó, Lourenço de Sousa Rodrigues, Sebastião Aires Farias, Sérgio Duval dos Santos Pereira (o Basinho), Sansão Bento Lourido, Pedro Figueira de Sousa, Rita Maria Silva de Sousa – comunidade do Inanu: Valdemir da Silva, Raimundo Nonato de Sousa Galúcio, José Edimilson Galúcio Rodrigues, Olavo Afonso Galúcio Rodrigues, Miguel Galúcio, Adenil Rodrigues de Sousa, Raimundo Galúcio, Rainério Batista, José Monteiro Guimarães, Dorinelson Lopes Barbosa, Raimundo Ester Sousa Sobrinho – comunidade de Torrão do Papa Terra: Maria Lázara Reis dos Santos, Jocelina Rodrigues de Licata, Genildo, Edivaldo Campos Licata, Wilson Mota de Sousa – comunidade de São Jorge: Haroldo Viana dos Santos, Delmas Rocha, Maria do Carmo, Pedro Santos do Amaral, Renato Santo, Manuel Idalécio Borge Rocha, Raimunda Duarte dos Santos, Hélio Rodrigues Pereira dos Santos – comunidade de Uruari: José Raimundo de Sousa, Silvio Nogueira do Carmo – comunidade de Peré Boa Vista: Manuel Pedroso de Lima Ferreira, Valci Sousa, Nestor Mota Leal, Maria Nanci Castro Leal – comunidade de Peré Salvação: Raimundo Nicolino de Sousa – comunidade de Jacaré: Edmundo Branches Prata – comunidade de Acutireça: Vilfredo Soares, Maria Ester Gonçalves, Francisca Gonçalves – comunidade de Ajamuri: José Caldeira, Tobias Figueira da Costa Filho – comunidade de Cururú: Aureliano Branches.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

Região do Ituqui, várzea do rio Amazonas: – comunidade de São José: Vera Lúcia dos Santos, José Luis dos Santos, Inaíde Silva dos Santos – comunidade de Aracampina: José Orivaldo Silva Coelho – comunidade de Fé em Deus I: Dilza Maria 6

Ferreira dos Santos, Antonio Osmar de Oliveira Didiet.

Região do Aritapera, várzea do rio Amazonas: – comunidade Ilha de São Miguel: José Eli Rocha Sá.

Região do Tapará, várzea do rio Amazonas: Manuel Jorge Pereira dos Santos –

comunidade Costa do Tapará: : Manuel Pereira.

Região do Urucurituba, várzea do rio Amazonas: – comunidade Fátima do Urucurituba: : Eduardo José da Costa Maia, Haroldo Santos, Aílton José, Erivan Ademar Santos – comunidade de Saracura:

: Aldo Santos.

Vila Barbosa, rio Amazonas, Óbidos: João Antonio Barbosa, Divair Barbosa Ramos, Evaldo Venâncio, Emerson Marinho Barbosa, Manuel Barbosa, Maria das Gra-

ças Magno, Juciê Perdeira Venâncio, Papão.

A Raimunda Rilza de Sousa e Jorge Joaquim Costa da Silva por terem me aju-dado na primeira versão do projeto deste livro.

A Laurimar Leal, pela participação devotada na cultura santarena.

Aos companheiros de viagens Rionaldo, Isaac, Dinho e Manan.

Também agradeço:

Roberto Cardoso Marinho e a todos os diretores da Colônia de Pescadores Z-20.

Sônia Maria Leão Pereira/ Associação das Mulheres Pescadoras, Artesãs e Agricultoras (Amupaa)

Marcelo Apel e Alcilene Cardoso/ Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam) A meus filhos Vera Claudia, Kelly, Elton, George e Aleandro Afonso.

Meu esposo Benedito Monteiro Galúcio.

Meus irmãos José Edimilson, Dorilda, Dorina, Antonio Matias, Lorença, Olavo Afonso e minha cunhada Maria Dacilene Farias Rodrigues e à Firma dos Santos Rodrigues, de todo meu coração!

Fery Shodjai, a você meu muito obrigada por ter acreditado nessa idéia e ter me subsidiado para realizá-la.

A minha Senhora Mãe D’Água e Protetora Divina.

A meu São Lázaro, a meu Deus!

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

Sumário

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9

7

Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

A autora . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

Dedicatória . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

Meio ambiente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

Os pescadores(as) falam da pesca no passado e nos dias de hoje . . . . . . . . . . . . 17

Arreios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

As doenças do pescador(a) adquiridas na pesca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

A salga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33

A farinha de piracuí . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

A mulher amazônida e sua relação com a pesca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .36

Contadores de histórias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40

Os pescadores(as) e suas regiões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

Uma região: Lago Grande do Curuai . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

Outra região: igarapé do Irurá e Igarapezinho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54

Mapiri, tu fostes um encanto! Hoje, ouço teu pranto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

Pescadores e suas histórias imortais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70

De boca em boca, a imortalidade continua... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

Três peixes na Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83

Pirarucu, o gigante pré-histórico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .83

Jaraqui, o cardume listrado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89

Peixe-boi, o mamífero aquático . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91

Como surgiu a Colônia de Pescadores Z-20 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

Núcleo de Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96

Acordos e Conselhos de Pesca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98

A Colônia que sonhei Uma Colônia, um sonho... uma possível realidade? . . . . 99

O poder da fé e da magia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101

Crenças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101

Crendices . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .102

Cobra grande . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106

Boto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111

Visagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122

Glossário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

OApresentação

O Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea - ProVárzea/Ibama é um projeto do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil – PPG7, 9

executado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

- Ibama, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente - MMA e financiado com recursos do Fundo Fiduciário para a Floresta Tropical - RFT do Banco Mundial, Departamento do Desenvolvimento Internacional - DFID do Reino Unido, Agência de Cooperação Alemã - GTZ, Banco de Reconstrução do Governo Alemão - KfW e o Governo Brasileiro.

O objetivo do ProVárzea/Ibama é estabelecer bases científica, técnica e política para a conservação e o manejo ambiental e socialmente sustentável dos recursos naturais da várzea, na calha central da bacia amazônica, com ênfase nos recursos pesqueiros. Ao fim de sua execução o Projeto prevê que seus resultados tenham influenci-ado mudanças nas políticas públicas ambientais, além de favorecer o desenvolvimento de meios de vida sustentáveis e o melhoramento dos sistemas relacionados ao monitoramento e controle e a promoção de co-gestão em áreas de várzea.

Previsto inicialmente para ter duração de cinco anos (2000-2005), o ProVárzea/

Ibama teve início em julho de 2000 e em função dos seus ótimos resultados foi prorro-gado até final de 2007. O projeto vem sendo executado em parceria com instituições governamentais e não-governamentais, organizações pesqueiras e comunitárias.

Para a execução do Projeto, o ProVárzea/Ibama adotou a abordagem dos Meios de Vida Sustentáveis porque é centrada nas pessoas, valoriza o potencial e os recursos das pessoas, é participativa, é holística, vincula micro e macro, é dinâmica e flexível, é voltada para impactos, é voltada para a sustentabilidade, busca a inclusão social, reconhece questões de gênero e outras formas de diferença social e reconhece as relações de poder.

A abordagem é centrada nas pessoas porque o processo é iniciado com a aná-

lise dos meios de vidas delas e da forma como esses meios de vida mudam no decorrer do tempo. Envolve as pessoas e respeita suas opiniões. Apóia as pessoas para que alcancem seus próprios objetivos quanto aos seus meios de vida. Valoriza o potencial e os recursos das pessoas, não observa somente o que falta. Desperta o potencial de cada um e é participativa porque utiliza metodologias para estimular à participação.

Busca a inclusão social quando promove a melhoria da qualidade de vida dos menos favorecidos. Promove a redução das desigualdades sociais (gênero, raça, etnia, classe, idade, orientação sexual, religião, localização geográfica, entre outras). Reconhece e valoriza as diferenças sociais, combatendo a discriminação. Reconhece questões de gênero e outras formas de diferença social quando analisa a situação local. Busca a eqüidade nas relações de gênero. Promove o exercício da cidadania e dos direitos.

A Coleção Retrato Regional busca justamente resgatar e documentar os cinco recursos utilizados pela abordagem dos Meios de Vida Sustentáveis adotada pelo ProVárzea/Ibama que são: recursos humanos, como habilidades, conhecimento, educação, saúde, auto-estima, integridade, ética, fé, esperança, espiritualidade e outros.

Recursos sociais e políticos, como família, amigos, colegas, associações formais e informais, contatos, sindicato, capacidade de influência, participação, mobilização e outros. Recursos físicos, como casa, escola, centro de saúde, transporte (público ou privado), água encanada, eletricidade, meios de comunicação, terreno (propriedade) e outros. Recursos financeiros, como poupança, salário, crédito, bens com valor de troca e outros. E, finalmente, recursos naturais, flora, fauna, qualidade do ar, água, solo, ciclos naturais e outros.

A presente publicação resgata e documenta as histórias de pescador, mas sobretudo registra e descreve a cultura e o saber popular amazônico, as lendas, a geografia, as paisagens, a biodiversidade, as práticas e os meios de vida das pessoas que vivem na várzea. Documenta a luta pela sobrevivência e o direito à cidadania, as vulnerabilidades e estresses a que estão sujeitos os habitantes da várzea. Registra a divisão de trabalho e gênero, as relações de poder, a organização social, os movimentos políticos e as relações institucionais a que estão ligados os pescadores do médio Amazonas paraense, na região de Santarém.

Mauro Luis Ruffino

Coordenador do ProVárzea/Ibama

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

CPrefácioContar histórias dos povos da Amazônia é, sobretudo, ouvi-los. Mais do que isso, vivenciar o habitat, andar nas águas barrentas do grandioso rio Amazonas e sua várzea, lagos, canais, paranás, igapós e milhares de igarapés e outros rios -como o 11

Tapajós- que deságuam em seu curso rumo ao Oceano Atlântico.

É também se emocionar com rostos marcados pela luta a céu aberto; tão parecidos uns com os outros, talvez por carregarem a mesma mistura étnica brasileira. É se envolver pela cultura e comer peixe “amassado” com a mão, subir as palafitas de suas moradias... É também conviver com pescadores(as).

Neste livro, Dorenilce Galúcio que é pescadora na região de Santarém, baixo Amazonas e Oeste Paraense, apresenta e organiza histórias de pescadores(as) colhidas em localidades pesqueiras diferenciadas. Grupos sociais que abraçam formas distintas no linguajar popular, fazendo-nos perceber o quão fragmentado por dialetos é a língua portuguesa. Assim, de um lago pesqueiro para outro você identifica maneiras, arreios e peixes distintos num mesmo espaço geográfico.

Aqui como em qualquer lugar do planeta a luta pela terra e pela sobrevivência e o direito à cidadania se intensificam em função da grandiosidade territorial e dos interesses políticos e econômicos ligados à Amazônia. Após muitos anos de exploração e domínio dos que aqui chegaram e chegam, as populações tradicionais têm desencadeado movimentos de base pela manutenção de suas terras de direito e pela Amazônia sustentável.

Falar de pescadores(as) na região de Santarém é falar também da Colônia de Pescadores Z-20. Entidade que há tempos ampara as lutas e conquistas da categoria.

Hoje, talhada pelas mãos calejadas dos próprios pescadores e pescadoras, incentiva e apóia de fato a classe que representa.

É em função da Colônia que nasceu este livro. Dorenilce Galúcio foi diretora de Relações Públicas e Cultura da entidade, nos anos entre 2001 e 2003. Uma das tarefas estatutárias desse departamento diz que a diretoria tem a missão de registrar e difun-dir a cultura dos pescadores(as) de sua área de abrangência. Dora quis realizar um pouco dessa proposta. Idealizou o livro e foi à luta em busca de financiamento para a produção literária cultural dos pescadores(as). Foi então que lançou a idéia para Fery Shodjai, coordenador da GTZ, uma agência de coooeração alemã no Brasil através do ProVárzea/Ibama. Fery acreditou! E aqui estamos anunciando o livro Amazônia: Pescadores contam histórias, o resultado de um contrato de desejos mútuos em propagar a Amazônia através de seus povos.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

Dora, você que também é uma guerreira valente e laboriosa articuladora e pescadora, me mostrou que vida de pescador(a) não é fácil. Como muitos, eu já sabia que pescador(a) gosta de inventar e aumentar histórias. Mas você me demonstrou que além dessas histórias (e/ou estórias na grafia passada) os pescadores e pescadoras se expõem às intempéries amazônidas como nenhum outro profissional, que apesar da pesada rotina sazonal da várzea, das dificuldades de transporte, educação e saúde que passam, mostram uma imponente hospitalidade, um carinho inocente natural e curiosidade pelas pessoas de fora.

Amazônia: Pescadores contam histórias é uma compilação de encontros e 12

desencontros de uma classe social. Muitos que amam de paixão o que escolheram para praticar, outros que não aconselham nem para seus filhos. Outros ainda, se instalaram nas águas e, como piratas, fazem de suas embarcações e da pescaria a razão de viver.

Acompanhar Dorenilce rio acima, rio abaixo, entrevistando os pescadores(as) por ela selecionados a partir de suas regiões pesqueiras, foi viver um momento muito especial. Muito além das expectativas que uma matogrossense do sul poderia viver neste Brasil. A Amazônia nos enlaça por entre seus cipós gigantes assim como somos seduzidos por seus encantadores povos! Foi uma tarefa bem difícil selecionar as melhores histórias, os bons contadores. Pois, todos são edificadores de vida legítima entre a floresta e as águas amazônicas!

Dora me ofereceu a oportunidade única de conhecer um pouquinho do universo dos pescadores e pescadoras das regiões pesqueiras da cidade, do Ituqui, do Urucurituba, Aritapera e Tapará. Todas carregam potentes profissionais e uma beleza natural rara. Mas foi no Lago Grande do Curuai que eu conheci a arte perspicaz da pesca de um peixe tinhoso: o pirarucu. Ouvi e transcrevi emocionada, relatos de lendários pescadores em busca do maior peixe de escama da água doce que se entregaram e se entregam sem pudor aos perigos reais e mitológicos que habitam as águas. Nomes como o de seu pai, Olavo Rodrigues, e seus parentes Oscar e Tito Galúcio são perpetuados pelos pescadores(as) contadores(as) que os respeitam pelos profissionais que foram.

Dora, no início desse projeto, você me disse que este livro era para todos. E para tal, nós formatamos a estrutura e linguagem pertinentes respeitando o contexto cultural da região. Eu espero que nessa missão nós tenhamos chegado com sucesso. Espero que essa literatura expanda as linhas tênues do território da Amazônia. Que seja capaz de mostrar um pedacinho da cultura santarena pesqueira através de histórias contadas pelos próprios pescadores(as).

Amazônia: Pescadores contam histórias ajude a sensibilizar para o quão importante é a preservação e conservação dos recursos naturais e humanos na Amazônia. Que não só os pescadores e pescadoras necessitam dela, mas todos nós, o planeta Terra!

Thais Helena Medeiros

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

A autora

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DDorenilce Maria Rodrigues Galúcio, Dora, nasceu em 1o de janeiro de 1963, na comunidade do Inanu, região do Lago Grande do Curuai, município de Santarém. É

filha de Olavo Rodrigues (†1999) e Pureza Galúcio Rodrigues (†1974). Saiu do Inanu com 14 anos para estudar em Santarém. Em 1980, casou-se com Benedito Monteiro Galúcio com quem tem quatro filhos.

Desde 84, é defensora dos di-

reitos do cidadão atuando como re-

presentante e fundadora de associa-

ções de bairros onde efetivou parce-

rias com o poder público municipal,

poder judiciário e iniciativas privadas.

Continuou os trabalhos comunitári-

os na igreja católica através da Coor-

denação Pastoral da comunidade São

Sebastião.

Como pescadora, apoiou as

lutas em defesa do lago do Papucu

em conjunto com a escola munici-

pal e pescadores(as), incluindo o re-

florestamento. Além de colaborar na

preservação e conservação dos lagos

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Amazônia: Pescadores contam histórias

do Mapiri e Juá. Foi uma grande articuladora na construção da torre de observação situada na praia do Maracanã.

Em 94, associou-se à Colônia de Pescadores Z-20, onde trabalhou como Coordenadora do Núcleo de Base do bairro do Maracanã, período entre 1997 e 2000.

Apoiou a organização dos pescadores(as) das comunidades do Inanu e Torrão do Papa Terra, no Lago Grande do Curuai. Desse trabalho, originaram-se dois Núcleos de Base.

Em 2001, assumiu o cargo de diretora de Relações Públicas e Cultura da Colô-

nia de Pescadores Z-20, permanecendo até 2003. Atualmente, é presidente do Conselho Fiscal do Movimento dos Pescadores do Baixo Amazonas (Mopebam).

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

Dedicatória

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Aos pescadores e pescadoras da Colônia de Pescadores Z-20, pela vida corajosa, cultura e permanência em seus locais de origem!

Para os povos da Amazônia, pela valentia e perseverança na luta pelo direito aos recursos naturais da maior floresta tropical do planeta!

Em especial ao meu pai Olavo e minha mãe Pureza, em memória.

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

Meio ambiente

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POs pescadores(as) falam da pesca no passado e nos dias de hoje Pescador(a) tem fama de inventar histórias sobre sua pesca. Ele sempre pega peixes muito grandes, mesmo se o peixe for um simples charutinho. Isso é uma meia verdade. Sim, porque existem histórias e estórias na profissão.

Na pescaria, passamos a maioria do tempo à espera do peixe, dias, semanas fora de casa. As noites são recheadas de conversas para amenizar a tristeza, a solidão, a saudade da família.

Quem sabe, não é daí que vem a nossa fama de contadores de histórias? Pois é, vamos contar muitas histórias, um pouco do resgate cultural dessa profissão vital na Amazônia, contada pelos próprios pescadores(as) que fazem da pesca o principal eixo de sobrevivência nos rios abundantes da região.

Eu sou pescadora e posso dizer que essa profissão é muito puxada. Debaixo do sol e da chuva, o corpo é marcado. O preço do pescado nunca é o merecido. As distâncias são longas, o combustível é caro, o gelo carece de acomodação específica e ainda por cima tem o atravessador no meio do caminho.

Conversa entre pescadores(as):

—Você pesca?

— Não, eu trabalho...

Como outra profissão qualquer, o pescador(a) amazônida já tem sua categoria reconhecida legalmente e é amparado(a) através das Colônias de Pescadores(as). Mesmo assim, nem todos os profissionais da pesca estão protegidos quanto a esses direitos, além de, ainda sofrermos a discriminação.

Na Amazônia, é tradição começarmos na prática da pesca por influência de nossos pais. Bem sabe Benedito Monteiro, nascido na comunidade do Inanu, Lago Grande do Curuai, 54 anos, que viveu desde menino e vive ainda a exercício da pescaria. Ele me disse que a criança do interior ia para o rio desde que desse conta de remar na popa da canoa, não importava a idade. Isso se dá porque os pais que já se encontram cansados e sem parceiros passam essa responsabilidade para seus pequenos filhos, não importa se é homem ou mulher.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

Apesar dos pais atualmente incentivarem seus filhos a irem para a escola, surpre-ende-me Aleandro Afonso Rodrigues Farias, 7 anos, morador da comunidade do Inanu, no Lago Grande do Curuai. Uma coisa muito importante ele sabe: dividir seu tempo entre a pescaria e a escola. Aleandro não precisa pescar como tantas outras crianças que, infelizmente, acumulam essa função mais a responsabilidade de cuidar de seus irmãos. Mesmo pequeno Aleandro já revela um potencial de pescador-contador de histórias que carrega em seu sangue.

A pescadora Raimunda Duarte dos Santos, 35 anos, lá da comunidade de São Jorge, no Lago Grande do Curuai, também aprendeu a arte da pesca com seu pai que 18

hoje não pode mais exercer a atividade. Assim, Raimunda assumiu a economia da casa, inclusive com a pesca mais difícil para uma mulher, a tarrafa! “Eu entendo tudo de pescaria eu entendo tudo. Sei tarrafiá, sei pescá de malhadeira, sei pescá de anzol.

Sei tudo! É normal pescá de malhadeira é... anzol! Prá mim é. Prá mim é normal. Porque se eu não soubesse isso... Como agora, né? Meu pai não pode pescá... eu comigo não tem essa não!”

No passado, os filhos não tinham muitas opções (como ainda acontece até hoje) e acabavam sendo pescadores(as) como seus pais. Isso se dava em decorrência do isola-mento das comunidades ribeirinhas tradicionais na Amazônia. Atualmente, apesar de poderem contar com um suporte – ainda que precário – nas áreas de transporte, saúde e educação (precários ainda), os amazônidas incentivam seus filhos a se deslocarem para os centros urbanos em busca de melhoria na condição de vida futura.

Jorge Raimundo de Sousa, comunidade do Uruari, Lago Grande do Curuai, me falou sobre sua vida de pescador. “Prá mim é porque eu acho que o... quando a pessoa se dedica num ramo desse, né? Acho que ele vem com aquele dom, né? Prá se que...

que não era prá eu sê pescador que meu pai tinha com quê, né? Só que todo tempo eu tava na pescaria. E tô na pescaria! Estudei, mas poco, só a terceira série. (...) Essa época aqui, já os pais querem o estudo prus filho, né? Naquele tempo, o pai queria só que o filho trabalhasse. O que aconteceu comigo foi isso! (...) É... agora... agora eu não quero a minha profissão... que meus filhos... mexe, pros meu filho.”

O dom que o Jorge se refere, para muitos pescadores não é mais alternativa de futuro para seus filhos, como ele mesmo disse. Lourenço de Sousa Rodrigues, 57 anos, da comunidade de Ajamuri no Lago Grande do Curuai, conta também que “até que se eu pudesse não pescar mais era melhor. Mas, era melhor. Mas só que ainda não sou aposentado, eu preciso pescar prá sobreviver, né? E chega lá não pega o peixe. Aí, quase que não dá prá nada. As veze só tira o dinheiro... aí não adianta pescar. Pescar é prá perder. Num tá boa a pescaria não!”

Confiando na minha profissão, apresento o Sebastião Aires de Sousa, 90 anos de Lago Grande do Curuai. Um grande contador de histórias, sentadinho em sua rede, me expôs com muita disposição ainda a sua vida. Vida de um pescador que pulsa em sua sabedoria.

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

“Olha, eu pescava tambaqui! Quando é que eu ia puxar essas pescadinha um pouco aqui. Puxava era tambaquizão! Naquele tempo, senhora não viu, criava capim, primeiramente era muriruzar aí, que tapava por esse Lago Grande. Depois desse mureru, deu de grelá cada pasto e nós, a gente ia parar na boca do lago. Se a senhora saía aí, quando chegava a tardinha, assim quando o sol esquentava, tambaqui já tava chupando!

Pegava uns cinco e chega. (...) Surubim na beira, esse tempo passava a mão na minha haste, ia andando pela praia e o bichão veio esparramado... E eu... toma! Pirarucu deixava ele buiá duas vez. Se ele boi-asse só num lugar, quando ele pesteja

ele tava na canoa. Era difícil errá. Ma-

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tei bem pirarucu. Olha, essa (apontou

para sua esposa) não deixa minti. Olha,

contava mentira nada! Contava foi ver-

dade. Desde que eu tirei ela do pai, eu

não roubei, eu tirei ela do pai dela, ela

já comeu bem peixe. E hoje em dia,

nós já, nós tamo comendo acari. Pes-

quei até com 79 anos, mas gostava...

surubim, pirarucu e cujuba. Senhora

conhece cujuba, nunca viu? (referin-

do-se a autora) Pois é, tem aquelas

coisa do lado, aquelas escamazinha.

Cujuba... pirarucu, surubim, tambaqui.

Comecei no jacaré e depois dei a ma-

tar jacaré, minha irmã.”

Sebastião me descreveu a ri-

queza que foi o nosso Lago Grande

do Curuai. De um modo geral, em to-

das as regiões os pescadores(as) falam

da escassez dos recursos naturais de

suas localidades.

O trato do peixe no jirau.

Eu acredito que a Amazônia só

vai dar certo a partir do desenvolvi-

mento sustentável. E que é através de seus povos, povos da floresta, que isso poderá se concretizar. Temos o maior potencial de água doce do planeta, e uma variedade intocada de plantas e animais que ainda não foram descobertos. Aqui, podem estar ocultos ainda remédios e vacinas para tantas enfermidades mortais do ser humano.

No conhecimento popular reside muita sabedoria. E o que os amazônidas es-tão fazendo com isso? Estamos muitas vezes importando conhecimento para cuidar de nossa saúde e alimentação. É possível aliar nossos conhecimentos tradicionais à tecnologia do mundo.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

Desta forma, estaríamos também mantendo nossas culturas. Sim, nosso legado cultural está ameaçado como o peixe-boi, o pirarucu e tantas outras espécies da fauna e da flora na Amazônia.

Como amazônida, gostaria muito que os governos federal, estadual e municipal voltassem mais seus olhares para a riqueza florestal e humana existente na Amazônia. Como nossos povos vão defender suas riquezas naturais se não tiverem acesso às novas tecnologias? O conhecimento científico, gerado pelas pesquisas, ainda não chega com eficiência aos transformadores de fato dos recursos naturais. A reciclagem ambiental do conhecimento tradicional através das pesquisas é vital para 20

a continuação da Floresta Tropical da Amazônia. Como é possível falar em preserva-

ção e conservação, havendo uma disponibilidade precária nas áreas de educação, saúde e saneamento básico?

Não preciso, aqui, falar muito sobre os problemas ambientais que o planeta Terra está sofrendo através da ação descontrolada dos seres humanos. Pois, isso está bem representado através da mídia e, para os amazônidas também refletido no seu dia-a-dia.

Comendo peixe amassado com a mão.

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

Foi Osmar Didiet que me falou sobre o “iaiú”. Na época em que o rio sobe, a água fresca das chuvas (natural) se encontra com as águas dos lagos e canais represa-dos (choca). Para Didiet, a diferença de temperaturas faz com que os peixes se assus-tem com o choque. Aí, eles procuram a superfície e ficam de cabeça de fora. Se não chover bastante para destemperar, os peixes podem até morrer. Eles denominam esse fenômeno de “uaiú” ou “iaiú”.

Onde o fenômeno acontece, os peixes ficam disponíveis para serem flechados com facilidade pelos pescadores(as). Todos os peixes que estão nesses locais vão à tona.

Só o pirarucu que ainda não veio à superfície, e o acari. Mas os peixes como a pirapitinga, o tambaqui, o carauaçu, a matrinchã, o reque-reque, a sardinha, bacu, aracu, pacu, 21

curimatã, o tucunaré também, esses ficam de “iaiú”. Ficam como se estivessem de porre, bêbados, também chamados de peixes de beiço inchado.

Osmar ainda me disse que isso se dá pelas transformações oriundas da ação do ser humano no meio ambiente. O “iaiú” se manifesta quase todos os anos em certos canais e lagos na região do Ituqui.

Vendedores de peixe na Feira Tablado, Santarém.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

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A pescaria está refletida por inteiro na vida do pescador.

Miguel Galúcio, 54 anos, pescador da comunidade do Inanu, Lago Grande do Curuai também relata a exuberância da pesca alguns anos atrás. “Uma vez, nós morava na colônia e aí descemo de lá com papai. Fumo pescá aqui numa... ponta que tem aí chamada Portão. Nós chegamo lá dez horas da manhã e nós não tinhamos nada. Aí, fomo numa praia lá. Vê, nesse tempo... surubim deitado na praia. Prá encurtá a conversa, chegamo lá tinha surubim que a senhora nem faz uma idéia como era que estava estivado. Ele foi escolhendo só. Picamo onze, só daquele que não crescia mais.

Aí, pronto, era suficiente. Mas, aí como não dava prá gente voltá... que era tarde e aí ele passô a cuidá. Quando terminô de cuidá, isso era umas cinco horas, mas naquele tempo tudo era mais fácil, né? Cinco hora da tarde, e fomo colocá os espinhel. Quando foi no outro dia, umas quatro hora, levantamos, fumo ver o espinhel tinha doze tambaqui. Era muito bom, aquele tempo...”

Com todas as variações da vida marítima – do pescador(a) que está embarcado e armado para a pesca – e das transformações da natureza, do trabalho árduo, e nem sempre bem recompensado, não tira do profissional da pesca a paixão pela arte. O

que o faz viver como um observador atento. Ezaltino dos Santos Costa (o Quebra-

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

Gelo), famoso pescador de charuto na praia do Maracanã, me disse que “pescador tem que ser inteligente. Conhecer a natureza da profissão. A maré, o melhor porto, qual é o tipo da água que o peixe desejado gosta, o tipo da rede que o peixe não sente, como colocar a rede que ele não sente.”

Atento na maré, na lua, no conhecimento das variedades de peixes. Como são eles e o que comem, como bóiam, a desova e todas as especificações de uma profissão como qualquer outra! Como bem disse o pescador do bairro do Maracanã, Carlos Augusto dos Santos Moraes, “pescaria não é para todos, pois só é pescador quem agüenta o trampo. Pescar não é esporte, mas sim profissão que às vezes ninguém dá valor. Eu já sou pescador há 21 anos, não me arrependo, mas gostaria de ter outra 23

profissão menos estressante.”

José Caldeira, da comunidade de Ajamuri, no Lago Grande do Curuai, ressalta a vida do pescador com um pouco de amargura, mas muita paixão. “Um dia a gente tá bom, tá bem na pescaria. Outro dia, a gente tá embaixo de temporal, chuva, relâmpa-go. Uma hora por cima d’água, por baixo de água (...). É um trabalho meio perturbado, mas é divertido. Na hora da pescaria, o cidadão come bem, come assado, come cozido, o que ele escolhe. Uma hora ele é puxado pelo curto, uma hora ele passa a noite inteira n’água cuidando da embarcação. Uma hora dá dinheiro, perde arreio...

Arreio na flor d’água. Agora, vai lá no fundo prá pegá peixe. Os peixe estão lá no fundo. No passado, o peixe era na superfície.”

Tem muito pescador descrente da profissão. Tem muito pescador(a) que não deseja nem para seus filhos essa prática. Assim como têm grandes amantes da pescaria ainda. Eu vejo que é possível ainda sermos pescadores(as) e vivermos dignamente da pesca. Futuramente vamos ter de viver dos lagos manejados, da criação de espécies como o pirarucu, tambaqui e o tucunaré. Peixes que estão ameaçados, mas que por outro lado bastante requisitados pelo mercado de consumo.

Na Amazônia, já existem experiências nesse sentido. O foco agora é replicar, pois somente assim, esses trabalhos estarão abertos para todos. Mesmo em Santarém, ações ainda tímidas já estão sendo empreendidas. O que me parece é que as informações sobre linhas de créditos governamentais e não-governamentais não chegam às bases de fato.

E quando chegam, os pescadores(as) não tem amparo logístico e nem técnico para desenvolverem as ações de incremento e fomento do estado pesqueiro em suas localidades. Temos como fazer acontecer as mudanças. Para nos tornarmos “fazendei-ros” da pesca é necessário buscarmos mobilização e organização comunitárias através de projetos. Parcerias são fundamentais!

Arreios

As mudanças na pesca têm origem em vários acontecimentos. Podemos dizer que, no passado, quando os rios e lagos amazônidas eram abundantes de pescado, a

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Amazônia: Pescadores contam histórias

pesca de subsistência era a mais praticada. Benedito Monteiro lembrou que antes dos barcos a motores se popularizarem na região, “o meio de transporte era a canoa à vela. Do Lago Grande, comunidade do Inanu, prá cá, que hoje se faz em média quatro horas, naquele tempo se fazia em um dia ou dois, na baixa. Na subida, dependia do vento.” A cobertura dessas canoas grandes e possantes, onde cabiam até trinta paneiros de farinha mais algumas pessoas, eram feitas de palha. O japá é um tecido de palha forrado com sororoca (uma bananeira selvagem).

O japá era um complemento da tolda. Osmar Didiet, comunidade de Fé em Deus I, região do Ituqui me explicou que “para montar o japá você cortava e você 24

forrava. Você fazia o teçume da primeira camada, depois fazia o teçume da outra camada. Aí, você colocava as palhas de sororoca por dentro, aí que você jogava a outra camada e fechava. Aí, você apertava esse teçume de palha em cima dos arco de cipó. (...) Você ia amarrando essas palha tecida em cima desses arco. Isso aí servia prá quê? Prá você dormi, o pescador dormi debaixo dessa tolda. Quando era em número de dois, o outro colocava o japá por baixo da tolda e ficava dormindo... um dormia na popa da canoa, e o outro na parte da proa da canoa, certo? E armazenava o peixe também lá.

Só que não dava prá trazê grande quantidade, né? “

O bote ou a canoa (feita de madeira e movidas à vela ou no remo) é a casa do homem que trabalha nas águas. Café, água, sal, farinha. Nas paragens de pescaria, é na canoa ou em redes nas embarcações que o pescador(a) descansa. Lá não pode faltar a cuia, é com ela que ele se livrará do naufrágio. O remo ou a vela, que o faz deslizar à procura de paragens pesqueiras. A faca, que ele vai cuidar do peixe, se defender, migar o tabaco. O uru é o lugar onde se guardam o fósforo, o tabaco e o papelinho,

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

a pinga (que geralmente não falta na pescaria), a lanterna e até a roupa para não molhar na chuva. Também servia – e servem ainda – para o pescador(a) sentar na popa da canoa.

Os arreios dessa pescaria eram o espinhel, a tarrafa, a garateia, o arpão, o arco e flecha e a zagaia. Ainda existem pescadores(as) que utilizam esses arreios, que o fabri-cam, tecem suas redes, cuidam de seus arpões, limpam suas canoa e botes. E, sobretudo, tratam do mal-olhado que pode levá-los a panemice, falta de sabedoria na pesca.

Lorivaldo Rebelo Miranda é aposentado pela Colônia de Pescadores Z-20 e morador do Cucurunã, mas pescador do lago do Juá. Ainda hoje, ele anda uma hora 25

para pescar no lago e me contou que o “Juá está com uma diferença muito grande.

Porque naquele tempo, o que tinha de... de material prá gente pescá, que a gente achava que já estava nos prejudicando só a lanterna de carboreto, né? E... mas não tinha tanta malhadeira, não tinha negócio da bomba, arrastão essas coisas.

A natureza chega a ser bondosa com o ser humano. Mas, assim mesmo, o lago do Juá ainda tem peixe, né? Bastante peixe. Pega todo tipo de peixe, curimatá, aracu, jutuara, tucunaré. Ainda tem peixe, a gente nem

conta, tem peixe.

Hoje em dia, há a invasão de tipo de pesca.

Como nós temo o arrastão de noite. Não é toda

noite que a gente tá pescando. Quando é noutro

dia que a gente vai pescá a gente percebe que hou-

ve arrastão no lago. A pescaria de flechá no fundo

com aquela máscara, aí também invade muito.”

Eurides dos Santos Pereira, 73 anos, pes-

cador da região do Maicá, e morador do

Urumanduba, também fez um breve relato de sua

região. “O pescador, existe também esse negócio

de arrastão, tá deixando o coração... quase infarta.

Ali prá baixo, daqui prá baixo existia muito pirarucu.

Hoje em dia, no inverno, você não vê mais pirarucu

por aqui. Eu matava pirarucu aqui. Agora, não vê

mais pirarucu. Por causa de quê? Quando tem

pirarucu lá nu... ali no Jinitatuba, longe... muito

arrastão, sabe, ele puxa o peixe. O peixe que pula

do arrastão, ele não volta mais ali. E o peixe que

volta é mesmo que nós três aqui: — Fulano, não

vai mais prá lá que o negócio lá... perigoso!”

E continuou... “ Era na frente da cidade, era

aqui nesse lago... ia até o poção... tambaqui,

tucunaré... Nessa idade que eu comecei a pescar eu...

A canoa, a cuia e o uru.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

esse igarapé aqui era muito farto. Mui-

to peixe. Esse Vira Sebo aqui, a gente

jogava tarrafa, tucunaré pulava. Eu di-

zia assim: — Olha esse aí não vai dar

certo. É isso que está acontecendo

hoje na nossa comunidade. Então, eu

espero que as pessoas entenda isso.”

Renato dos Santos Ribeiro é

companheiro de Eurides e falou so-

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bre tempos passados. Ele gostou

muito de “pescá o aracu e o

tambaqui porque é mais fácil. Olha,

eu ia pescar, eu deixava minha

malhadeira n´água e vinha prá casa.

E quando ia olhá, o menos tambaqui

que eu pegava todo dia era vinte. O

menos que eu pegava. Eu fazia uma

caixa grande (de madeira) e deixava

o peixe na caixa e deixava lá no fun-

do e trazia só prá comê. Aracu, eu ia

botá minha malhadeira e o menos

que eu pegava era treze, quinze cam-

bada. Todo santo dia, e só colocava

Arreios do pescador artesanal de subsistência.

uma vez. Aí eu pegava aquela quan-

tia e vinha embora prá casa. Vendia

o peixe. Eu gostava de pescar, sempre gostava de pescar. Sempre fui pescador.”

Ele conta com a sabedoria do profissional das águas sobre as ovas. “Você acredita que o cará, ele desova duas, três vezes no ano? Você acredita nisso? O peixe, ele desovar, ele acompanha a natureza. Se a curimatá, a branquinha, aquele cascudo e aracu ele desova conforme a chuva. Se a chuva for atrasada, ele não desova não! Ele só desova quando vai chover. Quando a chuva é forte, mesmo que ele vai desovar. E o aracu, ele já vai largar a ova dele em terra. Você acredita?

O cascudo desova três vezes ao ano. A curimatá só desova uma vez. O tambaqui é difícil porque a gente não vê a ova dele. Você acredita nisso aí? Você já viu ova de tambaqui? Mudou muito, você sabe por que mudou? Porque na época, isso tá com vinte anos atrás, aqui num lugar chamado Vira Sebo, a gente andava bem devagarzinho com a canoa porque o tucunaré era sujeito a pular na gente. Ele pulava, pulava, pulava... quando ele sentia a canoa, ele pulava! Aí, a gente ia bem devagarzinho prá ele não bater a gente.

E hoje, isso tá diferente. Hoje, prá gente pegá um tucunaré grande, tá difícil.

Por quê? Porque o pessoal tá arrastando muita malhadeira, tão boboiando, batendo

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

capim, tão acabando. E tem a proibição e a gente não vê que tem a proibição. Mas não tem a fiscalização. Se tivesse a fiscalização, aí não acontecia. Tem problema, tá?

Tem a proibição, mas não tem a fiscalização. Aí, foi um descuido nosso. Aí, foi um descuido porque se a gente pensasse e tentar se organizar, proibir o modo de pesca, isso não tava acontecendo.

Acho que a gente deixou prá os outros tomá conta. Deixou prá o Conselho de Pesca da Z-20, prá o Ibama, prá polícia... ou a população aumentou? Uma nova gera-

ção, cabeça nova. Não, a gente não fala da população porque se tivesse ordem, o respeito e o zelo isso não tava acontecendo.

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Continuava sempre a mesma fartura, né? É por que a gente aí pegava o que era necessário. E hoje não. Antigamente, o pessoal pescava, pegava o que queria. E

hoje não! Vai pescar... é difícil pegá. Tá difícil mesmo. A gente ia no verão, pegava o tucunaré graúdo, o surubim... a gente não vê mais. Se não for o mafurá prá gente puxá, só a piranha preta.”

Existia tanto pescado, mas tanto peixe, que no tempo do inverno (estação das chuvas na Amazônia), eles se batiam nas margens dos rios. Ainda meio sonolentos com o impacto, os pescadores(as) os pegavam facilmente com seus paneiros. Daí, essa pescaria receber o nome de pesca de paneiro.

Eu vivi esse grande momento na minha vida. Com sete anos de idade, peguei a minha primeira ferrada de arraia praticando esse tipo de pescaria. Eu vi a fartura de pescado no Lago Grande do Curuai, assim como todos os meus antepassados.

Delmo Rocha, 47 anos, da comunidade de São Jorge, Lago Grande do Curuai, me relatou como ele pescava no passado. “ Porque, na minha época, só era mesmo o arpão, a flecha, nem a zagaia (quis dizer que a zagaia também era arreio de sua época).

Depois, isso foi reduzindo

essas coisas. Naquela época,

não tinha malhadeira, não

existia. Já de... um certo tem-

po que foi existi a malha-

deira, aí foi afugentando o

peixe. Agora tá... nóis já não

pega divido a tanta malha-

deira, arrastão...”

Foi então que, com

as transformações sócio-eco-

nômicas, o crescimento

populacional e a disputa

crescente dos pontos pes-

queiros – entre a pesca

artesanal de subsistência e a

Pescador do lago do Juá consertando sua rede.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

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Lago do Juá: Geograficamente urbano, socialmente rural.

pesca artesanal comercial – influenciaram a adoção de novas práticas na captura do pescado. Práticas legais como a malhadeira (70cm), a tarrafa (50cm de malha permitida), e ilegais como o arrastão, a cercadeira, a bubuieira. Arreios usados principalmente na pesca comercial.

Assim, as canoas modestas de antigamente foram substituídas pelos barcos motores, bajaras e grandes barcos chamados de geleiras. As canoas servem como coletoras dos peixes. São com elas que o pescador coloca e tira as redes de pesca. As geleiras são os depósitos de conservação do pescado. Todo o tempo, o pescador tem que estar na medida da lei. Através das toneladas permitidas em cada região, seguindo a legislação pesqueira das portarias publicadas pelo Ibama/Ministério do Meio Ambiente.

“Hoje o povo compra malhadeira com mais facilidade. Vou dá um exemplo.

Esse tempo, o tucunaré. O tucunaré, a gente vê muito tucunaré de filho. Muitos pirarucu. Mas devido a situação tá muito difícil, muitos se arriscam a pegá o tucunaré, a pegá o pirarucu que tá com filho. Até o peixe do defeso. Por causa da situação, né?

Porque nem todo... nem todas as pessoas, ele tem terra prá trabalhá, né? E mesmo a pessoa não tendo terra prá trabalhar ele vai sobrevivê da pesca, as vezes só do

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

extrativismo. Então, quando ele passa a viver só dessas coisas, então muitas vezes ele deixa de obedecer, né? As leis“. Depoimento do pescador Dileudo Guimarães dos Santos, comunidade do Bom Jardim, da região do Maicá.

Atualmente o pescador(a) como qualquer cidadão precisa respeitar as leis. Entretanto, as mudanças ocorridas na categoria abriram um abismo entre o pescador(a) de subsistência e o comercial. Em função da escassez de recursos, o primeiro se torna muitas vezes empregado do pescador(a) comercial. A autonomia do passado, de um mercado de escambo pode-se dizer assim, retrata na atualidade que, para viver da pesca o profissional tem que se aliar ao mercado de trabalho existente. Ele não pode crescer na competitividade usando somente os arreios de tempos atrás.

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Em função do precário estado econômico que vive o pescador(a), ele acaba tendo que entregar o seu produto para o atravessador. Por que ele entrega? Porque ele não tem dinheiro para pegar o gelo, não tem condições de atualizar seus arreios e nem de adquirir embarcações pertinentes que estejam dentro dos acordos de pesca.

O atravessador – que é um tipo de financiador – fornece o isopor, o gelo e o combustível para auxiliar o pescador(a). Mas, e se ele não pegar o peixe?

Barco motor e bajara: transportes utilizados na pesca artesanal comercial.

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Amazônia: Pescadores contam histórias

Para Rainério Batista, comunidade do Inanu, Lago Grande do Curuai ainda se encontra pescador(a) que não tem ganância. Ajuda aqueles que não são sócios da Colônia de Pescadores e que não podem possuir uma rede ou arreio semelhante para aprimorar a pesca. Ou que não tem a habilidade da pesca artesanal de arpão ou flecha. Assim como tem pescadores(as) que só estão interessados na comercialização e nada mais.

Já ouvi dizer que o pescador(a) não vende o pescado porque ele tem preguiça de esperar o consumidor. Será verdade ou ele é induzido? Bem pertinho dele está o atravessador com todos os aparatos para a venda! Quem perde é o pescador(a) e o 30

consumidor? Só quem ganha é o atravessador e os frigoríficos? Como reverter essa situação em favor do pescador(a)?

Raimundo Nonato de Sousa, comunidade do Juá, região da Cidade comentou sobre essa questão. “É bom deixar bem claro, que o pescador vende o peixe muito barato. Quem prejudica, na verdade o consumidor com os preços elevados é o atravessador. Pescador não rouba consumidor! “ A Colônia é quem poderá salvar a sua categoria, implementado cooperativas para que o pescado possa chegar a mesa do consumidor num preço menor. Ainda mais porque o peixe é a base da alimentação na Amazônia, junto com a farinha de mandioca.

O defeso, as leis de acordos comunitários e portarias de pesca servem para a preservação e conservação do estado pesqueiro nas regiões. Isso é que vai garantir a economia do pescador(a) e do pescado. No caso do pirarucu, quando entra o defeso, de dezembro a maio, paraliza a pesca. O que faz o pescador(a) que só sabe pescar o pirarucu?

Quem responde essa pergunta é José Orivaldo Silva Coelho, 40 anos, comunidade de Aracampina, região do Ituqui. “De certo tempo prá cá quem vivia só da pesca, atualmente não vive mais. Então a gente tem que ter outro lado, alternativa, a criação e a agricultura. E assim, dá o tempo para a conservação dos lagos, obedecer as leis de defeso, acordos e portarias de cada região. Melhora a situação para quem vive das três variedades que é a pesca, a agricultura e a criação. Lá em casa, quando a gente trabalha assim em grupo e então a gente faz o seguinte... Porque tem o tempo do defeso.

Então, é o tempo que a gente quase... fica na parte da agricultura e um pouco na criação, ajeitando a criação. E quando é agora, que abre, a gente pesca um pouco e também é o tempo que a agricultura já tá eliminando, que vai enchê.“

A pesca predatória e o atravessador são grandes inimigos do pescador(a). Mas não são os únicos. Pescador(a) tem inimigos nas águas também. Esses são os botos, piranhas, traíras, o mandií, o puraqué, jacarés e a arraia. O boto ataca as malhadeiras tirando os peixes e rasgando, acabando a pescaria. A piranha entra na malhadeira e se o pescador(a) não tiver cuidado pode sair sem seu dedo. Tem jacaré que come um pescador(a) adulto de dentro da canoa. Ameaçam os filhos e até comem mesmo. A sucurijú, a cobra grande, e os grandes temporais e seus raios mortais podem também ceifar a vida do pescador(a).

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

O pescador Aldo Santos, 56 anos, da região do Tapará, comunidade de Saracura, falou de outro inimigo do pescador(a). Com doze anos já arpoava pirarucu quando roubou a canoa de vela de seu pai. “Saí e me alaguei lá fora, por descuido. O que mais me mata nesse naufrágio, é que o homem que me apanhou é o pai de minha mulher hoje. Ele que me tirou do naufrágio. Eu tava lá no meio do Amazonas e ele viu e foi me buscá lá no meio do Amazonas. E me levou pro meu pai e recomendando pro meu pai não me batê. E hoje eu faço parte da família dele. E eu me dou bem com ele.“

As doenças do pescador(a) adquiridas na pesca

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Em função das carências alimentares – o não tratamento da água de beber e o descuido com a higiene do corpo aliado às condições de trabalho precário – o pescador(a) é atingido por muitas enfermidades. As dores musculares também são freqüentes devido aos movimentos repetitivos de remar e da forma como se acomodam na canoa, na postu-ra de sentar. Rita Maria Silva de Sousa, Vila do Curuai me despertou para essas dores que atormentam a pescadora(o), “dói as cadeiras passando horas à espera do peixe.”

Delmo me lembrou que talvez o maior problema do pescador(a) sejam as doenças.

“O pescador efetivo, ele tando mesmo na atividade ele não dorme. Toda hora da noite ele tá... vigiando malhadeira, fazendo tudo, não dorme a noite inteira. Por isso que a gente fica muito maltratado com esse negócio de pescaria. As cadera... tudo, tudo, tudo...“

Grande pescador artesanal de subsistência, Dorinelson Lopes Barbosa, 29 anos, morador da comunidade do Inanu, Lago Grande, me revelou o que ele as vezes come na pescaria. “A gente não come o dia intero... A gente vai fazê comida, muitas vez tá chovendo... não dá certo de fazê o fogo... chuva vem, apaga. Não tem lenha enxuta.

Aí, sabe o que a gente faz? Pega um pouco de farinha coloca numa cuia. Toma chibé!

Agüenta o dia inteiro. Aí, tu já pensô o alimento prum... pescador? Que tá ali direto...“

Dorinelson começou na pescaria com uns cinco anos e teve um grande mestre na arte de pescar o pirarucu, o pescador Olavo Rodrigues. Apesar de ter momentos duros na profissão não deixa de revelar sua paixão pelas águas amazônidas e pescar seus maravilhosos peixes. “ Gosto de pescá. Eu me dô melhor no rio do que em casa.

Mas mil vezes no rio do que em casa! A gente pesca, porque a gente gosta. Mas, a pescaria, nunca ouvi dizê que a gente ficava rico, não! Eu gosto dela. Eu não abro dela nem um segundo! “

Arreios errados podem também contribuir na má qualidade da saúde do pescador, não só na do peixe. Que o diga José Maria Gomes, também conhecido como Pelé, comunidade do Juá, região Pesqueira da Cidade de Santarém. “O papai pescava muito de lanterna de carboreto, né? Mas, só com... a pescaria dele era só com lanterna de carboreto. Daí, nóis ia pescá com ele. E aquilo me prejudicô muito a vista. Aquele fogo da lanterna, né? Problema dos rim. E aquela... pegava muito temporal, vento, chuva. Pegava a noite todinha com ele. Eu era novo, né? Não sentia nada. Mas,

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Amazônia: Pescadores contam histórias

depois, agora com idade de 40 prá 46, que eu tenho... Ontem eu cheguei lá em casa, tava pescando. Eu cheguei prá jantá. Disse ela:

— Vamo jantá!

Eu disse:

— Não, não quero jantá, não. Vou me deitá ali.

— Que que tu tem?

— O problema na coluna.

Disse ela:

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— Eu não ti disse prá ti não pescá, rapá!

Aí, eu fico... sinto muita dor de cabeça... que prejudica muito a gente, né? A pescaria. A gente que é já acostumado pescá. Os meus filhos não, que não estão acostumado pescá. Chuva, eles não querem pegá uma chuva. Não querem saí prá pegar um temporalzinho! Eu não, eu com idade de três anos quase que fomo comido pela cobra grande.”

Apetrechos de pesca predatória também são nocivos à saúde do pescador(a).

Em Santarém, existem muitas pessoas mutiladas pelas bombas caseiras. Sem braços, pés ou mãos. Tempos passados espelhados no presente. Uma vez, eu estava pescando no lago do Papucu, embaixo de uma árvore em meio a uma piracema de jaraqui. Ela cobria a minha canoa e me escondia em seus galhos. Quando eu vi que se aproximava um pescador bombeiro. Aí, me movimentei na canoa para que ele percebesse que eu estava ali. Eles costumam acender o pavio de suas bombas explosivas com o cigarro.

Mas, quando ele me viu ele não tocou no pavio da bomba. Se ele tocasse, eu não estaria escrevendo este livro.

Outra vez, pude perceber o grande impacto ambiental que causa essa pesca predatória. Estava pescando e minha garateia prendeu-se lá no fundo. Mergulhei para resgatar. Foi na hora que soltaram uma bomba distante de onde eu estava, pois eu ouvi lá do fundo a grande explosão, a terra estremeceu e as árvores balançaram. Na superfície, notei que estava surda e assim fiquei por alguns minutos.

A partir desse acontecimento, pensei: vou ficar pegando bomba na minha cara?

Não. Começamos, então buscar nossos direitos onde de fato existiam. Isso em 1997, por que essa prática de pesca com bomba já existia desde o final da década de 50. A bomba caseira foi usada em exaustão dentro da cidade de Santarém, no bairro do Maracanã. Exatamente no local onde os dois lagos urbanos se encontram, Mapiri e Papucu, região típica do peixe chamado jaraqui.

Somente em 1999, após uma mobilização dos pescadores(as), conseguimos exterminar essa pescaria nos lagos. Apesar da existência de uma torre de observação, outros tipos de crimes ambientais continuam adotados no tempo da seca, nos dois lagos. É nessa estação que os dois lagos se unem através das praias. Me entristece ver ainda hoje, pescadores(as) utilizando práticas predatórias na pescaria como a bomba caseira.

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

A salga

A salga era muito praticada no passado para conservar o pescado. Pois, na 33

época não existia outra forma de conservação. E para contar sobre a salga, eu visitei a região do Ituqui, na comunidade de Fé em Deus. Lá fui recebida com muito carinho pelo meu amigo Antonio Osmar de Oliveira Didiet, 45 anos, e sua esposa Dilza Maria Ferreira dos Santos, 40 anos.

O Ituqui é muito famoso na tradição da pesca e consumo do acari. Peixe com cara de pré-histórico muito consumido pela população amazônida, onde cada estado tem seu sabor peculiar.

Osmar é quem conta a salga! “São três tipos de salga. Existe a salga seca, existe a salga mista e existe a salga molhada. A salga seca é essa quando você abre o peixe, você lava o peixe, você coloca esse peixe prá ele escorrê. Toda aquela água, entende.

Então, não tem nenhum tipo de água ali. Aí sim, aí você pega o sal grosso, o sal bem sequinho que tá ali, né? Aí sim, você vai salgá aquele peixe. Você usa ele no sistema de varal, fora. Prá ele pegando um pouco de sal e o ar. Aí, você tem o trabalho de virar esse peixe. Ele já pegou aqui, vamos dizê assim, duas horas de sol de um lado, aí pega mais duas do outro. Você também tem que tê cuidado, né? Esse é só pra salga seca.

Chama-se secagem de peixe.

E como... a gente na época, a gente não tinha é... é...não tinha conhecimento, não tinha técnica de salga seca, salga mista e salga molhada, então a gente usava conforme nossos antepassados iam dizendo prá gente como seria a forma.

A salga seca era a mais usada no passado, a tradicional. Ia pro varal, certo? Aí, você tinha que ter o cuidado. Olha, no mínimo, se for bastante sol, três dias é o suficiente. De sol mesmo intenso, três dias é o suficiente. A durabilidade fica na facha de seis meses, se for bem feito o processo, bastante sal e a mão boa pra salgá, a ciência.

A salga era feita na própria comunidade e nos locais de salga também. No Igarapé do Santíssimo, tinha local de salga. Outros faziam a barraca em determinado local aonde seria mais próximo do peixe que tava prá ser pego. Então, eles traziam esse peixe de lá já todo cuidado aí eles pesavam com o patrão que já tava lá prá comprá esse peixe.”

Ou levavam o peixe salgado para os compradores na cidade depois que já tinham uma carga em torno de 100 quilos. Nas paragens de salga os pescadores(as) montavam o jirau para secar o peixe, acampamento de salga. O peixe pequeno em

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Amazônia: Pescadores contam histórias

geral perde metade de seu peso na

salga. Um pirarucu fresco de

50 quilos quando salgado, bem se-

quinho, fica em torno de 25 qui-

los.

Os peixes da salga que tem

mais durabilidade são o pirarucu,

surubim, dourada, cujuba e o

tambaqui. Tirando o pirarucu e o

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surubim como os mais vendáveis.

Mas, o caboclo salga qualquer tipo

de peixe para seu consumo. Atual-

mente a salga na região escasseou

Manta de pirarucu seco.

em função da vinda do gelo para

conservar o pescado.

“A salga mista ela já foi introduzida já há um tempo prá cá. Deve tá mais ou menos com uns 10 anos que foi entroduzida. E já era uma técnica já usada por até por outras cidades, né? Até mesmo por Santarém, mas nem todos, não era do conhecimento. Ela é mista porque é usado dois tipos de sal. Ela é usada o sal grosso e o sal fino. Fica num depósito não precisa você colocar no sal. Quanto mais a água tivé ali na salga mista melhor ainda. Então você tira o peixe dali parece que ele tá fresquinho. A salmora vai conservar o peixe, durando em torno de 15 dias.

A salga molhada, ela é uma salga onde você mistura também o sal grosso com o sal fino em um recipiente, um tanque ou uma bacia. Aí, você coloca água. Aquela água tem que ser água de sal mesmo. Aí, você pega o peixe depois do peixe bem cuidado, depois do peixe tirado todo aquele sarro que tem no peixe. Porque o peixe, ele tem uma parte que fica aquele sarro, que é o sangue que fica ali preso, sabe? Tipo uma veia assim. Se você não tirá bem aquilo, não limpá bem ele pode estragá. Aí, você mergulha ele naquela água.

Você mergulhô pronto. Tá prontinho o peixe ali dentro. O peixe na salga molhada também dura por 15 dias.”

A que dura mais é a seca. Infelizmente não tá mais se fazendo isso. Com a chegada de gelo prá Santarém, lá por volta, acho que desde 60, no famoso Bar Mas-cote, a fábrica de gelo.

Primeiro chegou o gelo em barra, depois o triturado e em seguida o de escama.

E com isso vieram também os grandes compradores, indústrias, filetagem do pirarucu fresco realizado pela indústria do pescado.

O mercado de consumo incentivou a invasão?

Sim, porque a demanda é maior que a produção do pescado.

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Dorenilce Maria Rodrigues Galúcio

A farinha de piracuí

A farinha de peixe é geralmente

feita do acari, como também do

tambaqui, da pescada, do cujuba. Tem

muita gente que faz até do jacaré. A tra-

dicional e apreciada é a do acari. A mais

saborosa, no meu paladar, é a do

tambaqui.

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A pescadora Rita Maria Silva de

Sousa, 53 anos, moradora na Vila do

Curuai, no Lago Grande, já fez muito

piracui na várzea do rio Amazonas. E é

Acari.

ela que conta como faz a farinha de

peixe. Depois de pegar o acari, “limpa bem. Bota prá assá. Depois de assado, dispilico tudo. Coloco no forno... Corto tudo miudinho e boto prá cozinhá o peixe no forno. Até que ele vá se dividindo todo prá fazê o piracui. A farinha. Tem que escolhê bem, tirá bem aquela espinha, aquele sarro do peixe, tirá aquele sarro do lombo prá não ficá cheio de farelo preto e gordura. Porque senão com, poucos tempo, dá o ranso.“

Também dá para fazer do acari cozido, sendo o processo mais rápido. A farinha fica mais limpa e mais branca. Mas, é do acari assado que a farinha é mais protéica, mais pesada e mais durável.Após o processo de transformação do peixe em farinha, aumenta o valor econômico e é uma forma de poupança para o pescador(a). Ele fabrica no verão, estação da seca amazônida e vende com um preço mais elevado na cheia, época do inverno na Amazônia, tempo das chuvas. E também é segurança da alimentação familiar dos povos tradicionais. Por ser bem leve rende bastante!