Amor bandido por Susanna Firth - Versão HTML

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Amor bandido

Susanna Firth

Título original: The Overlord

(1982)

Digitalização e

Coleção: Bianca 175 (1983)

revisão: Tina

Protagonistas: Lorena Williams

& Ramón Vance

"Sua moleca irresponsável! Isso é hora de chegar?" O

rosto de Ramón estava cheio de raiva, e ele parecia a ponto

de esganar Lorena. Era o homem mais detestável,

prepotente e mal-educado do mundo!, pensou ela. Mesmo

assim, estava louca por ele. Seria possível amar e odiar

alguém ao mesmo tempo? Apertou contra o peito o pacote

com o vestido novo que tinha acabado de comprar; o vestido

sensual, que acreditava capaz de realizar o milagre de fazer

Ramón perceber que ela era uma mulher atraente, e não

uma adolescente idiota. Que ilusão! Nunca poderiam

chegar perto um do outro sem brigar. Para ele, Lorena era

um aborrecimento. Não passava de uma simples e

incompetente empregada, naquela fazenda onde ele dava as

ordens.

Copyright: Susanna Firth

Título original: "The Overlord"

Publicado originalmente em 1982 pela

Mills & Boon Ltd., Londres. Inglaterra

Tradução: Everlyn Kay Massaro

Copyright para a língua portuguesa: 1983

Abril S.A. Cultural —São Paulo

Esta obra foi integralmente composta e

impressa na Divisão Gráfica da Editora Abril

S. A.

Foto da capa: Abril Press

Amor bandido – Susanna Firth

Bianca 175

CAPÍTULO I

— Papai, quero falar com você.

Lorena serviu-se de um pouco mais de

café e sentou-se com a xícara entre as

mãos, imaginando qual seria o melhor

meio de abordar o que a estava

preocupando. Tentara diferentes maneiras

de tocar no assunto nos últimos dias. mas

nenhuma delas dera resultado. Talvez

tivesse chegado a hora de falar claro.

Olhou para seu pai, sentado do outro

lado da mesa de jantar. O prato havia sido

afastado para o outro lado e ele estava

absorto na leitura de uma carta. Apesar de

a estância ficar bastante longe da cidade

mais próxima, costumavam receber a visita

do carteiro três vezes por semana, e o

ritual de abertura da correspondência, à

noite, era uma tradição de que se lembrava

desde que se conhecia por gente.

— Papai? — repetiu, ansiosa.

Mark Williams levantou a cabeça.

— Desculpe, querida, não estava

prestando, atenção. Acho que tenho estado

sozinho por tanto tempo que me tornei um

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pouco anti-social. — Deu uma risadinha. —

Veja só, você volta para casa depois de

todos esses meses, e seu único parente

vivo praticamente a ignora! Será que um

dia poderá me perdoar por isso?

— Não seja bobo. — Lorena olhou-o,

com carinho. — Sei que tem estado muito

ocupado. Quando foi que não esteve?

— Deve ser muito aborrecido ficar

sozinha o dia inteiro, e sei que não sou a

mais interessante das companhias à noite.

Não quer mudar de idéia sobre aquele

convite de sua coleguinha que mora em

Córdoba? Vou ver se consigo alguém para

levá-la. Infelizmente, não posso deixar o

carro com você porque...

— Não, papai.

— Isso me pareceu muito definitivo.

— E foi. — Ela mexeu na colherinha de

café com dedos nervosos e depois deixou-a

cair sobre o pires. — Não sou uma criança

que precisa ser distraída o dia todo. Já

estou bem crescidinha.

— Dezoito anos.

— Vou fazer dezenove no mês que vem.

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— Já está quase na idade de se

aposentar!

— Não brinque, papai. Estou tentando

falar sério.

— Por quê? Deixe isso para os velhos.

Você não tem nada com que se preocupar.

— Não, mesmo? — falou, quase com

rispidez.

— O que está querendo dizer? — Mark

franziu a testa. — Se é sobre a

universidade, creio que já ficou tudo

acertado. Concordamos que você só irá

para a Inglaterra no ano que vem. Ainda é

muito jovem, e eu não teria sossego em

deixá-la sozinha em Londres. Até lá, terá

tempo para se tornar mais adulta e

adquirir mais experiência de vida. Olhe,

querida, eu tinha dezesseis anos quando

vim para a Argentina e, acredite-me, sei

como é difícil começar a vida num país

estranho, mesmo tendo bons amigos.

— Não é isso — disse Lorena.

— Então, o que é?

— Papai, há alguma coisa errada, não?

— Bem, finalmente estava falando às

claras. Lorena deu um suspiro de alívio.

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O pai tentou rir.

— Está sonhando!

—Não, não estou. No início, pensei que

pudesse ser minha imaginação, mas já

estou aqui há uma semana e agora tenho

certeza de que existe algo esquisito no ar.

— Estudou o rosto do pai, tentando

encontrar uma resposta, mas em vão.

— Mal tivemos oportunidade de

conversar desde que você chegou...

— Sei disso, e é um dos motivos para

minha preocupação. Você sempre

trabalhou duro, enfrentando qualquer

desafio na administração, mas encontrava

tempo para relaxar. Agora, de repente, tem

trabalhado sem descanso, mal parando

para comer. E anda calado, nervoso, como

se tentasse resolver algum problema

insolúvel.

Mark Williams deu um suspiro e passou

a mão pelos cabelos, que tinham ficado

bem mais cinzentos desde que Lorena

esteve em casa pela última -vez. E as

rugas da testa pareciam mais tensas e

acentuadas. Estava envelhecido, pensou

ela, sentindo um aperto no coração. Não

era justo. Seu pai tinha pouco mais de

quarenta anos e, apesar de trabalhar duro,

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levava uma vida saudável, ao ar livre. Era

a preocupação que havia causado isso.

— Não sei o que dizer — disse ele,

finalmente.

— Por que não tenta a verdade?

Mark deu um suspiro.

— Não sei...

— Papai, não me deixe de fora. Fomos

sempre muito unidos, temos enfrentado

muitas adversidades juntos.

— Sim. Acho que tenho me apoiado

muito em você desde que sua mãe morreu.

Você tem sido um grande conforto para

mim, Lorena.

Ela sentiu os olhos se encherem de

lágrimas. Ann Williams morrera de câncer

há quatro anos, mas a perda parecia muito

recente e sabia que o pai ainda estava

inconformado. Piscou com força e tentou

aparentar calma.

— Então, por que não posso ajudar?

— Duvido que alguém possa.

Fazia muito tempo que não via o pai

tão desanimado, e uma sensação de medo

a fez estremecer. Seria tão mau assim?

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— Por favor, papai, conte-me o que

está acontecendo de errado.

Mark levantou-se e foi até a grande

escrivaninha de carvalho que ficava do

outro lado da sala. Remexeu numa pilha de

pastas e papéis, encontrou o que

procurava e voltou para a mesa.

— Leia isto — disse, dando-lhe uma

folha datilografada. — Pode explicar tudo

melhor do que eu.

Lorena leu a carta atentamente. Não

era longa, mas a linguagem não deixava

margem para dúvidas. A assinatura quase

ilegível parecia pôr um ponto final a uma

série de desaforos.

— Problemas — concordou. — Agora

estou entendendo. Oh, papai, por que não

me contou antes?

— Não quis aborrecer você. Acho que

fiquei esperando por algum milagre, mas...

— É verdade.

Mark encolheu os ombros num gesto de

desânimo.

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— É. Ele está certo... claro que está

certo. Eu devia ter enfrentado os fatos há

muito tempo. É tudo culpa minha.

— Isso é bobagem, papai, nem preciso

lhe dizer — protestou Lorena. com

veemência. — Você sempre conseguiu

cuidar de tudo com uma mão nas costas.

— Obrigado pela confiança, querida,

mas não é bem assim. Talvez tenha

conseguido fazer um bom trabalho quando

sua mãe ainda estava viva e com saúde.

Acho que perdi o ânimo quando ela

morreu. Não sei, parece que tudo ficou

diferente... O fato é que as coisas têm ido

por água abaixo e não me empenhei o

suficiente para resolver a situação.

— Mas ele está insinuando que você é

um preguiçoso. — Lorena apontava as

frases com gestos irritados. — Um

molenga, um vagabundo incompetente que

deixou as coisas virarem uma bagunça!

— E estão mesmo uma bagunça. Com

essa inflação desenfreada que o país está

enfrentando, os tempos têm sido duros.

Não consegui juntar dinheiro para

substituir o equipamento como costumava

fazer antes. Tive que despedir muitos

empregados porque não tinha como

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enfrentar os aumentos de salário. Além

disso, a mão-de-obra rural anda escassa, o

pessoal tem procurado as cidades para

conseguir empregos melhores na indústria.

Bem. o caso é que. com tudo isso. a

qualidade da nossa carne não é mais a

mesma e o mercado internacional está

difícil.

— Então, por que esse... esse... —

Lorena pegou a carta e tentou decifrar a

assinatura. — Esse tal de R. Vance não

levou tudo isso em conta, antes de pôr

toda a culpa em você?

— Não é assim tão simples, meu bem.

Proprietários de fazendas de gado não

pagam um administrador para ouvir

desculpas sobre problemas causados pela

economia de um país. Esperam que saiba

tomar as atitudes corretas para enfrentar a

situação. Foi onde falhei. Perdi o controle.

Algumas vezes, acho que só um milagre

fará as coisas retomarem o equilíbrio. Não

sei nem por onde começar a consertá-las.

— E o que vai acontecer?

— Agora não depende mais de mim.. Já

recebi muitas cartas me advertindo sobre a

situação e consegui dar algumas

explicações, mas acho que cheguei ao fim

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da linha. Você sabe que o proprietário

dessa estância é um consórcio que tem

muitos outros interesses financeiros.

Durante algum tempo, pude ir levando as

coisas porque o agente encarregado do

negócio de gado estava ficando velho e

querendo se aposentar, sem se empenhar

muito no trabalho. Bem, há uns dois

meses, fui informado de que agora há uma

outra pessoa em seu lugar. Sabe como é,

meu bem: esse novo agente quer mostrar

serviço para justificar a contratação.

— E você vai fazer o que ele está

pedindo?

— Não tenho escolha: tenho que

preparar um relatório detalhado sobre é

nossa situação financeira. Acho que

chegou a hora da verdade.

— E o que vai acontecer?

— Os números confirmarão a suspeita

de que há algo de muito errado. Que o

rancho não é mais um bom negócio. Por

minha causa.

— E então?

— Vou ter que enfrentar o inevitável.

Serei despedido e terei que procurar outro

emprego. Só Deus sabe onde vou conseguir

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um na minha idade e com a situação que o

país está atravessando.

Lorena ficou chocada. Imaginava que

havia problemas, mas não estava

preparada para o que acabava de ouvir.

Era assustadora a possibilidade de ter que

deixar o lugar em que nascera, a casa que

sua mãe havia transformado com tanto

esforço num lar acolhedor, as pastagens

onde cavalgava desde menina... O pior era

o efeito que uma coisa dessas causaria no

pai, que chegara ali com pouco mais de

vinte anos, recém-casado. Tinha

trabalhado duro para conseguir o cargo de

administrador. Era uma posição de

confiança, conquistada com suor e

dedicação.

Inclinou-se sobre a mesa e apertou a

mão do pai, tentando confortá-lo.

— Não se preocupe, vamos dar um

jeito. Vai ver como, no fim, tudo dará

certo. — Palavras, simples palavras, do

mesmo tipo que ele costumava usar

quando ela era menina, procurando

consolo para seus pequenos problemas

infantis.

— Estou muito mais preocupado por

sua causa, querida. Temos que pensar na

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sua carreira, no seu futuro. Não consegui

economizar muito durante todos esses

anos. Se não arranjar um bom emprego,

não teremos o suficiente para pagar seus

estudos na universidade; muito menos

para sua estada na Inglaterra. Nem sei se

poderei lhe dar um teto aqui mesmo. — O

rosto do pai estava sombrio. — Lorena,

será que pode me perdoar por eu ter

deixado as coisas chegarem a esse ponto?

— Também tenho minha parcela de

culpa. Devia ter notado como estava a

situação há mais tempo. Podia ter feito

alguma coisa para ajudar... sair da escola,

vir trabalhar aqui... seria mais um par de

mãos. Se tivesse me contado... — Parou,

desanimada. Era tarde demais para

recriminações. Agora, precisava ser prática

e positiva. — Olhe, papai, possível que

você esteja sendo pessimista demais.

Talvez o novo agente não seja tão ruim

como parece pela carta. Afinal, ele não

sabe todos detalhes. É possível que esteja

só querendo demonstrar que está por

cima.

— É uma carta muito positiva para

alguém que apenas analisa uma situação.

— Mark Williams falava com amargura. — O

homem parece ter um quadro bem claro e

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só querer confirmar sua opinião, antes de

agir.

— Mas ele não o conhece, nunca esteve

aqui em Vista Hermosa.

— Isso não é importante, meu bem. Ele

tem os números e os proprietários querem

saber de lucros.

— Não é justo! Aposto que esse homem

nunca saiu de Buenos Aires. O que pode

saber dos problemas que você está

enfrentando? Garanto que é igualzinho ao

outro agente, um careca barrigudo que

nunca viu uma vaca na vida e que sairia

gritando por socorro, se topasse com uma!

— Talvez — disse Mark, com um

sorriso. — Se ele for mesmo igual ao sr.

Holmes, é possível que acabe nos deixando

em paz.

— Mesmo se não for, por que a última

palavra tem que ser a dele? E os donos?

Por que você não vai falar diretamente

com eles? Talvez concordem em fazer

novos investimentos aqui.

— Não é assim tão simples, querida.

Antigamente, quando o proprietário era

uma só pessoa, podia haver essa

possibilidade. Hoje, porém, Vista Hermosa

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é apenas mais uma propriedade de um

imenso

conglomerado

financeiro.

Encarregam tipos como esse tal de Vance

de cuidar de seus interesses e não se

incomodam com o que ele faz, desde, que

tenham bons lucros.

— Então.,.

— Não podemos fazer mais nada. O

homem tem toda a autoridade Amanhã vou

lhe enviar a papelada que está pedindo e

depois

ficaremos

aguardando

os

acontecimentos. — Forçou um sorriso. —

Pode ser que você esteja certa: talvez seja

só uma tempestade num copo d'água.

— Claro que é! — Lorena procurou

colocar o máximo de confiança na voz. —

Daqui a alguns anos, olharemos para trás e

nem vamos acreditar que pudemos ficar

tão preocupados.

Porém, mais tarde, quando se

aprontava para ir dormir, sentia-se muito

incerta quanto ao futuro. Tinha procurado

demonstrar otimismo para alegrar o pai,

mas sabia que estavam diante de uma

incógnita. O agente tinha plenos poderes e

estava a quilômetros de distância. E se

decidisse que seria melhor substituir seu

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pai por alguém mais jovem, cheio de

energia e idéias modernas?

Lorena conhecia um pouco sobre o

mundo dos grandes negócios para ter

consciência de que ninguém se importava

com as pessoas, quando se tratava de

finanças. Naquele mundo, tão distante da

tranqüila Vista Hermosa, quem não

produzisse resultados era eliminado como

erva daninha. Um arrepio a fez estremecer.

A imaginação começou a falar mais alto. E

se tivessem que viver de esmolas, como

tantos estavam fazendo naquele país

supostamente tão rico? Quantas e quantas

vezes havia sido abordada por velhos,

mulheres e crianças, implorando por

alguns pesos para comprarem comida?

Sacudiu a cabeça, afastando essa idéia.

Que bobagem! Estava se deixando levar

pela autopiedade. Era jovem, forte e ativa.

Mesmo que o pai tivesse dificuldade para

encontrar uma colocação, nunca passariam

fome. Procuraria um emprego como

balconista, camareira, qualquer coisa. Era

pena não estar qualificada para exercer

uma profissão, apesar de ter freqüentado o

melhor colégio da região.

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As freiras sempre diziam que era ótima

aluna e que devia prosseguir os estudos,

tornando-se advogada, jornalista ou

professora universitária. Seu pai, um

homem atualizado, insistia em que

seguisse uma carreira. Apesar de a esposa

ter vivido satisfeita cuidando da casa, ele

achava que a mulher moderna devia

aspirar a muito mais do que isso.

— O que não significa que não tenho

esperanças de que você encontre o homem

certo e faça de mim um avô — dizia, com

uma risada.

— Você está longe de ter cara de avô —

brincava Lorena. — Bonitão como é, seus

netos vão chamá-lo de titio, e olhe lá.

Vamos esperar até você estar com os

cabelos todos brancos e com um andar

pesado!

E era assim que ele estava agora. A

preocupação destruía mais do que os anos.

Os cabelos castanho-avermelhados tinham

adquirido uma tonalidade cinzenta, quase

sem vida, e parecia não haver mais o

mesmo vigor em seu corpo magro.

Lorena sorriu ao se lembrar dos

comentários da mãe pelo fato dela ser tão

parecida com o pai, e foi se olhar no

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espelho. Sim, tinham a mesma cor de olhos

e cabelos, o mesmo corpo alto e esguio.

Examinou-se com um ar crítico. Seu rosto,

antes ossudo e infantil, agora mostrava

linhas bem marcadas, como via nas

mulheres das fotos de revistas de modas, e

que poderiam passar por beleza, se não

fossem acompanhadas por um nariz

arrebitado e boca larga demais. E o resto!

Fez uma carinha de desgosto. Os homens

argentinos gostavam de corpos mais

arredondados nos lugares certos. Ninguém,

em sã consciência, lhe daria um segundo

olhar. Talvez na Inglaterra ainda

conseguisse encontrar alguém que se

interessasse por tantos ossos. Não, ia

acabar mesmo uma solteirona.

Quando finalmente conseguiu pegar no

sono, sonhou que estava sendo perseguida

por um velho que lhe dizia, com voz

trêmula: "Case comigo. É sua última

oportunidade". Enquanto o empurrava com

repulsa, viu um nome escrito na lapela: R.

Vance.

Pelo resto da semana, ela e o pai

mantiveram suas conversas em assuntos

neutros, evitando tocar naquilo que estava

sempre presente em seus pensamentos.

Mark Williams gastou duas noites

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preparando o relatório sobre a situação

financeira da estância e Lorena ajudou-o o

melhor

que

pôde,

secretamente

horrorizada com a bagunça em que se

encontrava a contabilidade. Ela mesma foi

despachar o pacote no correio em Campo

Verde, a cidade mais próxima do rancho.

Depois, começou a espera. Um dia para

a correspondência chegar a Buenos Aires,

talvez dois ou três, se houvesse algum

problema. Então, o homem teria que ter

tempo para estudar o relatório e os livros,

antes de se decidir, o que levaria no

mínimo uma semana. Isso significava que

não receberiam uma resposta antes de uns

dez dias, ou até mais, se o agente não

tivesse algo mais urgente para fazer. Um

homem como aquele, pensava Lorena,

interessado apenas em números e lucros,

nunca se apressaria, imaginando que podia

haver pessoas morrendo de ansiedade para

saber qual seria sua decisão.

Mark Williams adotou uma atitude

fatalista. Agora que não precisava mais

esconder sua preocupação da filha, parecia

aliviado e quase feliz. Voltou a cuidar do

rancho com um entusiasmo que Lorena não

via há muito tempo, empenhando-se em

organizar a lavagem do gado com

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pesticida, um programa que acontecia

várias vezes por ano, como parte da

prevenção contra doenças.

Seu pai nunca seria um administrador

perfeito, pensou Lorena, vendo-o se

afastar, cavalgando ao lado de dois peões,

gaúchos dos pampas, sérios e

incrivelmente competentes no trato do

gado. Gostava demais de tudo aquilo, era

gentil e cheio de consideração com os

empregados, vendo-se como mais um

deles. Nada lhe dava mais satisfação do

que passar um dia inteiro na sela,

cuidando dos animais.

Era um mundo de homens, e Lorena

aceitava esse fato com naturalidade. O

machismo latino impedia qualquer

interferência das mulheres nas atividades

de uma estância, e os peões ficariam

chocados se ela tentasse invadir seu

território. Para um gaúcho, uma mulher

tinha outros usos.

O dia estava bonito e ensolarado. Uma

brisa agradável, ainda que um pouquinho

fria, soprava por entre os perfumados

eucaliptos que ladeavam a estradinha que

levava ao pátio em frente da casa. Lorena

ficou vendo os homens se afastarem, até

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não serem mais do que pontos na

distância, e depois entrou, com um

suspiro. Daria tudo para poder selar seu

cavalo e passar o dia cavalgando.. Num

rancho do tamanho de Vista Hermosa, era

possível percorrer quilômetros e

quilômetros sem se ver uma única pessoa-

e sem nem mesmo se avistar os limites da

propriedade.

Porém, havia muito serviço a ser feito

dentro de casa. Encolhendo os ombros, foi

para a cozinha, onde pegou o material de

limpeza. Sempre que voltava do colégio

interno, assumia a responsabilidade de

fazer uma boa faxina na casa. O pai se

esforçava para manter razoavelmente

limpos e arrumados os aposentos que

usava, mas sempre havia muito a ser feito.

Essa vez não era exceção. Seu quarto,

a cozinha e a sala dos fundos, onde

passava a maior parte do tempo, usando-a

para comer, fazer a contabilidade e ouvir

rádio à noite, estavam bastante limpos,

mas o resto dos cômodos era uma

verdadeira lástima. Ao voltar do colégio,

Lorena decidira que, nesse ano que ficaria

em casa, se encarregaria de fazer Vista

Hermosa voltar a ser o lar que havia sido,

quando sua mãe ainda estava viva.

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Não desistiria dos seus planos, só por

causa daquele velhote de Buenos Aires que

podia despejá-los a qualquer instante. Foi

para a sala de visitas, o cômodo mais

bonito da casa, onde sua mãe, nos velhos

tempos, costumava receber as amigas e

visitantes de outros ranchos e mesmo de

outras cidades.

Os móveis e tapetes estavam cobertos

de poeira. Pouco depois, atacando a

sujeira com todo o vigor, Lorena tossia e

espirrava, dando graças por estar com um

lenço amarrado nos cabelos e um vestido

velho e confortável. Ao passar a flanela

pelo grande espelho de parede, decidiu que

estava em piores condições do que a sala,

mas continuou com o trabalho, sabendo

que atualmente não corria o risco de

receber uma visita inesperada.

Foi então que ouviu o automóvel.

Correu para a janela e deu uma espiada.

Tinha que ser um alarme falso. Não

estavam esperando ninguém. Exceto...

não... seria impossível. O tal sr. Vance

ainda não teria tido tempo para mandar

alguém para fazer uma vistoria na

estância.

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Mas um carro entrava mesmo em Vista

Hermosa. Lorena viu a caminhonete vindo

pelo caminho asfaltado, deixando atrás de

si uma nuvem de poeira que levantara ao

atravessar a estrada de terra que levava

aos currais. Em poucos momentos,

estacionava em frente do jardim