Amores Imperfeitos por Claire Gavin - Versão HTML

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Prefacio

er sozinho é uma coisa muito relativa, como dizem você pode estar entre

um milhão de pessoas e se sentir sozinho ou então estar só em uma

S floresta e se sentir aconchegada, bem, eu sou sozinha por natureza, mas

nunca me senti assim.

Meu nome é Dominick Lowe, mas todos me chamam só de Nick, eu sou órfã...

Morei minha vida toda no Orfanato Path of Love no estremo sul da Filadélfia,

um lugar maravilhoso, com muitos animais e uma mini floresta em volta, tenho

16 anos e sai de lá poucas vezes em minha vida.

Fui adotada uma vez, quando tinha um ano e meio. Passei quase quatro anos

com a família Willians, foi onde conheci Colin, meu irmãozinho autista, ele

nasceu seis meses depois que a família me adotou, os pais queriam uma

irmãzinha para ele. Mas voltamos para o orfanato quando Colin tinha pouco

mais de três anos, pois seu pai teve um surto psicótico causado por drogas e

matou a mulher e a si mesmo com uma faca de cozinha.

Escapamos por pouco, eu que na época tinha pouco mais de cinco anos percebi

o que estava acontecendo e tirei Colin da casa, seu pai me viu tirando ele, e se

assustou, provavelmente em sua loucura me viu também como uma ameaça, e

enquanto eu corria agarrada a Colin ele me atingiu nas costas, me deixando

uma cicatriz de presente, um risco partindo do meu ombro direito com 13

centímetros de cumprimento.

Há duas coisas em que eu sou realmente boa... Coisas que aprendi dentro do

orfanato, incentivada pelos meus anjos, e é no piano e em me defender, e foi

graças a uma destas coisas que consegui lugar em uma importante academia

educacional, a Academy McFaller para alunos com grandes aptidões.

E é lá que tudo acontece...

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er sozinho é uma coisa muito relativa, como dizem você pode estar entre

um milhão de pessoas e se sentir sozinho ou então estar só em uma

S floresta e se sentir aconchegada, bem, eu sou sozinha por natureza, mas

nunca me senti assim.

Meu nome é Dominick Lowe, mas todos me chamam só de Nick, eu sou órfã...

Morei minha vida toda no Orfanato Path of Love no estremo sul da Filadélfia,

um lugar maravilhoso, com muitos animais e uma mini floresta em volta, tenho

16 anos e sai de lá poucas vezes em minha vida.

Cresci sem conhecer meus pais, sem saber por que fui abandonada, mas não me

sentia abandonada, porque eu estava rodeada de outras pessoas que sempre me

deram carinho.

Nunca tive uma mãe para me abraçar e para me cuidar, mas tive a Mãe Sira, a

madre que comanda o orfanato, uma freira que deixou o convento e uma vida

de sucesso como pianista para abrir um orfanato, mulher forte e amorosa que

sempre esteve por perto quando precisei, me apoiando e me ensinando a ser

uma pessoa de bem.

Nunca tive um pai para me levar para a escola e para ser ciumento de mim em

relação aos garotos, mas tive o Papa Tony, o jardineiro do orfanato, homem

simples e muito carinhoso, que me mostrou a beleza da natureza, e a cuidar das

criaturas com amor e carinho, assim como ele cuidava de mim.

Eles não são meus pais biológicos, são mais que isso, são anjos amados que

Deus enviou para cuidar de mim, para me guiar quando eu mais precisei, assim

como a muitas outras crianças.

Sem contar as crianças, dezenas que passaram por mim no decorrer dos anos,

alguns entravam e não ficavam muito tempo, aquelas pequenas fofuras que

logo eram adotadas, e outras, que permaneciam, pois já eram grandes demais

ou tinham alguma deficiência e não eram adotadas.

Fui adotada uma vez, quando tinha um ano e meio. Passei quase quatro anos

com a família Willians, foi onde conheci Colin, meu irmãozinho autista, ele

nasceu seis meses depois que a família me adotou, os pais queriam uma

irmãzinha para ele. Mas voltamos para o orfanato quando Colin tinha pouco

mais de três anos, pois seu pai teve um surto psicótico causado por drogas e

matou a mulher e si mesmo com uma faca de cozinha.

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Escapamos por pouco, eu que na época tinha pouco mais de cinco anos percebi

o que estava acontecendo e tirei Colin da casa, seu pai me viu tirando ele, e se

assustou, provavelmente em sua loucura me viu também como uma ameaça, e

enquanto eu corria agarrada a Colin ele me atingiu nas costas, me deixando

uma cicatriz de presente, um risco partindo do meu ombro direito com 13

centímetros de cumprimento.

Depois disso nunca mais quis ser adotada, passei a cuidar de Colin e não me

interessava em ter novos pais, então eu sempre me escondia quando tinha

visitas.

Sempre gostei muito disso... Esconder-me... Sumia sem deixar rastros... Às

vezes ficava brincando com os animais da fazenda, às vezes ficava deitada perto

do riacho pensando no futuro ou lendo um livro.

Mas é claro que ninguém mais se preocupava, porque sabiam que eu voltaria,

afinal, o orfanato fica em uma fazenda, grande o suficiente para ter muitos

lugares para uma criança levada se esconder, mas nada perigoso demais.

Há duas coisas em que eu sou realmente boa... Coisas que aprendi dentro do

orfanato, incentivada pelos meus anjos, e é no piano e em me defender, e foi

graças a uma destas coisas que consegui lugar em uma importante academia

educacional, a Academy McFaller para alunos com grandes aptidões.

Deixar meus pequenos irmãozinhos adotivos foi difícil, Colin o mais velho dos

3 agora com 14 anos foi mais forte, mas o fato dele ser autista também atrapalha

um pouco, os autistas não demonstram emoções.

Mas Colin superou muitas dificuldades do autismo no orfanato, agora era um

jovem alto e bonito, com cabelos e olhos pretos e uma língua afiada para

respostas. Tinha muita habilidade com aparelhos eletrônicos, lia muito e

conseguia consertar praticamente tudo.

Carlie, com 12 anos, pequena, loirinha dos olhos verdes prateados era

completamente surda, desde que nasceu, chorou muito sem se importar em

parecer forte, como sempre fazia. E Jack, o mais novo, com apenas 5 anos, a

única criança ruiva do orfanato, não entendeu muito bem, mas me abraçou

forte e chorou ao ver Carlie chorando.

Eu me mantive neutra, fui capaz de abraçar todos sem chorar, apesar de ser

chorona por natureza não gostava de chorar na frente das pessoas, então

agüentei firme.

Dentro do ônibus, que me levava até o centro da cidade, pensava nas pessoas

que deixava para trás. A despedida fora difícil, apesar de me achar uma pessoa

forte, de não gostar de deixar os menores me verem chorando, foi por pouco

que mantive os olhos secos.

Mas era principalmente por eles que aceitara a oferta de Mãe Syra, estudar

piano em um lugar como o grande Conservatório de Boston onde Mãe Syra se

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formará seria excelente para ter um bom futuro, e assim poderia ajudar meus

pequenos, já que Mãe Syra e Papa Tony jamais abandonariam o Orfanato.

A viagem que de carro demoraria cerca de uma a duas horas demorou

praticamente três de ônibus, diante de todas as escalas cheguei à praça central

da cidade as dez e cinqüenta da manhã. Desci do ônibus com minha única mala

e caminhei um pouco observando a paisagem.

Nós nunca saíamos do Orfanato, então não conhecia a cidade, mas havia visto

fotos pela internet, com medo de me perder achei melhor saber o que fazer

quando chegasse. Então me encaminhei para a lateral da praça onde eu sabia

haver um ponto de taxi, logo avistei um senhor encostado em um dos carros

com um jornal nas mãos.

― Bom dia Senhor, eu preciso ir para a Academia McFaller, quanto fica? -

Perguntei enquanto me aproximava um pouco.

― Bom dia minha jovem, fica cerca de 20 dólares, a Academia é um

pouco afastada você deve saber. ― Respondeu o Senhor dobrando o jornal.

― Sei sim ― Sorri ao lembrar que Mãe Syra me dera 50 dólares, prevendo

que a corrida até a Academia ficaria em torno de 20 ou 30 e me sobraria um

pouquinho para tomar um sorvete se quisesse.

― Então vamos lá, posso colocar sua mala no bagageiro? Perguntou ele já

o abrindo.

―Sim, claro, por favor.

Após guardar a mala seguimos caminho para a Academia, ao qual chegamos

cerca de vinte minutos depois. Um grande complexo com prédios de estruturas

magníficas forma a Academia McFaller.

Três grandiosos prédios eram vistos por cima do muro alto que rodeava o

complexo, o central era o mais alto, vários andares eram visíveis. Todo pintado

da cor bege com detalhes em bronze e um grande letreiro com o nome da

escola.

O prédio a esquerda da entrada era menor, mais quadrado, pintado de um tom

de amarelo claro, tinha três andares visíveis, e inúmeras janelinhas. O último

prédio, à direita e um pouco mais afastado era azul, com o telhado

arredondado, parecia ser um ginásio ou algo do tipo, já que era todo fechado.

Ao pararmos no grande portão de bronze um guarda que estava dentro da

guarita apareceu na janelinha.

― Pois não, o que desejam? ― Perguntou olhando em minha direção.

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― Sou uma nova aluna, meu nome é Dominick Lowe ― informei. Ele

pegou uma prancheta na mão e começou a vasculhar, na certa procurando meu

nome.

― É claro Srta. Lowe, Madame Phisman está aguardando sua chegada.

Pode seguir direto para o prédio central, vou avisar que chegou assim ela irá

recebe - lá ― Ele disse enquanto apertava um botão e o grande portão começava

a se abrir. Em seguida pegou um telefone e discou rapidamente, quando

estávamos atravessando o portão ele começou a falar com a pessoa do outro

lado.

O caminho que levava até os prédios era todo pavimentado, ladeado por

canteiros lotados de flores lindas que teriam feito Papa Tony abrir um grande

sorriso e se embrenhar no meio delas. O taxista foi andando devagar, como que

para me deixar analisar o local.

Eu conseguia ver que logo atrás do prédio azul havia um pequeno prédio que

parecia ser uma igreja, com certeza, sabendo que a dirigente da escola havia

sido freira juntamente com Mãe Syra, ela ainda deveria ter uma grande

devoção.

Todos os prédios eram bem conservados e demonstravam que a Academia era

uma instituição muito bem freqüentada, mas eu não avistara nenhum aluno.

Talvez estivessem em horário de aula ainda.

Chegando a frente do grande prédio central o taxista parou, bem quando uma

senhora de meia idade vinha descendo os degraus de entrada. Ela era uma

mulher muito conservada pela idade que tinha, segundo Mãe Syra ela deveria

ter em torno de 50 anos, mas aparentava uns 40 no máximo, uma pele

azeitonada com imensos olhos azuis, que me lembravam o céu logo após a

chuva, claros e límpidos, vestia-se sobriamente e mantinha os cabelos pretos

presos em um coque baixo.

Desci do carro enquanto o taxista pegava minha mala. Paguei a corrida e virei

para a diretora da Academia.

― Dominick, enfim você chegou. Estava ansiosa para conhece - lá, Irmã

Syra falou tanto de você que sinto como se já a conhecesse ― Sua voz era

melodiosa, calma, não conseguia imaginar essa mulher gritando com alguém.

― Eu gostaria de agradece – lá Sra. Phisman, pela oportunidade que me

ofereceu, é muito importante para mim, conseguir essa bolsa de estudos –

agradeci meio sem jeito com a sinceridade exprimida por ela.

― Que isso minha querida, não precisa agradecer, esta Academia esta

aqui para encontrar talentos e encaminhá-los, você pelo que eu soube tem um

grande dom, espero que aqui possa encontrar um caminho também ― Ela se

aproximou e me abraçou, quase tão ternamente como Mãe Syra.

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― E não precisa de tanta formalidade, quando estivermos juntas me

chame só de Irmã Lizbeth certo?

― Certo Irmã Lizbeth, então me chame só de Nick, Dominick é para

quando estão bravos comigo ― ela se afastou rindo ― tudo aqui é tão bonito, há

tantas flores e árvores ― disse observando ao redor para disfarçar minha

timidez.

― Sim é verdade, eu amo a natureza e faço o possível para preservar a

mata que existia aqui antes da escola, ao fundo, depois dos prédios há uma

parte da floresta intacta ― ela me contou apontando para trás do grande prédio

central. ― Você terá oportunidade de conhecer tudo nos fins de semana e nas

suas horas vagas, agora se você puder me acompanhar vou levá-la ao seu novo

quarto.

Eu concordei e segui-a em direção ao prédio quadrado amarelo.

― Este é o prédio dos dormitórios, todos os alunos e funcionários

dormem neste prédio, somente eu e os professores dormimos no prédio central,

nossos aposentos ficam conjuntos a nossa respectiva sala ― informou ela

enquanto caminhávamos.

― Quantas pessoas dividem os quartos? ― por estar acostumada a dividir

o meu não me importava muito, mas queria saber quantas pessoas iria conhecer

de imediato.

― Somente duas, querida, você dormirá com mais uma jovem, que já se

encontra aqui, pois nossas vagas estão todas preenchidas agora, só havia mais

um lugar vago e é onde você ficará. Espero que você se dê bem com Alyssa, ela

é meio temperamental, mas é uma exímia cantora, a música geralmente a

acalma ― ela pareceu ficar meio sem graça com ter que falar na garota. ― Irmã

Syra disse que você tem uma grande percepção quanto às pessoas, tenho

certeza que saberá se relacionar com ela, e com todos aqui, você verá que assim

como temos todos os tipos de aptidões nos também temos todos os tipos de

personalidade.

― Eu imagino que sim, aprendi a lidar com essas diferenças no orfanato,

acredito que não terei problemas aqui ― comecei a imaginar o tipo de gente que

iria conhecer aqui.

― Nossos alunos vêm de diferentes classes sociais, mas a maioria tem

boas condições financeiras, e possuem digamos, um pensamento um tanto

quanto equivocado sobre o que é realmente importante na vida, mas como nós

estamos aqui para direcioná-los em suas carreiras, não podemos mudar

personalidades. ― Mais uma vez ela se mostrava sem graça, imaginei que ela

tivesse problemas com alguns alunos.

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― Compreendo, deve ser difícil para a Senhora lidar com tantos jovens e

seus temperamentos em ebulição todos os dias ― Eu entendia porque era

exatamente assim no orfanato, só que em uma escala menor.

― Sim, é realmente difícil, mas fazemos o possível para passar uma idéia

correta a todos, do que é certo e errado, e tentamos ao máximo evitar situações

vexatórias aos outros alunos, mas eu sinto dizer que é provável que você se

depare com alguns preconceitos, se isso acontecer não se acanhe em me

informar, por favor. ― Percebi que ela estava me avisando de possíveis

dificuldades à frente.

― Não se preocupe Irmã Lizbeth, eu sei muito bem lidar com situações

complicadas ― tranqüilizei-a. Ela pareceu respirar mais levemente, mas ainda

mantinha a expressão preocupada.

― Eu sei que você saberá sair destas complicações se elas aparecerem,

Irmã Syra me informou que você também sabe se defender ― ela parecia rir-se

de alguma coisa que eu não entendi.

― Sim, é verdade, espero não ter que chegar a tanto, pode ficar tranqüila

Irmã Lizbeth vou me esforçar para me dar bem na Academia.

Ela sorriu para mim, mostrando dentes perfeitamente alinhados e brancos.

Chegamos à frente do prédio e adentramos a porta grande de madeira maciça.

Me deparei com a maior sala que já vi em toda a minha vida, provavelmente

devia pegar metade do prédio, com muitas poltronas, sofás, pufs, tapetes,

televisões, computadores, mesas de jogos, refrigeradores, mesinhas, estantes e

diversos ornamentos.

O interior do aposento estava organizado e limpo, nos sofás havia almofadas

bonitas e fofas, as poltronas estavam agrupadas próximas em grupos, algumas

perto das televisões outras perto dos computadores, tudo muito bonito

misturando peças antigas com a modernidade dos aparelhos.

― Uau, quanta coisa ― fiquei boquiaberta com a profusão de cores e a

diversidade das coisas.

― Aqui é a chamada sala comunal, onde todos os alunos passam seu

tempo livre, você pode aproveitar tudo o que tem sempre que quiser ― Irmã

Lizbeth me deu um tempo para absorver tudo e disse ― Vamos querida, os

quartos ficam lá em cima.

― Oh sim, claro ― Parei de admirar as coisas da sala e segui Irmã

Lizbeth pela lateral do aposento, no qual havia outra porta de madeira,

entramos e começamos a subir a escada de mármore que havia ali.

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ubimos dois lances de escada ornamentada, cada um com dez degraus

pequenos, havia muitos quadros na parece, com fotos novas e antigas

S mostrando gerações de alunos e seus dons, por fim saímos de frente para

o grande corredor do primeiro andar do prédio.

― Este é o andar do primeiro ano, mas como você chegou por último não

há mais vagas neste andar, você ficará junto com o pessoal do segundo ano, que

é onde Alyssa está, e logo depois tem o andar do terceiro ano, os veteranos da

Academia ― informou Irmã Lizbeth se encaminhando para o outro lance de

escadas.

Subimos mais dois lances iguais e chegamos ao segundo andar, sem parar Irmã

Lizbeth foi se encaminhando para o fim do corredor. Passamos por diversas

portas e em cada uma delas tinha uma plaquinha diferente, algumas com

nomes outras com desenhos variados do tipo “Caia Fora” ou “Não se Aproxime” .

Ao chegar quase ao final do corredor, faltando apenas duas portas Irmã Lizbeth

parou em frente a uma porta que tinha um pôster grudado. A banda Green Day

estampava o pôster, uma banda muito boa que eu também gostava.

― Este aqui é o quarto que dividirá com Alyssa, ela está em aula

juntamente com todos os outros alunos, então você pode guardar suas coisas,

tomar um banho e descansar um pouco, logo ela retornará para deixar os

materiais no horário do almoço e você poderá conhecê-la ― Irmã Lizbeth me

disse abrindo a porta do quarto para mim.

― Certo obrigada Irmã Lizbeth ― Agradeci a gentileza, mas antes de

entrar ainda tinha uma dúvida ― E quando eu devo começar as aulas Irmã, eu

devo me informar com os alunos do primeiro ano sobre minhas aulas?

― Não minha querida, sobre a sua cama já esta todo o seu programa de

aulas, horários, disciplinas extras, uniformes e tudo o que vai precisar não se

preocupe, se você estiver bem depois do almoço poderá ir as aulas - Respondeu

ela sorridente ― Eu vou indo agora querida, espero que fique bem, caso precise

de mim é só me procurar no prédio central, ok?

― Sim Senhora, Irmã Lizbeth, obrigada ― E assim eu entrei no quarto e

ela logo depois fechou a porta para mim.

O quarto era grande, com duas camas, duas mesas de cabeceira, dois guarda-

roupas embutidos e uma porta de madeira que provavelmente deveria ser o

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banheiro. A mobília do quarto era toda antiga, de madeira vermelha,

ornamentado com tapetes mesclados e cortinas claras pesadas na janela.

O lado esquerdo do quarto era todo preenchido com pôsteres diversos, bandas,

atores, cantores, filmes, de tudo um pouco, mas a maioria era sobre rock. Havia

livros e muitos cdś sobre a mesinha e vários objetos de uso pessoal. Algumas

roupas sobre a cama e sapatos largados pelo chão.

As aulas haviam começado naquele dia, mas minha companheira de quarto

deveria ter feito um desfile de modas para escolher o que usar junto com o

uniforme para assisti-las. Algo denotava rebeldia, mas havia indícios de

sentimentos positivos no meio da bagunça, como por exemplo, o pijama cor de

rosa que escapava debaixo do travesseiro, ou os ursinhos de pelúcia que eram

usados para pendurar as bijuterias.

Sobre a cama do lado direito, que ainda estava arrumada havia materiais de

todos os tipos, livros, cadernos, canetas, pastas.

Dois conjuntos de uniformes com o símbolo da escola e uniformes, que

provavelmente era para praticar esportes estavam perfeitamente dobrados a

um canto da cama.

O uniforme para aulas era composto por duas camisas bege, uma de manga

longa e uma de manga curta com o símbolo da Academia sobre o lado esquerdo

do peito que é uma estrela dourada sobreposta pelas letras A e M em azul

escuro. Uma saia de pregas e uma calça social, ambas azuis escuras, um

casaquinho de botões também azul escuro e duas gravatas xadrez de bege com

azul escuro.

Já os de esportes eram um moletom e um conjunto com camiseta e shorts cinza,

ambos com o símbolo da Academia, além de dois maios azuis, um jaleco

branco, um par de luvas e dois óculos de proteção que provavelmente era para

aulas de laboratório. Quatro pares de meias da cor azul escuro, até o joelho, um

par de sapatos estilo boneca e um tênis esportivos ambos pretos.

Fiquei admirada com o tanto de coisas, e fui examinar-las para ver se as roupas

e sapatos eram meu número. Estavam todos certos, imaginei que Mãe Syra

tivesse passado a informação a Irmã Lizbeth.

Abri o guarda-roupa, que se encontrava vazio, a não ser por três toalhas de

banho que estavam dobradas em uma das prateleiras, e comecei a guardar as

coisas. Pendurei os uniformes, todos, porque afinal eu não tinha roupas o

suficiente para encher aquele enorme guarda-roupa.

Coloquei os sapatos em baixo, os materiais nas gavetas e quando tudo que

estava sob a cama foi guardado abri minha mala sobre ela e avaliei minhas

coisas para começar a guardar.

Eu tinha apenas três pares de sapatos, fora o tênis azul que eu usava naquele

momento, um chinelo de dedo, uma sandália marrom sem salto e uma

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sapatinha preta para dias de missa ou festa no Orfanato, coloquei todos junto

com os outros dois que acabara de ganhar.

Minhas roupas se resumiam a duas calças jeans, três blusinhas de sair, duas

camisetas para o dia a dia, duas blusas de frio e algumas roupas íntimas, fora a

calça e camiseta que eu estava usando, é claro. Pendurei tudo e mesmo assim

sobraram cabides.

Então me deparei com o que realmente enchia minha mala, meus livros,

diversos livros, coleções e coleções que eu havia conseguido através de muito

esforço.

Alguns comprei em sebos, outros encomendei pela internet com a ajuda de Mia,

a secretária de Mãe Syra no Orfanato, mas todos com o dinheiro que ganhara

fazendo pequenos serviços que eram vendidos na comunidade próxima, como

pintura em guardanapos, bordados, cachecóis entre outras coisas.

Coloquei a maioria nas prateleiras dentro do guarda-roupa, deixei sobre a

mesinha apenas os dois que estava lendo no momento. Tendo por fim

esvaziado a mala coloquei-a no compartimento de cima do guarda-roupa.

Seguindo o conselho da Irmã Lizbeth, peguei uma toalha, minha bolsinha de

objetos pessoais e fui tomar banho. O banheiro também me surpreendeu, não

era tão grande, mas com certeza era maior do que eu imaginava, e tinha um Box

de vidro fosco que separava o chuveiro do lavatório e possuía um grande

gabinete repleto de produtos para higiene, dava para perceber que a escola não

poupava nada.

Tomei um banho quente e gostoso, demorei mais do que o normal e deixei a

água relaxar meu corpo. Quando sai uma grande nuvem de vapor preenchia o

banheiro, sequei o espelho, fiz minha higiene bucal, penteei meus cabelos, que

eram longos e ondulados naturalmente, nunca pintara meus cabelos e eles

possuíam uma cor castanha avermelhada que molhados chegavam ao preto.

Observei meu reflexo no espelho, uma coisa da qual eu não tinha costume já

que no orfanato havia somente um espelho e eu não o considerava tão

importante para olhar para ele todo dia, mas agora ele estava a minha frente,

então encarei meus olhos, que eram a parte do meu corpo que eu mais gostava.

Meus olhos são verdes, redondos e sombreados por cílios grandes, mas é um

verde diferente, tenho três tons de verde mesclada, sempre imaginei se herdei

essa peculiaridade da minha mãe ou do meu pai.

Meu rosto é meio oval, meio quadrado, nunca soube realmente o que ele é,

tenho queixo meio pronunciado com maças do rosto bem marcadas e lábios

intermediários, tipo não tenho lábios finos, mas também não sou uma Jolie, é

claro.

Cansei de olhar para os meus defeitos e resolvi ir para o quarto me trocar, mas

ao sair do banheiro percebi que eu não estava mais sozinha no quarto, minha

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colega de quarto estava deitada em sua cama, com as pernas cruzadas e fones

de ouvido.

― Ora, finalmente, achei que você não fosse sair mais ― disse ela olhando

em minha direção, ela estava com o a saia e a blusa do uniforme, mas por cima

dele ela usava um casaquinho preto próprio e não usava as meias e o sapato da

escola, usava uma meia calça xadrez preta e uma bota de cano médio também

preto. ― Você deve ser minha novata bolsista companheira de quarto.

― Sim, sou eu, prazer em conhecê-la Alyssa, a Sra. Lizbeth falou muito

bem de você ― percebi que ao se referir a mim ela fez de forma debochada, mas

parecia ser para disfarçar certo interesse em mim.

― Eu imagino que sim, Irmã Lizbeth não diria a você que sou o diabo em

pessoa, não é ― falou naturalmente ainda me observando discretamente.

Eu ri e fui em direção ao meu armário para começar a me trocar. Coloquei as

roupas de baixo e separei o uniforme igual o dela e comecei a colocar.

― Realmente, ela não me diria isso, mas não acredito que você seja o

diabo em pessoa, acho que você tem uma grande dose de rebeldia misturada

com paixão. Eu sei que está Academia tem todo tipo de pessoas e seus dons, e

imagino que seja necessário se impor para não ser devorado, acredito que é isso

que você faz. ― Ela ficou me observando com olhos arregalados, na certa

achando que eu sou louca.

― Garota, ou você é meio maluca ou você é a pessoa mais direta que eu já

conheci ― disse ela e começou a rir. ― Bem, você esta certa em partes, aqui você

tem que se impor para não ser devorado, e você será devorada em breve, mas

eu sou ruim de verdade, sou má, e não me desminta, tenho minha reputação

para manter.

Eu ri mais uma vez enquanto abotoava minha camisa, percebi que ela estava

mais animada ao ir me conhecendo. ― Eu não estou a fim de ser devorada, vou

ficar na minha e me manter longe de problemas, preciso desta vaga para

conseguir uma bolsa para algum conservatório bom.

― Ah minha querida, aqui ninguém quer ser devorado, mas eu já fiquei

sabendo que a sua especialidade é o piano, e só para ficar ciente, nossa pianista

famosa é do Congressista Schnyder, Tiffany Schnyder, veterana, e ela sim é o

diabo em pessoa, é bem pior do que eu e não vai querer perder o posto dela

para você.

Ela parecia estar considerando o que fazer para me ajudar, pois sentou na cama

e ficou com uma cara pensativa me analisando.

― Eu não me importo se ela seja filha do presidente, eu vou lutar para

conseguir uma bolsa de estudos, ela provavelmente tem uma garantida já ou o

papai dela pagará para ela, eu não tenho quem pague por mim, então ela não

tem porque brigar comigo. ― Respondi sinceramente, afinal a garota já estava

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para sair da Academia, não precisaria se preocupar comigo, que ainda estava no

primeiro ano.

― Oh é claro que ela tem, porque se você for boa como Irmã Lizbeth

anunciou provavelmente vai concorrer contra ela e poderá até ganhar o

concurso de fim de ano, o que tiraria a glória da Tif, já que ela ganha desde o

primeiro ano. ― Alyssa na verdade parecia meio feliz com a novidade, eu

começava a perceber que ela não gostava da garota. ― A não ser que você esteja

pensando em deixá-la ganhar.

― Ora, mas é claro não, ela ganhará se tiver mérito ― afinal se eu

ganhasse seria mais um ponto positivo no meu currículo ― mas você acha que

ela vai fazer alguma coisa contra mim?

― Bem... nada de mais, tipo, humilhações públicas, sabotagens,

corrupção do seu namorado, essas coisas, normal para ela ― nesse ponto ela

pareceu se referir a algo vivenciado.

― Ela fez isso com você?

― Mais ou menos isso, a prima dela também estuda aqui, Megan

Schnyder, e ela canta, então no concurso passado elas me sabotaram algumas

vezes, desmarcando ensaios, colocando coisas na minha bebida para eu perder

a voz, e em um baile da escola, bem antes do concurso, ela beijou meu ficante

da época.

Eu percebi que havia uma magoa guardada, mas não queria que ela revivesse a

história para ficar nervosa.

― Eu sinto muito por você Alyssa, mas e ai, quem ganhou o concurso

afinal?

― Mas é claro que fui eu não é, imagine se depois de tudo o que elas me

fizeram se eu a deixaria ganhar, dei a volta por cima e coloquei-a no chinelo ―

riu-se ela saindo da lembrança ruim. ― agora quanto a você, eu não sei o que ela

fará, mas sei que fará.

― Analisando as coisas que me disse, ela não poderá ficar com meu

namorado, porque eu não tenho namorado e não vou ter, quanto a me sabotar,

se fizer isso sabotará ela mesma, já que também precisa usar o piano da

Academia, e sobre humilhações, primeiro terá que descobrir pontos fracos, e

depois saber como usá-los, e não vai conseguir.

― Mas um ponto fraco seu já foi divulgado pela Professora Panin de

Álgebra, durante a aula do primeiro ano ela deixou escapar que a nova aluna

que estava chegando vinha de um orfanato, e todos na escola já estão sabendo

disso ― ela disse isso de uma forma calma, como para não me magoar.

― Isso não é um ponto fraco Alyssa, se ela achar que me chamar de

rejeitada ou órfã vai me humilhar estará redondamente enganada – eu sabia

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que isso poderia me atingir, mas eu havia formado minha personalidade a

partir do que tinha recebido de Mãe Syra e Papa Tony, e não iria abaixar a

guarda.

― Ok, se você diz então isso não poderá ajudar à peçonhenta ― deu de

ombros e desligou os fones ― eu não vou ficar procurando seus pontos fracos

para expor, mas você precisa ficar perto de mim, se não alguém vai querer

pegar você como mula.

― Como assim mula? ― virei para ela enquanto penteava meus cabelos,

já totalmente vestida com o uniforme.

― Os novatos sempre sofrem penitencias aqui, carregam os materiais,

buscam comida, fazem tarefas, trabalhos, essas coisas ― disse ela se levantando

e pegando o batom para retocar a maquiagem.

― Rá rá rá que eu vou fazer isso para esses riquinhos mimados, sem

ofensas, mas eu não estou aqui para perder meu tempo fazendo tarefa dos

outros enquanto esses garotos vão ficar curtindo seu tempo livre ― fiquei

indignada com o que ela disse ― você também faz isso?

― Eu preciso manter as aparências não é o que você disse de mim, então

sim, eu faço também, mas na verdade eu estou ajudando eles, livrando eles dos

mini magnatas manipuladores daqui ― ela pareceu se defender da minha

acusação.

Guardei minha escova, terminei de arrumar meu cabelo e voltei a olhar para

ela.

Alyssa estava de pé me esperando para ir almoçar, ela era pouca coisa mais

baixa e mais magra que eu, tinha cabelos cor de mel, lisos na altura dos ombros,

repicados com pontas para todos os lados e mechas pretas, olhos da mesma cor

mel, grandes e bonitos, um rosto fino e gracioso, resumindo era uma garota

muito bonita.

― Você só pode estar brincando que eu vou ter que fazer isso, não pode

ser ― realmente fiquei nervosa com isso, eu era uma pessoa calma até certo

ponto, minhas atividades no orfanato me fizeram praticar o relaxamento

emocional, mas ainda sim, quando eu ficava nervosa eu realmente me

estressava.

― Temo que não minha novata querida particular, mas eu prometo não

te forçar demais ― disse ela sorrindo, ela parecia que realmente tinha gostado

de mim.

Gemi de frustração, pensando em quanto tempo eu perderia com nosso teatro.

Mas se ela estava disposta a fazer isso para me ajudar demonstrava que ela

seria uma boa amiga.

― Ok, eu que eu vou ter que fazer? – perguntei irritada.

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― Calma gafanhoto, eu vou te explicar tudo, quando eu mandar você

fazer alguma coisa, tipo, pegar meus livros ou comida essas coisas você pega,

finge que me respeita pelo menos e que tem medo de mim ― disse ela sorrindo

e passando o braço sobre os meus ombros.

Seguimos em direção a porta, ela rindo e me falando como era seu prato de

almoço preferido e eu imaginando como seria difícil me controlar para manter

nosso teatro. Ao sair do quarto ela encarnou o personagem de garota durona, e

começou a me mostrar como me trataria diante dos outros, pelo menos por um

tempo.

Mas algumas portas a diante em nosso corredor duas garotas saíram discutindo

e xingando alguém que vinha logo atrás. Esse alguém era um rapaz, alto de

cabelos negros, que estava totalmente nu, carregando um travesseiro para

ocultar suas partes intimas a frente o que deixava a retaguarda toda a mostra

para nós duas.

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u agarrei o braço da Alyssa e parei assustada, para mim não era normal

um cara andar nu pelo corredor, mas Alyssa parecia achar normal ou no

E máximo engraçado.

Ela olhava para o rapaz com uma expressão cômica, meio rindo meio

reprovando. Quando eu agarrei o braço dela ela me olhou e cochichou

“Disfarça”.

Eu soltei o braço dela e tentei me recompor, para aparentar indiferença,

enquanto isso o rapaz bradava com as meninas que ainda o xingavam.

― Que isso garotas, voltem aqui, estava tudo indo muito bem, não

fiquem tão nervosas ― ele riu-se quando uma das meninas lhe mostrou o dedo

do meio, pelo jeito algo saíra fora do planejado dele.

Aproveitei que ele estava distraído para observá-lo. Era um rapaz forte, com

músculos pronunciados, não daquele tipo que passa o dia na academia, mas

mostrava que ele praticava esportes regularmente. Seus cabelos eram negros e

bagunçados, do tipo espetado parecido como o da Alyssa, só que bem mais

curto, mas seu rosto eu ainda não conseguia ver.

E foi ai que ele virou para voltar ao seu quarto, ele estava abaixando o

travesseiro quando nos viu e voltou a levantar. Deu uma boa olhada em mim

antes de virar para Alyssa.

― Priminha, bom dia minha querida, que horas são? ― pelo que parecia

ele havia acabado de acordar. Ele tinha um rosto muito parecido com o de

Alyssa, e agora o parentesco explicava a semelhança, mas seu rosto era mais

anguloso que o dela, com um queixo mais forte e olhos azuis iguais piscina.

― Nossa Dimy quando é que você vai entrar nos eixos hein, já é hora do

almoço garoto e você ai, tentando a bigamia agora? Parece que não deu certo

não é? ― Alyssa ria da cara dele enquanto ele voltava a me examinar.

Rindo do comentário dela ele se aproximou mais da porta de seu quarto e

encostou-se no batente ― Ah não é bem isso, na verdade eu fui atacado pelas

duas, eu só sugeri umas coisas interessantes e elas não gostaram muito. E essa

quem é? ― Perguntou me indicando com o queixo.

― Minha novata particular, nem pense em querer utilizar, ela terá muitas

tarefas para fazer ― agora foi Alyssa que agarrou meu braço, ela me puxou e

começou a andar ― e você, deveria colocar uma roupa, sabe, se arrumar e

17

descer para almoçar, já perdeu as aulas da manhã vai querer perder as da tarde

também?

Ela nem precisou me arrastar, no primeiro puxão já sai andando em direção as

escadas. Enquanto passávamos o primo de Alyssa continuou a me olhar, mas

não como antes, como se fosse me devorar, era mais com curiosidade, meio

sério com um olhar questionador.

Quando começamos a descer a escada ouvi a porta dele se fechar, foi ai que

Alyssa caiu na risada.

― Você disfarçou perfeitamente, ele realmente achou que você não estava

nem ai para ele, ficou te olhando esperando você babar e nada, você parecia que

estava olhando para inseto insignificante, adorei!

― Mas eu não estava disfarçando, estava normal, eu não o conheço, não

sei nada dele, porque deveria ter sido diferente? O cara aparece sem roupa no

corredor e espera que eu pule em cima dele? ― Não compreendi o que ela

queria dizer.

― Ah garota, não é possível, você deve ter percebido que ele é o maior

gato, é meu primo, mas eu não sou cega, todas as meninas da Academia e até

de outras escolas adorariam receber um sorriso de Dimitri Baker, o que ele

lançou pra você pelo menos umas três vezes, você não pode ser tão inocente.

― Não sou tão inocente, mas o garoto estava nu, no meio do corredor,

discutindo com duas garotas semi-vestidas que acabaram de sair do quarto

dele, nem que eu fosse louca eu teria outra atitude ― enfim entendi o que ela

queria dizer, ela esperava que no mínimo eu babasse um pouco por ele.

É óbvio que eu o achara lindo, provavelmente o cara mais bonito que eu já vira

pessoalmente, mas era um riquinho mimado, metido a garanhão, eu não daria

atenção a ele, não mesmo.

Demonstrar interesse seria provavelmente dizer que adoraria dividir a cama

com ele, e isso não, muito obrigada, quando fosse perder minha virgindade

seria com um cara legal que eu amasse e de uma forma especial.

Eu não era tão bobinha assim, já havia beijado um garoto uma vez no orfanato.

Meu primeiro beijo fora com Aeron, um garoto problema do orfanato, chegou

com 8 anos no orfanato, pois seus pais eram usuários de drogas e não tinham

condições de tomar conta dele.

Crescemos juntos, brincando, brigando e discutindo afinal tínhamos a mesma

idade, até que ele se tornou mais bonito que briguento para mim, e ao que

parece aconteceu a mesma coisa com ele, ficamos juntos uma só vez, antes de

ele ir embora do orfanato morar com uma tia que havia ficado viúva.

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Foi o momento mais calmo que dividimos, quase romântico, ele me puxou para

umas das salas de aula vazias e me disse rapidamente que estava indo embora,

mas não queria ir sem fazer uma coisa. E essa coisa era me beijar.

O beijo foi simples e rápido, mas fora muito terno. Quando nos afastamos ele

sorriu e disse que não se esqueceria de mim. Puxou meu cabelo e saiu correndo

da sala para encontrar sua tia. Isso fora a mais de um ano atrás. Nunca mais nos

vimos.

Enquanto eu me perdia em lembranças chegamos a tal sala comunal, que agora

continha vários adolescentes jogando ou vendo televisão. Alguns olharam em

nossa direção e me observaram por um tempo, mas não deu atenção, já

imaginava que seria observada como um animal de circo.

Passamos direto pela sala e saímos em direção ao prédio central. Alyssa andava

como se fosse à dona do lugar, nariz empinado, expressão de soberba, fingindo

não ver ninguém e os alunos pareciam respeitá-la, pois não entravam em seu

caminho.

― Ok, é melhor mesmo que você não fique babando por ele, há muitas no

pé dele então não compensa perder tempo, mas que ele olhou de uma forma

estranha pra você ele olhou, isso é verdade ― ela parecia ainda pensar na cena

― na certa é porque você não deu moral.

― Deve ser, estranhou eu não pular em cima dele e me propor a ficar no

lugar das outras duas ― como se eu fosse fazer isso, garoto metido a besta – que

ele espere sentado coitado.

― Bem, vamos esquecer ele então, agora nós vamos almoçar, eu vou ter

que tratar você meio mal, portanto não ligue Ok ― Alyssa olhava ao redor e

falava baixo como se pensasse que alguém pudesse ouvi-lá.

― Certo certo, vou fazer o que você mandar ― não consegui refrear a

careta de impaciência ― mas vê se pega leve hein.

― Fica tranqüila novata, só vou mandar você pegar comida pra mim e

depois mandar você sumir ― disse Alyssa enquanto subíamos as escadas de

entrada do prédio central ― agora, depois que eu falar pra você sair vá se sentar

em um canto afastado, Ok.

― Sim Senhora, e meu nome é Nick, não novata ― disse enquanto abria a

porta para ela e fazia uma reverencia.

― Oh é mesmo, tinha me esquecido Dominick Lowe ― riu-se ela

entrando no prédio.

Eu entrei logo atrás e novamente me admirei com a bela organização do

aposento. Peças antigas, maravilhosas e bem cuidadas misturadas com

aparelhos modernos.

19

Entramos em um hall gigante, como tudo por aqui, belíssimo, com piso de

mármore, lustres de bronze e lindos quadros. Havia duas grandes escadas que

levavam para os andares superiores, com corrimãos de bronze e feitas de puro

mármore. Entre as escadas havia duas grandes portas estilo entrada de cinema,

todas de madeira pura.

― Nossa ― Eu olhava tudo boquiaberta – isso aqui é maravilhoso.

― Sim é, tudo muito bem cuidado, vou te dar uma rápida explicação.

Aqui é o hall de entrada, as escadas levam para as salas de aula e aquelas portas

duplas ali levam para o refeitório ― Alyssa foi falando e apontando

rapidamente porque mais alunos estavam por ali se dirigindo ao refeitório.

― Certo então tudo fica concentrado aqui neste prédio ― disse ainda

admirando as belas escadas.

― Sim, todas as salas de aula, laboratórios, biblioteca, sala dos

professores, diretoria, tudo aqui. E aquele prédio azul lá fora, é o ginásio, com

as piscinas e áreas de ginástica, atrás ficam as quadras e campos de futebol e

corrida – ela terminou sua explanação falando bem baixinho, pois estávamos

quase chegando às portas do refeitório.

Eu acenei afirmativamente e entramos no refeitório. Alyssa foi à frente e teve

que virar para me chamar, porque eu tinha empacado na porta.

O salão era magnífico, o piso todo de mármore claro e bem no meio do salão

gigantesco havia um lustre enorme e belo. Nas paredes em volta havia mais

luzes fixas e as mesas, três mesas enormes de madeira com bancos iguais

atravessavam o salão. Na hora lembrei-me do meu filme bruxo preferido.

Ao fundo do salão havia uma cantina, com espaços onde havia comida que

cada um poderia escolher suas preferências, partes separadas com doces,

refrigerantes e tudo o mais que se pode querer.

As mesas estavam bem cheias já e algumas pessoas estavam pegando comida.

Quando entramos várias pessoas das mesas olharam em nossa direção.

― Você vai ficar ai parada muito tempo? Eu estou com fome! ― Alyssa

parecia ter assumido seu papel arrogante novamente. Eu olhei em sua direção e

comecei a caminhar.

Ela se virou e foi até o meio de duas mesas e começou a caminhar entre elas. Eu

a segui sob olhares especulativos. Mantive minha cabeça reta, olhando para a

cabeça de Alyssa, não ia abaixar minha cabeça para esses riquinhos.

Alyssa foi andando sem olhar para trás, até que chegou ao meio da mesa onde

havia vários garotos e duas garotas sentadas com um espaço ainda vago,

provavelmente aguardando ela.

20

― Finalmente você chegou hein Lyss, achei que não fosse aparecer no

almoço ― uma das garotas com cabelos lisos e loiros disse se virando para olhá-

la. A garota usava um colete jeans preto por cima da camisa de uniforme e por

baixo da saia uma meia calça azul e botas pretas. Era muito bonita também.

― Minha novata me atrasou, tive que explicar a ela as regras se é que

vocês me entendem ― Alyssa sentou-se entre as duas garotas e me deixou ali

em pé e sem graça.

Eles olharam em minha direção e riram, me deixando ainda mais sem graça.

Nesse momento o primo nudista de Alyssa entrou no salão, o cabelo molhado e

todo bagunçado e ainda abotoando a camisa. Andou tranquilamente até onde

estávamos e parou ao meu lado.

― Oi de novo ― Disse sorrindo para mim.

― Ainda bem que agora você está com roupas não é ― eu disse voltando

a olhar para frente ignorando ele.

Todos, a nossa frente na mesa, riram novamente e ele também enquanto

colocava sua gravata em volta do pescoço sem dar o nó.

― Busque comida para mim, estou morrendo de fome ― Alyssa parecia

ter entendido a olhada que eu dei a ela de desgosto e resolveu acelerar as coisas.

Eu olhei para a cantina atônita sem saber o que pegar.

― O que você quer? ― Perguntei sem graça.

Antes que Alyssa pudesse começar a dizer o primo dela Dimitri me pegou pelo

braço e começou a me arrastar em direção a cantina.

― Eu ajudo você hoje novata, mas só hoje, porque eu estou de muito bom

humor e conheço as preferências da minha priminha querida ― disse ainda

sorrindo.

Eu olhei para Alyssa ainda mais atônita que antes, eu queria ficar longe dele e

não que ele ficasse me arrastando pelo refeitório para me ajudar a pegar a

comida.

― Não precisa é só ela me dizer e eu trago ― disse tentando puxar meu

braço de seu aperto, o que foi inútil considerando que ele era mais de uma

cabeça maior que eu sem falar na força que tinha.

― Algum problema em ficar perto de mim, parece que minha presença te

afeta um pouco ― disse ele percebendo que eu queria fugir dele. Na hora parei

de me afastar, se ele queria me provocar ele obviamente estava conseguindo.

― Claro que não, nem em sonhos mauricinho, já que você faz tanta

questão vamos lá ― disse indo na frente em direção a cantina. Ele soltou meu

braço e se virou rindo para os amigos na mesa que observavam com um

sorrisinho idiota no rosto.

21

― Já volto ― Disse ele de forma arrogante e me seguiu.

Sai pisando firme em direção a cantina, várias pessoas estavam olhando agora,

pareciam acompanhar algo cômico.

Chegando à cantina peguei uma das bandejas, que estavam empilhadas ao lado

do balcão e coloquei sobre ele, coloquei um prato e talheres que também

estavam empilhados dentro da bandeja e me virei para ele que me olhava

presunçoso.

― E agora sabichão, do que sua prima gosta? ― Perguntei nervosa.

― Bem ― ele se aproximou do balcão observando a comida com

curiosidade fingida ― eu acho...

― Você acha? Como assim você acha? ― Ele devia estar brincando

comigo, só podia.

Assim que me ouviu ele começou a rir e se aproximou mais de mim.

― Calma novata, não precisa ficar tão nervosinha, eu estava só pensando.

― Você está aqui porque disse que sabia o que ela gosta de comer ―

exclamei nervosa.

― Na verdade só falei que sabia para ficar mais perto de você ― ele

chegou bem perto de mim e ficou me olhando de uma forma estranha, bem

dentro dos olhos.

Eu fiquei boquiaberta por um instante, processando o que ele dissera. Ele devia

estar curtindo com a minha cara, esse deveria ser seu passa tempo preferido,

brincar com as garotas novas. Enquanto eu olhava para ele completamente

paralisada ele foi se aproximando mais de mim, foi descendo sua cabeça quase

ao nível da minha.

Quando faltavam poucos centímetros para nossas bocas se tocarem eu percebi a

intenção dele e empurrei-o com toda minha força.

― O que você pensa que está fazendo? ― sibilei nervosamente enquanto

ele cambaleava para trás pego de surpresa pelo meu empurrão ― se não vai me

ajudar então não me atrapalhe.

Passei por ele empurrando a bandeja e comecei a colocar um pouco de tudo que

tinha sem nem prestar atenção ao que era. Ele ia me dizer alguma coisa quando

chegou uma garota e se pendurou nele.

― Dimy, onde você estava querido, estava te esperando ― A recém

chegada era pouco menor que eu, mais magra também e com um cabelo loiro

palha que lhe caia até um pouco depois dos ombros, olhos de um verde

estranho, que eu nunca tinha visto e olha que os meus já são diferentes hein,

22

pareciam artificiais. Era o tipo de garota mimada que provavelmente tem dois

ou três de tudo o que ela quer ou possa querer.

Dimitri olhou para ela e engoliu as asneiras que provavelmente iria me falar.

Sorriu para ela e me deu uma olhada de rabo de olho, como se para mostrar que

se eu não queria tinha quem queria sim.

― Oi Tif, dormi até tarde hoje ― disse sorrindo maliciosamente.

Não consegui segurar o risinho de deboche que brotou em minha garganta. Eu

já estava um pouco afastada, mas mesmo assim eles me ouviram. A loira se

virou em minha direção com uma expressão de satisfação, era obvio que ela

estava assistindo eu e Dimitri antes de vir falar com ele e queria mesmo falar

comigo.

― O que foi novata, tem algo a dizer? Oh não é claro, você é apenas uma

novata idiota ― disse como se fosse à coisa mais inteligente que alguém poderia

dizer.

Eu apenas olhei-a da cabeça aos pés com um meio sorriso no rosto, balancei

minha cabeça negativamente, ri debochadamente novamente e sai andando

com a bandeja nas mãos.

Ambos me olhavam, cada um com uma expressão diferente. Ele apreciando a

situação, ela absolutamente chocada com minha atitude.

― Quem essa garota pensa que é? ― a ouvi esganiçando para ele.

― Essa, é a sua mais nova rival minha querida, é a órfã pianista ― ele

respondeu com um misto de prazer e diversão na voz.

Nem perdi meu tempo olhando para trás, segui até onde estava Alyssa e

coloquei a bandeja a sua frente.

― Seu primo me sacaneou, não me disse o que você gosta, então peguei

um pouco de cada coisa ― disse eu cruzando os braços, estressada.

― Ah novata, eu acabei comendo aqui com a Emily, então eu não quero

mais, pode levar ― Alyssa disse me olhando de rabo de olhos.

Eu abri minha boca para responder, mas fechei imediatamente, se ela não

queria significava que eu não teria que voltar a cantina para pegar comida para

mim, eu poderia comer algo daquela bandeja mesmo. Peguei a bandeja e sai

andando para longe deles e para o mais longe da cantina possível.

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23

uando cheguei ao final das mesas avistei uma garota meio gordinha que

estava comendo tranquilamente, tinha os cabelos cacheados na altura dos

Q ombros, de cor castanho bem claro quase dourado. Ela nem se quer

levantou a cabeça para me olhar quando parei ao seu lado.

― Com licença, qual é a mesa do primeiro ano? ― perguntei baixinho. Ela

estava junto com dois garotos gêmeos, que se sentavam do outro lado da mesa,

estes estavam me olhando. Ela levantou a cabeça e me olhou de forma

questionadora com seus olhos cor de mel. Era uma gracinha, o tipo de pessoa

que emanava simplicidade. Enfim uma garota normal como eu.

― Essa é a mesa do primeiro ano ― respondeu como se fosse meio óbvio

por eles estarem aqui.

Eu me sentei a uma pequena distância deles e comecei a comer. Ela ficou me

olhando até que soltou um “Ai” como se tivessem pisado no pé dela, o que deve

ter acontecido, pois ela olhou para os garotos a sua frente com cara de brava.

― O que foi? ― cochichou ela para eles. Eles reviraram os olhos para ela e

olharam para mim. Os dois eram morenos, com cabelos e olhos escuros, um

tinha o cabelo espetado e o outro feito um moicano, eram mais altos que eu e

também pareciam praticar esportes, o com moicano mais que o outro. O com

moicano que estava mais perto de mim se aproximou mais para ficar a minha

frente e se abaixou para que eu pudesse ouvir sua voz baixa.

― Você é a garota órfã não é? ― perguntou meio sem jeito. O irmão deu

um tapa na cabeça dele de forma cômica.

― Nossa, mas que delicadeza, desculpe meu irmão moça, ele não tem

muito tato. Ele é o Lian e eu sou Leonard Smith e esta é Mandy Groove, somos

do primeiro ano também ― ao terminar ele estendeu a mão por cima da mesa

para eu apertá-la. Apertei a mão dele e retribui seu sorriso.

― Sou Dominick Lowe, mas podem me chamar de Nick. Parece que

todos sabem que vim de um orfanato ― observei o fato de eles já me conhecem

antes de eu falar.

― Sim, já sabemos, é que isso é um fato anormal para esta Academia,

afinal, não querendo faltar com o respeito, mas para estudar aqui é bem caro, as

bolsas de estudo são poucas e difíceis de conseguir, acho que nunca tivemos um

24

órfão aqui ― A menina chamada Mandy pareceu se tocar e começou a

conversar comigo normalmente.

― Exatamente e quando soubemos que você estava vindo, bem, a

Academia toda imaginou que você era algum tipo de Chopin reencarnado ou

algo do tipo ― o Garoto chamado Lian desatou a falar antes que o barrassem

novamente.

Eu cai na risada, ser comparada com Chopin me tirou do estresse em que

estava. Tudo bem que eu tocava muito bem, mas isso se devia a quase doze

anos de prática e ao fato de que fora Mãe Syra quem me ensinara, ela poderia

ter sido uma grande pianista se não tivesse desistido de tudo para ficar no

orfanato.

Ela sim poderia ser comparada a Chopin já que tocava maravilhosamente e

perfeitamente bem, desde que eu tinha cinco anos ela fizera de tudo para me

passar seus conhecimentos, os quais fiz o máximo para absorver, mas eu tinha

um jeito próprio de interpretar as melodias, segundo Mãe Syra eu gostava de

inovar. Eu modificava algumas, criava outras e Mãe Syra e eu adorávamos

compor melodias juntas.

― Meu querido, esta longe de mim, ser assim tão boa, a diferença é que

eu tive uma professora boa assim ― consegui falar em meio à crise de riso ― e é

graças a ela que eu consegui essa bolsa.

Os três estavam me olhando com curiosidade, então contei a história de Mãe

Syra, a freira que se formara no Conservatório de Boston com muito louvor e

recusara muito convites grandiosos, pois queria formar o Orfanato Path of

Love.

― Nossa, que incrível, então ela deve ser demais ― Mandy disse com os

olhos marejados.

― Sim, ela é demais, mesmo abandonando uma carreira promissora não

teve um só dia que ela não agradecesse a Deus durante as refeições por ter

trazido as crianças para a vida dela ― eu completei lembrando as orações

maravilhosas que Mãe Syra recitava antes da refeições.

Eles ficaram um momento em silêncio, comendo calmamente e eu aproveitei

para olhar em volta. Nós estávamos na primeira mesa logo após a entrada, a

mesa de Alyssa, Dimitri e seus amiguinhos era a do meio, o que leva a terceira a

ser dos veteranos.

Percebi que Tiffany havia voltado para junto de seus amigos terceiranistas e

cochichavam lançando olhares furtivos para onde nós estávamos. Eu a ignorei e

olhei para onde estava Alyssa, mas o olhar que encontrei não foi o dela.

Dimitri me encarava. Ele estava sentado debruçado sobre a mesa, um dos

braços servindo de apoio para o queixo, olhando-me fixamente de uma forma

25

séria, parecendo não perceber que uma das garotas estava pendurada em seu

ombro acariciando seus cabelos que agora secavam revoltos.

Eu sustentei seu olhar por um tempo, imaginando o que estaria se passando por

sua mente pervertida. Ele mudou o ângulo da cabeça, me olhando meio de

lado, assim ele parecia quase angelical.

E ai, enquanto eu divagava, ele apertou os lábios nervosamente, se remexeu

para derrubar a garota de seus ombros e virou-se de costas, começando a

conversar com um cara grandalhão a seu lado.

Eu voltei a prestar atenção ao que estava comendo, ou melhor, pela primeira

vez, percebi que estava comendo salada de macarrão com champions, um tipo

de arroz temperado com amendoins, ervilhas na manteiga e picadinho de carne

com brócolis e cenoura.

Do lado ainda tinha um creme que eu ainda não tinha provado e acabou sendo

creme de milho e um ensopado de peixe. Bem, a comida era realmente

maravilhosa. Continuei comendo de cabeça baixa.

― Parece que você se interessou pelo Baker hein ― Mandy viu nossa

troca de olhares, pareceu achar um caso perdido, mas não prolongou o assunto.

― Claro que não, ele é um idiota, um mauricinho metido a besta que acha

que todas as garotas morrem por ele ― explodi nervosa, mas parei quando

percebi que eles estavam sorrindo ― o que foi?

― Você, é muito engraçada ― Leonard sorriu enquanto tomava um gole

de seu suco ― e todas as garotas morrem pelo Baker sim, caso não tenha

percebido.

― Como vocês o conhecem? Ele está no segundo ano e vocês no primeiro.

Hoje não é o primeiro dia de aula? ― perguntei

― Nós o conhecemos assim como conhecemos vários alunos daqui,

viemos da mesma escola, ou da mesma cidade, então freqüentávamos os

mesmos lugares ― respondeu Leonard terminando de comer e empurrando o

prato.

Então eu compreendi que aqui na verdade havia grupinhos que se conheciam

antes mesmo de entrarem na Academia, eu era a exceção em tudo. Ótimo. Eu

empurrei meu prato também, não queria mais comer. Os outros dois também já

haviam parado de comer.

Olhei na direção de Alyssa, dessa vez ela pareceu sentir que estava olhando

para ela e virou o rosto para me olhar também. Fiz sinal a ela de que iria sair e

ela confirmou minimamente com a cabeça.

― Será que vocês poderiam me mostrar alguma coisa mais daqui antes

das aulas? ― perguntei me levantando.

26

Os três se olharam rapidamente e confirmaram, se levantando também. Saímos

do refeitório, voltado ao hall de entrada. Os garotos foram na frente enquanto

Mandy ficava do meu lado. Começamos a subir uma das escadas magníficas.

― Vou te explicar como é o esquema de salas, deste lado do prédio ficam

as salas de aula normais, tipo matemática, química, física. Do outro lado fica as

salas de artes, tipo pintura, desenho artístico, violão, piano no seu caso, e todas

as outras coisas que os alunos fazem de extra ― Mandy falava enquanto

subíamos.

― Isso, você pode subir tanto uma como a outra escada, mas se você tiver

aula de química e subir a outra escada fará o caminho mais longo terá que

atravessar os corredores para chegar do outro lado. É tudo ligado, cabe a você

decidir que caminho quer fazer ― Completou Leonard.

― No seu horário você tem marcado quatro aulas comuns de manhã,

duas aulas extra à tarde e a aula de esportes. As aulas extras você poderá

escolher entre todas as que a Academia oferece, assim como os esportes, você

também escolhe qual quer praticar ― Lian deu sua contribuição na explicação

quando já chegávamos ao topo da escada.

Havia um grande corredor com muitas portas, percebi que esse corredor se

juntava com o corredor da outra escada no final, ligado por uma interseção

formando um grande U ao contrário. Continuamos andando, olhando

rapidamente as portas identificadas.

― Certo, entendi tudo, agora me digam o que vocês escolheram? ― seria

mais fácil eu escolher se pudesse ficar junto de um deles, assim não ficaria

completamente sozinha.

― Eu adoro guitarra, então na quinta aula de segunda, quarta e sexta faço

aula de guitarra, de terça e quinta faço pintura. Na sexta aula de segunda e

quarta faço aula de dança para emagrecer e ioga na de terça e quinta, na sexta

optei por deixar livre, para fazer tarefas ― respondeu Mandy colocando a mão

nos bolsos de seu casaco.

― Eu faço aula de bateria na quinta aula de segunda e quarta e percussão

na de terça e quinta, na sexta aula de segunda e quarta faço desenho gráfico e

de terça e quinta faço taekwondo, de sexta faço corrida na quinta aula e na sexta

tarefas ― respondeu Leonard enquanto andávamos pelo corredor das salas e me

mostrava à plaquinha em cima da porta com os nomes das matérias.

― Eu faço aula de baixo na quinta aula de segunda e quarta e percussão

na de terça e quinta, na sexta aula de segunda e quarta faço muay thai e de terça

e quinta faço jiu-jitsu, de sexta faço full contact na quinta aula e na sexta aula

tarefas também ― respondeu Lian, enquanto falava o nome das artes marciais

que praticava ia mostrando alguns golpes.

27

Sorri ao vê-lo tão animado, estava explicado porque ele era meio sem jeito com

as palavras, só pensava em lutas.

― Ok, fora isso quais esportes fazem além das aulas? ― perguntei

tentando decorar o local de cada sala de aula.

― Faço natação de segunda e quarta, esgrima de terça e quinta e

equitação na sexta ― respondeu Mandy.

― Eu faço futebol de segunda e quarta, natação de terça e quinta e

esgrima na sexta ― Leonard respondeu, nós chegamos a virada do corredor que

ligava as salas de aula normal as de aula extra e aqui havia mais um lance de

escadas, a qual Mandy disse levar as salas dos professores e seus aposentos.

― Também faço futebol de segunda e quarta, rugby de terça e quinta e na

sexta faço equitação também ― respondeu Lian animadamente.

Percebi que poderia escolher as mesmas aulas que eles em determinados

horários, assim nunca ficaria sozinha. Terminamos de chegar ao fim do

corredor das intermináveis salas e eu parei em frente a primeira que realmente

me chamou a atenção. Como todas havia uma plaquinha de identificação em

cima.

Lia-se Sala dos Pianos.

A porta estava destrancada então entrei para dar uma espiada. Havia um

magnífico piano de calda, um steinway preto, quatro pianos estey marrons e

mais quatro eletrônicos. Andei por entre eles quase como se estivesse com

medo de relar neles. Eram tão magníficos que me emocionavam. Pianos sempre

fizeram isso comigo.

No orfanato Mãe Syra tinha um piano de calda alemão bem antigo que ficava

na sala de jantar e um órgão que ficava na igreja, eu aprendera a tocar nos dois,

conhecia todas as teclas melhor do que a palma de minha mão. Parei em frente

ao de calda e fiquei observando.

― Toque alguma coisa para nós ― pediu Mandy fechando a porta.

― Pode? ― questionei preocupada.

― Ah, ninguém vai ouvir se tocar rapidinho ― disse Lian sentando-se em

um banco próximo.

Eu me empolguei pela expectativa deles e me sentei para tocar.

― Vocês querem algo famoso ou algo meu? ― Eles sorriram vem o meu

entusiasmo.

― Algo seu ― respondeu Leonard em pé, próximo a mim.

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Confirmei com a cabeça e tirei a proteção das teclas para começar. Lembrei da

última composição que Mãe Syra e eu fizemos, respirei fundo e comecei a tocar.

Era uma melodia calma, com notas rápidas no começo e mais alongadas no

final, uma introdução não muito longa que se repetiria no final.

Toquei apenas uma parte, com medo que pudessem nos ouvir. Então parei e me

virei para eles. Os três estavam me olhando pasmos. Mandy estava com a boca

aberta, Lian os olhos arregalados e Leonard um sorriso nos lábios.

― Garota, foi você que criou essa música? ― perguntou Mandy.

― Na verdade Mãe Syra me ajudou também, tenho várias que fiz

sozinha, mas essa é minha e dela ― respondi colocando a proteção novamente

nas teclas e me levantando.

― Uau... Nossa é bonita hein ― Lian se levantou e se aproximou um

pouco.

Eu sorri timidamente. Gostava muito quando minhas músicas agradavam as

pessoas. Eu olhei no relógio e percebi que já era 13:40, tínhamos vinte minutos

para descer e nos preparar para as próximas aulas e eu ainda não tinha

escolhido qual delas faria.

― É melhor descermos, preciso pegar nos meus materiais o tal horário

que vocês falaram ― disse me encaminhando a porta ― e eu preciso escolher

minhas aulas.

― Sim, você precisa. É só preencher os horários e entregar o formulário

na secretaria que fica lá embaixo, no hall de entrada ― disse Mandy me

acompanhando.

Nós saímos da sala olhando para os lados para ver se ninguém tinha nos visto e

corremos escada a baixo. Quando chegamos ao hall Mandy me mostrou a porta

da secretaria, que ficava próxima a escada que descemos e eu não tinha

reparado nela.

Voltamos ao prédio dos dormitórios, passamos rapidamente pela sala apinhada

de alunos e subimos as escadas. Eles ficaram no primeiro andar, eu tive que