Análise de internações por doenças do aparelho respiratório, pacientes residentes em Maringá-PR:... por Isabel Barbosa dos Anjos - Versão HTML

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através de método estatístico;

7) Fornecer subsídios para colaborar com os responsáveis na área da saúde.

5 REVISÃO DE LITERATURA

5.1 A SAÚDE NO BRASIL

O Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) foi oficialmente implantado

em 2 de janeiro de 1967, mas já havia debates sobre a reforma do sistema de

saúde, desde 1960. Reunindo então os Institutos de Aposentadorias e Pensões, o

serviço de Assistência Médica e Domiciliar de Urgência (SAMDU) e a

Superintendência dos serviços de Reabilitação da Previdência Social.

Este sistema previdenciário foi se tornando cada vez mais complexo, desde o

ponto de vista administrativo até o financeiro, dentro da estrutura do INPS, que

acabou levando à criação de uma estrutura própria administrativa, o Instituto

Nacional de Assistência Médica da Previdência Social o (INAMPS) em 1978.

Segundo Perehouskei (2005) a dinâmica do setor de saúde no Brasil será

pautada desde a crise da Previdência Social na década de 70, cuja prática centrava-

se na medicina curativa e assistencialista:

6

Posteriormente passa a ampliar a cobertura de seguridade a diversas

classes de trabalhadores, permitindo espaços para a ocorrência de

intensas corrupções no setor, até os dias atuais. [...] Nesse contexto,

foram elaboradas pelo governo, algumas tentativas de organização

dos diversos setores de saúde no intuito de minimizar os problemas

estabelecidos, como por exemplo, a criação do MPAS, INPS,

INAMPS, LBA, FUNABEM, DATAPREV, IAPAS, entre outros. Esses

diversos setores estreitamente vinculados tinham o papel de controle

em relação aos contratos privados estabelecidos para atender a

demanda, bem como, executar ações de saúde de interesse coletivo,

que se definem como campo de atuação do Ministério da Saúde e

também

proporcionar

o

atendimento

médico

assistencial

individualizado, que se configura como ação do Ministério da

Previdência e Assistência Social. Entretanto, esses objetivos

aumentaram consideravelmente os gastos da Previdência e no final

da década de 1970, marcada pelo fim do „milagre econômico‟ que

representou um intenso período de industrialização e êxodo rural no

País, trouxe como consequência, uma crise generalizada: baixos

salários e crescimento da demanda para a assistência a saúde

(PEREHOUSKEI, 2005, p. 9).

O período de 1980 a 1990 foi marcado pela transformação do regime da

ditadura militar e a instauração da democracia no País, isto resultou também num

marco inaugural de um novo tempo nessa questão da saúde brasileira. Na 8ª

Conferência Nacional de Saúde realizada em 1986, foram discutidas diversas

propostas que passaram a constituir o Projeto de Reforma Sanitária Brasileira e o

financiamento do setor.

Esses temas desdobravam-se em um conjunto de diretivas centrais que

alimentaram o intenso debate travado até a aprovação da Constituição de 1988,

estabelecendo a saúde como direito de todos e dever do Estado, resultando assim

no nascimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Polignano (2005) fez um relato da história das políticas de saúde no Brasil e

apontou o Capítulo VIII da Ordem Social e na secção II, referente à saúde, no qual

está definido no artigo 196:

A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante

políticas sociais e econômicas, que visem à redução do risco de

doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às

ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação

(POLIGNANO, 2005, p. 6).

Noronha, Lima e Machado (2006, p. 46), apresentaram um complemento

sobre o Sistema Único de Saúde (SUS):

7

A implementação do SUS inicia-se nos primeiros anos da década de

90, após a promulgação das leis federais da saúde (8.080 e 8.142 de

1990) e de várias portarias emitidas pelo Ministério da Saúde como

instrumentos de regulamentação do sistema. Posteriormente,

reformulam-se os papéis e funções dos entes governamentais na

gestão de unidades e do sistema de saúde, adotam-se novos

critérios de distribuição e transferência de recursos, criam-se e

ampliam-se as instâncias colegiadas de negociação, integração e

decisão, evolvendo a participação dos gestores, prestadores,

profissionais de saúde e usuários.

O SUS realiza vários serviços na saúde pública, como transplante de órgãos,

distribuição de medicamentos para todos os pacientes com Aids e, outra estratégia

como a Saúde da Família, que acompanha 90 milhões de pessoas. Programação

Nacional de Imunizações - PNI, com 30 milhões de atendimento ao ano.

Desta forma, o SUS é destinado a toda a população e corresponde à única

possibilidade de atenção à saúde, para mais de 140 milhões de brasileiros com

baixos rendimentos, empregos precários ou desempregados. Este órgão tem

natureza pública, sendo integrado por serviços dos Municípios, Estados e União,

além dos contratos filantrópicos e lucrativos.

Nesse aspecto, reflete Paim (2006, p. 25):

A atenção à saúde, como expressão do cuidado às pessoas,

individualmente e coletivamente, sofre as influências desses arranjos

de organização, gestão e financiamento, além da disponibilidade da

infraestrutura de recursos. Esses recursos apresentam uma

distribuição desigual entre estratos sociais e entre regiões, Estados e

Municípios, áreas urbanas e rurais e nas cidades entre periferia e

centro.

O Manual de orientações Técnicas de 2006, acrescenta que, com o advento

do SUS, surgiu também a necessidade de estabelecer um sistema único de

informações assistenciais para subsidiar os gestores no planejamento, controle e

avaliação das ações de saúde.

Nesse sentido, o Ministério da Saúde, por meio da Portaria GM/MS

nº. 896/90, determinou ao Instituto Nacional de Assistência Médica e

Previdência Social/INAMPS a implantação do Sistema de Informação

Hospitalar SIH/SUS a partir de agosto de 1990. [...] e a partir de abril

de 2006, após capacitação das Secretarias Estaduais e Municipais

de Saúde e Distrito Federal realizada pela Coordenação Geral de

Sistemas de Informação/ Departamento de Regulação Avaliação e

Controle/SAS/MS e da Coordenadoria Geral de Informação

8

Hospitalar/Departamento de Informática do SUS/DATASUS/MS, foi

implantada no país o processo de descentralização do SIH/SUS.

(BRASIL, 2006, p. 13).

No Brasil, o órgão responsável pelo controle de morbidades é o Sistema de

Informações Hospitalares, pertencente ao SUS (SIH-SUS), tendo como base a

Autorização de Internação Hospitalar (AIH), que é de preenchimento obrigatório para

a internação de pacientes para que seja recebido o pagamento referente a tais

internações. Essas internações pagas pelo Sistema Único de Saúde, segundo

estimativas, é algo em torno de 80% do total de internações do País.

O Sistema de Informações Hospitalares (SIH) é um importante instrumento de

informação para orientar o gestor na tomada de decisões relacionadas ao

planejamento das ações de saúde, inclusive para a Vigilância em Saúde.

Este sistema de informação, desde que corretamente preenchido a

morbidade/mortalidade hospitalar no Município ou do Estado, está refletida através

da Classificação Internacional de Doenças - CID, registrado na AIH (Autorização de

Internações Hospitalares), servindo por sua vez como indicador da atenção

ambulatorial. O desempenho e as condições sanitárias do estabelecimento podem

ser avaliados a partir das taxas de óbitos e infecção hospitalar.

Sobre as causas de internações no Brasil, a Organização Pan-Americana de

Saúde (1998, p. 10) relatou:

A morbidade geral apresentada no sistema de informação hospitalar,

segundo os grupos de causas mostra que 22,8% dos atendidos

correspondem às causas ligadas a gravidez e parto, 15,9% devido a

causas respiratórias, 10,6% por causas circulatórias, 9,4% por

doenças infecciosas e parasitárias, 8,4% por causas geniturinárias,

7,5% por causas digestivas e 7,5% devido a causas externas.

Ocorrem os maiores registros de internações por doenças respiratórias,

predominantemente para o sexo masculino. Rouquayrol, Filho (1999, p. 12)

apresentaram a possível justificativa:

Para as doenças do aparelho respiratório parece haver uma maior

incidência entre homens quando comparados com mulheres, sejam

pela maior exposição masculina às influências do clima, atividades

ao ar livre, seja pelas condições de trabalho ou mesmo pelo modo de

vida ou hábitos.

9

Para Rouquayrol, Filho (1999) isso não explica satisfatoriamente o caso, pois

de maneira semelhante, esse fato ocorre também em menores de um ano e em

crianças de modo geral.

As doenças respiratórias apresentaram de 1979-1995, entre as principais

causas de morte no Brasil, como apontaram Mello Jorge, Gotlieb (2000, p. 35):

Sendo a taxa masculina um pouco mais elevada que a feminina,

principalmente representadas pelas broncopneumonias, bronquite e

asma, ocorrendo em geral, em menores de cinco anos. Nos idosos

as internações referem-se a enfisema e obstrução crônica das vias

respiratórias.

Continuando os estudos sobre a saúde no Brasil Mello Jorge, Gotlieb e

Laurenti (2001, p. 89), apresentaram uma relação, sobre a faixa etária mais

acometida por problemas respiratórios:

Entre 1996 a 1999, as crianças de um a quatro anos a principal

causa de morte foi por doenças respiratórias, em torno de (22,8%),

sobressaindo

em

relação

a

outras

causas,

destacando

principalmente a pneumonia. Já as crianças de cinco a nove anos

aparecem como sendo a quarta causa de morte. Para a faixa etária

entre sessenta anos ou mais, as doenças do aparelho respiratório

constituem-se em terceira causa de morte, apontando com grande

frequência por broncopneumonia e pneumonias.

5.2 GEOGRAFIA MÉDICA E GEOGRAFIA DA SAÚDE

O conhecimento da geografia médica teve sua origem nos princípios da

civilização, ainda que sua estruturação como ciência tenha se consolidado por volta

dos séculos XVIII e XIX, quando vários pesquisadores passaram a abordar

conceitos sobre ambiente e saúde em suas pesquisas.

Ferreira (2001) num curso aplicado no Departamento de Geografia

denominado de “Tópicos de Geografia Médica, relata alguns fatos importantes1”. A

1 No inicio do século XX a Geografia Médica foi quase abandonada, pois com a descoberta

da penicilina parecia ser capaz de erradicar a maior parte das doenças infecciosas

prevalentes em determinados ambientes, especialmente em zonas tropicais. Nessa época,

os esforços concentravam-se mais no combate ao agente etiológico do que controle

ambiental. Conforme foi se comprovando que os antibióticos e os biocidas não eram

capazes de eliminar os agentes causadores das doenças, voltou-se novamente a

preocupação com os aspectos ambientais.

10

maior parte desses trabalhos foram escritos em alemão e francês, sendo poucos

traduzidos para o inglês.

Dentro do contexto geopolítico e atendendo as necessidades da expansão

capitalista nas regiões Norte e Centro-Oeste, empreendida pelos governos militares

em 1972, foi publicada a obra de Lacaz, Baruzzi e Siqueira, em Introdução à

geografia médica do Brasil.

A obra destes autores pretendiam constituir um trabalho de interligação entre

a Medicina e a Geografia, ainda assim essa obra não chegou a integrar os

conhecimentos médicos e geógrafos, pois abordava as relações entre doença e o

ambiente de modo separado.

Sendo analisados individualmente fatores geográficos físicos e humanos, tais

como relevo, clima, vegetação, fauna, população, habitação rural e urbana, bem

como a migração, de qualquer forma, essa publicação estabeleceu uma ponte entre

a epidemiologia e a geografia, de maneira a enfatizar a importância de estudos

geográficos para a compreensão das patologias infecciosas em geral e parasitárias.

Abordando os conceitos sobre a Geografia Médica, Lacaz, Baruzzi e Siqueira

(1972, p. 1) consideraram que:

Geografia médica é a disciplina que estuda a geografia das doenças,

isto é, a patologia à luz dos conhecimentos geográficos. Conhecida

também como Patologia geográfica. Geopatologia ou Medicina

geográfica, se constitui em um ramo da Geografia Humana

(Antropogeografia), ou, então da Biogeografia. A Geografia Médica

nasceu com Hipócrates e, portanto, com a própria história da

medicina, quando em 480 a.C., aproximadamente publicou sua

famosa obra „Dos Ares, das Águas e dos Lugares‟, onde o grande

mestre de Cós mostrava a influência dos fatores ambientais no

aparecimento das doenças, em geral.

Lacaz, Baruzzi e Siqueira citaram alguns dos importantes nomes, como João

de Barros Barreto, Carlos Chagas e de Afrânio Peixoto, como médicos sanitaristas

que muito contribuíram para as questões de saúde.

Em 1907 Peixoto publicou um trabalho que tratava da relação entre clima e

doenças no Brasil, abordando os ciclos epidemiológicos. Em 1938, publicou a obra

Clima e Saúde, abordando questões sobre meteoropatologia relacionando o clima e

as variações sazonais, com casos de morbidez, epidemias e endemias.

Verificou-se, então, que a Geografia Médica teve, desde sua origem, fins

utilitários ou práticos, tanto econômicos, quanto políticos:

11

De modo geral, salvo raras exceções, como por exemplo, a obra de

Josué de Castro, ela esteve ligada a interesses de classes sociais

dominantes ou ao capitalismo do Estado e servia de instrumentos

para facilitar a ocupação e dominação de outras áreas. Nos EUA e

países europeus servia ela aos interesses do colonialismo e, no

Brasil, aos capitalistas aliados ao Estado desenvolvimentista.

Portanto esteve quase sempre vinculada ao movimento de expansão

do capitalismo. De inicio tinha um enfoque ambientalista ou até

determinista, mais tarde, os fatores sociais vão ser levantados como

adjuvantes na etiologia das doenças (SOBRAL, 1988, p. 27).

Logo, a Geografia da Saúde desponta na década de 1970, sugerida então,

como uma nova organização da Geografia Humana, veio para colaborar com um

novo espaço de estudos geográficos. Para Rojas (1998):

Apesar de que ainda assombra em alguns contextos institucionais, a

relação entre as Ciências Geográficas e as Ciências da Saúde,

existe uma ampla documentação que argumenta esta articulação

desde os tempos mais remotos do ser humano [...]. A Geografia

Médica ou da Saúde, frequentemente se divide em dois principais

campos de investigação: a Nosogeografia ou Geografia Médica

tradicional, encarregada da identificação e análise de padrões de

distribuição espacial de enfermidades e a Geografia da gestão de

saúde, ocupada na distribuição e planejamento de componentes de

infraestruturas, de recursos humanos e de Sistema de atenção

Médica (ROJAS, 1998, p. 702-703).

Para Rojas (1998), a fome juntamente com a miséria, a desnutrição, a

insalubridade, a desesperança, a tristeza, a contaminação do ar, das águas, das

terras e tanto outros males definem os espaços que se constroem e se reconfiguram

permanentemente. Assim identificar e revelar estes espaços humanos são

possibilidades de melhorar a efetividade e a qualidade das ações em saúde, sendo

de responsabilidade e de urgência.

Perehouskei (2005, p. 23) também considerou que os estudos em Geografia

Médica voltados para a melhoria das condições de saúde da sociedade intensificam-

se principalmente a partir de 1982, quando iniciaram alguns encontros sobre

Geografia da Saúde. Tais estudos apontavam para uma abordagem mais crítica,

com trabalhos científicos que buscavam realmente atender as necessidades da

coletividade.

A Geografia da Saúde é o amadurecimento das discussões e estudos

desenvolvidos no âmbito da Geografia Médica de outras épocas, hoje com outra

visão, mais ampla, planejada e direcionada para ações de prevenção.

12

Segundo Barros (2006) é preciso ressaltar que até o inicio do século XX os

trabalhos de Geografia Médica eram feitos por médicos, sob o foco da medicina e

utilizando a geografia apenas como ciência auxiliar e a cartografia como

instrumento, acrescentando:

Os vários anos de pesquisa em Geografia Médica no Brasil

culminaram em dezembro de 2003, no 1º Simpósio de Geografia da

Saúde, sob a organização do Departamento de Geografia da

Universidade Estadual Paulista do Campus de Presidente Prudente-

SP. O evento, que ressaltou a retomada do interesse por parte dos

geógrafos pela temática em questão, contou ainda com a

participação dos médicos e epidemiologistas brasileiros e de alguns

países da América Latina, além de fomentar a reflexão e a discussão

sobre os aspectos teóricos desse campo da geografia (BARROS,

2006, p. 34).

No ano de 2005, o Simpósio Nacional de Geografia da Saúde, sediado na

cidade de Rio de Janeiro, pôde contar com a contribuição de diversos profissionais

da saúde, em nível nacional, como também a integração com pesquisadores da

Geografia da Saúde de Portugal (SOUZA, 2007, p. 40).

Com novos encontros ocorridos em Curitiba em 2007 e Uberlândia em 2009,

sempre com a mesma perspectiva de análise, envolvendo os fatores ambientais,

sociais e debates preventivos.

5.3 ESTUDOS DO CLIMA RELACIONADOS Á SAÚDE

As relações entre o clima e a saúde são reconhecidas desde a antiguidade,

por Hipócrates em sua célebre obra: dos Ares, das Águas e dos Lugares, que

associou as alterações no meio ambiente assim como as variáveis climáticas como

causa de infecções e de surgimento de várias doenças.

Conforme Barros (2006, p. 10) Hipócrates organizou as doenças endêmicas

(presente em dada população e as epidêmicas, aquelas que aparecem com mais ou

menos frequência em determinadas épocas do ano ou condições).

Hipócrates teria vivido entre 460 a 370 a. C, dotado de notável espírito de

observação, conhecendo, profundamente o ser humano e exercendo a atividade

13

médica, descreveu numerosas doenças, recebeu o codinome de “o pai da medicina”

(SOUZA, 2007, p. 34).

Conforme a concepção da época havia certo exagero, com visão determinista

levada ao extremo. Segundo Sodré (1979) a forma inicial do determinismo esteve

ligada à relação entre o homem e o clima. Escreveu Hipócrates:

Se os asiáticos são hesitantes, sem coragem e de caráter menos

belicoso e mais doce do que os europeus, é preciso procurar a

essencial causa disso na natureza das estações. Já para Aristóteles

os habitantes das regiões frias são cheios de coragem e feitos para a

liberdade. Aos asiáticos falta energia, assim são feitos para o

despotismo e para a escravidão (SODRÉ, 1979, p. 37-38).

No século XVIII, Montesquieu (1979, p. 201) fortaleceu essa concepção,

argumentando:

Tem-se mais vigor nos climas frios, mais coragem, mais

conhecimento de sua superioridade, menos desejo de vingança,

mais segurança e mais franqueza, menos política, menos malícia

[...]. Os povos das regiões quentes são tímidos como os anciões, os

das regiões frias são corajosos como os jovens [...].

Já com outra percepção, Lacaz, Barruzzi e Siqueira, (1972, p. 24),

observaram:

[...] O clima e os fatores geográficos ou físicos interferem de modo

decisivo sobre os germes produtores de infecções, bem como sobre

os agentes animados de sua difusão. Os germes patogênicos

experimentam a ação do clima e, assim, variam de virulência e de

capacidade morbígena, também o organismo humano é influenciado

pelos mesmos fatores mesológicos que determinam desvios e

adaptações no metabolismo normal e, igualmente, alteram e

regulam os processos fisiopatológicos, nos quais se expressam as

resistências funcionais à agressão parasitária.

Para Sorre (1984) o clima condiciona as atividades de um complexo vivo, no

qual entram os vegetais, os animais e o próprio homem. Sorre elaborou um modelo

esquemático apontando como ocorre a ação dos elementos climáticos em relação

ao homem, conforme apresentado no Quadro 1.

Conforme Sorre (1984, p. 51) o clima, atuando de forma indireta acaba sendo

o pano de fundo para a ocorrência de diversos tipos de doenças, apesar de poucas

vezes agir sozinho.

14

Quadro 1: Manifestações Fisiopsicológicas do homem pela ação dos elementos climáticos.

ELEMENTOS

CONDIÇÕES

MANIFESTAÇÕES

CLIMÁTICOS

LIMITANTES

FISIOLÓGICAS

Altitude (Pressão

Limite máximo:

- Mal das montanhas (dor de cabeça, fadiga,

Atmosférica)

8.000 m.

alteração

sensorial,

depressão

intelectual,

indiferença,

sono,

descoordenação

de

movimentos, perda de memória). Redução das

faculdades físicas e mentais. Tristeza, apatia.

Radiação

60º e 70º Latitude

-

Alta

radiação/luminosidade:

esgotamento

(Associada à

nervoso,

perturbações

mentais,

irritação,

luminosidade)

síndrome

físicopsíquica

“golpe

de

sol”

(sunstroke), euforia. Baixa radiação/luminosidade:

deficiências orgânicas, raquitismo, depressão,

debilidade mental.

Higrotermia

Limite Variável.

- Diminuição da capacidade respiratória (para

Ótimo fisiológico

europeus nos trópicos). Hiperpnéia térmica (entre

15º - 16º

negros). Cansaço e esgotamento (brancos).

60% UR

Vento e Eletricidade

-

- Morbidez, cansaço e abatimento. Debilidade do

Atmosférica

tônus nervoso, depressão, hipersensibilidade,

irritabilidade.

Desidratação,

dessecação

do

aparelho

tegumentar.

Excitação

nervosa,

alucinações, delírio. Palpitações, dispnéia, dores

de cabeça, nevralgia.

Fonte: Sorre (1984, p. 42).

Segundo Ayoade (1986) o clima desempenha algum papel na incidência de

certas doenças que atacam o homem. Em primeiro lugar afeta a resistência do corpo

humano a algumas doenças.

O clima influencia a propagação e difusão de alguns organismos

patogênicos ou de seus hospedeiros. Temperaturas extremamente

baixas diminuem a resistência do corpo humano à infecção. A

neblina associada a poluentes está frequentemente relacionada com

o aumento das doenças respiratórias. Similarmente o ar seco e

carregado de pó tende a tornar as vias respiratórias mais suscetíveis

às infecções (AYOADE, 1986, p. 291).

Conforme Rouquayrol, Filho (1999, p. 98) o clima é o resultado de toda a

variedade de fenômenos meteorológicos específicos que caracterizam a situação da

atmosfera em uma região delimitada da superfície terrestre.

Esses autores apontaram os fatores climáticos que mais de perto influenciam

as biocenoses e, portanto os seres vivos, implicados no processo de transmissão de

doença são: a temperatura do ar, a umidade relativa e a precipitação pluviométrica.

O clima é, enquanto componente do meio natural, um dos principais fatores a

influenciar os diferentes tipos de adaptações do homem na superfície do planeta,

podendo influenciá-la positiva ou negativamente (MENDONÇA, 2001, p. 23).

15

Conforme Mendonça (2001, p.160) a relação clima-homem foi tratada com

rigor, na qual o determinismo era categórico em moldar e explicar os fatos. Essa

relação observada com característica científica, voltada ao comportamento humano

constitui-se na atualidade com outra visão.

Muitas barreiras foram vencidas, as pesquisas estão voltadas para a

compreensão entre o clima e a saúde, de maneira abrangente, com vários focos de

abordagens. Como Yan (2000) que analisou a influência do clima na mortalidade

humana em Hong Kong, entre 1980 a 1994, por problemas relacionados a tumores,

circulatórios e respiratórios, verificando que o clima tem efeito importante sobre a

mortalidade e certas faixas etárias são mais suscetíveis.

Dessai (2002) analisou o calor associado com o stress e o aumento da

mortalidade em Lisboa, no período de 1980 a 1998, incluindo as doenças

cardiovasculares, cânceres, respiratórias e isquêmicas. Utilizou-se de modelos

estatísticos de previsão, concluindo que durante o verão, ocorrem relação com o

stress e mortes por doenças cardiovasculares e cânceres.

Braga, Zanobetti e Schwartz (2002) verificaram o efeito do clima e a

mortalidade por doenças respiratórias e cardiovasculares, em doze cidades dos

Estados Unidos, notaram que as temperaturas altas favorecem ao aumento de

problemas cardiovasculares e temperaturas baixas favorecem ao aumento

principalmente pneumonias.

Davis et al., (2003) observaram a mortalidade em geral no verão nos Estados

Unidos, analisando por décadas, de 1960 a 1970, e depois de 1980 a 1990,

verificaram que em dias de temperatura alta independente do período, a média de

mortalidade mostrou-se elevada na maioria das cidades.

Dushoff et al., (2006) estudaram a mortalidade por diversas causas nos

Estados Unidos, entre 1979 a 2001, utilizaram-se da temperatura média e de

modelos de regressão, concluíram que, o vírus Influenza, é uma importante causa

de excesso por mortes sazonais, naquele País.

Para analisar as admissões hospitalares por doenças respiratórias, crises

renais, circulatórias e fraturas do fêmur em Veneto - Itália, durante uma onda de

calor ocorridas em 2002 e 2003, Mastrangelo et al., (2007), utilizaram informações

relacionadas com a umidade e a temperatura simultaneamente, através de um

modelo de regressão. Esses autores perceberam que as pessoas idosas foram

hospitalizadas por doenças cardiovasculares e respiratórias.

16

A produção cientifica referente à temática, embora associe as enfermidades

com as condições do tempo atmosférico, reportam-se também em relacionar a

poluição do ar com as doenças respiratórias, como Sobral (1988) que retratou os

efeitos da poluição do ar na manifestação de doenças respiratórias em crianças em

São Paulo, sendo um dos estudos pioneiros referente aos impactos causados na

saúde devido a poluição.

Castro (2000) analisou os poluentes atmosféricos no espaço urbano de Rio

Claro-SP, juntamente com as variações climáticas, associando com as doenças

relacionadas ao aparelho respiratório, para os meses de junho a agosto de 1995,

1996 e 1997. Observou que a estabilidade causada pelas massas de ar polar

tropicalizada e pela tropical atlântica aumentam a morbidade e mortalidade por

afecções respiratórias.

Pitton (2003), encontrou relação com a poluição e as doenças respiratórias

em Piracicaba-SP. Coelho-Zanotti (2007) estudou as internações por doenças

respiratórias de 1997 a 2000, em crianças de zero a treze anos, na cidade de São

Paulo, a partir dos dados de poluição do ar e índices biometeorológicos. Observou

que estes fatores possuem relação com as internações.

Braga et al., (2007) estudaram os efeitos agudos da poluição do ar por

material particulado inalável, a temperatura e a umidade, sobre os atendimentos em

pronto-socorro por doenças respiratórias e cardiovasculares de pessoas moradoras

em Itabira-MG. Verificando que estes itens interferem na ocorrência das causas de

morbidade, naquela cidade.

5.4 ESTUDOS DO CLIMA RELACIONADOS A DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

Sobre esse tópico, Nadal e Vide (1999, p. 467), constataram:

O impacto das temperaturas diárias sobre a saúde e especificamente

sobre a mortalidade registrada nos últimos anos em Barcelona, não

oferece dúvidas, os efeitos negativos das temperaturas, são

evidentes

no

aumento

de

falecimentos

por

infecções

cardiovasculares quanto respiratórias, assim como no total de mortes

registradas.

Para Abreu, Ferreira (1999) existe uma relação clara entre as doenças

respiratórias e as condições meteorológicas, acrescentaram:

17

A relação entre o número de casos de doenças respiratórias que

acontecem ao longo do ano e a temperatura do ar é inversamente

proporcional, ou seja, à medida que a temperatura do ar diminui,

ocorrem aumento do número de casos de internações e

atendimentos nos hospitais, em Belo Horizonte-MG, que concentram

nas estações de outono e inverno (ABREU, FERREIRA, 1999, p. 11).

Pitton (2000) em pesquisa realizada em Cordeirópolis e Santa Gertrudes-SP,

percebeu a possibilidade das infecções respiratórias serem mais sensíveis e mais

comuns e, às vezes fatais, em tipos de tempo que prevalecem nos meses de

outono-inverno, com a maior incidência por gripe, asma e bronquite.

Mendonça, Bórax e Paula (2000) analisaram a incidência de doença

respiratória, como a Infecção das Vias Aéreas Superiores (IVAS), na população

infantil em Curitiba e perceberam a existência do número de casos mais expressivo

no ano de 1996, principalmente nos períodos com domínio da massa Polar atlântica

(mPa).

Bejarán (2001) num trabalho realizado entre 1996/98, para Buenos Aires,

utilizou-se de análise de regressão múltipla juntamente com ajustes polinomiais.

Observou que, com a chegada do período frio, aumentam os problemas das vias

respiratórias altas e as infecções cardiovasculares.

Lima (2000, p. 56) constatou que, baixas temperaturas associaram-se a

aumento de admissões hospitalares por doenças respiratórias agudas, de crianças

até dois anos de idade, residentes no Município de Maringá.

Na Argentina Rusticucci, Bettolli e Angeles (2002, p. 43) analisaram, num

hospital as internações referentes a problemas respiratórios, cardiovasculares,

digestivos, infecções, geniturinário, alérgicos, relacionando-os com a temperatura

máxima, mínima, umidade relativa e pressão atmosférica, entre o período de inverno

e de verão. Concluindo que no inverno as condições atmosféricas, possui relação

com as doenças alérgicas e respiratórias.

Zem (2004), analisou as doenças respiratórias na população infantil da cidade

de São José dos Pinhais/PR, para o ano de 2000, utilizando-se da análise rítmica,

organizadas em trimestres. Esse autor, verificou que no primeiro e terceiro

trimestres, ou, verão e primavera, os números de registros de internações são

amenizadas, concluindo:

[...] Verificou-se que o 2º e 3º trimestres registraram o maior número

de ocorrências, sendo 114 e 117 casos, respectivamente. Esses

18

números perfazem 64,5% dos registros do ano todo. Com esses

números, pode-se evidenciar que as maiores incidências ocorreram

nas épocas mais frias do ano, ou seja, no outono e inverno (ZEM,

2004, p. 126).

Barros (2006) estudou a ocorrência de doenças respiratórias e os tipos de

tempo, através da análise rítmica, em Brasília-DF, durante o período de outono e

inverno de 2003, 2004, 2005, concluindo:

Ocorre aumento nos atendimentos em pronto-socorro por doenças

respiratórias, quando há diminuição da umidade relativa do ar,

redução da precipitação, da temperatura, com o aumento da

amplitude térmica, típicos dos tempos seco de outono e seco de

inverno, exercendo clara influência sobre o aumento das doenças

das vias aéreas (BARROS, 2006, p. 115).

Souza (2007) analisou as influências dos fatores climáticos urbanos na

incidência de casos de doenças do aparelho respiratório, no período de 2000-2007,

em Presidente Prudente, constatando:

Num estudo de caso direcionado a cidade de Presidente Prudente

(localizada no Extremo Oeste Paulista, possui uma variabilidade

climática marcada por verões chuvosos e temperaturas altas e

inverno seco de temperatura amena) as análises mensais, tanto

meteorológicas quanto respiratórias demonstraram correlações.

Período de estiagem prolongadas, oscilações e quedas de

temperatura e umidade relativa, na maioria das vezes, abaixo de

60%, estiveram presentes nos momentos em que houve aumento do

número de casos de internações, por agravos respiratórios (SOUZA,

2007, p. 171).

Os efeitos do clima e do tempo atmosférico sobre a saúde humana ainda não

são bem compreendidos. Conforme Pitton e Domingos (2004, p. 79) no entanto, há

uma quantidade considerável de estudos evidenciando que as mudanças climáticas

cíclicas influenciam os ritmos biológicos, os quais interferem em todas as atividades

e funções humanas.

5.5 CONFORTO TÉRMICO HUMANO

19

Segundo Maia, Gonçalvez (2002, p. 305) a biometeorologia humana tem

baseado seus estudos em índices térmicos empíricos, incorporando geralmente,

dois ou três parâmetros que são relacionados com sensações humanas de conforto

e desconforto.

Existem dois índices mais utilizados, como o índice térmicos empíricos de

desconforto de THOM (1959) e o índice de wind-chill de SIMPLE (1945) (MAIA,

GONÇALVEZ, 2002, p. 305).

O conforto térmico engloba componentes termodinâmicas, conforme Monteiro

(2003, p. 24) que se expressam através do calor, ventilação e umidade, nos

referenciais básicos a essa noção. É um filtro perceptivo bastante significativo, pois

afeta a todos permanentemente.

Vários são os fatores que proporcionam as condições de conforto térmico,

levando em conta, a função da atividade desenvolvida pelo indivíduo, bem como a

sua vestimenta. Segundo Frota, Schiffer (2003, p. 25) além disso, devem ser

consideradas outras variáveis, como sexo, idade, biotipo, hábitos alimentares, etc.

Os primeiros estudos acerca da influência das condições termo-higrométricas,

foram desenvolvidas pela Comissão Americana da Ventilação. Os índices de

conforto térmico foram desenvolvidos com base em diferentes aspectos do conforto

e podem ser classificados em:

Índices biofísicos – que se baseiam nas trocas de calor entre o corpo

e o ambiente, correlacionando os elementos do conforto com as

trocas que dão origem a esses elementos;

Índices fisiológicos – que se baseiam nas reações fisiológicas

originadas por condições conhecidas de temperatura seca do ar,

temperatura radiante média, umidade do ar e velocidade do vento;

Índices subjetivos – que se baseiam nas sensações subjetivas de

conforto experimentadas em condições em que os elementos de

conforto térmico variam (FROTA, SCHIFFER, 2003, p. 26).

Para caracterizar a sensação de bem estar ocasionada por um ambiente, em

função de sua temperatura, umidade e deslocamento do ar adota-se o conceito de

temperatura efetiva, que está relacionada com as condições de despesa mínima de

energia do organismo, que se verifica quando o mesmo não tem de lutar contra o frio

ou o calor (COSTA, 1974, p. 207).

Essas condições, ditas de neutralidade térmica, dependem dos mesmos

fatores que influem sobre o metabolismo, de modo que, na realidade, não podemos

20

falar de uma temperatura efetiva de máximo conforto, mas sim de uma zona de

conforto (COSTA, 1974, p. 207).

Segundo Azevedo (2010, p. 31) vários autores tem elaborado equações

matemáticas, mais ou menos complexas, envolvendo duas ou mais variáveis

meteorológicas que se relacionam, dependendo do meio e finalidade de estudo.

Os índices visam identificar limites fisiológicos de sensibilidade a influência

dos vários parâmetros, mediante o comportamento do organismo perante as

variações desses parâmetros (AZEVEDO, 2010, p. 31).

Um exemplo clássico é o índice de Temperatura Efetiva (TE) fornecida por

Thom (1959), segundo Funari (2006, p. 37) esse índice é também chamado de

“índice de desconforto”, de E. C. Thom, é o mais conhecido e utilizado,

principalmente por urbanistas e arquitetos, para o planejamento urbano.

Conforme Ayoade (1986, p. 65) esse índice é encontrado pela equação da

temperatura do bulbo seco e de bulbo úmido, medidas em ºC, é algumas vezes

denominada de índice de desconforto ou índice de temperatura-umidade.

Garcia (1996) disponibiliza as sensações do corpo aos distintos valores de

temperatura efetiva, conforme o Quadro 2.

Quadro 2: Temperatura efetiva e sensações térmicas.

TEMPERATURA

SENSAÇÃO

RESPOSTA

EFETIVA

TÉRMICA

CONFORTO

FÍSICA

40º C

Muito quente

Muito incômodo

Problema de regulação.

35º C

Quente

-

Aumento da tensão, por transpiração e

aumento do fluxo sangüíneo.

30º C

Temperado

-

Regulação normal por transpiração e

troca vascular.

25º C

Neutro

Cômodo

Regulação vascular.

20º C

Ligeiramente

Ligeiramente

Aumento de perdas por calor seco.

fresco

incômodo

15º C

Frio

Incômodo

Vasocontrição nas mãos e pés.

10º C

Muito frio

-

Estremecimento

Fonte: Garcia (1996, p. 207).

Conforme Garcia (1996) a existência de um equilíbrio térmico, não indica

necessariamente confortabilidade, posto que, pode alcançar condições de mal estar

por efeito dos mecanismos auto-reguladores. Acrescentando ainda:

O corpo humano tem internamente uma temperatura que varia entre

36,5 e 37ºC, o equilíbrio térmico do corpo consiste em manter a

temperatura dentro dessa média, se a temperatura aumenta ou

21

diminui pode provocar lesões graves, de tal modo que entre 40 e

45ºC produz complicações de circulação e acima de 41 e 42ºC pode

um indivíduo chegar ao estado de coma ou colapso total (GARCIA,

1996, p. 200).

Estudos já efetuados mostraram que a sensibilidade do organismo humano,

relacionados com a variabilidade climática, os níveis de poluição, (assim como os

índices de conforto térmico), muitas vezes podem colaborar para o

desencadeamento de alguns problemas de saúde, como as doenças

cardiovasculares e as respiratórias.

Braum (2003) analisou os índices de conforto térmico nos estudos

relacionados a doenças cardiovasculares na cidade de São Paulo e definiu:

Os resultados obtidos neste estudo são muito claros no sentido de

mostrar uma nítida associação entre mortalidade por doenças

cardiovasculres e poluição atmosférica e variáveis meteorológicas

(ou situações sinóticas) incluindo-se os índices do conforto (BRAUM,

2003, p. 148).

Coelho-Zanotti (2007) estudou as internações por doenças respiratórias de

1997 a 2000, em crianças de zero a treze anos, referente a cidade de São Paulo e

concluiu:

[...] De acordo com a análise feita podemos afirmar que os

poluentes, os índices de conforto térmico e as variáveis

meteorológicas apresentam uma relação de causa e efeito nas

internações por Afecções das Vias Aéreas Superiores, (AVAS),

Afecções das Vias Aéreas Inferiores (AVAI) e Influenza e

Pneumonia (IP) (COELHO-ZANOTTI, 2007, p. 161).

Silva (2010) observou os problemas respiratórios, em crianças menores de

cinco anos e circulatórios e respiratórios, em adultos com mais de sessenta anos, no

setor Sul/Sudeste de São Paulo. Acrescentando:

Os resultados mostraram associação entre a morbidade e as

variáveis climáticas e o índice de conforto, no setor Sul/Sudeste,

porém de forma diferenciada nos grupos etários e de doenças,

indicando que os efeitos do clima sobre a saúde são diversos e

específicos. As condições de desconforto para o frio e a alta

amplitude térmica, consistiram em fatores mais agravantes para o

desencadeamento das doenças (SILVA, 2010, p. 189).

22

5.6 A QUESTÃO ESPACIAL NA SAÚDE

Segundo Carvalho, Pina e Santos (2000, p. 19) a urbanização tem sido um

fator predominante no estabelecimento humano em escala mundial, as cidades têm

sido estudadas em termos da ecologia urbana das doenças, poluição,

superpopulação, estresse e pobreza que afetam a saúde humana.

Nesse processo de estudo para as cidades, as análises espaciais dos

eventos e agravos de saúde possibilitam o diagnóstico preciso das condições

sanitárias da população. O conhecimento através da análise espacial permite então

melhor diagnóstico, execução de ações e avaliação de intervenções dirigidas à

prevenção e ao controle dos danos a saúde.

A utilização de mapas para representar um determinado caso, sempre esteve

relacionada a assuntos de saúde pública. Um exemplo muito interessante é o de

John Snow, que analisou a distribuição da epidemia da cólera, entre 1849 e 1854,

na região de Soho, em Londres (BRODY et al., 2000).

Em sua publicação On the Mode of Communication of Cholera in London,

1855, Snow elaborou um mapa de distribuição dessa doença, marcando os locais de

83 óbitos por cólera, apontando uma estreita ligação entre os casos de cólera e as

fontes de fornecimento de água da Rua Broad, identificando a companhia de

Southwark Vauxhall como fonte da doença.

Em Maringá-PR, Fonzar, Soares e Santil (2002), utilizaram da técnica de

mapeamento, para representar três principais causas de morte nesta cidade, no ano

de 1996, sendo as doenças cardiovasculares, neoplasias e causas externas.

Segundo Fonzar (2003, p. 14) com a identificação de áreas geográficas e de

seus fenômenos, é possível apontar grupos da população que apresenta maior risco

de adoecer ou morrer prematuramente e que, portanto, precisam de maior atenção,

seja preventiva, curativa ou de promoção à saúde.

Para definir a mortalidade por causas externas em Maringá-PR, Fonzar

(2003), utilizou-se da construção de mapas temáticos e enfatizou:

- É preciso compreender o ambiente urbano enquanto espaços

antagônicos que está ligado ao próprio processo de construção da

cidade, ou seja, à criação do próprio espaço urbano, do “ambiente”

nos quais as pessoas vivem, circulam e morrem, sendo espaço de

23

conflitos e desigualdades, de inclusão e exclusão, portanto

multidimensional;

- É nessa perspectiva que a Geografia e a Saúde têm que

espacializar e analisar os fenômenos e ou agravos, eventos de

saúde e, que muitas vezes o objeto de análise ultrapassa a dimensão

dessas ciências necessitando a inclusão de outros saberes como da

antropologia, psicologia, sociologia, história, engenharia, direito,

entre outros (FONZAR, 2003, p. 157).

Segundo Queiroz (2003, p. 9) a visualização espacial de diferentes aspectos,

isto é a presença de mapas, é fator fundamental no planejamento. Porém estes

mapas devem ser concisos, legíveis, apresentando simbologias que facilitem a

apreensão da informação.

A elaboração de mapas para identificar um caso analisado, facilita a amostra

e permite indicar onde um determinado problema está em atuação, por esse motivo,

em pesquisas geográficas e em eventos de saúde os mapas são extremamente

utilizados.

5.7 O APARELHO RESPIRATÓRIO

O aparelho respiratório é formado pelo Trato Respiratório Superior, que

compreende os órgãos localizados fora da caixa torácica, com espaços

interconectados, com o nariz externo, a cavidade nasal ou fossas nasais, seios

paranasais, laringe, nasofaringe, parte superior da traquéia. E pelo Trato

Respiratório Inferior, que consiste em órgãos localizados na cavidade torácica,

começando na laringe e continuam para o tórax com a parte inferior da traquéia,

brônquios, bronquíolos e alvéolos.

Conforme a Classificação Internacional de doenças respiratórias CID-10

(1997, p. 499) as doenças respiratórias compreende os seguintes agrupamentos:

Infecções agudas das vias aéreas superiores; influenza {gripe} e pneumonia; outras

infecções agudas das vias aéreas inferiores; outras doenças das vias aéreas

superiores; doenças crônicas das vias aéreas inferiores; doenças pulmonares

devidas a agentes externos; outras doenças respiratórias que afetam principalmente

o interstício; afecções necróticas e superativas das vias aéreas inferiores; outras

doenças da pleura; outras doenças do aparelho respiratório.

24

Mcphee, Ganong (2007), Apud CORRÊA (2010, p.41/42) as principais

doenças do aparelho respiratório podem ser assim resumidas:

- o resfriado comum pode ser causado por vários tipos de vírus e atinge

principalmente o nariz, os seios paranasais e a faringe:

- a rinite refere-se à inflamação da membrana do nariz, devido a reações alérgicas,

geralmente acontece na infância e na juventude. Fatores genéticos são importantes

para o seu aparecimento, mas fatores ambientais podem desencadeá-la;

- a asma é uma doença inflamatória crônica na qual o indivíduo apresenta uma

sensibilidade acentuada nas vias aéreas inferiores, com dificuldades de respiração e

apresenta como sintomas, entre outros, aperto no peito e tosse. É resultado dos

fatores genéticos e, principalmente, exposição ambiental;

- a bronquite caracteriza-se pela inflamação e inchaço dos brônquios. Quando as

membranas mucosas que revestem esses tubos inflamam, as glândulas mucosas

nas membranas se expandem e liberam o muco. Os brônquios, já estreitados pelo

inchaço, ficam mais obstruídos pelo excesso de muco. Esse muco deve ser

eliminado para manter a árvore respiratória livre para a passagem normal do ar até

os pulmões;

- a enfisema tem como característica a obstrução completa dos bronquíolos, com

aumento da resistência à passagem de ar, principalmente durante a expirações.

Essa doença acomete principalmente os fumantes;

- a pneumonia constitui-se em um processo inflamatório dos pulmões, podem

acometer a região dos alvéolos pulmonares, local que desembocam as ramificações

terminais dos brônquios, são provocadas pela ação de um agente irritante, como:

bactérias, fungos ou reações alérgicas no espaço alveolar.

6 CLIMATOLOGIA DA REGIÃO SUL DO BRASIL

Segundo a definição do clima por HANN (1903) apud FUNARI (2006, p. 22)

“clima é o conjunto dos fenômenos meteorológicos, que caracterizam a condição

média da atmosfera em cada lugar da Terra”.

25

Sorre (1984) “definiu o clima de um determinado local como sendo a série dos

estados da atmosfera, em sua sucessão habitual. Cada tempo se define por uma

combinação de elementos do clima”.

O estudo do clima baseia-se na observação de como os tipos de tempo se

apresentam em um determinado lugar, de acordo com a atuação direta de frentes e

de massas de ar (SORRE, 1984, P. 32).

Podem-se destacar como elementos importantes para o estudo do clima as

temperaturas, a umidade relativa do ar, a precipitação, a queda de neve, a

incidência de luz solar, a velocidade do vento, a pressão atmosférica e as

freqüências dos diferentes tipos de massas de ar (SORRE, 1984, p. 32).

As massas de ar são também muito importantes no estudo de tempo e do

clima, porque influenciam diretamente na área na qual predominam, assim, as

características meteorológicas de uma massa de ar dependem de suas

características higrotérmicas e da distribuição vertical desses elementos.

Monteiro (1968) ao analisar a circulação atmosférica na América do Sul,

caracterizou das principais massas de ar predominantes no Brasil, salientando

aquelas que tem participação mais ativa na região Sul, como:

- A massa Tropical atlântica (Ta) individualiza-se no anticiclone

semifixo do Atlântico Sul. Por suas propriedades na fonte é uma

massa quente, úmida e com tendência a estabilidade pela

subsidência superior daquela célula oceânica de altas pressões

dinâmicas. Graças ao sistema de emissão contra-horário daquele

anticiclone austral, têm grande poder de penetração para o interior

do continente. As regiões Este, Sul e Centro-Oeste são

frequentemente dominadas por esta massa, cujas trajetórias, em que

pêse a flutuação latitudinal e proximidade ou afastamento de sua

fonte, variam do leste para nordeste. Sua atividade é constante o ano

inteiro.

- A massa Polar atlântica (Pa) de atividade mais no inverno, graças

aos efeitos que produz, apresenta participação de realce na

circulação regional. Essa massa fria tem sua fonte sobre o Atlântico,

não longe do continente, na latitude da Patagônia. Resulta do

acúmulo do ar polar que, em turbilhões, para aí se dirige. A

orientação meridiana da cordilheira andina cria duas massas: a Pa,

que se fez referência e a Polar pacífica (Pp), as quais, tendo a

mesma gênese, estão intimamente relacionadas [...].

- A massa Equatorial continental (Ec) tem sua fonte na planície

amazônica. É uma célula de divergência dos alísios - doldrum - que

tende a manter-se durante todo o ano naquela zona. Trata-se de

uma massa quente, de elevada umidade específica [...]. No verão

austral, atraída pelos sistemas depressionários (térmicos e

dinâmicos) do interior do continente, tende a avançar do NW, ora

26

para SE, ora para ESSE, de acordo com a posição da Frente Polar

Atlântica [...].

- A massa Tropical continental (Tc) de ocorrência bem menos

conspícua,

tem

uma

participação

complementar.

Sua

individualização é mais restrita ao verão quando a depressão do

Chaco, dinamizada pela Frente Polar Atlântica, se superpõe uma

bolsa de ar frio (circulação superior). Assim o ar quente e seco da

planície central do continente, dotado de subsidência superior pela

importação de ar frio, torna-se dotado de movimento divergente, uma

das condições básicas para a individualização de massas de ar.

Apesar disto, muito frequentemente, durante as outras estações do

ano, notam-se, nas cartas sinóticas brasileiras, referências a Tc.

Muitas vezes esta sinalização se refere a uma massa polar já velha,

bastante modificada, que no interior do continente, se tornou bem

mais quente e mais seca [...] (MONTEIRO, 1968, p. 122-123).

Conforme Varejão-Silva (2001) por questões relacionadas à circulação geral

da atmosfera, as massas de ar frequentemente abandonam a região de origem,

conduzindo consigo as propriedades lá adquiridas. Em relação a esses

deslocamentos das massas, argumentou:

No trajeto, podem causar profundas alterações nas condições

prevalecentes do tempo, das áreas aonde chegam, à medida que

também vão se modificando em suas características originais [...].

Quando uma massa de ar se desloca sobre uma região mais quente

(sendo, portanto, classificada como fria), a camada atmosférica que

está em contato direto com a superfície é aquecida por condução,

gerando instabilidade [...]. Uma massa de ar é dita quente quando se

desloca sobre uma área relativamente mais fria. Nessas

circunstâncias, o ar quente perde gradualmente calor, por condução,

devido ao contato com a superfície terrestre subjacente, que está

mais fria (VAREJÃO-SILVA, 2001, p. 419-420).