Análise microbiológica comparativa da ação de diferentes agentes descontaminantes sobre... por Renata Rodrigues de Freitas Blagitz - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE ODONTOLOGIA DE BAURU

RENATA RODRIGUES DE FREITAS BLAGITZ

Análise microbiológica comparativa da ação de diferentes agentes

descontaminantes sobre superfícies de titânio

BAURU

2011

RENATA RODRIGUES DE FREITAS BLAGITZ

Análise microbiológica comparativa da ação de diferentes agentes

descontaminantes sobre superfícies de titânio

Tese

apresentada

a

Faculdade

de

Odontologia de Bauru da Universidade de

São Paulo para obtenção do título de Doutor

em Odontologia.

Área de Concentração: Reabilitação Oral

Orientadora: Profa Dra.Maria Lúcia Rubo de

Rezende

BAURU

2011

Blagitz, Renata Rodrigues de Freitas

B572a

Análise microbiológica comparativa da ação

de diferentes agentes descontaminantes sobre

superfícies de titânio / Renata Rodrigues de

Freitas Blagitz. – Bauru, 2011.

89 p. : il. ; 31cm.

Tese (Doutorado) – Faculdade de Odontologia

de Bauru. Universidade de São Paulo

Orientadora: Prof. Dra. Maria Lúcia Rubo de

Rezende

Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a

reprodução total ou parcial desta dissertação/tese, por processos

fotocopiadores e outros meios eletrônicos.

Assinatura:

Data:

Comitê de Ética da FOB-USP

Protocolo nº: 020/2011

Data: 30/03/2011

FOLHA DE APROVAÇÃO

DADOS CURRICULARES

05 de julho de 1975

Nascimento: Botucatu – SP

1994-1997

Graduação

em

Odontologia

pela

Faculdade de Odontologia de Bauru –

Universidade de São Paulo

1990-2002

Mestrado em Odontologia, área de

concentração

Periodontia,

pela

Faculdade de Odontologia de Bauru –

Universidade de São Paulo

2007-2011

Doutorado em Odontologia (Reabilitação

Oral), área de concentração Periodontia,

pela Faculdade de Odontologia de Bauru

– Universidade de São Paulo

DEDICATÓRIA

A TUDO de mais especial que tenho:

Dahyl Henrique e Ana

,

Clara

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS

Ao querido André, que me acolheu no departamento de microbiologia e possibilitou

a concretização deste trabalho.

À Prof. Dra. Maria Lúcia Rubo de Rezende que aceitou me orientar sem nem

mesmo me conhecer.

Às colegas Samira e Roberta que tiveram a idéia inicial que resultou neste projeto.

AGRADECIMENTOS

A DEUS que está no comando de tudo, permitindo que realizemos (ou não) tudo aquilo

a que nos propusemos.

A minha família maravilhosa: Dahyl, Henrique e Ana Clara, que é a razão de todas as

minhas lutas.

A minha mãe Sônia e todos seus exemplos de luta na vida.

Aos meus irmãos Ju, Gô e Rachel, e logicamente também as suas famílias: Lu,

Mariana, Gabriela, Fábio e Diogo.

Aos meus tios e primos Vera, Ana e Claudinho; Edna e Nivaldo; Lia, Carlos, Matheus

e Caio e Marina.

A minha sogra Nair e todos seus exemplos de luta na vida.

Aos meus cunhados e suas famílias: Luciana e João; Renato, Cristina e Rafaella.

A minha super amiga Rose, que nunca me abandonou!

Aos meus colegas de trabalho: Mari, Simone, Patrícia, Fernando, Leandro, Rogério,

Thiago, Marcelo, Vivi, Fer e, em especial, Cecy, companheira de sempre!

Às pessoas que contribuíram para manter a minha saúde neste projeto: Dr. Raul, Dra.

Mariana e José Luiz.

Aos professores da Disciplina de Periodontia da FOB/USP Prof. Dr. Euloir, Profª. Drª.

Adriana, Profª. Drª. Carla e Prof. Dr. Sebastião.

Aos professores da Disciplina de Microbiologia e Imunologia Ana Paula Campanelli e

Sérgio Aparecido Torres.

Ao Prof. Dr. José Roberto Pereira Lauris por sempre ajudar na análise estatística.

Aos meus colegas de pós-graduação Carlos, Mônica, Rafael, Andréia, Márcio, Bruna,

Pedro e especialmente ao Eduardo, admirável exemplo de dedicação e esforço.

Aos funcionários da Disciplina de Periodontia da FOB/USP: Ivânia, sempre especial,

Edilaine e Marcão. Aos colegas de pós-graduação da Micro: Belai, Carine, Claudia,

Hayana, Lucas e Thaís.

Aos funcionários do Departamento de Microbiologia da FOB/USP André e Dalva.

À secretária do departamento de Prótese Déborah pela disposição em ajudar.

Aos funcionários do setor de compras da FOB-USP, em especial ao Anderson e

Sandra, pelo esforço de conseguirem o material necessário para a pesquisa.

À Pós-graduação da FOB/USP, na pessoa do Presidente Prof. Dr. Paulo César

Rodrigues Conti.

Às funcionárias da pós-graduação Hebe, Cleuza, Maria Margareth, Fátima e

especialmente à Ana Letícia que não me deixou desistir.

.

À empresa Titanium Fix pela gentileza em ceder os discos de titânio utilizados neste

trabalho.

À empresa Kolplast pela gentileza de doar as pinças plásticas utilizadas neste trabalho.

À Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior (CAPES) pelos 6

meses de bolsa de estudos concedida.

À Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP),

na pessoa do diretor Prof. Dr. José Carlos Pereira.

E a todos que contribuíram direta ou indiretamente para a realização deste trabalho,

muito obrigada!

Renata

“... porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o

vosso coração”

Bíblia Sagrada

Lucas, cap. 12, vs. 34

Resumo

RESUMO

Os implantes de titânio estabeleceram-se, ao longo do tempo, como uma

opção de tratamento com grande índice de sucesso. Entretanto, falhas são passíveis

de ocorrer, devido à exposição de suas superfícies ao meio bucal, imediatamente ou

até muito tempo passado de sua implantação. Estas superfícies de titânio podem se

infectar por bactérias e seus produtos, de forma semelhante à que ocorre na

superfície de raízes dentais. Tais contaminantes intensificam a resposta inflamatória,

além de alterar a estrutura superficial do implante podendo dar origem às doenças

peri-implantares, como a mucosite peri-implantar e a peri-implantite. Para o

tratamento destas doenças, diversos métodos de descontaminação de superfícies

de implantes têm sido propostos, incluindo o uso substâncias anti-sépticas, jatos

abrasivos, ácidos, antibióticos e lasers. O objetivo foi avaliar comparativamente a

capacidade de descontaminação do peróxido de hidrogênio a 1,5 % (H2O2), do

gluconato de clorexidina a 0,12% (CLX) e do soro fisiológico (SF) já que, até o

momento, nenhuma metodologia está estabelecida como padrão ouro para a

limpeza superficial. Placa bacteriana foi colhida de sítios de doença periodontal

crônica para contaminação de discos de titânio de superfícies lisas e rugosas.

Posteriormente, os discos foram submersos em 10 mL das substâncias estudadas

por 1 minuto, friccionados com swab e enxaguados em solução fisiológica. Discos

controle (C) foram somente enxaguados em soro fisiológico. Desta forma resultaram

os seguintes grupos de estudo, constituídos de 5 discos de cada tipo de superfície

lisa (L) e rugosa (R): H2O2R , CLXR, SFR, CR, H2O2L, CLXL , SFL e CL. A avaliação do

potencial descontaminante das substâncias foi realizada através da quantificação do

crescimento bacteriano pela contagem das unidades formadoras de colônia (UFCs)

após semeadura em Agar-brucella e incubação em jarra de CO2 a 37oC por 24

horas. Os resultados após descontaminação foram comparados através da análise

de variância a dois critérios (ANOVA) e o nível de significância adotado para todos

os testes foi de 5%. Os resultados obtidos permitiram concluir que: as bactérias da

periodontite crônica têm capacidade de contaminar e aderir aos discos de titânio nos

dois tipos de superfícies estudados; as superfícies lisas e rugosas não diferem entre

si quanto aos procedimentos de contaminação e de descontaminação propostos; a

clorexidina, o peróxido de hidrogênio e o soro fisiológico apresentaram-se eficientes

na descontaminação das superfícies de titânio contaminadas in vitro; houve ligeira

superioridade na descontaminação pelo tratamento com a clorexidina de ambas as

superfícies de titânio avaliadas.

Palavras-chave: descontaminação, superfície de titânio, tratamento de peri-

implantite

Abstract

ABSTRACT

Microbiological comparison of different decontaminant agents on rough and

smooth titanium surfaces: microbiological analysis

Actually, the titanium implants are a successful option of treatment in

Dentistry. However, failures are possible to occur due to surface exposition to oral

environment immediately or lately after its implantation. The titanium implants

surfaces can be infected by bacteria and its products similarly to dental roots

surfaces. The contaminants turn the inflammatory response tissues more intensive

and them alter the surface structure of the implant and cause periimplant diseases

like mucositis and peri-implantitis. Several methods of treatment for those diseases

have been proposed in the literature, including antiseptics rinses, abrasives air

powder, acids, antibiotics and lasers. The aim of this work was to comparatively

evaluate the potential for decontamination of the hydrogen peroxide at 1,5% (H2O2),

the 0,12% chlorhexidine gluconate (CLX) and the saline solution (SF) as cleaning

methods, once until this moment there is not a gold standard method established for

this purpose. Bacterial plaque harvested from sites of chronic periodontal disease

was used to contaminate smooth and rough surfaces of titanium. Subsequently,

decontamination procedures were realized by submerging the discs in 10 ml of the

studied substances for 1 minute, cleaned by rubbing with swab and washed on saline

solution. Control discs (C) were only washed in saline solution. The following test

groups composed by 5 discs of each surface, smooth (L) and rough (R), were then

originated: H2O2R, CLXR, SFR, CR, H2O2L, CLXL, SFL and CL. The decontaminant

potential of studied substances was realized by counting the colony forming units

after seeding in Agar-brucella, under anaerobiosis condition for 24 hours under 37oC.

The data analysis was made by Variance Analysis (ANOVA) at 5% of significance

level. The results lead to the following conclusions: the chronic periodontal biofilm

adhesion was possible on smooth and rough titanium surfaces; the surface

characteristic had no significant influence on contamination and decontamination

method, independently of the substance used; clorhexidine, hydrogen peroxide and

saline solution were efficient on decontaminating both types of titanium surfaces in

vitro with slightly superiority to clorhexidine.

Key words: decontamination, titanium surface, treatment periimpantitis

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

- FIGURAS

Figura 1 - Discos de titânio de superfície lisa e rugosa (A), nas

embalagens recebidas do fabricante (B) .............................................. 43

Figura 2 - Organização da câmara de fluxo, com os tubos de

ensaio

contendo

os

discos

contaminados,

as

substâncias empregadas na desinfecção e os potes

coletores universais onde os discos foram submersos ........................ 45

Figura 3 - Discos mergulhados em meio BHI. Os três tubos da

esquerda apresentam o meio turvado, com grande

proliferação bacteriana; nos três tubos da direita o meio

está estéril (límpido) ............................................................................. 46

Figura 4 - Disco mergulhado em 10

mL de

susbtância

descontaminante clorexidina, peróxido de hidrogênio ou

soro fisiológico, neste caso o gluconato de clorexidina a

0,12% ................................................................................................... 47

Figura 5 - Fricção do com swab estéril nas faces anterior,

posterior e lateral do disco ................................................................... 47

Figura 6 - Preparação das placas de Petri com Agar-sangue .............................. 49

Figura 7 - Jarra de CO2 com as placas e a vela para consumir o

oxigênio simulando o ambiente de anaerobiose .................................. 50

Figura 8 - Contagem das UFCs: A - Placa do Grupo H2O2,

diluição de 10-3 na qual a contagem foi feita

integralmente; B - Placa do Grupo controle positivo,

diluição de 10-6 na qual se optou pela contagem por

quadrante ............................................................................................. 50

Figura 9 - Imagem

superficial

obtida

próximo

ao

centro

geométrico do disco liso produzida pelo perfilômetro de

contato. X e Y indicam as extensões avaliadas. A

escala indica a variação de profundidade. Z é a

distância do ponto mais profundo ao ponto mais alto

(pico, Z = 20 µm) ................................................................................. 55

Figura 10 - Imagem

superficial

obtida

próximo

ao

centro

geométrico do disco rugoso através do perfilômetro de

contato. X e Y indicam as extensões avaliadas. A

escala indica a variação de profundidade. Z é a

distância do ponto mais profundo ao ponto mais alto

(pico, Z = 16,3µm) ................................................................................ 56

- GRÁFICOS

Gráfico 1 - Distribuição das médias de UFCs encontradas nos

discos lisos e rugosos após os tratamentos ......................................... 57

Gráfico 2 - Contagem

média

das

UFCs

produzidas

após

descontaminação dos discos de titânio pelos diferentes

agentes descontaminantes .................................................................. 59

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Número de UFCs nos grupos de estudo após

contaminação (controle) e/ou descontaminação .................................. 57

Tabela 2 - Contagem média de UFCs produzidas após os

diferentes tratamentos reagrupando-se os discos lisos

e rugosos ............................................................................................. 58

LISTA DE ABREVIATURA E SIGLAS

ANOVA

Análise de Variância a dois Critérios

BHI

Brain Heart Infusion (infusão de cérebro e coração)

14C

Carbono 14

CFU

Colony-Forming Units (Unidades Formadoras de Colônia)

CL

Controle positivo (disco liso)

CLX

Tratamento com clorexidina

CLXL

Tratamento com clorexidina (disco liso)

CLXR

Tratamento com clorexidina (disco rugoso)

CR

Controle positivo (disco rugoso)

d.p.

Desvio padrão

DNA

Deoxyribonucleic Acid (ácido desoxirribonucleico)

Er:YAG

Laser de érbio

FEB – UNESP

Faculdade de Engenharia de Bauru- Universidade Estadual Paulista

GaAlAs

Laser de Arseneto de Gálio-Alumínio

H2O2

Tratamento com peróxido de hidrogênio

H2O2L

Tratamento com peróxido de hidrogênio (disco liso)

H2O2R

Tratamento com Peróxido de hidrogênio (disco rugoso)

LATUS

Laboratório de Tecnologia da Usinagem

LPS

Lipopolissacarídeo

n

Número de sujeitos da pesquisa

p

Nível de significância

pH

Potencial hidrogeniônico

Ra

Rugosidade média

SF

Tratamento com soro fisiológico

SFL

Tratamento com soro fisiológico (disco liso)

SFR

Tratamento com soro fisiológico (disco rugoso)

SLA

Sand blasted, Large grit and Acid etched (jateamento seguido de

ataque ácido)

UFC

Unidade Formadora de Colônia

VLFS 18

Câmara de fluxo laminar

X

Extensão da região analisada no eixo X

Y

Extensão da região analisada no eixo Y

Z

Distância máxima entre picos e vales

LISTA DE SÍMBOLOS

mL

mililitro (unidade de volume)

CO2

dióxido de carbono (molécula)

O2

oxigênio (molécula)

g/dia

unidade de massa por dia (posologia)

µL

microlitro (unidade de volume)

H2O2

peróxido de hidrogênio (molécula)

mM

milimolar (concentração)

TiO2

dióxido de titânio (molécula)

número

g/L

grama por litro (concentração)

ºC

graus Celsius (temperatura)

µm

micrômetro (unidade de comprimento)

Nm

nanômetro (unidade de comprimento)

mm2

milímetro (unidade de área)

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO ......................................................................................... 15

2

REVISÃO DE LITERATURA.................................................................... 21

2.1

PERI-IMPLANTITE ................................................................................... 23

2.2

CONTAMINAÇÃO DA SUPERFÍCIE DE IMPLANTES DE

TITÂNIO ................................................................................................... 24

2.3

AGENTES

QUÍMICOS

DESCONTAMINANTES

DE

SUPERFÍCIES DE IMPLANTES .............................................................. 26

2.4

INTERFERÊNCIA DO TIPO DE SUPERFÍCIE NA

EFICIÊNCIA DA DESCONTAMINAÇÃO .................................................. 33

3

PROPOSIÇÃO ......................................................................................... 37

4

MATERIAL E MÉTODOS......................................................................... 41

4.1

DISCOS DE TITÂNIO ............................................................................... 43

4.2

COLETA DE PLACA SUBGENGIVAL ...................................................... 44

4.3

CONTAMINAÇÃO DOS DISCOS ............................................................. 45

4.4

DESCONTAMINAÇÃO DOS DISCOS ..................................................... 46

4.5

PLAQUEAMENTO DE AMOSTRAS PARA CONTAGEM

DE UNIDADES FORMADORAS DE COLÔNIA ....................................... 48

4.6

ANÁLISE DOS RESULTADOS ................................................................ 51

5

RESULTADOS ......................................................................................... 53

6

DISCUSSÃO ............................................................................................ 61

7

CONCLUSÕES ........................................................................................ 71

REFERÊNCIAS ........................................................................................ 75

ANEXOS .................................................................................................. 85

1 Introdução

Introdução 17

1 INTRODUÇÃO

A reabilitação oral empregando implantes dentais osseointegráveis das mais

diversas formas e características de superfície é uma modalidade terapêutica com

ampla aceitação e comprovação científica (ADELL et al., 1990).

Apesar da alta previsibilidade ao longo do tempo, com o crescimento

gradativo do número de indivíduos reabilitados com esta terapia, pode-se esperar

também maior ocorrência de complicações nos tecidos peri-implantares

(BERGLUNDH; PERSSON; KLINGE, 2002), as quais aparecem, na sua maioria, em

até 2 anos da fixação do implante (BEHNEKE; BEHNEKE; D’HOEDT, 2000). Essa

observação mereceu atenção especial durante o 6o Workshop Europeu de

Periodontologia (ZITZMANN; BERGLUNDH, 2008) que classificou as doenças peri-

implantares em “mucosite peri-implantar”, quando há presença de inflamação na

mucosa sem sinais de perda de osso de suporte, e “peri-implantite”, quando a

inflamação na mucosa é simultânea à perda osso de suporte. Consolidou-se ainda,

que as lesões que acometem o tecido peri-implantar são decorrentes do acúmulo de

placa bacteriana e de processo de progressão similares às lesões dos tecidos

periodontais.

Para o desenvolvimento da peri-implantite, é necessário que haja a prévia

colonização da superfície do implante por biofilme microbiano, mas o mecanismo de

aderência de bactérias ainda não está totalmente esclarecido (BECKER et al., 1990;

DRAKE; PAUL; KELLER, 1999; MOMBELLI, 2002; SHIBLI et al., 2004). Há

evidências de que a superfície dos implantes torna-se infectada de forma

semelhante à superfície de raízes dentais e impregna-se com substâncias

contaminantes que intensificam a resposta inflamatória, além de sofrer alteração da

camada de óxido superficial (SHIBLI et al., 2004).

Assim, o objetivo de um tratamento de descontaminação de implantes

expostos à peri-implantite deve não apenas envolver a remoção do óxido superficial

contaminado, como manter a topografia da sua superfície e a integridade dos

tecidos circundantes (BAIER; MEYER, 1988; MOUHYI et al., 2000), além de tornar a

18 Introdução

superfície do implante novamente receptiva às células do hospedeiro, ou seja,

passível de se re-osseointegrar (SCHOU; BERGLUNDH; LANG, 2004).

Dentre

os

tratamentos

da

peri-implantite,

diversos

métodos

de

descontaminação de superfícies de implantes e de recuperação dos tecidos de

suporte peri-implantares foram propostos. O tratamento não-cirúrgico abrange

estratégia anti-infecciosa, como o debridamento mecânico com curetas, irrigação

com soro fisiológico e jato de pó de bicarbonato de sódio; a ação de agentes

químicos como ácidos e anti-sépticos na superfície dos implantes; a utilização de

antibióticos sistêmicos e/ou de ação local; além de diversos tipos de lasers.

(ERICSSON et al., 1996; PERSSON et al., 1996; HÜRZELER et al., 1997; BACH et

al., 2000; DEPPE et al., 2001; KREISLER; GÖTZ; DUSCHNER, 2002; SCHOU;

BERGLUNDH; LANG, 2004). Visando a recuperação dos tecidos perdidos, a estas

estratégias de descontaminação de superfície são somadas as cirurgias a retalho

para acesso e procedimentos de regeneração óssea (JOVANOVIC et al., 1993;

JOVANOVIC 1993; HÜRZELER et al., 1997; BEHNEKE; BEHNEKE; d’HOEDT,

2000; LEONHARDT; DAHLÉN; RENVERT, 2003; ROOS-JANSÅKER, 2007;

LINDHE; MEYLE, 2008; RENVERT; POLYZOIS; MAGUIRE, 2009, NOROWSKI JR;

BUMGARDNER, 2009).

Os tratamentos parecem, entretanto, ser influenciados por fatores físicos e

biológicos, dentre eles, a rugosidade de superfície do implante (QUIRYNEN et al.,

1990; ZITZMANN et al., 2002; FERREIRA et al., 2007). Resultados de estudos

microbiológicos em implantes que apresentaram doença peri-implantar mostraram

bactérias que também estão implicadas na doença periodontal (RAMS et al., 1983;

MOMBELLI et al., 1995; SLOTS; JORGENSEN, 2008; NOROWSKI JR;

BUMGARDNER, 2009) e que a adesão de espécies de Streptococos, Actinomyces,

Porphyromonas, Prevotella, Captonocytophaga e Fusobacterium, é facilitada pelo

aumento da rugosidade nas superfícies dos implantes e pela energia livre de

superfície (RIMONDINI; FARÈ; BRAMBILLA, 1997).

A maioria dos estudos relacionados à avaliação de tratamentos de

descontaminação de superfície de implantes utiliza a irrigação com soro fisiológico

tanto como um dos tratamentos quanto para promover a remoção dos outros

agentes (MEFFERT, 1996; BEHNEKE; BEHNEKE; D’HOEDT, 2000; SUMMERS et

Introdução 19

al., 2000; LEONHARDT, 2006; CHERRY et al., 2007; ALHAG et al., 2008; KOSUTIC

et al., 2009).

Em baixas concentrações, o peróxido de hidrogênio usado na

descontaminação pode interagir com o titânio sem danificar tecidos adjacentes

(MOUHYL et al., 2000; NAGASSA et al., 2008). Este agente oxigenante tem baixa

substantividade e aumenta a permeabilidade celular de bactérias através dos

radicais livres (CIANCIO, 1995). Ainda, os oxidantes potentes podem aumentar a

quantidade de óxido de titânio na superfície do implante (NAGASSA et al., 2008).

In vitro, a clorexidina adere ao titânio do implante e provavelmente é benéfico

para a descontaminação da superfície (CIANCIO, 1995; MEFFERT, 1996). A

clorexidina apresenta substantividade para superfície dental e mucosa oral e baixa

irritabilidade com poucos efeitos adversos (MEFFERT, 1996; SLOTS e

JORGENSEN, 2008). Existe grande comprovação na literatura do seu papel na

redução clínica da placa bacteriana e da gengivite (CIANCIO, 1995; MEFFERT,

1996; SLOTS e JORGENSEN, 2008).

Nos últimos anos, o tratamento não-cirúrgico e cirúrgico das lesões peri-

implantares tornou-se um tema de alta relevância e interesse. A análise dos achados

existentes sobre esse assunto demonstra uma lacuna no conhecimento sobre a

eficiência dos tratamentos de descontaminação de implantes. Observa-se que a falta

de uniformidade metodológica das pesquisas, a ampla variedade de possibilidades

de tratamentos da superfície contaminada do implante, além do elevado número de

possíveis associações dificulta a avaliação dos resultados e a comparação entre

eles (SCHOU; BERGLUNDH; LANG, 2004; KOTSOVILIS et al., 2008; RENVERT;

ROOS-JANSÅKER; CLAFFEY, 2008; HEINTZ-MAYFIELD, 2008; NTROUKA, 2010).

Até o momento, nenhuma metodologia está estabelecida como padrão para o

tratamento da peri-implantite (KOTSOVILIS et al., 2008), atentando para a

necessidade de métodos de baixo risco, alta previsibilidade, que seja acessível e de

fácil aplicação na clínica diária. Daí a justificativa para a realização de um trabalho

que contribua para o desenvolvimento de um protocolo de conduta no que diz

respeito à terapia de descontaminação química para casos de peri-implantite.

20 Introdução

Desta forma, propôs-se verificar comparativamente a ação descontaminante

de diferentes agentes comuns no dia-a-dia do clínico - peróxido de hidrogênio a

1,5% (H2O2), gluconato de clorexidina a 0,12% (CLX) e soro fisiológico (SF) - sobre

superfícies lisas e rugosas de discos de titânio previamente contaminados com placa

bacteriana de sítios com doença periodontal, contribuindo para a definição de

condutas clínicas confiáveis no tratamento da peri-implantite.

2 Revisão de

Literatura

Revisão de Literatura 23

2 REVISÃO DE LITERATURA

Embora este seja um estudo microbiológico in vitro, a descontaminação de

superfície, tema central deste trabalho, faz parte das possibilidades de terapia nos

tratamentos da peri-implantite. Por esta razão, a revisão de literatura inicialmente

enfocará algum conteúdo conceitual e epidemiológico da doença antes de abordar

registros diretos do uso dos diversos métodos de descontaminação em diferentes

tipos de superfícies de implantes.

2.1 PERI-IMPLANTITE

Tendo sido um termo introduzido primeiramente por Mombelli et al. (1987), a

peri-implantite recebeu profusa atenção durante o Workshop de Periodontia,

realizado na Suíça em 1993, quando termo doença peri-implantar passou a ser

utilizado para denominar reações inflamatórias que ocorrem nos tecidos ao redor

dos implantes. Nesse evento ficou definido que, quando restritas aos tecidos moles,

essas reações denominam-se mucosite peri-implantar ao passo que, se acometem

os tecidos moles e duros ao redor do implante, são denominadas peri-implantite. A

perda progressiva de osso peri-implantar pode prejudicar a manutenção do implante

e, conseqüentemente, comprometer a preservação da prótese implanto-suportada

(JOVANOVIC et al., 1993; ALBREKTSSON; ISIDOR, 1994; HÜRZELER et al.,

1995).

Em 2008, Lindhe e Meyle no 6º Workshop Europeu de Periodontia chegaram

ao consenso sobre as doenças peri-implantares mais comuns: mucosite peri-

implantar e peri-implantite, causadas por bactérias. Dados epidemiológicos

identificaram que cerca de 80% dos pacientes com implantes tiveram 50% dos sítios

peri-implantares afetados pela mucosite; e de 28 a 56% dos pacientes (12 a 40%

dos sítios) foram afetados pela peri-implantite. Os vários fatores de risco

identificados foram: pobre higiene bucal, histórico de periodontite, diabetes e

tabagismo. Propuseram que se incluam medidas anti-infecciosas para o tratamento

da peri-implantite, como o uso enxaguatórios antimicrobianos associados à terapia

24 Revisão de Literatura

cirúrgica. Houve consenso de que o resultado do tratamento não cirúrgico da peri-

implantite não é previsível.